quinta-feira, 28 de maio de 2009

Eucaristia: sacramento de transformação pessoal e universal


Eurivaldo Silva Ferreira

Em nosso último artigo falamos sobre a questão da inteireza do ser conseguida pela meta dos sacramentos na nossa vida. Neste sentido, a Eucaristia se faz ponto e cume da nossa ação sacramental, pois, através da ação ritual, ou seja, do celebrar o rito, ela nos torna “oferendas perfeitas ao Pai”. Falamos também da união dessa possibilidade de ação, isto é, daquilo que pretende o sacramento, com a ligação de sua conseqüência em nossa vida. Tudo isso ligado á fé, pois fé e vida caminham juntas. A Igreja diz que a norma da oração é a norma da fé e vice-versa. Também falamos da natureza dialogal da nossa adesão à fé, uma vez concedida através dos sacramentos e da nossa inserção na vida da Igreja através dos sacramentos da iniciação cristã.

Neste artigo vamos tratar da celebração eucarística, a Missa, por assim dizer, e como ela pode se tornar, dada sua natureza sacramental, um verdadeiro caminho para adentrarmos no mistério pascal e a partir dele transformarmos a nós e ao mundo. É claro que o mistério não é propriedade da liturgia, mas este mistério não é possível ser alcançado sem a mediação litúrgica, é por isso que celebramos. Celebramos não porque desejamos racionalizar nossa fé, mas porque desejamos que ela mesma possa nos transportar ao mistério pascal, evento-base que dá sustento à nossa fé.

Na missa nossa relação com Deus é de diálogo: depois dos ritos iniciais, na liturgia da Palavra, Deus nos fala e nós ouvimos, é o conjunto das leituras proclamadas e cantadas e da homilia. Em seguida, damos nossa adesão à Palavra, professando nossa fé no Creio, e respondemos a esta mesma Palavra, suplicando pelas necessidades do mundo, na oração dos fiéis, pois queremos que todos também façam sua adesão a essa fé.

Já na liturgia eucarística, lembramos dos grandes feitos de Deus na história, enviando seu Filho e ele mesmo se fazendo oferta ao Pai. Damos graças por isso, fazemos memória e suplicamos ao Pai que acolha nossa oferta. Esta mesma oferta, que é Jesus Cristo, o Verbo feito carne que se faz alimento para a comunidade, é a hora da partilha, da comunhão. Comemos e bebemos juntos num gesto de comunhão fraterna. O rito da partilha reforça nossa ação também fora da missa, no cotidiano.

Finalmente, levamos essa memória para nossas vidas, onde passamos a glorificar a Deus nos nossos gestos e ações do cotidiano. Na bênção final somos conduzidos a proclamar o mistério já fora do rito, na vida normal, na família, na escola e no trabalho. Ao despedir a assembleia, o diácono sempre diz: glorificai a Deus com vossas vidas!...

Todas essas ações transcendem o agir da comunidade reunida que se oferece para glorificar ao Pai e se edificar ao mesmo tempo. Essa relação se dá desde a escuta da Palavra até a comunhão eucarística. Os elementos da celebração eucarística: ritos iniciais, liturgia da Palavra, liturgia eucarística e ritos finais são os fios condutores para adentrarmos no mistério. Aliás, adentramos no mistério com as nossas fraquezas e deficiências, mas os ritos condicionam as nossas posturas, eles nos dão a possibilidade de “nos reerguermos” e nos potencializar para fazermos isso com inteireza. Contudo, as características não muito positivas de nossa pessoa são também transubstanciadas na missa, que é Eucaristia, banquete, ação de graças. É essa a nossa meta, na "carona" que pegamos com Cristo, ao se ofertar ao Pai, somos transformados como oferenda. Vale a pena repetir o que disse no artigo anterior: de fato, rezamos e cantamos na prece eucarística: “fazei de nós uma perfeita oferenda”.

Portanto, podemos concluir que celebrar a Eucaristia nos coloca neste patamar: o da transformação universal. É a partir daí que estendemos o mistério para nossa ação social, tornando comunhão, partilha, ação de graças, todos os momentos de nossas relações diárias, seja com a família, com os vizinhos, com o bairro, com a cidade, com o mundo, com o a ecologia e todo o cosmos.

Já no plano da transformação pessoal, o mistério pascal que celebramos na Eucaristia tem a potencialidade de nos conduzir a esse fim, afinal de contas, transformando-me na Missa, não só com o rito, mas com o processo existencial que toca em minha intimidade, minha individualidade, mais que qualquer outra coisa, dou início à transformação do mundo que o Senhor deseja e da qual quer fazer-me instrumento.

Os sacramentos e a nossa experiência de fé


Eurivaldo Silva Ferreira

Muito de nossa experiência pessoal de fé é também alimento para nossa caminhada na Igreja. A fé é dada por Deus, mas pressupõe adesão ao seu convite. Em muitas passagens bíblicas Deus convida pessoas a formar com ele uma aliança e a ela aderir.

Foi assim com Abraão, com Moisés, com os profetas, com os reis e etc. Estes, fielmente aceitaram o convite, seguiram e serviram o Senhor. Da mesma forma, a partir da experiência de fé já concedida a cada um e cada uma pelo batismo, no qual somos constituídos Igreja, comunidade reunida, somos convocados para celebrar o Dia do Senhor.

É no Dia do Senhor, o Domingo, que nos reunimos em assembléia para fazer memória do Mistério Pascal de Cristo louvando e bendizendo a Deus por nos ter dado seu Filho. Aderindo à sua Palavra, firmando a nossa fé e ao mesmo tempo fazendo a experiência do mesmo Cristo que está presente na própria assembléia, na Palavra, na oração, no louvor, no pão e no vinho, pela força do Espírito Santo. Por meio do Espírito a experiência deixa de ser uma aproximação provisória para se transformar num conhecimento mais profundo, completo, consciente e frutuoso, a partir daí então consegue se integrar no mistério.

Os três primeiros sacramentos recebidos: Batismo, Eucaristia e Crisma, vão nos ajudar na compreensão desta experiência. Eles são as chaves para um bom começo no caminho da experiência cristã. A Igreja ensina que todos os sacramentos são portadores de sinais eficazes e realizadores em nossas vidas, isto posto, muito mais podemos dizer da Eucaristia. A Eucaristia nos conduz a uma fé mais desejável já que a nossa meta é sermos transformados em oferenda perfeita ao Pai, assim como cantamos em resposta de intervenção no meio da Oração Eucarística, na missa.

O Papa Bento XVI, em recente entrevista, diz que a celebração litúrgica dos sacramentos não deve ser algo estranho, mas que a partir deles os fiéis possam tirar proveito para suas relações sociais. E complementa afirmando que, dentre os sacramentos instituídos pelo próprio Cristo, está a Eucaristia, que nos proporciona uma pedagogia para aprendemos a conhecer Jesus Cristo, o Deus com rosto humano, de perto. É a Eucaristia que nos faz entrar em contato com o Cristo, aprendendo a escutá-lo e a deixá-lo entrar em nós. Bento XVI quer nos chamar a atenção para a questão da inteireza do ser, pois a fé requer que nos coloquemos inteiros nos sacramentos, eles atingem o corpo e o espírito do ser humano. Afinal de contas é o nosso corpo que entra em contato com o mistério que se deixa revelar à medida que nos abrimos a ele. Uma das possibilidades de abertura se dá pela fé.

Contudo, pode acontecer facilmente que o sacramento fique um pouco isolado em um contexto mais pragmático e se converta em uma realidade não totalmente integrada na totalidade de nosso ser humano. Neste caso, a necessidade de redescobrir os sacramentos como condução para a nossa plenitude, se faz urgente. Como se dá isso?
Vejamos um exemplo: por causa da contingência presente no mundo, nós, os cristãos, somos cobrados a toda hora, e exige-se que todos tenhamos uma opinião acerca de tudo, mas ela não mudará o estado das coisas porque, na maioria das vezes, somos colocados em contradição. O choque da nossa fé está exatamente aí, na contradição. Como relacionar isso com os sacramentos? Os sacramentos não dispensam a fé. Ora, se a nossa vivência cristã leva-nos a uma contradição daquilo que pretendem os sacramentos, de fato, de nada valeu recebê-los. Uma vida regrada pelos sacramentos é a nossa meta a ser alcançada, lembremo-nos do “fazei de nós uma perfeita oferenda”.
Deixar-se transformar por eles requer uma caminhada tanto no plano da fé como no sentido social para um propósito de firme decisão, abrindo-se para o mundo e para o outro. Quando a mente, o coração e o corpo trabalham juntos neste propósito, consegue-se aquilo que se almeja.