sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

A música ritual como símbolo


Eurivaldo S. Ferreira


Em se tratando de cantar e tocar uma música ritual, se esta música possui a faculdade de realizar a união de todas as vozes da assembléia, na unidade de uma mesma melodia, esta mesma comunhão sonora de vozes diferentes parecerá aos Padres da Igreja como o símbolo de uma realidade mais profunda[1]. Portanto, para eles, o canto comunitário é a manifestação externa da união dos corações na mútua caridade, é sinal da fraternidade espiritual entre os todos os membros da assembléia, reunida em culto[2]. E acrescentam: o canto enquanto uníssono ainda é um símbolo mais expressivo da unidade espiritual da assembléia litúrgica, cuja imagem retrata o uníssono dos corações[3].

É também São João Crisóstomo que afirma que no canto a uma só voz há uma realidade simbólica da Igreja, que de muitos membros forma um só corpo. Outros Padres foram unânimes em afirmar que o canto ritual, por ser uma atividade agradabilíssima ao homem, exerce um extraordinário serviço à atualização da palavra de Deus; torna-se sinal da alegria e do amor cristão; manifesta a expressão eclesial na união da caridade cristã; é o símbolo do sacrifício espiritual do cristão[4].

Esta mentalidade da música ritual representada pela unidade simbólica transcorreu os tempos e está presente na liturgia, mais precisamente selada no prefácio da Oração Eucarística, justamente apontando a realização do canto da terra, na imitação perfeita do canto dos anjos no céu, freqüentemente apresentados no cantando a uma só voz, antes da aclamação do Santo.

Para Santo Ambrósio, a relação do canto ritual com o sagrado tem a característica de nos colocar em comunhão com o mistério, com a realidade divina, mas também com nós mesmos e com os demais, de maneira que podemos formar um coro de homens sagrados[5].

Para Basurko, quando cita Bonsirven, as imagens e os símbolos humanos tratam de expressar de alguma forma essa realidade intangível, deixando sempre na escuridão uma parte dela. A linguagem simbólica fica, muitas vezes, irredutível ao pensamento logicamente formulado, às afirmações abstratas ou simplesmente conceituais; então permanece, em parte, incomunicável. No entanto, percebe-se por meio dela uma indicação ou uma orientação do sentimento, da imaginação e do pensamento que fazem captar em uma linha mais intuitiva a realidade que está presente no autor[6].

Como nossa pesquisa tratará da análise mistagógica da música ritual no tempo do Advento, não nos permitirá aprofundamentos bíblicos deste tema. Porém, destacaremos o livro do Apocalipse, cujo símbolo na forma de canto ritual nele contido, tanto quanto no resto da tradição, é assumido principalmente, e como em primeira linha, enquanto comunitário, como canto entoado pela assembléia em comum e dentro de um quadro litúrgico[7].

Assim, podemos concluir que, como símbolo, a música, o canto ritual representam a expressão da união da assembléia, estabelecendo a igualdade entre todos os membros, superando as diferenças de idade e de condição social por meio da entoação comum de uma mesma melodia[8].

O canto litúrgico (ritual) como símbolo sempre foi considerado como o mais adequado para transcrever a realidade do além, destaca Basurko. Desta forma, já que dissemos que o Advento nos é dado como um tempo mais intenso de se proclamar a vinda do reino de Deus em nosso mundo, o canto presente no Apocalipse, nos aponta para a realidade desse reino. Realidade caracterizada pela espera de uma vida plenamente feliz e perfeita, mas que ainda é oculta ao homem, enquanto passa pela terra. Vivendo a contemplação do mistério deste tempo, o canto ritual nos ajuda a compreender essa dimensão, a de piedosa e alegre espera.

[1] BASURKO, Xavier. O canto cristão na tradição primitiva. São Paulo: Ed. Paulus, 2005, p. 103. Coleção Liturgia e Música.
[2] Ibid, p. 104.
[3] Ibid, p. 104.
[4] Ibid. p. 225.
[5] Ibid, p. 108.
[6] Ibid, p. 224.
[7] Ibid, p. 224.
[8] Ibid, p. 107.

Símbolos. O que são?


Eurivaldo S. Ferreira


Sabemos que a liturgia se expressa por meio de símbolos, ou ações simbólicas, portanto símbolo ou ação simbólica trata-se de um sinal, ação visível ao nosso corpo, sensível, que quer trazer presente o invisível, sensível ao coração e ao espírito.

A justificativa para o uso do símbolo é que ele se apropria de uma linguagem mais completa, ultrapassa e complementa o pensamento racional, porque não toca apenas a nossa inteligência, toca nosso corpo (visão, tato, olfato, audição) e através do corpo a nossa emoção, nosso sentimento, o nosso coração.

Deste modo a Sacrosanctum Concílium afirma que a liturgia se expressa por meios de sinais sensíveis[1]. Gestos e palavras, música e silêncio são sinais sensíveis, ou seja: sinais que atingem o corpo, e por meio dos sinais a assembléia reunida entra em relação com o Mistério.

Assim, podemos concluir que a liturgia é a expressão visível que simboliza uma realidade invisível. Então, por uma questão de necessidade corpórea, precisamos do visível, e por uma questão de necessidade espiritual, necessitamos de sentido e de relação humana e com o divino. Através dos sinais entramos em relação com o mistério.

À medida que desenvolvemos a nossa sensibilidade em relação à vida, às pessoas, à natureza, nos tornamos capazes de intuir o significado dos símbolos. Todavia, seu desvendamento só se torna capaz através do contexto cultural e – no caso da liturgia – do contexto ritual[2].

Para Buyst, símbolos não são coisas, mas relações. Eles dependem de um processo de comunicação: da intenção e da intensidade de quem realiza o gesto, e do olhar de quem o vê, recebe, interpreta, entra em sintonia e vive[3].


[1] VIER, Frederico. Compêndio do Vaticano II – constituições, decretos, declarações. Petrópolis: Ed. Vozes. 3ª Edição. 1968, p.264.
[2] BUYST, Ione. Sinais e símbolos, in Manual de Liturgia II. A celebração do mistério pascal: fundamentos teológicos e elementos constitutivos. São Paulo: Ed. Paulus. 2005, p.233.
[3] Ibid.

A origem do Ciclo do Natal


Eurivaldo S. Ferreira

Para muitos, é fato realmente estranho começar o ciclo do Natal em pleno mês de dezembro. Marcelo Barros conta num artigo que escreveu sobre um amigo que muito se espantou quando foi à missa no início do Advento e disseram-lhe que naquele dia começava o ano novo na Igreja – era tempo de preparação para o Natal. Ele imaginou que iria participar de uma festa. No lugar disso, viu o altar e o padre vestidos de roxo e escutou o Evangelho do fim do mundo. Ele não entendeu nada.

Para os cristãos, a catequese do Natal será melhor compreendida quando encaramos o nascimento de Jesus – 25 de dezembro – não como um fato histórico, mas a partir da compreensão de que ele, sendo o Sol das nossas vidas, toma forma e jeito de criança, se faz homem e visita a terra, que por sua vez está grávida de seu amor e de sua salvação.

Já São Leão afirmava no século V que toda celebração litúrgica contém um “mistério”, pois, a partir da memória do que aconteceu, os cristãos são incorporados ao efeito de salvação que este acontecimento continua realizando no presente, como assim o é, por exemplo, o mistério do nascimento de Jesus.

Outro elemento que sempre ouvimos é o de que “o menino Jesus nasce em nossos corações”. Para Barros, se fosse assim, sendo apenas uma coisa intimista e sentimental, isto não seria “mistério” (sacramento)[1], o que contraria o pensamento de São Leão.

É por isso que os cristãos começam a Missa da Vigília de Natal cantando:

1. Reis e nações se amotinam e tramam, por quê? E vão contra o Senhor e o Messias, por quê? Deles se ri e aborrece o Senhor, e ouvirão: Fui eu quem consagrei o meu rei em Sião!

Glória ao Senhor, nas alturas, sem cessar.
Glória ao Senhor, terra inteira a cantar! (bis)

2. Vou proclamar o decreto que vem do Senhor, O que disse o Senhor e dizer me mandou: “Tu sé meu filho, meu filho, a Ti hoje, eu gerei, Tu me pedes e eu as nações te darei!”

3. Cetro de ferro nas mãos, as nações regerás, como um pote de barro as despedaçarás! Reis e juízes da terra, guiar-vos deixai, ao Senhor com temor lhe servi e honrai!
[2]

4. Não o irriteis, sua raiva será perdição!Bem felizes aqueles que n’Ele estão!
Glória ao Pai pelo Filho no Espírito, amor, Ao que vem nesta noite, da Igreja o louvor!

Não se trata de um dia como um outro qualquer, é um dia preparado desde todos os tempos por Deus, cujo Salmo 2 retrata historicamente esta preparação para o grande acontecimento da vinda do Senhor, apontado como um messias, o filho da divindade, como assim o era considerado na tradição de Israel. Teve origem na revolta da população local cujo novo reinado de Judá, que dominara a região, desrespeitara a modalidade de passagem de reinado de pai para filho. Neste salmo, o Senhor intervém, como que, intercedendo e ungindo um novo messias a fim de que ocupe o reinado e traga a paz necessária aos povos de Israel.

Cantando este salmo, é como se no início da celebração da Vigília do Natal fizéssemos uma espécie de recordação da vida, elencando os fatos, as memórias e os acontecimentos, claro, de uma maneira musical, o que torna o elemento simbólico muito mais atrativo e propício ao momento celebrativo. É neste sentido que sonha Buyst, quando sugere que, aprimorando-nos de técnica e espírito, a música na liturgia possa superar a timidez para dançar pelo menos em dias de festa, a redescobrir a riqueza de uma leitura bíblica, cantada em forma de recitativo e a encontrar o tom poético para “dizer” as orações litúrgicas[3].

De fato, a Igreja sempre teve a preocupação de liturgicamente, preparar os cristãos para a vinda do Senhor. Chamamos esse período de preparação como sendo o tempo do Advento, cuja inserção acontece no Ciclo do Natal, que se estende do primeiro domingo do Advento até a festa do Batismo do Senhor.

O Advento nos dá a possibilidade de preparar, num ritmo mais intenso, a vinda do reino de Deus em nosso mundo. Para Barros, de certo modo, o que mistifica este tempo é a “gravidez” do tempo, que cria em nós uma atitude permanente de espera, que nos faz crer na força escondida da Vida, que, continuamente, está para nascer[4]. Essa maternidade também se prolonga misticamente na Igreja, gerando o Cristo em nós.

Os primeiros cristãos expressavam esta ânsia na invocação: “Maranathá!”, o que quer dizer: “Vem, Senhor Jesus, vem!”. Contudo, isso foi-se perdendo com o tempo.

Para os orientais, representando iconograficamente o nascimento de Jesus, vemos que o menino Jesus está envolto como numa espécie de sudário, significando aquilo que o envolveria na ocasião da sua morte. Outras representações ainda mostram a manjedoura como numa forma de cruz, representando já no Natal o anúncio da Ressurreição.

Na verdade, crê-se que o Natal surgiu da festa da Vigília Pascal e está mais ligado à celebração da luz, depois dos dias escuros no hemisfério norte. Assim, está mais ligado à Páscoa do que uma simples memória do passado. De fato, na espiritualidade do Natal está um elemento que, segundo Barros, chamamos de regeneração da humanidade, como que sendo um novo início de vida de Deus em nós[5].

Como já vimos, o dia do Sol, comemorado pelos pagãos, passou a ser elemento ritual das celebrações cristãs, dando sentido como Cristo, o Novo Sol, que resplende em meio às trevas, que vence a morte e ressuscita é também o elemento central da festa do Natal.

Desta forma, tem sentido o canto[6] abaixo, sugerido já no 4º domingo do Advento:

Antífona
Como o sol nasce da aurora, de Maria nascerá aquele que a terra seca em jardim converterá. Ó Belém, abre teus braços ao pastor que a ti virá.

- Emanuel, Deus-conosco, vem ao nosso mundo, vem!

1. Ouve, ó pastor do teu povo, vem do alto céu onde estás!
- Emanuel, Deus conosco...

2. Vem teu rebanho salvar, mostra o amor que lhe tens!
- Emanuel...

3. Salva e protege esta vinha, foi tua mão que a plantou! Emanuel...

4. Salva e confirma este eleito, ele, que é nosso pastor!
- Emanuel...

Antífona:
Como o sol nasce da aurora...

É também o Advento considerado com uma forma de “Quaresma do Natal”. Nas Igrejas orientais ainda se costumam batizar os catecúmenos por ocasião da celebração de 6 de janeiro – Teofania, retomando o sentido primitivo que, por ocasião da quaresma, ocorria a preparação e o batismo dos mesmos catecúmenos.

Tanto o Advento como o Natal nos fazem pensar numa espiritualidade mais centrada na esperança de vida nova, como assim o fazemos por ocasião da Quaresma. Neste sentido tem o significado do termo Advento como ‘o Senhor vem!’ e também, na alegria da expectativa assume ainda este significado: ‘O Senhor virá!’. Reduzir o tempo do Advento a uma simples preparação para o Natal, seria empobrecer seu espírito e seu caráter. Assim, como na Quaresma, acender e reavivar o ânimo do tempo sugerido, são fatores característicos intrínsecos dos cristãos. O coração de pedra que se transforma num coração de carne é o alento de uma nova esperança. E essa esperança, fruto da ação do Espírito no íntimo dos corações (Rm 8,22-27) nos faz reacender o desejo “de modo que vivamos neste mundo na sobriedade, justiça e amor filial, aguardando a feliz esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo (Tt 2,12-13).


[1] BARROS, Marcelo. A terra está grávida do sol. A espiritualidade do Advento e do Natal. São Paulo: Ed. Apostolado litúrgico. In Revista de Liturgia, nº 126, novembro/dezembro/1994. pp 27-30.
[2] VELOSO, Reginaldo e PIRES, Lindbergh. Glória ao Senhor – Versão do Salmo 2. Cantos do Hinário Litúrgico da CNBB. In: Liturgia V – Natal. Canto de abertura da Missa da Vigília de Natal, sugerido pela CNBB. São Paulo: Paulus. 2001, faixa 1, 4’32.
[3] MONRABAL, Maria Victoria Triviño. Música, dança e poesia na Bíblia. São Paulo: Paulus, 2006. pp.5-6. Tradução de José Belisário da Silva (Coleção Liturgia e Música).
[4] BARROS, Marcelo. A terra está grávida do sol. A espiritualidade do Advento e do Natal. São Paulo: Ed. Apostolado litúrgico. In Revista de Liturgia, nº 126, novembro/dezembro/1994. pp 27-30.
[5] Ibid.
[6] VELOSO, Reginaldo e TREVISAN, A. Como o sol nasce da aurora – versão do Salmo 80. Cantos do Hinário Litúrgico da CNBB. In: Liturgia VIII – Advento . Canto de abertura para a missa do 4º Domingo do Advento – Ano C, sugerido pela CNBB. São Paulo: Paulus. 2002, faixa 13, 3’32.

A origem do Domingo: o dia do Sol


Eurivaldo Silva Ferreira

Por iniciativa dos cristãos que começaram a se reunir no domingo, devido ser esse dia em que Jesus ressuscitou, ficou marcado o Domingo como o dia da páscoa semanal. Os evangelhos relatam que Maria Madalena e outras mulheres foram bem cedinho até a sepultura de Jesus, a fim de prepararem seu corpo com perfumes, conforme rezava a tradição. Ocorre que, ao chegarem na sepultura, são surpreendidas, encontram-na vazia, o corpo não estava mais lá. Porém, fora do túmulo, a presença daquele que para elas devia ser o jardineiro a surpreende e este a chama pelo seu nome: Maria Madalena, e ela, chorando, lamenta a retirada do corpo do túmulo (cf. Jo 20,14-17; Mt 28,8-10; Mc 16,8; Lc 24,9-11). É o falar de Jesus ressuscitado que fez com que Maria anunciasse sua ressurreição aos discípulos e avisam: “Vimos o Senhor! Ele está vivo! Ele falou com a gente”. De fato, depois de várias constatações por parte dos discípulos e tempos depois Jesus aparecendo a eles na sala de jantar, torna a profecia realizada: a de que ele devia ressuscitar dos mortos.

Conforme também nos relata os evangelhos, este era o “primeiro dia da semana” (Mt 28,1; Mc 16,2; Lc 24,1.13; Jo 20,1.19). Conforme Ariovaldo[1], naquele tempo, entre os judeus, a semana começava com o dia seguinte após o sábado. Jesus morreu no sexto dia (para nós hoje: sexta-feira) e passou o sábado (sétimo e último dia) na sepultura... E foi precisamente a partir do seguinte, o “primeiro dia da semana”, que os discípulos e discípulas sentiram que tudo se renovou... A partir deste dia a Vida foi sentida como mais forte do que a morte.

É por isso que esse dia passou a ter um significado especial para os cristãos, por ele conter um simbolismo profundo, tanto fazendo memória da ressurreição de Cristo, como também nos lembra o dia do início da criação do mundo. É justamente essa relação com o Gênesis que nos faz lembrar o sol, pois no primeiro dia Deus separou a luz das trevas, criando o sol (cf. Gn 1,3-5), e no sétimo dia descansou (cf Gn 2,2-4). Para os cristãos, assimilando esse simbolismo, associaram a ressurreição com a Nova Criação, acontecida em Jesus Cristo, pelo acontecimento da ressurreição. É Jesus o Novo Sol. Ele reinaugura o novo dia da criação libertando a humanidade da morte, fazendo-a viver para a vida nova[2].

Para os cristãos, aproveitando-se de um motivo pagão que comemoravam num culto o dia do sol, estes associaram a este culto a festa da ressurreição, sendo para eles, Jesus o Novo Sol. Mais tarde, esse mesmo simbolismo também fará parte do ciclo do Natal, cujo dia mais comprido no verão no hemisfério norte estará associado ao nascimento do Jesus, o Sol da Justiça. É isto que Zacarias declara em seu canto:

3.
E, tu, menino, do alto Deus profeta, à frente dele irás, caminhos abrirás; do povo a salvação, das culpas o perdão, por seu imenso amor, tu anunciarás!

Nasceu pra nós o sol de nosso Deus, do céu veio um clarão pra quem, na escuridão, nas trevas quem dormia, recebeu um guia e no caminh’ da paz os nossos passos vão! Bendito seja!
[3]


Certamente, para os cristãos de hoje, custa-nos ainda o amadurecimento de o Domingo ser considerado como sendo o primeiro dia da semana e não o último. Fatores do nosso tempo, cercados de termos como ‘globalização’ e ‘exploração do trabalho’, dentre outros, ajudaram a construir a imagem do domingo como sendo o dia da trégua em meio às ruínas do lutar dos outros dias normais de trabalho. Contudo, termos como “roupa de domingo” ainda continuam muito em voga em nossos dias, justamente para salientar a importância deste dia como um dia diferente dos outros.

Às vezes, até para os nossos padres custa entender o Domingo como sendo o primeiro dia da semana, ao ponto de, costumeiramente despedir-se da celebração com um “bom final de semana a todos”, ou ainda, “tenho que preparar a homilia das missas deste final de semana”.

É justamente graças a essa sinalização dos tempos que precisamos diferenciar o domingo, páscoa semanal dos cristãos, dos outros dias, para não cairmos no ritualismo de sempre. É no domingo que o ritual se torna diferente. É nele que a ritualidade se torna elemento de contínua sacramentalidade.

No Antigo Testamento, pensava-se que a arca da aliança, escondida do sol numa caverna, um dia seria revelada por Deus ao seu povo (cf 2Mc 2,5-8). Porém, no Novo Testamento, o sol reaparece como o iluminador da arca, aquele que dá brilho esplendor. Também, a imagem da Mulher vestida de sol (cf Ap 12s.), Arca da nova aliança é a Mãe do Senhor, na qual o Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós (cf Jo 1,14)[4].

Para Basurko, graças à “ritualidade”, o espaço se estrutura; o tempo está balizado por sinalizações orientadoras; a existência humana se converte numa morada habitada por constantes e precisas esperas, que alimentam sua esperança; o mundo adquire sentido e sabor porque se sabe para onde se vai, e em que se apoiar[5].

Apoiar-se no domingo como nossa páscoa semanal é entendermos o mistério da encarnação do verbo e sua aparição na humanidade. Tem-se aí uma relação do Natal com a Páscoa. Jesus, ao vencer a morte, não deixa que a escuridão domine a terra, ele é o novo Sol da Justiça, que ilumina a todos.


[1] Cf. Ficha de Liturgia nº 2. Extraído de www.cnbb.org.br que disponibiliza em seu sitio Liturgia em mutirão as fichas de liturgia para reflexão e aprofundamento. Agora também publicado pelas Edições CNBB.
[2] Cf. Prefácio dos domingos comuns (o mistério pascal e o povo de Deus) I. Missal Romano.
[3] VELOSO, Reginaldo. Cântico de Zacarias (Lc 1,68-79). Conforme partitura in Ofício Divino das Comunidades. São Paulo: Paulus, 2001, p. 239.
[4] MONRABAL, Maria Victoria Triviño. Música, dança e poesia na Bíblia. São Paulo: Paulus, 2006. p.42. Tradução de José Belisário da Silva (Coleção Liturgia e Música).
[5] BASURKO, Xavier. Para viver o Domingo. São Paulo: Ed. Paulinas, 1999. p.36. Tradução de Attilio Brunetta. (Coleção: Liturgia e participação).

Celebrar no tempo específico. Porquê?




Eurivaldo S. Ferreira


Nos primórdios, o tempo era um aliado cuja função era a de recriar a vida. A Bíblia nos fala da presença de Deus atuando no tempo das pessoas, o hoje vivenciando pelas ações divinas de salvação, libertação, condução etc. O tempo nos obriga à concepção do rito, àquilo que volta, que retorna, sempre com um novo sabor, com uma nova pitada de experiência.

Para o Concílio Vaticano II, na sua Constituição Conciliar, a liturgia deve ser entendida como o centro do mistério pascal. Em torno deste unem-se catequese e devoção, elementos oriundos da junção entre liturgia, teologia e espiritualidade.

Todavia é o ano litúrgico o grande encarregado de introduzir os cristãos a fim de que estes participem plena e frutuosamente do mistério de Cristo, cujo sentido se desenvolve ao longo de um ano.

Assim sendo, nos recorda a SC nº 102:
Relembrando destarte os Mistérios da Redenção, franqueia aos fiéis riquezas do poder santificador e dos méritos de seu Senhor, de tal sorte que, de alguma forma, os torna presentes em todo o tempo, para que entrem os fiéis em contato com ele e sejam repletos da graça da salvação.

Portanto, celebrar no tempo específico, consiste em apreender todo o sentido do mistério de Cristo, da sua vida, morte e ressurreição, quer seja em determinado momento do dia, da semana, do ano, ou num momento especial da vida, ao longo do ano litúrgico.

Conseqüentemente, aderindo a esse mistério, têm os cristãos o caminho perfeito e pedagógico a título das etapas do caminho fé-salvação. Trata-se de um movimento progressivo em que os cristãos, fazendo memória ritual da salvação que se realizou em Jesus ‘uma vez por todas’ e à qual, em diferentes momentos da vida, dão sua renovada adesão[1].

No centro do mistério pascal estão as celebrações do Tríduo Pascal, dentre elas merece destaque a Vigília Pascal cujo elemento tempo é significado no rito do acendimento do círio. O círio aceso no coração da noite nos lembra que é no curso do tempo que passa, no percurso entre o alfa e o ômega que todo ser humano deve encontrar o sentido da sua existência, a plenitude do seu tempo, aprendendo a viver cada momento como kairós, ao mesmo tempo transcendendo os limites de tempo pela promessa da imortalidade[2].

Para Carpanedo, na prática, fala do tratar de se fazer da própria celebração uma experiência que transforma e anima todo no nosso ser (corpo, mente e coração) e que se prolonga na vida cotidiana e em nossa missão no mundo. Concretamente, o que se propõe é fazer bem a ação ritual e prestar atenção em cada gesto e palavra, acompanhando com a nossa mente e o nosso coração aquilo que a boca proclama e o corpo realiza[3].

Celebrar no tempo é colocar no centro o Cristo e sua ação pascal no meio de nós.



[1] CARPANEDO, Penha. Para viver a Quaresma. São Paulo: Ed. Apostolado litúrgico. 2007. In Revista de Liturgia, nº 199, janeiro/fevereiro-2007. p.4.
[2] CARPANEDO, Penha. Um tempo para celebrar. O ano litúrgico na Sacrossanctum Concílium. São Paulo: ED. Apostolado litúrgico. 2003. In Revista de Liturgia, nº 180, novembro/dezembro-2003, p. 4.
[3] Ibid.

A Páscoa vem aí


Passado o tempo da Quaresma comemoramos a Páscoa, isto é, a passagem. A Páscoa é uma festa muita antiga que recorda a passagem de Moisés pelo Mar Vermelho junto com o povo que peregrinou no deserto rumo à terra prometida: Canaã. Por isso os judeus a comemoram até os dias de hoje.
Nós, os cristãos, a comemoramos sempre no domingo, dia em que Cristo ressuscitou, pois, Jesus sendo judeu, quis comer a Páscoa com seus amigos, tornando-se ele mesmo a nossa Páscoa definitiva.
A festa da ressurreição de Cristo tem início no sábado com a celebração da Vigília Pascal, seguindo um costume da tradição judaica, cujo “dia” começa à tarde (“Houve uma tarde e uma manhã: foi o primeiro dia” – Gen 1,5). Nesta vigília os primeiros cristãos liam passagens importantes do Antigo e do Novo Testamento, incluindo o relato da paixão e morte de Cristo e, no fim, o relato da ressurreição. A vigília terminava na madrugada do sábado para o domingo, pois, segundo os evangelhos, foi de madrugada que Cristo ressuscitou.
Celebra-se a Páscoa sempre no domingo depois da primeira lua cheia da primavera, no hemisfério norte. No Brasil, como em todo o hemisfério sul, comemora-se no início do outono.
Para vivermos melhor a Páscoa na sua dimensão festiva, devemos experimentar seu caráter de passagem, cujas expressões de uma realidade simbólica nos mostram e realizam em nós e no mundo os sinais do Reino: é Jesus quem ressuscita e quer que ressuscitemos com ele, fazendo-nos passar de situações de morte para situações em que há plena vida. A energia da ressurreição perpassa todos os acontecimentos da nossa vida. Feliz Páscoa!