quinta-feira, 24 de abril de 2014

De Rosemary Fernandes da Costa, obra reflete sobre Mistagogia hoje

Mistagogia hoje – O resgate da experiência mistagógica dos primeiros séculos da Igreja para a evangelização e catequese atuais é fruto de uma pesquisa longa, na bibliografia de referência, mas também da observação e escuta da autora nas comunidades religiosas, tanto nas escolas como nas equipes de pastoral de muitas paróquias. O objetivo é contribuir para que as comunidades encontrem caminhos para tantos desafios que vêm surgindo nos processos de evangelização que desenvolvem.
Mistagogia é uma palavra pouco usada, mas tem uma semelhança com a palavra “pedagogia” , bem conhecida de todos nós. O que muda é o prefixo. De acordo com a autora, seu sentido aponta para a atitude de conduzir para dentro do mistério, a arte de conduzir, de encaminhar, de orientar para a abertura, a escuta e as respostas pessoais e processuais ao que o Mistério nos revela e convoca.
“No Cristianismo, o mistério se revela em Cristo, então, a mistagogia é a condução sensível e carinhosa para a experiência de encontro profundo com o Deus revelado em Jesus. E esse Deus já está aí, no coração de cada pessoa, orientando, sinalizando, chamando à vida e ao bem. O mistagogo é, portanto, aquele que se coloca como mediador desse encontro, entre Deus e a pessoa; alguém que se sintoniza e vai de mãos dadas, auxiliando esse diálogo”, explica a autora.
O livro é chave de leitura para as comunidades locais, tanto aquelas que trabalham com a educação religiosa como para as que atuam na iniciação, formação e aprofundamento religioso. Além do diagnóstico, que muitas vezes nos angustia e até paralisa. Ele nos oferece uma nova (velha) compreensão da missão de evangelizar, mobiliza e motiva para repensarmos os grupos nos quais trabalhamos e participamos com um projeto fundado nas primeiras comunidades cristãs. “Quem se dedicar a essa leitura vai encontrar repouso, alimento, alegria e muita motivação para as experiências religiosas”, enfatiza Rosemary Fernandes da Costa.
No processo de elaboração da obra, a autora diagnosticou as questões presentes nas comunidades pastorais e pedagógicas que, na verdade, são próprias do paradigma moderno, no qual estamos imersos. Encontrou muitas orientações do Magistério atento às questões das comunidades: documentos tanto provenientes do Vaticano, como da CNBB. Retomou os estudos patrísticos, priorizando o final do século III e inicio do século IV, quando os Padres deram início ao Catecumenato nas comunidades. Nesta etapa, encontrou a experiência mistagógica, o coração de todo o processo catecumenal e, a partir dela, extraiu os principais aspectos que devem estar presentes em uma experiência catecumenal hoje para que seja um caminho mistagógico.
Rosemary Fernandes da Costa é doutora em Teologia pela PUC-Rio, onde também cursou seu bacharelado em Filosofia. Atualmente é professora da PUC-Rio, do Colégio Estadual Heitor Lira, e orientadora religiosa no Colégio Teresiano CAP/PUC. É criadora e coordenadora do curso de Pedagogia da Fé, no Centro Loyola de Fé e Cultura, função que também desenvolve na Arquidiocese do Rio de Janeiro. Assessora agentes de pastoral e formadores na área de Iniciação Cristã, Catequese e Catecumenato. Tem experiência na área de Teologia, com ênfase em Pedagogia da Fé.
Extraído de: www.paulus.com.br

sábado, 19 de abril de 2014

Vigília da Ressurreição no Sábado Santo


  
   Eurivaldo Silva Ferreira  
         Inicia-se esta celebração com uma fogueira do lado de fora da Igreja, na qual é aceso o círio, e solenizado com o canto do Exulte, que mais acentua um elogio à noite, aquela em que Cristo ressuscitou. Por isso, como sinal cósmico, a noite em que se realiza esta celebração é a lembrança daquela noite em que só ela testemunhou a ressurreição.
         Na noite do Sábado Santo, cantamos o esplendor de uma luz que jamais se apagará. Proclamamos as maravilhas de Deus que nos libertou das trevas da morte e nos devolveu à vida. Revigoramos nosso compromisso batismal. E enquanto nos alimentamos da ceia eucarística, cantamos: “Celebremos nossa páscoa na pureza, na verdade. Aleluia!”[1].
         Esta noite é considerada especial, pois é celebrada “em honra do Senhor”, por isso a chamamos como “mãe de todas as vigílias”, já que é nela que a Igreja toda permanece à espera da ressurreição do Senhor e celebra-a com os sacramentos da iniciação cristã[2].
         Já houve na história casos em que essa vigília foi antecipada para o período vespertino, chegando a ser celebrada pela manhã. Com a reforma da Semana Santa, a partir de 1955, Pio XII a retornou ao seu lugar de origem, ou seja, à noite.
         É uma noite memorável, pois lembra a libertação do povo hebreu, que livres da opressão do faraó, no Egito, atravessaram o Mar Vermelho a pé enxuto. Esta noite é para os judeus a lembrança de que Deus agiria em favor deles, libertando-os. Como memorial que deveria ser perpetuado, a pedido mesmo de Deus, nós a remetemos a Jesus, pois nesta noite, “Jesus rompeu o inferno, ao surgir vencedor da morte” (cf. Missal Romano)[3].
         É acentuada nessa celebração, bem como em toda a Semana Santa, a orientação de que pelo celebrar bem seja oferecido ao povo cristão a riqueza dos ritos e das orações[4]. Também fala-se da verdade dos sinais, uma questão que ainda temos que trabalhar muito em nossas celebrações, afinal a liturgia toda é feita de ações simbólicas e gestos, que devem ser realizados com tal dignidade e expressividade[5].
         A Vigília Pascal tem a seguinte estrutura:
         1. Na primeira parte começa com uma reunião fora da igreja, acendimento e bênção do fogo novo com solene procissão e apresentação do Círio Pascal, símbolo de Jesus ressuscitado, que vence a escuridão da noite. Em elogio à noite e ao círio é cantado um hino (o Exulte Pascal);
         2. Na segunda parte a Igreja contempla as maravilhas que Deus operou em favor do seu povo desde o início. É neste momento que são lidas as leituras que resgatam a ação de Deus libertando o seu povo. Todas as nove leituras desta noite são intercaladas por orações e salmos responsoriais, que favorecem a meditação e o silêncio. São sete leituras do AT e duas do NT: a Carta de Paulo aos romanos e o Evangelho. O zelo estético que se dedicam os leitores e cantores deve estar em atenção ao plano da participação mais atenta, vive e interior da assembleia.
         3. A terceira compreende às orações e o batismo daqueles que passaram por um processo catecumenal. Por eles se rogam, pede-se a intercessão dos santos e santas de Deus, a fim de que permaneçam nesse itinerário, agora sendo parte do povo de Deus. A assembleia de batizados também faz memória de seu batismo, ocasião em que foram regenerados pela água da vida, saindo de uma situação de morte.
         4. Na última parte, a liturgia eucarística, ápice de toda a celebração, toda assembleia, inclusive os que foram batizados, são convidados à mesa, preparada pelo Senhor para o seu povo, como sinal memorial da sua morte e ressurreição. É um sentido que podemos chamar de escatológico, em que se tem em mente a espera do Senhor que um dia virá.
         É nesta noite que voltam com toda a força o Hino de Louvor e o Aleluia, que são cânticos da assembleia ressuscitada, sinal do povo que se põe de pé, como a multidão do Apocalipse vestida de branco, rumo à Jerusalém celeste.
         Nesta noite a páscoa de Cristo se faz a nossa páscoa, celebrada pela forma do sinal, ou seja, do sacramento. Os elementos cósmicos desta celebração: fogo, água, pão e vinho, nos recordam a atuação de Deus no plano da história da humanidade, que quer salvá-la, ‘pascalizando-a’ por meio de Cristo Jesus.

Vigília Pascal, o que deve ser levado em consideração:
Nas leituras:
         Nas leituras da Vigília Pascal, começando por Moisés e seguindo pelos profetas, a Igreja interpreta o mistério pascal de Cristo. Essas leituras descrevem os acontecimentos culminantes da história da salvação, que os fiéis devem poder tranquilamente meditar por meio do canto do Salmo responsorial, do silêncio e da oração de quem preside[6].
         Importante lembrar que o significado tipológico das leituras do AT tem suas raízes no NT, e aparece sobretudo na oração pronunciada por quem preside depois de cada uma das leituras. Uma breve introdução, para chamar a atenção dos fiéis, poderá ser também útil para que se compreenda o significado das mesmas[7].
         Abaixo segue um esquema, deixado como exemplo de como as equipes de celebração poderão estudar as orações entre as leituras, a fim de que preparem suas introduções e comentários, ou até mesmo ajudem as comunidades a prepararem melhor essa celebração, por meio de um retiro, por exemplo:
Oração após 1ª leitura:
Significação tipológica
Ó Deus,
à luz do Novo Testamento nos fizestes compreender os prodígios de outrora
prefigurando no mar Vermelho a fonte batismal e,
naqueles que libertastes da escravidão, o povo que renasce do batismo.
Concedei a todos os povos que, participando pela fé do privilégio do povo eleito, renasçam pelo Espírito Santo.

Por Cristo, nosso Senhor.

Invocação
Memória (anamnese): recorda que a própria Palavra de Deus é interpretada por si (o NT explica o AT e vice-versa).
1º elemento tipológico: Mar Vermelho = fonte batismal
2º elemento tipológico: povo liberto da escravidão = povo renascido pelo batismo.
Súplica (pedido): que todos os povos participem pela fé do privilégio de pertencer ao povo eleito (ou seja, que todos tenham acesso às águas batismais).
Intercessão

         As leituras desta noite têm caráter bastismal. É através dela que o catecúmeno se conscientizara da ação de Deus atuando em sua vida através dos sacramentos. O relato dessas leituras nos faz entender que pertencemos a um povo que tem sua origem na criação do mundo, em Gênesis, e que se concretizou com Abraão, no intuito de percorrer lugares ainda incertos, mas sempre com a companhia de Deus, muitas vezes passando por momentos de opressão e de medo, até que aparece um libertador, que nos faz passar pelas águas da vida, mudando de uma situação de penúria para uma realidade de libertação. Foi assim mesmo que aconteceu com Jesus e com os profetas. Tinham o Espírito de Deus consigo, que os animava a sempre fazer a vontade de Deus, que os abastecia, com um coração novo, com água e com sua sabedoria. Nesta celebração, ouvindo esses relatos, somos reabastecidos com a fonte viva, a fonte batismal, e sabendo que o que aconteceu com Jesus é o mesmo que acontecerá com a gente (Deus não nos deixará abandonado na região dos mortos), cantamos sua ressurreição, explodindo num ‘louvai a Deus’, expressão do Aleluia pascal, porque Cristo é o protótipo do vencedor, daquele que, passando pela escuridão da noite, soube vencer o medo, a tristeza, até mesmo a morte. Por consequência disso, partilhamos alegres, pão e vinho, para a nossa ceia com o Senhor e com os irmãos, e prolongamos essa alegria por todo o tempo pascal, até Pentecostes, ocasião em que a Igreja se vê ajuntada nessa esperança espiritual de ser dom para a vida do mundo.
        
         Nos Salmos:
         Salmo 103 (104): relata a criação, que não é apenas boa, mas é sagrada, e é descrita e pensada na Bíblia dentro do esquema da história da salvação, ou melhor, como primeiro ato da história. As estruturas que sustentam a criação são o Espírito de Deus e a sua Palavra. Essa narrativa da criação, na qual se faz nova à luz da experiência pascal, a Igreja a lê na noite da Páscoa[8]. Contemplando este salmo, Santo Agostinho diz que ‘o trabalhador divino põe diante dos nossos olhos as maravilhas da sua obra, para estimular o nosso coração’[9].
         Salmo 15(16): este salmo exprime, na oração, o abandono confiante em Deus, em cujas mãos é colocada a vida. A referência a Cristo ressuscitado está evidente no versículo: “E minha carne repousa em segurança, porque não me abandonarás no túmulo, nem deixarás o teu fiel ver a sepultura”[10]. Relata a experiência de alguém que confia plenamente no Senhor, renunciando até a não obedecer a outros deuses; em meio a alegria, sente-se seguro, pois sabe que em Deus tem a garantia segura de que ele nem na morte o abandonará[11].
         Êxodo 15: é o término da terceira leitura. Uma espécie de continuação cantada daquilo que já foi lido. Naturalmente é com esse texto que se desenvolve a tipologia batismal em que se lembra da páscoa-passagem e da páscoa-paixão[12].
         Salmo 29: este salmo é a ação de graças de uma pessoa que se viu curada de uma doença mortal. O salmista começa por glorificar o Senhor pelo que lhe fez, a seguir convida os fieis a cantar salmos, só então dá inicio ao relato do que lhe aconteceu, por ter confiado nas forças do Senhor[13]. Seus versículos são uma exaltação e um louvor ao Senhor “que tirou do túmulo a minha vida, que me fez reviver dentre os que baixam à cova”, com evidente referência a Cristo ressuscitado[14].
         Isaías 12,1-6: a celebração da páscoa, sacrifício de aliança universal, torna-se atual para nós no convite à salvação que o profeta Isaías nos dirige na leitura anterior (cf. Is 55,1-11). Esta salvação é celebrada com ação de graças pelo próprio texto do profeta[15].
         Salmo 18(8-11): este salmo celebra a lei do Senhor. Se o pecado nos afastou de sua lei, o Espírito Santo, sabedoria divina, nos reconduz a esta família e faz com que nela permaneçamos[16].
         Salmo 41: com este salmo a assembleia expressa o desejo do encontro com Deus. Santo Agostinho viu neste salmo a oração dos catecúmenos, que se dirigiam para a graça do batismo, a fim de obter a remissão dos pecados e saciar a sua sede espiritual na fonte de água viva, que é Cristo Senhor. Com os versículos deste salmo expressam-se os sentimentos de alegria e gratidão pelo dom de aproximar-se do altar da eucaristia[17].
         Aleluia: Santo Agostinha dizia ao seu povo: “Com o canto do Aleluia nós expressamos a época de alegria, de repouso e de triunfo representada aqui em baixo pelos dias do tempo pascal. Contudo, ainda não possuímos o objeto de nossos louvores, mas suspiramos à procura do verdadeiro Aleluia. O que é que significa Aleluia? Louvai a Deus... Se, após a ressurreição do Senhor, este louvor multiplicou-se na Igreja, isto significa que após a nossa ressurreição nós o cantaremos sem interrupção. Assim, caríssimos, louvemos então o Senhor; repitamos Aleluia. Representamos nestes dias do tempo pascal o dia que não terá fim; apressamos o nosso caminho em direção à morada eterna... Cantamos Aleluia, mas ainda como peregrinos e, cantando aliviamos as nossas fadigas; canta e caminha”[18].

Nas orações presidenciais:
         Após 1ª leitura: coloca em relevo o significado da 1ª leitura (admirável grandeza de Deus tão grande no começo do mundo quanto na plenitude dos tempos).
         Após 2ª leitura: interpreta o texto do Gênesis em sentido batismal (responder à graça do chamado através do batismo)
         Após 3ª leitura: expressa a tipologia batismal do Êxodo (a água que liberta da opressão é a mesma que acolhe para Deus, como filhos seus)
         Após 4ª leitura: expressa o pedido de multiplicação dos descendentes (filhos), para que a Igreja possa ver o desígnio de salvação já acreditado pelos pais.
         Após 5ª leitura: sublinha o hoje da salvação (reavivar a nossa sede de salvação e progredir nos caminhos da justiça pela força do Espírito)
         Após 6ª leitura: invoca a proteção divina sobre aqueles que Deus fez renascer na água do batismo.
         Após 7ª leitura: suplica para que se realize na Igreja, sacramento de salvação, a obra do Filho e que ela seja sinal para o mundo.
         Após o Hino de Louvor: acentua a ressurreição de Cristo que ilumina esta noite santa, e suplica o despertar em todos o espírito filial para sermos fiéis ao serviço (servir de coração).
         Na Oração sobre as oferendas a Igreja suplica ao Pai que a vida que brota do mistério pascal seja por sua graça penhor da eternidade. Na     Oração pós-comunhão o pedido é que o Pai derrame em todo o povo o seu espírito de caridade, para que, saciados pelos sacramentos pascais, permaneçam unidos no seu amor. O Prefácio nos lembra que Cristo é o Cordeiro, que com sua morte, destrói a própria morte, a fim de que nos dê a vida.

  Na liturgia batismal:
         O sinal a ser evidenciado agora é a água. A atenção da assembleia se volta nesta parte da celebração à fonte batismal. A fonte batismal é o lugar onde a Páscoa de Cristo se fez nossa, no sinal de água e na procissão da fé trinitária. A fonte tem dois sentidos: túmulo do pecado e ventre materno de onde nasce a vida (Cirilo de Jerusalém). Desde os primeiros séculos a Igreja ligou a celebração do batismo à noite pascal. O texto de Paulo (Rm 6,3-4: sétima leitura) desenvolveu a teologia batismal, ligada com a ressurreição de Cristo: batismo é ressurgir com Cristo para uma vida nova.
         Assim, os Pais da Igreja (Cirilo de Jerusalém, Gregório de Nazianzeno e Ambrósio), no século II, ignorando a teologia batismal ligada à passagem do mar Vermelho, desenvolveram uma nova teologia batismal, aplicando ao batismo como um “sacramento pascal”, porque é “sacramento da paixão de Cristo”; posteriormente no século IV, o caráter pascal é visto, de preferência, no fato de ser “sacramento da ressurreição” (Tertuliano, Basílio e Agostinho). No entanto, foi Melitão de Sardes quem desenvolveu uma teologia do batismo ligada ao martírio: “Duas coisas provocam a remissão dos pecados: o martírio por Cristo e o batismo”.
         A oração de bênção da água lembra através das Sagradas Escrituras todos os grandes temas batismais acima expostos. A bênção da fonte significa que a graça do batismo não brota da água como elemento material, mas do Espírito Santo que a santifica. Isso é expresso através do sinal da imersão do círio na fonte batismal. O batismo é ministrado nesta hora e, em seguida, toda assembleia renova as promessas do batismo.

Na liturgia eucarística:
         É o coração da vigília pascal. Tudo o que a Igreja realiza durante todo o ano litúrgico converge para esta missa e parte desta missa pascal. É nesta celebração que se realiza verdadeiramente a instituição da Eucaristia, pois Eucaristia é mistério pascal vivido e assimilado pela assembleia reunida em torno de Cristo ressuscitado, com os sinais de pão e vinho, corpo e sangue doados pela vida do mundo.

         Conclusão:
         É urgente que o povo seja esclarecido sobre esses pontos. Mas, de que forma? É simples. A liturgia é realizada por ações simbólicas, por isso é só fazer um esforço conjunto de realizar essas ações e os gestos da liturgia com dignidade e expressividade, de maneira que todos possam verdadeiramente compreender o significado das orientações o orações litúrgicas[19]. O significado também passa pela verdade dos sinais, isto é, que os símbolos usados correspondam verdadeiramente àquilo que se propõem expressar. Melhor dizendo, que o símbolo não seja uma imitação ou um simples objeto que adentra a liturgia sem cumprir sua real função. O sinal visível, que é o símbolo, deve nos reportar a uma realidade invisível, sobretudo se o povo pode perceber no sinal essa realidade, melhor ainda o símbolo cumprirá sua função.
         Do ponto de vista pastoral há de se argumentar por uma tipologia visível ao Tríduo Pascal. A linguagem dos fatos e da sua recíproca relação na unidade do plano de Deus é uma linguagem universal de qualquer inteligência. É a linguagem da Bíblia e, portanto, também da liturgia[20]. Há de se contemplar no tempo da Quaresma retiros especiais para que povo possa melhor vislumbrar toda a riqueza mistagógica de que compõe essas celebrações. É nos retiros quaresmais que se deve contemplar essa linguagem bíblica e litúrgica. Um cuidado especial deve ter as equipes ligadas à liturgia desta semana, proporcionando a todo povo uma participação ativa, frutuosa e consciente, e não fazendo com que o povo se torne simplesmente um expectador.
         É bom que as celebrações do Tríduo Pascal conservem plenamente a unidade da obra da redenção e do mistério de Cristo. Como se dá isso? O caráter representativo e teatral deve ser abandonado, dando lugar ao caráter pascal, cujo pano de fundo está na origem do Tríduo. Por isso, Bergamini orienta que na Quinta-feira comemoraríamos a Pascoa-ritual; na Sexta-feira, a Páscoa-paixão, e, na Vigília pascal, a Páscoa-ressurreição[21]. Indicamos nesse processo uma graduada mudança de compreensão das nomenclaturas e dos títulos dados a esses dias. Tendo analisado muitos folhetos e folders da programação da Semana Santa de muitas comunidades, ainda encontramos resquícios de uma compreensão ainda pré-conciliar, ou pouco voltada àquela com que tratavam os Pais da Igreja e as primeiras comunidades. Muitos desses folhetos voltam-se mais especialmente ao vislumbre das encenações e das procissões com chamariscos ao caráter devocional acentuadamente caracterizado nesta Semana. Esquecem-se até das orientações lúcidas da carta de Preparação para as Celebrações das Festas Pascais. Há, sobretudo, um exagero dado à adoração do Corpo do Senhor, prolongada até a Sexta-feira da Paixão, com grupos se revezando no lugar da reposição, contrariando até mesmo o que orienta a carta de Preparação para Celebrações das Festas Pascais[22].
         Ainda há um exagero acentuado dado ao sacramento da Reconciliação, devido ao mandamento da Igreja: ‘confessar-se ao menos uma vez por ano por ocasião da páscoa da Ressurreição’. Preocupa-nos o fato de que este sacramento deixou de ter  seu sentido celebrativo passando para uma obrigação moral. Com essa preocupação, o sacramento perde sua característica batismal, pois a identidade do batizado é caracterizada por seu discipulado, que ao longo do ano litúrgico, vai vivendo esse itinerário pedagógico de conversão. Há muitas outras oportunidades durante o ano litúrgico em que se deveria ligar o sacramento da reconciliação com a liturgia do domingo, como por exemplo, o domingo do Filho Pródigo no Tempo Comum. Logo, a conversão que se deseja é que se recupere a identidade de batizados, de povo sacerdotal e não uma leitura que se entende de que se entrou num processo de privatização excessiva do pecado, a ponto de conclamar a todos que confessem seus pecados.
         Um exemplo bem concreto desse itinerário de reconciliação nos é dado pelo Ritual de Iniciação Cristã de Adultos (RICA), que prevê pequenas celebrações ao longo do processo do catecumenato, chamadas de escrutínios, que são uma espécie de apuração[23] da conversão. O ritual é muito realista, com essas pequenas celebrações e encontros, orienta o catecúmeno a tomar consciência daquilo que já mudou em sua vida e do que ainda é preciso mudar, de forma gradual. Isso é feito durante os escrutínios, que acontecem durante o tempo da quaresma. Os escrutínios não são chamados de celebrações penitenciais. O escrutínio é oferecido para os neo-batizados e o sacramento da reconciliação para os já batizados. No catecumenato, segundo o RICA, quem não é batizado pode se confessar sim, só não recebe a absolvição durante o catecumenato, se for apenas receber os sacramentos da Confirmação e Eucaristia. O adulto, na medida em que vai crescendo nesse caminho, tem necessidade de falar de sua vida, de desabafar, de falar de suas faltas, é um processo de reconciliação que vai se dando aos poucos, no cotidiano de sua existência vital. É bom que não os impeça de fazer isso. Neste sentido, a comunidade toda que já é batizada, pode ajudar esses catecúmenos no itinerário de fé. Antigamente falava-se de um tempo de prova. Esse não aparece no ritual. O RICA prevê que se saia da mentalidade do sofrimento do pecado, enfatizando com seus ritos e celebrações o valor da graça, dando destaque a essa. Será se conseguimos descobrir a importância da graça de Deus atuando em nós em todo o ano litúrgico?
         É preciso resgatar que durante todo o ano litúrgico é motivo de reconciliação para com os outros, que formam o povo de Deus, a Igreja, e que a confissão não é o centro do sacramento, mas é a reconciliação com os outros, com o mundo, com o cosmos. Quiçá nos comprometêssemos com isso, não apenas durante a Quaresma e a Semana Santa, mas durante todo o ano. Portanto, é necessário se resgatar o significado sacramental das liturgias da Semana Santa como um todo, a fim de que possamos entender com maior clareza os mistérios de nossa fé que se estendem por todas as celebrações. Seguramente entenderemos o próprio Mistério Pascal, fonte e origem de nossa fé.



[1] Guia Litúrgico-pastoral, CNBB, 2ª edição, p. 87-88
[2] PCFP, 77.
[3] PCFP, 52.
[4] PCFP, 93.
[5] PCFP, 82.
[6] PCFP, 85.
[7] PCFP, 86.
[8] Bergamini, Augusto. Cristo, festa da Igreja, p. 361.
[9] Saltério litúrgico, p. 469.
[10] Ibidem, p. 361.
[11] Saltério litúrgico, p. 61.
[12] Ibidem, p. 362.
[13] Saltério litúrgico, p. 130.
[14] Ibidem, p. 363.
[15] Bergamini, Augusto. Cristo, festa da Igreja , p. 363.
[16] Ibidem, p. 364.
[17] Ibidem, p. 364.
[18] Ibidem, p. 364 apud Santo Agostinho, Enarr. In Os 110,1: PL 37, 1463.
[19] PCFP, 82.
[20] Bergamini, Augusto. Cristo, festa da Igreja, p.314.
[21] Ibidem, apud cf. RL 5/1989, numero monográfico sobre o Tríduo Pascal. Para o argumento, ver o artigo: Dalla storia del Triduo Pasquale ai problemi litúrgico-pastoral di oggi, pp. 529-540; a citação encontra-se na p. 540.
[22] A capela da reposição é preparada com a finalidade de conservar o pão eucarístico para a Comunhão, que será distribuída na Sexta-feira da paixão do Senhor. Os fieis permanecem no lugar da reposição até a meia noite, após esse horário, seja feita a adoração sem solenidade, pois já começou o dia da paixão do Senhor, cf. PCFP, 55-56.
[23] Apuração é quando se faz doce, diminuir a água, dar mais densidade ao doce; mexer o doce pra que ele fique mais consistente.

O Sábado da sepultura


            Eurivaldo Silva Ferreira

Origem, sentido teológico e a recomendação da Igreja
            
           Trata-se do 2º dia do Tríduo Pascal. Santo Agostinho, referindo-se a este dia, o chama de Tríduo do Sepultado.
            O relato bíblico diz que um discípulo clandestino de Jesus pediu autorização para sepultar seu corpo num jardim (cf. Jo 19,38-42). Certificar o sepultamento de Jesus era importante para a fé, em função da Ressurreição. A sepultura de Jesus é mencionada no símbolo da nossa profissão de fé: “padeceu e foi sepultado” ou “desceu à mansão dos mortos” (Credo Niceno-constantinopolitano ou Símbolo dos Apóstolos).
            Com base nesta tradição a Igreja construiu o tríduo pascal inserindo nele o Sábado da sepultura, em que “permanece junto ao sepulcro do Senhor, meditando a sua paixão e morte, a sua descida aos infernos, e esperando na oração e no jejum a sua ressurreição” (Carta de Preparação para as Celebrações das Festas Pascais, PCFP nº 73).
            No sábado santo, dia do grande silêncio, nada se celebra, a não ser o Ofício Divino, valorizando nele o silêncio e a sobriedade, retomando textos que contribuem para retomar o ambiente espiritual que deu origem a esta memória. Como o Salmo 63(64), o Salmo 16(15), dentre outros, e a Antiga Homilia do Sábado Santo (Esta homilia é do século IV, mas o seu autor é desconhecido).
            O nº 40 da PCFP orienta: é recomendada a celebração comunitária do oficio da leitura e das laudes matutinas na Sexta-feira da Paixão do Senhor, e também no Sábado Santo. Convém que nele participe o bispo, na medida em que é possível na igreja catedral, com o clero e o povo.
            O Salmo 15(16) que será entoado na vigília da ressurreição desta noite exprime, na oração, o abandono confiante em Deus, em cujas mãos é colocada a vida. A referência a Cristo sepultado e ressuscitado está evidente no versículo: “E minha carne repousa em segurança, porque não me abandonarás no túmulo, nem deixarás o teu fiel ver a sepultura” (cf. Bergamini, Cristo, Festa da Igreja, Paulinas). Este Salmo relata a experiência de alguém que confia plenamente no Senhor, renunciando até a não obedecer a outros deuses; em meio a alegria, sente-se seguro, pois sabe que em Deus tem a garantia segura de que ele nem na morte o abandonará (cf. Secretariano Nacional de Liturgia, Coimbra, Portugal).
            Não havendo sacramentos nem Eucaristia (PCFP, 75), a pedagogia espiritual deste dia sugere a meditação memorial da sepultura do Senhor que é feita através dos sinais sensíveis:
a)      “a celebração do Ofício Divino, recomendado com insistência, ou de uma celebração da palavra ou outro ato de devoção” (PCFP, 73);
b)      “a exposição da imagem de Cristo na cruz ou deposto no sepulcro, ou a imagem da sua descida aos infernos, que ilustra o mistério do Sábado Santo, bem como a imagem da Virgem das Dores” (PCFP, 74).
c)      Recomenda-se ainda que os fiéis sejam instruídos sobre a natureza particular deste dia (PCFP, 76).
            Em Maria, segundo o ensinamento da tradição, reuniu-se todo o corpo da Igreja: ela é a reunião universal dos fiéis. Por isso, a Virgem Maria que se detém junto ao sepulcro do Filho, como a tradição eclesial a representa, é o ícone da Virgem Igreja que vigia junto ao túmulo do seu Esposo, na expectativa de celebrar a sua Ressurreição. A prática de piedade [denominada de] Hora da Mãe se inspira nessa intuição da relação entre Maria e a Igreja: enquanto o corpo do Filho repousa no sepulcro e a sua alma desceu à mansão dos mortos para anunciar aos seus antepassados a iminente libertação da região das sombras, a Virgem, antecipando e personalizando a Igreja, espera cheia de fé a vitória do Filho sobre a morte (Diterório de Piedade Popular e Liturgia, DPPL 147, p. 128).
            O aprofundamento da “Antiga Homilia de Sábado Santo”, do século IV, cuja autoria é desconhecida, pode ser uma ótima recomendação para a aplicação do nº 73 da PCFP (cf. Antologia litúrgica. Textos litúrgicos, patrísticos e canônicos do primeiro milênio. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2003, p. 576).

Perda do foco pedagógico da fé

            Nem sempre foi sempre possível a Igreja atuar como uma espécie de pedagoga na condução dos cristãos. No processo mistagógico, o entendimento da celebração decorria de um exercício pedagógico da fé por parte daqueles que queriam se tornar membros da Igreja. Isso durou cerca de seis séculos, depois foi esquecido, mas recuperado pelo CV II, embora com poucas notícias de sua aplicação de fato.
            Tendo terminado o processo catecumenal, a educação na fé, por parte de Igreja, foi por vezes dura, impositiva e agressiva. Culturas inteiras se viram desrespeitadas nesse processo. Em nome da fé muito de espantoso se cometeu. A história sabe bem testemunhar isso.
            Em alguns casos a educação na fé vai se entremeando entre passos da educação civil, muitas vezes acontecendo concomitantemente. Em muitas comunidades o itinerário da catequese com crianças acompanha o ano escolar e civil e não o Ano Litúrgico. Assim, em dezembro, as crianças tiram férias, e a catequese se vê privada das celebrações do ciclo do Natal, por exemplo.
             A religiosidade popular, em íntima união com o folclore, descobriu um jeito de fazer um ‘arranjo social’ das narrações bíblicas. Um exemplo clássico é a famosa ‘malhação do Judas’ no Sábado Santo. Aí percebemos a importância do sábado da ressurreição no contexto popular. Essa tradição consiste em considerar o Judas como o traidor, o algoz, que deve ser ‘malhado’. Na força expressiva deste gesto muitas vezes desligado da piedade popular, mas nela tendo origem, reflete-se o reverente amor a Jesus, assumindo pelo próprio gesto o aspecto vingativo da morte de Jesus, não deixando que ela fique por isso mesmo.

            A malhação do Judas é ainda um aspecto a ser estudado sobre o ponto de vista antropológico e religioso, sobretudo em nosso país, quando muito comumente, na tarde do Sábado Santo, veem-se pendurados nos postes grandes personagens do mundo político,  representados pelo simbólico boneco do Judas.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O dia da Paixão do Senhor: o que esperarmos desta celebração?


         Eurivaldo Silva Ferreira
        
         O Espírito nos devota neste dia a termos a mesma atitude de Maria aos pés da cruz de Jesus, a contemplação e a meditação dos fatos do cotidiano da vida. Em João 19, 25-27, não relata qual foi a atitude de Maria, mas nós podemos intuir: todos os dias morremos e ressuscitamos, nossos corpos e os corpos de tantos sofredores por causa da violência são entregues à morte, muitas vezes por causas banais e com sinais extremistas de violência que beiram a insanidade. Permanecer de pé junto da cruz é permanecer junto daqueles que sofrem essas violências, mártires do cotidiano de sua existência, fazendo suas entregas diárias, ao mesmo tempo rogando ao Pai que os acolha, em sua infinita misericórdia. Perdendo nossos entes queridos, quaisquer que sejam as formas de morte, perdemos o fruto de nosso ventre, assim como Maria, Mas ela, a ‘Mulher’ de pé, a mulher da ‘Hora de Jesus’, como nas Bodas de Caná, passa a abraçar outra vocação, a de ser Mãe da Igreja, e intercedendo por ela.
         A Oração da Coleta deste dia, único elemento dos ritos iniciais da Celebração da Palavra nos recorda que Deus é sempre misericordioso, por isso esperamos que nos santifique por sua constante proteção. A proteção do Senhor é a sombra da cruz de Jesus. É nela que Jesus, antes de morrer, diz: ‘Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito’ (Lc 23,46). É sob essa proteção que também dizemos nós na oração de Completas, à noite, no responsório breve: ‘Senhor, em tuas mãos eu entrego o meu espírito’. Estêvão, o primeiro mártir, antes de ser apedrejado, também disse essa frase: ‘Senhor Jesus, recebe o meu espírito’ (At 7,59).
         O sentido da oração inicial está em pedir ao Senhor que, na sua misericórdia, santifique e proteja o seu povo, para o qual Cristo inaugurou, em seu sangue, o mistério pascal. Na segunda opção, tirada do texto de 1Cor 15,45-49, pede a Deus que, pela destruição da morte através da paixão de Jesus, sejamos semelhantes a ele, sendo ele mesmo a imagem do homem terreno e do homem celeste, à qual devemos imitar.
         A 1ª Leitura é o quarto cântico do servo do Senhor, o mais rico em ensinamento e o mais importante do ponto de vista teológico. O servo humilde e sofrido é a imagem da comunidade de Israel, também é a imagem de Jesus, levado ao matadouro, inocente e sofredor que morre pelos nossos pecados, silenciosamente. Por sua morte é que recebemos os méritos da vida eterna.
         Pelo Salmo responsorial fazemos nossa a súplica de alguém que sofre e espera, que experimentou a bondade do Senhor e sabe que ele não se cansa de defender os seus fiéis, que conhece bem a atividade dos seus inimigos e dos maus em geral. Sobretudo, em nosso momento de privação e de dor, esperamos confiantes que o Senhor nos liberte das mãos daqueles que querem ver o nosso fim: a doença, a opressão, a fome, a falta de moradia, de emprego, de saúde para todos. A oração de Jesus no jardim das oliveiras lembra esse salmo quando pede ao Senhor que livre todos das forças do mal.
         Lembramos outra vez do Salmo responsorial do Domingo de Ramos: ‘Meus Deus, por que me abandonaste?’. Temos a impressão que Jesus na cruz se torna alguém fracassado. É a mesma impressão que tiveram os discípulos de Emaús, no caminho de volta para casa. Ele perde tudo e se encontra no mais profundo abismo.  Jesus experimentou tudo aquilo que o Salmo 21 diz, revivido agora pelo canto do Salmo 30. Este salmo, articulado com o refrão de Lucas 23,46, encontra perfeito entrosamento como ressonância à primeira leitura.
         Santo Agostinho viu neste salmo a atuação de uma admirável troca entre Cristo e a humanidade. De fato, aquele que não havia rejeitado nos assumir nele e falar a nossa linguagem, também não rejeitou que fôssemos transfigurados nele, para que também nós pudéssemos exprimir-nos com suas palavras. Tendo carregado sobre si aquilo que é nosso, a nossa angústia pousou sobre ele, a nossa fadiga consumiu a sua vida, a nossa miséria gastou a sua força; por nossa causa ele tornou-se um opróbrio (vergonha, desonra, vexame) e foi rejeitado por todos. Nessa miséria e sofrimento, Cristo dirigiu-se ao Pai e invocou piedade e libertação. Assim, depois de ter recebido injúrias e dores e ter sofrido a morte, deu-nos a glória, a saúde e a vida, para que pudéssemos dar graças nele e glorificar a sua bondade.
         As preces, que a Igreja faz intercedendo por todos, está entre as leituras e a veneração da Cruz gloriosa. O intuito é de que se perceba que entre a Palavra de Deus proclamada e o AMOR que vence a morte de cruz, está a Igreja, que ora por todos os seus, tendo como fonte de inspiração a própria cruz, fonte da graça de Deus, de onde ela mesma nasceu, do lado aberto do Salvador estendido na cruz.
         Devemos estar convencidos de que Jesus realmente passou por um desmoronamento radical: ‘esvaziou-se de si mesmo, rebaixando-se’, diz a Carta aos Filipenses. Mas o evangelista João coloca na boca de Jesus palavras que revelam seu domínio sobre a situação: ‘ninguém tira minha a vida, eu a dou livremente’ (Jo 10,18). Jesus é para João uma espécie de ‘diretor de cena’ que tem domínio da situação. Temos aí um salto qualitativo: um amor que consegue enxergar uma liberdade, própria de quem ama, pois quem ama não aprisiona, pelo contrário, liberta. Há uma antiga compreensão de que o corpo serve como aprisionamento da alma, e que este servia como impedimento à liberdade da alma. Em Jesus, seu corpo estendido na cruz é agora considerado como instrumento para o voo ao alto, e não mais como inimigo. É na cruz que seus braços abertos abraçam o corpo do mundo, como sendo seu próprio corpo, numa total liberdade de entrega.
         O nosso beijo na cruz não é simplesmente um ato de devoção. Mas é uma reverência ao AMOR que venceu a morte. Abraçamos e beijamos a nossa própria cruz: aquelas ‘passagens’ (‘paixão’) da vida que nos reduziram a zero, mas que ao mesmo tempo nos indicaram outro caminho possível. Que sejamos habitados/as pelo que nos mantém de pé. “A única coisa que não podem tirar de nós é aquilo que doamos” (J. Y. Leloup).
         Na oração pós-comunhão pedimos a Deus que conserve em nós a obra da sua misericórdia, para que, pela participação deste mistério, nós consagremos sempre a nossa vida a Deus.

         O mistério contemplado neste dia é o mistério da entrega do Senhor, também completado pelo mistério da nossa entrega individual, mas também a entrega de toda a Igreja reunida para ouvir sua Palavra e interceder por todos, a partir da imagem da cruz.