sábado, 22 de novembro de 2014

9º Encontro de Compositores da CNBB – Edição 2014


9º Encontro de Compositores da CNBB – Edição 2014
Eurivaldo Silva Ferreira
Entre os dias 20 e 23 de novembro de 2014 encontram-se reunidos na Casa de oração da Cidade Regina das Irmãs Paulinas, situada na Rodovia Raposo Tavares, em São Paulo – SP, diversos compositores que se dedicam à criação e à divulgação da música litúrgico-ritual.
O Setor de Música Litúrgica da CNBB promove um encontro anual e convida compositores da música litúrgica de diversas regiões do Brasil. São pessoas dedicadas à música e à arte das palavras, as quais cantam o mistério pascal nas diversas comunidades do Brasil.
A necessidade urgente de um aperfeiçoamento litúrgico-musical na técnica da composição, na qualificação de uma música litúrgica enraizada na cultura brasileira e o bom êxito dos encontros anteriores são os principais fatores que encorajam a CNBB neste processo, cujo objetivo é: promover a formação litúrgico-musical de compositores e letristas com as competências requeridas à formação e ao desenvolvimento de um grupo comprometido com a música no Brasil dentro de parâmetros estéticos, teológicos, litúrgicos, pastorais, técnicos e culturais.





















Faz parte das exigências da participação nas edições do Encontro de Compositores da CNBB a condição de que estes, sendo compositores, músicos ou letristas, já atuem como multiplicadores em suas dioceses ou regiões, os quais são convidados pelo Assessor do Setor de Música da CNBB, ou ainda indicados pelos membros da Equipe de Reflexão do referido Setor. Esses compositores, atuando como multiplicadores, favorecem e auxiliam as comunidades do Brasil, a fim de que possam cantar uma música que as ajudem a vivenciar o Mistério Pascal, força propulsora da música litúrgica, presente e celebrado nos diversos momentos do Ano Litúrgico.
Como nas edições anteriores, é trabalhado um tema relevante que contribua para a prática da construção de um canto litúrgico-ritual genuíno nascente da cultura musical brasileira. Esse tema, permeado de seu aspecto antropológico, pastoral e teológico, é contemplado com subsídios teóricos e práticos voltados para a elaboração de outros cantos litúrgicos, também valorizando aquele repertório já existente [Hinários Litúrgicos, por exemplo], ensejando conhecimento e técnicas de composição, além de ajudar a desenvolver um plano de formação litúrgico-musical, estimulando o surgimento de novas composições  que preencherão lacunas ainda existentes no repertório litúrgico da Igreja no Brasil, como que num “multirão”.
Especialmente nesta edição o tema desenvolvido foi pensado no Canto Litúrgico para a Memória dos Santos e Santas, cujo dado antropológico foi desenvolvido pelo antropólogo Prof. Ênio José da Costa Brito, que destacou em sua fala a questão da interculturalidade e do multiculturalismo, elementos interessantes que contribuem para o olhar das diversas culturas.
 Reginaldo Veloso destacou a questão do tema pelo viés pastoral e suas incidências na expressão litúrgica, indagando os participantes a refletirem a partir das seguintes questões: 1. Na experiência pessoal e comunitária de celebrar a memória dos Santos e Santas, A) o que você considera como mais positivo e importante? Por quê? B) Alguma coisa lhe parece questionário ou preocupante? Por quê?
Foi convidado o doutor e música pela UNESP, o Prof. Arthur Rinaldi, que, dando continuidade às questões da composição popular abordada na última edição (2013), ficou encarregado de trabalhar com os participantes o que se chama de Oficina de Composição e Música.
Penha Carpanedo, pddm, conhecida liturgista e contribuinte na formação litúrgica em todo o Brasil, trabalhou o Enfoque litúrgico-teológico da Devoção popular aos Santos e Santas, a partir dos textos eucológicos.
Com essa proposta, o encontro cumpre com sua metodologia, desenvolvida sempre sob três eixos temáticos: a Liturgia, a Música e a Cultura brasileira, que são abordados,  discutidos e refletidos em palestras, exposições ou em rodas de conversa, por isso sempre é assessorado por músicos profissionais, liturgistas qualificados e convidados especialistas no assunto, tudo sob a coordenação do Assessor da CNBB da Música Litúrgica, Pe. Carlos Sala.
Desta 9ª edição estão presentes 30 participantes, dentre músicos e compositores letristas de diversas regiões do país, especialmente convidados do Setor de Música da CNBB, dentre eles os membros da Equipe de Reflexão deste Setor.
A continuidade deste processo ainda permanece como perspectiva do Setor de Música Litúrgica da CNBB, e a ideia da criação e manutenção de um Corpo Eclesial de Compositores da Música Litúrgica implica numa consciência eclesial, a de se trabalhar como Igreja, tendo em vista a unidade na diversidade, principalmente quando se trata de música litúrgica.
Não é mais possível se conceber que pessoas ligadas à formação litúrgico-musical, sendo compositores, poetas, letristas ou músicos, permaneçam isoladas do contexto daquela expressão requerida pelos documentos da música litúrgica da Igreja no Brasil, desperdiçando seus talentos, mas sim, se apropriem de uma metodologia, colocando-se, com suas produções, à disposição da Igreja, trabalhando juntas, somando talentos, criando-se uma cultura, tendo uma liberdade na caridade, sem bloqueio e sem barreiras.

Nesta Igreja em que todos os compositores litúrgicos estão inseridos, todos e todas têm as mesmas alegrias e esperanças, como se fosse um só coração e uma só alma. Afinal o que é a liturgia senão a memória viva de Jesus Cristo, congregados no Espírito Santo?

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Os discípulos de Emaús - 3º Domingo da Páscoa - Ano A


Um comentário à luz da mistagogia do texto do Evangelho do 3º Domingo da Páscoa – Ano A
(a partir do exercício da Lectio Divina na Encontro Nacional da Rede Celebra de animação litúrgica, em 2011, Luziânia – GO)

Eurivaldo Silva Ferreira

Texto de Lucas 24,13-35. Lucas apresenta o relato das aparições em três cenas: a revelação pelos anjos às mulheres (24,1-12); a revelação pessoal a duas testemunhas a caminho de Emaús (24,13-35); a revelação aos onze e na ascensão (36-49.50-53). Este relato dos discípulos de Emaús é próprio de Lucas. (ler ou contar o texto). Distingue-se de outros relatos que contam  as aparições do Ressuscitado e assemelha-se à história de Filipe e do eunuco em Atos 8,26-40. Nos dois casos, a perplexidade inicial é resolvida pela instrução, e cada relato termina com a ação sacramental (contexto litúrgico).[1] O texto de Emaús é uma homilia pascal, no primeiro dia da semana, cujo desfecho é o encontro com Cristo na Ceia (tomou o pão, deu graças, partiu e repartiu) e a volta a Jerusalém (missão). Certamente era um casal, Cléofas e Maria de Cléofas. Em que consiste o discipulado de Jesus nesse contexto?

13Naquele mesmo dia, o primeiro da semana, (Domingo) dois dos discípulos iam para um povoado, chamado Emaús, a uns dez quilômetros de Jerusalém.
Caminho é o catecumenato da primeira comunidade. É o caminho de Jesus. A missa é um momento da caminhada. É um elemento inscrito no próprio caminho. Pode-se perceber que as comunidades estavam desanimando, o fogo do Espírito estava se apagando. Era por volta do ano 80 que esse texto foi escrito. Jesus é o elemento sempre presente do caminho. O fogo interior tem que ser vencido no caminho, deixar a luz iluminar as trevas. O texto começa relatando a atitude de voltar pra casa depois da decepção, esperando talvez a gozação dos conhecidos, amigos e vizinhos.

14Conversavam sobre todas as coisas que tinham acontecido (Recordação da vida). O anúncio é um diálogo entre a Palavra da Escritura e os fatos da vida. Jesus interpreta essa palavra. A Bíblia como tal não é palavra de Deus. É preciso ser interpretada. Jesus faz a interpretação dos textos. Ele faz a hermenêutica.

15Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles
(A Palavra se faz presente, ou seja, aquele do qual estavam falando se faz no meio deles; Jesus respeita a caminhada de cada um, acompanhado seus passos, mas conhecendo seus limites. Eles são alcançados pelo Cristo. Ora, os fatos da vida, mesmo que sejam negativos, são alcançados pelo Cristo, têm a possibilidade de se deixar ser alcançados pelo Cristo, pois não há nada que lhe escape aos seus olhos; a própria situação predispõe à audição. A angústia deles era a angústia da saudade e não do vazio).

16Os seus olhos, porém, estavam como vedados, incapazes de reconhecê-lo.
(Impotentes, é a possibilidade daquele que está cru, do não iniciado. Como pensar que dessa situação pode brotar missionariedade, fidelidade, processo de conversão?).

17Então, Jesus perguntou: “O que andais conversando pelo caminho?”
(Jesus queria sentir o que os discípulos vinham falando pelo caminho. Ora, começou pelo conceito de que aquilo que vinham vivendo. Aí uma dica para os catequistas, animadores, agentes de pastoral etc. para que não assumam uma posição para que o povo não tenha o direito de permanecer no seu estado de ignorância. Jesus não impõe, mas acompanha, entrando na conversa, escutando suas ansiedades, e depois interferindo tudo isso à luz da Palavra, buscando nas Sagradas Escrituras os acontecimentos que definem e iluminam aquela realidade, mostrando como é que Deus agiu naquela situação).

Eles pararam com o rosto triste, 18e um deles, chamado Cléofas, lhe disse: “És tu o único peregrino em Jerusalém que não sabe o que lá aconteceu nestes dias?” 19Ele perguntou: “Que foi?”
(o peregrino no caminho sofre com quem caminha, se aproxima, sente pena deles e se interessa por seus problemas e suas angústias, é alguém que sabe se aproximar, que provoca a contar a história deles, a frustração profunda deles).

Eles responderam: “O que aconteceu com Jesus, o Nazareno, que foi um profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e diante de todo o povo.
(reconhecem a profecia de Jesus, que é um profeta poderoso diante do povo e de Deus. Não é ser profeta por ser profeta, simplesmente, mas anunciar e interpretar os fatos da vida a partir da vida. A interpretação de um messias triunfalista reinava naquela época, mas Jesus interpreta esse fato de outra forma, como um messias que serve o sofredor, e não o poderoso, o guerreiro).

20Os sumos sacerdotes e as nossas autoridades o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. 21Nós esperávamos que fosse ele quem libertaria Israel; mas, com tudo isso, já faz três dias que todas essas coisas aconteceram! 22É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos assustaram. Elas foram de madrugada ao túmulo 23e não encontraram o corpo dele. Então voltaram, dizendo que tinham visto anjos e que estes afirmaram que ele está vivo. 24Alguns dos nossos foram ao túmulo e encontraram as coisas como as mulheres tinham dito. A ele porém, ninguém viu”. (Relato do acontecimento histórico-bíblico. Os iniciados já conheciam o fato através do elemento narrativo, conforme Cirilo de Jerusalém, portanto, sabiam contar direitinho a história. Jesus faz uma relação dialógica).

25Então ele lhes disse: “Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! 26Não era necessário que o Cristo sofresse tudo isso para entrar na sua glória?” 27E começando por Moisés e passando por todos os profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, as passagens que se referiam a ele.
(os fatos da vida são iluminados pela Palavra de Deus. Uma coisa não é só lembrar Moisés, mas a vida passa pelos fatos das Sagradas Escrituras. Acontece aqui uma instrução da parte de Jesus. Jesus é nesta hora o próprio mistagogo, ou seja, aquele que introduz no mistério. Neste caso, a mistagogia se dá através do próprio mistério, quer dizer, o próprio mistério fazendo-se conduzir para dentro de si próprio. Jesus indaga sobe a visão e o entendimento da Sagrada Escritura através de uma inteligência e através de uma rapidez. Jesus estava na dinâmica do tudo rápido, portanto o entendimento tinha que ser imediato por parte dos discípulos. Jesus lembra aos discípulos que eles não eram os únicos que tinham sofrido uma frustração tão grande, lembrando de outros personagens que também se frustraram, mas Deus não os deixou nas mãos da angústia e da frustração. Jesus não se promove, ele busca na história das Sagradas Escrituras não para se autopromover, mas para indicar na SE essa análise em respeito à sua messianidade. Na pessoa que está sendo iniciada está acontecendo o bem, ela contribui e colabora para o processo de salvação, na medida que ela for compreendendo o mistério).

28Quando chegaram perto do povoado para onde iam, ele fez de conta que ia adiante.
(o mistagogo, que é o próprio Jesus, faz de conta que vai avançar, mas não avança, ele usa de um recurso pedagógico para que os iniciados percebam que ele quer ficar, e aceita esse convite de ficar ali).

29Eles, porém, insistiam: “Fica conosco, pois é tarde e a noite vem chegando!”
(anoitece. A noite colabora para a frustração, para a angústia. A natureza colabora, o cronos colabora para isso, o cronos se vincula à realidade social daqueles discípulos; o momento da graça se dá através de uma forma cultural, convidar o outro para ficar).

Ele entrou para ficar com eles. 30Depois que se sentou à mesa com eles, tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu a eles (Partilha, mesa). Precisou novamente fazer o rito, pois é o rito que condensa a teologia, para se reconhecer mais ainda quem é Jesus, quem é a eucaristia. O que será que Jesus tinha dito na bênção desta mesa?

31Neste momento, seus olhos se abriram, e eles o reconheceram.
(quando os olhos se abrem se dá o cume do processo mistagógico).

Ele, porém, desapareceu da vista deles.
(O verbo desaparecer indica que Jesus pode ter ido pra dentro dos discípulos, pois antes disso o coração deles ardia, desejando a presença do Senhor. O desaparecimento é assumido pelos dois discípulos e por nós também, assumindo em nosso próprio corpo o corpo de Cristo. Cristo passou por isso, nós somos ele agora. O importante não é tê-lo agora, mas pensar que somos cristianizados).

32Então um disse ao outro: “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?”
(nossas angústias eclesiais é que nos incomodam hoje. Não encontramos cidadania, pois não temos lugar nessa estrutura eclesial e clerical).
33Naquela mesma hora, levantaram-se e voltaram para Jerusalém, onde encontraram reunidos os Onze e os outros discípulos.
(o ápice e o foco do catecumenato é a missão, que se dá ad-intra e ad-extra; para Lucas, os discípulos entenderam esse processo missionário; os catecúmenos se tornaram mistagogos. Dentro do processo de revelação eles mudam de rota, eles querem de novo fazer comunidade).

34E estes confirmaram: “Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!” 35 Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como o tinham reconhecido ao partir o pão.
(de fato, não era uma novidade o aparecimento de Jesus. O caminho não é ilusório, mas é real. Eles reconhecem Jesus, pois já tinham vivido um pré-catecumenato. A descoberta da ressurreição é a minha vida. Muitas vezes colocamos a tarefa da fé como compromisso, mas essa é muito mais uma atitude. O que devemos viver é a ressurreição, sermos seres ressuscitados, isso é o que importa).



[1] Nas aparições narradas por João e Lucas, os discípulos não reconhecem o Senhor no primeiro instante, mas somente após uma palavra ou um sinal, a razão disso é que permanecendo inteiramente idêntico a si mesmo, o corpo do Ressuscitado encontra-se num estado novo, que modifica sua forma exterior e o liberta das condições sensíveis (cf. Jo 20,19) . Sobre o corpo glorioso, leia 1Cor 15,44 .

quinta-feira, 24 de abril de 2014

De Rosemary Fernandes da Costa, obra reflete sobre Mistagogia hoje

Mistagogia hoje – O resgate da experiência mistagógica dos primeiros séculos da Igreja para a evangelização e catequese atuais é fruto de uma pesquisa longa, na bibliografia de referência, mas também da observação e escuta da autora nas comunidades religiosas, tanto nas escolas como nas equipes de pastoral de muitas paróquias. O objetivo é contribuir para que as comunidades encontrem caminhos para tantos desafios que vêm surgindo nos processos de evangelização que desenvolvem.
Mistagogia é uma palavra pouco usada, mas tem uma semelhança com a palavra “pedagogia” , bem conhecida de todos nós. O que muda é o prefixo. De acordo com a autora, seu sentido aponta para a atitude de conduzir para dentro do mistério, a arte de conduzir, de encaminhar, de orientar para a abertura, a escuta e as respostas pessoais e processuais ao que o Mistério nos revela e convoca.
“No Cristianismo, o mistério se revela em Cristo, então, a mistagogia é a condução sensível e carinhosa para a experiência de encontro profundo com o Deus revelado em Jesus. E esse Deus já está aí, no coração de cada pessoa, orientando, sinalizando, chamando à vida e ao bem. O mistagogo é, portanto, aquele que se coloca como mediador desse encontro, entre Deus e a pessoa; alguém que se sintoniza e vai de mãos dadas, auxiliando esse diálogo”, explica a autora.
O livro é chave de leitura para as comunidades locais, tanto aquelas que trabalham com a educação religiosa como para as que atuam na iniciação, formação e aprofundamento religioso. Além do diagnóstico, que muitas vezes nos angustia e até paralisa. Ele nos oferece uma nova (velha) compreensão da missão de evangelizar, mobiliza e motiva para repensarmos os grupos nos quais trabalhamos e participamos com um projeto fundado nas primeiras comunidades cristãs. “Quem se dedicar a essa leitura vai encontrar repouso, alimento, alegria e muita motivação para as experiências religiosas”, enfatiza Rosemary Fernandes da Costa.
No processo de elaboração da obra, a autora diagnosticou as questões presentes nas comunidades pastorais e pedagógicas que, na verdade, são próprias do paradigma moderno, no qual estamos imersos. Encontrou muitas orientações do Magistério atento às questões das comunidades: documentos tanto provenientes do Vaticano, como da CNBB. Retomou os estudos patrísticos, priorizando o final do século III e inicio do século IV, quando os Padres deram início ao Catecumenato nas comunidades. Nesta etapa, encontrou a experiência mistagógica, o coração de todo o processo catecumenal e, a partir dela, extraiu os principais aspectos que devem estar presentes em uma experiência catecumenal hoje para que seja um caminho mistagógico.
Rosemary Fernandes da Costa é doutora em Teologia pela PUC-Rio, onde também cursou seu bacharelado em Filosofia. Atualmente é professora da PUC-Rio, do Colégio Estadual Heitor Lira, e orientadora religiosa no Colégio Teresiano CAP/PUC. É criadora e coordenadora do curso de Pedagogia da Fé, no Centro Loyola de Fé e Cultura, função que também desenvolve na Arquidiocese do Rio de Janeiro. Assessora agentes de pastoral e formadores na área de Iniciação Cristã, Catequese e Catecumenato. Tem experiência na área de Teologia, com ênfase em Pedagogia da Fé.
Extraído de: www.paulus.com.br

sábado, 19 de abril de 2014

Vigília da Ressurreição no Sábado Santo


  
   Eurivaldo Silva Ferreira  
         Inicia-se esta celebração com uma fogueira do lado de fora da Igreja, na qual é aceso o círio, e solenizado com o canto do Exulte, que mais acentua um elogio à noite, aquela em que Cristo ressuscitou. Por isso, como sinal cósmico, a noite em que se realiza esta celebração é a lembrança daquela noite em que só ela testemunhou a ressurreição.
         Na noite do Sábado Santo, cantamos o esplendor de uma luz que jamais se apagará. Proclamamos as maravilhas de Deus que nos libertou das trevas da morte e nos devolveu à vida. Revigoramos nosso compromisso batismal. E enquanto nos alimentamos da ceia eucarística, cantamos: “Celebremos nossa páscoa na pureza, na verdade. Aleluia!”[1].
         Esta noite é considerada especial, pois é celebrada “em honra do Senhor”, por isso a chamamos como “mãe de todas as vigílias”, já que é nela que a Igreja toda permanece à espera da ressurreição do Senhor e celebra-a com os sacramentos da iniciação cristã[2].
         Já houve na história casos em que essa vigília foi antecipada para o período vespertino, chegando a ser celebrada pela manhã. Com a reforma da Semana Santa, a partir de 1955, Pio XII a retornou ao seu lugar de origem, ou seja, à noite.
         É uma noite memorável, pois lembra a libertação do povo hebreu, que livres da opressão do faraó, no Egito, atravessaram o Mar Vermelho a pé enxuto. Esta noite é para os judeus a lembrança de que Deus agiria em favor deles, libertando-os. Como memorial que deveria ser perpetuado, a pedido mesmo de Deus, nós a remetemos a Jesus, pois nesta noite, “Jesus rompeu o inferno, ao surgir vencedor da morte” (cf. Missal Romano)[3].
         É acentuada nessa celebração, bem como em toda a Semana Santa, a orientação de que pelo celebrar bem seja oferecido ao povo cristão a riqueza dos ritos e das orações[4]. Também fala-se da verdade dos sinais, uma questão que ainda temos que trabalhar muito em nossas celebrações, afinal a liturgia toda é feita de ações simbólicas e gestos, que devem ser realizados com tal dignidade e expressividade[5].
         A Vigília Pascal tem a seguinte estrutura:
         1. Na primeira parte começa com uma reunião fora da igreja, acendimento e bênção do fogo novo com solene procissão e apresentação do Círio Pascal, símbolo de Jesus ressuscitado, que vence a escuridão da noite. Em elogio à noite e ao círio é cantado um hino (o Exulte Pascal);
         2. Na segunda parte a Igreja contempla as maravilhas que Deus operou em favor do seu povo desde o início. É neste momento que são lidas as leituras que resgatam a ação de Deus libertando o seu povo. Todas as nove leituras desta noite são intercaladas por orações e salmos responsoriais, que favorecem a meditação e o silêncio. São sete leituras do AT e duas do NT: a Carta de Paulo aos romanos e o Evangelho. O zelo estético que se dedicam os leitores e cantores deve estar em atenção ao plano da participação mais atenta, vive e interior da assembleia.
         3. A terceira compreende às orações e o batismo daqueles que passaram por um processo catecumenal. Por eles se rogam, pede-se a intercessão dos santos e santas de Deus, a fim de que permaneçam nesse itinerário, agora sendo parte do povo de Deus. A assembleia de batizados também faz memória de seu batismo, ocasião em que foram regenerados pela água da vida, saindo de uma situação de morte.
         4. Na última parte, a liturgia eucarística, ápice de toda a celebração, toda assembleia, inclusive os que foram batizados, são convidados à mesa, preparada pelo Senhor para o seu povo, como sinal memorial da sua morte e ressurreição. É um sentido que podemos chamar de escatológico, em que se tem em mente a espera do Senhor que um dia virá.
         É nesta noite que voltam com toda a força o Hino de Louvor e o Aleluia, que são cânticos da assembleia ressuscitada, sinal do povo que se põe de pé, como a multidão do Apocalipse vestida de branco, rumo à Jerusalém celeste.
         Nesta noite a páscoa de Cristo se faz a nossa páscoa, celebrada pela forma do sinal, ou seja, do sacramento. Os elementos cósmicos desta celebração: fogo, água, pão e vinho, nos recordam a atuação de Deus no plano da história da humanidade, que quer salvá-la, ‘pascalizando-a’ por meio de Cristo Jesus.

Vigília Pascal, o que deve ser levado em consideração:
Nas leituras:
         Nas leituras da Vigília Pascal, começando por Moisés e seguindo pelos profetas, a Igreja interpreta o mistério pascal de Cristo. Essas leituras descrevem os acontecimentos culminantes da história da salvação, que os fiéis devem poder tranquilamente meditar por meio do canto do Salmo responsorial, do silêncio e da oração de quem preside[6].
         Importante lembrar que o significado tipológico das leituras do AT tem suas raízes no NT, e aparece sobretudo na oração pronunciada por quem preside depois de cada uma das leituras. Uma breve introdução, para chamar a atenção dos fiéis, poderá ser também útil para que se compreenda o significado das mesmas[7].
         Abaixo segue um esquema, deixado como exemplo de como as equipes de celebração poderão estudar as orações entre as leituras, a fim de que preparem suas introduções e comentários, ou até mesmo ajudem as comunidades a prepararem melhor essa celebração, por meio de um retiro, por exemplo:
Oração após 1ª leitura:
Significação tipológica
Ó Deus,
à luz do Novo Testamento nos fizestes compreender os prodígios de outrora
prefigurando no mar Vermelho a fonte batismal e,
naqueles que libertastes da escravidão, o povo que renasce do batismo.
Concedei a todos os povos que, participando pela fé do privilégio do povo eleito, renasçam pelo Espírito Santo.

Por Cristo, nosso Senhor.

Invocação
Memória (anamnese): recorda que a própria Palavra de Deus é interpretada por si (o NT explica o AT e vice-versa).
1º elemento tipológico: Mar Vermelho = fonte batismal
2º elemento tipológico: povo liberto da escravidão = povo renascido pelo batismo.
Súplica (pedido): que todos os povos participem pela fé do privilégio de pertencer ao povo eleito (ou seja, que todos tenham acesso às águas batismais).
Intercessão

         As leituras desta noite têm caráter bastismal. É através dela que o catecúmeno se conscientizara da ação de Deus atuando em sua vida através dos sacramentos. O relato dessas leituras nos faz entender que pertencemos a um povo que tem sua origem na criação do mundo, em Gênesis, e que se concretizou com Abraão, no intuito de percorrer lugares ainda incertos, mas sempre com a companhia de Deus, muitas vezes passando por momentos de opressão e de medo, até que aparece um libertador, que nos faz passar pelas águas da vida, mudando de uma situação de penúria para uma realidade de libertação. Foi assim mesmo que aconteceu com Jesus e com os profetas. Tinham o Espírito de Deus consigo, que os animava a sempre fazer a vontade de Deus, que os abastecia, com um coração novo, com água e com sua sabedoria. Nesta celebração, ouvindo esses relatos, somos reabastecidos com a fonte viva, a fonte batismal, e sabendo que o que aconteceu com Jesus é o mesmo que acontecerá com a gente (Deus não nos deixará abandonado na região dos mortos), cantamos sua ressurreição, explodindo num ‘louvai a Deus’, expressão do Aleluia pascal, porque Cristo é o protótipo do vencedor, daquele que, passando pela escuridão da noite, soube vencer o medo, a tristeza, até mesmo a morte. Por consequência disso, partilhamos alegres, pão e vinho, para a nossa ceia com o Senhor e com os irmãos, e prolongamos essa alegria por todo o tempo pascal, até Pentecostes, ocasião em que a Igreja se vê ajuntada nessa esperança espiritual de ser dom para a vida do mundo.
        
         Nos Salmos:
         Salmo 103 (104): relata a criação, que não é apenas boa, mas é sagrada, e é descrita e pensada na Bíblia dentro do esquema da história da salvação, ou melhor, como primeiro ato da história. As estruturas que sustentam a criação são o Espírito de Deus e a sua Palavra. Essa narrativa da criação, na qual se faz nova à luz da experiência pascal, a Igreja a lê na noite da Páscoa[8]. Contemplando este salmo, Santo Agostinho diz que ‘o trabalhador divino põe diante dos nossos olhos as maravilhas da sua obra, para estimular o nosso coração’[9].
         Salmo 15(16): este salmo exprime, na oração, o abandono confiante em Deus, em cujas mãos é colocada a vida. A referência a Cristo ressuscitado está evidente no versículo: “E minha carne repousa em segurança, porque não me abandonarás no túmulo, nem deixarás o teu fiel ver a sepultura”[10]. Relata a experiência de alguém que confia plenamente no Senhor, renunciando até a não obedecer a outros deuses; em meio a alegria, sente-se seguro, pois sabe que em Deus tem a garantia segura de que ele nem na morte o abandonará[11].
         Êxodo 15: é o término da terceira leitura. Uma espécie de continuação cantada daquilo que já foi lido. Naturalmente é com esse texto que se desenvolve a tipologia batismal em que se lembra da páscoa-passagem e da páscoa-paixão[12].
         Salmo 29: este salmo é a ação de graças de uma pessoa que se viu curada de uma doença mortal. O salmista começa por glorificar o Senhor pelo que lhe fez, a seguir convida os fieis a cantar salmos, só então dá inicio ao relato do que lhe aconteceu, por ter confiado nas forças do Senhor[13]. Seus versículos são uma exaltação e um louvor ao Senhor “que tirou do túmulo a minha vida, que me fez reviver dentre os que baixam à cova”, com evidente referência a Cristo ressuscitado[14].
         Isaías 12,1-6: a celebração da páscoa, sacrifício de aliança universal, torna-se atual para nós no convite à salvação que o profeta Isaías nos dirige na leitura anterior (cf. Is 55,1-11). Esta salvação é celebrada com ação de graças pelo próprio texto do profeta[15].
         Salmo 18(8-11): este salmo celebra a lei do Senhor. Se o pecado nos afastou de sua lei, o Espírito Santo, sabedoria divina, nos reconduz a esta família e faz com que nela permaneçamos[16].
         Salmo 41: com este salmo a assembleia expressa o desejo do encontro com Deus. Santo Agostinho viu neste salmo a oração dos catecúmenos, que se dirigiam para a graça do batismo, a fim de obter a remissão dos pecados e saciar a sua sede espiritual na fonte de água viva, que é Cristo Senhor. Com os versículos deste salmo expressam-se os sentimentos de alegria e gratidão pelo dom de aproximar-se do altar da eucaristia[17].
         Aleluia: Santo Agostinha dizia ao seu povo: “Com o canto do Aleluia nós expressamos a época de alegria, de repouso e de triunfo representada aqui em baixo pelos dias do tempo pascal. Contudo, ainda não possuímos o objeto de nossos louvores, mas suspiramos à procura do verdadeiro Aleluia. O que é que significa Aleluia? Louvai a Deus... Se, após a ressurreição do Senhor, este louvor multiplicou-se na Igreja, isto significa que após a nossa ressurreição nós o cantaremos sem interrupção. Assim, caríssimos, louvemos então o Senhor; repitamos Aleluia. Representamos nestes dias do tempo pascal o dia que não terá fim; apressamos o nosso caminho em direção à morada eterna... Cantamos Aleluia, mas ainda como peregrinos e, cantando aliviamos as nossas fadigas; canta e caminha”[18].

Nas orações presidenciais:
         Após 1ª leitura: coloca em relevo o significado da 1ª leitura (admirável grandeza de Deus tão grande no começo do mundo quanto na plenitude dos tempos).
         Após 2ª leitura: interpreta o texto do Gênesis em sentido batismal (responder à graça do chamado através do batismo)
         Após 3ª leitura: expressa a tipologia batismal do Êxodo (a água que liberta da opressão é a mesma que acolhe para Deus, como filhos seus)
         Após 4ª leitura: expressa o pedido de multiplicação dos descendentes (filhos), para que a Igreja possa ver o desígnio de salvação já acreditado pelos pais.
         Após 5ª leitura: sublinha o hoje da salvação (reavivar a nossa sede de salvação e progredir nos caminhos da justiça pela força do Espírito)
         Após 6ª leitura: invoca a proteção divina sobre aqueles que Deus fez renascer na água do batismo.
         Após 7ª leitura: suplica para que se realize na Igreja, sacramento de salvação, a obra do Filho e que ela seja sinal para o mundo.
         Após o Hino de Louvor: acentua a ressurreição de Cristo que ilumina esta noite santa, e suplica o despertar em todos o espírito filial para sermos fiéis ao serviço (servir de coração).
         Na Oração sobre as oferendas a Igreja suplica ao Pai que a vida que brota do mistério pascal seja por sua graça penhor da eternidade. Na     Oração pós-comunhão o pedido é que o Pai derrame em todo o povo o seu espírito de caridade, para que, saciados pelos sacramentos pascais, permaneçam unidos no seu amor. O Prefácio nos lembra que Cristo é o Cordeiro, que com sua morte, destrói a própria morte, a fim de que nos dê a vida.

  Na liturgia batismal:
         O sinal a ser evidenciado agora é a água. A atenção da assembleia se volta nesta parte da celebração à fonte batismal. A fonte batismal é o lugar onde a Páscoa de Cristo se fez nossa, no sinal de água e na procissão da fé trinitária. A fonte tem dois sentidos: túmulo do pecado e ventre materno de onde nasce a vida (Cirilo de Jerusalém). Desde os primeiros séculos a Igreja ligou a celebração do batismo à noite pascal. O texto de Paulo (Rm 6,3-4: sétima leitura) desenvolveu a teologia batismal, ligada com a ressurreição de Cristo: batismo é ressurgir com Cristo para uma vida nova.
         Assim, os Pais da Igreja (Cirilo de Jerusalém, Gregório de Nazianzeno e Ambrósio), no século II, ignorando a teologia batismal ligada à passagem do mar Vermelho, desenvolveram uma nova teologia batismal, aplicando ao batismo como um “sacramento pascal”, porque é “sacramento da paixão de Cristo”; posteriormente no século IV, o caráter pascal é visto, de preferência, no fato de ser “sacramento da ressurreição” (Tertuliano, Basílio e Agostinho). No entanto, foi Melitão de Sardes quem desenvolveu uma teologia do batismo ligada ao martírio: “Duas coisas provocam a remissão dos pecados: o martírio por Cristo e o batismo”.
         A oração de bênção da água lembra através das Sagradas Escrituras todos os grandes temas batismais acima expostos. A bênção da fonte significa que a graça do batismo não brota da água como elemento material, mas do Espírito Santo que a santifica. Isso é expresso através do sinal da imersão do círio na fonte batismal. O batismo é ministrado nesta hora e, em seguida, toda assembleia renova as promessas do batismo.

Na liturgia eucarística:
         É o coração da vigília pascal. Tudo o que a Igreja realiza durante todo o ano litúrgico converge para esta missa e parte desta missa pascal. É nesta celebração que se realiza verdadeiramente a instituição da Eucaristia, pois Eucaristia é mistério pascal vivido e assimilado pela assembleia reunida em torno de Cristo ressuscitado, com os sinais de pão e vinho, corpo e sangue doados pela vida do mundo.

         Conclusão:
         É urgente que o povo seja esclarecido sobre esses pontos. Mas, de que forma? É simples. A liturgia é realizada por ações simbólicas, por isso é só fazer um esforço conjunto de realizar essas ações e os gestos da liturgia com dignidade e expressividade, de maneira que todos possam verdadeiramente compreender o significado das orientações o orações litúrgicas[19]. O significado também passa pela verdade dos sinais, isto é, que os símbolos usados correspondam verdadeiramente àquilo que se propõem expressar. Melhor dizendo, que o símbolo não seja uma imitação ou um simples objeto que adentra a liturgia sem cumprir sua real função. O sinal visível, que é o símbolo, deve nos reportar a uma realidade invisível, sobretudo se o povo pode perceber no sinal essa realidade, melhor ainda o símbolo cumprirá sua função.
         Do ponto de vista pastoral há de se argumentar por uma tipologia visível ao Tríduo Pascal. A linguagem dos fatos e da sua recíproca relação na unidade do plano de Deus é uma linguagem universal de qualquer inteligência. É a linguagem da Bíblia e, portanto, também da liturgia[20]. Há de se contemplar no tempo da Quaresma retiros especiais para que povo possa melhor vislumbrar toda a riqueza mistagógica de que compõe essas celebrações. É nos retiros quaresmais que se deve contemplar essa linguagem bíblica e litúrgica. Um cuidado especial deve ter as equipes ligadas à liturgia desta semana, proporcionando a todo povo uma participação ativa, frutuosa e consciente, e não fazendo com que o povo se torne simplesmente um expectador.
         É bom que as celebrações do Tríduo Pascal conservem plenamente a unidade da obra da redenção e do mistério de Cristo. Como se dá isso? O caráter representativo e teatral deve ser abandonado, dando lugar ao caráter pascal, cujo pano de fundo está na origem do Tríduo. Por isso, Bergamini orienta que na Quinta-feira comemoraríamos a Pascoa-ritual; na Sexta-feira, a Páscoa-paixão, e, na Vigília pascal, a Páscoa-ressurreição[21]. Indicamos nesse processo uma graduada mudança de compreensão das nomenclaturas e dos títulos dados a esses dias. Tendo analisado muitos folhetos e folders da programação da Semana Santa de muitas comunidades, ainda encontramos resquícios de uma compreensão ainda pré-conciliar, ou pouco voltada àquela com que tratavam os Pais da Igreja e as primeiras comunidades. Muitos desses folhetos voltam-se mais especialmente ao vislumbre das encenações e das procissões com chamariscos ao caráter devocional acentuadamente caracterizado nesta Semana. Esquecem-se até das orientações lúcidas da carta de Preparação para as Celebrações das Festas Pascais. Há, sobretudo, um exagero dado à adoração do Corpo do Senhor, prolongada até a Sexta-feira da Paixão, com grupos se revezando no lugar da reposição, contrariando até mesmo o que orienta a carta de Preparação para Celebrações das Festas Pascais[22].
         Ainda há um exagero acentuado dado ao sacramento da Reconciliação, devido ao mandamento da Igreja: ‘confessar-se ao menos uma vez por ano por ocasião da páscoa da Ressurreição’. Preocupa-nos o fato de que este sacramento deixou de ter  seu sentido celebrativo passando para uma obrigação moral. Com essa preocupação, o sacramento perde sua característica batismal, pois a identidade do batizado é caracterizada por seu discipulado, que ao longo do ano litúrgico, vai vivendo esse itinerário pedagógico de conversão. Há muitas outras oportunidades durante o ano litúrgico em que se deveria ligar o sacramento da reconciliação com a liturgia do domingo, como por exemplo, o domingo do Filho Pródigo no Tempo Comum. Logo, a conversão que se deseja é que se recupere a identidade de batizados, de povo sacerdotal e não uma leitura que se entende de que se entrou num processo de privatização excessiva do pecado, a ponto de conclamar a todos que confessem seus pecados.
         Um exemplo bem concreto desse itinerário de reconciliação nos é dado pelo Ritual de Iniciação Cristã de Adultos (RICA), que prevê pequenas celebrações ao longo do processo do catecumenato, chamadas de escrutínios, que são uma espécie de apuração[23] da conversão. O ritual é muito realista, com essas pequenas celebrações e encontros, orienta o catecúmeno a tomar consciência daquilo que já mudou em sua vida e do que ainda é preciso mudar, de forma gradual. Isso é feito durante os escrutínios, que acontecem durante o tempo da quaresma. Os escrutínios não são chamados de celebrações penitenciais. O escrutínio é oferecido para os neo-batizados e o sacramento da reconciliação para os já batizados. No catecumenato, segundo o RICA, quem não é batizado pode se confessar sim, só não recebe a absolvição durante o catecumenato, se for apenas receber os sacramentos da Confirmação e Eucaristia. O adulto, na medida em que vai crescendo nesse caminho, tem necessidade de falar de sua vida, de desabafar, de falar de suas faltas, é um processo de reconciliação que vai se dando aos poucos, no cotidiano de sua existência vital. É bom que não os impeça de fazer isso. Neste sentido, a comunidade toda que já é batizada, pode ajudar esses catecúmenos no itinerário de fé. Antigamente falava-se de um tempo de prova. Esse não aparece no ritual. O RICA prevê que se saia da mentalidade do sofrimento do pecado, enfatizando com seus ritos e celebrações o valor da graça, dando destaque a essa. Será se conseguimos descobrir a importância da graça de Deus atuando em nós em todo o ano litúrgico?
         É preciso resgatar que durante todo o ano litúrgico é motivo de reconciliação para com os outros, que formam o povo de Deus, a Igreja, e que a confissão não é o centro do sacramento, mas é a reconciliação com os outros, com o mundo, com o cosmos. Quiçá nos comprometêssemos com isso, não apenas durante a Quaresma e a Semana Santa, mas durante todo o ano. Portanto, é necessário se resgatar o significado sacramental das liturgias da Semana Santa como um todo, a fim de que possamos entender com maior clareza os mistérios de nossa fé que se estendem por todas as celebrações. Seguramente entenderemos o próprio Mistério Pascal, fonte e origem de nossa fé.



[1] Guia Litúrgico-pastoral, CNBB, 2ª edição, p. 87-88
[2] PCFP, 77.
[3] PCFP, 52.
[4] PCFP, 93.
[5] PCFP, 82.
[6] PCFP, 85.
[7] PCFP, 86.
[8] Bergamini, Augusto. Cristo, festa da Igreja, p. 361.
[9] Saltério litúrgico, p. 469.
[10] Ibidem, p. 361.
[11] Saltério litúrgico, p. 61.
[12] Ibidem, p. 362.
[13] Saltério litúrgico, p. 130.
[14] Ibidem, p. 363.
[15] Bergamini, Augusto. Cristo, festa da Igreja , p. 363.
[16] Ibidem, p. 364.
[17] Ibidem, p. 364.
[18] Ibidem, p. 364 apud Santo Agostinho, Enarr. In Os 110,1: PL 37, 1463.
[19] PCFP, 82.
[20] Bergamini, Augusto. Cristo, festa da Igreja, p.314.
[21] Ibidem, apud cf. RL 5/1989, numero monográfico sobre o Tríduo Pascal. Para o argumento, ver o artigo: Dalla storia del Triduo Pasquale ai problemi litúrgico-pastoral di oggi, pp. 529-540; a citação encontra-se na p. 540.
[22] A capela da reposição é preparada com a finalidade de conservar o pão eucarístico para a Comunhão, que será distribuída na Sexta-feira da paixão do Senhor. Os fieis permanecem no lugar da reposição até a meia noite, após esse horário, seja feita a adoração sem solenidade, pois já começou o dia da paixão do Senhor, cf. PCFP, 55-56.
[23] Apuração é quando se faz doce, diminuir a água, dar mais densidade ao doce; mexer o doce pra que ele fique mais consistente.