sexta-feira, 27 de abril de 2012

Formação sobre Ofício Divino das Comunidades em Birigui-SP


Todo dia o Sol levanta e a gente canta o sol de todo dia. Fim da tarde, a terra cora e a gente chora porque finda a tarde. Quando a noite, a lua avança e a gente dança venerando a noite. Madrugada, céu de estrelas, e a gente dorme sonhando com elas.

“A Igreja, como esposa, não pode deixar que a voz de seu esposo amado, Jesus Cristo, se cale. A criação ecoa esta voz a todo instante, do nascer ao findar do dia” (Penha Carpanedo, pddm)

A paróquia Imaculada Conceição de Birigui (SP) em parceria com a Rede Celebra de Animação Litúrgica, de São Paulo, realizou nos dias 21 e 22 de abril formação sobre o Ofício Divino das Comunidades. Assessorados pela Irmã Penha Carpanedo (pddm), cerca de 20 participantes percorreram um caminho pedagógico no qual o conhecimento foi sendo construído em conjunto. Neste encontro, a comunidade de Birigui recebeu a visita de jovens de Votuporanga (SP), Cornélio Procópio (PR), Pirapozinho (SP) e Presidente Prudente (SP). Juntos, os participantes puderam beber nesta inesgotável fonte de espiritualidade, raiz de nossa fé.

No sábado o encontro teve início com o ofício da manhã, no qual contemplamos o nascer do sol e agradecemos ao Deus da vida pelas maravilhas que ele concedeu a cada um de nós, unindo nossas vozes a toda criação. Neste primeiro momento, ainda com pouco conhecimento sobre esta forma de oração, os participantes se sentiram cativados pela estrutura do ofício, impregnada da Palavra de Deus. Em sintonia com o tempo pascal, ressaltou-se a ressurreição de Cristo que acontece em nossas vidas, a exemplo da manhã que vence a escuridão da noite.

Após o ofício da manhã cada participante se apresentou, partilhando com o grupo sua caminhada pastoral. Um grupo heterogêneo, porém, com unidade amparada pelo anseio por conhecimentos.
Para saciar esta sede, irmã Penha iniciou a assessoria partindo do chão dos participantes, por meio de uma investigação acerca dos conhecimentos que estes já possuíam sobre o Ofício Divino. No grupo, muitas pessoas já haviam experimentado esta forma de oração. Após conhecer o território dos participantes, apresentou uma viagem histórica sobre o ofício, ressaltando que se trata de uma apropriação de uma estrutura espiritual proveniente de nossos antepassados na fé.

O Ofício Divino das Comunidades é uma versão inculturada da Liturgia das Horas, que durante um bom tempo, ficou restrita aos monastérios, sendo devolvida ao povo a partir do Concílio Vaticano II, há 50 anos.

O Ofício, a princípio, era uma realidade do povo canavieiro, com a mesma essência e espiritualidade da Liturgia das Horas, no entanto, com linguagem acessível, condizente com o dia a dia de um povo, com suas lutas diárias. A Liturgia das Horas foi adaptada à realidade do povo nordestino, para que pudesse experimentar as maravilhas da contemplação de cada hora do dia, do nascer ao pôr-do-sol.

Após situar os participantes, irmã Penha propôs que refletíssemos sobre nossa vida como uma constante oração. Seguindo os passos de Jesus, rezar o Ofício Divino das Comunidades é contemplar as horas do dia, que possui uma profundeza que sempre impressionou a humanidade. O ofício da manhã, por exemplo, abre as portas para o amor, com uma nova chance de recomeçar. Faz memória da ressurreição de Cristo e está muito ligado à luz que vence a escuridão. No ofício da tarde, suplicantes, imploramos pela proteção do Pai, que cessou o medo dos irmãos de Emaús, que partilhou com os discípulos, que se entregou por nós em morte de cruz...

A estrutura do ofício nos oferece hinos, salmos, leituras bíblicas e orações que são rezados em sintonia com a hora do dia e com o tempo. Trata-se da própria oração de Cristo, que também rezou salmos em momentos de angústia e alegria. Ao entoarmos os salmos, escutamos a voz de Jesus Cristo por meio de seu espírito de sabedoria que soa inefáveis gritos em nosso interior. Irmã Penha levou os participantes a compreenderem, portanto, que o Ofício é o memorial da morte e ressurreição de Cristo realizado nas horas do dia, possuindo dimensão sacramental. “A Igreja, como esposa, não pode deixar que a voz de seu esposo amado, Jesus Cristo, se cale. A criação ecoa esta voz a todo instante, do nascer ao findar do dia”, ressaltou.

Na tarde de sábado, juntos preparamos o Ofício de vigília, que seria realizado à noite. Nesta oração, a música é fundamental, de modo que a nossa mente concorde com o que canta nossa voz. Por isso, ensaiamos cada hino e cada salmo, trilhando um caminho mistagógico que nos levou a compreender cada palavra... Para garantir também o envolvimento na celebração, ensaiamos alguns ritos que compõem a estrutura da oração, como o acendimento da luz, a recordação da vida, a leitura bíblica e a oferta do incenso.

O Ofício de Vigília do tempo pascal transcorreu de forma envolvente, com muita sintonia entre os participantes. Na recordação da vida, apresentamos sinais de ressurreição em nossas vidas e também recordamos os aprendizados do dia de formação. No hino, recordamos a dimensão do Tempo Pascal. No salmo 136, unimos nossas vozes à da criação para dar graças ao grande amor de Deus por nós. Na leitura do evangelho, encontramos um Cristo que é todo amor, que se senta junto aos seus seguidores para partilhar... Entregamos nosso dia no Cântico de Simeão... Elevamos nossas preces a Deus... E nos despedimos na “saideira”, ressaltando que Cristo ressuscitou de verdade, Aleluia!

No domingo, começamos o dia bem cedo com o Ofício da Manhã, celebrado em meio à natureza. Foi um momento de extrema sintonia com a natureza, no qual pudemos perceber muito bem os louvores que a criação eleva aos céus a cada nascer do dia... Percebemos que a natureza reza conosco, como se entoassem salmos.

Após a oração, irmã Penha propôs que os participantes se dividissem em grupos para estudar alguns ritos do ofício, para, em seguida, apresentarem a vivência destes momentos. Os três grupos apresentaram, então, respectivamente, o acendimento da luz, a recordação da vida e o salmo. O conhecimento adquirido durante estes dois dias de formação foi colocado em prática.

Irmã Penha Carpanedo plantou em Birigui uma semente que produzirá muitos bons frutos. A diversidade do grupo presente na formação fará com que o Ofício Divino das Comunidades se perpetue em diferentes nichos, proporcionando a muitas pessoas beberem nesta inesgotável fonte de espiritualidade e vida.

Diuan Feltrin – Pastoral da Liturgia da Paróquia Imaculada Conceição – Birigui (SP)  

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Igrejas: versão religiosa do Big Brother?

Impressionante artigo do Prof. José Lisboa Moreira Oliveira, da Universidade Católica de Brasília.
Ele faz uma análise do livro de Bauman, e conjuga essa análise fazendo relações intrínsecas entre Big Brother e Igreja.
(Extraído de www.adital.com.br)

Bauman no seu livro A ética é possível num mundo de consumidores? (Zahar, 2011) compara os atuais grupos humanos a verdadeiros ninhos de vespas. Segundo o autor, há uma notória ausência de centros dotados de autoridade, onde se possam construir regras para alianças e respostas para os desafios. As pessoas vivem sem referenciais, buscando elas próprias preencher o vazio gerado por tal ausência. Assim sendo, os seres humanos mantêm-se num estado de fluxo permanente, sempre "se tornando” e nunca "sendo”. As identidades, se é que podemos usar este substantivo, são o resultado de um processo contínuo de negociações e de renegociações. A liberdade tão sonhada e tão cobrada atualmente vem acompanhada de insegurança e de constrangimentos. O medo de não ser livre termina sufocado pelo medo das ameaças dos outros e os homens e as mulheres aceitam perder um pouco da liberdade para terem mais segurança.

Em todo esse processo o self ocupa o lugar central e coloca o restante do mundo na periferia. As pessoas participam de grupos que se parecem com enxames de vespas porque perdem a dimensão comunitária e passam a ser manipulados por lideranças que dão as ordens. Os seres humanos estão juntos fisicamente, mas o que prevalece é o individualismo. Não há solidariedade, complementaridade, intercâmbio e fraternidade. Cada um, mesmo seguindo seu líder, termina pensando só em si, na sua segurança e na sua satisfação imediata. Por isso, diz Bauman, os laços humanos são fraquíssimos e se quebram com muita frequência e facilidade.

Como a incerteza é o "habitat natural” do sujeito consumidor, ela provoca o "desencaixe”, ou seja, a pessoa não se fixa em nada e em lugar nenhum. Vive sempre abandonando e substituindo. O pertencimento está necessariamente condicionado pelas exigências do ego. O indivíduo chega a participar de instituições, mas as vê e as tem apenas como lugares de descanso, de pouso, até que não deva prosseguir com sua permanente peregrinação. Para o sujeito consumidor, afirma Bauman, as instituições são "hotéis de beira de estrada” que servem apenas para um breve descanso da viagem.

Desta forma, diz nosso autor, as instituições terminam cedendo à pressão dos consumidores frenéticos e se tornando uma espécie de Big Brother. Elas são hoje apenas um espaço onde se pode dar uma "espiadinha” na vida dos que nela estão "confinados” para depois continuar vivendo como se aquele confinamento não existisse. Os que estão dentro da "casa” não cultivam a integração e a solidariedade, mas são estimulados, por quem comanda o espetáculo, a brigarem entre si para ver quem vai ser o líder. Desta forma, cada um considera os demais como inoportunos que devem ser expulsos do ambiente e enxotados para fora do páreo.

Na casa do Big Brother não há lugar para o outro e nem para quem pensa nos outros. Isso porque as pessoas que lá chegaram não chegaram por pertencimento, através de um rito solene de iniciação, mas através da promessa de prêmio para aquele que terminar sendo o "melhor”. Quem está na casa do Big Brother tem a sensação constante de estar num território estranho e potencialmente hostil. Aqui na há laços e não há lealdade. As pessoas são abandonadas a si mesmas e terminam confusas, sem saber como caminhar ou navegar no meio de tantas propostas, as quais, no final do itinerário, podem se revelar traiçoeiras e falsas.

Ora, essas considerações de Bauman me levam de imediato até as Igrejas. Não há como não vê-las como uma versão religiosa do Big Brother. O que são elas atualmente, salvo algumas exceções? Um enxame de pessoas que vagam sem rumo e sem direção, monitoradas e manipuladas por líderes carreiristas e exibicionistas. Nelas, inclusive na Católica, não há mais a consciência e o clima de assembleia convocada pela Trindade; não há a experiência de Povo de Deus. As pessoas são reunidas em verdadeiros confinamentos controlados por lideranças carreiristas que sonham chegar ao topo da hierarquia. Vestidos impecavelmente, com suas batinas, seus paramentos brilhosos ou ternos finíssimos, tais líderes controlam as subjetividades, mesmo que, na prática, se mantenham completamente afastados da vida real do povo, o qual é sempre deixado para trás em suas angústias e expectativas.

Por sua vez os fiéis transeuntes não se encontram por vocação, por convocação e pelo senso de pertença. Buscam vorazmente kits de salvação, vendidos e abençoados por bispos, padres e pastores, mesmo quando estes kits se reduzem a uma baforada no corpo, proveniente de um balde de "água santa” jogado sobre a multidão delirante. E para atender à sede de consumo religioso as Igrejas se transformaram em supermercados da fé, voltadas inteiramente para a satisfação imediata da busca de felicidade dos consumidores religiosos. Estes não se encontram unidos pela mesma fé, no conhecimento do Filho de Deus e para crescerem no seguimento (Ef 4,13). Encontram-se, por acaso, ao redor de um "curandeiro”, à cata de milagres que satisfaçam de imediato suas necessidades.

Desta forma fica configurado o Big Brother religioso. As Igrejas, administradas, policiadas e supervisionadas, com firmeza, por líderes carreiristas e esteticamente perfeitos, mobilizam multidões, especialmente entre os que ainda formam a periferia social, para confiná-las num refúgio milagreiro, marcado por ansiedades, exclusões e decepções. Nesses confinamentos religiosos a ilusão é visível. Os "milagres” são raros e somente alguns são "agraciados” com "curas e libertação”. O restante da multidão deve se conformar em voltar para casa e enfrentar a vida dura, onde só há um milagre: ir à luta para conseguir sobreviver. Deve se conformar e aceitar o "paredão” da exclusão social, da falta de oportunidades, do indeterminado, do imprevisível, percebendo-se, como diz Bauman "fora do lugar em todo lugar”.

O povo que fica na fila, a espera de "milagres”, é sempre ludibriado e manipulado por espertos que costumam passar a perna nos simples e pobres (Jo 5,7). Esses espertos são os próprios milagreiros e curandeiros. Eles são especialistas em extorquir os pobres; encher seus bolsos de dinheiro; construir templos para alimentar vaidades –mas, que, em breve, serão frequentados apenas por morcegos–; comprar jatinhos para suas viagens e, sobretudo, tirar as suas famílias da miséria. Sem dúvida alguma, para solucionar os problemas dos sofredores bastaria que alguém, como Jesus, dissesse: "Levante-se e ande” (Jo 5,8). Mas, na verdade eles não querem que as pessoas se levantem e caminhem com as próprias pernas. Preferem manter a "indústria dos milagres” que traz polpudas somas para seus bolsos e suas famílias.

Deus chama, mas a hierarquia da Igreja não aprova

Belo artigo do professor José Maria Lisboa de Oliveira, da Universidade Católica de Brasília. Reflitam...
(extraído de www.adital.com.br)


Passei a Semana Santa em um povoado do sul de Minas Gerais. O "bairro”, como o mineiro da região denomina o que nós normalmente entendemos por "povoado”, conta com mais de 200 moradores. De fato na última eleição votaram na seção eleitoral existente no local cerca de 190 eleitores. No "bairro” só existe uma templo da Igreja Católica. Não existem templos evangélicos e nem lugares de cultos de outras religiões. A totalidade dos moradores é católica. Apenas uma família é evangélica, mas mora em São Paulo e tem uma chácara no local. Aparece por lá de vez em quando. Os que lá residem são todos católicos. O povoado fica a quatorze quilômetros da sede da paróquia, sendo que cerca de treze quilômetros são de estrada de chão: muita lama na época de chuvas e muita poeira no período de seca.

Acompanhei atentamente a celebração do Domingo de Ramos dirigida por três mulheres: a coordenadora da comunidade, a ministra da Palavra e a ministra extraordinária da comunhão eucarística. O povoado inteiro estava presente. Havia mais de duzentas pessoas, pois no domingo muitos visitam os parentes que moram no "bairro”. Tudo se desenvolveu de forma impecável. Os fiéis se reuniram à beira do rio que corta o povoado. Houve a "bênção” dos ramos, a procissão em direção à capela, a liturgia da Palavra solenemente proclamada pela ministra da Palavra, a "homilia” pronunciada pela coordenadora da comunidade e a distribuição da eucaristia feita pela ministra extraordinária. Tudo dentro da mais perfeita ortodoxia doutrinal e litúrgica.

Na quinta-feira santa apareceu um padre enviado pela paróquia que presidiu a missa da Ceia do Senhor e depois foi embora. Nos outros dias da Semana Santa a comunidade voltou a se reunir sob a presidência e coordenação das três mulheres. No domingo o padre voltou para celebrar a missa do domingo de Páscoa.

Costumo passar boa parte das minhas férias neste "bairro” do sul de Minas, uma vez que é a terra natal da minha esposa. Por isso tenho conhecimento de que nesta comunidade católica a Eucaristia é celebrada uma ou, no máximo, duas vezes por mês. Normalmente a celebração eucarística se dá durante os dias feriais da semana e não no dia do Senhor, de modo que se pode afirmar que não há o memorial da morte e ressurreição de Jesus no domingo, como pede a liturgia, desde a mais remota antiguidade cristã.

Este fato, comum a milhares e milhares de comunidades eclesiais espalhadas pelo mundo inteiro, revela que hierarquia da Igreja Católica não consegue colocar em prática a máxima evangélica que pede atenção aos "sinais dos tempos”. Ela continua afirmando que a Eucaristia é o centro e o ápice da Igreja. Continua proclamando em seus documentos que a Eucaristia faz a Igreja. Insiste em dizer que onde não há Eucaristia não há Igreja Católica. Tudo isso é verdade, não resta nenhuma dúvida, mas, em sua insensibilidade aos apelos divinos, a hierarquia continua permitindo que o absurdo dos absurdos aconteça. Permite que milhares e milhares de comunidades, como esta do sul de Minas, fiquem sem a celebração eucarística dominical. Fiquem sem poder vivenciar e testemunhar a própria identidade, uma vez que, segundo os documentos oficiais da Igreja, é a celebração eucarística, presidida por um ministro ordenado, que melhor expressa a identidade católica.

Diante de absurdos como esse fico a me perguntar a que coisa serviu a realização algum tempo atrás de um "ano eucarístico”. Interrogo-me também sobre o sentido de um "ano sacerdotal” celebrado recentemente. No meu entender serviram apenas para fomentar beatices e reconfirmar as mesmices eclesiásticas. Estes dois eventos não trouxeram nenhuma contribuição efetiva para a solução de problemas tão graves como este da falta da celebração eucarística dominical e que já começa a afetar a identidade católica. Um bispo da Amazônia me dizia há algum tempo atrás que em muitas das comunidades de sua diocese o povo fica até anos sem a celebração eucarística. Ele estava preocupado porque isso está contribuindo para a perca da identidade católica. De tanto celebrar "cultos” as comunidades já estão perdendo a noção e a experiência do que seja a celebração eucarística. Este mesmo bispo, chegando certa vez a uma dessas comunidades, após ser recebido com muito entusiasmo pelo povo, foi convidado a presidir "o culto”!

E não podemos aceitar a desculpa de que não há o que fazer. Existem soluções possíveis, bem ortodoxas e em plena sintonia com a mais genuína tradição eclesial. São muitas as pessoas, inclusive bispos, que não se cansam de oferecer alternativas possíveis e concretas. Se a situação chegou a essa extrema gravidade é porque a hierarquia da Igreja é incapaz de ler os sinais dos tempos, não abre mão de um modelo de Igreja arcaico e ultrapassado, se fecha na própria autossuficiência e se recusa a voltar às raízes do cristianismo.

Aponto, por exemplo, uma solução simples, ortodoxa, ecumênica e bem antiga. O Concílio de Calcedônia, celebrado no ano 451, no seu cânon 6, declarou sem efeito e proibiu as chamadas "ordenações absolutas”, ou seja, aquelas ordenações em que o ordenando não tivesse sido designado antes como ministro de uma igreja, cidade, povoado, santuário do interior ou mesmo de um mosteiro. Para ser ordenado diácono, presbítero ou bispo o ordenando deveria e deve ser designado antes como ministro de uma comunidade à qual servirá por toda a vida. Caso isso não aconteça, a ordenação se torna inválida, uma vez que, para a Igreja antiga, o ministério só tinha sentido quando voltado para o serviço de uma comunidade específica. Havia, pois, uma relação direta entre ordenação e comunidade eclesial. Detalhe que infelizmente hoje quase não se observa mais. Existem inclusive relatos de ministros que, na Igreja antiga, foram ordenados de novo, quando por qualquer motivo, tiveram que deixar a comunidade a que serviam e foram transferidos para outras localidades.

Mesmo deixando de lado a possibilidade da ordenação de mulheres, uma vez que isso assusta e causa mal-estar à hierarquia, a proposta continua válida e atual. Em todas essas comunidades, inclusive naquela do povoado do sul de Minas, existem os chamados "viri probati”, homens casados ou até solteiros, cuja fé é inabalável e cuja vida é marcada por um testemunho heroico de fidelidade à Igreja. Estes homens, muitas vezes juntos com suas mulheres, animam, sustentam, catequizam e dinamizam essas comunidades. A ação é tão incisiva que em certos lugares, como é o caso do mencionado "bairro” do sul de Minas, toda a população se mantém católica, graças à ação evangelizadora dessas pessoas.

Pergunta-se então porque a Igreja Católica não resolve o grave problema da falta da Eucaristia, ordenando estes homens para presidirem a celebração eucarística dominical nestas comunidades. Seguindo à risca o cânon 6 do Concílio de Calcedônia, que, pelo que me consta, ainda não perdeu a sua validade, seria possível ordená-los exclusivamente e somente para a presidência da celebração eucarística dominical de uma determinada comunidade. Pelas normas do Concílio de Calcedônia eles ficariam impedidos de presidir a celebração eucarística em uma comunidade para a qual não foram designados antes da ordenação. Poderiam até participar como concelebrantes em uma celebração eucarística presidida pelo bispo diocesano ou pelo metropolita, mas nunca poderiam presidir fora de sua comunidade designada.

Portanto, soluções existem. O que falta é boa vontade e conversão da hierarquia católica, a qual insiste em manter a todo custo um modelo de ministério totalmente ultrapassado e não mais em condições de atender às necessidades pastorais da Igreja dos nossos tempos. No 4º Domingo da Páscoa vamos ter a Jornada Mundial de Oração pelas Vocações. Puro desperdício e perca de tempo, pois é inútil pedir a Deus que mande vocações quando, com sua atuação concreta, a hierarquia impede que essas vocações se concretizem. As vocações não faltam. Elas existem e em abundância. O que falta mesmo é a humildade para se perceber que as formas de chamamento divino não coincidem mais com aquelas que a hierarquia aprova no momento. Quando, finalmente, surgirá a manhã da ressurreição para a Igreja Católica? Isso, nem o próprio Deus sabe, pois tudo está nas mãos da hierarquia!

sábado, 7 de abril de 2012

A Vigília da Ressurreição no Sábado Santo

Introdução

Inicia-se esta celebração com uma fogueira do lado de fora da Igreja, na qual é aceso o círio, e solenizado com o canto do Exulte, que mais acentua um elogio à noite, aquela em que Cristo ressuscitou. Como sinal cósmico, a noite em que se realiza esta celebração é a lembrança daquela noite em que só ela testemunhou a ressurreição.

O fogo aceso fora da igreja representa para nós o desejo ardente do céu, acendido pelo Pai (oração de bênção do fogo novo), ao mesmo tempo o desejo de sermos purificados, rumo à festa eterna . Começamos a Quaresma recebendo cinzas. Somos pós, mas ao mesmo tempo somos luz. Somos pó que gira em torno da luz. Essa representação nós a encontramos no universo com os planetas, grãos de pó, girando em torno do sol.

Nesta noite cantamos o esplendor de uma luz que jamais se apagará. Proclamamos as maravilhas de Deus que nos libertou das trevas da morte e nos devolveu à vida. Noite em que revigoramos nosso compromisso batismal. Ela é especial, pois é celebrada “em honra do Senhor”, por isso a chamamos como “mãe de todas as vigílias”, pois nela a Igreja toda permanece à espera da ressurreição do Senhor e celebra-a com os sacramentos da iniciação cristã .

Por ser uma noite memorável, lembramos a libertação do povo hebreu, que livres da opressão do faraó, no Egito, atravessaram o Mar Vermelho a pé enxuto. Esta noite é para os judeus a lembrança de que Deus agiria em favor deles, libertando-os. Como memorial que deveria ser perpetuado, a pedido mesmo de Deus, nós a remetemos a Jesus, pois nesta noite, “Jesus rompeu o inferno, ao surgir vencedor da morte” (cf. Missal Romano) .

É nesta noite que voltam com toda a força o Hino de Louvor e o Aleluia, que são cânticos da assembleia ressuscitada, sinal do povo que se põe de pé, como a multidão do Apocalipse vestida de branco, caminhando rumo à Jerusalém celeste.
Nesta noite a páscoa de Cristo se faz a nossa páscoa, celebrada pela forma do sinal, ou seja, do sacramento. Os elementos cósmicos desta celebração: fogo, água, pão e vinho, nos recordam a atuação de Deus no plano da história da humanidade, que quer salvá-la, ‘pascalizando-a’ por meio de Cristo Jesus.

A verdade dos sinais e o rico conteúdo oferecido ao povo cristão nos ritos e orações deveriam ser os elementos de principal capricho das equipes de liturgia e de quem preside. A liturgia toda é feita de ações simbólicas e gestos, que devem ser realizados com tal dignidade e expressividade , tendo em vista a participação ativa, frutuosa e consciente, ou seja, todos devem compreender o significado dessas ações por sua força de beleza e expressão, na voz de canta, de quem proclama ou de quem preside.

A Vigília Pascal tem a seguinte estrutura: acendimento do fogo novo e canto de elogio à noite e ao círio pascal; liturgia da Palavra, em que são contempladas as maravilhas que Deus operou em favor do seu povo desde o início; uma liturgia batismal e a liturgia eucarística.

Todas as nove leituras desta noite são intercaladas por orações e salmos responsoriais, que favorecem a meditação e o silêncio. São sete leituras do AT e duas do NT: a Carta de Paulo aos romanos e o Evangelho. O zelo estético que se dedicam os leitores e cantores deve estar em atenção ao plano da participação mais atenta, viva e interior da assembleia.

Nas leituras da Vigília Pascal, que possuem caráter batismal, começando por Moisés e seguindo pelos profetas, a Igreja interpreta o mistério pascal de Cristo. Essas leituras descrevem os acontecimentos culminantes da história da salvação, que os fiéis devem poder tranquilamente meditar por meio do canto do Salmo responsorial, do silêncio e da oração de quem preside . O significado tipológico das leituras do AT tem suas raízes no NT, e aparece sobretudo na oração pronunciada por quem preside depois de cada uma das leituras. Uma breve introdução, para chamar a atenção dos fiéis, poderá ser também útil para que se compreenda o significado das mesmas . Por exemplo, na oração presidencial depois da 1ª leitura, o Mar Vermelho é agora símbolo da fonte batismal; assim como o povo liberto da escravidão é agora o símbolo do povo renascido pelo batismo.

O relato dessas leituras nos faz entender que pertencemos a um povo que tem sua origem na criação do mundo, em Gênesis, e que se concretizou com Abraão, no intuito de percorrer lugares ainda incertos, mas sempre com a companhia de Deus, muitas vezes passando por momentos de opressão e de medo, até que aparece um libertador, que nos faz passar pelas águas da vida, mudando de uma situação de opressão para uma realidade de libertação. Foi assim mesmo que aconteceu com Jesus e com os profetas. Tinham o Espírito de Deus consigo, que os animava a sempre fazer a vontade de Deus, que os abastecia, com um coração novo, com água e com sua sabedoria.

Nesta celebração, ouvindo esses relatos, somos reabastecidos com a fonte viva, a fonte batismal, e sabendo que o que aconteceu com Jesus é o mesmo que acontecerá com a gente (Deus não nos deixará abandonado na região dos mortos), cantamos sua ressurreição, explodindo num ‘louvai a Deus’, expressão do Aleluia pascal, porque Cristo é o protótipo do vencedor, daquele que, passando pela escuridão da noite, soube vencer o medo, a tristeza, até mesmo a morte. Por consequência disso, partilhamos alegres, pão e vinho, para a nossa ceia com o Senhor e com os irmãos, e prolongamos essa alegria por todo o tempo pascal, como se fosse um só dia de festa, até Pentecostes, ocasião em que a Igreja se vê ajuntada nessa esperança espiritual de ser dom para a vida do mundo.

Os Salmos desta noite:
Salmo 103 (104): após a 1ª leitura, relata a criação, que não é apenas boa, mas é sagrada, e é descrita e pensada na Bíblia dentro do esquema da história da salvação, ou melhor, como primeiro ato da história. As estruturas que sustentam a criação são o Espírito de Deus e a sua Palavra. Essa narrativa da criação, na qual se faz nova à luz da experiência pascal, a Igreja a lê na noite da Páscoa . Contemplando este salmo, Santo Agostinho diz que ‘o trabalhador divino põe diante dos nossos olhos as maravilhas da sua obra, para estimular o nosso coração’ .

Salmo 15(16): este salmo exprime, na oração, o abandono confiante em Deus, em cujas mãos é depositada a vida. A referência a Cristo ressuscitado está evidente no versículo: “E minha carne repousa em segurança, porque não me abandonarás no túmulo, nem deixarás o teu fiel ver a sepultura” . Relata a experiência de alguém que confia plenamente no Senhor, renunciando até a não obedecer a outros deuses; em meio a alegria, sente-se seguro, pois sabe que em Deus tem a garantia segura de que ele nem na morte o abandonará .

Êxodo 15: é o término da terceira leitura. Uma espécie de continuação cantada daquilo que já foi lido. Naturalmente é com esse texto que se desenvolve a tipologia batismal em que se lembra da páscoa-passagem e da páscoa-paixão .

Salmo 29: responde à 4ª leitura como uma ação de graças de uma pessoa que se viu curada de uma doença mortal. O salmista começa por glorificar o Senhor pelo que lhe fez, a seguir convida os fieis a cantar salmos, só então dá inicio ao relato do que lhe aconteceu, por ter confiado nas forças do Senhor . Seus versículos são uma exaltação e um louvor ao Senhor “que tirou do túmulo a minha vida, que me fez reviver dentre os que baixam à cova”, com evidente referência a Cristo ressuscitado .

Isaías 12,1-6: a celebração da páscoa, sacrifício de aliança universal, torna-se atual para nós no convite à salvação que o profeta Isaías nos dirige na leitura anterior (cf. Is 55,1-11). Esta salvação é celebrada com ação de graças pelo próprio texto do profeta .

Salmo 18(8-11): este salmo celebra a lei do Senhor. Se o pecado nos afastou de sua lei, o Espírito Santo, sabedoria divina, nos reconduz a esta família e faz com que nela permaneçamos .

Salmo 41: com este salmo a assembleia expressa o desejo do encontro com Deus. Santo Agostinho viu neste salmo a oração dos catecúmenos, que se dirigiam para a graça do batismo, a fim de obter a remissão dos pecados e saciar a sua sede espiritual na fonte de água viva, que é Cristo Senhor. Com os versículos deste salmo expressam-se os sentimentos de alegria e gratidão pelo dom de aproximar-se do altar da eucaristia .

Aleluia + Salmo 118: Santo Agostinha dizia ao seu povo: “Com o canto do Aleluia nós expressamos a época de alegria, de repouso e de triunfo representada aqui em baixo pelos dias do tempo pascal. Contudo, ainda não possuímos o objeto de nossos louvores, mas suspiramos à procura do verdadeiro Aleluia. O que é que significa Aleluia? Louvai a Deus… Se, após a ressurreição do Senhor, este louvor multiplicou-se na Igreja, isto significa que após a nossa ressurreição nós o cantaremos sem interrupção. Assim, caríssimos, louvemos então o Senhor; repitamos Aleluia. Representamos nestes dias do tempo pascal o dia que não terá fim; apressamos o nosso caminho em direção à morada eterna… Cantamos Aleluia, mas ainda como peregrinos e, cantando aliviamos as nossas fadigas; canta e caminha” .

As orações presidenciais:

Após 1ª leitura: coloca em relevo o significado da 1ª leitura (admirável grandeza de Deus tão grande no começo do mundo quanto na plenitude dos tempos). Após 2ª leitura: interpreta o texto do Gênesis em sentido batismal (responder à graça do chamado através do batismo). Após 3ª leitura: expressa a tipologia batismal do Êxodo (a água que liberta da opressão é a mesma que acolhe para Deus, como filhos seus).
Após 4ª leitura: expressa o pedido de multiplicação dos descendentes (filhos), para que a Igreja possa ver o desígnio de salvação já acreditado pelos pais. Após 5ª leitura: sublinha o hoje da salvação (reavivar a nossa sede de salvação e progredir nos caminhos da justiça pela força do Espírito). Após 6ª leitura: invoca a proteção divina sobre aqueles que Deus fez renascer na água do batismo. Após 7ª leitura: suplica para que se realize na Igreja, sacramento de salvação, a obra do Filho e que ela seja sinal para o mundo. Após o Hino de Louvor: acentua a ressurreição de Cristo que ilumina esta noite santa, e suplica o despertar em todos o espírito filial para sermos fiéis ao serviço (servir de coração).

Na Oração sobre as oferendas a Igreja suplica ao Pai que a vida que brota do mistério pascal seja por sua graça penhor da eternidade.

Na Oração pós-comunhão o pedido é que o Pai derrame em todo o povo o seu espírito de caridade, para que, saciados pelos sacramentos pascais, permaneçam unidos no seu amor. O Prefácio nos lembra que Cristo é o Cordeiro, que com sua morte, destrói a própria morte, a fim de que nos dê a vida.

Na liturgia batismal:
O sinal a ser evidenciado agora é a água. A atenção da assembleia se volta nesta parte da celebração à fonte batismal. A fonte batismal é o lugar onde a Páscoa de Cristo se fez nossa, no sinal de água e na procissão da fé trinitária. A fonte tem dois sentidos: túmulo do pecado e ventre materno de onde nasce a vida (Cirilo de Jerusalém). Desde os primeiros séculos a Igreja ligou a celebração do batismo à noite pascal. O texto de Paulo (Rm 6,3-4: sétima leitura) desenvolveu a teologia batismal, ligada com a ressurreição de Cristo: batismo é ressurgir com Cristo para uma vida nova. Batismo é então “sacramento pascal”, porque é “sacramento da paixão de Cristo” (Cirilo de Jerusalém, Gregório de Nazianzeno e Ambrósio). De fato, é o “sacramento da ressurreição” (Tertuliano, Basílio e Agostinho). É também o “sacramento do martírio” (Melitão de Sardes: ‘Duas coisas provocam a remissão dos pecados: o martírio por Cristo e o batismo’).

A oração de bênção da água lembra através das Sagradas Escrituras todos os grandes temas batismais acima expostos. A bênção da fonte significa que a graça do batismo não brota da água como elemento material, mas do Espírito Santo que a santifica. Isso é expresso através do sinal da imersão do círio na fonte batismal. O batismo é ministrado nesta hora e, em seguida, toda assembleia renova as promessas do batismo, sendo depois aspergida pela mesma água oriunda da fonte batismal.

Na liturgia eucarística:
É o coração da vigília pascal. Tudo o que a Igreja realiza durante todo o ano litúrgico converge para esta missa e parte desta missa pascal. É nesta celebração que se realiza verdadeiramente a instituição da Eucaristia, pois Eucaristia é mistério pascal vivido e assimilado pela assembleia reunida em torno de Cristo ressuscitado, com os sinais de pão e vinho, corpo e sangue doados pela vida do mundo, tornado agora banquete festivo para os que passaram pela morte e estão ressuscitados com Cristo.

A redenção por meio do amor

(a partir das aulas de Cristologia, na Pontifícia Faculdade Teologia Nossa Senhora da Assunção, da PUC/SP)
Eurivaldo Silva Ferreira

         Ao final da Sexta-feira Santa vale a pena nos fazermos a seguinte pergunta: do que somos salvos e para que somos salvos? É nessa perspectiva que a teologia nos ajuda a entendermos a natureza da redenção e a natureza de Jesus enquanto redentor. São perguntas que os teólogos devem dar uma resposta, principalmente levando em conta a afirmação da nossa fé, que Jesus ressuscitado é o redentor do universo. Mas de que modo Cristo desempenhou, cumpriu, levou a término o seu papel de redentor? O que fez em primeiro lugar? Libertou-nos do pecado ou nos amou? É interessante nos determos nessas questões. Vejamos.
A redenção tem que estar necessariamente ligada à expiação. Por isso o papel da redenção de Cristo está ligado ao papel de vítima. Jesus é a vítima, pois experimentou a própria morte na morte, diz a Carta aos Hebreus. Relacionar a redenção à ação transformadora do amor, fazendo com que o ser humano participe da vida divina, eis a tarefa, a missão de Jesus (Hb 2, 10-11).
As Escrituras nos autorizam a apresentar a redenção como algo existente, em graus diversos. Precedência do amor enquanto primeira explicação do como da redenção. O amor é a via que nos faz compreender a ação redentora de Deus. O amor na Escritura indica a motivação divina que ativa o mecanismo da salvação. O amor identifica como é potencializado esse mecanismo de salvação. A redenção é potencializada, isto é, colocada em ato através do amor. O motivo eficaz que desencadeia e torna presente essa ação redentora de Deus é o amor.
Podemos explicar isso através de dois motivos: uma enquanto motivação (Jesus participou da mesma condição, para destruir, com a sua morte, aquele que tinha o poder da morte, Hb 2,14); outra enquanto ação operadora (pois, tendo ele próprio sofrido ao ser provado, é capaz de socorrer os que agora sofrem a provação, Hb 2, 18). A motivação se dá em vista da salvação (ação), Jesus tem o poder da morte, de ‘superar a morte na morte’, pois ele é a morte da morte.
Jesus só morre por amor: ‘prova de maior não há que doar a vida pelo irmão’. O amor é a via por excelência para compreender e interpretar o como do papel salvífico de Jesus. O amor não é somente o modo para articular a salvação, mas é a verdadeira chave para compreender a humanidade de Jesus, que lhe foi manifestado a natureza divina. O amor dá a misteriosa coerência de todo o drama da redenção. É manifestado na criação. Podemos falar de criação como ato salvífico de Deus, sim. Pois nela está manifestado o amor, e na história lhe foi dado, tendo como princípio a criação. Deus cria salvando e salva criando. O amor conquista tudo, tanto santifica como purifica. Por isso é importante sublinhar o aspecto do amor. Ele dá resposta enquanto fragilidade ligada ao termo histórico. É por isso que, tendo essa pedagogia do amor que cria, a Igreja nos coloca como 1ª leitura na Vigília Pascal, a narração da criação, pois, tendo Jesus amado, entregou-se por eles, ‘recriando’ tudo aquilo que nele foi ‘pascalizado’ por sua morte de amor, o universo e o cosmos, por completo.
O amor de Deus é gratuito, mas ele se alegra na medida em que recebe de nós uma resposta. O amor de Deus tem uma meta, que é despertar no humano uma resposta. Se não, a cruz de Cristo não tinha significado, só tinha um fim em si mesma. A resposta do amor gera união. Existe uma proximidade, um envolvimento, que se manifesta numa unidade de vida. Nós chamamos em teologia de ‘participação na vida de Deus’. No amor se manifesta a capacidade de recriar, e é a partir disso que nasce a fidelidade. Temos aí a noção de que o amor não é algo pontual, mas que vai sendo dinamicidade numa constante existencial. Essa dinamicidade vai se transformando pouco a pouco em desejo, por isso amamos e desejamos ser amados. O desejo não é algo feio que é combatido, reprimido, como dizem alguns por aí. O desejo é próprio da natureza de Deus, que ama e quer ser amado. Jesus mesmo desejou ardentemente comer aquela ceia com os seus amigos antes de morrer. É um desejo ligado ao amor e ao mesmo tempo contagiado de alegria, pois apesar de já ter feito isso em outras ocasiões, essa era uma ocasião especial, a de que seu desejo estaria ligado com o mesmo desejo do Pai, numa atitude de completude.
No amor há um desejo de se completar no outro. No ser humano isso corresponde ao amor erótico, na perspectiva de integrar-se na completude do outro, mas não devemos viver somente do amor erótico, também do amor ágape e do amor filia.
No relacionamento, quando se dá e se recebe, há um processo de volta, volta-se com um pouco da identidade do outro. Isso prova que houve interação, mesmo. Jesus reconhece que no seu amor há uma identidade do amor do Pai: ‘Como o Pai me ama, assim também eu amo vocês’ (Jo 15,9). É o que acontece com as culturas. Nenhuma cultura que se encontra com a outra fica pura de si mesma, mas há algo da outra cultura que ficou, que foi absorvida. Quando se ama, se parece com o outro.
O Pai vê a humanidade a partir do Filho encarnado. Se existe um corpo glorificado do Filho, esse corpo está marcado pelas chagas da paixão, que foram consequências de quem muito amou. A glorificação não anula as marcas das chagas, porque o amor continua, permanece. A divindade faz com que a humanidade entre no seio da Trindade. A questão da união e da fidelidade é algo que é característica do amor redentor de Deus. Existe uma unidade que jamais vai se separar. A redenção passa pela cruz, mas o glorificado está marcado pelas chagas da paixão.