domingo, 21 de fevereiro de 2010

Música litúrgica - diretrizes ou discussões sobre melodias e letras


Discussão sobre Música Litúrgica:

Um apreciador da discussão litúrgico-musical enviou à Revista de Liturgia (publicação bimetral das irmãs Pias Discípulas do Divino Mestre) um e-mail solicitando material sobre como anda a discussão da música litúrgica no Brasil. A redação da revista enviou-me a mim e ao Márcio Antonio de Almeida, músico e liturgista, o e-mail a fim de que lhe respondêssemos. De minha parte, coloquei-lhe ao par sobre como anda essa discussão em nível de Igreja no Brasil, sobretudo por parte da CNBB. Publico abaixo nosso diálogo:
(depois de ter-lhe enviado algum material e indicação de sites sobre o assunto):
Euri,
Obrigado pelas suas indicações, alias, parabéns pelo seu blog, achei muito legal.
Dei uma olhada nos sites que você indicou e salvo engano eu encontrei muito material sobre a função ministerial dos cantos, porém não encontrei diretrizes ou discussões diretas sobre melodias e letras. Diante disto tenho uma dúvida, esta ausência é proposital para que cada comunidade trabalhe o seu repertório, ou o assunto é tão complexo que é melhor não entrar nesta seara e deixar com que cada comunidade definida seus critérios?


Por exemplo, eu tenho a Revista de Liturgia de julho/agosto de 2000 (n. 160) e lá Joaquim Fonseca, fala sobre o canto de abertura. Ele usa como exemplo o canto "Eis, meu povo, o banquete" e diz que o canto é adequado pois o texto é inspirado no Evangelho de Mateus e a melodia é a marcha-rancho. Neste caso ele cita as características positivas da melodia e letra, minha dúvida é saber quais são as demais características positivas de melodia e letra que poderiam nos ajudar na seleção de músicas litúrgicas?

Consegui me fazer entender????

Agradeço novamente se você puder dar alguma dica com relação a este questionamento.

Abraços, Ronald

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(minha resposta e orientações):

Oi, Ronald. Como vai?
Bem, a questão é complexa, mesmo. Em princípio, há orientações de maneira geral, principalmente por parte da CNBB, da Comissão Episcopal para a Liturgia, com suas três áreas: Liturgia, Música e Espaço Litúrgico. Essas orientações muitas vezes são de responsabilidade do bispo diocesano incrementar em suas dioceses e pô-las em prática, depois as equipes diocesanas e regionais de Liturgia e Música devem levantar a questão, até chegar em nível paroquial e de comunidades, haja vista que já foram objeto de discussão nas assembléias dos bispos que ocorrem em Itaici, Indaiatuba, anualmente.

O próprio Frei Joaquim Fonseca, ex-assessor da CNBB, foi um dos pioneiros em encarar essa proposta, preparando um subsídio e indicando aos bispos quais são os "nós da questão" da música litúrgica no Brasil. Tenho esse material, mas está impresso, porém, deixo-o à disposição.

Sobre a questão das diretrizes ou discussões diretas sobre melodias e letras, esse assunto é mais discutido internamente por ocasião do encontro do chamado Corpo Eclesial de Compositores da CNBB junto com a Equipe de Reflexão da Música Litúrgica, da mesma CNBB, que se reúnem anualmente, do qual eu faço parte. Desse encontro anual surgem as orientações e as publicações. De minha parte, estou encarregado de organizar um material sobre a poesia, os versos e a estética poética da música litúrgica, com todas as suas figuras de linguagem, estruturas etc. Trata-se de um material usado nos próprios encontros, preparado por Roberto Lima, professor de linguística da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, também membro da Equipe de Reflexão do setor de Música Litúrgica, da CNBB. Ainda não tive tempo de compilar este material, mas está a caminho. Márcio Antonio de Almeida, que defendeu uma tese de mestrado na UNESP sobre a Mistagogia da Música Ritual Católica, que também faz parte da Equipe de Reflexão da CNBB, terá seu material publicado nesta coleção. Quanto à tese do Márcio, você pode baixá-la através do site da UNESP, ela já está disponível.

Também penso que por si só o Hinário Litúrgico, com seus 4 fascículos e suas gravações em CDs pela Paulus, já dão uma mostra de como deve ser um repertório liúrgico.

Em segundo lugar, o que posso sugerir pra você, inicialmente, é um material de pesquisa bibliográfica, a fim de que você possa ir tomando consciência da discussão. Um deles eu tenho em "pdf" e já lhe encaminho. Trata-se dos Princípios Teológicos, Litúrgicos, Estéticos e Pastorais da Música Litúrgica, lançado pelas Edições CNBB e à venda por R$ 1,00. Penso que discutir letra e melodia da música litúrgica se enquadram nesses princípios. Posso dizer com franqueza que tudo o que lá está publicado é oriundo de muitas contribuições de todos os compositores litúrgicos do Brasil, que vêm, anualmente, se reunindo, à convite da CNBB. Ademais, no livro "Música ritual e mistagogia", Coleção Liturgia e Música nº 7, Frei Joaquim e Ione Buyst tratam disso.

Segue o material já publicado:

Coleção Liturgia e Música, Ed.Paulus:

1. Cantando a Missa e o Ofício Divino, Frei Joaquim Fonseca


2. Música Brasileira na Liturgia, Amaro C. Albuquerque, Nicola Vale, José Geraldo de Souza, Osvaldo C. de Lacerda e José Alves de Souza.


3. O Canto Cristão da Tradição Primitiva. Xavier Basurko.


4. Música, Dança e Poesia na Bíblia. Maria Victória Triviño Monrabal


6. Quem canta? O que cantar na Liturgia? Joaquim Fonseca.


7. Música ritual e mistagogia. Joaquim Fonseca e Ione Buyst.


8. Música Brasileira na Liturgia II. Paula Molinari (org.)

Agora, uma pergunta sua é intrigante: saber quais são as demais características positivas de melodia e letra que poderiam nos ajudar na seleção de músicas litúrgicas?
Penso que essa resposta você encontrará no texto anexo (Princípios teológicos... o qual enviei por e-mail), que está muito claro e preciso. Mas, você já deu uma das respostas: tendo em vista esses princípios, cada comunidade do Brasil, respeitando-se as suas características regionais, fica livre para discutir seu repertório e incrementá-lo.
O ideal é que cada Diocese ou região ou conjunto de dioceses busquem em comum criar um repertório litúrgico próprio. Eu conheço o Hinário Litúrgico da Arquidiocese de Campinas, em São Paulo, que é um material muito rico. Também conheço o material da Diocese de Santo André-SP.

No mais, o que precisar, fico à sua disposição.
É bom que a discussão continue e seja fomentada pelo Espírito, que suscita em nós a inspiração para ajudar na caminhada eclesial.

Grande abraço.
Euri.

"A Igreja precisa de uma reforma urgente" - Reações e comentários

Discussão sobre: “A Igreja precisa de uma reforma urgente” de Henri Boulad

Tendo em vista a carta de Henri Boulad, publicada neste blog e que circula o mundo, publico abaixo as reações e os comentários enviados por amigos meus, também teólogos e agentes de pastoral, que percebem a real necessidade da tão desejada reforma, ou a aplicação da mesma já proposta pelo Concílio Vaticano II.

Prezado Euri,
Esses problemas já foram percebidos a bastante tempo, o que acabou gerando o Vat. II. Muita coisa mudou desde então, inclusive a volta do diaconato.
Mas tudo acontece muito devagar. Infelizmente é uma característica de nossa Igreja, que, na minha opinião, é o que deveria ser mudado em primeiro lugar, acelerando mais a prática do Concílio Vaticano II, antes até de um Concílio Vaticano III. Mas vamos trabalhar com o que temos e procurar cada vez mais ferramentas para isso.
Grato pelo contato. Nos mantenha sempre informados.
Abraço,
David

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Teólogo Eurivaldo, Deus te abençoe!
Confesso que li rapidamente o texto proposto, portanto estou, em minhas observações, passível de algum equívoco.
A angústia por soluções para a vida da Igreja a nível universal é uma realidade triste. Sabemos que há o tal desgarramento dos fiéis, em busca de novos ares de fé, que possam contemplar seus anseios e suas necessidades espirituaís. Isto muitos já falaram.
A carta proposta, no entanto, não apresenta qualquer idéia para que esta realidade mude.
Existe uma proposta bíblica, mais exatamente evangélica, que tem sido ignorada pela maioria das pessoas que se propõe a fazer tais críticas à Igreja: "dê-lhes vós mesmos de comer"(Mc 6, 37).
Eu pergunto: Não seria a hora de irmos à luta pelo Reino de Deus, "com todo o nosso coração, com toda a nossa alma e com todo o nosso entendimento" (Mt 22, 37)???
Porque a Igreja não se resume ao Papa, porque nosso "munus profético" nos possibilita a luta, porque somos o povo de Deus.
Há uma riqueza enorme de tradição e de magistério que permanece inexplorada porque a nossa preocupação está vinculada ao "casamento de Padres".
Compartilho da angústia do jesuíta, mas não acredito em soluções políticas, como um concílium, para a solução dos problemas hodiernos da Igreja.
Espero ter colaborado com a vossa proposta de partilha sobre o assunto.
Paz e bênçãos.
Jorge Vides

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Olá amigo Euri!
Que a paz de Jesus esteja contigo!
Li no seu blog o post - Carta ao Papa Bento XVI - "A Igreja precisa de uma reforma urgente" do Pe. Henri Boulad, SJ e concordo plenamente, aliás, muitas de suas constatações posso verificar em minha paróquia, como por exemplo a insignificante quantidade de jovens e adolescentes, as mensagens transmitidas nas homilias não atingem as pessoas (são palavras jogadas ao ar) e não colocação em prática de muitas das orientações do Concílio Vaticano II.
Que bom seria se, conforme sugerido, houvesse um Sínodo visando esta tão necessária reforma em nossa Igreja.
Um grande abraço!
Que Deus te abençoe e te guarde!
Silveira

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Querido Euri,
Muito intrigante esta carta. Desperta em nós o desejo de que essas coisas se realizem o mais rápido possivel, para que a Igreja comece realmente a desfrutar de uma religião banhada na "mística"... que a introduza de maneira verdadeira no "mistério".
Abraços e bom domingo!
Vinicius

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Viver bem a Quaresma buscando na liturgia a sua espiritualidade


Recebi esse artigo de um amigo meu chamado Eraclides. Achei muito interessante. Não tem autoria, mas como ele conviveu com as irmãs Pias Discípulas, a quem admiro e sou amigo, certamente foram elas que organizaram esse texto.

Minha recomendação é a de que possamos tirar da própria liturgia quaresmal uma fonte de espiritualidade, dela bebendo, aquela ao qual deseja e afirma a Sacrosanctum Concilium, nºs 10 e 102.

O TEMPO DA QUARESMA

O MISTÉRIO LITÚRGICO


Tempo privilegiado de conversão, de combate espiritual, de jejum medicinal e caritativo, a Quaresma ainda é, sobretudo tempo de escuta da Palavra de Deus, de uma catequese mais aprofundada, que recorda aos cristãos os grandes temas batismais, em preparação para a Páscoa.

Batizados na morte e ressurreição de Cristo, devemos viver segundo uma moral de ressuscitados, seguindo, não uma lei abstrata, mas o exemplo de Cristo, em sua obediência filial ao Pai.

No tempo da Quaresma, o povo de Deus empreende um esforço exigente, porém libertador, que deve abri-lo ao chamado do Senhor e da comunidade cristã. Privando-se do alimento terreno, nas múltiplas formas que se lhes apresentam, aprenderá a saborear, acima de tudo, o pão da Palavra de Deus e da Eucaristia, e melhor sentirá o dever de dividir os bens com os outros.

O Concílio Vaticano II recomenda que “a penitência quaresmal não seja só interna e individual, mas sobretudo externa e social. E a prática penitencial, segundo as possibilidades do nosso tempo e das diversas regiões, como também consoante as possibilidades dos fiéis, icentivada e... recomendada” (SC 110).

Celebrar a Eucaristia no tempo da quaresma significa:
percorrer, juntamente com Cristo, o itinerário da provação que pertence à Igreja e a cada homem;assumir mais decididamente a obediência filial ao Pai e o dom de si aos irmãos, que constituem o sacrifício espiritual.(In: Missal Cotidiano - Missal da Assembléia Cristã, Paulus, São Paulo, 1985. 7 ed. p.160 / Centro Catequético Salesiano de Turim).

“Com a alegria do Espírito Santo e cheios do desejo espiritual, esperemos a santa páscoa.” Regra de São Bento, 49,7)

“A quaresma tem sabor de páscoa quando é focalizada a pessoa de Jesus Cristo, que se aproxima do pecado humano”. (Penha Carpanedo)

Itinerário litúrgico-pedagógico da quaresma no ano C
Visão a partir das leituras dominicais

Conforme a organização dos textos bíblicos a serem proclamados nos Domingos do Tempo da Quaresma, o ciclo trienal apresentado no I Lecionário (anos A, B e C) nos proporciona grandes retiros com temas centrais bastante específicos, sobretudo a partir do terceiro domingo. No ano A o tema central é o Batismo (Quaresma batismal), no ano B a Aliança (Quaresma cristocêntrica) e no ano C a Conversão (Quaresma penitencial).

Para as comunidades onde há catecúmenos, como forma de preparação imediata para os sacramentos da Iniciação Cristã, recomenda-se que todos os anos se repitam os textos do ano A.

Os textos para as Orações do dia da segunda edição italiana do Missal Romano e a seqüência dos textos para a I Leitura e o Evangelho nos domingos do ano C, elucidam a dinâmica da Quaresma penitencial.

1°domingo:
“Senhor nosso Deus, ouvi a voz da Igreja que vos invoca no deserto do mundo; estendei sobre nós a vossa mão, a fim de que, nutridos com o pão da vossa palavra e fortificados pelo vosso Espírito, vençamos, com o jejum e a oração, as contínuas tentações do maligno”.

I Leitura – Dt 26,4-10
Memória (anamnese) diante do Senhor oferecendo-se as primícias da terra (dimensão teofânica, pois Deus assim ordena que se realize), antecipação da Eucaristia.

Evangelho – Lc 4,1-13
A tentação no deserto. Jesus é a imagem do novo Adão, pois vence a concupiscência da carne, dos olhos e a soberba.

2º domingo: “Deus grande e fiel, que revelais a vossa face a quem vos procura de coração sincero, reforçai a nossa fé no mistério da cruz e daí-nos um coração dócil, a fim de que, na adesão amorosa à vossa vontade, sigamos como discípulos de Cristo vosso Filho”.

I Leitura – Gn 15,5-12.17-18
No sacrifício das vítimas (animais) Deus passa, representado na chama de fogo (teofania) para dizer que aceita esse sacrifício . É uma prefiguração da Eucaristia.

Evangelho – Lc 9,28b-36
No relato da Transfiguração a Comunidade de Lucas é a única a enfatizar que Jesus subiu a montanha para rezar. Para essa comunidade a oração transforma, transfigura.

3º domingo:
“Pai santo e misericordioso, que jamais abandonais os vossos filhos e a eles revelais o vosso nome, quebrai a dureza da nossa mente e do nosso coração, a fim de que saibamos acolher, com a simplicidade das crianças os vossos ensinamentos e produzamos frutos de verdadeira e contínua conversão”.

I Leitura – Ex 3,1-8a.13-15
Na sarça ardente um encontro com o Senhor (teofania) que diz: “Sim, conheço os seus sofrimentos[...]” em resposta Moisés pronuncia firmemente: “Sim, eu irei aos filhos de Israel[...]”.

Evangelho – Lc 13,1-9
Parábola da figueira poupada no meio da vinha. A urgência da conversão. Para a comunidade de Lucas a árvore é símbolo de todos os homens.

4º domingo:
“Ó Deus, Pai bom e grande no perdão, acolhei no abraço do vosso amor todos os filhos que voltam para vós com a alma arrependida; recobri-os com esplêndida vestes de salvação, a fim de que possamos apreciar a vossa alegria na ceia pascal do Cordeiro”.

I Leitura – Js 5,9a.10-12
Comer do fruto da terra é sinal da páscoa (teofania). A jornada do povo hebreu começou na saída do Egito (era Páscoa), da mesma forma a entrada e a posse da terra prometida é marcada com a Páscoa.

Evangelho – Lc 15,1-3.11-32
Nesse capítulo a Comunidade de Lucas relata três parábolas. A terceira o “Pai misericordioso”, revela que depois do pecado, a consciência (“Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura[...]”) é a única chave para o arrependimento e a conversão.

5º domingo:
“Deus de bondade, que renovais em Cristo todas as coisas, diante de vós está a nossa miséria: vós que nos enviastes o vosso Filho unigênito não para condenar, mas para salvar o mundo, perdoai toda nossa culpa e fazei que refloresça em nosso coração o canto da gratidão e da alegria”.

I Leitura – Is 43,16-21
Deus promete: “Eis que eu farei coisas novas, [...]”. Quer dizer, até mesmo a libertação do Egito ficará pequena diante de tudo o que vai acontecer. O texto é promessa messiânica (teofânica).

Evangelho – Jo 8,1-11
A comunidade de João usa o mesmo estilo de Lucas nesse trecho do seu evangelho para dizer que a misericórdia de Deus rompe as barreiras do preconceito, da intolerância. Jesus não interroga a Mulher (a tradução dos textos para a liturgia não usa o termo pecadora), simplesmente, perdoa.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Carta ao Papa Bento XVI - "A Igreja precisa de uma reforma urgente!"

“A Igreja precisa de uma reforma urgente”, afirma jesuíta egípcio em carta dirigida a Bento XVI

O jesuíta egípcio mais destacado nos âmbitos eclesial e intelectual, HENRI BOULAD, lança um SOS para a Igreja de hoje em uma carta dirigida a Bento XVI. A carta foi transmitida através da Nunciatura no Cairo. O texto circula em meios eclesiais de todo o mundo.

Henri Boulad é autor de Deus e o mistério do tempo (Edições Loyola, 2006) e O homem diante da liberdade (Edições Loyola, 1994), entre outros.

A carta está publicada no sítio Religión Digital, 31-01-2010. A tradução é do Cepat.

Eis a carta.

Santo Padre:

Atrevo-me a dirigir-me diretamente a Você, pois meu coração sangra ao ver o abismo em que a nossa Igreja está se precipitando. Saberá desculpar a minha franqueza filial, inspirada simultaneamente pela “liberdade dos filhos de Deus” a que São

Paulo nos convida e pelo amor apaixonado à Igreja.

Agradecer-lhe-ei também que saiba desculpar o tom alarmista desta carta, pois creio que “são menos cinco” e que a situação não pode esperar mais.

Permite-me, em primeiro lugar, apresentar-me. Sou jesuíta egípcio-libanês do rito melquita e logo farei 78 anos. Há três anos sou reitor do Colégio dos jesuítas no Cairo, após ter desempenhado os seguintes cargos: superior dos jesuítas em Alexandria, superior regional dos jesuítas do Egito, professor de Teologia no Cairo, diretor da Cáritas - Egito e vice-presidente da Cáritas Internacional para o Oriente Médio e a África do Norte.

Conheço muito bem a hierarquia católica do Egito por ter participado durante muitos anos de suas reuniões como Presidente dos Superiores Religiosos de Institutos no Egito. Tenho relações muito próximas com cada um deles, alguns dos quais são ex-alunos meus. Por outro lado, conheço pessoalmente o Papa Chenouda III, que via com frequência. Quanto à hierarquia católica da Europa, tive a ocasião de me encontrar pessoalmente muitas vezes com alguns de seus membros, como o cardeal Koening, o cardeal Schönborn, o cardeal Martini, o cardeal Daneels, o arcebispo Kothgasser, os bispos diocesanos Kapellari e Küng, os demais bispos austríacos e outros bispos de outros países europeus. Estes encontros se produzem por ocasião das minhas viagens anuais para dar conferências pela Europa: Áustria, Alemanha, Suíça, Hungria, França, Bélgica... Nestas ocasiões me dirijo a auditórios muito diversos e à mídia (jornais, rádios, televisões...). Faço o mesmo no Egito e no Oriente Próximo.

Visitei cerca de 50 países nos quatro continentes e publiquei cerca de 30 livros em aproximadamente 15 línguas, sobretudo em francês, árabe, húngaro e alemão. Dos 13 livros nesta língua, talvez Você tenha lido Gottessöhne, Gottestöchter (Filhos, filhas de Deus), que o seu amigo o Pe. Erich Fink, da Baviera, lhe fez chegar a suas mãos.

Não digo isto para me vangloriar, mas para lhe dizer simplesmente que as minhas intenções se fundam em um conhecimento real da Igreja universal e de sua situação atual, em 2009.

Volto ao motivo desta carta e tentarei ser o mais breve, claro e objetivo possível. Em primeiro lugar, algumas constatações (a lista não é exclusiva):

1. A prática religiosa está em constante declive. Um número cada vez mais reduzido de pessoas da terceira idade, que desaparecerão logo, são as que frequentam as igrejas da Europa e do Canadá. Não resta outro remédio senão fechar estas igrejas ou transformá-las em museus, mesquitas, clubes ou bibliotecas municipais, como já se está fazendo. O que me surpreende é que muitas delas estão sendo completamente reformadas e modernizadas mediante grandes gastos com a ideia de atrair os fiéis. Mas não será suficiente para frear o êxodo.

2. Seminários e noviciados se esvaziam no mesmo ritmo, e as vocações caem vertiginosamente. O futuro é sombrio e há quem se pergunte quem irá substituir os sacerdotes. Cada vez mais paróquias europeias estão a cargo de sacerdotes da Ásia ou da África.

3. Muitos sacerdotes abandonam o sacerdócio e os poucos que ainda o exercem – cuja idade média ultrapassa muitas vezes a da aposentadoria – têm que se encarregar de muitas paróquias, de modo expeditivo e administrativo. Muitos deles, tanto na Europa como no Terceiro Mundo, vivem em concubinato à vista de seus fiéis, que normalmente os aceitam, e de seu bispo, que não pode aceitá-lo, mas que tem em conta a escassez de sacerdotes.

4. A linguagem da Igreja é obsoleta, anacrônica, chata, repetitiva, moralizante, totalmente desadaptada à nossa época. Não se trata em absoluto de acomodar-se nem de fazer demagogia, pois a mensagem do Evangelho deve ser apresentada em toda a sua crueza e exigência. Seria preciso antes promover essa “nova evangelização”, a que nos convidava João Paulo II. Mas esta, ao contrário do que muitos pensam, não consiste em absoluto em repetir a antiga, que já não diz mais nada, mas em inovar, inventar uma nova linguagem que expresse a fé de modo apropriado e que tenha significado para o homem de hoje.

5. Isto não poderá ser feito senão mediante uma renovação em profundidade da teologia e da catequese, que deveriam ser repensadas e reformuladas totalmente. Um sacerdote e religioso alemão que encontrei recentemente me dizia que a palavra “mística” não é mencionada uma única vez no Novo Catecismo. Não podia acreditar nisso. Temos de constatar que a nossa fé é muito cerebral, abstrata, dogmática e se dirige muito pouco ao coração e ao corpo.

6. Em consequência, um grande número de cristãos se volta para as religiões da Ásia, as seitas, a nova era, as igrejas evangélicas, o ocultismo, etc. Não é de estranhar. Vão buscar em outros lugares o alimento que não encontram em casa, têm a impressão de que lhes damos pedras como se fossem pão. A fé cristã, que em outro tempo outorgava sentido à vida das pessoas, é para elas hoje um enigma, restos de um passado que acabou.

7. No plano moral e ético, os ditames do Magistério, repetidos à saciedade, sobre o matrimônio, a contracepção, o aborto, a eutanásia, a homossexualidade, o matrimônio dos sacerdotes, as segundas uniões, etc., já não dizem mais nada a ninguém e produzem apenas desleixo e indiferença. Todos estes problemas morais e pastorais merecem algo mais que declarações categóricas. Necessitam de um tratamento pastoral, sociológico, psicológico e humano... em uma linha mais evangélica.

8. A Igreja católica, que foi a grande educadora da Europa durante séculos, parece esquecer que a Europa chegou à sua maturidade. A nossa Europa adulta não quer ser tratada como menor de idade. O estilo paternalista de uma Igreja “Mater et Magistra” está definitivamente defasada e já não serve mais. Os cristãos aprenderam a pensar por si mesmos e não estão dispostos a engolir qualquer coisa.

9. Os países mais católicos de antes – a França, “primogênita da Igreja”, ou o Canadá francês ultra-católico – deram uma guinada de 180º e caíram no ateísmo, no anticlericalismo, no agnosticismo, na indiferença. No caso de outros países europeus, o processo está em marcha. Pode-se constatar que quanto mais dominado e protegido pela Igreja esteve um povo no passado, mais forte é a reação contra ela.

10. O diálogo com as outras igrejas e religiões está em preocupante retrocesso hoje. Os grandes progressos realizados há meio século estão sob suspeita neste momento.
Diante desta constatação quase demolidora, a reação da igreja é dupla:

– Tende a minimizar a gravidade da situação e a consolar-se constatando certo dinamismo em sua facção mais tradicional e nos países do Terceiro Mundo.

– Apela para a confiança no Senhor, que a sustentou durante 20 séculos e será capaz de ajudá-la a superar esta nova crise, como o fez nas precedentes. Por acaso, não tem promessas de vida eterna?
A isto respondo:

– Não é apoiando-se no passado nem recolhendo suas migalhas que se resolverão os problemas de hoje e de amanhã.

– A aparente vitalidade das Igrejas do Terceiro Mundo é equívoca. Segundo parece, estas novas Igrejas, mais cedo ou mais tarde, atravessarão as mesmas crises que a velha cristandade europeia conheceu.

– A Modernidade é irreversível, e é por ter esquecido isso que a Igreja já se encontra hoje em semelhante crise. O Vaticano II tentou recuperar quatro séculos de atraso, mas tem-se a impressão de que a Igreja está fechando lentamente as portas que se abriram então, e é tentada a voltar para Trento e o Vaticano I, mais que voltar-se para o Vaticano III. Recordemos a declaração de João Paulo II tantas vezes repetida: “Não há alternativa para o Vaticano II”.

– Até quando continuaremos jogando a política do avestruz e a esconder a cabeça na areia? Até quando evitaremos olhar as coisas de frente? Até quando seguiremos dando as costas, encrespando-nos contra toda crítica, em vez de ver ali uma oportunidade de renovação? Até quando continuaremos postergando ad calendas graecas uma reforma que se impõe e que foi abandonada durante muito tempo?

– Somente olhando decididamente para frente e não para trás a Igreja cumprirá sua missão de ser “luz do mundo, sal da terra e fermento na massa”. Entretanto, o que infelizmente constatamos hoje é que a Igreja está no final da fila da nossa época, depois de ter sido a locomotiva durante séculos.

– Repito o que dizia no começo desta carta: “São menos cinco” – fünf vor zwölf! A História não espera, sobretudo em nossa época, em que o ritmo se embala e se acelera.

– Qualquer operação comercial que constata um déficit ou disfunção se reconsidera imediatamente, reúne especialistas, procura recuperar-se, mobiliza todas as suas energias para superar a crise.

– Por que a Igreja não faz algo semelhante? Por que não mobiliza todas as suas forças vivas para um aggiornamento radical? Por quê?

– Por preguiça, desleixo, orgulho, falta de imaginação, de criativadade, omissão culpável, na esperança de que o Senhor as resolverá e que a Igreja conheceu outras crises no passado?

– Cristo, no Evangelho, nos alerta: “Os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz...”.

Então, o que fazer? A Igreja tem hoje uma necessidade imperiosa e urgente de uma tripla reforma:

1. Uma reforma teológica e catequética para repensar a fé e reformulá-la de modo coerente para os nossos contemporâneos.
Uma fé que já não significa nada, que não dá sentido à existência, não é mais que um adorno, uma superestrutura inútil que cai por si mesma. É o caso atual.

2. Uma reforma pastoral para repensar de cabo a rabo as estruturas herdadas do passado.

3. Uma reforma espiritual para revitalizar a mística e repensar os sacramentos com vistas a dar-lhes uma dimensão existencial e articulá-los com a vida.
Teria muito a dizer sobre isto. A Igreja de hoje é muito formal, muito formalista. Tem-se a impressão de que a instituição asfixia o carisma e que o que em última instância conta é uma estabilidade puramente exterior, uma honestidade superficial, certa fachada. Não corremos o risco de que um dia Jesus nos trate de “sepulcros caiados”?

Para terminar, sugiro a convocação de um Sínodo geral a nível da Igreja universal, do qual participarão todos os cristãos – católicos e outros – para examinar com toda franqueza e clareza os pontos assinalados anteriormente e os que forem propostos. Este Sínodo, que duraria três anos, terminaria com uma Assembleia Geral – evitemos o termo “concílio” – que sintetizasse os resultados desta pesquisa e tirasse daí as conclusões.

Termino, Santo Padre, pedindo-lhe perdão pela minha franqueza e audácia e solicito a vossa paternal bênção. Permita-me também dizer-lhe que vivo estes dias em sua companhia, graças ao seu extraordinário livro Jesus de Nazaré, que é objeto da minha leitura espiritual e de meditação cotidiana.

Seu afetíssimo no Senhor,
Pe. Henri Boulad, SJ
henrioulad@yahoo.com

Avatar e Invictus - Relação de autêntico modelo cristão

Eurivaldo Silva Ferreira

Num orkut de um amigo muito especial li sua apresentação que dizia: Sou senhor do meu destino. Sem dúvida, ele assistiu ao filme Invictus, sobre Nelson Mandela, o qual representou tão bem Morgam Freeman. Esta frase é tirada de livros de poesia, que Nelson Mandela leu durante o tempo em que ficou preso.

Eu também assisti a este filme e muito me comoveu a figura de uma pessoa tão ímpar e preocupada com a vida dos mais pobres.

O personagem Françoais, técnico daquele time de um esporte inglês pouco conhecindo entre nós, vivido por Matt Damon, numa das cenas em que visita a penitenciária também ficou intrigado com a coragem de uma pessoa em querer perdoar seus algozes. Como pode? Certamente Nelson Mandela viveu intensamente o perdão, aquele mesmo que Jesus nos ensinou e que de tão pouco aprendemos.

No entanto, algumas dúvidas sempre me intrigam: participando de nossas celebrações dominiciais, por que será que não ouvimos incentivos em nossas homilias para que os fiéis recorram ao cinema para que, assistindo a filmes como este, possam aprender um pouco mais de pessoas que tão desprentenciosamente resolveveram viver aquilo que Cristo ensinou, sobretudo amando os mais humildes e perdoando? Por que filmes como esses não são objetos de discussão em nossa catequese e em nossa pastoral?

Penso que seja porque ainda não conseguimos aliar cultura e vida cristã autêntica. Hollywood, com sua máquina encantadora de produação de filmes e espetáculos audiovisuais já aprenderam a nos convener usando a chamada "7ª Arte". No entanto, nossas homilias, com suas falas encabrunhadas, não nos convencem nem um mílimetro.

Está também em cartaz o filme Avatar, que mostra o convívio entre pessoas de outras religiões e crenças, e que juntas querem melhorar um outro mundo, numa atitude de respeito à ecologia, ao outro e à sobrevivência. Os cientistas do bem, que desenvolveram o programa chamado "Avatar", trabalham para uma potência militar que quer explorar uma espécie de planeta desconhecido com seres que cultuam as realidades da natureza, têm uma espécie de vida tribal, vivem em clãs. Neste plante, o objeto de exploração é uma espécie de minteral que se encontra debaixo de uma árvore cultuada por seus habitantes. E, além disso, o papel principal é reservado a uma pessoa com deficiência física.

Outrossim, vale a pena lembrar que Avatar não contém nenhuma cena de nudez ou de apelo erótico. Por que será que esse filme foi indicado a tanto Oscar, hein?

Penso que Invictus e Avatar têm muito a nos dizer, nós, que somos cristãos católicos e que ainda somos portadores da Boa Nova do Evangelho, mas que ainda não sabemos o que fazer com essa Boa Notícia. Sem dúvida, Hollywood, que sequer sabe o que seja Evangelho já faz. Esses filmes ficarão na história.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

O Crucificado do Haiti

 Sexta-Feira da cruz

Acabo de ver a imagem do Crucifixo da Igreja Sacre Coeur du Tugeau, no Haiti, exibida pelo Fantástico, programa da Rede Globo. O templo sagrado desabou e restou aquele Crucifixo, quase intacto, grande, erguido,
exposto aos olhares que banham de lágrimas as noites haitianas. As pessoas param em frente a ele, choram e rezam. Esta imagem provoca o ser pensante. Por que foi assim? Por que aquele Crucifixo resistiu ao equivalente a
30 bombas nucleares como a de Hiroshima? E Cristo ficou ali. Parece ser aquela Sexta-Feira Santa, em Jerusalém, no alto do Calvário. Pus-me a pensar e contemplar a chocante cena. Abri as Sagradas Escrituras e pus-me a ouvir o Senhor. O Filho do Homem permaneceu naquele lugar, representado pela imagem, para dizer aos
sofredores haitianos que eles não estão sozinhos. Jesus Cristo está crucificado com eles e eles com Cristo. “Suas dores são minhas dores; suas lágrimas são minhas lágrimas; seu sangue é o meu sangue. Estou na cruz despido, como vocês que agora se encontram despidos de tantos bens.” Como disse o Profeta Isaías: “a verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores” (Is 53,4).
Os braços do Filho de Deus permaneceram abertos em Porto Príncipe para acolher o clamor de homens e mulheres transpassados pela lança da destruição, da fome, da sede, da perda de esperanças. O lado aberto do Cordeiro de Deus ficou ali, às margens da rua destruída, para dar descanso e consolo aos que ainda gritam por socorro debaixo dos escombros de uma cidade cujo
concreto tombou sobre vidas cheias de sonhos. “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos e eu vos darei descanso” (Mt 11,28). O Crucificado resistiu às forças cósmicas para dar refúgio e abrigo aos que vagueiam pelas ruas sem destino.
O Crucifixo do Haiti foi mais forte que o terremoto para manter viva na mente e coração dos que por aquela rua passarem a boa notícia: “prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão” (Jo 15,13). Ali ficou uma imagem sagrada feita de matéria, porém, ao seu lado, ficaram os corpos de homens e mulheres, que viveram até o fim o Mandamento Novo. Eles foram imagens
vivas do Bom Pastor que dá a vida por suas ovelhas. Trata-se da Dra. Zilda Arns e quinze sacerdotes presentes naquela igreja no momento da tragédia. Eles estavam juntos porque queriam amar intensamente as crianças daquela nação que esperavam por vida e vida em abundância.
O Crucifixo do Haiti permanece erguido e o Espírito de Deus fala aos corações das pessoas de bem que salvam aquela sofrida gente. “Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; ... Todas as vezes que fizestes isso a um dos
menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mt 25, 35-36.40).
O Crucificado ressuscitou e enviou do Pai o Espírito Santo renovando todas as coisas. Ele ficou naquela destruída rua para dizer: “Coragem, eu venci o mundo” (Jo 16,33). Em meio ao caos da maior tragédia enfrentada pela ONU, há esperança, a luz dissipa as trevas em cada pessoa resgatada com vida, e em cada criança amparada. E o brilho volta a resplandecer nos olhos que agora choram os mortos. É a força criativa e reconstrutora do Amor estampada no Crucificado do
Haiti.

Padre Fran cisco Agamenilton Damascena
Vice-reitor do Seminário Diocesano São José
Uruaçu - GO