sábado, 23 de novembro de 2013

O Tempo do Advento, em poucas palavras

Eurivaldo Silva Ferreira

            No Ano Litúrgico, o Ciclo do Natal reassume uma identidade pascal, inspirando-se no Ciclo da Páscoa: um tempo de preparação, a festa principal, uma festa na oitava, e um tempo “esticado” para se fazer memória de outros aspectos da mesma festa.
O Advento é caracterizado por duas dimensões: o anseio pela última vinda do Senhor (nas duas primeiras semanas) e a recordação de sua primeira vinda (nas duas últimas semanas) como preparação imediata ao Natal. O sinal sacramental da espera, próprio do tempo, faz alusão à segunda vinda de Jesus.
No início do Ano Litúrgico, o Tempo do Advento relaciona-se com a proposta da Igreja que se faz presente no mundo. Ela anseia pela vinda do Senhor, mas enquanto sua vinda não se faz plenamente, celebra, louva e distribui os sacramentos, na esperança de sua plena concretização. É como se vivêssemos as propostas do Reino (já), mas não ainda em sua plenitude (ainda não). Por isso, este tempo em preparação ao Natal do Senhor, suscita o desejo de que o Senhor venha. Eis o sinal sacramental próprio do tempo: a espera.
Viver o Advento é viver a espera da feliz expectativa da realização do Reino de Deus entre nós. Mas essa espera é revestida de uma esperança escatológica (escathom, do grego = fim último), em meio a tribulações e sofrimentos, assim como viveu o “Filho do Homem” (Lc 21,27), e que se torna sinal de esperança, sinal de que a salvação de Deus prometida desde a Primeira Aliança (AT) está inserida na história humana, conforme a profecia de Daniel.
No Tempo do Advento, nossa atitude é de termos a cabeça erguida, de estarmos despertos e acordados, como diz São Paulo na Carta aos Romanos, a fim de que percebamos no decorrer da história os sinais de libertação, sobretudo nos acontecimentos históricos, cujas imagens simbólicas próprias do tempo nos ajudam a compreender como é que se deu no passado, trazendo para o ‘hoje’, tendo como ações concretas dessas atitudes os princípios da vigilância e da oração, consequência da santidade (frutos próprios do tempo). Essas atitudes preparam o coração para a grande vinda, a escatológica (última vinda), e nos conforta sua presença misteriosa através da ação litúrgica (memória da primeira vinda) e através dos pequenos gestos realizados em prol do/a outro/a (vinda intermediária de Cristo), mas que com o auxílio de Deus, isso é possível.
Enquanto que nos dois primeiros domingos do Advento contemplamos pela escuta da Palavra e pela oração da Igreja a segunda vinda de Cristo, nos dois domingos seguintes, fazemos memória de sua vinda histórica, na carne, feito gente. A segunda vinda de Cristo nos concede os bens prometidos na plenitude. Essa salvação é concedida a todas as pessoas, ao mundo, ao cosmos, por isso homem/a mulher são os responsáveis por acolherem a salvação, primeiro ‘abrindo o coração’, ‘aplainando os caminhos’, ‘abaixando as montanhas’. As leituras e a oração da Igreja deste tempo mostram isso: a alegria do povo que se volta, que espera, que permanece fiel, na expectativa da vinda do Messias.
Celebrar no Tempo do Advento é manifestar no rito e na vida um momento novo para a humanidade nova, para o mundo novo. Se o Ciclo da Páscoa é marcado pelo sacramento da alegria, o Tempo do Advento é um tempo em que celebramos sacramentalmente a espera. De fato, a Igreja vive o tempo todo um eterno Advento, na medida em que na liturgia eucarística aclamamos: “Vinde, Senhor Jesus” e na oração do Senhor: “Venha a nós o vosso Reino”.
Maria, a imagem da Igreja, é a portadora da Arca da Aliança, que traz em seu ventre o sinal da salvação, por isso se entrega totalmente ao projeto de salvação de Deus. Os personagens deste tempo nos ajudam a compreender como é que Deus age em prol da humanidade a fim de salvá-la, guardando-a do mal, mostrando a todos o verdadeiro Sol do Oriente, que ilumina todos os povos que andam por entre as trevas, conforme canta Zacarias.

        Esperamos que neste Advento possamos ser como Igreja, povo de Deus, portadores da boa nova do Reino de Jesus. Que nossas celebrações levem-nos a um verdadeiro compromisso da edificação de seu Reino entre nós! A feliz expectativa do Reino seja o motivo para celebrarmos o Cristo que vem.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Celebrar a Festa de Todos os Santos e Santas


Eurivaldo S. Ferreira

No Senhor alegremo-nos todos,
Celebrando dos Santos a festa.
Anjos cantam conosco, exultando
Quem a glória de Deus manifesta!
(cf. Antífona do dia da Festa de Todos os Santos)

                A Festa de Todos os Santos e Santas é sempre celebrada no dia 1º de novembro. Na liturgia da Igreja, esta festa é transferida para o domingo que sucede o dia de Finados. Os santos e as santas são contemplados da Igreja na categoria daqueles que sofreram e foram glorificados com Cristo. Por isso, diz a Sacrosanctum Concilium, que “ao celebrar a passagem dos santos deste mundo ao céu, a Igreja proclama o mistério pascal de Cristo cumprido neles”.
                A exemplo dos santos e santas a Igreja busca viver a santidade, pois estes tiveram suas vidas devotadas pelo mistério pascal. A liturgia que celebramos em comunidade tem essa finalidade. Eles são nosso paradigma de fé e exemplos na nossa caminhada terrena. Na Exortação Apostólica Cristifidelis Laici, João Paulo II diz que “os santos e as santas sempre foram fonte e origem de renovação nas circunstâncias mais difíceis da história da Igreja”. Como Igreja caminhamos nesta intenção, até o dia em que, diante de Deus, formos santos como os seus santos, diz a Oração Eucarística VII. E o nº 828 do Catecismo da Igreja Católica diz que “a santidade da Igreja é o manancial secreto e a medida infalível de sua tarefa apostólica e de seu ímpeto missionário”.
                Os exemplos dos santos são bem significativamente lembrados na liturgia. Durante a prece eucarística, a oração da Igreja faz referência a eles lembrando os próprios sinais com que foram marcados e escolhidos. O Prefácio dos Santos I diz que “Deus é glorificado na assembleia dos santos, por isso os santos são coroados por seus méritos, eles, por sua vez exaltam os dons celestes”. O testemunho admirável dos santos e das santas revigora constantemente a Igreja, provando o amor de Deus para conosco. Deles recebemos o exemplo, que nos estimula na caridade, e a intercessão fraterna, que nos ajuda a trabalhar pela realização do Reino de Deus, assim diz o Prefácio II.
                Maria, a santa por excelência e testemunha qualificada do mistério pascal de Cristo, tem sua santidade exaltada no conjunto dos santos, e esta nos serve de inspiração. Conforme o Prefácio da Assunção de Nossa Senhora, Maria é lembrada como companheira dos outros santos, na imagem da aurora e esplendor da Igreja triunfante, consolo e esperança para o povo ainda em caminho. Todas as Orações Eucarísticas têm em sua estrutura as intercessões, que contemplam a Igreja hierárquica, a Virgem Maria e os santos. O Prefácio de Todos os Santos que “a Jerusalém do alto, a cidade para onde caminhamos, reúne todos os santos e santas em seu seio, no eterno louvor a Deus”. Os santos participam como testemunhas do mistério de Cristo. Assim também nós, ao sermos batizados, somos incorporados ao mistério pascal de Cristo. Diz Alfonso Mora que pelo batismo procuramos ter como meta uma vida regrada pelas virtudes oriundas deste mesmo mistério, assim viveram os santos e santas.
                Como os santos e as santas, esperamos também nós participarmos da vida eterna, ocasião em que pertenceremos ao número dos eleitos. Olhando para seus exemplos e méritos, sentimos já aqui na terra, o gosto pela vida eterna. As testemunhas que nos precederam no Reino (cf. Hb 12,1), especialmente os que a Igreja reconhece como “santos”, participam da tradição viva da oração, pelo testemunho de suas vidas, pela transmissão de seus escritos e por sua oração hoje. Contemplam Deus, louvam-no e não deixam de cuidar daqueles que permanecem na terra. Ao entrar “na alegria de seu Senhor, foram constituídos sobre o muito” (cf. Mt 25,21). Sua intercessão é seu mais nobre serviço ao plano de Deus. O Catecismo da Igreja Católica diz que “podemos e devemos rogar-lhes que intercedam por nós e pelo mundo inteiro”.
                Nossa tarefa, então, a exemplo dos santos e das santas, é abrir-nos, a nós mesmos e o mundo, ao ingresso de Deus, da verdade, do amor e do bem. O Nº 35 da Exortação Apostólica Spe Salvi diz que “eles como ‘colaboradores de Deus’ contribuíram para a salvação do mundo” (cf. 1Cor 3,9; 1Tes 3,2). E ainda continua afirmando que “os santos puderam percorrer o grande caminho do ser-homem no modo como Cristo o percorreu antes de nós, porque estavam repletos da grande esperança”.
                Por ocasião da Festa dos Santos e das Santas, celebrando a Eucaristia, vivemos sempre uma tensão: a de que essa reunião festiva expresse e consolide ao máximo nossa comunhão com a Igreja do céu. A Eucaristia é verdadeiramente um pedaço de céu que se abre sobre a terra; é um raio de glória da Jerusalém celeste, que atravessa as nuvens da nossa história e vem iluminar o nosso caminho, diz João Paulo II na encíclica Ecclesia de Eucharistia.

                Portanto, viver a santidade na comunidade de fé e no mundo, requer de nossa parte uma perseverança, que nos obriga a preservar, defender e comunicar a verdade, sem olhar sacrifícios. 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Escola de Liturgia e Música litúrgica em Joinville - SC

Valério (participante da Escola)

Nos dias 04, 05 e 06 de outubro aconteceu a última etapa da Escola de Música e Liturgia, promovida pela Diocese de Joinville, e direcionada aos músicos, cantores e leitores das paróquias da diocese. Esta foi a última de quatro etapas e aconteceu na casa de retiro do Sagrado Coração de Jesus em Jaraguá do Sul.
A formação foi ministrada pelo Pe. Mirin, a irmã Penha e o músico Eurí; todos da Rede Celebra.
O objetivo foi orientar os músicos, cantores e leitores sobre as diretrizes litúrgicas para as celebrações propostas pelo Concílio Vaticano II e, consequentemente, pela CNBB.
A iniciativa foi do Pe. Luciano, coordenador diocesano de pastorais, com a colaboração da Cristina, da Benta, do Joesano e outros grandes amigos que se dedicaram à organização, alimentação e demais tarefas em todas as etapas da Escola.
No dia 01 de dezembro, acontecerá na comunidade Arca da Aliança em Joinville, um grande ensaio musical com os cantos do tempo pascal para 2014. Todas as paróquias já estão convidadas para se prepararem e enviarem seus músicos e cantores.
A Escola de Música e Liturgia também se repetirá no ano que vem, e todas as paróquias serão comunicadas sobre as datas e a inscrições de seus músicos, cantores e leitores.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Maria, a discípula que acreditou

Eurivaldo Silva Ferreira



           
            Às vésperas da Solenidade de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, ouso oferecer aos leitores uma breve reflexão sobre Maria e o culto a ela estabelecido no decorrer do Ano Litúrgico.
            Maria é a primeira na fileira das santas testemunhas da ressurreição. Mãe do Verbo, a santa por excelência entre os santos e santas, assim ela é contemplada na estrutura das Orações Eucarísticas. Sendo discípula, é imagem da Igreja e seu modelo, “consolo e esperança para o povo ainda a caminho” (Prefácio da Assunção de Nossa Senhora). Está unida à obra da salvação de seu Filho por um vínculo indissolúvel (SC, 103). Nela a Igreja admira e exalta o mais excelente fruto da Redenção, honrando-a (cf. LG 53) e tomando-a como ícone do seu próprio caminho de seguimento do Verbo. É comparada à Jerusalém do alto, a cidade do céu (Prefácio de Todos os Santos), porque reúne todos os santos e santas em seu seio, e é a primeira entre as testemunhas do mistério de Cristo. Por isso é venerada com amor especial pela Igreja com destaque especial em relação às outras testemunhas da fé (cf. SC, 103).
            A memória de Maria está organicamente inserida na estrutura do Ano Litúrgico, com profundo respeito à hierarquia dos símbolos, na qual Cristo tem a primazia, por ele, o enviado do Pai, conduzido pelo Espírito, o universo é redimido. As antífonas e os textos eucológicos garantem em sua formulação de maneira admirável a compreensão que a Igreja tem a respeito do lugar de Maria na obra da redenção, evitando sempre dar a ela o lugar que é de Deus.
            Frei Joaquim Fonseca, em seu artigo “Educar a uma piedade mariana” (Revista de Liturgia, 227), afirma que “ninguém duvida do profundo afeto dos cristãos católicos por Maria, a mãe do Senhor”. Ocorre que em nossas realidades, principalmente no campo da piedade popular, a devoção exagerada à Mãe do Senhor toma caracteres que a descontextualizam da participação na obra da salvação. Preocupa-nos que as memórias e festas dedicadas à Mãe do Senhor do decorrer do Ano Litúrgico ainda não sejam contempladas com a verdadeira pedagogia que elas carregam, contribuindo para uma verdadeira espiritualidade cristológica, descurada de seu sentido eclesial coadunado com o Magistério da Igreja. É também uma preocupação presente no Diretório de Piedade Popular e Liturgia, que afirma que o Magistério da Igreja orienta para que o culto a Maria deve ter um curso expressivamente marcado pela sua característica trinitária, com um componente cristológico, uma dimensão pneumatológica e com caráter eclesial (DPPL, nº 186).
            Agrava-se ainda o deslocamento da piedade mariana quando Maria é mencionada aleatoriamente fora de contexto, como por exemplo, na celebração eucarística, depois da oração pós-comunhão, antes dos ritos finais, costumeiramente rezando-se uma Ave Maria, sem se dar conta que ela já teve seu lugar garantido na prece eucarística, como parte da assembleia dos redimidos gloriosos em Cristo. Rezar a Ave Maria depois da comunhão é não compreender a ação litúrgica que se celebrou, por sua vez não reconhecendo na assembleia dos fiéis a presença misteriosa daquela que está inserida na comunhão dos santos, como diz o prefácio antes do canto do Santo, Santo, Santo.
            Analisar Maria sem o projeto de salvação é desfocá-la daquilo que é a meta de sua imagem. Ela é a imagem visível da Igreja presente. Assim, pois, é necessário olhar com certo cuidado para algumas devoções que querem descontextualizar Maria do projeto salvador de Deus, fazendo intuições deturpadas de sua figura, sem contar aqueles grupos que dão um realce de supervalorização, apontando o que Maria não é. Outros a colocam na periferia da vida religiosa, e outros ainda a tomam como embate para o não fortalecimento do diálogo ecumênico sadio. É preciso então que nos desarmemos para entender a reflexão feita sobre Maria, a fim de que esta seja saudável. A piedade mariana só é existencial e pastoralmente válida se estiver orientada para Cristo.

            Precisamos pensar e nos perguntar onde é realmente que está a verdadeira intuição da Igreja ao nos apresentar Maria. Assim a colocaremos no seu devido lugar, é claro sem jamais isolá-la. Se conseguirmos fazer isso, entenderemos cada vez mais sobre sua pessoa e a amaremos cada vez mais, sem cair numa “mariolatria”.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Retorno à liturgia como fonte de espiritualidade



Devo confessar toda a minha preocupação e também o meu sofrimento com uma permanente incompreensão da relação liturgia e espiritualidade, ou melhor, com um equívoco que me parece sempre mais profundo e certificado. Quem, como eu, conhece há anos uma vida cristã alimentada pelos exercícios de piedade, pelas devoções e manifestações da piedade popular, alimentou grandes esperanças quando veio a reforma litúrgica: naquele momento, de fato, se descobria e se assumia a convicção de que a vida espiritual pessoal não pode ter outra fonte que a liturgia, a liturgia eucarística sobretudo, a liturgia das horas, a liturgia dos sacramentos.
Como não admitir, por exemplo, que a restauração da vigília pascal desejada pela reforma de Pio XII, no início dos anos 50, mudou a nossa espiritualidade, pondo no seu centro o mistério pascal, o mistério da morte e ressurreição do Senhor Jesus? E como esquecer o “missalzinho”, aquele excelente livro de oração pessoal, que oferecia a eucologia das coletas do tempo litúrgico e das diversas necessidades e da liturgia das horas aos domingos qual fonte da espiritualidade cotidiana.
Mas o que aconteceu depois, em contradição com a intenção da reforma litúrgica e o amplíssimo material que ela punha à disposição como fonte de espiritualidade autêntica para todo cristão? Por que, na Itália, as dioceses e seus departamentos litúrgicos, quando há uma assembleia diocesana, ou de presbíteros, ou de religiosos, ao invés de celebrar a liturgia das horas, preferem fabricar, comumente com diletantismo, liturgias que não correspondem mais a lex orandi?
João Paulo II nos recordou que “nada de tudo o que fazemos na liturgia pode aparecer como mais importante do que aquilo que (invisivelmente, mas realmente) faz o Cristo por obra do seu Espírito” (Vicesimus quintos annus, 10). E, no entanto, na espiritualidade atual, basta ler os autores espirituais mais em voga, a referência à liturgia está ausente: muitas são as referências à oração; raríssimas as referências à liturgia... É bom que se fale da relação entre Bíblia e espiritualidade, ou da lectio divina, mas o mesmo esforço que alguns bispos, Igrejas locais e membros do povo de Deus fizeram pela lectio, deveria ser feito em favor da liturgia, a fonte da espiritualidade: o lugar privilegiado para acolher a Palavra é justamente a liturgia!’
O enunciado conciliar “A oração pública da Igreja, fonte de piedade e alimento da oração pessoal” (SC 90) não encontrou até agora uma atuação e aguarda no futuro próximo um esforço sério da parte de todas as Igrejas locais para que a liturgia corresponda à procura de uma atmosfera orante, sem cair em expressões devocionais e intimistas.
Esta divergência entre liturgia e espiritualidade  infelizmente é devida também à responsabilidade dos agentes litúrgicos e pastorais que de fato não reconhecem na liturgia a qualidade de fonte da teologia, da espiritualidade e, em consequência, da pastoral. Assim a espiritualidade é sempre mais narcisista, sempre mais preocupada em oferecer soluções terapêuticas, sempre mais individualista e, como tal, impede a assiduidade, a participação na liturgia da Igreja, que é “participação ativa e operante” (SC 14) quando consegue nutrir, quando consegue ser acolhida como alimento na vida de fé do crente. Porque na liturgia cristã trata-se antes de acolher, não de dar, de tornar sujeitos de fé, esperança e caridade, não de fazer.
Os cristãos hoje querem encontrar na liturgia o lugar no qual experimenta o que a fé permite viver, isto é, o que pode inspirar e educar a sua conduta, ou seja, o que eles/elas podem receber e testemunhar. É na liturgia que deveria ser possível escutar Jesus Cristo falando e chamando: “Se queres..., Vem..., segue-me..., levanta-se..., anda...”, não na intimidade individualista a partir de leituras devotas no âmbito de reuniões nas quais se testemunha não a presença do Senhor e o ressoar da sua “Palavra viva e eficaz” (cf. Hb 4,12), mas onde se afirma: “olha eu aqui”.
Enfim, gostaria indicar para o futuro próximo o compromisso de levar a sério a relação entre liturgia e evangelização. Na verdade a Igreja pode educar na fé ao celebrar, em primeiro lugar, o “mistério da fé” com a sua liturgia e os seus sacramentos, porque justamente a liturgia é o primeiro ato de evangelização: as fontes da educação à fé, da evangelização, da vida cristã é a liturgia. Não há testemunho (martyria), não há serviço (diakonía) e não há comunhão (koinonia), sem a prioridade da liturgia (leiturghía), onde o “mistério da fé” habilita os fiéis para a missão e para o serviço, criando e sustentando a comunhão, que é sempre comunhão em Cristo na força do Espírito Santo.
Se é verdadeiro o adágio querido a Henri de Lubac, segundo o qual “a Igreja faz a liturgia e a liturgia faz a Igreja”, então a liturgia deve ser reconhecida em sua função de fonte para a vida da Igreja. Mas se não se é capaz de mostrar esta evidência no tecido da ação eclesial, é inútil reclamar da escassa repercussão da eucaristia dominical na vida dos crentes.
A prática da fé, o primeiro anúncio da fé, a educação à fé podem por acaso dispensar “a fé celebrada”, isto é, a liturgia, “eloquência eclesial da fé”? A incapacidade mistagógica que marca as nossas liturgias não depende justamente do fato que a liturgia não é percebida como anuncio da boa notícia, comunicação do Evangelho, mas é, ao contrário, vivida como uma espécie de obrigação que faz parte da vida cristã, mas que não é a sua fonte?
A liturgia é lugar da experiência da Palavra e do Espírito, mas lugar que continua sendo muito humano, em que a pessoa na sua inteireza, na sua unidade de corpo, psique e espírito, é sujeito da experiência do Deus que vem a ela. Portanto, só com uma atenção e uma inteligência que saiba captar a humanidade da liturgia é possível acolher nela o "mistério da fé". Lê-se no prólogo do quarto evangelho: "Ninguém jamais viu a Deus; mas o Filho único, que é Deus e está na intimidade do Pai, foi quem o deu a conhecer" (Jo 1, 18). Paralelamente, poderíamos dizer que só na humanidade autêntica da liturgia pode-se encontrar o relato de Deus, porque a liturgia, para nós, cristãos, é o estar na intimidade do Pai, aqui e agora.
  

Enzo Bianchi, prior da Comunidade de Bose, Itália (tradução: Penha Carpanedo).

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Relato de uma experiência de oração nas casas

            Lourdes é mulher de fé, de oração, além de ser uma pessoa portadora de um carisma enorme, que convoca e reúne outras pessoas ao seu redor. Conheço esta servidora do Senhor desde minha infância, ocasião em que, frequentando a comunidade, a víamos entrar com um grupo de crianças, sempre sentando no segundo banco da igreja. Crianças que em sua maioria eram ajudadas por ela na oração e na catequese. Sua firmeza na fé a faz ser uma pessoa de garra, com a qual sempre se dispõe a olhar para o/a outro/a com uma característica que só ela possui. Há cerca de um ano começou um grupo para rezar o Ofício Divino nas casas. Numa dessas noites de Vigília, no momento da Recordação da Vida, emocionou-nos com o relato abaixo:

           
          “25 de julho, quarta-feira de 2012. Quarta-feira à noite. Primeira celebração do Ofício Divino das Comunidades nas casas. Ao todo seis pessoas, o grupo estava formado e saindo em missão: Lia, Maria, Deise, Hosana, Ermelinda e Lourdes, que iria conduzir e presidir a celebração do Ofício Divino, auxiliadas pelo Eurivaldo, que nos foi dando orientação, coordenando e nos animando, apoiando e sempre que possível se fez presente para nos formar e acertar alguma coisa que tivéssemos dúvida.
            Foi assim que esse grupo começou, com passos lentos, tímidos, mas com muita determinação, animação e alegria. Fomos chegando, nos sendo apresentadas às famílias que sempre nos acolheram com muita fé e alegria.
            Estamos celebrando o primeiro aniversário. Faz um ano que pusemos os pés pela primeira vez fora de nossas casas, para entrar nas casas de nossos irmãos fracos e necessitados, pessoas idosas e carentes, depressivas, desempregadas, solitárias, doentes, sem teto, injustiçadas, com sérios problemas de relacionamento na família. Este povo é o nosso alvo, o trabalho é árduo, mas gratificante.
            A cada casa que entramos pela primeira vez, fazemos a Bênção da Casa e da Família. Cada bênção é uma história que, se escrevêssemos, daria
para montar um livro.
           
A cada Ofício celebrado é como se fosse uma festa. Festa no céu, festa na terra. Nesta celebração partilhamos tudo: alegrias, tristezas, temos gestos concretos com partilha de alimentos, remédios, ajudando outros a encontrar trabalho, celebrando novenas de Natal e Pentecostes, participando do grupo de cantos litúrgicos nas celebrações eucarísticas, celebrando exéquias etc.
            Ofício Divino, Ofício de Deus. Deus cria e recria todos os dias, e assim vamos seguindo trabalhando, subindo e descendo, pelos caminhos, indo e vindo... Às vezes rindo, outras chorando, sempre rezando e sem desanimar, vamos olhando e sentindo as necessidades do nosso próximo. Foi percebendo a carência do povo sofredor que, graças a Deus, este trabalho se dividiu em três dimensões: temos celebração do ofício de vigília aos sábados à noite, ofício em memória da Virgem Maria aos sábados pela manhã (que agora rezaremos na comunidade), e bênção das casas às quartas-feiras à tarde, num bairro próximo.
                Obrigado, meu Deus, por tudo que nos tem dado. Obrigado porque na pessoa do Eurivaldo o Senhor usa de tanta benevolência, paciência e mansidão, sabedoria, humildade para ensinar este grupo do Ofício Divino nas Casas. Isso é fruto do trabalho e esforço do Eurivaldo que se privou de tantas coisas para cursar a universidade e estar ajudando, ensinando e prestando este serviço à comunidade que, com a oração, leva um pouco de alento para o povo necessitado.
           
Nós somos testemunhas vivas e referência de que este trabalho está dando certo. Nossa oração está boa porque as pessoas estão se sentindo mais fortes e merecedoras de graças, de serem perseverantes. A tudo agradeço a ti, meu Deus.
                       Abençoe-nos o Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Amém!

                       Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo. Para sempre seja louvado”.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A liturgia de envio da JMJ: alguns desvios e olhares

Recebido por e-mail

Comentário da missa da JMJ:
Acabo de assistir à missa de encerramento da JMJ. 3 milhões e 200 mil jovens. Uma missa tomada por certos movimentos, transformada em show de grupos de elite de classe média.  Até o Amém após a Oração Eucarística foi elitizado. Fizeram da missa do Papa o que fazem normalmente com nossas missas nas comunidades. Não percebi entusiasmo do Papa. Talvez tenha celebrado com raiva como eu celebro às vezes. O Papa que fala em opção pelos pobres e proximidade com os pobres teve que celebrar no fim de um tapete vermelho que não tinha fim e que o distanciava dos jovens.  Vem-me à lembrança a foto de uma cadeira branca vazia durante um evento, durante a apresentação de uma sinfonia que a aristocracia do Vaticano preparou para o Papa. O Papa deixou a cadeira vazia no meio de um público seleto que o esperava. Falou por este gesto que não queria ser da aristocracia. Na missa da JMJ prepararam uma cadeira parecida para ele, longe do povo, longe dos jovens. Mas desta vez não podia deixa-la vazia, por mais que quisesse. Deve ter pensado que, diante do que estava vendo, será mais fácil reformar a Cúria Romana do que a mente de quem preparou esta missa.
Os jovens do meio popular não tinham vez e voz e não apareceram. Quem foi destacado foi um arcebispo e um cardeal com cansativas falas, padres cantores e as cantoras que cantaram com voz e gestos de cantora de ópera. A liturgia de antes do Concílio sem participação do povo voltou com outra cara.
 Será que ainda tem sentido lutar pela participação e inclusão do povo nas nossas liturgias? Esta missa desautorizou a nossa luta. Identifica-nos como pobres coitados, como Don Quixotes que lutam contra moinhos de vento a favor de algo que não existe mais.
Só resta uma esperança: a esperança de que o contrassenso disso tenha ficado tão gritante que até os mais tapados entre os responsáveis das comunidades e paróquias e entre os próprios jovens que estavam participando de longe no meio da multidão tenham percebido o disparate e comecem a desconfiar do que eles mesmos fazem nas suas comunidades.  A TV não mostrou o comportamento dos jovens que ficaram mais distantes. Certamente era tão sem graça que não podia ser mostrado para não fazer vergonha.
Estou ansioso para receber os comentários de quem está preocupado com a participação do povo na liturgia das nossas comunidades.

Pe. Cristiano Muffler

Resposta de Maria Lioza (por e-mail):

Prezado Pe. Cristiano,
Concordo plenamente como este comentário lúcido que o senhor fez sobre a missa de envio da JMJ, presidida pelo Papa Francisco. O Senhor tem toda razão. De fato, para a Igreja atual dos padres cantores, que é aceita e estimulada por grande parte dos bispos do Brasil, para não dizer da maioria, a qual Igreja se encontra completamente afastada das diretrizes litúrgicas recomendadas pelo Concílio, especialmente no tocante à exigência de participação ativa, consciente e frutuosa das assembleias dos fiéis, a prática litúrgica numa missa como a do envio da JMJ, apresentou-se totalmente desvinculada desta participação. 
Os padres, por desconhecimento ou descuido mesmo, com a formação tanto pessoal quanto das pastorais de suas paróquias, não dão importância à sagrada liturgia que é cume e fonte de onde emana a vida da igreja. Para a grande maioria dos padres o canto litúrgico não existe. Em seu lugar, adotam esse tipo de música midiática divulgada pela Canção Nova, Shalon, e outras que tais, e mesmo essas músicas com forte apelo emocional e individualista, indutoras ao devocionismo exacerbado e alienante, posto que destituídas de conteúdo bíblico-litúrgico, repito, mesmo essas tais músicas, não eram participadas pelo canto daquela assembleia. Ali, o canto era restrito a um grupo selecionado de padres cantores e de vocalistas que se revezavam em solos inacessíveis e destoantes da forma de cantar do povo simples. 
Para exemplificar, cito  o canto do Salmo Responsorial, cujo refrão é exclusivo da assembléia, como resposta do povo à proclamação da primeira Leitura  na liturgia da Palavra. A salmista que cantou, não se limitou a fazer sua parte, mas cantou o refrão várias vezes entre cada estrofe do Salmo, usurpando, assim, o direito do povo de cantar sua resposta à Palavra de Deus. Sem contar que, mesmo se ela não tivesse se apropriado de cantar o refrão pertencente à assembléia, a melodia utilizada para o refrão do salmo era de difícil apreensão para o povo que não conseguiria acompanhar a música com os melismas que caracterizam o tipo de música utilizado e próprio dos movimentos carismáticos. 
Infelizmente, quem coordenou e organizou o canto e a música do envio da JMJ não levou em conta que a música litúrgica da missa deve guardar sintonia com o rito celebrado. O Salmo é a Palavra cantada e por isso a melodia tem a função de chamar a atenção para a Palavra, destacar a mensagem contida no texto do Salmo. Assim, é necessário que a melodia não sobressaia dispersando o sentido do texto, mas que ela esteja a serviço e em perfeita sintonia com o sentido do texto da Palavra. Jamais a voz ou o instrumento devem sobressair sobre a Palavra de Deus, expressa no Salmo, do contrário, o Salmo estará sendo instrumentalizado para exibições personalistas de músicos e cantores, fugindo da "nobre simplicidade", pregada pela Sacrosanctum Concilium para a sagrada Liturgia. Creio que, na pretensão de realizar uma celebração solene, a sofisticação e inadequação das melodias e dos cantos, lembravam mais uma apresentação gospel, não apropriada para uma celebração eucarística. O triste nisso tudo é que em vez de edificar desvirtua, tornando-se um mau exemplo e dificultando os esforços que os liturgistas tem feito para levar as comunidades e assembléias a participarem de forma consciente e frutuosa, das celebrações liturgicamente organizadas, segundo os ensinamentos do Concílio Vaticano II, em que a música e o rito são visceralmente integrados. O próprio Bento XVI já dizia que a melhor catequese é uma celebração eucarística bem feita e bem participada. Na celebração de envio da JMJ faltou a participação dos milhões de fiéis que estavam ali presentes, mas não participando ativa e frutuosamente do Mistério Pascal de Cristo, na inteireza de corpo e espírito mas, apenas, assistindo de longe e ouvindo as vozes elaboradas e sofisticadas dos coralistas.    
Outra coisa, também, chamava  a atenção. Era a toalha dourada que cobria o altar, encobrindo completamente o seu significado, qual seja, a presença do próprio Cristo. De novo a nobre simplicidade foi esquecida e trocada por brocado dourado estilo rococó, mais apropriada à pompa tridentina do que à autenticidade e simplicidade do Concílio Vaticano II.
Uma coisa, entretanto, que pode ter passado despercebida, para mim foi emblemática: a ausência do Papa Francisco na missa de abertura da JMJ, que foi presidida por Dom Orani. Tenho a impressão de que o Papa intuiu e vislumbrou que naquela primeira celebração pública, o ufanismo apoteótico da multidão de jovens dos diversos movimentos católicos para com a sua pessoa, poderia suplantar e afastar a presença do mistério de Cristo na celebração em que ele iria fazer a homilia. Bem, essa foi minha impressão, depois de assistir ao que mais parecia um verdadeiro show gospel, de músicas, palmas, gritos e ovações, protagonizado pelos cantores, vocalistas, instrumentistas da banda musical, tocando músicas completamente dissociadas dos ritos e do Mistério celebrados. Talvez, em lugar de uma missa deveria ter sido celebrado um grande louvor, nos moldes dos encontros carismáticos, o que não deve ser confundido com a celebração eucarística, como foi o caso da missa de abertura da JMJ.
Entre os eventos da JMJ merece destaque a visita à comunidade de Manguinhos, o encontro com os representantes da sociedade civil, inclusive com indígenas e representantes de outras religiões, no Teatro Municipal;  e principalmente, o encontro com os bispos da CNBB e CELAM, em que durante mais de duas horas o Papa falou sobre o Documento de Aparecida, exortando-os a deixarem as sacristias e partirem para a evangelização onde se encontra o povo.   
Abraços,
Lioza  


sábado, 29 de junho de 2013

CELMU - Curso Ecumênico de Formação e Atualização Litúrgico-Musical

            O CELMU (Curso Ecumênico de Formação e Atualização Litúrgico-Musical) tem mais de 20 anos de atividades ininterruptas. Durante este tempo, inúmeros agentes de música litúrgica do Brasil buscaram formação e aprofundamento e tornaram-se referência para a música litúrgica em suas comunidades. O curso visa formar e atualizar pessoas que trabalham com música e liturgia e necessitam de um suporte teórico-musical e litúrgico.
            A partir de 2014, o CELMU será realizado na PUC/SP como Curso de Extensão Cultural.
Data: De 06 a 16 de janeiro de 2014
Local: Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), no Campus Ipiranga, à Av. Nazaré, 993 CEP 04263-100 São Paulo/SP. Cada participante é responsável pela hospedagem e alimentação.
            
                   O CELMU é promovido por nove entidades, entre elas a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e é oferecido para: compositores, letristas, animadores de canto, regentes e instrumentistas que estejam engajados no ministério litúgico-musical e que garantam o efeito multiplicador no processo de formação. As disciplinas oferecidas no decorrer do curso são: canto coral, canto gregoriano, ecumenismo, educação musical, harmonia e contraponto, história da música na liturgia cristã, iniciação musical (metodologia para o ensino), liturgia e pastoral da música litúrgica, percepção musical, prática instrumental, prosódia, regência, religiosidade popular e liturgia, técnica vocal e teoria musical.
            A prática comprova que grande parte da participação da assembleia nas ações litúrgicas é assegurada pela música. A música litúrgica facilita a compreensão e acolhida da palavra de Deus, atinge mais profundamente a pessoa na sua totalidade, expressa com mais força a fé da comunidade orante, cria maior união entre os irmãos, possibilita um mergulho no mistério celebrado. Contudo, deve ser “boa música” e que seja bem executada, tanto aquelas partes próprias de toda a assembléia litúrgica, quanto as partes que podem ser assumidas por solistas, ou grupo de cantores. Assim, naquelas Igrejas onde, por um motivo ou outro houve um enfraquecimento ou descuido na formação musical, certamente, são percebidas muitas lacunas e dificuldades durante as celebrações litúrgicas. Todos sentem a urgência desta formação litúrgico-musical, não só dos ministros da música (cantores, instrumentistas, compositores) como também de todo o povo celebrante.
           
Informações e inscrições:

Telefone: (11) 3885-5025, em horário comercial

email: secretaria@celmu.com.br

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Vivendo o Tempo da Quaresma como itinerário pedagógico da fé



Eurivaldo Silva Ferreira
Introdução
Ao tomarmos o Tempo da Quaresma que logo iniciaremos com a celebração das Cinzas como itinerário pedagógico da nossa fé, pensamos que este tempo é-nos colocado como sacramento, o que define seu pano de fundo teológico.
A visão externa deste sinal decorre em duas atitudes: roteiro para uma mudança de vida (nas atitudes de conversão), apelo para o retorno ao apelo inicial da fé (o fato de reconciliar-se). Contudo, a Igreja, ao celebrar este tempo, conclama que a reconciliação consiste em experimentar este sacramento também como celebração.
O Tempo da Quaresma se torna então uma oportunidade para experimentarmos o apelo ao marco inicial da fé, experimentado pelo batismo, já que esse aspecto foi-se perdendo durante a história. Lembramos que o Ritual da Penitência prevê até uma celebração penitencial para as comunidades que não têm ministros ordenados.
O fato é que, sempre nos tempos litúrgicos, somos convidados a reconciliar-nos conosco, com as pessoas, com o mundo, com o cosmos, mas de uma maneira mais pedagógica a Igreja nos propõe um itinerário, cujo caminho é recheado de elementos simbólicos, bíblicos e espirituais. No próprio Missal Romano há duas Orações Eucarísticas que trazem no seu bojo o tema da reconciliação (Oração Eucarística VII e VIII, cf. Missal Cotidiano, Missal da assembleia cristã, pp. 568-573).
Nesse sentido, analisemos então como o itinerário da Quaresma nos conduz à reconciliação, de forma pedagógica, a fim de celebrarmos na alegria de irmãos e irmãs a Páscoa de Jesus, aliada à nossa páscoa.

Ano Litúrgico como realidade que abarca todo o mistério pascal
Em todo Ano Litúrgico a Igreja celebra a realidade do mistério pascal, tendo como centro a ressurreição do Senhor. Este mistério é celebrado tanto nos ritmos diário (Ofício Divino), semanal (Eucaristia no Domingo), como também é lembrado de forma solene e festiva uma vez por ano (Tríduo Pascal).
O Ano Litúrgico se desenvolve em torno de dois grandes mistérios da vida de Jesus: sua encarnação (Natal) e sua páscoa (Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão). Todos os outros aspectos da vida de Jesus são um desenrolar desses dois, e são contemplados também ao longo dos outros tempos litúrgicos (Tempo Comum, Festas do Senhor, Santos e Santas de Deus, Festas dedicadas a Maria, Mãe do Senhor). Por isso podemos dizer que no ciclo do Ano Litúrgico vivemos de forma simbólico-sacramental as várias faces de um único mistério de Jesus. Para São Leão Magno, o que foi vivenciado no tempo de Jesus pelos que o seguiam, passou-se agora para os mistérios, que continuam operantes na Igreja mediante a celebração litúrgica, ocasião em que a comunidade vivencia tal realidade através da ação ritual, isto é, a comunidade experimenta hoje aquilo que se passou no tempo de Cristo.

Quaresma: origem, sentido e propostas
O Domingo, o Dia do Senhor, era a referência celebrativa das comunidades primitivas. A páscoa anual nasce somente na metade do séc. II, como um domingo maior. Em torno disso se desenvolve o tríduo e os 50 dias da páscoa. O pentecostes é mais primitivo que a quaresma, tendo sua origem na liturgia judaica e fundamentada no AT.
A quaresma se desenvolve somente no 4º século. Já no 3º século se faziam os batismos na vigília pascal e ela nasce como um tempo mais intensivo de preparação dos catecúmenos, assim como nasce com ela um motivo de preparação dos penitentes que haviam relaxado no caminho de batizados, a fim de que voltassem à fonte do batismo. É considerada então na liturgia como um tempo intenso de preparação para a festa da páscoa do Senhor.
Na tradição romana, a Quaresma é marcada pela celebração de dois sacramentos pascais por excelência: Batismo e Eucaristia. Este conceito está presente na introdução do rito da Renovação das Promessas do Batismo. A fundamentação bíblica nós encontramos na Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 6: viver uma vida nova / sepultados com Cristo / evento batismal como participação na morte e ressurreição de Cristo (tema da 7ª leitura na noite da Vigília Pascal); também em Colossenses 3,1-4: buscar as coisas do alto e não da terra / vida nova com Cristo, em Deus. São Paulo insiste que a vida é um dom de Deus, por isso devemos ter uma postura de convertidos.
Portanto, no Tempo da Quaresma, vivido como itinerário pedagógico na conduta da fé, consequentemente de uma espiritualidade que desagua em fazer-nos convertidos, encontramos as seguintes propostas:
- de voltarmos a uma atenção geral ao mistério pascal (viver conforme vive quem é ressuscitado);
- de percorrermos um itinerário batismal (para os que ainda não estão inseridos na comunidade);
- de correspondermos a uma vida pautada na ética e na comunhão com os outros, isto é, colaborando no plano do Reino, em paz com o mundo, com os outros e com o cosmos, em atitude de respeito e cooperação (mudança de vida implica em vida comunitária, isto inclui também a atitude ecológica, o respeito ao planeta);
- de apoiarmos nossa caminhada num caráter todo cristológico e pascal (que permeia todos os outros tempos litúrgicos);
De nossa parte, é preciso também observarmos que este itinerário quaresmal:
- implica em graça, por parte de Deus, e da nossa parte um esforço para tentarmos viver e permanecer nessa graça.
- consiste em vivermos um grande retiro, deixando que a Palavra de Deus nos questione, trazendo luz naquilo que necessita de conversão.
- exige de nossa parte uma renovação das promessas, num constante desejo de vivermos uma vida nova e de permanecer nesta vida nova.

Da liturgia para a vida
Claro que cada um vai confirmando e traçando seu itinerário próprio também de acordo com seus propósitos, sobretudo delineados em forma de pequenos gestos e atitudes exteriores, como abster-se de algum alimento ou dar mais atenção a determinado aspecto de sua vida. Esse se torna então um caminho da graça, isto é, crescer na intimidade com o Senhor, mover nosso afeto, reconfigurando-se aos afetos do Senhor, como uma obra de transformação, que também se desdobra em atenção ao outro, ao próximo.
Lembramos que graça vem de gratuidade, é dom do próprio Deus, ela não se alcança, como costumamos observar em faixas e cartazes perto de santos de devoção popular (“agradeço a santo/santa... pela graça alcançada”).  O mecanismo da graça, se é que podemos falar assim, exige que nos moldemos àquilo que Deus mesmo quer, só assim ela será perceptível.  Jesus mesmo, quando criança, crescia em graça, sabedoria e estatura diante de Deus, diz o evangelho de Lucas (Lc 2,40; 2,52).
Enquanto não conseguimos nos amoldar neste estado de graça, a Igreja, com sua liturgia, nos dá uma forcinha, uma espécie de empurrãozinho. Esta maneira de a Igreja conduzir de forma pedagógica nossa existência para uma espiritualidade sadia, nós encontramos na liturgia, com sua força simbólico-sacramental. Por isso, no Tempo da Quaresma, a liturgia nos convida a:
- voltarmos o olhar à necessidade de um resgate de uma espiritualidade que contenha um dinamismo pascal. O simbolismo no número 40 durante o tempo quaresmal lembra um tempo de preparação para um grande acontecimento salvífico: luta, expectativa, esforço penitencial, em que no fim tudo encontra vida. Na Bíblia o número 40 está destacado em várias etapas do povo judeu, também em Jesus, quando vai para o deserto ser tentado pelo demônio.
- compreendermos que no simbolismo do número 40 também são os dias em que a mãe, logo após ter dado a luz, passa pelo período chamado de “resguardo” ou “quarentena”, isto é, de retomada ao estado natural de sua vida, já que, com a gravidez e o parto, ela sofreu uma grande transformação.
- nos empenharmos num grande desejo de transformação pessoal, tanto pelas atitudes internas (espirituais) quanto externas (sociais).

Atitudes externas que têm a ver com o comunitário
Se as atitudes internas nós podemos buscar na liturgia, como já dissemos, as atitudes externas são também um desejo de a Igreja nos orientar para um despertar de nosso corpo, a fim de que vivamos com mais intensidade aquilo que experimentamos na alma, fazendo ressoar em gestos externos, mesmo que sejam ainda pequenos, mas que ganham sentido importante quando são transignificados na sua corporeidade. Essas atitudes, o jejum, a o oração e a caridade são como que práticas de quem quer viver de acordo com os planos de Deus.
- A oração, porque é um dos pilares da fé. Principalmente a oração em comunidade pode ser colocada em relevo neste tempo.
- A caridade, traduzida pela esmola, porque é uma recomendação, principalmente porque a fé sem obras é morta. No ato da caridade todos podem também usufruir das alegrias pascais que é desejo de Deus, portanto ninguém se prive do desejo de Deus e dos dons pascais.
- O jejum, para que o corpo, sacrificando-se, possa com mais intensidade esperar pela páscoa. É apenas um sinal visível para despertar em nosso corpo a alegria de festejar a páscoa, que é a festa dos dons em abundância. O jejum também pode ser visto como uma ação de ir ao encontro dos outros, configurando o coração a Deus. Para Pedro Crisólogo, Pai da Igreja do século V, o jejum deve ser regado pela misericórdia, ou seja, misericórdia é consequência do jejum. Assim, para os primeiros cristãos, tornar-se solidários aos outros era uma atitude de tornar misericordioso ao outro, pois privar-se de algo para alimentar a outros é um sacrifício agradável a Deus. Assim, os alimentos não consumidos no jejum destinavam-se à esmola e à caridade a quem mais necessitava.

Quaresma, penitência e cinzas
É também no período da Quaresma que ouvimos falar muito do termo ‘penitência’, ou ‘atitudes penitenciais’. A penitência é nosso esforço permanente e concreto, numa espécie de crescimento interno, o que se faz mediante a graça, que nos modela e nos torna à estatura do próprio Cristo. Neste crescimento, que também podemos chamar de ascese[1], encontramos todo esforço para deixar paixões desenfreadas e mantermo-nos na sobriedade e no equilíbrio. São recomendações da Igreja para este tempo, sobretudo lembradas nas orações de Coleta dos domingos da Quaresma.
No tempo da Quaresma, três elementos presentes dão o sentido específico do tempo de como se deve viver o mistério pascal. Esses elementos compõem-se como sendo o ‘pano de fundo’ do tempo quaresmal: o pecado público, as cinzas e o fogo.
Nas comunidades primitivas, os primeiros cristãos, quando cometiam algo grave, eram expulsos da comunidade. Parece-nos que os pecadores ou penitentes públicos se colocavam entre estes, por isso, sua característica em penitenciar-se. Os chamados penitentes públicos costumavam-se cobrir de cinzas do lixo. Era um sinal visível do penitente expressando a ideia de que algo foi queimado, isto é, somos transitórios aqui na nossa existência, por isso aquilo que não presta, o lixo, deve ser queimado, ser deixado para trás. Na quinta-feira da última semana da Quaresma, o bispo os acolhia, apresentavam-se à comunidade e participavam da celebração da Ceia do Senhor. Não eram mais considerados ‘excomungados’ e retornavam ao sei da comunidade cristã. Nas Constituições Apostólicas há relatos de orações sobre os penitentes durante a liturgia, e assim que isso acontecia, eram convidados a retirar-se do templo.
Hoje, usamos simbolicamente a queima das cinzas dos ramos usados na celebração do Domingo de Ramos para a celebração na Quarta-feira de Cinzas do ano seguinte, o que expressa essa ideia de passado, transitório. Pelo fogo, a purificação e a destruição do galho (simbolizando nossa existência, galho que seca).

Os temas dos ciclos do Ano Litúrgico
No Ano Litúrgico as etapas de preparação para a Páscoa do Senhor se apresentam pedagogicamente nos cinco Domingos da Quaresma, representadas nos anos A, B e C:
- Nos Anos A e B: o itinerário permite-nos compreender nossa participação no mistério de Cristo.
- No Ano C: a atitude de conversão do pecador e a misericórdia de Deus para com ele, fazendo-o experimentar essa mesma misericórdia.
Essas características convergem uma para as outras, como num ciclo. Seria interessante fazermos um passeio pelas leituras dos Evangelhos dos ciclos do ano A, B e C e descobrirmos os quatro elementos: 1) participação no mistério pascal de Cristo, 2) conversão, 3) misericórdia de Deus e 4) experiência da misericórdia de Deus.
A participação no mistério pascal está bem presente e latente nos textos dos prefácios deste tempo, bem como de outros tempos litúrgicos. Encontramos, por exemplo, a afirmação de São Leão Magno: ‘em Adão todos morreram, em Cristo todos reviverão’. São Basílio nos lembra da imitação de Cristo, por ele nós fomos adotados pelo Pai.

Quaresma, iniciantes na fé e comunidade de batizados
No ciclo do Ano A aparece como pano de fundo o tema sacramental e batismal, pelo qual permite-nos compreender a realidade da nossa vida de fé: iniciação à vida cristã. Os textos dos exercícios batismais ou escrutínios, presentes no RICA (Ritual de Iniciação Cristã de Adultos) deixam bem claro essa ligação com aquilo que o catecúmeno deve viver com a temática desenvolvida nos evangelhos de João dos Domingos 3º ao 5º (Revelação pessoal, Luz do mundo e Ressurreição e Vida): o Senhor faz passar da morte para a vida. celebrando este ciclo, olhamos para aquilo que são os compromissos do batizado e consequentemente renovamos (fazer memória).
Quando falamos de Quaresma não podemos esquecer do primeiro aspecto de sua origem: preparação dos catecúmenos para o recebimento dos sacramentos da iniciação cristã, os chamados sacramentos iniciais de inserção na comunidade de fé. Estes são exortados na 4ª semana da Quaresma, ocasião em que recitam o Credo e o Pai Nosso. São também encorajados a permanecerem numa luta constante contra o mal (orações de escrutínios e exorcismos), tendo como arma o próprio Jesus. O caminho de conversão apresentado então a estes catecúmenos é simbolizado por um tempo de reconciliação.
No ciclo do Ano B três temáticas são desenvolvidas: Domingo 3: Templo vivo; Domingo 4: Exaltação gloriosa – tipologia do deserto; Domingo 5: Grão de trigo – morrer para gerar uma vida superabundante.
Já o ciclo do Ano C as temáticas apresentam um itinerário mais ligado à questão penitencial: Domingo 3: Figueira estéril; Domingo 4: Filho Pródigo; Domingo 5: A mulher adúltera. O itinerário pedagógico-espiritual apresentado neste ciclo é o de que todos devem buscar uma plena reconciliação com Deus e com o próximo.

Conclusão
De tudo isso que já vimos o que é importante destacar é que na vida nós vamos perdendo a identidade de batizados. Não somos batizados para simplesmente pertencermos a uma comunidade de fé. Isso é pouco, mas a comunidade de fé é um sinal para vivermos nosso batismo.
O que se quer recuperar com esse caminho pedagógico-espiritual é a conversão e o arrependimento, só daí então poderemos viver como batizados. É o que São Paulo recomenda e pergunta à comunidade e a nós em sua Carta aos Romanos (7ª leitura da Vigília Pascal – perda da identidade de batizados). Neste sentido, a solicitude da Igreja em buscar os pecadores para seu seio se conforma com o período quaresmal.
Tendo esses elementos acima como temas do tempo da Quaresma, é então pertinente falar de reconciliação. A respeito deste tema trataremos em outro texto.


[1] Ascese: é um termo teológico o qual designa o esforço que todo cristão faz, aberto à graça de Deus, para deixar que esta mesma graça atue em sua vida. Não é voluntarismo, sobretudo é a partir de nossa limitação que nos abrimos à graça. É uma atitude de querer vencer. É como o cego que encontra com Jesus e diz: ‘Senhor, eu quero ver’.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Enxugar a missa


Interessante crônica de Dom José Maria Maimone, bispo emérito de Umuarama, PR, sobre sua visão de como andam nossas celebrações litúrgicas. Ele conclama que os padres façam uma espécie de avaliação, e sugere que os presbíteros filmem uma de suas missas para ver depois qual é o termômetro da celebração, para depois "enxugar" aquilo que deve ser enxugado. Percebo que nas entrelinhas de seu texto há uma chamada de atenção para a centralidade do mistério que ali é celebrado, sendo sua atenção desfocada para outros sentidos. Não está bem propícia aos dias de hoje? E o que teremos a dizer das missas transmitidas pela TV? Merecia outra crônica, não? Boa leitura.

extraído de: http://www.cnbb.org.br/site/articulistas/dom-jose-maria-maimone/11339-enxugar-a-missa


Dom José Maria Maimone
Bispo emérito de Umuarama (PR)

Alguns Padres deveriam filmar suas Missas, depois, calmamente e atenciosamente assistir.

O que eles veriam?

Veriam os fiéis conversando enquanto o comentarista lê a interminável lista de intenções. Veriam que ninguém acompanha a introdução do folheto indevidamente inflacionada pelos acréscimos cometidos pela equipe de liturgia, que acrescentam, por sua conta, inúmeras outras intenções.

Veriam uma procissão de entrada ao som de música barulhenta, cobrindo a voz dos cantores. Aliás, com um tom que só o coro canta, enquanto a assembléia permanece muda, pois não conhece os cantos.

Veriam que o ato penitencial fala de pecados estruturais e macro-injustiças, ataca as multinacionais e as políticas globalizantes, mas não fala das bebedeiras do marido nem da preguiça da esposa, não se refere à desobediência dos adolescentes nem à safadeza dos moçoilas.

Quando a assembléia canta piedade, piedade, piedade de nós, canta da boca pra fora, pois sabe muito bem que seus pecados são outros...

Primeira leitura: Moisés caminha pelas areias do deserto, sob o sol causticante, enquanto os jumentos do Egito babam de calor.

Ali, bem diante do altar, um velhinho cochila e baba também. Dois bebês (a quem as mamães deram os folhetos de missa para mascar) babam igualmente. Futuramente as alfaias incluirão babadouros para a assembléia.

Segunda leitura: Um leitor esforçado luta com os óculos para encontrar o foco adequado. O templo mal iluminado em nada ajuda em seu combate. O texto sai truncado, as frases sincopadas, as sílabas finais inaudíveis. A assembléia é salva pelo gongo. De pé, aplaudem o Livro Santo, enquanto o coral entoa um canto de Aclamação que não tem nenhuma aclamação. Por pouco não cantam: Ora, bolas!

O seu vigário lê o Evangelho. Tem boa voz, mas o volume do microfone está alto demais e alguns zumbidos de microfonia competem com a mensagem central.

Já sentados, os fiéis ouvem a homilia. Pela nave da igreja o que se vê: Dona Engrácia reza o terço, piedosa e contrita. Juca e Chico puxam as tranças de Dorotéia uma gracinha! Rafael, com menos de dois anos de idade, corre pelo corredor central, atraindo os olhares maternais das senhoras do Apostolado da Oração.

O pregador continua falando. Escapou do tema do Evangelho do dia e fez breves referências à Campanha da Fraternidade, à visita de Sua Excelência o Bispo diocesano, ao próximo Grito dos Excluídos, à campanha para construção da torre, além de pedir enfaticamente que se lembrem do dízimo no próximo domingo.

Percebe-se também que Dr. Edmundo não tira os olhos do relógio, pois já desconfia de que não terá tempo de ver a largada da corrida de Fórmula Um.

Então, Senhores Vigários, não precisam se preocupar em continuar avaliando, pois já deu para os Senhores terem plena convicção de que sua “liturgia” foi um desastre. Agora preparem-se para deitar. Talvez os Senhores consigam dormir...