sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A manifestação da bondade e da misericórdia de Deus em Jesus Cristo,

Eurivaldo Silva Ferreira

Para ler o artigo é necessário ter o texto de Lc 1,68-79, que pode ser extraído da Bíblia de Jerusalém
Introdução
O cântico de Zacarias assemelha-se ao de Maria, quando celebra o caráter inédito e decisivo da intervenção de Deus na aurora dos novos tempos, Jesus, a luz que nos visitou (vv. 78-79). Tanto um como outro, porém, colocam esta intervenção no encalço da memória de Israel e da continuidade do desígnio de Deus.
Tem-se indícios que este canto seja uma composição do próprio evangelista Lucas, influenciado pelas composições judaicas de seu tempo (elemento de enculturação). Faz parte da família dos salmos messiânicos, linguagem em que judeus compartilhavam com seus antepassados.

Historiografia: um grupo em Israel era odiado pelos inimigos, andava nas trevas, e a salvação de Deus era sinal da misericórdia deste por causa da aliança com seu povo, já que este grupo era tido como que o “resto” de Israel e guardava a santidade e a justiça esperadas do povo da aliança.
Lucas, movido pela intenção do Espírito Santo (também presente em Atos), faz uma ligação desta tradição, através das imagens descritas no hino com a comunidade de Atos, cheia do Espírito Santo que fazia profecias (At 2,18).

Considerações lucanas a respeito do cântico
O início do louvor a Deus, a partir da cura do estado de mudez de Zacarias, dizendo: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel”, como que uma espécie de bênção, que também fora pronunciada por Izabel, no encontro com Maria, e por Maria, no cântico do Magnificat. Embora essas comparações devem ser deixadas de lado devido ao jeito de Lucas compor suas narrativas. Único indício disso no cântico de Zacarias é a própria referência lucana ao “Altíssimo” no diálogo do anjo com Maria (cf. Lc 1,32a).
Referência de Lucas: está relacionada a João Batista, considerado como aquele que “irá à frente do Senhor (Deus), para preparar-lhe os caminhos” (v. 76b). Esta promessa, também referenciada em Lc 1,16-17, atesta que a intenção de Lucas é voltada a uma preocupação de apresentar a realização das promessas de Deus, sobretudo num ambiente geográfico específico, ou seja, Deus encarnado na história, conforme os desígnios do Espírito. É própria de Lucas a intenção de apresentar ou relatar um plano histórico-salvífico-universal, do qual os próprios discípulos e a comunidade cristã foram testemunhas (Lc 24,48).

Estrutura do cântico
Os cânticos de Lucas têm a estrutura de um louvor, semelhante à estrutura apresentada nos salmos, formados por três partes específicas:
a) Uma introdução de louvor a Deus (v. 68a).
b) O corpo do hino que relaciona os motivos de louvor, que começa a oração do “porque” (v. 68b).
c) A conclusão, que recapitula alguns dos motivos do hino (vv. 78a-79b).
Há quem diga que este cântico é um hino dedicado ao aniversário de João Batista, com a possibilidade de ter inserções de seguidores de João Batista (hipótese descartada por alguns estudiosos). O certo é que a semelhança com a estrutura sapiencial é referenciada com a frase de conclusão “todos os dias de nossa vida”, frequentemente encontrada nos Salmos (como é o caso de Sl 16,11; 18,51; 23,6; 28,9; 30,13).

Análise textual
Somente com análise de aproximação de ideias. Esta trata das referências verbais encontradas nos textos, como que justificativas gramaticais. Para melhor compreensão, separamos o cântico em duas estrofes, em seguida destacamos alguns verbos, e depois deles faremos nossos comentários:


 
Verbos de destaque: a) “visitou”, b) “libertou”, c) “fez surgir”, (também traduzido como “ergueu”).
 
 
Conclusão estrutural lucana

O hino é cristológico: Cristo, o Messias, é a principal razão da bendição. Mostra clara a realização da expectativa veterotestamentária: o cumprimento de uma promessa a Davi e sua casa, que foi transmitida pelos profetas, e de um juramento a Abraão e seus descendentes, que fazia parte da aliança.

Aliança, dois aspectos: Deus que propõe (primeira estrofe, com a promessa e sua realização) e, o povo que responde (segunda estrofe, com a parceria, baseada na santidade e na justiça que devem marcar sua vida). Este povo, que mantém a aliança, serve a Deus todos os dias de sua vida, quer no templo, na ação litúrgica, quer na vida pessoal-social, em prol da coletividade (cf. 74b).
Elogio conclusivo: nos vv 78-79, a Jesus, no qual se realiza o tema da “visita” de Deus, que iniciou a primeira estrofe, e à “misericórdia” de Deus, que iniciou a segunda estrofe.

João Batista, quase no fim do hino: João vem antes de Jesus, é o profeta que prepara a luz (3ª estrofe). Ideia de preservar o propósito original do cântico, que dava prioridade ao Messias; por isso, o cântico precisa ser concluído com “o profeta do Altíssimo” que caminhará à frente do Senhor para preparar seus caminhos, mas com a “luz nascente do alto” que aparece aos que estão nas trevas. Imagens queridas dos autores de Isaías, da quais Lucas se apropria. Lucas busca em Is 40,3 e Mc 1,1-8 (“voz que clama no deserto” e “eis que eu envio meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho diante de ti”). O profeta é designação singular da parte de Jesus referenciando-se a João em Lc 7,26 – “Um profeta? Sim, eu vos digo, mais que um profeta” – juntamente com a indicação em Lc 16,16 de que João Batista é o último dos profetas. É João Batista que fez com que o povo entendesse a visita de Deus através de uma conversão, que tinha como consequência o arrependimento e o perdão dos pecados.
Conclusão
Podemos concluir que este cântico é um conjunto de ideias veterotestamentárias e intertestamentárias, em que o autor celebra a redenção que Deus realiza através de Jesus, o Messias davídico. A intenção é a de recordar o louvor a Deus pela salvação oferecida por ele e a lembrança de sua paz, destinada a quem o respeita, seguindo sua aliança, pois é na aliança que a bondade e a misericórdia de Deus se manifestam.
 
Bibliografia:
BÍBLIA. Português. BÍBLIA DE JERUSALÉM. Tradução de La Bible de Jerusalém. São Paulo: Paulus. 2006.
BROWN, Raymond. O Nascimento do Messias. São Paulo: Paulinas, 2005, pp. 450-465.
GOURGUES, M. Os hinos do Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1995, p. 27.
 
 
 
 
 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

7º Encontro de Compositores da CNBB

Eurivaldo Silva Ferreira

Aconteceu dentre os dias 15 e 18 de novembro de 2012 a 7ª edição do Encontro dos Compositores da CNBB.


O Setor de Música Litúrgica da Comissão Episcopal para a Liturgia da CNBB vem realizando a cada ano um encontro de formação para compositores e letristas de música litúrgica. Considerando a necessidade urgente de aperfeiçoamento litúrgico-musical e o bom êxito dos encontros anteriores, o Setor quer proporcionar aos que se destinam a compor música litúrgica uma continuidade no aperfeiçoamento da técnica da composição e qualificação da música litúrgica da Igreja no Brasil.

Tendo como objetivo promover a formação litúrgico-musical de compositores e letristas com as competências requeridas à formação e ao desenvolvimento de um grupo comprometido com a música no Brasil dentro de parâmetros estéticos, teológico-litúrgicos e técnicos e culturais.
Desses encontros participam de pelo menos quatro edições compositores litúrgicos que já atuam como multiplicadores em suas dioceses ou regiões, convidados pelo Assessor do Setor de Música da CNBB, ou indicados pelos membros da Equipe de Reflexão da mesma. Esses compositores, atuando como multiplicadores, favorecem e auxiliam nossas comunidades, a fim de que possam cantar uma música que as ajudem a vivenciar o mistério pascal presente e celebrado nos diversos momentos do Ano Litúrgico.

A música litúrgica é como se fosse uma casa construída em mutirão, e todos nós somos artesãos dessa música, por isso a CNBB deseja investir na formação de pessoas compromissadas com essa proposta, convidando-as a se qualificarem na reflexão e na elaboração de uma música genuína, recheada do mistério pascal. Nas várias edições dos encontros, músicos e letristas são contemplados com subsídios teóricos e práticos voltados para a elaboração de cantos litúrgicos, ensejando conhecimento e técnicas de composição, além de ajudar a desenvolver um plano de formação litúrgico-musical, estimulando o surgimento de novas composições, como que num “mutirão”, que preencherão lacunas ainda existentes no repertório litúrgico da Igreja no Brasil.

O encontro sempre tem três eixos temáticos: a Liturgia, a Música e a Cultura brasileira, que são abordados,  discutidos e refletidos em palestras, exposições ou em rodas de conversa, por isso sempre é assessorado por músicos profissionais, liturgistas qualificados e convidados especialistas no assunto, tudo sob a coordenação do Assessor da CNBB da Música Litúrgica, Pe. Carlos Sala.
Desta edição estiverem presentes 32 participantes, dentre músicos e compositores letristas de diversas regiões do país, especialmente convidados do Setor de Música da CNBB.

Organizado pela Equipe de Reflexão de Música Litúrgica da CNBB, esta edição teve como conteúdo e proposta o Ciclo do Natal do Ano Litúrgico, tendo em vista refletir e partilhar a caminhada eclesial, olhar o Natal a partir da cultura popular, refletir e aprofundar os fundamentos teológico-litúrgicos deste ciclo, bem como qualificar o conceito de mistagogia da música litúrgica. Os participantes também foram acompanhados por especialistas em duas oficinas práticas: uma de texto e poesia e outra de melodia.

A oficina de textos e poesia foi ministrada pelo Prof. Roberto Lima, especialista em linguística textual e integrante emérito do corpo docente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde lecionou Filosofia e Letras, além de poeta e letrista, com participação em várias letras, sobretudo as da Campanha da Fraternidade. Nesta oficina, o foco era a elaboração de textos e a composição poética, voltados para as letras do canto litúrgico do ponto de vista formal (técnicas de composição, prosódias e estilística) e de conteúdo (liturgia e fundamentos teológicos), apropriando-se dos estilos de rima, verso, métrica e poesia. Os participantes também analisaram textos da poesia clássica, canções da MPB e estilos poético-musicais mais modernos, como o RAP, de onde puderam extrair elementos para a inspiração de seus textos.

Já a oficina de melodia teve a colaboração de Paula Molinari, professora e coordenadora do curso de música da Faculdade de Campo Limpo Paulista (FACCAMP). Essas oficinas de composição musical são voltadas para a composição de melodias, atendendo ao espírito das letras litúrgicas, onde são abordados aspectos teóricos e práticos de composição, harmonia e arranjos musicais. Quem participou desta oficina teve como material para a elaboração das melodias os textos e poesias oriundos da oficina conduzida por Roberto Lima. Durante o encontro houve um momento de partilha em conjunto do aprendizado das duas oficinas.

O tema teológico-litúrgico que circunda em torno do Ano Litúrgico é sempre abordado por um especialista no assunto. Nesta edição, Penha Carpanedo, Discípula do Divino Mestre, foi convidada para trabalhar com os participantes o Ciclo do Natal, com sua preparação (Advento) e sua extensão (Tempo do Natal). Tendo ampla experiência na pedagogia litúrgica, sobretudo nas comunidades e em escolas de formação litúrgica, tanto para jovens como para adultos, Penha introduziu os participantes no Ciclo do Natal, explorando pedagogicamente os textos litúrgicos e patrísticos próprios do tempo, tudo sob o olhar cuidadoso da mistagogia, fonte que a Igreja tem para fazer a ponte entre teologia e liturgia.

O processo da abordagem do método mistagógico aplicado ao ensaio da música litúrgica foi elaborado por Márcio Antônio de Almeida. Esse especialista no assunto, além de músico e regente
de coro, atualmente dedica sua pesquisa à música litúrgica-ritual na UNESP, e em 2013 defenderá sua tese doutoral nesta área. Márcio ajudou os participantes a entrar no terreno da mistagogia e a aplicá-la ao ensaio de um canto litúrgico. Neste método parte-se da compreensão do rito, explorando seu sentido teológico, para se chegar a uma atitude espiritual. Assim, letra, poesia e melodia, são elementos que, se bem conjugados, ajudam a comunidade de fé, por meio do canto litúrgico, a se inserir no mistério celebrado.

As várias celebrações, sobretudo a Eucaristia, que aconteceram durante o encontro foram momentos fortes e marcados verdadeiramente com o espírito do qual requer a caminhada da Igreja no Brasil, principalmente porque quem delas participou, pode evidenciar o caráter permanente da realidade do mistério pascal, ainda mais quando o repertório, que foi bem escolhido, cantou aquilo que é próprio do tempo, do mistério ou da festa.

Ainda permanece como perspectiva do Setor de Música Litúrgica da CNBB a continuidade deste processo. A ideia da criação e manutenção de um corpo eclesial de compositores implica numa consciência eclesial, a de trabalhar como Igreja, tendo em vista a unidade na diversidade, principalmente quando o assunto é música litúrgica. Não se trata mais de ficar soltos, desperdiçando seus talentos, mas sim aproveitando e colocando-os à disposição da Igreja, trabalhando juntos, somando talentos, criando uma cultura, tendo uma liberdade na caridade, sem bloqueio e sem barreiras. Nesta Igreja em que todos os compositores litúrgicos estão inseridos, todo mundo tem as mesmas alegrias e esperanças, como se fosse um só coração e uma só alma. Afinal o que é a liturgia senão a memória viva de Jesus Cristo, congregados no Espírito Santo?

Confira algumas fotos:









































segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Prestigie o espetáculo "A curandeira", com atuação de Adriana Fortes, dia 13 de dezembro, às 20h00, no Teatro Paulinas. O espetáculo tem o apoio da Rede Celebra de Animação Litúrgica - núcleo São Paulo - SP. Veja mais informações no cartaz abaixo.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Santos com status de deuses



José Lisboa Moreira de Oliveira


Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília
Adital

No dia 1º de novembro a Igreja Católica Romana celebrou a solenidade de todos os santos e de todas as santas. No Brasil a solenidade sempre é transferida para o primeiro domingo de novembro. Temos, pois, um momento propício para refletirmos sobre o assunto.

A Arqueologia conseguiu comprovar que há pelo menos 150 mil anos atrás os nossos ancestrais já praticavam alguma forma de religiosidade. Hoje temos registros arqueológicos que garantem a veracidade desta afirmação. Tais registros datam do Paleolítico Superior, com o homem de Neandertal, que enterrava seus mortos com oferendas, demonstrando assim uma crença em algo sobrenatural.

De um modo geral pode-se afirmar também que o surgimento da religião esteve ligado ao politeísmo. As religiões monoteístas são recentíssimas, embora no passado alguns estudiosos, como o padre austríaco Wilhelm Schmidt, tentassem provar o contrário. E os estudos mostram que, mesmo quando o monoteísmo se impôs em determinadas regiões, a tendência a adorar vários deuses continuou presente nestes locais. É o caso, por exemplo, do monoteísmo hebraico. Pesquisas recentes, referendadas por descobertas arqueológicas, revelaram que o javismo não se impôs de maneira absoluta, mesmo quando os outros cultos foram banidos por meios legais. Embora o culto oficial fosse monolátrico, o povo continuou cultuando outras divindades.

O surgimento do cristianismo se deu no âmbito do império romano, onde o politeísmo estava fortemente disseminado, também por uma estratégia política de Roma, que evitava destruir por completo a religiosidade dos povos subjugados. Quando em 380, por decreto do imperador Teodósio, o cristianismo se tornou religião de Estado, o politeísmo continuou presente. É verdade que neste período as conversões em massas aconteceram, pois as pessoas temiam represálias e recebiam vantagens, mas isso não foi suficiente para abolir por completo as práticas politeístas.

Em muitos casos o próprio cristianismo fez uma adaptação dos cultos e práticas politeístas, sem aboli-las por completo. O que antes era pagão transformou-se, de repente, em atividade do cristianismo. Isso eu encontrei pessoalmente em várias regiões da Itália. Lembro-me muito bem que visitando algumas vezes a Sicília tive contato com o culto a São Calógero celebrado em vários lugares da ilha. Durante a festa do santo notei certos costumes ligados ao mundo da agricultura. Ao pesquisar a origem dessas práticas, descobri que o cristianismo havia substituído o culto ao deus grego Kronos (correspondente ao romano Saturno), existente na localidade, pelo culto a São Calógero.

O resultado de todo esse processo é que, na prática concreta, os santos adquiriram status de deuses. A eles as pessoas se dirigem como se fosse a divindades, fazendo pedidos e promessas. No inconsciente coletivo os santos e as santas não são apenas exemplos de testemunho da fé cristã (Hb 6,12), mas verdadeiros deuses aos quais são dirigidas preces, súplicas e agradecimentos. Isso faz com que a profissão de fé na Trindade e o culto trinitário fiquem em segundo plano, ou até mesmo totalmente esquecidos. Certamente alguém me dirá que isso não é verdade, pois o Catecismo da Igreja Católica não ensina tal coisa. Porém, não adianta protestar. No catolicismo popular de raiz milenar o Catecismo Romano não conta. Além disso, práticas atualmente em vigor dentro da própria Igreja Católica continuam alimentando e reforçando este inconsciente coletivo. Basta, por exemplo, visitar santuários dedicados a Nossa Senhora e a santos como Judas Tadeu, Rita de Cássia, Edwiges, Expedito e outros. O que é feito aqui só reforça o "panteão de deuses” católico.

Para completar, a mídia católica não faz por menos. O modo de apresentar os santos adota esta linha. Dias atrás assistia, por acaso, um programa católico apresentado por um ilustre "professor”. Falava do culto a Maria. Lá pelas tantas alguém manda uma mensagem dizendo que tinha dificuldade em aceitar o culto aos santos, pois não sendo eles onipresentes e oniscientes, não podiam escutar as preces dos fiéis. Foi então que o magnífico "professor” saiu com uma das mais violentas heresias, dentre as tantas que se pode escutar em seu programa: "Meu caro, é verdade que os santos não são onipresentes e oniscientes, mas Deus transmite a eles o recado dos fiéis. Deus funciona como uma espécie de central de informações, passando o pedido dos fiéis aos santos”.

Neste modelo de culto aos santos, proclamado ao vivo pelo ilustre "professor”, a Trindade Santa ficou reduzida a um "Call Center”. Não há como não afirmar que, na prática concreta, temos um verdadeiro panteão católico. O Deus Trindade ficou relegado a um segundo plano, pois as preces, súplicas, os pedidos e, às vezes, alguns agradecimentos são dirigidos diretamente aos santos. As pessoas não se dirigem a Deus Trindade, mas aos santos, os quais são vistos como verdadeiros deuses, capazes de realizar prodígios, milagres e portentos. E a mídia católica, salvo honrosas exceções, reforça ainda mais tal concepção.

Há como mudar isso? Claro que sim, mas a Igreja Católica teria que revolucionar a sua catequese e as suas práticas. Isso seria demorado, mas se poderia chegar a uma mudança de mentalidade, depois de alguns anos de catequese séria e profunda. A catequese deveria começar explicitando que os santos não são deuses, aos quais dirigir pedidos. Eles são pessoas normais como nós, que levaram a sério o seguimento de Jesus. Eles devem apenas servir de exemplo para o seguimento de Jesus (Fl 3,17). É o que diz o Vaticano II: "Ao contemplarmos a vida daqueles que seguiram fielmente a Cristo, novo motivo nos impele a procurarmos a cidade futura (Hb 13,14; 11,10); ao mesmo tempo, aprendemos a descobrir, no estado e condição de cada um, qual é o caminho mais seguro para chegarmos, por entre as vicissitudes deste mundo, até à união perfeita com Cristo, quer dizer a santidade” (LG, 50).

Portanto, a função da veneração dos santos na Igreja é única e exclusivamente de exemplaridade: olhando como eles seguiram Jesus, procuramos fazer o mesmo hoje, dentro da nossa realidade (1Cor 4,16; 11,1). O que passa disso é abuso e desvio. Além disso, a Igreja deveria rever por completo a sua forma de canonizar santos e santas, avaliando apenas a autenticidade do seguimento (1Ts 1,6), abolindo a pretensão de que o santo faça pelo menos dois milagres. Isso só reforça a concepção de que os santos são vistos como deuses. E não adianta protestar, afirmando que o Catecismo da Igreja Católica diz bem claro que quem faz o milagre é Deus, pela intercessão do santo, pois isso o povo não entende. Para o povo o milagre é do santo e basta. E a Igreja Católica, com as suas práticas, os seus santuários e sua mídia, contribui para reforçar esta crença.

Temo, porém, que esta catequese não se faça na Igreja Católica Romana, pois isso iria mexer também com o econômico. Afinal de contas é o "panteão católico” que enche os cofres dos santuários, alimenta as fábricas de velas, objetos de cera, imagem de santos, as gráficas que produzem santinhos e as editoras que vendem milhões de cópias de novenas de santos. As fábricas, as gráficas e as editoras, por sua vez, patrocinam as despesas de muitos eclesiásticos, de santuários, de paróquias e da mídia católica. Se houvesse mudança, os padres, os bispos e as comunidades cristãs voltariam a ser pobres. A mídia católica não se sustentaria. E quando uma reforma toca o bolso dos eclesiásticos, isso causa um enorme rebu e ninguém tem coragem de mudar. Vale também para este caso a afirmação paulina: "A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (1Tm 6,10).

sábado, 3 de novembro de 2012

Marcelo Rossi busca catolicismo de massas, mas menos atento às questões sociais


extraído de: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/515157-religioso-busca-catolicismo-de-massas-mas-menos-atento-as-questoes-sociais


"A ocupação religiosa do espaço público, sobretudo nas capitais e nas regiões metropolitanas, tornou-se ainda mais monumental, mais espetacular e mais triunfalista.Tudo por um maior impacto evangelístico, gerar maior visibilidade pública e revestir seus líderes e suas organizações religiosas de maior poder, status e legitimidade". analisa Ricardo Mariano, professor da PUC-RS, é autor de "Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil" (Loyola), em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, 03-11-2012.

Segundo ele, "não é à toa que a inauguração do maior templo católico da América Latina ocorra nesse contexto de vigoroso ativismo religioso e de midiatização da religião intensificado por uma concorrência inter-religiosa sem precedentes na história nacional".

Eis o artigo.

A guinada conservadora católica, o acelerado declínio numérico da filial brasileira da Santa Sé e a avalanche pentecostal acirraram a competição entre católicos e evangélicos a partir de 1980. Essa peleja deflagrou uma disputa religiosa pelo espaço público e uma desenfreada ocupação religiosa da mídia e da política partidária.

Desde então tele-evangelistas, padres-celebridades e cantores gospel tornaram-se onipresentes na mídia eletrônica, emissoras de TV pentecostais e católicas brotaram como cogumelos, rebanhos religiosos viram-se tratados como currais eleitorais, igrejas passaram a formar bancadas parlamentares, a expandir seu poder nos Legislativos e a controlar partidos, discursos moralistas reacionários de inspiração bíblica tomaram de assalto as eleições.

A ocupação religiosa do espaço público, sobretudo nas capitais e nas regiões metropolitanas, tornou-se ainda mais monumental, mais espetacular e mais triunfalista.

Tudo por um maior impacto evangelístico, gerar maior visibilidade pública e revestir seus líderes e suas organizações religiosas de maior poder, status e legitimidade.

Foi por isso que católicos, liderados por carismáticos e suas comunidades, e neopentecostais, turbinados pela famigerada teologia da prosperidade, trataram de investir pesado em megaeventos, megashows, megamarchas e megamissas e torrar fortunas na construção de imponentes santuários e catedrais.

Não é à toa que a inauguração do maior templo católico da América Latina ocorra nesse contexto de vigoroso ativismo religioso e de midiatização da religião intensificado por uma concorrência inter-religiosa sem precedentes na história nacional.

Autor do slogan "sou feliz porque sou católico" e líder religioso mais popular do país, padre Marcelo Rossi foi o idealizador do Santuário Theotokos - Mãe de Deus. A fim de resgatar as ovelhas desgarradas do rebanho e de impedir o "avanço das seitas", o sacerdote multimídia, multitarefa e workaholic tem trabalhado, em ritmo toyotista anos a fio, como cantor, ator, escritor, radialista e tele-evangelista, militado no Twitter e no Facebook e, de quebra, acolhido romarias de políticos às missas em busca da bênção nas urnas. Em reconhecimento a seus feitos, o papa Bento XVI lhe deu o Prêmio Van Thuân, em 2010.

No novo santuário, Marcelo Rossi ocupará um palco muito maior e mais reluzente para cantar seus louvores e baladas, coreografar a "aeróbica do Senhor", receber celebridades, agitar, entreter e emocionar as multidões de seguidores, benzer seus objetos pessoais e lançar-lhes baldes de água benta ao fim de cada show-missa.

Assim ele vai contribuindo para configurar um catolicismo de massas alegre, corpóreo, sensorial, emotivo, mágico, midiático, terapêutico, taumatúrgico, moral e teologicamente conservador. Mais popular, mas menos intelectualizado e menos atento aos problemas socioeconômicos.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Descobrir o Cristo frágil em meio às contradições da esperança


Eurivaldo Silva Ferreira

       
          O tempo do Advento, que logo celebraremos, nos coloca em sintonia com um Deus que se dá através da graça. Sua graça é misteriosamente percebida pela esperança da vinda futura de Jesus Cristo, e, concreta, na sua vinda histórica: ‘ele veio uma vez na carne, mas virá uma segunda vez, na glória’. Mas, continua nos visitando na pessoa do irmão, da irmã, como numa vinda intermediária.

        São Bernardo de Claraval afirma que a vinda intermediária de Cristo acontece de forma oculta somente aos que o veem em si mesmos e recebem a salvação. Na vinda do Cristo compreendemos a manifestação do poder da graça de Deus[1]. Nesta compreensão o esforço de participar do bem do mundo e para o mundo representa o esforço de nossa participação na recepção da proposta de salvação oferecida por Jesus. Jesus é então o esforço moral que representa o alcance do bem em nós. Também em Jesus, a encarnação não se realiza apenas no seu nascimento, mas no decorrer de sua vida, ou seja, ao longo de sua vida ele foi manifestando em obras e atitudes a própria graça operada pelo Pai, desde o princípio, a graça, então, é fato inerente ao ser de Jesus, por isso ele passa a sua vida fazendo o bem. O que seria então fazer o bem num mundo corrompido pela maldade e pelo ódio? Tentemos analisar e investigar essa proposta a partir da espiritualidade do Tempo do Advento.

          O Prefácio I do tempo do Advento diz que Cristo veio revestido de nossa fragilidade.

          Na verdade, é justo e necessário, é nosso dever e salvação dar-vos graças, sempre e em todo o 
          lugar, Senhor, Pai santo, Deus eterno e todo-poderoso, por Cristo, Senhor nosso.
          Revestido de nossa fragilidade, ele veio a primeira vez para realizar seu eterno plano de  
          amor e abrir-nos o caminho da salvação.
          Revestido de sua glória, ele virá uma segunda vez para conceder-nos em plenitude os bens  
          prometidos que hoje, vigilantes, esperamos.
          Por essa razão, agora e sempre, nós nos unimos aos anjos e a todos os santos, cantando a  
          uma só voz: 

          O Prefácio é um texto que contém toda uma construção de propostas de louvores ao Pai e que aparece na introdução da liturgia eucarística, contemplando as características específicas daquela celebração, daquele tempo ou da festa litúrgica que se está celebrando. Localizado no início da Oração Eucarística, ele dá como que o tom da celebração daquele dia, unindo a mesa da Eucaristia com a mesa da Palavra, culminando este motivo de louvor com o canto do Santo, Santo, Santo. Neste prefácio trata-se de dizer que Cristo esteve presente neste mundo, sendo homem, e conheceu as nossas misérias, mas que, numa segunda vinda sua, transformará essas situações em vida gloriosa.

          Hoje, cabe-nos perguntar: quais são as misérias que conhecemos? Se as conhecemos, é com o olhar do Cristo revestido de nossa fragilidade? Levando em conta o olhar de Cristo sobre nossas fragilidades, podemos também, em consequência disso, nos fazermos uma pergunta: quem são hoje os que se encontram em situação de fragilidade? A Igreja nos ajuda a entender que são os pobres, principalmente os pobres do chamado Terceiro Mundo, miseráveis e famélicos. Eles realmente conhecem a Cristo, sabem que Cristo tornou-se como um deles? Ou: quem é Cristo para nós, hoje, ameaçados pelo inferno atômico ou pelo holocausto climático? Ou ainda: quem é Cristo para a natureza moribunda e para nós?

          Nossa investigação é a de considerar que por detrás dos textos litúrgicos há uma cristologia implícita, que nos revela, de algum modo, o Cristo que nos quer salvar, continuamente. Sabemos, contudo, que a salvação oferecida pelo próprio Cristo passa pela natureza da celebração, isto é, seremos salvos em comunidade, ou ainda, seremos salvos em assembleia celebrante, reunidos como um único povo de Deus, assim nos garante a Lumen Gentium.

          Para entenderemos então a questão da fragilidade, apontada pelo Prefácio I do Tempo do Advento, e, voltando à questão, é necessário analisarmos as respostas dos pensadores da teologia moderna. Segundo este pensamento, deverá levar-se em conta os “sofrimentos do tempo presente” e das “criaturas submetidas à transitoriedade” e o próprio Israel. Israel mesmo foi quem presenciou a atuação do Deus que passa por sua existência, salvando-o. O livro do Êxodo retrata bem esta experiência. A exemplo do que se passa com a cruz, também aqui não há respostas prontas. Por outro lado, inacabada e necessitada de revisão, a cristologia, orientando-se na pessoa de Jesus, na sua história total e na cruz, se torna pós-realidade e promessa, pois introduz neste novo tempo e nesta nova criação, na qual o crucificado não mais será nenhum escândalo e nenhuma loucura[2], porque ele se tornou o fundamento para o “tudo é novo”, (cf. Ap 21,5). É esta a cristologia que termina com o “Amém” e o “Vem, Senhor Jesus” (cf. Ap. 22,20), expressões características do Tempo do Advento.

          Portanto, falar de fragilidade no mundo de hoje é falar de desapontamento, de decepção, de angústia, e de outras características negativas mais que o leitor quiser apontar. O fato é que, se reduzíssemos a presença de Deus à existência histórica de Jesus de Nazaré, talvez nos sentiríamos um pouco frustrados. A presença de Jesus entre nós, vivendo como um ser frágil, não nos indica um cenário de descontentamento, mas devemos considerar que o Deus de Israel, que escreveu sua história de salvação em meio a decepções, tragédias e frustrações, é o mesmo Deus que quer salvar o seu único povo, por isso a salvação de Cristo acontece em meio a tudo isso, e até mesmo na mais difícil situação de fragilidade.

          Se perguntarmos por Jesus de Nazaré hoje, diríamos, eventualmente, que esteve no mundo e constataríamos que não está mais. Subiu ao céu. Voltou ao Pai! O máximo que, nesse caso, nos caberia fazer seria uma pesquisa histórica para descobrir alguns rastros, em gestos e palavras, que teriam sobrado do passado. Talvez concluiríamos com alguma certeza: ele esteve aqui, aqui ele nasceu, ali morreu, acolá subiu ao céu... Graças à Cristologia, que nos permite uma investigação mais séria e aprofundada do evento Jesus de Nazaré, nossa constatação não para por aí. Nossa realidade nos permite avançar no pensamento teológico e, já que somos gente de fé, acreditamos que Jesus garantiu aos seus discípulos que ficaria com eles até o fim dos tempos (cf. Mt 28,20). Sua presença, a presença de Deus entre nós, está, pois, assegurada enquanto durar a história humana na terra, mesmo que continue havendo decepções, desesperos e fragilidades, característicos da natureza do mundo terreno. Em meio a essas situações, cabe a nós, enquanto celebramos na esperança de que Cristo que vem para refazer a dor em alegria, a fragilidade em segurança, a morte em vida, individualizá-la, ou seja, descobrir Cristo presente em nossos dias. Somos capazes disso?

          O Tempo do Advento nos coloca nessa chave de descoberta. O apóstolo Paulo em  1Cor 10,11 afirma que a plenitude dos tempos chegou, mas, como afirma o número 48 da Lumen Gentium, a Igreja aguarda ansiosamente o estabelecimento de “novos céus e nova terra”, participando dessa espera, administrando os sacramentos e anunciando a boa nova do Reino, numa atitude de contínua peregrinação, até que o Reino se cumpra definitivamente[3]. Quer dizer, a plenitude dos tempos chegou, mas não ainda em sua completude, pois é necessário que em nossos corpos mortais ainda se conclua o processo de salvação iniciado por Jesus, nos exorta também o apóstolo Paulo.

          Desde os primeiros cristãos a interpretação da existência de Jesus de Nazaré é algo inerente à nossa fé, que faz parte de um cabedal e elementos constitutivos e normativos também da fé da Igreja. Nós, os cristãos de hoje, podemos continuar essa interpretação, de acordo com as nossas características de vida. tanto num patamar como noutro existem elementos que precisam ser continuados. Tanto num como noutro é necessário fazer uma atualização do evento Jesus de Nazaré, por isso a Cristologia de hoje  carece de uma atualização que dê conta do mundo em que vivemos e que torne acessível à humanidade  os dados vitais do próprio evento Jesus de Nazaré. A fidelização à realidade pode passar por expressões outras de atualização, mas tem que guardar a relação pela qual ela se torna verdadeira e real.

          A pergunta fundamental continua sendo aquela: quem é Jesus? O que é oriunda da Escritura e dá origem à profissão de fé. Por que ele se tornou frágil como nós? Essa resposta que implica na profissão de fé, assim como fez Zacarias em seu cântico, implica também na compreensão do que se diz. Na verdade, hoje já não cantamos mais como Zacarias o fez, apoiado no que conhecia da tradição bíblica. Isso vai um pouco mais longe do que simplesmente a repetição da frase bíblica. De um lado, o que significa Cristo, o Sol do Oriente, Filho do Homem, Filho de Deus e Deus Vivo? Não são coisas que têm sentido transparente vivo, mas que precisam de novas interpretações.

          Que o Tempo do Advento nos ajude a entender o Jesus de Nazaré frágil e vivente como nós. Que nós o tenhamos como paradigma na luta para vencermos as fragilidades do mundo moderno.

          Feliz Tempo do Advento a todos!

 [1] Liturgia das Horas, Quarta-feira da Primeira Semana do Advento, pp.137-138.
 [2] Simeão afirma em seu cântico que o menino que ele tem agora nos braços será motivo de queda e soerguimento para os filhos de Israel, portanto, alegria para alguns e escândalo para outros (cf. Lc 2,29-32; 34)
 [3] Lumen Gentium, 48.