segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Chuva não castiga ninguém!


Frei Gilvander Moreira *
"Deus Pai faz cair a chuva sobre justos e injustos." (Mt 5,45)
Nos primeiros dias de janeiro de 2010, a população brasileira viu-se aterrorizada por notícias da Mídia - Grandes meios de comunicação -,tais como: a) Chuvas castigam o estado do Rio de Janeiro, onde deslizamentos de encostas na Ilha Grande e na cidade de Angra dos Reis fizeram centenas de vítimas, sendo mais de 50 mortos; b) Chuvas em demasia castigam o rio Grande do Sul, onde uma ponte sobre o rio Jacuí,na RS-287, desabou. Muitas pessoas que estavam sobre a Ponte desapareceram. Várias pessoas foram resgatadas e outras continuam desaparecidas; c) Chuva torrencial arrasou o conjunto urbanístico histórico de São Luis do Paraitinga, em São Paulo, onde, inclusive uma igreja centenária desabou.
Esses são estragos provocados pelas mudanças climáticas,eufemisticamente consideradas pela Mídia como "chuvas intensas", e comprovadamente acima das médias regionais, em várias regiões do país.As notícias, acima referidas, deixam claro que não há como se sentir totalmente seguro em vista das mudanças climáticas em curso.Construções de concreto se derretem em vista da força das águas. Tudo o que era de concreto desmanchou como papel diante dos olhos perplexos da população. A conclusão a que chegamos é que não existe mais tecnologia100% eficiente e eficaz diante de tantas mudanças desmedidas nos fenômenos naturais. "Tudo o que era sólido, se desmancha no ar", já alertava Marx no Manifesto Comunista.
Se pensarmos bem, veremos que as notícias veiculadas da forma como referidas acima são grandes mentiras. Primeiro, porque a chuva é benfazeja, cai sobre justos e injustos (Mt 5,45), é reflexo da bondade de Deus, que é infinito amor. Deus rega com a chuva a terra que deu como herança ao seu povo (I Rs 8,36). "Mandarei chuva no tempo certo e será uma chuva abençoada" (Ez 34,26), assim o profeta Ezequiel consola o povo em tempos de exílio e de escassez de chuva. A sabedoria do povo da Bíblia reconhece que Deus solidário e libertador "através a chuva alimenta os povos, dando-lhes comida abundante." (Jó 36,31). Na Bíblia se fala de chuva mais de cem vezes. Até no dilúvio, a chuva é vista como purificadora (cf. Gênesis 6 a 9). Sob o império dos faraós no Egito, a chuva de granizo é vista como uma praga em cima dos opressores e como uma dádiva de Deus que liberta da opressão (cf. Gênesis 9 e 10).
A chuva não castiga e nem desabriga ninguém, apenas revela uma injustiça sócio-econômica e política existente anteriormente. Logo,quem castiga e desabriga, em última instância, é o sistema capitalista que descarta as pessoas e as condena a sobreviverem em encostas e áreas de risco. Quem é atingido quando a chuva chega exageradamente, salvo exceções, são as famílias que tiveram seus direitos humanos - direito à moradia, ao trabalho, à educação, a um salário justo, ao meio ambiente equilibrado e à dignidade - desrespeitados pelo capitalismo neoliberal e por pessoas que adoram o deus capital, o maior ídolo da atualidade.
O falso evangelho (= boa notícia para todos a partir dos pobres) do capitalismo inicia-se assim: "No princípio está o capital. No meio está a concorrência, a competição. No fim está a acumulação, a concentração de renda, de riqueza e de poder." Capital é dinheiro investido para gerar mais dinheiro.
A Campanha da Fraternidade de 2010, com o tema Economia e Vida e com o lema "Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6,24) propõe um evangelho para todo o povo e para toda a biodiversidade: No princípio está a vida. No meio, os meios necessários para efetivar a vida. No fim, o bem-estar de todos e tudo. Não apenas a vida do ser humano e nem só de alguns, mas de todas as pessoas e de todos os seres vivos. Logo,urge construir uma sociedade sustentável, onde a preservação dos bens naturais seja o carro chefe e não o crescimento econômico só para alguns.
Um desafio inadiável é percebermos as relações entre as tempestades e o aquecimento global, entre o aquecimento global e o efeito estufa, entre o efeito estufa e a emissão de fases CO2 e outros, entre a emissão de gases CO2 e outros e o modelo industrial vigente (capitalismo neoliberal), entre o capitalismo neoliberal e a mentalidade ocidental conquistadora, e a relação desta com o ser humano, seu Criador e todas as outras criaturas.
Logo, dizer que "a chuva castiga" é reducionismo que esconde o maior responsável por tanta dor e tanto pranto: o sistema capitalista.
Um outro mundo é possível. Um outro Brasil é necessário!

* Carmelita, mestre em Exegese Bíblica, professor de teologia Bíblica, assessor da CPT, CEBI, CEBs, SAB e Via Campesina

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Pastoral litúrgica - O que é?


Pastoral Litúrgica
Eurivaldo Silva Ferreira (org.)

A Pastoral Litúrgica é uma ação eclesial, ligada ao pastoreio de Jesus Cristo, pastoreio esse continuado pela Igreja, na intenção voltada à implantação do Reino. Jesus disse: “Eu sou o Bom Pastor. Eu dou minha vida por minhas ovelhas” (Jo 10,11-15). Por isso, toda ação da Igreja é a ação de Jesus, o Bom Pastor. Por essa prática, a Igreja se atualiza e reflete sua ação no mundo em dois aspectos: sendo pastora e cuidando do seu rebanho. Se Jesus deu a vida por suas ovelhas, a Igreja quer continuar essa ação, pois ela lhe foi confiada pelo próprio Jesus. Para dar cabo a isso, a Igreja reflete, se organiza, planeja em setores ou pastorais e se alimenta do espírito de comunhão e participação. A pastoral litúrgica articula essas duas dimensões no contexto político e religioso da vida da Igreja, sobretudo, quando está a serviço da função sacerdotal de todo o povo de Deus, permitindo aos cristãos o exercício de seu sacerdócio, como batizados e confirmados que oferecem suas vidas como culto agradável a Deus no Espírito Santo. Essa ação tem como objetivo a participação consciente e ativa, à qual deseja a Sacrosanctum Concilium, nº 11. Portanto, pastoral litúrgica é a arte de conduzir os fiéis a uma vivência mais profunda do mistério da salvação.
Em 2008, a Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia, ligada à CNBB, promoveu um Seminário sobre a Pastoral Litúrgica, em São Paulo, de 11 a 15 de fevereiro, com a participação de 65 pessoas, entre bispos, padres, leigos e leigas, músicos e compositores, arquitetos e arquitetas, representando os 17 regionais da CNBB. O seminário discutiu a continuidade das propostas do Concílio Vaticano II e apontou pistas para esta ação, sobretudo, perguntando-se: “Que Pastoral Litúrgica queremos, para que Igreja?”, ainda: “Em que lugar e com que qualidade de serviços (ministérios)?”.
O nº 9 da Sacrosanctum Concílium nos recorda que “a Sagrada Liturgia não esgota toda a ação da Igreja, pois, antes que os homens possam achegar-se da Liturgia, faz-se mister que sejam chamados à fé e à conversão”. Por isso o anúncio da Palavra se faz necessário, tanto para aqueles que ainda não conhecem a Deus como para os que já têm fé. A estes últimos cabe-lhes a tarefa de “ser luz do mundo e os glorificadores do Pai diante dos homens”, através de vários aspectos: pregar a fé e a conversão, dispor-se aos Sacramentos, observar a Palavra, abrir-se à caridade, à piedade a ao apostolado.
Por isso, apontamos como eixos da vivência da pastoral litúrgica, três grandes momentos:

1) a Palavra,
2) os Sacramentos e
3) a Vida no serviço (ética).

Como se dá isso? Trata-se de várias etapas do processo de evangelização, também atribuído a qualquer pastoral. Na vida pessoal ou comunitária deve-se ter em mente que não se pode passar de uma etapa à outra sem antes ter tido uma vivência em cada uma.
Baseado em escritos antigos judaicos, há um autor que diz que o mundo repousa sobre três colunas: a Lei, a liturgia e as obras de caridade. Não se pode passar da Lei para as obras de caridade sem antes vivenciar a oração, na liturgia. Assim, as obras de misericórdia devem ser conduzidas à luz da oração, se não pode-se cair no legalismo, pelo simples fato de se estar exercendo o direito legal (a Torah, no judaísmo e o Magistério da Igreja, para os católicos, por exemplo). Em resumo, significa que não se pode passar da compreensão para a ação sem antes ter vivido a liturgia, exercida num tempo intermediário de oração e contemplação.
Vejamos um exemplo prático: durante o ano litúrgico, especialmente nas celebrações do tempo quaresmal e pascal, a Igreja se preocupa em acolher os que querem se aproximar do sacramento da Penitência, reconhecendo neles os verdadeiros necessitados de conversão. Assim, os pressupostos teológicos da fé podem se unir à dinâmica do crescimento da experiência cristã. Estes não podem estar separados daquele. O segundo não pode suplantar o primeiro. Trata-se de dois aspectos complementares da atividade santificadora da Igreja. Ao caminho e maturidade da fé, corresponde o caminho e maturidade do rito. A fé se exprime no rito e o rito reforça e fortifica a fé. A norma da oração é a norma da fé e vice-versa (lex orandi, lex credendi). Neste sentido, caminha-se para a aplicação de atitudes inclusivas e não separatistas.
Uma outra forma de se viver isso é no dinamismo do ano litúrgico presente na vida da comunidade, permitindo que se viva cada tempo dentro de seu tempo específico e com suas propostas pedagógicas. Desta forma, vai-se percebendo atitudes, caminhos alternativos para o encaminhamento das lições tiradas da liturgia, dos textos, dos ritos, a fim de que se possa levar para a vida da comunidade, sobretudo, no amparo àqueles que mais necessitam, seja dos sacramentos, da cura espiritual, seja das necessidades básicas para o desenvolvimento da vida.
Neste sentido, entendemos que a liturgia celebrada pode dar luzes às questões temporais que o homem pode enfrentar, sobretudo porque, o testemunho da Igreja em anunciar a misericórdia de Deus também pode ser vivenciado nas reuniões celebrativas, onde o povo tenha a livre iniciativa de poder expressar seus sentimentos, seus anseios e seus desejos, suas alegrias e suas tristezas, de tal modo que, possa a celebração litúrgica ser a porta para a entrada na vida comunitária.
É claro que não se pode observar os três processos como sendo cada etapa separada, mas deve-se compreender que cada qual tem suas características próprias, mas ao mesmo tempo cada uma está presente na outra. É agora que entra a atividade da pastoral litúrgica, por isso, podemos afirmar que:
- Liturgia não é catequese, embora a catequese prescinda da liturgia, porém a liturgia é o lugar privilegiado da catequese do povo de Deus (Catecismo da Igreja Católica, nº 1074); liturgia também não é serviço (esse é seu sentido etimológico).
- A sacramentalidade não se reduz à celebração, pois a Igreja anuncia e serve, ela mesma é sacramento em seu ser e em sua ação.
- Diakonia também é anúncio evangelizador. A missão evangelizadora de Cristo e da Igreja realiza-se também mediante o anúncio e o serviço (CIC 893).

Fundamentação:
- Toda ação pastoral ou evangelizadora, para ser verdadeira pastoral, deve ter esses três momentos. Se faltar um deles, a pastoral ou evangelização torna-se débil.
- A união dos três elementos aparece claramente no RICA (Ritual e Iniciação Cristã de Adultos).
- A iniciação na fé e na vida cristã passa pela palavra, pelo sacramento e pela vivência do serviço de Cristo. Se faltar um deles, há um cristão incompleto.
- João Paulo II expressou muito bem na Evangelium Vitae a união dos três campos ao falar do Anúncio da Vida, Celebração da Vida e Serviço da Vida.

Objetivos e exigências para a pastoral litúrgica:
> Verificar as condições para que todas as celebrações litúrgicas “sejam na verdade significativas e comunicativas das realidades divinas que têm o dever de expressar sacramentalmente” (Lumen Gentium 17);
> Cuidar que a comunidade seja realmente o sujeito ativo da celebração e não mero receptor passivo (celebração da comunidade e não para a comunidade), o que significa também inculturação da liturgia;
> Zelar pela qualidade e eficácia das celebrações, não somente no nível objetivo da legitimidade dos ritos, mas no nível subjetivo das pessoas, à sua cultura, história de fé e necessidades;
> Formar para a arte de celebrar: ministros qualificados que presidam a oração, proclamem a palavra, animem, ajudem no altar e sirvam mediante o canto, a música e a dança.

Isto requer:
Formação em teologia litúrgica e em ciências humanas como psicologia, semiologia, linguística, estética, comunicação e artes etc. (Della Torre, in: Dicionário de liturgia fala de uma profissionalidade exigida para um dever de atuar e realizar ritualmente).
Estendendo-se a:
Diversos campos da ação pastoral eclesial, tais como: nos sacramentos da iniciação cristã (batismo, confirmação e eucaristia), nos sacramentos de cura (penitência e reconciliação / unção dos enfermos), nos sacramentos de serviço (matrimônio / ordem), nos diversos ministérios da Igreja, nas práticas sacramentais (exéquias, bênçãos) no Ofício Divino (Liturgia das Horas), na piedade popular, na espiritualidade e na vida de oração, no espaço litúrgico, no ano litúrgico.


1. TRUDEL, Jacques. Pastoral litúrgica, in: Manual de Liturgia IV: a celebração do mistério pascal – outras expressões celebrativas do mistério pascal e a liturgia na vida da Igreja. São Paulo: Paulus. p. 301-302.