quarta-feira, 12 de março de 2008

Sons para o eterno


Encontra aqui o seu ponto de referência uma conversa sobre a música sacra, aquela música tradicional do Ocidente católico, para a qual o Vaticano II não mediu palavras de louvor, exortando não somente a salvar, mas a incrementar «com a máxima diligência» o que ele chama «o tesouro da Igreja» e, portanto, da humanidade inteira. E, apesar disso? «E, apesar disso, muitos liturgistas puseram de lado esse tesouro, declarando-o 'esotérico', 'acessível a poucos', abandonaram-no em nome da 'compreensão por todos e em todos os momentos' da liturgia pós-conciliar. Portanto, não mais 'música sacra', relegada quando muito a ocasiões especiais, às catedrais, mas somente 'música utilitária', canções, melodias fáceis, coisas corriqueiras». Também aqui o Cardeal consegue mostrar com facilidade o afastamento teórico e prático do Concílio, «segundo o qual, além do mais, a música sacra é, ela mesma, liturgia, e não um simples embelezamento acessório». E, segundo ele, seria fácil também demonstrar, na prova dos factos, como «o abandono da beleza se mostrou uma causa de derrota pastoral». Diz: «Torna-se cada vez mais perceptível o pavoroso empobrecimento que se manifesta onde se expulsou a beleza, sujeitando-se apenas ao útil. A experiência tem demonstrado que a limitação apenas à categoria do 'compreensível para todos' não tornou as liturgias realmente mais compreensíveis, mais abertas, somente as fez mais pobres. Liturgia 'simples' não significa mísera ou reles: existe a simplicidade que vem do banal e uma outra que deriva da riqueza espiritual, cultural e histórica». «Também nisso», continua ele, «deixou-se de lado a grande música da Igreja em nome da 'participação activa', mas essa 'participação' não pode, talvez, significar também o perceber com o espírito, com os sentidos? Não existe nada de 'activo' no intuir, no perceber, no comover-se? Não há, aqui, um diminuir o homem, reduzindo-o apenas à expressão oral, exactamente quando sabemos que aquilo que existe em nós de racionalmente consciente e que emerge à superfície é apenas a ponta de um iceberg, com relação ao que é a nossa totalidade? Questionar tudo isso não significa, evidentemente, opôr-se ao esforço para fazer cantar todo o povo, opôr-se à 'música utilitária'. Significa opôr-se a um exclusivismo (somente tal música), não justificado pelo Concílio nem pelas necessidades pastorais». Esse assunto da música sacra, percebida também como símbolo da presença da beleza «gratuita» na Igreja, é particularmente importante para Joseph Ratzinger, que lhe dedicou páginas vibrantes: «Uma Igreja que se limite apenas a fazer música 'corrente' cai na incapacidade e torna-se, ela mesma, incapaz. A Igreja tem o dever de ser também 'cidade da glória', lugar em que se reúnem e se elevam aos ouvidos de Deus as vozes mais profundas da humanidade. A Igreja não pode satisfazer-se apenas com o ordinário, com o usual, deve reavivar a voz do cosmos, glorificando o Criador e revelando ao próprio cosmos a sua magnificiência, tornando-o belo, habitável e humano». Também aqui, porém, como para o latim, fala-me de uma «mutação cultural», ou, mais ainda, de uma como que «mutação antropológica», sobretudo entre os jovens, «cujo sentido acústico foi corrompido e degenerado, a partir dos anos 60, pela música rock e por outros produtos semelhantes». Tanto que, e alude aqui também a suas experiências pastorais na Alemanha, hoje seria «difícil fazer ouvir ou, pior ainda, fazer cantar a muitos jovens até mesmo os antigos corais da tradição alemã». O reconhecimento das dificuldades objetivas não o impede de defender apaixonadamente não apenas a música, mas a arte cristã em geral e a sua função de reveladora da verdade: «A única, a verdadeira apologia do cristianismo pode reduzir-se a dois argumentos: os santos que a Igreja produziu e a arte que germinou no seu seio. O Senhor torna-se crível pela magnificência da santidade e da arte, que explodem dentro da comunidade crente, mais do que pelas astutas escapatórias que a apologética elaborou para justificar os lados obscuros de que abundam, infelizmente, os acontecimentos humanos da Igreja. Se a Igreja, portanto, deve continuar a converter, a humanizar o mundo, como pode, na sua liturgia, renunciar à beleza, que é unida de modo inseparável ao amor e, ao mesmo tempo, ao esplendor da Ressureição? Não, os cristãos não se devem contentar facilmente, devem continuar fazendo da sua Igreja o lar do belo, portanto do verdadeiro, sem o que o mundo se torna o primeiro círculo do inferno». Fala-me de um teólogo famoso, um dos líderes do pensamento pós-conciliar, que lhe confessava sem problemas que se sentia um «bárbaro». E comenta: «Um teólogo que não ame a arte, a poesia, a música, a natureza, pode ser perigoso. Essa cegueira e surdez ao belo não é secundária, reflecte-se necessariamente também na sua teologia».

Lisboa: Editorial Verbo, 1985, 105-107
Entrevistas realizadas em Agosto de 1984 ao então Cardeal Ratzinger, atual Papa Bento XVI, que fora recentemente nomeado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.