segunda-feira, 20 de julho de 2009

A ação litúrgica: caminho mistagógico


Eurivaldo Silva Ferreira

Como continuidade de nossa proposta, retomamos nossa conversa neste artigo a partir da vivência pessoal que agora cada um/a faz de si com relação à vivência sacramental. Em nosso último artigo dissemos que a celebração eucarística é um dos condutores ao mistério pascal e, a partir dela, conseguimos forças para desempenhar nossa missão no mundo, a fim de que também o mundo possa viver a fé verdadeira e, conseqüentemente, transformá-lo num outro mundo possível. Assim aconteceu com os primeiros cristãos: “vejam como eles se amam...” diz os Atos dos Apóstolos. Esse amor-testemunho é conseqüência, sobretudo, da reunião fraterna que celebramos no domingo – a Eucaristia – que quer dizer ação de graças. Nela, ao partilharmos o Pão da Palavra e o Pão da Eucaristia, somos convidados e enviados a vivenciar este gesto também no mundo, na relação com os irmãos e irmãs, até mesmo com os não-cristãos. Nós podemos buscar o fundamento teológico disso nas próprias palavras de Jesus quando afirma não existir outro mandamento mais importante do que amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo (cf. Mc 12,28-31).

Para melhor compreensão disso, penso que a catequese litúrgica é um caminho eficaz para conseguirmos adentrar no mistério e nele encontrarmos nossa medida, nossa condução. Nossa intenção, ao escrevermos esses artigos é mostrar ao leitor que a vivência na comunidade através da ação litúrgica – quer seja pela celebração da Eucaristia, quer seja pela celebração dos demais sacramentos – possa ser um mecanismo de encontro com o mistério pascal, numa atitude de abertura interior e aos outros. É por isso que o documento do Concílio Vaticano II que trata das questões litúrgicas diz que a liturgia é cume e fonte da vida e ação da Igreja. A liturgia não apenas supõe, mas alimenta a fé. A Igreja Universal (Católica) nos ensina que “a regra da oração fundamenta a regra da fé e a reflexão teológica”. Assim, da liturgia, especialmente da eucaristia, como de uma fonte, corre sobre nós a graça, eficazmente, santificando-nos e levando-nos a glorificar a Deus, fim último de todas as obras da Igreja.

É fundamental que, ao falarmos de liturgia, contemplemos também o mistério pascal de Cristo acontecendo na nossa vida, por isso não me abstenho de citar novamente mais um trecho da entrevista que concedeu Bento XVI aos párocos de Roma, ocasião em que afirma que “todos nós devemos aprender melhor a liturgia, não como algo exótico, mas como o coração de nosso ser cristão”. O mistério pascal de Cristo: paixão, morte, ressurreição e ascensão é o coração (lugar da pulsação vital) da nossa fé cristã. Com isso, o papa quer afirmar que a liturgia deve ocupar o centro de nossa fé cristã. Quem pulsa, então? É o próprio mistério pascal perpassando nossas vidas. Certamente, recebendo essa energia oriunda da ação sacramental-litúrgica, na força e no dinamismo do Espírito Santo, capacitando-nos no exercício de nossa missão, no cotidiano.

A partir deste entendimento, Bento XVI quer destacar que urge na Igreja a necessidade de uma catequese litúrgica mais mistagógica. O termo mistagogia significa ‘conduzir para dentro do mistério’. Foi assim que os primeiros Padres da Igreja iniciavam na fé os cristãos. A via da mistagogia é um método eficaz e muito necessário nos nossos dias. Aliás, a CNBB (Conferência Episcopal dos Bispos do Brasil), em sua próxima assembléia trabalhará a questão mistagógica, através do RICA (Ritual de Iniciação Cristã de Adultos), com toda a sua proposta pedagógica pensada a partir das liturgias celebradas ao longo do ciclo pascal. “Os mistérios não são uma coisa exótica no cosmos das realidades mais práticas”, diz Bento XVI. “O mistério é o coração do qual vem nossa força e ao qual voltamos para encontrar este centro”, declarou. E acrescenta que “a celebração dos mistérios da fé revelam o próprio ser do homem, da mulher. Se é verdade que o ser humano em si não tem sua medida – o que é justo e o que não é – mas encontra sua medida fora dele, em Deus, é importante que este Deus não seja distante, mas reconhecível, concreto, que entre em nossa vida e seja realmente um amigo com o qual podemos falar e que fala conosco”, acrescentou. “Em outras palavras, a catequese eucarística e sacramental deve realmente chegar ao profundo de nossa existência, ser precisamente educação para abrir-me à voz de Deus, a deixar-me abrir para que rompa esse pecado original do egoísmo e seja abertura de minha existência em profundidade, de maneira que eu possa chegar a ser um homem, uma mulher integral, verdadeiro/a e justo/a”, concluiu.

Por isso é compreensível a urgência na ativação da consciência, tendo em vista a melhoria das atividades litúrgicas, do celebrar o mistério pascal com conhecimento de causa, ativa e frutuosamente, diz o documento da Igreja que trata das questões litúrgicas, a Sacrosanctum Concilium nº 11, isto é, com a qualidade que o próprio mistério prescreve. Toda ação litúrgico-sacramental nos permite expressar em linguagem humana a presença escondida do Deus que se fez ‘carne’, humano com os humanos (cf. 1Jo 1, 1-4). Esses gestos são a linguagem da nossa adoração e da nossa comunhão com ele na intimidade do seu amor. O fruto que colhemos na liturgia, a graça de Deus que dela nos vem para o nosso crescimento na fé passa pela expressividade da ação litúrgica.

A Celebração da Palavra de Deus e sua culminância na missão


Eurivaldo Silva Ferreira

Na 32ª Assembléia Geral da CNBB, realizada em Itaici, Indaiatuba, SP, de 13 a 22 de abril de 1994, Dom Clemente José Carlos Isnard, na introdução do documento da CNBB sobre Orientações para a Celebração da Palavra de Deus, afirma o seguinte:

A celebração da Palavra de Deus é um ato litúrgico reconhecido e incentivado pela Igreja. Sua reflexão torna-se ainda mais significativa se considerarmos o apreço das comunidades pela leitura e meditação da Sagrada Escritura e a prática da Leitura Orante.

A Palavra de Deus é acontecimento, onde o Pai entra na história, onde o Filho prolonga o mistério de sua Páscoa e o Espírito atua com sua força. As celebrações da Palavra de Deus, especialmente aos domingos, fundamentam-se no caráter sacerdotal de cada batizado e de cada batizada. "Ele fez para nós um Reino de Sacerdotes", nos recorda o Apocalipse. "Ele te unge sacerdote", repetimos em cada celebração batismal. Isto é, cada celebração da Palavra é uma forma do povo consagrado, "proclamar as maravilhas Daquele que nos chamou das trevas à luz".


No Documento de Aparecida, foi afirmada esta prática e também incentivada, e publicou-se no número 253 a seguinte afirmação:

Com profundo afeto pastoral, queremos dizer às milhares de comunidades com seus milhões de membros, que não têm oportunidade de participar da Eucaristia dominical, que também elas podem e devem viver “segundo o domingo”. Podem alimentar seu já admirável espírito missionário participando da “celebração dominical da Palavra”, que faz presente o Mistério Pascal no amor que congrega (cf. 1Jo 3,14); na Palavra acolhida (cf. Jo 5,24-25) e na oração comunitária (cf. Mt 18,20).

O papa Bento XVI em sua Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis, reconhecendo as inúmeras comunidades que não têm a presença de um ministro ordenado para presidir a Eucaristia, comenta que é importante que as comunidades cristãs se reúnam igualmente para louvar o Senhor e fazer memória do dia a Ele dedicado (SCa, 75).

É graças à reforma do Concílio Vaticano II que essas práticas se tornaram possíveis. É claro que não podemos lamentar o fato de uma escassez de ministros ordenados, o que deixa algumas realidades sem a contemplação do mistério pascal também presente no sacramento da Eucaristia. Todavia, o Concílio Vaticano II uniu as duas mesas: a da Palavra e a da Eucaristia. A Palavra tornou-se compreensível para o povo, já que cada povo passou a ouvir as Escrituras proclamadas em sua própria língua. Por isso, confirma-se a consideração de Aparecida de que também a Palavra é sacramento e pode alimentar a vida da comunidade orante, congregada ao seu redor.

Desta Palavra prescinde também a evangelização dos povos. Jesus, sendo judeu, conheceu e praticou a Torah e dela tirou proveito, aplicando-a em sua própria missão. Em Lucas 4,14-21, Jesus na sinagoga lê o texto do profeta Isaias e o toma para si, concluindo que hoje se cumprira aquilo que ouviram. De fato, Jesus achou a passagem em Isaias que inspira seu programa, sua missão. Lucas quer demonstrar com essa narração a solidez e a credibilidade do que está para apresentar: fez um estudo cuidadoso desde o princípio, a fim de escrever uma narração bem ordenada.

Ora, se dissemos que a Eucaristia é sacramento, ou seja, sinal da realização daquilo que significa no meio e para os homens, o mesmo podemos dizer da Palavra. Ela se torna sacramento da missão, assim como a Eucaristia, pois a Sacrosanctum Concilium diz que dela nos alimentamos e buscamos força para alcançarmos a graça e obtermos a santificação (SC 10), quer dizer, expressar o real sentido do todo da Eucaristia, com seus ritos, preces, cantos e Palavra proclamada, que culmina com a partilha do Pão e do Vinho, corpo e sangue de Cristo ofertados ao Pai e servidos como alimento à comunidade.

Nossa afirmação se faz também necessária quando projetamos na Palavra proclamada o anseio de enxergar nela verdadeiras propostas de missão, assim como Jesus fez na sinagoga. Convém aqui afirmamos os conceitos de inculturação vividos pelo próprio Jesus: ele nasceu dentro de uma cultura judaica e a partir dela, anunciou ao mundo sua proposta de missão na vivência e proclamação do Reino de Deus. Essa missão já era antevista e preparada pelos profetas do Antigo Testamento, ou seja, a Palavra de Deus se fez missão através de vários personagens e se encarnou no próprio Cristo, o Verbo de Deus.

Com relação à evangelização das culturas, o nº 78 da Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis diz que

é preciso reconhecer o caráter intercultural deste novo culto, desta lógica: a presença de Jesus Cristo e a efusão do Espírito Santo são acontecimentos que podem encontrar-se de forma duradoura com qualquer realidade cultural a fim de a fermentar evangelicamente. Em consequência disto mesmo, temos a obrigação de promover convictamente a evangelização das culturas, na certeza de que o próprio Cristo é a verdade de todo o homem e da história humana inteira. A Eucaristia torna-se critério de valorização de tudo o que o cristão encontra nas diversas expressões culturais; num processo importante como este, podem revelar-se de grande significado as palavras de São Paulo quando, na sua I Carta aos Tessalonicenses, convida a ‘avaliar tudo e conservar o que for bom’ (5, 21).

Com esse espírito, não podemos prescindir que a celebração da Palavra de Deus não tenha sua força sacramental e sua destinação naquilo que ela mesma suscita: a missão, sobretudo, quando entendemos que pela Palavra de Deus, há um viés de acontecimento de salvação. As próprias comunidades cristãs primitivas foram alimentadas por essa característica presente na Palavra e, a partir daí, partiram para a missão, guiadas pelo Espírito, evangelizando os povos. Assim, quer seja da mesa da Palavra, quer seja da mesa da Eucaristia, não podemos abeirar-nos delas sem nos deixarmos arrastar pelo movimento da missão que, partindo do próprio Coração de Deus, visa atingir todos os homens; portanto, a tensão missionária é parte constitutiva da forma eucarística da existência cristã (SCa, 84).