terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

HOJE NÃO TENHO MAIS ESSES SONHOS

HOJE NÃO TENHO MAIS ESSES SONHOS,
diz o cardeal

O cardeal Carlo M. Martini, jesuíta, biblista, arcebispo que foi de Milan e colega meu de Parkinson, é um eclesiástico de diálogo, de acolhida, de renovação a fundo, tanto na Igreja como na Sociedade. Em seu livro de confidências e confissões Colóquios noturnos em Jerusalém, declara: «Antes eu tinha sonhos acerca da Igreja. Sonhava com uma Igreja que percorre seu caminho na pobreza e na humildade, que não depende dos poderes deste mundo; na qual se extirpasse de raiz a desconfiança; que desse espaço às pessoas que pensem com mais amplidão; que desse ânimos, especialmente, àqueles que se sentem pequenos o pecadores. Sonhava com uma Igreja jovem. Hoje não tenho mais esses sonhos». Esta afirmação categórica de Martini não é, não pode ser, uma declaração de fracasso, de decepção eclesial, de renúncia à utopia. Martini continua sonhando nada menos que com o Reino, que é a utopia das utopias, um sonho do próprio Deus.

Ele e milhões de pessoas na Igreja sonhamos com a «outra Igreja possível», ao serviço do «outro Mundo possível». E o cardeal Martini é uma boa testemunha e um bom guia nesse caminho alternativo; o tem demonstrado.

Tanto na Igreja (na Igreja de Jesus que são várias Igrejas) como na Sociedade (que são vários povos, várias culturas, vários processos históricos) hoje mais do que nunca devemos radicalizar na procura da justiça e da paz, da dignidade humana e da igualdade na alteridade, do verdadeiro progresso dentro da ecologia profunda. E, como diz Bobbio, «é preciso instalar a liberdade no coração mesmo da igualdade»; hoje com uma visão e uma ação estritamente mundiais. É a outra globalização, a que reivindicam nossos pensadores, nossos militantes, nossos mártires, nossos famintos...

A grande crise econômica atual é uma crise global de Humanidade que não se resolverá com nenhum tipo de capitalismo, porque não é possível um capitalismo humano; o capitalismo continua a ser homicida, ecocida, suicida. Não há modo de servir simultaneamente ao deus dos bancos e ao Deus da Vida, conjugar a prepotência e a usura com a convivência fraterna. A questão axial é: Trata-se de salvar o Sistema ou se trata de salvar à Humanidade? A grandes crises, grandes oportunidades. No idioma chinês a palavra crise se desdobra em dois sentidos: crise como perigo, crise como oportunidade.

Na campanha eleitoral dos EUA se arvorou repetidamente «o sonho de Luther King», querendo atualizar esse sonho; e, por ocasião dos 50 anos da convocatória do Vaticano II, tem-se recordado, com saudade, o Pacto das Catacumbas da Igreja serva e pobre. No dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio, 40 Padres Conciliares celebraram a Eucaristia nas catacumbas romanas de Domitila, e firmaram o Pacto das Catacumbas. Dom Hélder Câmara, cujo centenário de nascimento estamos celebrando neste ano, era um dos principais animadores do grupo profético. O Pacto em seus 13 pontos insiste na pobreza evangélica da Igreja, sem títulos honoríficos, sem privilégios e sem ostentações mundanas; insiste na colegialidade e na corresponsabilidade da Igreja como Povo de Deus e na abertura ao mundo e na acolhida fraterna.

Hoje, nós, na convulsa conjuntura atual, professamos a vigência de muitos sonhos, sociais, políticos, eclesiais, aos quais de jeito nenhum e de modo algum podemos renunciar. Seguimos rechaçando o capitalismo neoliberal, o neoimperialismo do dinheiro e das armas, uma economia de mercado e de consumismo que sepulta na pobreza e na fome a uma grande maioria da Humanidade. E seguiremos rechaçando toda discriminação por motivos de gênero, de cultura, de raça. Exigimos a transformação substancial dos organismos mundiais (a ONU, o FMI, o Banco Mundial, a OMC...). Comprometemo-nos a vivermos uma «ecologia profunda e integral», propiciando uma política agrária-agrícola alternativa à política depredadora do latifúndio, da monocultura, do agrotóxico. Participaremos nas transformações sociais, políticas e econômicas, para uma democracia de «alta intensidade».

Como Igreja queremos viver, à luz do Evangelho, a paixão obsessiva de Jesus, o Reino. Queremos ser Igreja da opção pelos pobres, comunidade ecumênica e macroecumênica também. O Deus em quem acreditamos, o Abbá de Jesus, não pode ser de jeito nenhum causa de fundamentalismos, de exclusões, de inclusões absorventes, de orgulho proselitista. Chega de fazermos do nosso Deus o único Deus verdadeiro. «Meu Deus, me deixa ver a Deus?». Com todo respeito pela opinião do Papa Bento XVI, o diálogo interreligioso não somente é possível, é necessário. Faremos da corresponsabilidade eclesial a expressão legítima de uma fé adulta. Exigiremos, corrigindo séculos de descriminação, a plena igualdade da mulher na vida e nos ministérios da Igreja. Estimularemos a liberdade e o serviço reconhecido de nossos teólogos e teólogas. A Igreja será uma rede de comunidades orantes, servidoras, proféticas, testemunhas da Boa Nova: uma Boa Nova de vida, de liberdade, de comunhão feliz. Uma Boa Nova de misericórdia, de acolhida, de perdão, de ternura, samaritana à beira de todos os caminhos da Humanidade. Seguiremos fazendo que se viva na prática eclesial a advertência de Jesus: «Não será assim entre vocês» (Mt 21,26). Seja a autoridade serviço. O Vaticano deixará de ser Estado e o Papa não será mais chefe de Estado. A Cúria terá de ser profundamente reformada e as Igrejas locais cultivarão a inculturação do Evangelho e a ministerialidade compartilhada. A Igreja se comprometerá, sem medo, sem evasões, com as grandes causas de justiça e da paz, dos direitos humanos e da igualdade reconhecida de todos os povos. Será profecia de anuncio, de denúncia, de consolação. A política vivida por todos os cristãos e cristãs será aquela «expressão mais alta do amor fraterno» (Pio XI).

Nós nos negamos a renunciar a estes sonhos mesmo quando possam parecer quimera. «Ainda cantamos, ainda sonhamos». Nós nos atemos à palavra de Jesus: «Fogo vim trazer à Terra; e que mais posso querer senão que arda» (Lc 12,49). Com humildade e coragem, no seguimento de Jesus, tentaremos viver estes sonhos no dia a dia de nossas vidas. Seguirá havendo crises e a Humanidade, com suas religiões e suas Igrejas, seguirá sendo santa e pecadora. Mas não faltarão as campanhas universais de solidariedade, os Foros Sociais, as Vias Campesinas, os movimentos populares, as conquistas dos Sem Terra, os pactos ecológicos, os caminhos alternativos da Nossa América, as Comunidades Eclesiais de Base, os processos de reconciliação entre o Shalom e o Salam, as vitórias indígenas e afro y, em todo o caso, mais uma vez e sempre, «eu me atenho ao dito: a Esperança».

Cada um e cada uma a quem possa chegar esta circular fraterna, em comunhão de fé religiosa ou de paixão humana, receba um abraço do tamanho destes sonhos. Os velhos ainda temos visões, diz a Bíblia (Jl 3,1). Li nestes dias esta definição: «A velhice é uma espécie de postguerra»; não precisamente de claudicação. O Parkinson é apenas um percalço do caminho e seguimos Reino adentro.

Pedro Casaldáliga
Circular 2009

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Um hino de paz para o mundo



Paulo Costa Lima
De Salvador (BA)

Não estaria o mundo precisando de hinos de paz? Ou pelo menos de um bom hino da paz? Não seria essa uma urgência a ser tratada pela ONU, através da UNESCO? A idealização de um hino que pudesse funcionar em todo o mundo como um verdadeiro jingle de indução emotiva e apelo racional pelas vantagens da paz - sem diluir a ideia de nação e pertencimento. Ao início de cada conflito armado as pessoas se reuniriam nas praças e começariam a cantá-lo até que a paz retornasse...

Pois bem, vejamos:
Os hinos nacionais são experiências sensoriais complexas. Estão diretamente conectados ao sujeito coletivo e suas emoções. O emaranhado de mensagens que estrutura essas vivências culturais é elemento formador do imaginário de cada país, e do mundo. Afinal, os hinos são celebrados regularmente por bilhões de pessoas.

Olhando esses textos com todo respeito que merecem - pelo cabedal de união e solidariedade que proporcionam aos seus povos -, mas também com isenção analítica, ficamos preocupados com uma questão que daí emerge: para haver nação deve haver guerra? Na construção imaginária da pátria as referências bélicas parecem ser 'condição necessária'.

Um breve percurso pela literatura dos hinos demonstra isso com facilidade. Comecemos por casa. Em nosso belíssimo hino, lá pelas tantas o eu lírico verde e amarelo apregoa:


Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, à própria morte.

É uma construção poética sofisticada e emocionante. Ela reúne o apelo da ética, da justiça e da Mãe. Nessa altura o filho não teme mais nada...

Ora, bem sabemos que cada hino tem seu contexto, seu invólucro de ruptura e de instabilidade, e sua justificativa histórica.

Mas, aparentemente, penhorar a vida dos filhos-cidadãos parece ser uma estratégia absolutamente indispensável, e tem sido uma marca recorrente atravessando latitudes e longitudes.

Perceber isso, hoje, é se dar conta da quantidade de energia que foi necessária para ultrapassar a ordem medieval - e no caso das periferias, mergulhar na ordem colonial.

Mas voltando ao percurso dos hinos, verificamos que com os nossos vizinhos argentinos a marca de nacionalismo e morte surge no finalzinho do texto:


Coronados de gloria vivamos
O juremos com gloria morir.

Enquanto no hino brasileiro o eu lírico se dirige à Mãe Pátria, e os filhos são terceira pessoa, no hino argentino é com a primeira pessoa do plural que se faz o juramento - nós. O pior é que eles jogam com essa garra mesmo. Ninguém tem sossego até os 48 minutos da prorrogação.

Subindo na direção do México percebemos que ao invés da indução emotiva, ou juramento coletivo, o que temos é uma convocação explícita -aliás, como na Marselhesa, que parece ser o umbigo heróico de quase tudo isso:

Mexicanos al grito de guerra
El acero aprestad y el bridón,
Y retiemble en su centro la tierra
Al sonoro rugir del cañón.

O que dizer de Andorra, que é um dos menores países do mundo, porém com a maior expectativa de vida do planeta - 83,52 anos -, bradando contra seus incautos desertores?


Empenhemos nossa palavra de honra
Lutar por nossa salvação
E só um traidor nato desiste da luta

No Chile, é a bandeira que conclama ao sacrifício:


con tu nombre sabremos vencero tu noble,
glorioso estandartenos verá combatiendo, caer.

E o nosso querido Portugal?


Às armas! Às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões marchar, marchar!

No caso do Canadá, a referência aparece de forma mais velada, mas ainda assim se faz presente:


O Canada, westand on guardfor thee
(Oh Canadá, estamos em guarda por você...)

E pasmem, no hino do Vaticano também aparece a ideia de combate e de luta - mesmo que pela verdade e pelo amor:


Sois o conforto e o refúgio daqueles
que acreditam e lutam,
Força e terror não prevalecerão,
Verdade e amor reinarão
(You are the comfort and the refuge of those /
who believe and fight Force and terror will not prevail, /
But truth and love will reign)

Seria, dessa forma, impossível conjugar nacionalismo e pacifismo, ou pelo menos, discurso pacifista? Como deveríamos abordar essa questão numa era que se auto-define como prestes a ultrapassar a meta-narrativa da nação e do patriarcalismo?

Patriarcalismo? Sim, afinal, as imagens recolhidas nesses poucos exemplos fazem ecoar velhos símbolos da testosterona: clava forte, morrer com glória, grito de guerra, canhão, palavra de honra. Como seria a defesa das nações, a partir de uma ótica predominantemente feminina, pós-testosterona ?(1) Existe um hino feminino?

Dos hinos que pude ler, sobressai a delicadeza do japonês: que você (Japão) possa durar mil anos, oito mil anos, - sabemos que o número 8 é símbolo do infinito -, e que possa durar até que o mar transforme em pepita coberta de grama um grande rochedo... (tradução aproximada)

Existe sim, justificativa para propormos um hino de paz para o mundo. As crianças ouviriam esse jingle desde tenra idade, e todos os astros da música mundial seriam envolvidos na propagação dessa onda. Depois de conseguida a paz mundial, aos poucos o hino iria sendo esquecido, cumprindo dessa forma sua nobre missão: afinal, só fala de paz e de sua necessidade quem não a conhece plenamente.

-PS-1: os hinos foram consultados através do site abaixo, e em alguns casos a tradução para o português foi feita por mim mesmo (sem muito esmero, apenas para mostrar as ideias contidas no trecho): http://fr-scubabrasil.sites.uol.com.br/bandeiras.htm

Curiosidades:PS-2: O hino da Espanha não tem letra!

PS-3: Vale a pena conferir a obra Dona nobis Pacem - A Hymn for World Peace de David Fanshawe, para soprano, coro infantil, coro e orquestra, a partir de comissionamento feito por Nicholas Oppenheimer em 1994, diretor da De Beers Diamond, na África do Sul.

-(1) Nem sempre a relação entre guerra e falicismo convence. Minha amiga, a escritora Cleise Mendes, observou 'en passant' que as mulheres também podem ser mui guerreiras e aguerridas. Registramos esse reparo.

Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.www.myspace.com/paulocostalima - http://www.paulolima.ufba.br/