segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Tempo do Advento

Eurivaldo Silva Ferreira*


Ao participarmos da dinâmica do Ano Litúrgico, nos colocamos numa atitude de devida reverência com o mistério pascal de Cristo. Este mistério pode ser vivido ao longo do próprio Ano Litúrgico, com suas festas e seus tempos, suas celebrações, seus cantos e suas orações.

Um pequeno gesto ou rito nos introduz nesse mistério, no qual o Espírito é o grande ‘despertador’ da ação que o próprio mistério propõe a fazer em nós. Esta ação, própria do Espírito, provoca em nós uma abertura à força sacramental, força que o próprio tempo ou Ano Litúrgico traz em si. Conduzir-se a isso é propor nossas vidas ao que o mistério quer realizar em nós: fazer-nos seres de esperança, em atitude à vinda do Reino de Deus, Reino este que pode ser já vivido no Hoje da nossa história. O Tempo do Advento tem essa característica, é um tempo em que nos colocamos em atitude de alegre e piedosa expectativa pela vinda do Reino entre nós. Foi assim que viveram os personagens bíblicos, dentre eles Zacarias, Maria, João Batista, Simeão e o próprio Jesus Cristo, protagonista do Reino de Deus.

Ao desenvolver meu trabalho de conclusão de curso de Teologia na Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção/PUC-SP, decorri sobre o Tempo do Advento. Com este trabalho não tive o intuito de dar a receita certa para a equalização da realização deste Reino entre nós, do qual falei na introdução deste artigo, mas visa mostrar através dos sinais que são próprios do Tempo do Advento, que, com seu sentido próprio, a música litúrgica, o cântico de Zacarias e outros elementos podem contribuir para se viver o Tempo do Advento e dele tirar proveito espiritual para as nossas vidas e atitudes cristãs, fazendo com que essas atitudes se revertam em exercício para a convivência com o mundo cada vez mais sem esperança e impedido de dar continuidade à realização da vontade de Deus.

O Tempo do Advento, apresentado no início do ano litúrgico, relaciona-se com a proposta da Igreja que se faz presente no mundo. Ela anseia pela vinda do Senhor, mas enquanto sua vinda não se faz plenamente, celebra, louva e distribui os sacramentos, na esperança de sua plena concretização. Por isso este tempo, em preparação ao Natal do Senhor, suscita o desejo de que o Senhor venha. Tanto no Tempo do Advento como no Natal, dá-se a realização plena do mistério pascal de Cristo, tudo pela ótica do seu nascimento e de sua concepção terrena. Eis o sinal sacramental próprio do tempo.

No trabalho também avaliei a proposta da música litúrgica própria to tempo, tendo como subsídio o Canto de Zacarias, que considero como protótipo de música ritual, já que seu texto bíblico canta a espera e a presença do Senhor. Parti do ponto de vista do que a Igreja diz sobre a música litúrgica, também chamada de música ritual (aquela que é o rito ou que acompanha o rito litúrgico). Busquei nas fontes primitivo-cristãs uma análise criteriosa, apoiando-a na Sagrada Escritura e na Tradição. Tomando como referência o próprio Cântico de Zacarias, abordei seu sentido bíblico, destacando elementos exegéticos e de caráter da sua concepção, a fim de que este se torne um canto ritual modelo para outros.

Também me ative na análise do conjunto das leituras das celebrações dos quatro domingos do Tempo do Advento, extraindo delas seu conteúdo pedagógico e de esperança que ajuda as comunidades cristãs a renovar seu fervor missionário de anunciadores do reino messiânico, cujo ápice se mostra com seu natal.

Apresentei como proposta atributos de busca de uma espiritualidade própria do Tempo do Advento, que podem levar os cristãos a vivenciarem melhor esse tempo com sinais de que suas certezas não são em vão, e de que o Reino de Deus, ainda que demore, pode ser uma realidade do hoje, vivendo-se a tensão do “já” e do “ainda não”, como afirma São Bernardo. As atitudes de expectativa, de espera e de esperança da firme concretização do Reino de Deus são índoles da própria Igreja, como já disse, que vive neste mundo sob o influxo do domínio do mal, mas que ‘geme e sofre como que em dores do parto’, esperando a segunda vinda daquele que um dia veio na carne humana, ocasião em que se dará a feliz realização do reino.

Portanto, viver o Advento é viver com uma alegre espera, na feliz expectativa da realização do Reino de Deus entre nós. Mas essa espera é revestida de uma esperança escatológica (escathom, do grego = fim último), em meio a tribulações e sofrimentos, assim como viveu o “Filho do Homem” (Lc 21,27), e que se torna sinal de esperança, sinal de que a salvação de Deus prometida desde a Primeira Aliança (AT) está inserida na história humana, conforme a profecia de Daniel que fala da instauração do Reino de Deus, com a vinda de Jesus.

No Tempo do Advento, nossa atitude é de termos a cabeça erguida, de estarmos despertos e acordados, como diz São Paulo na Carta aos Romanos, a fim de que percebamos no decorrer da história os sinais de libertação, sobretudo nos acontecimentos históricos, cujas imagens simbólicas próprias do tempo nos ajudam a compreender como é que se deu no passado, trazendo para o ‘hoje’, tendo como atitudes os princípios da vigilância e da oração, conseqüência da santidade (frutos próprios do tempo). Essas atitudes preparam o coração para a grande vinda, a escatológica (última vinda), e nos conforta sua presença misteriosa através da ação litúrgica (memória da primeira vinda) e através dos pequenos gestos realizados em prol do/a outro/a (vinda intermediária de Cristo), mas que com o auxílio de Deus, isso é possível.

A segunda vinda de Cristo nos concede os bens prometidos na plenitude. Essa salvação é concedida a todas as pessoas, ao mundo, ao cosmos, por isso homem/a mulher são os responsáveis por acolherem a salvação, primeiro ‘abrindo o coração’, ‘aplainando os caminhos’, ‘abaixando as montanhas’. As leituras deste tempo mostram isso, a alegria do povo que se volta, que espera, que permanece fiel, na expectativa da vinda do Messias.

Por isso, posso dizer que celebrar no Tempo do Advento é manifestar no rito e na vida um momento novo para a humanidade nova, para o mundo novo. De fato, a Igreja diz que é necessário se viver num eterno advento, afastando o mal, pois Deus age como um agricultor que recolhe os grãos no celeiro, ou como um lenhador, que coloca o machado ao toco, pronto para cumprir sua missão.

Maria, a imagem da Igreja é a portadora da Arca da Aliança, no seu ventre, sinal da salvação, por isso se entrega totalmente ao projeto de salvação de Deus. Os personagens deste tempo nos ajudam a compreender como é que Deus age em prol da humanidade a fim de salvá-la, guardando-a do mal, mostrando a todos o verdadeiro Sol do Oriente, que ilumina todos os povos que andam por entre as trevas, conforme canta Zacarias.

*É teólogo, formado pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção/PUC-SP, músico e atua na Rede Celebra de animação litúrgica.

domingo, 31 de outubro de 2010

O Papa e a política

Dom Luiz C. Eccel *
(extraído de Adital - http://www.adital.com.br/)

Já havia lido o discurso do Papa Bento XVI, aos Bispos do Maranhão, em visita ad limina apostolorum. Muito interessante o discurso do Papa. Ele não pode deixar de cumprir sua missão de Pastor Universal, exortando o Povo de Deus, especialmente no que diz respeito à defesa da VIDA.

O Santo Padre foi muito oportuno e feliz nas suas colocações, porque o Estado Brasileiro é laico, mas seu povo é religioso, e isto precisa ser respeitado. Quando digo que o povo é religioso é porque está disposto a fazer a Vontade de Deus e não somente dizer: Senhor, Senhor..., como às vezes se pretende, de maneira especial dentro da própria Igreja. Existem facções sociais, políticas e religiosas especializadas em fazer lavagem cerebral, deixando as pessoas sem convicções, mas com obsessões, e com a consciência invencivelmente errônea. Ficam semelhantes aos grãos de pipoca que levados ao fogo não estouram, e com mais fogo, mais duros ficam. Tornam-se donas da "verdade". Estão até manipulando o texto do Papa, para justificar a sede do poder. (cf. http://www.releituras.com/rubemalves_pipoca.asp)

É a Vontade de Deus que nos salva e não a nossa, e sobre isto precisamos sempre nos exortar mutuamente, como diz o Apóstolo São Paulo. Portanto, que nossa fé seja sempre vivificada pela mútua exortação. Pode ocorrer de nos esquecermos que somos todos peregrinos caminhando para a Casa do Pai, e quando lá chegarmos, poderemos ouvir de Jesus o seguinte: "Afastai-vos de mim, vos que praticastes a injustiça, a maldade" (Lc13,27). Creio que ninguém vai querer ouvir isto naquela hora. Seu passaporte está em dia? Pode ter certeza de que a eternidade existe... Assim, busquemos alimentar nossa fé, sem esquecer, como diz o Papa, que ela deve implicar na política. A fé sem obras é morta, diz a Escritura Sagrada. E uma das obras que deve provir da fé, é o nosso voto consciente em pessoas que vão governar para o bem comum, respeitando a vida em todas as suas etapas e dimensões.

No mesmo dia em que li o discurso do Papa, assistindo ao telejornal, à noite, escutei o pronunciamento da candidata e do candidato à presidência do Brasil a respeito do discurso do Papa. Ambos concordaram com as Palavras do Papa, dizendo que é missão dele exortar para uma vida coerente com os valores da fé e da moral, e que as palavras do Papa valem para todas as pessoas de fé, no mundo inteiro.

O Papa falou, também, que o voto deve estar a serviço da construção de uma sociedade justa e fraterna, defensora vida.

Como Bispo da Igreja Católica, e como cidadão brasileiro, fico feliz por saber que nosso Presidente tem defendido a vida, e sempre se pronunciou contra o aborto. Nesses últimos anos o Brasil tem crescido e melhorado em todos os aspectos, de maneira especial no respeito à vida e a valorização da dignidade humana. Esta é a Vontade de Deus! E as pessoas, em plena posse de suas faculdades mentais, vão reconhecer esta verdade.

Nosso país está em pleno desenvolvimento e assim queremos continuar e, depois de 500 anos, nosso povo quer eleger, pela primeira vez, uma mulher que tem compromisso com a vida e provou isso com sua própria vida. Como? Ela não fugiu para o exterior durante a ditadura, mas a enfrentou com garra e, por isso, foi presa e torturada. Ela queria um país livre, e que todas as pessoas pudessem viver sem medo de serem felizes, vencendo a mentira e o ódio com a verdade e o amor, servindo aos ideais de liberdade e justiça, com sua própria vida. Disse Jesus: "Ninguém tem maior amor do aquele que dá a própria vida pelos irmãos" (Jo 15,13).

Obrigado Santo Padre por suas sábias palavras! A Dilma é a resposta para as nossas inquietações a respeito da vida. Quem sofreu nos porões da ditadura, não mata. Mas teve gente que matou a vida no seu ventre para fugir da ditadura, e, portanto, não deveria se comportar como os fariseus, que jogam pedras, sabendo-se pecadores. E Jesus disse: "Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la, e quem entregar sua vida por causa de mim, vai salvá-la" (Mt 10,39).

Vamos fazer o nosso Brasil avançar ainda mais, com Dilma, que já provou ser coerente, competente e comprometida com a VIDA. O dragão devastador não pode voltar ao poder.

Deus abençoe os leitores e eleitores, governos e governados. Saúde e paz a todos (as)!

Tudo o que você me desejar, eu lhe desejo cem vezes mais. Obrigado.

Caçador, 28 de outubro de 2010

* Bispo Diocesano de Caçador-SC

domingo, 24 de outubro de 2010

Os jovens na evangelização: análises acerca da juventude, tendo em vista a Igreja pós-conciliar

Eurivaldo Silva Ferreira

Entre os dias 5 e 11 de setembro de 2010 ocorreu em Caracas, Venezuela, o 3º Congresso Latino Americano de Jovens, com o tema “Caminhemos com Jesus para dar vida a nossos povos”. O Congresso trouxe uma reflexão sobre a revitalização das pastorais juvenis da América Latina e o material de estudo está no site: www.pjlatino.redejuventude.org.br. A juventude ainda tem muito a oferecer em nossa Igreja latina.


Falar de juventude não é tão fácil assim. Certas definições sobre o que é ser jovem vêm carregadas com valores que moldam o estado da juventude com certos compromissos e responsabilidades. Esses conceitos são bem-vindos socialmente, mas permeiam o âmbito subjetivo.

A conceituação antropológica me permite dizer que juventude é o estado de nossas vidas compreendido entre a infância e a vida adulta. Claro que há também contrariedades, assim como na maturidade ou na velhice, logo, a juventude não é o momento de nossas vidas em que ficamos mais irresponsáveis, como pensam alguns, mas é o estado em que temos permissão para viver tudo com mais intensidade. Por isso, o jeito da juventude de se comunicar e de se relacionar pode e muito contribuir no processo do discipulado e da missão de nossa Igreja.

Tomo a liberdade de, em primeiro lugar, comparar o estado de juventude ao conceito de Igreja que herdamos do Concílio Vaticano II. Este Concílio (1963-1965) inaugurou um novo modelo de Igreja, que tem sua própria capacidade de resistir ao tempo e renovar-se através de uma caminhada de libertação de suas amarras, tanto rituais como magistrais. Assim são os jovens, libertam-se de certos conceitos, passando a assumir novas posturas e atitudes.

A grande novidade eclesial desse Concílio foi a de ampliar a representação da Igreja no mundo, fomentando também as Igrejas particulares que sobrevivem em outros continentes, superando cinco séculos de conceituação jurídico-européia, além de trazer como intenção fundamental a atualização da ação salvífica que acontece na Igreja que está no mundo moderno. Atualizar tem tudo a ver com juventude: ser atual, estar em sintonia com os outros e com o mundo. É essa a imagem da Igreja “antenada” que o Concílio traz.

Desde então, a Igreja passou de uma situação de conflito com o mundo para uma situação de diálogo. Isso foi um rompimento, mas abriu-se a uma novidade atingindo aí seu estado jovial de ser. Por isso duas conceituações de Igreja são assumidas pelo concílio: unidade de Deus na Trindade de pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo, portanto um Deus-comunidade; e Igreja como sacramento de salvação.

A salvação tem como base o reino de Deus, pregado por Jesus com sua vida e culminando com sua páscoa, um jeito novo de viver o reino, que exige verdade, justiça, fraternidade, paz e vida. A Igreja não é o reino, mas, vivendo no mundo, ela mesma anuncia o reino.

Na América Latina, o conceito de sacramento de salvação veio ao encontro da realidade do povo, e essa Igreja toma rosto dele, sobretudo dos mais pobres, que relutam no direito digno da vida plena para todos. Não que a Igreja salve, mas que nela contém a salvação oferecida por Jesus.

E como se dá a questão do anúncio do reino que a Igreja reproduz no mundo? Ela deve ser, sobretudo, ecumênica e de comunhão, consigo mesma e com os outros, diz o concílio. A aplicação das propostas do reino de Deus nessa Igreja latino-americana ganhou corpo a partir das conferências episcopais que se seguiram, culminando com a conferência de Aparecida, em 2007. Nessas conferências os bispos anunciam que a Igreja é de pobres, e voltada para os pobres, pois a eles Jesus se fez destinatário, curando e acolhendo, sobretudo salvando.

É em Aparecida que os bispos da América Latina declaram que “os jovens são chamados a ser ‘sentinelas do amanhã’, comprometendo-se na renovação do mundo à luz do Plano de Deus (...), compartilhando em comunidade a corrente de vida, construindo a Igreja e a sociedade” (Documento de Aparecida, nº 442).

Articular realidade social e reino de Deus é tarefa da juventude também, sendo discípulo-missionário, por meio das redes sociais reais e virtuais. Ah, se aprendêssemos com a juventude a preparar durante a semana nossos encontros dominicais ao redor da mesa, nossa festa eucarística, nosso convívio festivo...

O encontro e a reunião, a curtição juntos são formas orantes dos jovens celebrarem a vida. Vivendo menos a institucionalidade do ser Igreja, eles procuram no seu jeito próprio de rezar e louvar a força viva e eficaz para objetivar suas propostas. É no encontro que acontecem as relações, e este se torna paradigma para a compreensão da Igreja-comunidade conceituada pelo Concílio Vaticano II. Penso que a evangelização da juventude acontece por aí.

domingo, 17 de outubro de 2010

Polêmica do aborto faz bispos racharem

por José Patrício/AE

"Aparecida. Distribuição de folhetos contra Dilma no Santuário, dia 12, acirrou diferenças entre religiosos"

A discussão da questão do aborto na campanha eleitoral, que está dividindo os católicos por causa do veto de alguns bispos à candidata petista Dilma Rousseff, provocou um racha no episcopado em nível nacional e deverá deixar sequelas na vida da Igreja, seja qual for o resultado do segundo turno, em 31 de outubro.

A polêmica terá também reflexos na eleição para a presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em maio do próximo ano, quando um grupo conservador, contrário à atual linha de diálogo, tentaria tomar o poder para adotar uma posição mais dura de oposição ao governo. Pelo menos, na hipótese de Dilma vir a ser a vencedora.

A confusão foi armada pelo apoio dado pela direção do Regional Sul 1, que reúne as 41 dioceses de São Paulo, em 26 de agosto, a uma nota intitulada Apelo a Todos os Brasileiros e Brasileiras, da Comissão em Defesa da Vida, que recomendava aos eleitores que 'independentemente de suas convicções ideológicas ou religiosas', dessem seu voto 'somente a candidatos ou candidatas e partidos contrários à descriminalização do aborto'.

O autor ou inspirador do texto foi o padre Berardo Graz, da diocese de Guarulhos, cujo bispo, d. Luiz Gonzaga Bergonzini, encampou o manifesto e citou, entre os vetados, o nome de Dilma. Passado o primeiro turno, d. Luiz Gonzaga reiterou sua posição, alegando que, embora a petista tenha feito uma profissão de fé em defesa da vida, não se podia acreditar nela. 'Dilma, que se faz agora de santinha para dizer que é contra o aborto, já mudou de opinião três vezes.'

Artigos e entrevistas de d. Luiz Gonzaga irritaram outros membros do episcopado paulista, principalmente porque grupos de católicos contrários ao aborto e à candidatura Dilma distribuíram milhares de cópias da nota do Regional Sul 1 de apoio ao manifesto da comissão coordenada pelo padre Berardo. A distribuição do material em paróquias de outras dioceses, à revelia de seus bispos, pôs mais lenha na fogueira. O texto se multiplicou também em mensagens pela internet, espalhando-se por todo o País.

Na Paraíba, o arcebispo de João Pessoa, d. Aldo Pagotto, gravou um vídeo, postado do YouTube, que encampava a nota do Regional Sul 1 e condenava explicitamente a candidata petista. Procurado na quinta-feira por telefone, d. Aldo mandou dizer por sua assessoria de imprensa que não falaria mais sobre o assunto. O arcebispo de Brasília, d. João Braz de Aviz, também criticou a petista.

Limites. A direção da CNBB não gostou da chancela do Regional Sul 1 ao manifesto, pelo fato de o texto dirigir um apelo 'a todos os brasileiros e brasileiras', quando se deveria restringir aos eleitores paulistas. Segundo a CNBB, quem fala em nome dos bispos em nível nacional é a presidência, a assembleia-geral ou o conselho permanente da entidade. Assim, em relação às eleições, vale a posição tomada na última assembleia realizada em Brasília, em maio, quando o episcopado recomendou que os católicos votassem em candidatos comprometidos com a defesa da vida, com os valores éticos e com a dignidade humana.

'Foi uma posição coerente com tradição da Igreja, que sempre falou em princípios, sem tomar partido por esse ou aquele candidato', observou d. Pedro Luiz Stringhini, bispo de Franca. A maioria das dioceses se alinha com essa orientação, conforme lembrou o bispo de Registro, d. José Luiz Bertanha. É essa a posição adotada, por exemplo, pelo cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer, pelo arcebispo do Rio, d. Orani Tempesta, e pelo de Belo Horizonte, d. Walmor Oliveira de Azevedo, em entrevistas e artigos na imprensa.

O bispo de Limeira, d. Vilson Dias de Oliveira, responsável pelo setor de comunicação do Regional Sul 1, não gostou de d. Luiz Gonzaga Bergonzini ter vetado explicitamente a presidenciável e todos os candidatos do PT, porque em sua opinião ele poderia condenar defensores do aborto sem citar nomes.

No caso do apoio do Regional Sul 1 ao apelo da Comissão em Defesa da Vida - em nota assinada por d. Nelson Westrupp, bispo de Santo André (presidente), d. Benedito Beni dos Santos, de Lorena (vice-presidente), e d. Airton José dos Santos, de Mogi das Cruzes (secretário-geral) -, argumenta-se que deveria ter reafirmado a declaração Votar Bem, aprovada por todo o episcopado paulista em 29 de junho. O texto apresenta aos eleitores um decálogo com orientações para 'participação consciente e responsável no processo eleitoral'.

As divergências levantadas pela nota contra Dilma e sua distribuição à porta de igrejas, sem autorização, como aconteceu na Festa da Padroeira, no Santuário Nacional de Aparecida, no dia 12, foram mais acirradas entre d. Luiz Gonzaga e d. Luiz Demétrio Valentini, de Jales.

Os dois trocaram cartas violentas, cujas cópias foram enviadas ao episcopado de São Paulo e a outras dioceses. Irritado com a publicação de uma entrevista no jornal Diário de Guarulhos, o que considerou invasão de seu território, d. Luiz Gonzaga protestou contra as críticas, afirmou ter sido ameaçado de morte e prometeu reclamar de d. Demétrio com o papa Bento XVI. Da troca de correspondência, a questão se estendeu à assembleia do Regional Sul 1, que se reuniu este fim de semana no Mosteiro de Itaici, município de Indaiatuba. D. Demétrio cancelou uma viagem a Buenos Aires para participar da reunião, na certeza de que a questão da defesa da vida e do veto a Dilma seria debatida.

Reflexos. Unânimes em condenar o aborto, mas divididos em relação à nota divulgada com apoio da presidência do Regional Sul 1, os bispos estão preocupados com os reflexos dessa discussão no clima de fraternidade que deveria existir no episcopado. 'Esse maniqueísmo que está dividindo os católicos em bons e maus, conforme suas opções eleitorais, vai deixar marcas', prevê o petista Toninho Kalunga, vereador de Cotia, na região metropolitana de São Paulo.

Dirigente do movimento Encontro de Casais com Cristo e interlocutor da campanha de Dilma na área religiosa, ele vem percorrendo dioceses paulistas para conversar com os bispos e aparar possíveis arestas com os católicos.

'O embate ideológico que existiu nos primeiros anos da CNBB, mas estava ausente nas últimas décadas, ameaça voltar após as eleições de 2010', adverte d. Pedro Luiz Stringhini, prevendo uma ofensiva de grupos mais conservadores na disputa pelo controle da entidade. Segundo assessores da CNBB, em Brasília, esses grupos seriam formados por bispos do Rio, de Minas e de São Paulo que tentariam eleger um presidente mais disposto a enfrentar um governo eventualmente do PT. D. Demétrio discorda dessa análise, pois acredita na reeleição de d. Geraldo Lyrio Rocha, arcebispo de Mariana, 'homem equilibrado e firme'. Para os conservadores, uma alternativa capaz de somar votos para a presidência seria d. Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo.

TRECHOS

Carta de d. Luiz Gonzaga Bergonzini aos bispos :

'Como é de conhecimento de todos, em 1/7/2010, iniciei uma campanha contra os candidatos favoráveis ao aborto, de todos os partidos, a qualquer cargo. O PT é o principal articulador dessa ação no Brasil e, também, do 'casamento' de homossexuais.'

'O meu comportamento é baseado em minha consciência e no Evangelho. E visa à discussão de valores com a sociedade. Seja qual for o resultado das eleições, filósofos, sociólogos, antropólogos, religiosos e a população já começaram a debater o que chamam de 'agenda de valores'. O relativismo na sociedade e na Igreja Católica, sempre lembrado pelo papa Bento XVI, também tem sido questionado: o meu sim é sim e o meu não é não.'

'Ocorre que, no dia 7/10/2010, tive uma grande surpresa. D. Demétrio Valentini, da Diocese de Jales, publicou uma matéria de meia página, no jornal Diário de Guarulhos, editado em minha diocese, com uma acusação de crime eleitoral. Um bispo acusando outro de crime, pela imprensa. É algo muito grave e inadmissível. Anteriormente, recebi uma carta anônima com velada ameaça à minha vida, que já está nas mãos da polícia.'

Resposta de d. Demétrio Valentini

'Em primeiro lugar, alguns esclarecimentos:

1 - Não invadi Guarulhos, coisa nenhuma! Foi o jornal daí, através de um repórter, que me procurou, e fez a reportagem que ele quis fazer. Não fui eu que pedi para ele escrever o que ele escreveu.

2 - Não fui eu que levantei a questão do 'crime eleitoral'. Ao ser perguntado sobre isto, disse que esse assunto cabe à Justiça Eleitoral.'

'Agora, com calma, outra observação: fiquei triste vendo como interpreta de maneira tão preconceituosa o que escrevi no meu artigo que o sr. cita, achando que tive a intenção de confundir os cristãos, levando-os a serem a favor do aborto, e tantas outras coisas mais que o sr. escreve, interpretando tão erradamente o que escrevi.'

'De maneira muito injusta me acusa de ser um soldado do Partido dos Trabalhadores, e ainda por cima declara que não está fazendo política. Ora, D. Bergonzini, o Brasil inteiro está vendo que é o sr. que está fazendo política, e muita gente está escandalizada com sua atitude de invocar sua condição de bispo e de 'sacerdote do Altíssimo', para pedir que não se vote no Partido dos Trabalhadores, e em especial na candidata do partido para a Presidência. Ora, existe atitude mais política do que esta?

‘Não tomarás o santo nome de Deus em vão’

Roberto Malvezzi, Gogó *
(extraído de http://www.adital.com.br/)

Em nenhuma época da humanidade se falou tanto de Deus. Basta ligar uma TV com parabólica e contar os canais ditos confessionais. São pelo menos quatro em nome dos católicos e três em nome dos evangélicos. Mas, não é só. Pregadores desfilam programas comprados em outros canais comerciais tanto durante o dia como pelas madrugadas. Há uma super oferta de pregações, cultos, missas, terços - misturados com ofertas de produtos -, sempre em nome de Deus.

Ligando o rádio, vamos ouvir mais uma vez uma série de programas católicos e evangélicos. Grande parte é programa musical, dessas com uma pobreza literária, melódica, bíblica, teológica de arrepiar os ossos, com meia dúzia de palavras já previsíveis -amém, aleluia, glória, eu e Deus, Deus e eu, eu te amo- inundando nossos ouvidos. Essa música invadiu também a liturgia e hits ocupam o lugar da boa música litúrgica, trazendo o individualismo até no momento do Pai Nosso. O capital demorou para descobrir que religião é um ótimo comércio, mas agora explora até a última medalhinha milagrosa para fazer dinheiro.

Era inevitável que as religiões, inclusive o cristianismo, se aproximassem dos meios de comunicação. Afinal, evangelho quer dizer exatamente "boa notícia". Portanto, são meios que podem ser postos a esse serviço. Porém, o que se está fazendo com esses meios de comunicação em nome de Deus é que é a questão. Não se espere daí uma palavra profética em nome da justiça, dos pobres, porque é um anúncio mutilado que precisa sobreviver segundo as regras do mercado.

O certo é que, em nenhuma outra época, se manipulou tanto o nome de Deus como nessa que vivemos. Nessas eleições, então, chegou-se às raias da aberração. A difamação, calúnia, parcialidade, inclusive por alguns bispos católicos - usaram até o nome da CNBB -, perdeu qualquer referência bíblica de respeito pelo próximo. "Levantar falso testemunho", ou "invocar o Santo nome de Deus em vão" tornou-se prática do cotidiano. Com dois pesos e duas medidas para avaliar e recomendar candidatos, perdeu-se até o senso da dignidade.

Ninguém manipula a Deus, mas pode manipular seu nome. Entramos no terreno perigoso da caça às bruxas, com um vasto respaldo dos meios de comunicação.

* Agente Pastoral da Comissão Pastoral da Terra

Manifesto Evangélico de Apoio à Dilma Presidente

Autores: várias organizações
(extraído de: http://www.adital.com.br/)
Amados irmãos e irmãs,

Nós, pastores, pastoras e líderes evangélicos de Natal, para o segundo turno da eleição…

… recomendamos que se vote em Dilma Rousseff para presidente porque ela representa não uma promessa, mas a certeza da continuidade do maior processo de libertação da miséria de dezenas de milhões de brasileiros na história de nosso país, sem a necessidade de recorrer à violência. Vemos nisso a realização de um princípio do Reino de Deus, pois é importante que todos "tenham vida e a tenham em abundância" (João 10.10);

… recomendamos que se vote em Dilma Rousseff para presidente porque estamos no Nordeste, e o governo que Dilma representa foi o primeiro governo que deu atenção especial para nós, visando a diminuição da diferença com o restante do país. Para nosso povo evangélico nordestino, o governo de Dilma representa a tão esperada "boas novas para os pobres" (Lucas 4.18);

… recomendamos que se vote em Dilma Rousseff para presidente porque sua candidatura representa transparência e autenticidade, enquanto que a do adversário se apóia em boatos e mentiras para reconquistar o poder. Nosso compromisso é com a verdade e com o Evangelho e por isso não podemos suportar o uso de boatos e falsos testemunhos como suporte para uma candidatura, pois sabemos que não há liberdade sem verdade (João 8.32);

… recomendamos que se vote em Dilma Rousseff para presidente porque sua candidatura representa a garantia da liberdade de expressão e de culto, em um Estado Laico, que foi uma conquista do protestantismo histórico. Isso assegura às igrejas a aplicação de princípios doutrinários e éticos para seus fiéis, sem a interferência do governo. Como cristãos, nós jamais vamos deixar de falar daquilo que temos visto e ouvido, e o modelo de Estado prometido por Dilma nos assegura esse dever (Atos 4.20).

… recomendamos que se vote em Dilma Rousseff para presidente porque ser cristão é defender a vida, o pobre e a família, e é exatamente esta a bandeira que nossa candidata defende. Foi somente no governo que ela dá continuidade que o Brasil transformou-se na área de educação, que as Universidades e as Escolas Técnicas se multiplicaram e se tornaram verdadeiros canteiros de obras, com o PROUNI, o REUNI, e a Educação de Base; que foram oferecidas soluções para a habitação; que a saúde se aprimorou; e que programas de transferência de renda vieram de fato a funcionar. Pelo que vemos, podemos dizer que Dilma continuará a ser uma "autoridade que ministra para nós o bem da parte de Deus" (Romanos 13.4).

Defendemos a candidatura de Dilma Rousseff para presidente do Brasil, não por uma questão político-partidária, visto que representamos os mais variados espectros das opções políticas do Brasil, mas porque vemos nela a realização dos princípios do Evangelho do Reino de Deus.

Evangélicos com Dilma:

Pr. Sandro Eugênio Souza, Pr. Carlos Cabanas Cortez, Rev. Gecionny Rodrigo P. de Souza, Pr. Orivaldo Pimentel Lopes Júnior, Alderi Gondim Fernandes, Rivanaldo Gomes de Souza, Mircia Maria Lemos de Souza, Daniel Dantas, Isaias Herculano da Silva, Jailson Jarles, Maria das Graças Bezerra, Gustavo Lucena, Rildo Santos, Francisco Gomes de Lima, Alisson Almeida, Rafaella Maria Lemos de Souza, Jonatas Bruno Silva, Maria José Spíndola Alcântara, Iracy Dourado Marcondes, Danuta Wernergabrut, Potiguara Spíndola Alcântara, Abidenego Lopes Alcântara, Ivan Tavares de Farias Júnior, Miriam Lemos de Farias, Kênia Andrade do Nascimento Gondim Dantas, Rubenilson Brazão Teixeira. Priscila Tiziana Seabra Marques da Silva Aliança - Igreja Presbiteriana do Brasil em Mossoró (RN),

Raphael Lacerda - Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra - Brasília (DF)
Milca de Vasconcelos Gomes - Igreja Betesda em Gravatá (PE)
Filipe de Vasconcelos Gomes - Igreja Betesda em Gravatá (PE)
Pr. Josafá Gomes da Silva - Pr. da Igreja Betesda em Gravatá (PE)
Rômulo Vitor Nascimento Araújo - Igreja Assembleia de Deus
Josemar Augusto do Prado Oliveira - Igreja Presbiteriana do Brasil em Cachoeira de Minas.

Eleição, aborto e a infantilização da religião

Jung Mo Sung *


Por que bispos, padres e grupo religiosos que sempre defenderam a separação radical entre a religião e política, que sempre criticaram a discussão política no âmbito da Igreja ou até mesmo a relação "fé e política", estão fazendo, até mesmo nas missas, campanha aberta contra Dilma?


Uma primeira resposta poderia ser: hipocrisia. Respostas moralistas podem satisfazer o "juiz moralista" que todos nós carregamos no mais profundo do nosso ser, mas não são boas para nos ajudar a entender o que está acontecendo.

Esta campanha contra a candidatura da Dilma, e com isso o apoio explícito ou implícito à candidatura do Serra, está sendo feita de várias formas, mas com um elemento comum: os católicos e os "crentes" não devem votar nela porque ela seria a favor do aborto e, por isso, contra a vida. Alguns agregam também a acusação de que, se ela for eleita, as TVs católicas e evangélicas seriam proibidas de veicular os programas religiosos ou obrigadas a diminuir o seu tempo de duração. É a velha acusação de que "comunistas" são contra a religião.

Essas duas acusações são expressas e justificadas através de lógicas religiosas, e não a partir da "racionalidade leiga" que deve caracterizar a discussão sobre a política hoje. Esses grupos não admitem a distinção entre a religião e a política, ou melhor, não admitem a "autonomia relativa" do campo político e de outros campos -como o econômico- que se emanciparam da esfera religiosa no mundo moderno. Por isso, eram e são contra "fé e política" ou o debate sobre a política no campo religioso, pois esses debates são feitos normalmente a partir do princípio da autonomia relativa da política. Isto é, a discussão sobre questões políticas são feitas com argumentos de racionalidade sócio-política e não submetidos ao discurso meramente religioso.

Para esses grupos (é preciso reconhecer que ocorre também em outros grupos político-religiosos), os valores religiosos (do seu grupo) devem ser aplicados diretamente a todos os campos da vida pessoal e social. E, em casos graves como aborto, ser impostos sobre toda a sociedade através das leis do Estado. Nesses casos, não seria misturar a religião com a política, mas seria a "defesa" dos mandamentos e valores religiosos; ou colocar a política a serviço dos valores religiosos (nessa discussão apresentados como "a serviço da vida"). Pois, nada estaria acima dos "mandamentos de Deus". Desta forma não se reconhece a autonomia relativa do campo político, a dificuldade de se passar do princípio ético abstrato (do tipo "defenda a vida") para as políticas sociais concretas, e muito menos se aceita a pluralidade de religiões com valores diversos e propostas de ação divergentes e conflitantes.

Esta é a razão pela qual esses grupos não entendem e nem aceitam a resposta dada por Dilma de que ela, pessoalmente, é contra o aborto, mas que ela vai tratar esse tema como um problema de saúde pública. Para ouvidos daqueles que crêem que não há ou não deve haver separação entre a saúde pública (o campo da política social) e a opção religiosa pessoal do governante, a resposta da Dilma soa como eu não sou contra o aborto, que logo é traduzido na sua mente como "eu sou a favor do aborto".

E se ela é a favor do aborto, ela é contra a vida e, portanto, ela é do "mal". Enquanto que, por oposição, o outro candidato seria do "bem".

Reduzir toda a complexidade da "defesa da vida" -a que um/a presidente deve estar comprometido/a- à manutenção da criminalização do aborto (que é o que está discutido de fato neste debate sobre ser a favor ou contra o aborto) é uma simplificação mais do que exagerada. Simplificação que deixa fora do debate, por ex., toda a discussão sobre políticas econômicas e sociais que afetam a vida e a morte de milhões de pessoas. Mas é compreensível quando os cristãos têm muita dificuldade em perceber quais são os caminhos concretos e possíveis para viver a sua fé na sociedade, perceber em que a sua fé pode fazer diferença na vida social. Diante de tanta complexidade, a tentação mais fácil é simplificar o máximo para separar "os do bem" de "os do mal".

Essa simplificação me lembra a pergunta que os meus filhos, quando muito pequenos, me faziam ao assistir um filme: "pai, ele é do bem?" Se sim, eles torciam por aquele que "é do bem" contra o "do mal". Essa necessidade de separar os do bem e os do mal faz parte da condição mais primária do ser humano. O problema é que reduzir toda a complexidade da luta em favor da vida ao tema de ser favor ou contra a manutenção da criminalização do aborto é infantilizar a discussão política e, o que é pior, é infantilizar a própria religião que professa.

[Autor, em co-autoria com Hugo Assmann, de "Deus em nós: o reinado que acontece na luta em favor dos pobres"].

* Coord. Pós-Graduação em Ciências da Religião, Universidade Metodista de São Paulo

Eleição, agressividade e o Espírito

Jung Mo Sung *


É cristianismo uma religião da proibição, que impõe sobre toda a população (seja cristã ou não) seus valores à base da "espada" ou da lei do Estado? A história nos mostra que em parte foi e continua tentando ser esse tipo de religião da imposição através da proibição. Valores religiosos não podem ser impostos a não ser proibindo alternativas, pois valores religiosos e éticos só são valores para as pessoas que os praticam se assumidos livremente. Como não se pode impor o assumir livremente, o que seria uma contradição, a única forma de realizar o desejo da imposição dos seus valores é proibindo alternativas - através da força, do medo do inferno ou da lei do Estado.


No fundo é isso que está acontecendo nesta eleição, como também ocorreu nas anteriores, em torno da questão do aborto e do casamento ou união civil dos homossexuais (tema que está, entrando agora na polêmica). Setores da igreja católica e das igrejas evangélicas, que fora da época das eleições se vêem como "inimigas", se unem contra um mesmo inimigo proibindo os seus fiéis de votarem na figura que representaria o mal por não querer obedecer às leis de Deus (leis essas reduzidas ao campo da sexualidade humana e na forma interpretada pela sua igreja).

(A teoria do desejo mimético de René Girard nos oferece uma interpretação muito interessante de como esses dois setores rivais do cristianismo estão, no fundo, imitando uns aos outros, sendo iguais, tanto na eleição quando lutam contra o inimigo comum, quanto na luta de um contra o outro na ausência desse inimigo. É por isso que muitos desses setores evangélicos assumem discursos e ritos católicos, como setores católicos -carismáticos ou mais conservadores- imitam as igrejas evangélicas conservadoras e pentecostais.)

Esta imposição traz consigo uma contradição interna. As pessoas que querem impor, em nome de Deus, os seus valores ou crenças religiosas sobre outros grupos sabem, no fundo, que há algo de errado neste processo. Sabem que tentar impor esses valores a toda população através de proibições é no fundo reconhecer que são incapazes de mostrar, através de testemunho e ensino, o valor dessas crenças e valores morais. Ao tentar impor sobre os diferentes os seus valores, reconhecem que estão falhando na sua missão de anunciar a boa-nova (o evangelho) que só pode ser assumido livremente. Por isso, o discurso da proibição vem acompanhado de tanta agressividade contra os ditos "inimigos" de Deus ou das suas igrejas. No fundo é uma agressividade dirigida contra o "inimigo" e ao mesmo tempo contra o seu sentimento de fracasso no que pensa ser a sua missão.

Agressividade e falta de cuidado em verificar a veracidade das informações difundidas (para dizer o mínimo) revelam que há algo de errado no cristianismo vivido e defendido por esses grupos.

Se é verdade que historicamente o cristianismo foi vivido e se expandiu através desses mecanismos de imposição e proibição do alternativo, do diferente, também é verdade que nem toda a história do cristianismo foi e é assim. Mais importante do que isso, não é compatível com o cristianismo primitivo, muito menos com a vida de Jesus de Nazaré.

A boa-nova aos pobres e às vítimas das situações e estruturas opressivas (nisso resume a evangelização, cf. Lc 4) deve ser anunciada e testemunhada de forma propositiva para que seja aceita e vivida em liberdade. Pois como ensinou são Paulo, "onde está o Espírito, está a liberdade" (2Cor 3,17).

Por isso, a atuação dos cristãos na política deve ser fundamentalmente de modo propositivo e não acusatório e agressivo. Pois estamos anunciando e lutando por valores que "valem por si"; e que só são valores na medida em que são vividos com respeito e tolerância aos diferentes, dentro de espírito da liberdade. Devemos apresentar e lutar por propostas sociais e políticas, baseadas em nossa esperança de um mundo mais justo e solidário, onde até os mais pobres possam viver dignamente, com "respeito e mansidão" (cf 1Pe 3,15).

É claro que entre cristãos pode e deve haver diversidade nas linhas de propostas políticas e sociais, pois o evangelho não nos oferece programa político concreto para os nossos dias, mas nos ensina que devemos lutar para que todos e todas tenham vida em abundância (cf Jo 10,10). O que significa que lutar pelo "pão" dos mais pobres e o reconhecimento da dignidade humana de todas as pessoas devem ser uma prioridade na ação social e política dos cristãos e das igrejas.

A forma como se faz a política e atua nas eleições revela o verdadeiro espírito que move os seus agentes. É verdade que no "mundo" há muitos políticos que crêem que tudo é válido para alcançar os seus objetivos. Há muitos que acreditam que a agressividade nas acusações (e calúnias) revela a seriedade do seu compromisso religioso e ético. Mas, eu penso que a agressividade revela outra coisa, um outro espírito, diferente do Espírito do Amor-solidário (ágape)que deveria mover as comunidades e pessoas cristãs.

[Autor, junto com Hugo Assmann, do livro "Deus em nós: o reinado que acontece no amor-solidário aos pobres", 2010, Paulus].

* Coord. Pós-Graduação em Ciências da Religião, Universidade Metodista de São Paulo

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Inculturação, celebração e os gestos de Jesus


Os gestos de Jesus são repetidos pela Igreja,
na liturgia eucarística
 ... e disse-lhes: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco antes de sofrer; pois eu vos digo que já não mais a comerei até que ela se cumpra no Reino de Deus.” Então, tomando um cálice, deu graças e disse: “Tomai isto e reparti entre vós, pois eu vos digo que não beberei doravante do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus”. E tomou um pão, deu graças, partiu e deu a eles, dizendo: “Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em minha memória. E, depois de comer, fez o mesmo com o cálice, dizendo: “Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue que é derramado por vós.”
(Lc 22,15-20)


... na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças partiu-o e disse: “Isto é o meu corpo que é por vós. Fazei isto em minha memória. E, do mesmo modo, após a ceia também tomou o cálice, dizendo: “Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue; todas as vezes que dele beberdes fazei-o em minha memória.”
(1Cor 11,23-26)

Na última ceia em que Jesus se reuniu com seus discípulos os evangelhos narram quatro gestos: 1) tomou o pão, 2) deu graças, 3) partiu o pão 4) e deu a seus discípulos. Na missa, presenciamos esses quatro gestos de uma maneira bem visível. Vejamos o seguinte esquema:

Gestos de Jesus na última ceia:              Correspondente ritual na missa
Tomou o pão.............................................Apresentação das oferendas
Deus graças...............................................Toda Oração Eucarística
Partiu o pão................................................Cordeiro de Deus
Deu a seus discípulos..................................Comunhão

É bom lembrar que esses ritos estão ligados com a nossa casa. Em nossas casas, quando comemos, costumamos sempre fazer isso: antes de sentarmos à mesa, oramos, bendizendo ao Senhor pelo alimento, depois partilhamos a comida entre os familiares e eventuais convidados.

A Igreja primitiva, percebendo o gesto cotidiano da partilha nas casas, quis levar esse gesto para as celebrações. A esse aspecto do cotidiano que invadiu as celebrações das comunidades primitivas, nós chamamos de inculturação. Podemos afirmar que a Igreja já nasceu inculturada, é claro que vários elementos sofreram transformações, foram melhorados até chegarmos aos ritos que celebramos hoje. Inculturação também pode ser chamado de um processo dinâmico de a Igreja se relacionar com o transcendente, desenvolvido com o tempo e com a história. De fato, a Igreja acolhe todos esses gestos a fim de que estes sejam purificados à luz do Evangelho, perenizando sua ação ritual no templo e no mundo.

O processo de inculturação deve ser encarado à luz dos valores evangélicos, assumidos por uma determinada cultura, povo ou região, com uma condição: se nesta cultura, povo ou região fazer-se encontrar algo que seja merecedor de uma transformação à luz do evangelho, e seja nele(a) aplicada, desenvolvida e vivida, sem detrimento dos valores essenciais e primários ali já pré-existentes.

O processo de inculturação foi sentido muito mais pela liturgia. Vários textos sofreram influência de línguas, de gestos, de linguagens e de formas, sobretudo advindo de sociedades, reinos e pessoas influentes do mundo antigo.

Até hoje a Igreja continua se inculturando, principalmente depois do Concílio Vaticano II quando se deu a tão sonhada renovação da Igreja e da liturgia.

Inculturação foi o que Jesus fez. Ele, sendo de origem judaica, numa ceia judaica, aproveita-se de rituais estritamente judaicos para expressar e atualizar a sua passagem libertadora a partir de sua paixão, morte e ressurreição. Portanto, é num evento judaico que ele pede que perpetuemos essa memória, em seu nome.

Analisando os gestos de Jesus e transportando-os para a celebração da missa, podemos afirmar que na missa os gestos do passado, que foi histórico, tornam-se agora atuais, de forma memorial, e a comunidade reunida os vivencia, de modo que, esta mesma comunidade, vivendo seu presente, olha para o futuro, para o que há de vir, para o que chamamos de parusia. Por isso a liturgia tem procurado expressar pelo rito a preocupação de “atualizar” o significado da história sagrada enquanto meta futura.

Os gestos de Jesus na sua ceia iniciam-se em forma de sinal, sob o prisma do próprio banquete nupcial, aquele que deverá ser no céu, no Reino do Pai, aquele mesmo banquete messiânico anunciado pelos profetas. O próprio Jesus pediu que seus discípulos perpetuassem esse gesto, e concluiu com a frase: “Eu garanto a vocês: nunca mais beberei do fruto da videira, até o dia em que beberei o vinho novo no reino de Deus” (Mc 14,25).

O espaço deste artigo é curto para analisarmos de maneira mais sistemática os gestos de Jesus em sua última ceia. No entanto, procurarei me ater em apenas dois gestos: “tomou o pão” e “tomou o vinho”. Vejamos:

E tomou um pão:

Tomar o pão na mão. O que isso quer dizer? Pra Jesus, pão e vinho são ele mesmo. Suas palavras se relacionam com o seu gesto, o da entrega, também se relacionam com o novo alimento instituído por ele, a eucaristia. Jesus faz desse gesto ritual, presente na história, uma ligação com aquele banquete último e vindouro no reino de Deus, banquete este que levará à plenitude este outro banquete, humilde e modesto, o qual quis ele mesmo celebrar com os seus às vésperas de sua morte. De fato, Jesus toma em suas mãos a história do mundo, do universo, de cada um/a de nós e faz essa história ser promessa futura. É desse mesmo banquete futuro que nos fala os capítulos finais do livro do Apocalipse, apresentando o Cristo como aquele que restitui a morada eterna aos que foram lavados pelo sangue do Cordeiro.

E para nós? O que significa tomarmos na mão o pão eucarístico? Um monge alemão diz que antes de comermos o pão é preciso tomá-lo nas mãos. O que significa isso? Quer dizer que tomar o pão nas mãos é tomar a história nas mãos. O que tomamos na mão, então? A nossa própria história, o trabalho de quem plantou, de quem colheu, de quem preparou, de quem produziu, de quem vendeu e comprou, de quem transportou e chegou até nós. Na história também encontramos elementos contraditórios, por exemplo, o fato de alguns terem comida e outros não terem o suficiente ou nada terem pra comer; a própria energia cósmica, esse mistério de se plantar um grão, a planta crescer, produzir frutos, fazer a farinha, amassar o pão, assar o pão etc. Tem um trabalho processual decantado pela própria natureza o qual escapa de nossos olhos. Na natureza várias energias cósmicas atuaram nesse grão para que ele germinasse e se transformasse em planta, a chuva, o ar, a terra, o sol. É o que podemos associar ao aspecto ecológico, cósmico.

Quando pensamos nesse pão, não é só o pão, matéria feita de trigo e água, sem fermento, mas o pão de todas as mesas, aquele pão que simboliza a comida nossa do dia-a-dia, que nos reconstrói para atuarmos na história, na nossa história. É o que podemos associar ao aspecto antropológico, do ser pessoa, de nossa pessoalidade que precisa se manter, que precisa de energia vital, de comida, de bebida. Pensamos também na dureza que o povo vive pra conseguir o pão essencial. Pensamos no pão que sobra, no pão que é jogado fora.

De fato, muitos aspectos estão ligados ao “tomar o pão nas mãos”. Quiçá, gestos e palavras possam nos conscientizar e nos transportar ao invisível. Afinal, só vivemos a liturgia da Igreja se aplicarmos no mundo seus sinais sacramentais.

E, do mesmo modo, após a ceia também tomou o cálice

Dentro do cálice o vinho. O vinho na cultura dos povos mediterrâneos estava ligado à questão da alegria. Ainda o é hoje. A alegria nos permite viver momentos bons da vida e com isso comemorar, beber com os amigos, festejar, tomamos vinho quando estamos em momentos especiais de nossa vida. Mas, quando podemos festejar, nos alegrar, tomar vinho? Nas bodas de Caná o vinho falta, e Jesus providencia vinho novo para aqueles convidados. O vinho novo é então o próprio Jesus, aquele que enche a sétima talha de pedra, completando àquele povo aquilo que lhe faltava. Pelo sinal do vinho novo de Caná, a alegria plena, total.

O cálice também está ligado ao cálice da amargura, da dor de Jesus, da dor humana, da dor da humanidade. Jesus, em alguns momentos de sua vida pediu que o Pai afastasse dele o cálice. Não se trata de interpretar esse cálice como se fosse uma recusa de Jesus, mas ele mesmo, como humano, sentiu na pele a dor, a amargura, e até chorou. A dor de Jesus é a nossa dor, é a dor do mundo. Ele mesmo reza no monte da agonia pela unidade das pessoas, daqueles que levarão sua imagem ao mundo. Mas Jesus quis que esse mesmo cálice pudesse estar presente na sua ceia, em que, de uma forma ritual, fazia sua entrega última. No conteúdo do cálice seu próprio sangue. No próprio cálice se misturam agonia e glória, sofrimento e alegria.

Concluindo...

Quando tomamos na mão pão e vinho, a Igreja toma nas mãos a própria humanidade, com seus sofrimentos, seus anseios. A Igreja faz os mesmos gestos de Jesus celebrando a eucaristia. É um gesto simples, mas é um sinal carregado de sentido.

Como sinal sensível, a mesa eucarística se torna o centro, assim como nos ritos iniciais da celebração da missa o centro é a mesa da Palavra. Todo esse sentido nos relaciona e nos liga à mesa de Jesus e à mesa da história, que é a nossa história humana.

Penso que seja o suficiente para o leitor fazer uma reflexão e analisar por si só o porquê da relação dos gestos de Jesus com nosso jeito de celebrar, principalmente porque a presença atual de Cristo na eucaristia não pretende anular nem substituir aquela presença a que ele manifestará no fim dos tempos; pelo contrário, a eucaristia, vivida com seus ritos e formas, suas preces e ações gestuais, reaviva a estimula ardentemente em nós o desejo de apressar essa manifestação. Por isso dizemos no núcleo da Oração Eucarística: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus”.

Está aí todo o sentido de vivenciarmos na eucaristia palavras que fizeram parte de um contexto histórico, mas que agora, no hoje de nossa história, se tornam rito e ação gestual, e que nos empurra para um futuro, para o que há de vir.

Em outras palavras, o conteúdo da liturgia deve, no presente, expressar e celebrar, em forma de memorial do passado, a antecipação do futuro. É esse o mistério pelo qual só podemos perceber por meio da fé. Ela é carrega em seu bojo um conteúdo orientador para nos mantermos de pé, vivos.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Pastoral litúrgica e o itinerário da iniciação à vida cristã

Eurivaldo S. Ferreira

A pastoral litúrgica é, sobretudo, dotada de duas características: preocupações e atitudes. Essas características são atribuídas à figura do pastor, que conduz as ovelhas. Para nós, o arquétipo de pastor é o próprio Jesus Cristo, o Pastor dos pastores.


Por sua vez, a pastoral não é feita isolada, mas se trata de um serviço prestado à Igreja, à paróquia e à comunidade, como um todo. O caráter litúrgico é qualitativo, pois refere-se aqui ao âmbito estritamente da celebração do Mistério Pascal de Cristo, já que existem outras variedades de pastorais incluídas na Igreja.

Na liturgia duas preocupações nos cercam, tendo em vista sua real e nobre função: a natureza da liturgia e a necessidade da preocupação com a celebração da fé da comunidade, envolvendo aqui todos os sacramentos e sacramentais. Neste sentido, é a pastoral litúrgica a responsável pelo re-avivamento da fé da comunidade que participa das celebrações, seja no ritmo diário, semanal ou anual. É no transcorrer do ano litúrgico que a pastoral litúrgica ela exercerá seu papel. Seus membros agem na pastoral litúrgica não atuando como tarefeiros da liturgia, mas como agentes responsáveis no serviço da liturgia bem celebrada.

O serviço da pastoral litúrgica nada tem a ver com a atitude do levita, no relato da parábola do bom samaritano que, ao passar pelo indivíduo caído à beira do caminho, com pressa de chegar no templo e executar os ritos, não se preocupa com a vida social que o cerca. De que adianta celebrar bonito, se a vida lá fora está às margens? Diz um movimento eclesial que se faz necessário ligar fé e vida. Por isso, a pastoral litúrgica deve se preocupar em ser “pedagoga” na fé da comunidade, ligando o social ao religioso, o costumeiro com o festivo, o comum com extraordinário.

Um compositor litúrgico lembra que se a gente chega à prática ritual, sem ter passado por essa experiência existencial, sem ter passado por essa consciência da sua dimensão sacerdotal, estamos queimando etapas e pondo em risco a verdade dos Sacramentos da fé, cuja realidade substancial é Cristo vivo em nossa vida cotidiana, em nossas atitudes e posturas existenciais.

Por isso, no itinerário da iniciação à vida cristã, que é também chamado de catecumenal, se não se for vivido numa dimensão ritual onde os frutos oferecidos pelo próprio rito não sejam experimentados na vida, incorre o iniciado de não progredir na fé, já que “a iniciação cristã é a primeira participação sacramental na morte e ressurreição de Cristo, diz o Ritual de Iniciação à Vida Cristã (RICA, 1974).

Portanto, cabe aqui a grande responsabilidade da Pastoral Litúrgica para com os catecúmenos, a fim de que estes não pereçam naquilo que se prontificaram a assumir.

Manifesto de cristãos sobre o momento político atual

Prezad@s tod@s

Segue manifesto Pró-Dilma escrito pelo Ir. Marcelo Barros, assessor das Comunidades Eclesiais de Base e dos Movimentos Populares, membro da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo.
Como muitos/as estão querendo manifestar seu apoio, sugerimos que aqueles(as) que concordarem, assinássemos abaixo do Manifesto e o circulássemos entre pessoas e instituições de nosso relacionamento. Basta copiar no seu e-mail e fazer circular.
Abraço.

“Se nos calarmos, até as pedras gritarão!”

Somos homens e mulheres, ministros, agentes de pastoral, teólogos, intelectuais e militantes sociais, membros de diferentes Igrejas cristãs. Movidos pela fidelidade à verdade, viemos a público declarar:


- Nestes dias, circulam pela internet e pela imprensa manifestações de líderes cristãos que, em nome da fé, pedem ao povo que não vote em Dilma Rousseff sob o pretexto de que ela seria favorável ao aborto, ao casamento gay e a outras medidas tidas como “contrárias à moral”. A própria candidata negou a veracidade destas afirmações e se reuniu com lideranças das Igrejas em um positivo diálogo sobre o assunto. Apesar disso, estes boatos e mentiras continuam sendo espalhados. Diante destas posturas autoritárias e mentirosas, disfarçadas sob o uso da boa moral e da fé, nos sentimos obrigados a atualizar a palavra de Jesus, afirmando, agora, diante de todo o Brasil: “se nos calarmos, até as pedras gritarão!” (Lc 19, 40).

Não aceitamos que se use a fé para condenar alguma candidatura. Fazemos esta declaração como cristãos, ligando nossa fé à vida concreta, a partir de uma análise social e política da realidade e não apenas por motivos religiosos ou doutrinais. Em nome do nosso compromisso com o povo brasileiro, declaramos publicamente o nosso voto em Dilma Rousseff e as razões que nos levam a tomar esta atitude:

- Consideramos que, para o projeto de um Brasil mais justo, mais igualitário e de maior respeito ao planeta Terra, a eleição de Dilma para presidente da República representará um passo maior do que a eventualidade de uma vitória daquele, que, segundo nossa análise, nos levaria a recuar em várias conquistas populares e efetivos ganhos sócio-culturais, econômicos e ecológicos que se destacam na melhoria de vida da população brasileira.

- Acreditamos que o projeto divino para este mundo foi anunciado através das palavras e ações de Jesus Cristo. Este projeto não se esgota em nenhum regime de governo e não se reduz apenas a uma melhor organização social e política da sociedade. Entretanto, quando oramos “venha o teu reino”, cremos que ele virá, não apenas de forma espiritualista e restrito aos corações, mas, principalmente na transformação das estruturas sociais e políticas deste mundo.

- Sabemos que as grandes transformações da sociedade se darão principalmente através das conquistas sociais e ambientais, feitas pelo povo organizado e não apenas pelo beneplácito de um governante mais aberto/a ou mais sensível ao povo. Entretanto, por experiência, constatamos: não é a mesma coisa ter no governo uma pessoa que respeite os movimentos populares e dialogue com os segmentos mais pobres da sociedade, ou ter alguém que, diante de uma manifestação popular, mande a polícia reprimir. Neste sentido, tanto no governo federal, como nos estados, as gestões tucanas têm se caracterizado sempre pela arrogância do seu apego às políticas neoliberais e pela insensibilidade para com as grandes questões sociais do povo mais empobrecido.

Não nos interessa se tal candidato/a é cristão ou não. Como Jesus, cremos que o importante não é tanto dizer “Senhor, Senhor”, mas realizar a vontade de Deus, ou seja, o projeto divino. Esperamos que Dilma continue a feliz política externa do presidente Lula, principalmente no projeto da nossa fundamental integração com os países irmãos da América Latina e na solidariedade aos países africanos, com os quais o Brasil tem uma grande dívida moral e uma longa história em comum. A integração com os movimentos populares emergentes em vários países do continente nos levará a caminharmos para novos e decisivos passos de justiça, igualdade social e cuidado com a natureza, em todas as suas dimensões. Entendemos que um país com desenvolvimento e sustentabilidade, como defende Marina Silva, só pode ser construído resgatando já a enorme dívida social com o seu povo mais empobrecido. Dilma Rousseff representa este projeto iniciado nos oito anos de mandato do presidente Lula. É isso que está em jogo neste segundo turno das eleições de 2010. Com esta esperança e a decisão de lutarmos por isso, nos subscrevemos:

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Eu tenho medo!...

Eu tenho medo!...

Pe. Alfredo J. Gonçalves *

Quem não se lembra do "eu tenho medo!" de Regina Duarte quando, nas eleições de 2002, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva crescia nas pesquisas e ameaçava alcançar o posto máximo da Presidência da República? A mesma situação de ameaça parece se repetir atualmente quando se procura mostrar que a candidatura de José Serra "representa a burguesia e a volta do neoliberalismo". Em casos mais extremos, chega-se a falar de um possível "retorno da barbárie". Filme reciclado que apela para o lado emocional dos eleitores, não para uma visão clara dos fatos.

Nos dois casos -tanto em 2002 quanto no atual processo eleitoral de 2010- o pânico apocalíptico joga fumaça nos olhos doa incautos, ofusca a realidade dos acontecimentos e impede uma análise mais objetiva da situação política. Nem Lula, quando eleito presidente, representou qualquer tipo de ameaça aos representantes do mercado financeiro internacional ou aos privilégios das classes dominantes; nem o candidato Serra, se eleito, significará todo esse perigo anunciado.

Mais do que rupturas traumáticas, o que vemos no cenário político brasileiro é a continuidade mais ou menos tranqüila de um modelo político e econômico que se perpetua há décadas. Substancialmente, não se verificou grandes transformações na passagem da gestão de Fernando Henrique Cardoso para Lula. Também deste para o próximo governo, seja ele quem for, não há sinais de mudanças que impliquem um virada no rumo da política macro-econômica.

Nesta perspectiva, enquanto nas décadas de 1980-90 era teoricamente possível falar de uma disputa profunda de modelo político e econômico -projeto nacional popular versus projeto liberal/neoliberal- hoje essa alternativa não existe. O que se verifica é uma disputa entre duas dimensões do mesmo projeto neoliberal. Longe de significar o retorno do neoliberalismo, Serra apenas dará continuidade ao programa de Lula que, por sua vez, o herdou de FHC. O que podemos discutir nessa eventual troca de poder é a maior ou menor fatia do bolo oferecida aos setores mais carentes da população. Tanto é verdade que as comparações entre os últimos governos restringem-se em geral a elementos periféricos (quem fez mais ou menos obras), não chegando ao debate sobre um novo horizonte no palco da economia política.

Não simpatizo com o PSDB nem com José Serra, creio inclusive que este pode, sim, significar um abalo nas políticas compensatórias do governo Lula - bolsa família, micro-crédito, sistemas de cotas, projeção do Brasil como país emergente, repasse de verbas para os movimentos sociais, entre outras. Mas o cerne neoliberal da política econômica, diante de qualquer resultado das eleições, tende a permanecer intocável. A opção é por mais ou menos migalhas aos moradores do andar de baixo, não por políticas públicas de profundidade. Em ambos os casos e independentemente de quem assuma o governo, o risco é de consolidar como definitivas políticas que, em verdade, nasceram com um caráter emergencial. Numa palavra, as políticas compensatórias não podem substituir políticas públicas de longo alcance.

Um exemplo pode ilustrar: se colocarmos num prato da balança os gastos com o programa bolsa família ou bolsa escola, com a ajuda aos movimentos sociais e à agricultura familiar, por um lado, e no outro prato os lucros dos maiores bancos brasileiros, a diferença em favor dos últimos é exorbitante. Isto sem falar da opção pelo agronegócio e a empresa agro-industrial, da elevada carga tributária como transferência de renda para as classes dominantes, do "latifúndio" das tele-comunicações e da rede de transportes, e assim por diante.

De fato, ao assumir a presidência da república, paradoxal e ironicamente, o Presidente Lula dá as costas ao projeto popular e às organizações que o elegeram, e passa a administrar o modelo que combatia. Três razões o levaram a isso: primeiramente, as expectativas em torno de sua vitória estavam muito acima da capacidade de organização e mobilização das forças sociais; depois, a famigerada carta endereçada ao povo brasileiro, mas dirigida ao mercado financeiro, tranqüilizou os especuladores e investidores nacionais e internacionais quanto ao cumprimento dos compromissos por parte do novo governo; enfim, diante de tais circunstâncias e sendo um político extremamente sagaz, Lula opta por costurar uma "aliança pela governabilidade", a qual, como sabemos, incluirá setores dos mais variados matizes políticos.

Não houve uma mudança de rumo substancialmente profunda e abrangente. Tampouco agora se prevê tal coisa. Aqui não está em julgamento a boa ou má vontade do presidente Lula ou dos candidatos Serra e Dilma. São circunstâncias históricas que mostram mudanças na periferia do modelo, mas deixam intacto o miolo do sistema capitalista e neoliberal. Ou seja, continuidade sem grandes rupturas! Em síntese, estamos convidados a votar por mais ou menos migalhas para os habitantes da senzala, não pela possibilidade de um modelo alternativo. Por isso, não vejo razão para tanto pânico, nem para enxergar as próximas eleições num contexto míope de turbulências apocalípticas.

* Assessor das Pastorais Sociais.
extraído de: http://www.adital.com.br/

domingo, 19 de setembro de 2010

Pela liberdade de consciência

Dom Demétrio Valentini*


Algumas observações se fazem oportunas, no contexto do processo eleitoral que estamos vivendo. Em meio ao bombardeio diário da campanha, sempre é bom tomar a devida distância, para captar com clareza os critérios a serem levados em conta para iluminar a decisão de cada eleitor.

Os candidatos têm todo o direito de tentar convencer os eleitores a apoiarem suas propostas e a votarem nos seus nomes.

Por sua vez, os eleitores têm todo o direito de votar, livremente, em quem eles querem.

Por outro lado, ninguém tem o direito de exigir o voto de um eleitor, seja por que motivo for. Muito menos por tentativa de compra do voto. Cada eleitor deveria ter a força de repudiar esta tentativa. Mas como pode acontecer a debilidade de eleitores, a própria lei, entre nós, tomou a iniciativa de proibir a compra de votos e de coibir esta prática com o remédio mais adequado, que é a cassação da candidatura.

Mas também, ninguém tem o direito de proibir que se vote em determinado candidato, seja por que motivo for. Quem deve decidir se alguém merece ser votado ou não, são os eleitores, através do voto, no dia das eleições.

Portanto, diante da urna eletrônica, cada eleitor tem o direito de conferir sua consciência e votar em quem ele quiser.

Por diversos motivos, não é bom pressionar indevidamente a consciência dos eleitores, visando forçá-los a votar em determinado candidato.

Em primeiro lugar, não é bom para a democracia que alguns decidam pelos outros. Pois tanto mais forte será a prática democrática, quanto mais os eleitores forem capazes de discernir por conta própria em quem devem votar.

Mas é pior ainda para a religião, seja qual for, pressionar seus adeptos para que votem em determinados candidatos, ou proibir que votem em determinados outros, em nome de convicções religiosas. A religião que não é capaz de incentivar a liberdade de consciência dos seus seguidores, que se retire de campo. Pois a religião não pode se tornar aliada da dominação das consciências.

Portanto, seja quem for, bispo, padre, pastor, ninguém se arrogue o direito de decidir pela consciência dos outros. Fazer isto é usurpar um espaço que é sagrado, é invadir a intimidade da consciência do outro, intrometendo-se onde não lhe cabe estar.

Assim se apresentam os princípios, que por si próprios já seriam suficientes para todos se sentirem à vontade, como eleitores livres e soberanos, com todo o direito de votar em quem cada um quiser.

Mas a gente sabe que em tempo de propaganda eleitoral a realidade se complica, por expedientes antiéticos, sobretudo pela disseminação de acusações, que visam deturpar o nome dos adversários, e tirar vantagem eleitorais.

Aí aparecem situações que precisam ser esclarecidas. É curioso, por exemplo, que as mesmas pessoas que questionavam o plebiscito sobre os limites da propriedade, alegando que ele não contava com a aprovação da CNBB, agora difundem cartas procedentes de sub-comissões, de sub-regionais, ou cartas individuais de determinados bispos ou padres, e pretendem invocar sobre estes escritos a autoridade de toda a instituição, quando o Presidente da CNBB, D. Geraldo Lyrio Rocha já esclareceu, enfaticamente, que a CNBB não apóia nenhum partido e nenhum candidato, nem igualmente proíbe nenhum partido ou candidato.

Mas dado o joio lançado na seara com astúcia de maligno, talvez fosse conveniente um novo posicionamento do Presidente da CNBB, instituição que em tantas oportunidades já deu contribuições preciosas para o processo democrático brasileiro, e cujo nome não pode agora ficar prejudicado por expedientes que destoam de sua tradição.

Portanto, cada um é livre de votar em quem quiser. Se quiser votar na Marina, vote! Se quiser votar no Serra, vote! Se quiser votar na Dilma, vote! E se quiser votar em qualquer um dos outros candidatos, vote! Mas vote livremente, levado pela decisão a que chegou por sua própria consciência.

* Bispo de Jales (SP) e Presidente da Cáritas Brasileira
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=50975

Porque a Igreja não diz em quem não votar

Irmão e Irmã na Fé que nos Une:

É longo, mas peço que, se vai responder, leia até o fim, OK? É minha posição como cristão e como cidadão brasileiro! Leia assim, e não como A PALAVRA DA IGREJA, mesmo porque, graças a Deus, não sou TODA A IGREJA:

Tenho sido importunado por correntes católicas que parecem querer me obrigar a NÃO votar neste ou naquele candidato político por causa das questões morais católicas.

Sei que ao me pronunciar sobre isto serei vítima de ataques, mas tudo bem, não tenho medo… Tenho medo sim de posições perigosas para a Igreja.

Perigosas porque, se dizemos em quem NÃO votar, acabamos dizendo em QUEM votar. E se fazemos isto estamos afirmando que este em quem votamos está plenamente de acordo com a doutrina da Igreja, está de acordo com a proposta de Jesus Cristo.

Qual é a proposta de Jesus Cristo? O REINO DE DEUS. E o Reino acontece quando Deus reina no coração das pessoas e sua vontade, que é um mundo marcado pelo AMOR, acontece em todas as dimensões da vida humana e para todas as pessoas que o desejam sinceramente. O REINO é o AMOR inflamando a vida pessoal, familiar, fraterna, comunitária, profissional, social e política.

O REINO já aconteceu para nós, em plenitude, na pessoa e na obra de Jesus Cristo. Porém, no mundo ainda não está plenamente presente. E é obrigação DOS CRISTÃOS fazer com que este REINO aconteça o mais possível na terra. O REINO é “já”, na pessoa e na obra de Jesus, mas “ainda não” em toda nossa realidade. É pra ELE que apontamos e ao mostrá-lo, mostramos o modelo de mundo que queremos e sonhamos.

Como cristãos precisamos sim defender a vida. Toda a vida, em todas as suas dimensões, em todas as suas fases. Por isso, precisamos sim lutar sempre. Precisamos formar bem nossos cristãos e ajudá-los a viver a moral que acreditamos. Essa é NOSSA OBRIGAÇÃO. Não podemos nem devemos exigir de mais ninguém além de nós mesmos que ensinemos esta moral, que a ajudemos a ser cumprida por todos os cristãos em primeiro lugar.

Pergunto: se o aborto for aprovado por este ou aquele partido, mas nossas mulheres deste país de maioria cristã se recusarem a abortar, a descriminalização do aborto vai surtir efeito? Digo gritando: NÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOO!

Se todos os jovens cristãos forem ajudados a viver a sexualidade de acordo com o ensinamento evangélico, e o governo continuar a distribuir camisinhas o que vai acontecer? Elas VÃO VIRAR BEXIGA PRA CRIANÇADA BRINCAR (foi o que um grupo de adolescentes católicos fez estes dias em um colégio estadual, hehehe)…

Se as famílias cristãs forem ajudadas a viver a fidelidade, por mais que se incentive o divórcio, ele vai acontecer? NÃÃÃÃOOOOOOO!!!

Porque temos a mania de jogar para o governo a obrigação que é nossa? Parece ser essa a mania de nosso povo brasileiro… Deixar para o governante fazer sozinho aquilo que TODA A POPULAÇÃO DEVERIA FAZER JUNTO.

Mas parece ser a tendência da moda dos cristãos… Não conseguimos mais ajudar todo nosso povo a viver a nossa moral. DAÍ QUEREMOS QUE O GOVERNO FAÇA AQUILO QUE É OBRIGAÇÃO PRIMEIRO DA HIERARQUIA, MAS DEPOIS DE TODO O POVO CATÓLICO. Sabe… Isso me lembra uma frase de Jesus: “Amarram pesados fardos, colocam no ombro dos outros e não o carregam nem sequer com um dedo” (Mt 23,4).

Mas essa tendência é bem antiguinha… Sabe quando começou? No século IV, com Constantino. Foi com ele que o Estado começou a se unir à Igreja. Até Concílios o Imperador convocou. E ali começou o problema das investiduras, que só foi resolvido na Idade Média com o Concílio de Latrão… Os governantes, católicos é claro, assumiram o papel dos pastores do povo e, com seus interesses políticos, escolhiam bispos, padres e até papas (graças a Deus o Espírito guia a Igreja… e juntou os caquinhos…). Quanto mal isso fez à Igreja… E no Brasil, pasmem, parte deste mal continuou até a Proclamação da República, com o fim do Regime de Padroado. Documentos papais eram filtrados pela censura Imperial. Nosso Catolicismo praticamente não conheceu as importantes reformas do Concílio de Trento por causa do maldito padroado, herança do Império português. A inquisição, tão aludida pelos que atacam a Igreja, já tinha sido condenada pela Santa Sé, mas no Brasil, Portugal e Espanha imperaram até o Século XIX – apoiado pelos Impérios… A Escravatura, condenada por todos os papas da modernidade (depois do concílio de Tento) não pode ser condenada pela hierarquia brasileira porque o IMPERADOR proibia… E sofremos, nós Igreja (não os estados), até hoje, atacados por causa da Inquisição, da escravidão e de outros males do dito ESTADO CRISTÃO. A Igreja foi usada pelos poderosos para garantir seus poderes e sua influência no meio do nosso povo.

Por isso proclamo: como foi bom pra Igreja libertar-se disso… A Igreja no Brasil, após o fim do padroado, pode crescer! Inúmeras diocese foram criadas (eram apenas de 12 até 1888…). A pastoral pode se desenvolver independente dos partidos, das ditaduras ou de quem quer que estivesse no poder. Trento pode ser aplicado e a Igreja se viu livre inclusive para ser voz profética…

Mas parece que tem gente que tem saudades de Constantino… Tem saudades do Padroado. Quando a Igreja diz em quem votar e em quem não votar, pode estar caindo no mesmo erro de dizer que este ou aquele candidato representa Deus ou o diabo… Ou pior… Pode estar sendo usada por quem, para agradar os católicos, disfarça-se de bom moço e depois não vai estar de acordo com o Reino proposto pelo Cristo.

Aliás… Não haverá candidato, partido, tendência que sejam de acordo com o Cristo… Mesmo que o nosso melhor santo seja presidente da república… Nenhum deles poderá estar à altura daquilo que Nosso Senhor quer de nós.

Não nos iludamos, irmãos. A CNBB – órgão oficial da Igreja – não disse em quem votar, nem muito menos em quem não votar. Mas tem gente querendo ser mais que os bispos e que o papa no Brasil… Tem televisões “católicas” que se acham no direito de obrigar as consciências a votar neste ou naquele. ISSO É ABUSO ESPIRITUAL… Essa gente deveria receber repreensões severas… Há inclusive bispos apoiando essa postura… Mas não a CNBB como um todo (nem o Papa).

E afirmo mais: aqui em Curitiba NOSSO BISPO É CONTRA ESSA POSTURA DE DIZER EM QUEM VOTAR OU NÃO… Portanto, quem faz o contrário não está em comunhão com ele…

Às vezes podemos votar em algum candidato que, estando de acordo com alguns pontos – importantes é claro – da moral sexual católica, esteja em TOTAL DESACORDO COM A DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA. Tenho medo dos católicos ingênuos, que se deixam inflamar pelos discursos eleitoreiros de alguns candidatos (todos eles tem discurso eleitoreiro, hehehe) e votarão em partidos ou tendências pensando que são católicas, MAS ESTAVAM SÓ DISFARÇADOS. E daí, como ficaremos? Seremos de novo julgados pelas iniquidades deste partido como somos julgados pela Inquisição até hoje? Se apoiarmos cegamente apenas um partido digo que SIM. Se rejeitarmos em bloco algum partido, digo que SIM. E como as iniquidades de QUALQUER UM DESTES CANDIDATOS vai aparecer, o nome da Igreja vai pro lixo com eles. Seremos condenados pelos nossos futuros cristãos que dirão: porque a Igreja daquele tempo apoiou este candidato? (Vejam a Igreja da Argentina, como sofre, por ter apoiado a ditadura, que considerava ser o melhor modelo para o país na época…). Nenhum destes candidatos fará o Reino acontecer no Brasil, pois esta é tarefa primeira da Igreja. Não se iludam, irmãozinhos, não se iludam com nenhum deles… Nenhum deles é o Messias. Só Jesus é nosso Senhor.

Aliás… Não tenho medo de dizer: NENHUM DESTES CANDIDATOS À PRESIDÊNCIA ESTÁ DE ACORDO PLENO COM A MORAL E COM A FÉ CATÓLICAS. Se fosse pra votar em algum deles por causa da regularidade com nossa moral, não votaria em nenhum.

Já dissemos, no passado, que a Esquerda era mais cristã… Já dissemos, no passado, que a Direita era mais cristã… E no fundo, NEM LÁ NEM CÁ foram cristãos de verdade…

Digo mais: e se o presidente eleito for ateu? Vamos mudar de país por causa disso? NÃO… Caso isso acontecesse, teríamos que fazer o NOSSO trabalho para que o Cristo seja conhecido e seu Reino aconteça até mesmo no Palácio do Planalto. A Igreja não tem partidos: ELA PRECISA INFLAMAR TODOS OS PARTIDOS. Precisa estar dentro do PT, dento do PSDB, dentro do PV e do PSOL para desde dentro MUDÁ-LOS para melhor. Essa deve ser a postura dos cristãos. E não podemos esperar que eles mudem pra daí a gente participar deles. Precisamos estar dentro deles para mudá-los – essa é nossa tarefa e se não o fazemos SEREMOS OMISSOS.

Lembro aqui, irmãos, uma frase do meu querido e amado Bem Aventurado João XXIII, o papa do Concílio Vaticano II. Em determinado dia, ele acolheu a filha do presidente da União Soviética. Parte da Cúria Romana de então considerava a URSS como uma grande inimiga… Alguns cardeais não queriam que o papa a acolhesse, afirmando que eram inimigos da Igreja. O papa, santo em sua sabedoria, afirmou: A Igreja de Cristo NÃO TEM INIMIGOS, porque o CRISTO NÃO TEM INIMIGOS. Eles podem se fazer nossos inimigos pela vontade deles… Nós, porém, vamos amá-los até o fim, como o fez o Cristo, para que se tornem melhores.

Como provocação final: porque não divulgamos a cartilha da CNBB? Porque não a lemos? Ela é que tem validade pra Igreja. Ao invés de partilharmos esse monte de e-mail’s apocalípticos desta ou daquela TV, deste ou daquele pastor… Porque não lemos o que a IGREJA DO BRASIL nos dá como magistério oficial?

Não tenho medo mesmo de dizer: irmão na fé! Vc é livre pra votar em quem a sua consciência mandar. Mas escolha bem! Seu voto terá consequências. Seja na esquerda, seja na direita, seja em cima, seja em baixo ou o escambal a quatro… Todos eles terão consequências positivas ou negativas para o Brasil (e não apenas para os católicos…). Pese os prós e os contras de todo projeto de país que seu candidato apresenta e só então decida em quem votar, OK?

Em Cristo e na paz com todos

“Naquilo que é essencial, unidade; naquilo que é duvidoso, a liberdade; e em tudo, caridade” (Santo Agostinho)

PE. ALEXSANDER CORDEIRO LOPES
Vice-Reitor do Seminário São João Maria Vianney
Assessor do Setor Juventude Curitiba - Fone: 2105-6364

“Agradeço pelo empenho de tantas vozes dispersas até agora! Vamos juntos(as) gritar, girar o mundo. Chega de violência e extermínio de Jovens.” Pe. Gisley, um dia antes de seu assassinato

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

César versus Deus

Prezados/as amigos/as leitores/as, teólogos, teólogas e todo povo de Deus.


Está circulando por e-mails ou já se tem publicado em jornais um texto do bispo da Diocese de Guarulhos, D. Luiz Gonzaga, "recomendando a todos verdadeiros cristãos e verdadeiros católicos a não votar na candidada Dilma". Sua 'tênue' recomendação refere-se ao fato de que há alguns candidatos que andam apoiando alguns princípios morais e éticos segundo os quais contrariam as orientações da Igreja.

Recebi este texto (publicado logo abaixo) e respondi ao remetente, à qual repasso a todos/as, a fim de que surta uma reflexão nesse tempo de eleições.

Fiquem à vontade para fazer seus comentários e suas considerações, se assim o desejar, pois o que expresso abaixo é apenas uma opinião pessoal, tendo em vista meu ínfimo nível de consciência político-cristã.
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Prezado amigo,

Agradeço o e-mail enviado, mas quero ressaltar algumas posições que abrangem o aspecto civil e religioso, às quais sustento e afirmo, e nem por isso deixo de declarar publicamente minha expressão de fé.

Penso que a posição de D. Luiz Gonzaga, bispo de Guarulhos, contraria ao que ele mesmo disse: "Por isto a Igreja não se posiciona nem faz campanha a favor de nenhum partido ou candidato". Quando ele diz: "recomendamos a todos verdadeiros cristãos e verdadeiros católicos a que não dêem seu voto à Senhora Dilma Rousseff e demais candidatos que aprovam tais “liberações”, independentemente do partido a que pertençam", ele, enquanto Igreja, está tendo um posicionamento político, inclusive indicando em quem não votar. Quando se indica em quem não votar, é tomar partido, é também e fazer campanha, é escolher alguém.

Talvez, por falta de conhecimento próprio, também por falta de uma assessoria eficaz por parte de sua equipe, o sr. Bispo D. Luiz Gonzaga nunca deveria ter essa posição: a de indicar em quem não votar. Ora, se a Igreja se abstém de indicar em quem votar, então porque é que um bispo tem a autoridade de indicar em quem não votar? Penso que o princípio do posicionamento vale para ambas as afirmações. Quando se diz que não se deve votar em fulano ou em cicrano, afirma-se que se deve direcionar o seu voto a beltrano. Isso não seria indicação de candidato ou pertença partidária? Ora, quais os candidatos à presidência mais falados de que ouvimos? São três. Se eu sigo a orientação de um bispo, de não votar em um, tenho que direcionar o meu voto a outro.

Também por uma questão de direito civil, não se deve recomendar a anulação do voto, que não é o caso do texto de D. Luiz Gonzaga. O voto direto é um direito conquistado em muitos países, principalmente os de regime democrático.

Que tal uma reflexão no âmbito da influência do poder? Palavras de um bispo ressoam bem entre os chamados de "verdadeiros cristãos" e "verdadeiros católicos". O que é, portanto, ser "verdadeiro cristão" e "verdadeiro católico"? Parafraseando Pilatos, como a verdade se relaciona com o ser cristão e o ser católico?

A questão da identidade ou pertença a uma religião não passa pelas categorias da verdade pessoal ou individual, mas pela categoria da ética e da moral. A verdade é adquirida pelos conceitos que tal religião apresenta a quem nela se insere. O individuo então passa a absorver esses ensinamentos e sua doutrina, mas não se anula, enquanto ser, ao contrário, ele cresce, positivando-se. O poder do do sagrado não anula o poder da identidade pessoal, pelo contrário, o primeiro fortalece o segundo. Sinto em afirmar que o poder do sagrado é o poder mais destruidor que tem. O poder político pode me exilar, mas não me destrói. O poder econômico pode tirar minhas condições financeiras, mas não me destrói, mas o poder do sagrado pode “matar” uma comunidade inteira. E é o que constato.

Talvez seria interessante nós darmos uma olhada interna em nossa Igreja, para sabermos que em determinados setores há uma verdadeira busca de anulação da identidade pessoal, prevalecendo a identidade coletiva. Tudo isso é fruto da má interpretação da salvação, o que sugere outra reflexão no âmbito da Escatologia e da Eclesiologia. Então, quando o sr. bispo diz que a Igreja não intervem no Estado, talvez ele devesse se informar melhor, olhando para o interior da própria instituição ao qual pertece para poder afirmar essa minha constatação.

Só para citar um exemplo, tem-se conhecimento de que seminaristas, estudantes e candidatos a padres, espalhados por esse Brasil, sequer têm vínculo à Previdência Social (INSS), pois o instituto ou a congregação ao qual pertence não lhes recolhe os valores devidos ao INSS, a fim de que esse rapaz tenha uma chamada asseguridade social ao chegar o tempo de sua aposentadoria. Sabe-se que apenas o Estado tem o dever de assegurar a qualquer cidadão de incluir-se na Previdência Social, garantindo-lhe acesso à aposentadoria e a recursos de saúde, quando necessitado em ocasião de doença ou invalidez. No Brasil, tanto o trabalhador empregado quanto o autônomo, assim como quem não trabalha mas recolhe os valores devidos ao INSS dispõem desse direito. Entretanto, tal situação não é se contrapor ao Estado? Porque a Igreja tem o direito de anular o indivíduo, inclusive, negando-lhe direitos civis, assegurados pelo mesmo Estado, os quais estão previstos na Constituição Federal? Será se o Reino de Deus anula o indivíduo? Será se dentre as categorias do Reino está a de negar os direitos civis a todos quantos nele quer servir? Penso que não. O Reino de Deus é muito maior que a Igreja. O Reino positiva o indivíduo e não o anula. Esse é apenas um dos diversos problemas de ordem jurídica encontrados no interior de nossa Igreja.

Talvez devamos examinar a questão pela ótica da moral e da ética. É bom que se lembre que nem uma nem outra são conceitos terminados no âmbito eclesial. A Igreja ainda não tem um tratado de moral e de ética, mas a questão está no âmbito das orientações.

Quando se fala em moral e ética, ao separarmos uma da outra, temos um problema que pode tornar-se perigoso. O mesmo seria se separássemos razão e fé. Ou ainda como se separássemos normas e princípios. Se ficarmos no princípio somente, teorizamos. Se ficarmos na norma somente, escravizamos. A experiência religiosa vista pela amplitude da norma é massacrante. Por isso penso que é bom que orientações no sentido de não votar em tal candidato não seja norma, apenas porque um bispo diz ou recomenda.

Numa sociedade pluralista é inerente mostrar a racionalidade de toda postura ética. Não se trata de impor, muito menos de pronunciar frases que nem todos entendam. O cristão não constitui elemento discriminatório entre ética e moral, mas a partir do discurso sentido começa a elaborar em si mesmo o sentido ético. As categorias de consciência crítica ajudam nesse processo. Penso que as orientações na escolha dos candidatos devem ser feitas pela via do despertar da consciência e não pela via da norma pela norma.

Meu pensamento é o de que, antes de sairmos por aí dizendo em quem devemos ou não votar, invistam-se em celebrações bem feitas, em liturgias mais claras e evidentes do Mistério Pascal que se celebra em seu centro e o tem como fonte e cume. Pergunto também: porque nossas liturgias não são conscientizadoras? Se tivéssemos celebrando bem o Mistério Pascal não preciaríamos de orientações normativas. A própria celebração do Mistério Pascal, que contém a Lei, nos diria e nos abriria a consciência para o intervir no mundo, em todas as realidades, mudando o curso e o estado delas. O Mistério Pascal é universal e atinge a todos e a todas. Ele é a segurança de que temos para mudar o que deve ser mudado.

Agora, porque é que apesar de celebrarmos nossas liturgias, elas não conseguem mudar a realidade? O que nos falta ainda? A reflexão a seguir pode nos ajudar. Baseado em escritos antigos judaicos, há um autor que diz que o mundo repousa sobre três colunas: a Lei, a liturgia e as obras de caridade. Não se pode passar da Lei para as obras de caridade sem antes vivenciar a oração, na liturgia. Assim, as obras de misericórdia devem ser conduzidas à luz da oração, se não pode-se cair no legalismo, pelo simples fato de se estar exercendo o direito legal (a Torah, no judaísmo e o Magistério da Igreja, para os católicos, por exemplo). Em resumo, significa que não se pode passar da compreensão para a ação sem antes ter vivido a liturgia, exercida num tempo intermediário de oração e contemplação. A liturgia é a chave para a consciência, rumo à mudança real.

Evidentemente o assunto sugere mais reflexão e tomada de atitude. Não seguirei as orientações de D. Luiz Gonzaga, apesar de me considerar cristão. Ainda prefiro pensar que minha consciência é a casa do meu direito.

Grande abraço.

Euri.
_______________________________

Abaixo o texto com a recomendação de D. Luiz Gonzaga:

Com esta frase Jesus definiu bem a autonomia e o respeito, que deve haver entre a política (César) e a religião (Deus). Por isto a Igreja não se posiciona nem faz campanha a favor de nenhum partido ou candidato, mas faz parte da sua missão zelar para que o que é de “Deus” não seja manipulado ou usurpado por “César” e vice-versa.

Quando acontece essa usurpação ou manipulação é dever da Igreja intervir convidando a não votar em partido ou candidato que torne perigosa a liberdade religiosa e de consciência ou desrespeito à vida humana e aos valores da família, pois tudo isso é de Deus e não de César. Vice-versa extrapola da missão da Igreja querer dominar ou substituir-se ao estado, pois neste caso ela estaria usurpando o que é de César e não de Deus.

Já na campanha eleitoral de 1996, denunciei um candidato que ofendeu pública e comprovadamente a Igreja, pois esta atitude foi uma usurpação por parte de César daquilo que é de Deus, ou seja o respeito à liberdade religiosa.

Na atual conjuntura política o Partido dos Trabalhadores (PT) através de seu IIIº e IVº Congressos Nacionais (2007 e 2010 respectivamente), ratificando o 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3) através da punição dos deputados Luiz Bassuma e Henrique Afonso, por serem defensores da vida, se posicionou pública e abertamente a favor da legalização do aborto, contra os valores da família e contra a liberdade de consciência.

Na condição de Bispo Diocesano, como r e s p o n s á v e l pela defesa da fé, da moral e dos princípios fundamentais da lei natural que - por serem naturais procedem do próprio Deus e por isso atingem a todos os homens -, denunciamos e condenamos como contrárias às leis de Deus todas as formas de atentado contra a vida, dom de Deus,como o suicídio, o homicídio assim como o aborto pelo qual, criminosa e covardemente, tira-se a vida de um ser humano, completamente incapaz de se defender. A liberação do aborto que vem sendo discutida e aprovada por alguns políticos não pode ser aceita por quem se diz cristão ou católico. Já afirmamos muitas vezes e agora repetimos: não temos partido político, mas não podemos deixar de condenar a legalização do aborto. (confira-se Ex. 20,13; MT 5,21).

Isto posto, recomendamos a todos verdadeiros cristãos e verdadeiros católicos a que não dêem seu voto à Senhora Dilma Rousseff e demais candidatos que aprovam tais “liberações”, independentemente do partido a que pertençam.

Evangelizar é nossa responsabilidade, o que implica anunciar a verdade e denunciar o erro, procurando, dentro desses princípios, o melhor para o Brasil e nossos irmãos brasileiros e não é contrariando o Evangelho que podemos contar com as bênçãos de Deus e proteção de nossa Mãe e Padroeira, a Imaculada Conceição.

D. Luiz Gonzaga Bergonzini

Bispo de Guarulhos - SP