quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Ministérios litúrgicos musicais e o Espírito Santo

Eurivaldo Silva Ferreira
           
            Nosso ministério pastoral passa pelas relações de ternura, amizade, carinho e pelo contato físico, olho no olho, além de todos os sentidos. Uma jovem de minha comunidade paroquial disse que temos que deixar fluir nosso ministério na força do Espírito. É assim que o Espírito age na Igreja, pela força ministerial de quem se coloca a serviço da Liturgia. O Espírito toca em nosso ser através de nossa corporeidade, isto é, o Espírito só age se tivermos corpos físicos. Na profecia Ezequiel, o Espírito que agia naqueles corpos substituiria o coração de pedra por um coração de carne (Sétima Leitura da Vigília Pascal – Ez 36,16-17a.18-28). Esse relato continua como leitura da Vigília de Pentecostes, na passagem em que os ossos secos são vivificados pelo Espírito (Joel 37,1-14). Também o profeta Joel, na Liturgia da Vigília de Pentecostes fala do derramamento do Espírito (Joel, 3,1-5). Outra passagem é a bonita imagem das línguas de fogo pousando na cabeça de cada participante daquele cenáculo no relato dos Atos dos Apóstolos. Mas, o fruto desse toque do Espírito foi a linguagem, em que cada um, apesar de falar sua própria língua, pôde compreender o outro, e juntos pensarem na continuidade da missão.
            Nossos dons musicais são frutos dessa linguagem, e os colocamos a serviço da comunidade. Que bom que isso é obra do Espírito. De tal forma que podemos dizer que o Espírito age em nosso corpo e em nossos sentidos, dotando-nos de sabedoria, por completos, interna e externamente. Mas ele age também em nossa maneira de compreendermos os aspectos de nosso ser Igreja, que tem uma estrutura de oração universal, que é a Liturgia, feita de ritos e preces. Mas, o que o Espírito tem a ver com Liturgia?
            Na Liturgia, tudo fazemos por obra do Espírito. É por ele que invocamos a transformação do pão e do vinho em corpo e sangue de Jesus. É por ele que a assembleia se reúne. É ele que age na pessoa de quem preside a celebração, de quem lê, de quem canta, de quem exerce um ministério... É ele que também age quando nós escutamos a Palavra. Age no silêncio do nosso coração, acolhendo as palavras que agora são uma só Palavra, Jesus Cristo. Na Liturgia, somos chamados a exercer nosso ministério, como povo celebrante e sacerdotal que somos. Evidenciando o mistério pascal que quer se aproximar de nós, como amigos, conosco se entreter, por isso nosso zelo em celebrar bem a Liturgia. Nela, através dos ritos e das preces, somos motivados, ativa, consciente, plena e piedosamente a participarmos, não como seres estranhos, mas como atuantes, instruídos pela Palavra e alimentados pela Eucaristia. Ou seja, nós pedimos que Deus venha até nós e nos faça elevar-nos até ele. A Liturgia é então um ato de nos divinizar, de nos encher de graça. É isso que a pessoa que preside diz em todo início de celebração: “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam com vocês!”. Ouvindo essas palavras supomos que já temos a graça no nosso cotidiano e que também a levamos para a Liturgia. Essas palavras soam em nossa assembleia como memória, recordação da graça. Embora essa graça que é perfeita, nós por muitas vezes, esquecemos que ela age em nós, eficazmente. A Verbum Domini diz que o sinal de não acolhimento da graça é a não escuta à Palavra de Deus. O pecado então é o fechamento da audição à Palavra, o que tem como consequências várias outras impossibilidades. Por isso sempre voltamos à Liturgia, para fazer memória da graça, nos predispondo a ouvir a Palavra e nela fazermos nossa adesão.
            Eis um sinal eloquente de que a Liturgia é um meio de passagem de nossa existência corporal para uma realidade espiritual. A Liturgia que celebramos aqui é como que um ensaio daquilo que será no céu. Por isso deve ser bem feita, pensada e estruturada, visando a participação de todos no todo da Liturgia.
            Na Liturgia, os sinais sensíveis são como que mediadores para compreendermos uma realidade invisível, ou seja, imploramos pela graça que opera em nós, por meio de sinais simbólicos, veículos condutores do sagrado, ao mesmo tempo transcendendo-nos. Essa linguagem nós a usamos para todos os sacramentos e sacramentais.
            A música litúrgica é um sinal sensível, por isso a música tem força sacramental, força de condução da graça, do mistério que está em sua letra, sua melodia perpassa para a voz de quem canta, na sua execução com ternura, ao mesmo tempo consciente da natureza desse mistério implícito. A música, quando bem feita, executada e cantada por todos, contém o verdadeiro sinal que expressa a unanimidade das vozes, simbolizando a unidade da Igreja reunida em assembleia.
            Quiçá, nós, músicos, possamos compreender que o Espírito opera em nós com sua força invisível. Oxalá nossa formação esteja voltada para apreender os segredos mistéricos que estão presentes nos ritos e nos ajude a elaborar cada vez mais uma música litúrgica que ajude o povo a corresponder melhor o transcendente.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

E a Igreja se fez show...

Eis uma ótima reflexão sobre a midiatização da Igreja, ensaiada por Cezar Kuzma, leigo, professor de Teologia da PUC/PR, doutorando em Teologia pela PUC/RJ, à qual nos faz pensar sobre esse fenômeno da pós-modernidade: religião x midiatismo. Boa leitura.

Neste último domingo, dia 19 de junho (de 2011), assisti a apresentação do Pe. Reginaldo Manzotti no “Domingão do Faustão”. Com certeza, o Pe. Manzotti alcançou a fama que procurava há muito tempo e hoje se tornou tão conhecido como o Marcelo Rossi (a quem imitou e seguiu) e outros "midiáticos" da Igreja Católica no Brasil e, também, do mundo da música e do entretenimento. No entanto, tal apresentação me faz parar e refletir alguns pontos: 1) O que representa para a Igreja Católica atual uma personalidade assim? 2) O que ele traz de novo, ou se realmente ele traz algo novo? 3) Que imagem de Igreja estamos passando para a sociedade com uma pessoa assim e, obviamente, para a própria Igreja, hoje tão carente de formação? Cada um destes pontos merece uma análise profunda, que não faremos, a ideia é apenas uma breve reflexão sobre o assunto, crítica, mas respeitosa.
O Documento Lumen gentium do Concílio Vaticano II (1962-1965), que apresenta uma reflexão dogmática sobre a Igreja, destacando sua natureza e missão, começa assim: "Lumen gentium cum sit Christus", ou seja, a Igreja é luz para os povos assim como Cristo. Ser luz, no entanto, é transmitir a mensagem do Evangelho, na qual Cristo é a luz. A Igreja, que somos nós, não tem uma luz própria e não prega a si mesma e, consequentemente, não conduz as pessoas a si, pois ela não é o fim, o destino de todos. A Igreja é iluminada pela luz de Cristo, cujo Espírito a conduz. A Igreja, como "luz do mundo" anuncia Cristo e o seu Reino e conduz as pessoas a este fim, a este éschaton (destino último); assim ela é sinal e sacramento. Este mesmo documento apresenta-nos o papel dos batizados, que compõem a Igreja de Cristo, discernindo a sua vocação e missão. Isso fica claro quando ela nos remete a questão do serviço, um serviço ao Reino, a exemplo de Jesus, que na sua humildade e pequenez conduziu as pessoas à esperança num reino de amor, justiça e paz; um Jesus que declarou bem-aventurados os pobres e, a partir deles, iniciou o seu testemunho, fazendo-se pobre para de tudo nos libertar, sendo ponto de justiça, caminho e verdade.
Preocupa-me saber o que representa o Pe. Manzotti para a Igreja e para a sociedade brasileira atual. Será que ele representa o seguimento de um Jesus pobre da Galiléia, tão profundamente descrito nos Evangelhos, ou será que ele representa a si mesmo, diante do orgulho e da vaidade, pecado tão sutil aos membros da mídia, ou daqueles que são feitos ou produzidos por ela? Quem fez o Pe. Manzotti e a sua fama e o que ele representa? Será que ele representa a Igreja Católica ou representa as gravadoras e emissoras de rádio e TV em que atua? O Pe. Manzotti anuncia a "boa nova" do Evangelho ou anuncia a "sua boa nova", tão frágil e carente de conteúdo. Com certeza, o Pe. Manzotti não representa a Igreja que eu sigo e acredito, pois sua pregação, atuação e postura estão muito longe (mas longe mesmo!) do que entendo como proposta de seguimento, discipulado e missionariedade. Não falo apenas das letras de suas músicas (muitas delas, por sinal, com graves erros teológicos que educam o povo erroneamente); não falo das suas fotos sensuais nos álbuns dos CDs; não falo dessas situações, pois é pequeno demais e nem vale a pena; mas falo da postura, atuação e pregação que deve ter um cristão, quer ele seja um leigo, um religioso ou um padre, mas uma atuação de seguimento e de exemplo... Lumen gentium! É uma pena, pois um projeto de inculturação da fé deveria ser um serviço de integração com a sociedade e não uma maneira de ser refém desta, juntando seu capital, glamour e aparência. Uma Igreja que propõe discipulado e missionariedade com o Documento de Aparecida (2007) fica a mercê diante desta forma de "evangelizar". O que representa o Pe. Manzotti? Bem, certamente, representa a si mesmo e a sua imagem...
É evidente que sua pregação não traz nada de novo, pois dentro de músicas modernas se esconde uma postura de Igreja fechada e clerical, que coloca o padre (o sacerdote, maneira como ele sempre se apresenta) em destaque diante dos fiéis. Antes tínhamos o padre que apenas rezava a sua missa, deixando o povo na expectativa, como alguém que sempre recebe. Agora temos o mesmo padre com suas vestes carregadas e pomposas (como de antigamente) tornando-se um cantor e animador de auditório em programas de televisão e em praças públicas pelo Brasil. Não negamos que a Igreja deva adotar uma nova postura diante da sociedade moderna e pós-moderna, de maneira a integrar mais as pessoas e seus novos problemas e questionamentos. Acontece que posturas assim envolvem o povo em luzes e sons, transformando o altar num palco e a Eucaristia num show, totalmente oposto aos ensinamentos da Igreja e totalmente contraditório com a proposta de Jesus, que se tornou igual e semelhante ao seu povo e só assim pôde conduzi-los no caminho do Reino (Fl 2,6-9). O Pe. diz que não faz show; fico em dúvida, então, para saber o que ele faz... Um dos seus programas de televisão chama-se "evangeliza show", algo próximo ao "show da fé" de R. R. Soares. Há que se entender que Igreja não é show business. Quando a Igreja passa a ser show ela deixa de ser comunidade, ela deixa de ser o local onde as pessoas se reúnem para partilhar do mesmo pão, ao redor de uma mesma mesa, tornando-se um só, em Cristo. Quando a Igreja se torna show ela deixa de ter eclesialidade, pois tira dos seus membros a participação ativa diante de sua missão, pois ninguém se conhece, todos são "turistas religiosos" atrás de um cantor, que neste caso, também é padre. Quando a Igreja se torna show ela se distancia drasticamente da proposta do Evangelho de Jesus, que nasceu pobre numa estrebaria, que viveu pobre na Galiléia e que morreu pobre e sozinho numa cruz em Jerusalém.
Mas alguém poderá dizer: mas ela fala tão bem, ele atrai tanta gente... Não nego que tenha méritos, e deve haver, mas questiono a forma e o modelo com que faz tais coisas. Até que ponto as pessoas seguem a Cristo e não o Padre? Até que ponto as pessoas vão à missa pelo Padre e não pela comunidade? Até que ponto as pessoas estão usando isso para um alimento pastoral e engajamento, e sim, para um aumento do individualismo e do culto ao "Eu-com-Deus", distanciando-se de uma proposta de Igreja de comunhão? Até que ponto a mensagem do Evangelho é atrair mais pessoas para a Igreja Católica (ou para outra Igreja)? Esta nunca foi a proposta de Jesus Cristo.
Quando questionado pelo rico faturamento que seu projeto traz, ele rapidamente diz que o dinheiro é para o projeto "Evangelizar é preciso" e não para ele. Mas o que é este projeto, que não fazer a divulgação dos trabalhos, CDs, livros, shows e produtos do padre? Evangelizar é preciso, é claro, mas o que é mesmo evangelizar? Se evangelizar for montar um projeto milionário, se for ser amigo do governador do Estado, aliado de pessoas da elite social e fazer shows, gravar CDs e ter programas de televisão e rádio, acho que não sei mesmo o que é evangelizar. Se fosse assim, Jesus deveria ter começado a sua missão no palácio de Herodes, na casa de Caifás e Anás e ter um grande acordo com Pôncio Pilatos, ao invés de começar em uma aldeia de pescadores da Galiléia. Acho que tudo isso é importante e deve e pode ser feito, desde que o horizonte último seja Cristo e o seu Reino, desde que isso possa ser multiplicado nas pequenas coisas e exemplos do cotidiano. Num momento em que Igreja reflete a sua eclesiologia (sobre a Igreja) em tentativa de resgate a pequenas comunidades, menores e mais concentradas, mas com mais vigor e postura evangélica, tal postura do Pe. Manzotti vai contra este pleito.
Preocupa-me saber que imagem nós estamos passando de Igreja, preocupa-me saber que Igreja nós estamos formando para nossos filhos e membros e que mensagem de Reino nós estamos passando à sociedade. Foi-se o tempo em que cantávamos na missa ou nos grupos sem nos preocupar de quem era a música ou o CD (disco ou cassete na época), foi-se o tempo de que as músicas religiosas tinham mais teor evangélico e mais coerências sociais (ainda encontramos isso no Pe. Zezinho e Zé Vicente e em alguns outros), foi-se o tempo em que pertencer a determinada comunidade trouxesse ao cristão uma identidade viva e coerente, capaz de ligar a comunidade a sua vida, e assim por diante. Há um crescimento do turismo religioso motivado por fenômenos como o Manzotti, mas um declínio de conteúdo e discernimento da fé. Parece que damos razão a nossos interlocutores críticos da religião como Marx que disse: "A religião é o ópio do povo". Quando a Igreja se faz show, vemos que Marx tinha razão, pois ao invés de libertar ela aliena, pois o aprisionamento religioso faz parte de sua postura ideológica. Lamentável!
É lamentável entender que a Igreja Católica no Brasil hoje passa a ser representada por padres midiáticos como este, onde sua proposta de missão obedece mais aos interesses das gravadoras como "Som Livre" e outras do que a proposta do Evangelho. Esta representação deixa um Jesus de Nazaré pequeno, quase esquecido, diante das luzes que compõem o grande espetáculo. É triste entender e lembrar que no passado estávamos representados (e muito bem!) por pessoas como Dom Helder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Ivo e Aluisio Lorscheider, Dom Pedro Casaldáliga e tantos outros que deram a sua vida de fé em favor da paz, do amor e da justiça, testemunhas autênticas do Evangelho, e hoje, quem diria, somos representados por pessoas assim... É uma pena que pessoas tão importantes e atuantes pelas causas da Igreja só sejam reconhecidas depois de mortas em martírio, como Irmã Doroty e tantos outros, esquecidos por nós (Igreja) e pela sociedade. É uma pena imensa que pessoas atuantes em pastorais sociais e em diversos movimentos sejam muitas vezes esquecidos pela Igreja ou punidos por ela (TdL) por defenderem a causa da justiça contra os ricos e poderosos; ricos e poderosos que sustentam esta estrutura piramidal e patrocinam "novas lideranças" como o Pe. Manzotti, que pela postura, servem a seus interesses.
É triste dizer que a Igreja se fez show...

Cesar Kuzma (Teólogo leigo, católico, professor de Teologia da PUCPR. Assessor em grupos e movimentos eclesiais)

domingo, 23 de outubro de 2011

O Tempo do Advento: Vem, Senhor Jesus!


Eurivaldo Silva Ferreira
O Tempo do Advento, pelo qual se inicia um novo Ano Litúrgico, relaciona-se com a proposta da Igreja que se faz presente no mundo. Ela anseia pela vinda do Senhor, mas enquanto sua vinda não se faz plenamente, celebra, louva e distribui os sacramentos, na esperança de sua plena concretização. Este tempo, em preparação ao Natal do Senhor, suscita o desejo de que o Senhor venha. Tanto no Tempo do Advento como no Natal dá-se a realização plena do mistério pascal de Cristo, tudo pela ótica do seu nascimento e de sua concepção terrena, porém, sem perder de vista a ressurreição, pela qual passaremos um dia, ocasião em que pertenceremos à comunidade dos justos (cf. Oração Inicial do 1º Domingo do Advento). Eis o sinal sacramental próprio do tempo.
O conteúdo presente nos sinais sensíveis da liturgia desse tempo (leituras, personagens, músicas, gestos, imagens, paisagens...) podem levar os que creem a vivenciarem melhor esse tempo com sinais de que suas certezas não são em vão, e de que o Reino de Deus, ainda que demore, pode ser uma realidade do hoje, vivendo-se a tensão do “já” e do “ainda não”, como afirma São Bernardo. As atitudes de expectativa, de espera e de esperança da firme concretização do Reino de Deus são índoles da própria Igreja, que vive neste mundo sob o influxo do domínio do mal, mas que ‘geme e sofre como que em dores do parto’.
Portanto, viver o Advento é viver com uma alegre e feliz espera na expectativa da concretização do Reino de Deus entre nós, através da segunda vinda daquele que veio na carne humana, ocasião em que se dará a feliz realização do Reino. Mas essa espera é revestida de uma esperança escatológica (escathon, do grego = fim último), em meio a tribulações e sofrimentos, assim como viveu o “Filho do Homem” (Lc 21,27), e que se torna sinal de esperança, sinal de que a salvação de Deus prometida desde o Antigo Testamento está inserida na história humana. Acerca da instauração do Reino de Deus, com a vinda de Jesus, acorremos às profecias de Daniel.
No Tempo do Advento, nossa atitude é de termos a cabeça erguida, de estarmos despertos e acordados, como diz São Paulo na Carta aos Romanos (cf. 2ª leitura do 1º Domingo – Ano A), a fim de que percebamos no decorrer da história os sinais de libertação, que passa pela palavra e pelo conhecimento, sinal da graça concedida ao Cristo por Deus (cf. 2ª leitura do 1º Domingo – Ano B). Os sinais de libertação são reconhecidos, sobretudo, nos acontecimentos históricos, cujas imagens simbólicas próprias do tempo nos ajudam a compreender como é que se deu no passado, trazendo para o ‘hoje’ (cf. todas as Primeiras Leituras dos Anos A, B e C), tendo como atitudes os princípios da vigilância e da oração, consequência da santidade (frutos próprios do tempo). Essas atitudes preparam o coração para a grande vinda, a escatológica (última vinda), e nos conforta sua presença misteriosa através da ação litúrgica (memória da primeira vinda) e através dos pequenos gestos realizados em prol do/a outro/a (vinda intermediária de Cristo), mas que com o auxílio de Deus, isso é possível.
A segunda vinda de Cristo nos concede os bens prometidos na plenitude. Essa salvação é concedida a todas as pessoas, ao mundo, ao cosmos, por isso o homem/a mulher são os responsáveis por acolherem a salvação, primeiro ‘abrindo o coração’, ‘aplainando os caminhos’, ‘abaixando as montanhas’. As leituras deste tempo mostram isso, a alegria do povo que se volta, que espera, que permanece fiel, na expectativa da vinda do Messias.
Podemos dizer que celebrar o mistério pascal no Tempo do Advento é manifestar no rito e na vida um momento novo para a humanidade nova, para o mundo novo. De fato, a Igreja diz que é necessário se viver num eterno Advento, afastando o mal, pois Deus age como um agricultor que recolhe os grãos no celeiro, ou como um lenhador, que coloca o machado ao toco, pronto para cumprir sua missão.
Maria, a imagem da Igreja é a portadora da Arca da Aliança, no seu ventre, sinal da salvação, por isso se entrega totalmente ao projeto de salvação de Deus. Maria é, portanto, a nossa imagem. Os personagens deste tempo nos ajudam a compreender como é que Deus age em prol da humanidade a fim de salvá-la, guardando-a do mal, mostrando a todos o verdadeiro Sol do Oriente, que ilumina todos os povos que andam por entre as trevas, conforme canta Zacarias. Com Maria, vivendo a sobriedade do Tempo do Advento, a Igreja canta o Maranatha: Vem, Senhor Jesus! Este canto se traduz  ao mesmo tempo em suplica ao Pai, pelo qual a Igreja pede a graça de conceder-lhe celebrar o nascimento de Jesus, que é festa de prazer e salvação, com alegria transbordante! (cf. Oração Inicial do 3º Domingo do Advento).
        Que neste Advento possamos compreender na expressividade da liturgia o entendimento da compreensão do mistério da encarnação e glorificação de Cristo, mistério que se desdobra em pequenos aspectos durante todo o Ano Litúrgico. Tendo como princípio esta pedagogia, também nós possamos viver na Igreja a grande liturgia do mundo, ansioso pela espera do Senhor que vem, mediante os sinais e as palavras, as imagens e a paisagens, os personagens e as promessas, próprios do Tempo do Advento.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Relato de uma experiência na 25ª Semana de Liturgia


Olá gente amada...
A todos e todas uma pequena partilha...

"Traz na viagem, sonhos e esperança, pra alimentar quem quer resistir"...

A 25ª Semana de Liturgia, fez ressoar novos tempos, trazendo uma esperança que é jovem, um tempo novo onde a Juventude é protagonista da liturgia da vida mergulhada no Mistério de Cristo.
É desse mesmo mistério que bebemos e comemos todos os dias, quando lutamos pela vida, doamos a vida, entregamos a vida..." vidas pela vida,vidas pelo Reino"...
A Liturgia é a fonte e o cume da manifestação do amor de Deus na nossa vida, do mesmo modo que "liturgia é toda a nossa vida, toda ela é louvor a Deus"... É Ele que age primeiro em nós!!!

E não há mais nada mais urgente que olhar para a vida, especialmente da Juventude, que morre...
De um projeto que os inclua e os torne protagosnistas da nova Igreja, transformada em Sacramento da novidade como lugar de Deus, A juventude como espaço teólogico...

Com alegria digo, que o laboratório dessa Semana Liturgica foi verdadeira experiência de Deus, com o sopro do Espirito Santo refletimos com luzes da Sacrosanctum Concilium uma proposta de formação mistagógica junto à Juventude, a Juventude como realidade onde Deus se manifesta...

Essa proposta não está pronta, talvez ainda não tenha sido concebida, mas ela já mora no coração da Juventude. Basta apenas que preparemos a Terra para acolher a novidade que chega...A Juventude que mora no coração de Deus...

Entre os tantos momentos, percebemos as inquietações do todos e todas que lá estavam, como que querendo entender qual seria essa proposta...
E a Juventude estava lá, com seu jeito, com seus sonhos e suas experiências mostrando que uma nova proposta pode ser possivel, partilhando a experiência das Escolas de Liturgia, das Jornadas da Confiança etc...

Termino essa partilha com o coração mergulhado na Esperança de novos tempos, de uma Igreja que caminha sempre em direção de um horizonte, da libertação e de uma opção mais fiel ao Evangelho, aos pobres e jovens...

Com grande ternura um abraço a todas e todos que diariamente em suas comunidades tornam o rosto da nossa Igreja mais Juvenil e acolhedora...

Iva 

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

25ª Semana Nacional de Liturgia


Eu não pude participar da Semana de Liturgia, realizada entre os dias 3 e 7 de outubro de 2011. Estava em Curitiba, num Congresso de Teologia da PUCPR. Mas, meu amigo Diuan Feltrin, de Birigui-SP, que é jornalista, e tem uma ótima redação, fez uma gostosa descrição do que foi a jubilosa 25ª Semana de Liturgia, realizada em São Paulo-SP. Espero que os/as leitores/as gostem. Eu gostei. É claro que eu não deixaria de publicar neste blog esta belíssima resenha do que foram esses dias. Boa leitura a todos/as.


Paróquia participa da 25ª Semana Nacional de Liturgia

“Pode juntar-se a mesa, vamos da ceia provar. Cristo, o mistério pascal: és o mais fino manjar.” (Josenildo do Pajeú)


A Diocese de Araçatuba foi representada pela Paróquia Imaculada Conceição de Birigui na 25ª Semana Nacional de Liturgia, realizada entre os dias 3 e 7 de outubro na cidade de São Paulo. O evento foi promovido pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo em parceria com a Rede Celebra.  O tema foi “Liturgia e juventude: uma proposta de formação mistagógica”. Lideranças de todo o Brasil trabalharam juntas em prol de um objetivo comum: construir uma proposta metodológica de formação litúrgica com a juventude a partir da realidade juvenil.
No primeiro dia do encontro, os integrantes da Casa da Juventude de Goiânia (CAJU) fizeram memória dos temas trabalhados nos anos anteriores. Depois disso, houve a justificativa do tema escolhido para este ano, na qual os organizadores frisaram a importância de resgatar a espiritualidade juvenil, que se encontra imersa no vasto rol de liturgias midiáticas. Os cerca de 220 participantes foram subdivididos em grupos, de modo a elencarem as inquietações e os desafios encontrados na relação liturgia e juventude em nossas comunidades.
Essas discussões foram o ponto de partida para todo o trabalho subsequente, que uniu teoria e prática a fim de responder à questão de como superar tais desafios a partir de formação de jovens para a compreensão do mistério que envolve a liturgia. Nos dias seguintes, os participantes trabalharam teorias acerca do processo de formação mistagógica (iniciação ao mistério), unindo-as à prática, num processo denominado construção do conhecimento em conjunto.

Juventude
Para se trabalhar com a juventude é preciso conhecê-la. Para isso, no segundo dia do evento, o sociólogo especialista em juventude, Alex Pinheiro, e o filósofo Renato Almeida trabalharam o tema Realidade Juvenil, momento no qual apresentaram as visões sobre o vasto mosaico de diversidades que envolvem a juventude atual. Ser jovem é uma condição de vida, que não pode jamais ser desvinculada da realidade. Por isso, os assessores versaram sobre o fato de que a celebração não pode ser relegada ao ritualismo aquém da realidade, pautado exclusivamente na emoção sem compromisso social, como podemos ver em alguns grupos da Igreja.
Segundo eles, é necessário também desconstruir o “juventudecentrismo” que domina a sociedade contemporânea, ou seja, a visão falaciosa que reduz a juventude a uma classe a parte, com responsabilidades diferentes das demais. É necessário fazer com que o jovem se sinta integrante da realidade e da ação litúrgica, portanto, precisa-se “dar voz àquele que está chegando”. Mas para que isso aconteça, segundo Pinheiro e Almeida, “é preciso que os demais diminuam para que os outros possam crescer.”

Liturgia e Mistagogia
Também no segundo dia, Padre Gregório Lutz falou sobre o que é liturgia, frisando o sentido teológico da participação a partir do Concílio Vaticano II. Para ele, a liturgia é o grande Amém do povo à obra salvífica de Deus. “A liturgia é a união entre a Páscoa do povo e a Páscoa de Deus. É a antecipação da liturgia celeste, pois nos possibilita unirmo-nos aos anjos e aos santos para celebrar por força do Espírito, formando uma perfeita unidade”.
Dando continuidade à fundamentação teórico-litúrgica do segundo dia, Padre Hernaldo Farias, assessor de liturgia da CNBB, trabalhou o tema da metodologia mistagógica, que é a base da formação litúrgica. Por mistagogia, se entende iniciação ao mistério, ou seja, trata-se de processo de formar o indivíduo para que este enxergue além do rito e do sensível, construindo a fé a partir da liturgia. Já por método, Hernaldo frisou ser a maneira de ensinar segundo determinada ordem, ou seja, é o “como fazer” e sua fundamentação; trata-se do caminho a ser percorrido para se construir o conhecimento. A formação mistagógica jamais deve prescindir a interpretação do rito em consonância com sua descrição e interpretação a partir das Sagradas Escrituras, que dão fundamento a ação ritual.
Após a explanação de Hernaldo, Frei José Ariovaldo da Silva, do Rio de Janeiro, propôs uma explicação acerca do Ritual de Iniciação Cristã para Adultos (RICA), como caminho para a formação mistagógica. Segundo Frei Ariovaldo, o RICA proporciona um “processo de transformação vital e existencial, no qual os iniciantes mergulham no caminho proposto por Jesus Cristo.” A base do RICA é a vivência do rito, na qual o indivíduo é chamado a elaborar o rito enquanto integrante do processo, experimentando sua essência.

Formar para a Liturgia
O terceiro dia da Semana de Liturgia começou com a CAJU, esta apresentou sua experiência no processo de formação litúrgica para jovens a partir da Escola de Liturgia, que possui uma formação sistematizada de aprimoramento de lideranças juvenis que leva os participantes a mergulharem de fato no mistério.
Em seguida, a doutora em teologia dogmática com concentração em liturgia, Ione Buyst, explanou o tema “Formar para participar na Liturgia”. Para Ione, é necessário primeiramente que se pense na figura do jovem como novo ator social e, a partir daí, estabelecer a formação para determinado tipo de juventude. Ou seja, é preciso conhecer o chão onde se pisa. Ione afirmou que a liturgia deve estar a serviço do mundo e que, portanto, deve estar voltada para a realidade.  “São inúmeros os grupos e movimentos que nos levam a pensar sobre para qual tipo de liturgia queremos formar. O que se vê por aí é uma verdadeira ‘guerra litúrgica’ que deve ser superada”, criticou.
Ione partiu do pressuposto de que o processo de formação litúrgica deve ser anterior à formação litúrgica propriamente dita, porque os preliminares são condições indispensáveis para a mesma. Antes de se formar para o “fazer liturgia”, o indivíduo deve ser levado a recuperar sua sensibilidade mediante o cosmos e a si mesmo; é preciso ver além das aparências e significantes; é necessário aprender a calar, a ouvir, a cheirar e experimentar; é preciso instigar a busca pela harmonia entre fazer, saber e saborear; é preciso buscar a inteireza do ser. Segundo Ione, sem esses gestos básicos, trabalhados na técnica do Laboratório Litúrgico, não existe liturgia.
Para Ione “é preciso ajudar a pessoa a descobrir o mistério e instigar a tomada de consciência de que ela está inserida no mistério. O mistério ocorre nos acontecimentos sociais. Por isso é preciso discernir os sinais do mistério que acontecem na vida e não se limitar somente à participação, mas sim, relacioná-la à missão”.

Técnicas para a formação mistagógica
Ainda no terceiro dia de formação, os participantes formaram grupos nos quais estudaram e vivenciaram técnicas específicas para uma formação litúrgica, com o olhar de como aplicar esta técnica para a formação da juventude. As técnicas foram: Leitura orante; Produção do conhecimento em mutirão; Método ver, julgar e agir; Laboratório Litúrgico; Preparação da celebração (ofício, celebração eucarística dominical, celebração da palavra, DNJ e ensaio de canto); Observação participante.
Após a participação nos grupos, as experiências foram partilhadas na grande plenária. Cada grupo explorou as particularidades da técnica estuda.
No sexto dia do evento, os grupos deram continuidade a seus laboratórios, mas desta vez, evidenciou-se a experiência. Todos iniciaram a vivência a partir do “despertar a consciência do corpo”, etapa que visa o autoconhecimento, a inteireza do ser e o controle das mais diversas emoções. Após esta etapa cada grupo fez sua vivência de atitudes e gestos do corpo nos ritos iniciais, expressando o sentido teológico e a atitude espiritual correspondente a um pequeno recorte desta parte da celebração.
Segundo Osmar Bezutte, padre e músico da CNBB, o canto de entrada deveria integrar a assembleia ao mistério proposto pelo rito, pois neste momento a comunidade participante vai sendo constituída. O sinal sensível (letra, melodia, voz, canto) aí ressaltado no canto de entrada é elemento contribuinte para essa constituição da assembleia.

Balanço geral
Ainda no sexto dia, os grupos formados no primeiro dia da semana voltaram a se reunir. Desta vez, o objetivo foi traçar um paralelo entre as inquietações e desafios elencados no primeiro dia e as propostas trabalhadas no decorrer da semana. Cada grupo relacionou os elementos a serem considerados no processo de formação litúrgica com a juventude.
Após as reuniões em grupos específicos os secretários se reuniram e estabeleceram um consenso entre as ideias, que foram apresentadas na grande plenária da sexta-feira. Ficou em evidência que a formação mistagógica deve ser um processo contínuo tanto para os jovens quanto para os formadores, ou seja, a formação e atualização não podem parar jamais. Quanto à metodologia de formação, deve-se partir sempre da realidade do grupo estudado, por isso as técnicas ver, julgar e agir, bem como a observação participante auxilia muito no processo de formação, pois ajudam os assessores a compreenderem a totalidade do grupo que receberá a formação.
  
A Semana Nacional de Liturgia 2011 foi uma experiência enriquecedora. Além do conteúdo estudado durante todos os dias, fica também válido como conteúdo as relações estabelecidas entre os participantes, que proporcionaram compartilhamento de experiências. A espiritualidade conduziu todo o encontro, com celebrações diárias do Ofício Divino das Comunidades, Ofício Divino da Juventude e Celebração Eucarística.
Fica agora a missão a qual todos foram enviados: levar às nossas comunidades uma nova proposta de formação para o mistério litúrgico, levando os participantes a compreenderem a inteireza que envolve as celebrações litúrgicas; é preciso reencantar o povo a viver o grande mistério da vida.
Este desejo de ingressar na missão foi representado pela grande ciranda, na qual todos embalados pelo ritmo de “Indo e vindo, trevas e luz, tudo é graça, Deus nos conduz”, foram enviados às suas comunidades, com muita coragem e iluminados pela grandiosidade do mistério da vida.


Diuan Feltrin – Pastoral da comunicação