segunda-feira, 29 de julho de 2013

A liturgia de envio da JMJ: alguns desvios e olhares

Recebido por e-mail

Comentário da missa da JMJ:
Acabo de assistir à missa de encerramento da JMJ. 3 milhões e 200 mil jovens. Uma missa tomada por certos movimentos, transformada em show de grupos de elite de classe média.  Até o Amém após a Oração Eucarística foi elitizado. Fizeram da missa do Papa o que fazem normalmente com nossas missas nas comunidades. Não percebi entusiasmo do Papa. Talvez tenha celebrado com raiva como eu celebro às vezes. O Papa que fala em opção pelos pobres e proximidade com os pobres teve que celebrar no fim de um tapete vermelho que não tinha fim e que o distanciava dos jovens.  Vem-me à lembrança a foto de uma cadeira branca vazia durante um evento, durante a apresentação de uma sinfonia que a aristocracia do Vaticano preparou para o Papa. O Papa deixou a cadeira vazia no meio de um público seleto que o esperava. Falou por este gesto que não queria ser da aristocracia. Na missa da JMJ prepararam uma cadeira parecida para ele, longe do povo, longe dos jovens. Mas desta vez não podia deixa-la vazia, por mais que quisesse. Deve ter pensado que, diante do que estava vendo, será mais fácil reformar a Cúria Romana do que a mente de quem preparou esta missa.
Os jovens do meio popular não tinham vez e voz e não apareceram. Quem foi destacado foi um arcebispo e um cardeal com cansativas falas, padres cantores e as cantoras que cantaram com voz e gestos de cantora de ópera. A liturgia de antes do Concílio sem participação do povo voltou com outra cara.
 Será que ainda tem sentido lutar pela participação e inclusão do povo nas nossas liturgias? Esta missa desautorizou a nossa luta. Identifica-nos como pobres coitados, como Don Quixotes que lutam contra moinhos de vento a favor de algo que não existe mais.
Só resta uma esperança: a esperança de que o contrassenso disso tenha ficado tão gritante que até os mais tapados entre os responsáveis das comunidades e paróquias e entre os próprios jovens que estavam participando de longe no meio da multidão tenham percebido o disparate e comecem a desconfiar do que eles mesmos fazem nas suas comunidades.  A TV não mostrou o comportamento dos jovens que ficaram mais distantes. Certamente era tão sem graça que não podia ser mostrado para não fazer vergonha.
Estou ansioso para receber os comentários de quem está preocupado com a participação do povo na liturgia das nossas comunidades.

Pe. Cristiano Muffler

Resposta de Maria Lioza (por e-mail):

Prezado Pe. Cristiano,
Concordo plenamente como este comentário lúcido que o senhor fez sobre a missa de envio da JMJ, presidida pelo Papa Francisco. O Senhor tem toda razão. De fato, para a Igreja atual dos padres cantores, que é aceita e estimulada por grande parte dos bispos do Brasil, para não dizer da maioria, a qual Igreja se encontra completamente afastada das diretrizes litúrgicas recomendadas pelo Concílio, especialmente no tocante à exigência de participação ativa, consciente e frutuosa das assembleias dos fiéis, a prática litúrgica numa missa como a do envio da JMJ, apresentou-se totalmente desvinculada desta participação. 
Os padres, por desconhecimento ou descuido mesmo, com a formação tanto pessoal quanto das pastorais de suas paróquias, não dão importância à sagrada liturgia que é cume e fonte de onde emana a vida da igreja. Para a grande maioria dos padres o canto litúrgico não existe. Em seu lugar, adotam esse tipo de música midiática divulgada pela Canção Nova, Shalon, e outras que tais, e mesmo essas músicas com forte apelo emocional e individualista, indutoras ao devocionismo exacerbado e alienante, posto que destituídas de conteúdo bíblico-litúrgico, repito, mesmo essas tais músicas, não eram participadas pelo canto daquela assembleia. Ali, o canto era restrito a um grupo selecionado de padres cantores e de vocalistas que se revezavam em solos inacessíveis e destoantes da forma de cantar do povo simples. 
Para exemplificar, cito  o canto do Salmo Responsorial, cujo refrão é exclusivo da assembléia, como resposta do povo à proclamação da primeira Leitura  na liturgia da Palavra. A salmista que cantou, não se limitou a fazer sua parte, mas cantou o refrão várias vezes entre cada estrofe do Salmo, usurpando, assim, o direito do povo de cantar sua resposta à Palavra de Deus. Sem contar que, mesmo se ela não tivesse se apropriado de cantar o refrão pertencente à assembléia, a melodia utilizada para o refrão do salmo era de difícil apreensão para o povo que não conseguiria acompanhar a música com os melismas que caracterizam o tipo de música utilizado e próprio dos movimentos carismáticos. 
Infelizmente, quem coordenou e organizou o canto e a música do envio da JMJ não levou em conta que a música litúrgica da missa deve guardar sintonia com o rito celebrado. O Salmo é a Palavra cantada e por isso a melodia tem a função de chamar a atenção para a Palavra, destacar a mensagem contida no texto do Salmo. Assim, é necessário que a melodia não sobressaia dispersando o sentido do texto, mas que ela esteja a serviço e em perfeita sintonia com o sentido do texto da Palavra. Jamais a voz ou o instrumento devem sobressair sobre a Palavra de Deus, expressa no Salmo, do contrário, o Salmo estará sendo instrumentalizado para exibições personalistas de músicos e cantores, fugindo da "nobre simplicidade", pregada pela Sacrosanctum Concilium para a sagrada Liturgia. Creio que, na pretensão de realizar uma celebração solene, a sofisticação e inadequação das melodias e dos cantos, lembravam mais uma apresentação gospel, não apropriada para uma celebração eucarística. O triste nisso tudo é que em vez de edificar desvirtua, tornando-se um mau exemplo e dificultando os esforços que os liturgistas tem feito para levar as comunidades e assembléias a participarem de forma consciente e frutuosa, das celebrações liturgicamente organizadas, segundo os ensinamentos do Concílio Vaticano II, em que a música e o rito são visceralmente integrados. O próprio Bento XVI já dizia que a melhor catequese é uma celebração eucarística bem feita e bem participada. Na celebração de envio da JMJ faltou a participação dos milhões de fiéis que estavam ali presentes, mas não participando ativa e frutuosamente do Mistério Pascal de Cristo, na inteireza de corpo e espírito mas, apenas, assistindo de longe e ouvindo as vozes elaboradas e sofisticadas dos coralistas.    
Outra coisa, também, chamava  a atenção. Era a toalha dourada que cobria o altar, encobrindo completamente o seu significado, qual seja, a presença do próprio Cristo. De novo a nobre simplicidade foi esquecida e trocada por brocado dourado estilo rococó, mais apropriada à pompa tridentina do que à autenticidade e simplicidade do Concílio Vaticano II.
Uma coisa, entretanto, que pode ter passado despercebida, para mim foi emblemática: a ausência do Papa Francisco na missa de abertura da JMJ, que foi presidida por Dom Orani. Tenho a impressão de que o Papa intuiu e vislumbrou que naquela primeira celebração pública, o ufanismo apoteótico da multidão de jovens dos diversos movimentos católicos para com a sua pessoa, poderia suplantar e afastar a presença do mistério de Cristo na celebração em que ele iria fazer a homilia. Bem, essa foi minha impressão, depois de assistir ao que mais parecia um verdadeiro show gospel, de músicas, palmas, gritos e ovações, protagonizado pelos cantores, vocalistas, instrumentistas da banda musical, tocando músicas completamente dissociadas dos ritos e do Mistério celebrados. Talvez, em lugar de uma missa deveria ter sido celebrado um grande louvor, nos moldes dos encontros carismáticos, o que não deve ser confundido com a celebração eucarística, como foi o caso da missa de abertura da JMJ.
Entre os eventos da JMJ merece destaque a visita à comunidade de Manguinhos, o encontro com os representantes da sociedade civil, inclusive com indígenas e representantes de outras religiões, no Teatro Municipal;  e principalmente, o encontro com os bispos da CNBB e CELAM, em que durante mais de duas horas o Papa falou sobre o Documento de Aparecida, exortando-os a deixarem as sacristias e partirem para a evangelização onde se encontra o povo.   
Abraços,
Lioza  


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