sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Mistagogia, o que vem a ser isso?

Eurivaldo Silva Ferreira

Uma palavra – que parece ser nova, mas é muito antiga – está atualmente fazendo parte de vários textos de documentos da Igreja Católica. Trata-se da palavra ‘mistagogia’, que é uma forma pedagógica dos Pais da Igreja orientarem o processo da iniciação à vida cristã de muitos que queriam inserir-se na Igreja, entre os séculos III e IV da era cristã.
O teólogo e liturgista L. F. Santana, da PUC-Rio afirma que os Pais da Igreja “são os transmissores privilegiados daquilo que viveram e testemunharam as comunidades cristãs da primeira hora”.
Podemos dizer que “eles são as testemunhas qualificadas, devido sua experiência teológica, constituídas pelos dois pólos, intimamente conexos da Sagrada Escritura e da Igreja”, afirma a professora Rosemary Fernandes da Costa (PUC-Rio), especialista em mistagogia e catequeses mistagógicas. É por esse caráter relevante que o termo mistagogia ganha espaço na redação de muitos textos da Igreja, como contributo, tema relevante e fonte a ser resgatada na evangelização atual. Rosemary afirma que “trazer o eixo mistagógico para esta temática é resgatar o conceito de Iniciação Cristã, não como um processo com vistas à celebração dos sacramentos, mas como caminho de aproximação entre a pessoa e o mistério de Cristo, que vem ao encontro das pessoas na história”.
Resumindo, a mitagogia é um recurso pedagógico, o qual vai conduzindo os iniciantes, passo-a-passo nos mistérios da fé e da Igreja, tendo em vista uma caminhada cristã. Assim, para os Pais da Igreja, não se trata apenas de conteúdo catequético e doutrinário, tendo em vista a inserção na vida cristã, mas possui um caráter de fundamento teológico, o que possibilita uma penetração cada vez mais nos mistérios celebrados. Esse aprofundamento, junto aos Pais da Igreja, se dava pelas celebrações litúrgicas, sempre providas de caráter nobre e catequético, cujo conteúdo formativo, dado pelos ritos, sinais e símbolos, permitia aos participantes e iniciados mergulhar nos mistérios da fé que celebravam.
O termo Mistagogia vem do grego e significa mister = mistério / agogain = pedagogo (significando aquele que conduz). Pedadogo é aquele que conduz na educação, mas na mistagogia o pedagogo é alguém que conduz pelo caminho do mistério. O pedagogo é alguém que ajuda a conduzir de um caminho para outro, de um lugar para outro. Essa figura era comum na Grécia antiga, tratava-se de escravos que conduziam as crianças para a escola. Eles tinham uma responsabilidade, eram apenas mediadores, mas ainda continuavam na condição de escravos. A figura do mistagogo vem da Grécia, mas foi assumida pelas outras religiões, na Índia, por exemplo. Quem faz mistagogia, ajudando o(a) outro(a) a entrar no mistério, é um(a) mistagogo(a).
O tema da mistagogia foi desenvolvido no século III e IV com os Pais da Igreja. Cirilo de Jerusalém foi um dos Pais da Igreja que escreveu muitas homilias mistagógicas, desenvolvendo nessas homilias verdadeiros conteúdos mistagógicos.
A mistagogia é uma teologia, é um jeito de compreender como Deus se revela. Um jeito de se colocar diante da revelação. Ela nos envia a algum lugar, à liturgia, por exemplo. Podemos dizer que Deus é um pedagogo, pois tem um jeito de se aproximar, de se revelar, de dar um passo com a gente. O Antigo Testamento está cheio de narrações de aproximações pedagógicas de Deus para com o povo de Israel, o povo eleito. Essa revelação, que se dá através das Sagradas Escrituras, tem uma dinâmica, e essa dinâmica passa pelo processo da fé. Esta se dá através de uma experiência pessoal e comunitária. É a mistagogia a encarregada de fazer a gente perceber essa dinâmica da revelação, mas também atingindo a comunidade. Especialmente para nós, a mistagogia nos envia a uma Igreja. Uma Igreja que se encarna e serve, é diaconal. Compreendemos a Igreja também como sacramento, sobretudo ela nos envia a compreender a pessoa de Jesus e o mundo. Esses elementos estão em qualquer mistagogia. Os Pais da Igreja cuidaram muito bem desses elementos, a fim de transmiti-los a outros.
No documento Sacramentum Caritatis (Sacramento da Caridade, 2007), Bento XVI, no número 41, falando das artes sacras (pintura, escultura e iconografia), recorda que “estas devem ser orientadas para a mistagogia sacramental”, isto é, toda imagem sagrada, representada pelas artes, deve conduzir aquele(a) que as observa e contempla para a inserção no mistério que a obra quer revelar. A esse respeito, os artistas, escultores e pintores em geral, devem estar cientes de que sua arte deve estar cheia de conteúdos mistagógicos, o que consideramos como fator preponderante para adentrar aos templos sagrados.
No mesmo documento, no nº 64, Bento XVI fala do grande esforço da Tradição litúrgica da Igreja, que tem nos ensinado e encaminhado para uma frutuosa participação, o que de nossa parte requer um esforço por corresponder pessoalmente ao mistério que é celebrado. Por isso recomenda que: “fomente-se nos fiéis profunda concordância das disposições interiores com os gestos e palavras nas celebrações litúrgicas”. Essa concordância, a qual se refere o papa, “se faltar, corre-se o risco de se cair em simples ritualismo”. Desta forma, continua ele, “é preciso promover uma educação da fé eucarística que predisponha os fiéis a viverem pessoalmente o que se celebra”. Por isso, Bento XVI alerta no documento para a importância essencial desta participação pessoal e consciente, indicando que “essa estrada deve ser trilhada sob a via da catequese de caráter mistagógico, pois esta leva os fiéis a penetrarem cada vez mais nos mistérios que são celebrados”. E ainda afirma que “a melhor catequese sobre a Eucaristia é a própria Eucaristia bem celebrada”.
Com efeito, por sua natureza, “a liturgia possui uma eficácia pedagógica própria para introduzir os fiéis no conhecimento do mistério celebrado”, diz Bento XVI. Ademais, é necessário ouvir as autênticas testemunhas da fé, isto é, os Santos Padres, também chamados de Pais da Igreja. Como testemunhas qualificadas (já dissemos), são eles os chamados introdutores na fé, a partir da e na celebração eucarística.
Para se estruturar uma experiência fundamental que tem em vista um itinerário mistagógico, a Sacramentum Caritatis elenca três elementos, que também podemos chamar de passos a serem seguidos, vejamos:
1) Interpretação dos ritos à luz dos acontecimentos salvíficos, isto é, procurar nos ritos aquilo que se refere ao conteúdo de salvação oferecido por Jesus, também contido na Tradição da Igreja e da Sagrada Escritura;
2) Introduzir no sentido dos sinais contidos nos ritos, isto é, como recurso pedagógico, a mistagogia é capaz de unir sinais e símbolos, estes educam a sensibilidade dos fiéis, pois unidos à palavra, constituem o próprio rito, e
3) Mostrar o significado dos ritos para vida cristã, em todas as suas dimensões: trabalho e compromisso, pensamentos e afetos, atividade e repouso; isto é, a catequese mistagógica deve levar o fiel a perceber que a celebração, a liturgia, deve ser aplicada na vida. Só assim, a consciência, como fruto maduro da mistagogia, vai aos poucos sendo transformada pelos sagrados mistérios celebrados.
É interessante percebermos como é forte o apelo do documento Sacramentum Caritatis. Além disso, o documento reforça a necessidade de que a catequese mistagógica seja uma condição necessária nas nossas comunidades para se realizar, através de um processo pedagógico, a educação na fé, que se dá por meio de formadores(as) (introdutores/as) preparados para isso. Ainda, o mesmo documento diz que toda comunidade é chamada a ser lugar de introdução pedagógica aos mistérios que se celebram na fé.
Sem dúvida, está aí um bom caminho para trilharmos na nossa vida cristã: a iniciação mistagógica. Através dela nos abrimos ao mistério do Deus revelado em Cristo Jesus, que se dá a nós. Mas nossa acolhida depende exclusivamente de nós mesmos, de nos abrirmos à contemplação do mistério e fazermos dele ação em nossa existência. Para isso, contamos com nossas orações e celebrações litúrgicas.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Setembro: mês da Bíblia - um estudo do livro do Êxodo

Eurivaldo Silva Ferreira
O livro do Êxodo narra os eventos de libertação
do povo hebreu
Todo ano, durante o mês de setembro, a Igreja no Brasil dedica um estudo acerca de algum livro da Bíblia. Por isso temos o costume de chamar o mês de setembro de mês da Bíblia. Neste ano o livro a ser estudado será o Êxodo, mais precisamente o seguinte trecho: Êxodo 15,22 – 18, 27.
Êxodo significa saída, passagem. Trata-se de um projeto em que Deus age como libertador, revelando-se aí como um Deus da esperança para um povo oprimido e já sem perspectivas de libertação.
O ato do êxodo é o ato fundante por excelência da história do povo de Israel. Este povo se liberta das garras do faraó do Egito e atravessa o Mar Vermelho, rumo a uma terra prometida por Deus. Essa passagem marca a tradição. Dessa tradição bebem o judaísmo e o cristianismo, religiões que têm como ponto fundante este evento. Esta passagem é lida na 3ª leitura da Vigília Pascal. Entram na terra prometida e durante um bom tempo tentam conquistar esta terra, se estabelecem nesta terra. O povo de Israel deixa de ser nômade e passa a ser sedentário.
Os hebreus vêm do Egito segundo a narrativa do Êxodo, esta é a situação social e física que existia em Israel. Em Josué o evento êxodo acaba. Segundo esse livro são milhares de hebreus que saem do Egito com uma identidade muito clara, buscando uma libertação muito específica e sabendo que vai buscar a libertação em algum lugar. No entanto, tratava-se de um punhado de gente meio que sem expressão, mas que no deserto, decide reconhecer o Deus da esperança, encorajando-se, e tomando a decisão de não mais retornar às mãos do faraó do Egito.
O Êxodo nos apresenta uma prática que corresponde ao projeto de Deus. Todos os profetas se inspiram nos relatos do livro do Êxodo para alertar ao povo que não se esqueça do projeto de libertação do Deus de Israel. O profeta Oseias nos lembra isso em seus escritos, pois Israel se esquece da libertação concedida pelo Deus da Aliança. Por isso, não se trata de uma história que ficou no passado, mas que deve ser lembrada de geração a geração. É Isaías que, a partir do capítulo 40 de seu livro, nos vai recordar a consolação do Deus de Israel. Este profeta usa um recurso metafórico para dizer à Jerusalém que o período da escravidão já passou, e que se trata agora de viver um novo tempo, isto é, com o fim do exílio vive-se um novo êxodo.
Na história do Êxodo Deus se revela a seu povo. Como para a religião do antigo Israel, o evento êxodo é um fato fundante, o mesmo vale dizer para Jesus. Jesus é comparado a Moisés cerca de 80 vezes no Novo Testamento. Jesus é por excelência o novo Moisés, é por ele que conhecemos a Deus. No mais, o Novo Testamento costuma chamar o Pentateuco, o conjunto de 5 livros no qual está inserido o do Êxodo, de “A Lei”, e desta lei não iria desaparecer uma única vírgula, disse Jesus. Atribui-se assim muita importância ao dado dessa religião. Certamente a Lei não se trata de algo marginal da religião do antigo Israel, mas daquilo que é mais central.
Os três capítulos básicos propostos como estudos nesse mês de setembro são narrativas distribuídas em dois blocos: 1º bloco: a) As águas amargas em Mara (Ex 15,22-27); 2) b) A história do maná no deserto (Ex 16,1-35); c) Narrativa sobre a água que brota da rocha em Rafidin, lugar chamado depois de Massa e Meriba (Ex 17,1-7). Trata-se de uma sequencia de três narrativas em que os temas principais são: água, pão e água. E no 2º bloco os temas: a) Os israelitas sendo atacados pelos amalecitas (Ex 17,1-15); b) O reencontro de Moisés com seus familiares (Ex 18,1-12); c) A história dos juízes (Ex 18,13-27).
Olhando para a nossa história, devemos nos perguntar se ainda há alguém que precisa ser libertado, se há pessoas que ainda estão sob o jugo da escravidão e da dominação. A libertação das amarras da opressão que caem sobre o povo deve ser refletida à luz dos textos bíblicos. Devemos ler o livro do Êxodo tendo um olho nas narrativas escritas e outro olho na nossa vida, para, de fato, pessoalmente e em comunidade, nos encontrarmos com o Deus libertador.