sábado, 23 de novembro de 2013

O Tempo do Advento, em poucas palavras

Eurivaldo Silva Ferreira

            No Ano Litúrgico, o Ciclo do Natal reassume uma identidade pascal, inspirando-se no Ciclo da Páscoa: um tempo de preparação, a festa principal, uma festa na oitava, e um tempo “esticado” para se fazer memória de outros aspectos da mesma festa.
O Advento é caracterizado por duas dimensões: o anseio pela última vinda do Senhor (nas duas primeiras semanas) e a recordação de sua primeira vinda (nas duas últimas semanas) como preparação imediata ao Natal. O sinal sacramental da espera, próprio do tempo, faz alusão à segunda vinda de Jesus.
No início do Ano Litúrgico, o Tempo do Advento relaciona-se com a proposta da Igreja que se faz presente no mundo. Ela anseia pela vinda do Senhor, mas enquanto sua vinda não se faz plenamente, celebra, louva e distribui os sacramentos, na esperança de sua plena concretização. É como se vivêssemos as propostas do Reino (já), mas não ainda em sua plenitude (ainda não). Por isso, este tempo em preparação ao Natal do Senhor, suscita o desejo de que o Senhor venha. Eis o sinal sacramental próprio do tempo: a espera.
Viver o Advento é viver a espera da feliz expectativa da realização do Reino de Deus entre nós. Mas essa espera é revestida de uma esperança escatológica (escathom, do grego = fim último), em meio a tribulações e sofrimentos, assim como viveu o “Filho do Homem” (Lc 21,27), e que se torna sinal de esperança, sinal de que a salvação de Deus prometida desde a Primeira Aliança (AT) está inserida na história humana, conforme a profecia de Daniel.
No Tempo do Advento, nossa atitude é de termos a cabeça erguida, de estarmos despertos e acordados, como diz São Paulo na Carta aos Romanos, a fim de que percebamos no decorrer da história os sinais de libertação, sobretudo nos acontecimentos históricos, cujas imagens simbólicas próprias do tempo nos ajudam a compreender como é que se deu no passado, trazendo para o ‘hoje’, tendo como ações concretas dessas atitudes os princípios da vigilância e da oração, consequência da santidade (frutos próprios do tempo). Essas atitudes preparam o coração para a grande vinda, a escatológica (última vinda), e nos conforta sua presença misteriosa através da ação litúrgica (memória da primeira vinda) e através dos pequenos gestos realizados em prol do/a outro/a (vinda intermediária de Cristo), mas que com o auxílio de Deus, isso é possível.
Enquanto que nos dois primeiros domingos do Advento contemplamos pela escuta da Palavra e pela oração da Igreja a segunda vinda de Cristo, nos dois domingos seguintes, fazemos memória de sua vinda histórica, na carne, feito gente. A segunda vinda de Cristo nos concede os bens prometidos na plenitude. Essa salvação é concedida a todas as pessoas, ao mundo, ao cosmos, por isso homem/a mulher são os responsáveis por acolherem a salvação, primeiro ‘abrindo o coração’, ‘aplainando os caminhos’, ‘abaixando as montanhas’. As leituras e a oração da Igreja deste tempo mostram isso: a alegria do povo que se volta, que espera, que permanece fiel, na expectativa da vinda do Messias.
Celebrar no Tempo do Advento é manifestar no rito e na vida um momento novo para a humanidade nova, para o mundo novo. Se o Ciclo da Páscoa é marcado pelo sacramento da alegria, o Tempo do Advento é um tempo em que celebramos sacramentalmente a espera. De fato, a Igreja vive o tempo todo um eterno Advento, na medida em que na liturgia eucarística aclamamos: “Vinde, Senhor Jesus” e na oração do Senhor: “Venha a nós o vosso Reino”.
Maria, a imagem da Igreja, é a portadora da Arca da Aliança, que traz em seu ventre o sinal da salvação, por isso se entrega totalmente ao projeto de salvação de Deus. Os personagens deste tempo nos ajudam a compreender como é que Deus age em prol da humanidade a fim de salvá-la, guardando-a do mal, mostrando a todos o verdadeiro Sol do Oriente, que ilumina todos os povos que andam por entre as trevas, conforme canta Zacarias.

        Esperamos que neste Advento possamos ser como Igreja, povo de Deus, portadores da boa nova do Reino de Jesus. Que nossas celebrações levem-nos a um verdadeiro compromisso da edificação de seu Reino entre nós! A feliz expectativa do Reino seja o motivo para celebrarmos o Cristo que vem.