terça-feira, 6 de outubro de 2015

MÍSTICA, MISTAGOGIA E LITURGIA: Por uma experiência mais vivencial

         
          O Povo de Deus – a Igreja – precisa sempre embeber-se do Mistério divino. Numa dinâmica mistagógica que possibilita sentir o sabor da fé e da vida nas celebrações litúrgicas. Este é um significativo passo para não se estagnar em um conhecimento puramente teórico do Crucificado/Ressuscitado. Sendo assim, se o homem não mergulha no Mistério de Deus, ele corre o risco de não responder à sua vocação batismal: ser um em-com-por Cristo. A linguagem da liturgia é a mistagogia[1]! É um método condutor, vivo e dinâmico, que não deixa a espiritualidade da assembleia se embotar, nem perder seu brilho teológico e litúrgico[2].
          Paralelamente, nota-se na atual conjuntura eclesial um ‘sentimento coletivo’ de “cansaço”. Muitas lideranças e agentes de pastorais se queixam da participação dos fiéis nas atividades comunitárias. Por muitas vezes, a assembleia se apresenta como “fria” e sem expressão ativa. Assim, os projetos não caminham, os membros de pastorais e movimentos conservam suas estruturas e não apresentam perspectivas de novas ações.
          Direcionando um pouco mais o olhar em alguns aspectos da realidade eclesial, nota-se que também há ministros ordenados e coordenadores de pastorais/comunidades com sede e ânsia no trabalho paroquial/comunitário. Isso é louvável! No entanto, em contrapartida, nestes intentos não há mística e nem mistagogia na espiritualidade. Sendo que, muitos são os carismas dentro da comunidade, mas sem a espiritualidade – que é o próprio Jesus Cristo – o carisma não se sustenta.
          Wellistony[3] apresenta uma questão pertinente frente a tudo isso: Os padres – e acrescento: os líderes e agentes de pastorais – precisam ser “místicos”. Atualmente, muitos leigos estão “avançando para águas mais profundas”. Estão procurando crescer e aprofundar a dimensão espiritual da vida. Enquanto isso, os responsáveis pelas comunidades estão ficando à margem vendo os “barcos” se distanciarem. Uma vez distantes, como novamente se aproximar quando se está em ‘alto mar’?!
          Existem leigos sedentos, mas convém ressaltar que também há aqueles que não assumem um compromisso na comunidade. Muitos são os ministros ativos e conscientes, mas em contrapartida, existem aqueles que entraram no modismo do “cansaço”. E estes, por sua vez, são um grupo significante. Não se justifica, mas, como exigir da comunidade se as próprias lideranças não experimentam o Mistério!? Como falar do Mistério se os próprios ministros não o vivenciam?!  
          Karl Rahner, em sua conhecida frase, parece estar certo quando afirmou que “no futuro o cristão ou será místico ou não será cristão”[4]. Mas isso não exime a responsabilidade do leigo em agir de modo ativo, pleno e consciente sua própria vocação batismal.  Se antes do Vaticano II os fiéis não participavam ativamente da divina liturgia porque o rito era em latim, era muito diferente da cultura local, porque o ministro se colocava distante do povo... E hoje, por que será?
          Acredito que quando os fiéis pedem uma missa diferente e animada, não é exatamente isso que querem dizer. Porque podem até celebrar uma missa ‘bem animada’ cheia de firulas, no entanto, provavelmente no próximo mês estarão pedindo outra coisa diferente... Quando os fiéis pedem algo assim, somente estão usando da linguagem que está ao seu alcance. Mas, na verdade, o que querem dizer é que falta às celebrações um caráter místico e mistagógico, falta sabor e vivacidade. A perfeita liturgia é só no céu! Mas, quem disse que aqui na terra, em nossas celebrações litúrgicas, não podemos sentir o perfume do céu?!
          Viver o Mistério também é acreditar em uma “liturgia contemplativa”, onde o interior dos fiéis se expressa na voz da assembleia. A intimidade pessoal com Deus gera na liturgia uma experiência comunitária que se manifestará na escuta da Palavra, no silêncio, nos cantos, na Eucaristia, na oração e na partilha. É preciso resgatar uma experiência pessoal na liturgia, longe do intimismo e do subjetivismo, propagado pelo materialismo e o secularismo do mundo. A mística não subtrai a ação, pelo contrário, quanto mais contemplativo for o fiel, mais eficaz será sua ação no seio eclesial.
Abração musical de
Wallison Rodrigues





[1] Cf. CELAM: Manual de Liturgia 4. São Paulo: Paulus, 2007, p. 362.
[2] Cf. BUYST, Ione/FONSECA, Joaquim. Música Ritual e Mistagogia. São Paulo: Paulus, 2008, passim.
[3] VIANA, C. Wellistony. Um longo e belo caminho. Brasília/DF: Edições CNBB, 2013.
[4] RAHNER, Karl. apud OLIVEIRA, P. R. F. de./TABORDA, F. Karl Rahner 100 anos: teologia, filosofia e experiência espiritual. São Paulo: Loyola, 2005, p.81.