sexta-feira, 1 de junho de 2012

Música e humanidade


Eurivaldo Silva Ferreira
Ultimamente tem-se percebido que a música possui uma grande variedade de destinações. O uso terapêutico também é uma dessas. Há quem diga, embora ainda não comprovado pela ciência, que a música ajuda em certos tratamentos de recuperação. Os musicoterapeutas estão contribuindo e muito para este fim.
Não obstante à destinação clínica, a música certamente já é um instrumento amplamente aceitável nas religiões do mundo. O ser humano percebeu que o contato com o divino, com o transcendente pode ser facilitado pela música. As religiões, percebendo esse vislumbre, recorrem à música para divulgarem seus cultos e, muitas vezes, seus fiéis são atraídos aos grandes templos religiosos pela música.
Com a Igreja Católica Romana não aconteceu diferente. Uma coisa interessante chamou a atenção do mundo católico com relação à música. A relação entre o ser humano e o transcendente, o divino, é sobretudo realizada através dos cultos. Na Igreja Católica denomina-se liturgia o conjunto de ações sagradas. Com e através da música que ocupa no culto um lugar definido, o ser humano transcende, isto é, alcança aquilo que é inatingível, dizem os especialistas.
A partir deste artigo começaremos uma série de publicações para tratarmos da música religiosa, passando pela música sacra, música cristã, até chegarmos à música litúrgica ou ritual, e mais especificamente trataremos da música litúrgica na Igreja Católica. Esperamos com isso colaborar para o desenvolvimento do conhecimento musical de muitos que se destinam à essa arte servindo à liturgia com seus ministérios, seja cantando ou tocando.
Num mundo que bebe cultura a cada momento, a música é parte essencial da existência da humanidade. Dentre todas as artes ela tem foro privilegiado, digamos assim. Existe música pra tudo hoje em dia, dançar, brincar, animar, música para dormir, música para acalmar e até música para ir à guerra, acreditem... Com música se celebra a vida e a morte, o trabalho e a festa, o riso e a dor... Entendemos que hoje em dia tudo respira música e som. Todos são atraídos de certa forma pela música e para a música. Então um mundo que vive a correria do tecnicismo, percebe na arte musical um momento de prazer, de encantamento, é como se fosse uma pausa restauradora que se faz através da musicalidade, do som ou das artes de uma maneira geral.
Uma imagem que podemos tomar para ampliar esta ideiade atração pela música é a do conto tradicional alemão, O flautista de Hamelin, em que o tocador de flauta atraía todas as crianças da cidade pela música, através do som que saia de sua flauta.
Os especialistas no assunto dizem que nosso organismo tem a faculdade de perceber os sons externos e a eles se adequarem, de modo que transmitem ao cérebro certas emoções. Isso acontece também com toda forma de arte, a pintura, a escultura, a dança etc. O fato é que o que sabemos é que não existem comunidades humanas sem atividade musical. Uma hipótese bem provável para se explicar esse fato é a de que a música como uma das artes mais antigas do mundo, tenha influenciado a humanidade em seus diversos estágios de evolução e em suas diversas atividades, favorecendo a preparação das ações coletivas, garantindo assim a coesão social. É só prestarmos atenção aos índios, por exemplo, eles fazem música pra tudo. Para os indígenas, a música compõe sua existência e é considerada em seus rituais. Outra possibilidade de dizermos que a música cumpre um papel definido é quando prestamos atenção numa marcha militar ou ainda a música que acompanha os funerais.
O poder da música é tão forte que as mães cantam para que seus bebês possam pegar no sono. É como se o canto da mãe hipnotizasse a criança. A este tipo de música nós chamamos de ‘acalanto’, isto é, música pra fazer dormir.
A humanidade foi se desenvolvendo com a música em seus diversos estágios. O homem primitivo foi descobrindo o som. Os instrumentos de sopro e de percussão foram os primeiros a serem inventados. O sopro pela própria descoberta do som humano, a voz, a respiração etc.; a percussão pelo choque entre dois objetos duros. Foi assim que tudo foi evoluindo até chegarmos a instrumentos tão sofisticados como o violino, o piano, o violoncelo, a flauta etc. O homem foi descobrindo o poder dos sons e inventando variados instrumentos e deles tirando a sonoridade que queria, até chegar ao que temos hoje, uma infinidade de instrumentos musicais. Temos até em certas regiões instrumentos musicais que ainda são considerados poucos usuais, ou seja, não é todo mundo que domina o manuseio, o toque daquele instrumento.
A voz cantada também sofreu uma evolução paralela aos instrumentos. É bem capaz que no começo de tudo apenas a voz era um meio musical. A fala colaborou para a musicalidade humana. Então podemos afirmar que a voz é o mais antigo instrumento musical. Antes de o homem produzir sons com instrumentos, ele já produzia som com a voz. Sem dúvida, na evolução do mundo, voz e música caminharam juntas. Daí afirmarmos que mais tarde, com a evolução do mundo, o homem foi juntando som vocal, a voz, e som instrumental, o que resultou numa união perfeita. Quando esses dois elementos se juntam, temos verdadeira arte musical.
Na evolução da fala é correto também afirmar que ela foi se modelando até alcançar porte de melodia. Veja, cada um de nós tem sua fala, seu jeito próprio de falar, alguns mais graves, outros mais agudos, alguns mais rápidos, outros mais lentos, os sotaques e os regionalismos, mas nossa fala é nossa maneira musical de nos comunicarmos. Quando estou triste, minha voz sai de um jeito, quando estou alegre, minha voz é outra, e assim por diante. De certo ponto de vista podemos dizer que toda pessoa é dotada de um caráter musical já que possui a fala. A isso se explica pelo fator da entonação. A partir dela nasce a melodia. É um elemento comum às duas maneiras sonoras de nos expressarmos: voz falada e voz cantada. Costumamos dizer que quem fala tem todas as potencialidades pra cantar, soar uma melodia e desenvolver-se musicalmente.
Portanto, nossa existência é toda música. Ela é uma arte, e como arte nós a absorvemos como uma necessidade orgânica, que faz bem. A arte musical é uma das práticas mais antigas da humanidade. O ser humano serviu-se das artes para comunicar-se também. As artes, em geral, garantem o estado social das comunidades e permitem o intermeio entre caos e organização, isto é, o ser humano vale-se das artes. É só olhar ao nosso redor, em nossa cidade temos variadas manifestações de artes como esculturas, painéis, obras, espalhados em todos os pontos da cidade e também dentro de museus e exposições.
Muito bem. Isso foi apenas um ‘aperitivo’. Hoje vimos como a música é importante na evolução do ser humano. Foi uma verdadeira aula de história. Vimos também que a música exerce uma função no desenvolvimento da humanidade. No próximo artigo analisaremos uma das funções da música: a de servir aos cultos religiosos.