quinta-feira, 12 de abril de 2012

Igrejas: versão religiosa do Big Brother?

Impressionante artigo do Prof. José Lisboa Moreira Oliveira, da Universidade Católica de Brasília.
Ele faz uma análise do livro de Bauman, e conjuga essa análise fazendo relações intrínsecas entre Big Brother e Igreja.
(Extraído de www.adital.com.br)

Bauman no seu livro A ética é possível num mundo de consumidores? (Zahar, 2011) compara os atuais grupos humanos a verdadeiros ninhos de vespas. Segundo o autor, há uma notória ausência de centros dotados de autoridade, onde se possam construir regras para alianças e respostas para os desafios. As pessoas vivem sem referenciais, buscando elas próprias preencher o vazio gerado por tal ausência. Assim sendo, os seres humanos mantêm-se num estado de fluxo permanente, sempre "se tornando” e nunca "sendo”. As identidades, se é que podemos usar este substantivo, são o resultado de um processo contínuo de negociações e de renegociações. A liberdade tão sonhada e tão cobrada atualmente vem acompanhada de insegurança e de constrangimentos. O medo de não ser livre termina sufocado pelo medo das ameaças dos outros e os homens e as mulheres aceitam perder um pouco da liberdade para terem mais segurança.

Em todo esse processo o self ocupa o lugar central e coloca o restante do mundo na periferia. As pessoas participam de grupos que se parecem com enxames de vespas porque perdem a dimensão comunitária e passam a ser manipulados por lideranças que dão as ordens. Os seres humanos estão juntos fisicamente, mas o que prevalece é o individualismo. Não há solidariedade, complementaridade, intercâmbio e fraternidade. Cada um, mesmo seguindo seu líder, termina pensando só em si, na sua segurança e na sua satisfação imediata. Por isso, diz Bauman, os laços humanos são fraquíssimos e se quebram com muita frequência e facilidade.

Como a incerteza é o "habitat natural” do sujeito consumidor, ela provoca o "desencaixe”, ou seja, a pessoa não se fixa em nada e em lugar nenhum. Vive sempre abandonando e substituindo. O pertencimento está necessariamente condicionado pelas exigências do ego. O indivíduo chega a participar de instituições, mas as vê e as tem apenas como lugares de descanso, de pouso, até que não deva prosseguir com sua permanente peregrinação. Para o sujeito consumidor, afirma Bauman, as instituições são "hotéis de beira de estrada” que servem apenas para um breve descanso da viagem.

Desta forma, diz nosso autor, as instituições terminam cedendo à pressão dos consumidores frenéticos e se tornando uma espécie de Big Brother. Elas são hoje apenas um espaço onde se pode dar uma "espiadinha” na vida dos que nela estão "confinados” para depois continuar vivendo como se aquele confinamento não existisse. Os que estão dentro da "casa” não cultivam a integração e a solidariedade, mas são estimulados, por quem comanda o espetáculo, a brigarem entre si para ver quem vai ser o líder. Desta forma, cada um considera os demais como inoportunos que devem ser expulsos do ambiente e enxotados para fora do páreo.

Na casa do Big Brother não há lugar para o outro e nem para quem pensa nos outros. Isso porque as pessoas que lá chegaram não chegaram por pertencimento, através de um rito solene de iniciação, mas através da promessa de prêmio para aquele que terminar sendo o "melhor”. Quem está na casa do Big Brother tem a sensação constante de estar num território estranho e potencialmente hostil. Aqui na há laços e não há lealdade. As pessoas são abandonadas a si mesmas e terminam confusas, sem saber como caminhar ou navegar no meio de tantas propostas, as quais, no final do itinerário, podem se revelar traiçoeiras e falsas.

Ora, essas considerações de Bauman me levam de imediato até as Igrejas. Não há como não vê-las como uma versão religiosa do Big Brother. O que são elas atualmente, salvo algumas exceções? Um enxame de pessoas que vagam sem rumo e sem direção, monitoradas e manipuladas por líderes carreiristas e exibicionistas. Nelas, inclusive na Católica, não há mais a consciência e o clima de assembleia convocada pela Trindade; não há a experiência de Povo de Deus. As pessoas são reunidas em verdadeiros confinamentos controlados por lideranças carreiristas que sonham chegar ao topo da hierarquia. Vestidos impecavelmente, com suas batinas, seus paramentos brilhosos ou ternos finíssimos, tais líderes controlam as subjetividades, mesmo que, na prática, se mantenham completamente afastados da vida real do povo, o qual é sempre deixado para trás em suas angústias e expectativas.

Por sua vez os fiéis transeuntes não se encontram por vocação, por convocação e pelo senso de pertença. Buscam vorazmente kits de salvação, vendidos e abençoados por bispos, padres e pastores, mesmo quando estes kits se reduzem a uma baforada no corpo, proveniente de um balde de "água santa” jogado sobre a multidão delirante. E para atender à sede de consumo religioso as Igrejas se transformaram em supermercados da fé, voltadas inteiramente para a satisfação imediata da busca de felicidade dos consumidores religiosos. Estes não se encontram unidos pela mesma fé, no conhecimento do Filho de Deus e para crescerem no seguimento (Ef 4,13). Encontram-se, por acaso, ao redor de um "curandeiro”, à cata de milagres que satisfaçam de imediato suas necessidades.

Desta forma fica configurado o Big Brother religioso. As Igrejas, administradas, policiadas e supervisionadas, com firmeza, por líderes carreiristas e esteticamente perfeitos, mobilizam multidões, especialmente entre os que ainda formam a periferia social, para confiná-las num refúgio milagreiro, marcado por ansiedades, exclusões e decepções. Nesses confinamentos religiosos a ilusão é visível. Os "milagres” são raros e somente alguns são "agraciados” com "curas e libertação”. O restante da multidão deve se conformar em voltar para casa e enfrentar a vida dura, onde só há um milagre: ir à luta para conseguir sobreviver. Deve se conformar e aceitar o "paredão” da exclusão social, da falta de oportunidades, do indeterminado, do imprevisível, percebendo-se, como diz Bauman "fora do lugar em todo lugar”.

O povo que fica na fila, a espera de "milagres”, é sempre ludibriado e manipulado por espertos que costumam passar a perna nos simples e pobres (Jo 5,7). Esses espertos são os próprios milagreiros e curandeiros. Eles são especialistas em extorquir os pobres; encher seus bolsos de dinheiro; construir templos para alimentar vaidades –mas, que, em breve, serão frequentados apenas por morcegos–; comprar jatinhos para suas viagens e, sobretudo, tirar as suas famílias da miséria. Sem dúvida alguma, para solucionar os problemas dos sofredores bastaria que alguém, como Jesus, dissesse: "Levante-se e ande” (Jo 5,8). Mas, na verdade eles não querem que as pessoas se levantem e caminhem com as próprias pernas. Preferem manter a "indústria dos milagres” que traz polpudas somas para seus bolsos e suas famílias.

Deus chama, mas a hierarquia da Igreja não aprova

Belo artigo do professor José Maria Lisboa de Oliveira, da Universidade Católica de Brasília. Reflitam...
(extraído de www.adital.com.br)


Passei a Semana Santa em um povoado do sul de Minas Gerais. O "bairro”, como o mineiro da região denomina o que nós normalmente entendemos por "povoado”, conta com mais de 200 moradores. De fato na última eleição votaram na seção eleitoral existente no local cerca de 190 eleitores. No "bairro” só existe uma templo da Igreja Católica. Não existem templos evangélicos e nem lugares de cultos de outras religiões. A totalidade dos moradores é católica. Apenas uma família é evangélica, mas mora em São Paulo e tem uma chácara no local. Aparece por lá de vez em quando. Os que lá residem são todos católicos. O povoado fica a quatorze quilômetros da sede da paróquia, sendo que cerca de treze quilômetros são de estrada de chão: muita lama na época de chuvas e muita poeira no período de seca.

Acompanhei atentamente a celebração do Domingo de Ramos dirigida por três mulheres: a coordenadora da comunidade, a ministra da Palavra e a ministra extraordinária da comunhão eucarística. O povoado inteiro estava presente. Havia mais de duzentas pessoas, pois no domingo muitos visitam os parentes que moram no "bairro”. Tudo se desenvolveu de forma impecável. Os fiéis se reuniram à beira do rio que corta o povoado. Houve a "bênção” dos ramos, a procissão em direção à capela, a liturgia da Palavra solenemente proclamada pela ministra da Palavra, a "homilia” pronunciada pela coordenadora da comunidade e a distribuição da eucaristia feita pela ministra extraordinária. Tudo dentro da mais perfeita ortodoxia doutrinal e litúrgica.

Na quinta-feira santa apareceu um padre enviado pela paróquia que presidiu a missa da Ceia do Senhor e depois foi embora. Nos outros dias da Semana Santa a comunidade voltou a se reunir sob a presidência e coordenação das três mulheres. No domingo o padre voltou para celebrar a missa do domingo de Páscoa.

Costumo passar boa parte das minhas férias neste "bairro” do sul de Minas, uma vez que é a terra natal da minha esposa. Por isso tenho conhecimento de que nesta comunidade católica a Eucaristia é celebrada uma ou, no máximo, duas vezes por mês. Normalmente a celebração eucarística se dá durante os dias feriais da semana e não no dia do Senhor, de modo que se pode afirmar que não há o memorial da morte e ressurreição de Jesus no domingo, como pede a liturgia, desde a mais remota antiguidade cristã.

Este fato, comum a milhares e milhares de comunidades eclesiais espalhadas pelo mundo inteiro, revela que hierarquia da Igreja Católica não consegue colocar em prática a máxima evangélica que pede atenção aos "sinais dos tempos”. Ela continua afirmando que a Eucaristia é o centro e o ápice da Igreja. Continua proclamando em seus documentos que a Eucaristia faz a Igreja. Insiste em dizer que onde não há Eucaristia não há Igreja Católica. Tudo isso é verdade, não resta nenhuma dúvida, mas, em sua insensibilidade aos apelos divinos, a hierarquia continua permitindo que o absurdo dos absurdos aconteça. Permite que milhares e milhares de comunidades, como esta do sul de Minas, fiquem sem a celebração eucarística dominical. Fiquem sem poder vivenciar e testemunhar a própria identidade, uma vez que, segundo os documentos oficiais da Igreja, é a celebração eucarística, presidida por um ministro ordenado, que melhor expressa a identidade católica.

Diante de absurdos como esse fico a me perguntar a que coisa serviu a realização algum tempo atrás de um "ano eucarístico”. Interrogo-me também sobre o sentido de um "ano sacerdotal” celebrado recentemente. No meu entender serviram apenas para fomentar beatices e reconfirmar as mesmices eclesiásticas. Estes dois eventos não trouxeram nenhuma contribuição efetiva para a solução de problemas tão graves como este da falta da celebração eucarística dominical e que já começa a afetar a identidade católica. Um bispo da Amazônia me dizia há algum tempo atrás que em muitas das comunidades de sua diocese o povo fica até anos sem a celebração eucarística. Ele estava preocupado porque isso está contribuindo para a perca da identidade católica. De tanto celebrar "cultos” as comunidades já estão perdendo a noção e a experiência do que seja a celebração eucarística. Este mesmo bispo, chegando certa vez a uma dessas comunidades, após ser recebido com muito entusiasmo pelo povo, foi convidado a presidir "o culto”!

E não podemos aceitar a desculpa de que não há o que fazer. Existem soluções possíveis, bem ortodoxas e em plena sintonia com a mais genuína tradição eclesial. São muitas as pessoas, inclusive bispos, que não se cansam de oferecer alternativas possíveis e concretas. Se a situação chegou a essa extrema gravidade é porque a hierarquia da Igreja é incapaz de ler os sinais dos tempos, não abre mão de um modelo de Igreja arcaico e ultrapassado, se fecha na própria autossuficiência e se recusa a voltar às raízes do cristianismo.

Aponto, por exemplo, uma solução simples, ortodoxa, ecumênica e bem antiga. O Concílio de Calcedônia, celebrado no ano 451, no seu cânon 6, declarou sem efeito e proibiu as chamadas "ordenações absolutas”, ou seja, aquelas ordenações em que o ordenando não tivesse sido designado antes como ministro de uma igreja, cidade, povoado, santuário do interior ou mesmo de um mosteiro. Para ser ordenado diácono, presbítero ou bispo o ordenando deveria e deve ser designado antes como ministro de uma comunidade à qual servirá por toda a vida. Caso isso não aconteça, a ordenação se torna inválida, uma vez que, para a Igreja antiga, o ministério só tinha sentido quando voltado para o serviço de uma comunidade específica. Havia, pois, uma relação direta entre ordenação e comunidade eclesial. Detalhe que infelizmente hoje quase não se observa mais. Existem inclusive relatos de ministros que, na Igreja antiga, foram ordenados de novo, quando por qualquer motivo, tiveram que deixar a comunidade a que serviam e foram transferidos para outras localidades.

Mesmo deixando de lado a possibilidade da ordenação de mulheres, uma vez que isso assusta e causa mal-estar à hierarquia, a proposta continua válida e atual. Em todas essas comunidades, inclusive naquela do povoado do sul de Minas, existem os chamados "viri probati”, homens casados ou até solteiros, cuja fé é inabalável e cuja vida é marcada por um testemunho heroico de fidelidade à Igreja. Estes homens, muitas vezes juntos com suas mulheres, animam, sustentam, catequizam e dinamizam essas comunidades. A ação é tão incisiva que em certos lugares, como é o caso do mencionado "bairro” do sul de Minas, toda a população se mantém católica, graças à ação evangelizadora dessas pessoas.

Pergunta-se então porque a Igreja Católica não resolve o grave problema da falta da Eucaristia, ordenando estes homens para presidirem a celebração eucarística dominical nestas comunidades. Seguindo à risca o cânon 6 do Concílio de Calcedônia, que, pelo que me consta, ainda não perdeu a sua validade, seria possível ordená-los exclusivamente e somente para a presidência da celebração eucarística dominical de uma determinada comunidade. Pelas normas do Concílio de Calcedônia eles ficariam impedidos de presidir a celebração eucarística em uma comunidade para a qual não foram designados antes da ordenação. Poderiam até participar como concelebrantes em uma celebração eucarística presidida pelo bispo diocesano ou pelo metropolita, mas nunca poderiam presidir fora de sua comunidade designada.

Portanto, soluções existem. O que falta é boa vontade e conversão da hierarquia católica, a qual insiste em manter a todo custo um modelo de ministério totalmente ultrapassado e não mais em condições de atender às necessidades pastorais da Igreja dos nossos tempos. No 4º Domingo da Páscoa vamos ter a Jornada Mundial de Oração pelas Vocações. Puro desperdício e perca de tempo, pois é inútil pedir a Deus que mande vocações quando, com sua atuação concreta, a hierarquia impede que essas vocações se concretizem. As vocações não faltam. Elas existem e em abundância. O que falta mesmo é a humildade para se perceber que as formas de chamamento divino não coincidem mais com aquelas que a hierarquia aprova no momento. Quando, finalmente, surgirá a manhã da ressurreição para a Igreja Católica? Isso, nem o próprio Deus sabe, pois tudo está nas mãos da hierarquia!