sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Inculturação, celebração e os gestos de Jesus


Os gestos de Jesus são repetidos pela Igreja,
na liturgia eucarística
 ... e disse-lhes: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco antes de sofrer; pois eu vos digo que já não mais a comerei até que ela se cumpra no Reino de Deus.” Então, tomando um cálice, deu graças e disse: “Tomai isto e reparti entre vós, pois eu vos digo que não beberei doravante do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus”. E tomou um pão, deu graças, partiu e deu a eles, dizendo: “Isto é o meu corpo que é dado por vós. Fazei isto em minha memória. E, depois de comer, fez o mesmo com o cálice, dizendo: “Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue que é derramado por vós.”
(Lc 22,15-20)


... na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças partiu-o e disse: “Isto é o meu corpo que é por vós. Fazei isto em minha memória. E, do mesmo modo, após a ceia também tomou o cálice, dizendo: “Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue; todas as vezes que dele beberdes fazei-o em minha memória.”
(1Cor 11,23-26)

Na última ceia em que Jesus se reuniu com seus discípulos os evangelhos narram quatro gestos: 1) tomou o pão, 2) deu graças, 3) partiu o pão 4) e deu a seus discípulos. Na missa, presenciamos esses quatro gestos de uma maneira bem visível. Vejamos o seguinte esquema:

Gestos de Jesus na última ceia:              Correspondente ritual na missa
Tomou o pão.............................................Apresentação das oferendas
Deus graças...............................................Toda Oração Eucarística
Partiu o pão................................................Cordeiro de Deus
Deu a seus discípulos..................................Comunhão

É bom lembrar que esses ritos estão ligados com a nossa casa. Em nossas casas, quando comemos, costumamos sempre fazer isso: antes de sentarmos à mesa, oramos, bendizendo ao Senhor pelo alimento, depois partilhamos a comida entre os familiares e eventuais convidados.

A Igreja primitiva, percebendo o gesto cotidiano da partilha nas casas, quis levar esse gesto para as celebrações. A esse aspecto do cotidiano que invadiu as celebrações das comunidades primitivas, nós chamamos de inculturação. Podemos afirmar que a Igreja já nasceu inculturada, é claro que vários elementos sofreram transformações, foram melhorados até chegarmos aos ritos que celebramos hoje. Inculturação também pode ser chamado de um processo dinâmico de a Igreja se relacionar com o transcendente, desenvolvido com o tempo e com a história. De fato, a Igreja acolhe todos esses gestos a fim de que estes sejam purificados à luz do Evangelho, perenizando sua ação ritual no templo e no mundo.

O processo de inculturação deve ser encarado à luz dos valores evangélicos, assumidos por uma determinada cultura, povo ou região, com uma condição: se nesta cultura, povo ou região fazer-se encontrar algo que seja merecedor de uma transformação à luz do evangelho, e seja nele(a) aplicada, desenvolvida e vivida, sem detrimento dos valores essenciais e primários ali já pré-existentes.

O processo de inculturação foi sentido muito mais pela liturgia. Vários textos sofreram influência de línguas, de gestos, de linguagens e de formas, sobretudo advindo de sociedades, reinos e pessoas influentes do mundo antigo.

Até hoje a Igreja continua se inculturando, principalmente depois do Concílio Vaticano II quando se deu a tão sonhada renovação da Igreja e da liturgia.

Inculturação foi o que Jesus fez. Ele, sendo de origem judaica, numa ceia judaica, aproveita-se de rituais estritamente judaicos para expressar e atualizar a sua passagem libertadora a partir de sua paixão, morte e ressurreição. Portanto, é num evento judaico que ele pede que perpetuemos essa memória, em seu nome.

Analisando os gestos de Jesus e transportando-os para a celebração da missa, podemos afirmar que na missa os gestos do passado, que foi histórico, tornam-se agora atuais, de forma memorial, e a comunidade reunida os vivencia, de modo que, esta mesma comunidade, vivendo seu presente, olha para o futuro, para o que há de vir, para o que chamamos de parusia. Por isso a liturgia tem procurado expressar pelo rito a preocupação de “atualizar” o significado da história sagrada enquanto meta futura.

Os gestos de Jesus na sua ceia iniciam-se em forma de sinal, sob o prisma do próprio banquete nupcial, aquele que deverá ser no céu, no Reino do Pai, aquele mesmo banquete messiânico anunciado pelos profetas. O próprio Jesus pediu que seus discípulos perpetuassem esse gesto, e concluiu com a frase: “Eu garanto a vocês: nunca mais beberei do fruto da videira, até o dia em que beberei o vinho novo no reino de Deus” (Mc 14,25).

O espaço deste artigo é curto para analisarmos de maneira mais sistemática os gestos de Jesus em sua última ceia. No entanto, procurarei me ater em apenas dois gestos: “tomou o pão” e “tomou o vinho”. Vejamos:

E tomou um pão:

Tomar o pão na mão. O que isso quer dizer? Pra Jesus, pão e vinho são ele mesmo. Suas palavras se relacionam com o seu gesto, o da entrega, também se relacionam com o novo alimento instituído por ele, a eucaristia. Jesus faz desse gesto ritual, presente na história, uma ligação com aquele banquete último e vindouro no reino de Deus, banquete este que levará à plenitude este outro banquete, humilde e modesto, o qual quis ele mesmo celebrar com os seus às vésperas de sua morte. De fato, Jesus toma em suas mãos a história do mundo, do universo, de cada um/a de nós e faz essa história ser promessa futura. É desse mesmo banquete futuro que nos fala os capítulos finais do livro do Apocalipse, apresentando o Cristo como aquele que restitui a morada eterna aos que foram lavados pelo sangue do Cordeiro.

E para nós? O que significa tomarmos na mão o pão eucarístico? Um monge alemão diz que antes de comermos o pão é preciso tomá-lo nas mãos. O que significa isso? Quer dizer que tomar o pão nas mãos é tomar a história nas mãos. O que tomamos na mão, então? A nossa própria história, o trabalho de quem plantou, de quem colheu, de quem preparou, de quem produziu, de quem vendeu e comprou, de quem transportou e chegou até nós. Na história também encontramos elementos contraditórios, por exemplo, o fato de alguns terem comida e outros não terem o suficiente ou nada terem pra comer; a própria energia cósmica, esse mistério de se plantar um grão, a planta crescer, produzir frutos, fazer a farinha, amassar o pão, assar o pão etc. Tem um trabalho processual decantado pela própria natureza o qual escapa de nossos olhos. Na natureza várias energias cósmicas atuaram nesse grão para que ele germinasse e se transformasse em planta, a chuva, o ar, a terra, o sol. É o que podemos associar ao aspecto ecológico, cósmico.

Quando pensamos nesse pão, não é só o pão, matéria feita de trigo e água, sem fermento, mas o pão de todas as mesas, aquele pão que simboliza a comida nossa do dia-a-dia, que nos reconstrói para atuarmos na história, na nossa história. É o que podemos associar ao aspecto antropológico, do ser pessoa, de nossa pessoalidade que precisa se manter, que precisa de energia vital, de comida, de bebida. Pensamos também na dureza que o povo vive pra conseguir o pão essencial. Pensamos no pão que sobra, no pão que é jogado fora.

De fato, muitos aspectos estão ligados ao “tomar o pão nas mãos”. Quiçá, gestos e palavras possam nos conscientizar e nos transportar ao invisível. Afinal, só vivemos a liturgia da Igreja se aplicarmos no mundo seus sinais sacramentais.

E, do mesmo modo, após a ceia também tomou o cálice

Dentro do cálice o vinho. O vinho na cultura dos povos mediterrâneos estava ligado à questão da alegria. Ainda o é hoje. A alegria nos permite viver momentos bons da vida e com isso comemorar, beber com os amigos, festejar, tomamos vinho quando estamos em momentos especiais de nossa vida. Mas, quando podemos festejar, nos alegrar, tomar vinho? Nas bodas de Caná o vinho falta, e Jesus providencia vinho novo para aqueles convidados. O vinho novo é então o próprio Jesus, aquele que enche a sétima talha de pedra, completando àquele povo aquilo que lhe faltava. Pelo sinal do vinho novo de Caná, a alegria plena, total.

O cálice também está ligado ao cálice da amargura, da dor de Jesus, da dor humana, da dor da humanidade. Jesus, em alguns momentos de sua vida pediu que o Pai afastasse dele o cálice. Não se trata de interpretar esse cálice como se fosse uma recusa de Jesus, mas ele mesmo, como humano, sentiu na pele a dor, a amargura, e até chorou. A dor de Jesus é a nossa dor, é a dor do mundo. Ele mesmo reza no monte da agonia pela unidade das pessoas, daqueles que levarão sua imagem ao mundo. Mas Jesus quis que esse mesmo cálice pudesse estar presente na sua ceia, em que, de uma forma ritual, fazia sua entrega última. No conteúdo do cálice seu próprio sangue. No próprio cálice se misturam agonia e glória, sofrimento e alegria.

Concluindo...

Quando tomamos na mão pão e vinho, a Igreja toma nas mãos a própria humanidade, com seus sofrimentos, seus anseios. A Igreja faz os mesmos gestos de Jesus celebrando a eucaristia. É um gesto simples, mas é um sinal carregado de sentido.

Como sinal sensível, a mesa eucarística se torna o centro, assim como nos ritos iniciais da celebração da missa o centro é a mesa da Palavra. Todo esse sentido nos relaciona e nos liga à mesa de Jesus e à mesa da história, que é a nossa história humana.

Penso que seja o suficiente para o leitor fazer uma reflexão e analisar por si só o porquê da relação dos gestos de Jesus com nosso jeito de celebrar, principalmente porque a presença atual de Cristo na eucaristia não pretende anular nem substituir aquela presença a que ele manifestará no fim dos tempos; pelo contrário, a eucaristia, vivida com seus ritos e formas, suas preces e ações gestuais, reaviva a estimula ardentemente em nós o desejo de apressar essa manifestação. Por isso dizemos no núcleo da Oração Eucarística: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus”.

Está aí todo o sentido de vivenciarmos na eucaristia palavras que fizeram parte de um contexto histórico, mas que agora, no hoje de nossa história, se tornam rito e ação gestual, e que nos empurra para um futuro, para o que há de vir.

Em outras palavras, o conteúdo da liturgia deve, no presente, expressar e celebrar, em forma de memorial do passado, a antecipação do futuro. É esse o mistério pelo qual só podemos perceber por meio da fé. Ela é carrega em seu bojo um conteúdo orientador para nos mantermos de pé, vivos.