terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A Morte, o Mistério, as catástrofes e Deus (dor em Santa Maria)

Rodrigo Szymanski

É tão estranha, a morte é estranha. É mistério, chegada e partida. E quando ela chega, traz a dor, lagrimas nos olhos, lagrimas na alma. É mistério. É dor sem tamanho. A morte por muitas vezes é tratada como banal. A vida não é levada a sério. Pessoas morrem a todo o momento. Não faz diferença.
Mas a morte quando se apresenta como flagelo coletivo, traz dor coletiva, sentimentos coletivos... e faz com que o coletivo sobressaia o individual. Não conheço, não sou de lá... mas a dor e os sentimentos que a morte traz gera em mim também o Mistério da finitude, dos sonhos infinitos condenados a nossa finitude mundana ...

Quanto vale uma vida? A vida se faz frágil, de uma noite em uma “balada” ao dolorido da morte que chega sem avisar... Quanto vale uma vida?
A morte e seus mistérios, a morte e sua prepotência sobre a vida... A morte que aproxima as pessoas, que nos torna mais humanos, mais caridosos, mais solidários com a dor alheia, o mistério da morte que faz chegar às pessoas a sua humanidade! Frágil humanidade.

Desta dor, desta revolta com a morte, nossa humanidade frágil e coletiva se aproxima do divino. Aquele silencio, aquela prece, aquela oração. E Deus se revela na Dor, no sofrimento, na Morte. Não como senhor prepotente que tira a vida, mas como Pai-Mãe que acolhe, abraça, chora com cada um... a Plenitude do Mistério Divino do cuidado, o Cuidado prevalece, o Cuidado acolhe... Deus, se torna conforto, Deus se torna nossa dor, sentimentos, humanidade, solidariedade, cuidado...

O Mistério da morte será sempre o mistério que trará a nós as perguntas, as duvidas, as revoltas, que sempre revelará um Deus Vivo, Humanizado e solidário...


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Curso sobre Liturgia na Catequese aconteceu no Rio de Janeiro

56 participantes integraram esta 1ª Etapa do Curso Liturgia na Catequese
Promovido pelo núcleo da Rede Celebra de Animação Litúrgica (Duque de Caxias-RJ), aconteceu no Rio de Janeiro, no Colégio Regina Coeli, Tijuca, entre os dias 14 e 20 de janeiro, o curso sobre Liturgia na Catequese.

A motivação que levou a equipe a promover este curso parte do sentido de que se introduz a criança na catequese para ela mesma descobrir o mistério à qual pertence, não só o mistério de Cristo, mas o mistério da vida dela unida a Jesus. Não se trata aqui de apenas apresentar o mistério de Jesus, porém, é perceber que no itinerário catequético esse mistério da vida de Jesus implica na vida da criança. Assim inicia-se uma vida moldada pelas atitudes cristãs.

Contudo, para que a criança ou o catecúmeno (aquele que está no processo de iniciação à vida cristã) seja introduzido na vida cristã, é necessário que se viva também uma vida em conformidade com a Liturgia. O/a catequista consciente de que esse processo é imprescindível, colabora para que o iniciando, aos poucos seja introduzido na vida litúrgica, por meio de uma metodologia adequada e auxiliado por manuais criteriosos e com fundamentos.

A vida espiritual do catequista também é levado em conta, pois, em muitos casos ele/a torna-se como que um referencial inspirador para a criança perseverar na vida de fé. Nesse sentido, ao longo da catequese o/a catequista vai conduzindo os encontros não só caracterizado pela exposição de conteúdos doutrinários, mas tendo como eixo também a liturgia. Assim, ele mesmo pode presidir as bênçãos, as orações e celebrações, que acabam por se tornar conteúdo dos encontros. Todos esses elementos que pertencem à linha da liturgia, dão suporte aos temas catequéticos. De fato, constata-se uma carência nos manuais catequéticos existentes no Brasil com relação a oferecer uma catequese litúrgica fundamental.

Outro elemento motivador é o de que a catequese de iniciação, seja qual for a idade do iniciando, deve supor o despertar – ou o novo despertar da fé – em Jesus Cristo. Esse despertar vai acontecendo gradualmente, na medida em que se vai formando o iniciando para ouvir e praticar a Palavra de Deus. É nesse caminho metodológico, proposto pela Palavra, que o encontro com o Senhor vai acontecendo, ao ponto de ter sua culminância na liturgia da Igreja, sobretudo na participação plena na celebração eucarística, que deve ser a meta para a iniciação à vida cristã.

Realizado em duas etapas (janeiro/2013 e janeiro/2014), o curso tem como objetivos:
- Buscar e desenvolver em conjunto uma metodologia apropriada para introduzir na participação da liturgia da comunidade cristã cume e fonte da vida cristã.
- Capacitar o catequista para a preparação e a presidência das celebrações da Palavra, dos ritos e dos momentos de oração, nos diversos tempos e festas litúrgicas.
- Explicitar a relação entre os conteúdos da catequese e os ritos (com sua base antropológica e atitude espiritual e a pedagogia correspondente).

Confira abaixo os conteúdos temáticos das duas etapas:

1ª etapa do curso:
1. Liturgia na catequese: leitura da realidade e dos documentos da Igreja.
2. Descoberta do mistério de Cristo na própria vida, pelo batismo recebido ou pela fé e pelo desejo de ser batizado.
3. Confiança e oração pessoal como expressão de fé inicial no Pai e em Jesus Cristo, ponto de partida da catequese, juntamente com o indício de mudança de vida e o desejo de viver  em Cristo e no Espírito.
4. As três etapas da iniciação cristã e os ritos catecumenais, segundo o RICA.
5. Pedagogia da oração comunitária no encontro de catequese. Teologia da oração. Formas de oração. Introdução aos salmos, cânticos bíblicos e hinos litúrgicos.
6. Presidência de orações e de bênçãos, por parte do catequista, no encontro de catequese, segundo o RICA.
7. A Palavra de Deus no encontro de catequese, na liturgia e na oração pessoal. O método da leitura orante.
8. Celebração da Palavra: fundamento, escolha das leituras, elementos, sequência, presidência.
9. Teologia da liturgia. Pedagogia das atitudes e ritos fundamentais da Eucaristia e da liturgia em geral. O domingo e os ciclos da páscoa e do natal.
2ª etapa do curso:
1. O sacramento da Reconciliação. Catequese, pedagogia, tempo, celebração.
2. O sacramento da Eucaristia. Catequese, pedagogia, participação. O “Diretório da Missa com Crianças”.
3. Tempo de preparação imediata, segundo o RICA.
4. A missa de primeira comunhão. A celebração do batismo e a renovação das promessas batismais.
5. Tempo de mistagogia, após a celebração dos sacramentos, segundo o RICA.
6. Fundamentos da relação liturgia e catequese.

Quanto à metodologia do curso, primou-se pela interação entre participantes e assessores, o que aconteceu sempre de forma permanente, sendo a linha-mestra da exposição dos conteúdos. Neste processo o que conta é a experiência pessoal, a espiritualidade e a vivência, que num constante diálogo, permeiam a fundamentação teórica. É claro que nessa primeira experiência, o que se quer objetivar também é que se vá moldando esse processo meio que novo, mas tão antigo, de uma catequese litúrgica.

Para a segunda etapa, haverá a possibilidade de inscrição de novos participantes, sobretudo porque se constatou que há uma intensa procura das comunidades em privilegiar esse caminho catequético.

Para você que não participou, confira abaixo um resumo dos conteúdos temáticos que foram tratados nesta primeira etapa:
1. A catequese, pelo método mistagógico, conduz a pessoa ao mistério, ao próprio Cristo.
2. O que se entende por este mistério é o coração da teologia litúrgica.
3. Teologia e formas de oração.
4. Teologia, o mistério do Cristo na Palavra.
5. Pequena introdução aos salmos e cânticos bíblicos.
6. Ano litúrgico, trabalhado minimamente. Quando se menciona o Ano Litúrgico, refere-se ao ano da liturgia, perguntando-se como a catequese se relaciona com a liturgia.
7. A questão antropológica, a modernidade e a criança. Dentro de um mundo que mudou e muda rapidamente. Mesmo dentro desse mundo mudado e tão difícil, é possível fazer esse processo. A insistência de que precisamos sempre levar em conta a criança que está dentro de nós. De onde ela veio, aonde ela vive. Perguntar como a criança está vivendo o mistério dentro de sua existência vital. O método mistagógico parte do rito, mas ele faz a mediação entre o rito e a vida. Quando pensamos no rito, pensamos na vida.
8. Os temas, abordados não de forma exaustiva, foram bem mencionados, e estes devem estar presente na condução da catequese, principalmente com relação ao Ano Litúrgico.
9. A questão dos ritos e celebrações: etapas, transição e cotidianos da catequese. Introdução à celebração (o mistério da liturgia, estrutura, orações, etc); mistagogia da música que contribuiu e ajudou na questão das celebrações; celebrações do encontro com os ofícios da manhã, mas do ponto de vista pedagógico, certamente contribuíram na apropriação da estrutura celebrativa da Igreja.
10. O corpo, ligado à questão antropológica.
11. Perspectiva de implantação de um curso como sugerido neste encontro, num itinerário de formação para os catequistas. Dentro da perspectiva catecumenal é necessário que todos os catequistas tenham passado por um processo. Reintroduzir os catequistas na vida espiritual.
12. O mistério da liturgia, o antropológico, os temas da catequese ligados ao Ano Litúrgico, os ritos e celebrações (tanto as etapas, os ritos de transição e os ritos cotidianos).
Ofício de Vigília celebrado na comunidade Batismo do Senhor

Um curso com conteúdo bastante fundamentado e criterioso só pode partir de quem vive uma experiência de fé. Os organizadores e assessores do curso são membros ativos da comunidade Batismo do Senhor, de Duque de Caxias-RJ. Pe. Domingos Ormonde, membro fundador da comunidade Batismo do Senhor, é especialista em iniciação à vida cristã, sendo um dos maiores conhecedores do assunto no Brasil. Os participantes do curso, ao visitarem e rezarem juntos nesta comunidade, perceberam o cuidado do processo de iniciação à vida cristã vivido como numa experiência comunitária. Portanto, não se trata de falar sobre catequese a partir de um escritório, mas de explicitar uma prática que se dá vivamente, em local e realidade concretos.
Equipe de organização e assessores

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

4ª Etapa do Curso de Especialização e Capacitação em Liturgia acontece em Goiânia

Entre os dias 04 e 16 de janeiro acontece no Instituto São Francisco, em Goiânia – GO, o Curso de Especialização e Capacitação em Liturgia, promovido em parceria Rede Celebra e IFITEG (Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás). Esta é a primeira, de 3 etapas que se seguirão em  julho/2013 e janeiro/2014. 25 participantes, dentre eles 7 presbíteros, e os demais, agentes da pastoral litúrgica nas comunidades e paróquias onde atuam, vindos de diversas partes do Brasil, deram início a esta etapa.
O curso tem os seguintes objetivos:
+ levar a uma participação mais plena da liturgia, em atitude espiritual, prazerosa, na inteireza do ser, conhecendo aquilo que se estuda, através do aprofundamento das fontes e da tradição litúrgica da Igreja;
+ proporcionar o aprofundamento da liturgia, fonte e cume da vida cristã, na sua dimensão teológica, espiritual, ritual e pastoral, à luz da renovação proposta pelo Concílio Vaticano II, pelas conferências da Igreja na América Latina, (Medellin, Puebla, Santo Domingo e Aparecida) e da Igreja no Brasil;
+ desenvolver competência específica no método e na arte mistagógica de exercer diferentes ministérios nas celebrações litúrgicas em plena coerência com a sacramentalidade da liturgia e inerente espiritualidade.
A principal referência deste curso é o método mistagógico, que tem o rito como fonte de teologia litúrgica, passando pela espiritualidade e renovação da prática pastoral. “Assumimos um método participativo, que parte da realidade litúrgica, da experiência pessoal e comunitária, confrontando-as com a teologia e espiritualidade encontradas no rito, como nos vem da Tradição da Igreja, retornando à realidade de maneira criativa e criteriosa, ou seja, da prática para a prática”, afirma uma das coordenadoras e professoras do curso, Maria de Lourdes Zavarez.
Dentre outros recursos metodológicos que o curso se apropria, está a técnica do Laboratório Litúrgico, que busca a inteireza do ser na vivência ritual, articulando ritualidade, teologia e espiritualidade. Durante o curso as celebrações litúrgicas (Ofício Divino e Eucaristia) são preparadas, presididas e avaliadas pelos próprios participantes, isto é, aprendem fazendo. São  momentos privilegiados onde se vive a experiência do encontro com o mistério pascal de Cristo.
A parceria:
A Rede Celebra de animação litúrgica é uma rede formada por pessoas, grupos e comunidades, aberta ao diálogo ecumênico, comprometida com uma liturgia cristã, fonte de espiritualidade, inculturada na caminhada solidária dos pobres e a serviço da animação litúrgica nas comunidades. Atualmente tem núcleos espalhados em quase todos os Estados do Brasil.
O Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás, situado em Goiânia, é mantido por um grupo de Congregações Religiosas desde 1982 e tem como missão ser um espaço de reflexão filosófica e teológica de formação humana e cristã, pautado numa visão ecumênica, plural e dialogal. Credenciado pelo MEC (Port. MEC 939, 08/2008), oferece cursos de bacharelado em Teologia, licenciatura em Filosofia e pós-graduação lato sensu (especialização) em várias áreas do conhecimento.
Na última etapa, que acontecerá em janeiro/2014, os participantes apresentam um trabalho de conclusão de curso, em forma de artigo científico, abordando um aspecto ou um tema aprofundado durante o curso.
Tendo em vista a comemoração dos 50 anos da promulgação da Sacrosanctum Concilium, o Curso de Especialização e Capacitação em Liturgia oferece uma preparação a pessoas que já estão inseridas na vida litúrgica ou desejam iniciar um processo de formação litúrgica nas comunidades, dioceses e outras instâncias eclesiais, fazendo com que a admirável participação do nosso povo na vida celebrativa das paróquias e comunidades possa ser o sustento de uma espiritualidade sadia, ao mesmo tempo resgatando aquelas características que permeavam as primeiras comunidades cristãs.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Ciência litúrgica, 50 anos depois da Sacrosanctum Concilium

Aula inaugural de Ione Buyst, no curso de Especialização e Capacitação em Liturgia, em parceria IFITEG e Rede Celebra-GO

por Eurivaldo Silva Ferreira

Aos alunos do Curso de Especialização e Capacitação em Liturgia, promovido pela parceria IFITEG e Rede Celebra, Ione Buyst, referência no Brasil no estudo e aplicação da Liturgia, tanto em nível pastoral quanto em nível acadêmico, proporcionou uma reflexão sobre o fazer ciência litúrgica após 50 anos da Sacrosanctum Concilium. Confira abaixo alguns trechos de sua reflexão.
Falamos muito de ciência litúrgica, mas o que significa isso? Que negócio é esse? Também falamos de ciência políticas, sociais, econômicas, médicas etc. Pois bem, ao fazermos Teologia, nós estudamos Liturgia, e esta é uma ciência, que, como tal, está no mesmo patamar das outras ciências, mas, infelizmente, dentre as disciplinas teológicas mais importantes, não está contemplada, e encontra-se meio que ‘jogada’ para a pastoral. Esta é opinião de Ione Buyst, referência no Brasil nos estudos da Liturgia.
Convidada pela Rede Celebra, Ione Buyst refletiu, em sua aula inaugural, na sede do IFITEG, Instituto de Filosofia e Teologia do Estado de Goiás, que dá a chancela do curso de Capacitação e Especialização em Liturgia, a questão da Liturgia enquanto ciência.
Num conceito originário da Alemanha, a ciência litúrgica visa uma tentativa de se chegar num estudo sistemático, planejado e crítico da liturgia, visando também sua aplicação à pastoral. Até no século passado, quando se falava de se estudar liturgia, eram as rubricas que importava, isto é, via-se o estudo da liturgia enquanto jurisdição. Hoje, com a ciência litúrgica, esse conceito mudou. Agora exige-se aperfeiçoamento do saber, por isso a natureza científica da liturgia, por isso cita Andrea Grillo, liturgista italiano, que considera o início da ciência litúrgica comparando-a à forma litúrgica, ligada com a forma ritual, prescrita, ou seja, aquela que busca o sentido antropológico do rito. No início do século passado se começou a prestar atenção nisso, à forma sacramental da liturgia. Ione cita isso em seu livro “O segredo dos ritos” (Paulinas, 2011) às páginas 42 e ss.
Para Ione, uma palavra que ainda hoje é usada em liturgia é ‘cerimonial’, esta contradiz o sentido litúrgico da ação ritual. A palavra cerimonial está mais sendo aplicada à natureza jurídica do rito do que ao sentido teológico que ele traduz e supõe. Por isso, estudar a liturgia com um sentido científico é entendê-la como ciência teológica. Daí entender que Liturgia não é uma cerimônia, mas trata-se de uma expressão ritual, uma realidade teologal. Assim, a liturgia se expressa, se interliga com as outras ciências, e com ela deve dialogar, como é o caso da arquitetura, da música, da ecologia, da antropologia etc. Ao considerarmos sempre a liturgia na sua concepção teologal, temos claro que a teologia é essencial.
Ione explicita aos alunos as várias vertentes de como se deve estudar a ciência litúrgica. Um primeiro propósito é a mistagogia, que não é ciência, mas aquilo que se estuda como mística, segundo os Padres da Igreja dos primeiros séculos do cristianismo. Ione indica para leitura o livro Missarium Solemnia, que traz um panorama do que é analisar a origem dos ritos através de uma visão científica.
Partindo-se dos movimentos pré-existentes ao Concílio Vaticano II, bíblico, litúrgico e ecumênico, temos a segunda vertente de estudo da liturgia enquanto ciência, a dimensão histórica da liturgia.
Para Ione, analisar a liturgia ligada à sua sacramentalidade é um problema real que encontramos nos grandes institutos teológicos, isto é, infelizmente a liturgia está desligada dos sacramentos. De fato, a liturgia toda é sacramental.

É também importante estudarmos a liturgia em sua dimensão sociológica.
Então, o que é que o Concílio Vaticano II trouxe de novo? Qual a novidade implícita no Concílio? O que nos interessa ao fazermos ciência litúrgica?

Ione elenca alguns elementos:

1) Participação ativa de todo o povo de Deus, que é povo sacerdotal. Foi esse o conceito trazido pela Constituição Lumen Gentium. Já não se trata mais de dizer que Igreja é um grupo guiado por uma cúpula, mas agora é povo de Deus, e que reclama para si uma participação mais intensa no mistério celebrado. Isso supõe uma necessidade de inculturação, por exemplo, a começar pela língua, o que não significa voltar ao latim.


2) Liturgia como realidade teologal. Trata-se de dizer que liturgia não é cerimônia, mas ação de Deus, pelo Filho, no Espírito. Logo, liturgia é ação cultual a Deus. a liturgia é uma expressão ritual, respondendo àquela ação libertadora de Deus. É então ação memorial, em que se recorda na liturgia como momento histórico da salvação ou ainda da economia da salvação.

3) Sacramentalidade da Liturgia. A Verbum Domini, de Bento XVI, recorda que a Palavra é também sacramento, que age performaticamente, isto é, faz acontecer aquilo que diz. A Palavra gera a fé. Sem a fé é impossível celebrar. Logo, nossas liturgias precisam deixar de ser rotineiras para abrir-se para o âmbito da sacramentalidade, isto é, fazer acontecer aquilo que dizem. O fato é que muitos dos que se fazem presentes nas ações litúrgicas não sabem seus conceitos ou não foram preparados para tal. Santo Agostinho diz que sacramento é palavra visível. Se na Bíblia se narram os eventos salvíficos, na liturgia se fazem com gestos. Logo, no entender de Santo Agostinho, na liturgia não se lida com um texto mas com uma palavra visível. Andrea Grillo insiste em vários dos seus trabalhos, citando, por exemplo, a SC 48, cuja tradução fiel ao texto original fala de ‘fazer participar do mistério pelos ritos e pelas preces, através dos sinais sensíveis’. Mas, para que a participação seja ativa, frutuosa e conscientes, tudo isso supõe formação litúrgica, é o que dizem os números 14 a 20 da SC. Formação dos padres, dos formadores e de todo o povo de Deus.

4) Catecumenato. Não se trata aí de dar catequese, no sentido de repassar conteúdos, mas de fazer com que a catequese , que indica o que é ser cristão, deixe-se conduzir por uma experiência do mistério. Logo, entende-se a catequese como processo da iniciação cristã.

5) Liturgia como fonte de vida espiritual. É o que afirmam os números de 11 a 13 da SC, para que a liturgia seja a fonte da espiritualidade. Aprendemos que espiritualidade é outra coisa (rezas, terços, adoração, devoção etc). Mas, o que a SC afirma é que não pode haver espiritualidade sem que se passe pela liturgia. A maioria dos retiros espirituais segue uma linha desligada da liturgia. Pensa-se em temas espirituais que vão contrariamente à espiritualidade genuína oriunda da liturgia.

Ione continua afirmando que a SC é documento do CV II, e que o conceito do magistério unitário do CV II vai além. É o caso da afirmação da Gaudium et Spes, constituição pastoral que fala da Igreja no mundo de hoje. Para este documento, se a Igreja tem uma missão no mundo, sua razão teológica é afirmar que Deus atua na história, logo o mistério de Deus está acontecendo na história humana e também no cosmos. Deus está atuando aí. É preciso que na liturgia sejamos capazes de expressar o Deus acontecendo na história. Como fazer isso?

O documento de Medellin fala disso, também fazendo ligação com a Populorum progressio, no sentido de ver na liturgia um acontecimento na história do continente latino-americano. Medellin fez uma leitura crítica, mas não só crítica, mas uma interpretação criativa do CV II, afirmando no número 9, ratificando a Gaudium et Spes 43, que a liturgia coroa e comporta um compromisso com a realidade humana.

Tudo isso não é uma coisa simples, apenas, mas se trata de uma obrigatoriedade. Assim como Israel, o antigo povo sentia a presença salvífica de Deus, conseguindo atravessar o Mar Vermelho, assim também o povo de Deus não o pode deixar de sentir sua atuação salvífica aqui no contexto latino-americano. A passagem de condições menos humanas para condições mais humanas é o mote de interpretação para esse fato bíblico.

Por isso entendemos que cristianismo é estar presente na história, atentos ao Deus que salva. É isso que deve ser celebrado na liturgia. Nesse sentido, nós avançamos pouco, e a pergunta nos faz incômoda: aonde fazer acontecer na liturgia esses fatos? O que Medellin vem afirmar é que não existe Reino de Deus sem os pobres. Isso não é uma moda, mas foi João XXIII quem resgatou a questão dos pobres no CV II. Como levar em conta isso?
Chegando ao final de sua explanação, Ione ainda deu dicas de como fazer ciência litúrgica no Brasil, por isso sugeriu passos importantes, vejamos:

1) O que vou estudar?
2) Qual é o objetivo?
3) Para quem? Quem será(ão) o(s) beneficiário(s)?
4) Partir da realidade. Que método usar ou privilegiar? A América Latina privilegiou o método Ver-Julgar-Agir, mas também há a Observação participante, o método mistagógico.


Para quem pôde ouvir Ione nessa aula inaugural, percebeu que há um caminho longo a percorrer, e que é necessário retomar a liturgia enquanto mistério pascal, uma vez que a SC transcende a noção de sacramento, afirmando a vida como sacramento. Ora, se eu entendo a vida como sacramento, então eu consigo entender a liturgia. É o mistério pascal acontecendo, tal e qual, nos gestos de solidariedade ao mais sofrido. Assim, a liturgia nos orienta a estarmos atentos: é lá que está acontecendo o Reino e o anti-reino.

É necessário que a espiritualidade que deriva da liturgia nos traga essa perspectiva, de escutá-la, fazendo os mesmos gestos de Jesus, ao mesmo tempo nos levando a refletir sobre esses gestos, bebendo do mesmo espírito que Jesus bebeu. Só assim entenderemos que esse espírito perpassa em nossos corpos, e nós incorporaremos isso: vou fazer assim, é essa a atitude de uma genuína espiritualidade litúrgica indispensável. Ela nos ensinará a fazer ciência litúrgica.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Teologia e mistagogia do espaço litúrgico

Eurivaldo Silva Ferreira

A fé cristã se expressa de muitas maneiras, numa vida de dedicação e serviço aos outros, na oração e no culto, na música, arquitetura e arte, nas Sagradas Escrituras e na tradição cristã viva. Em todas essas maneiras, como que numa linguagem, a Teologia se esforça para expressar a fé cristã.

Para falar de espaço litúrgico, antes de tudo devemos partir do conceito motivacional que a Teologia nos traz. Parte-se do ponto de vista que a Teologia é uma disciplina crítica, uma ciência, bem como uma ação da Igreja. Na Igreja encontra-se salvaguardado o dom inestimável da auto-revelação de Deus em Jesus, ao mesmo tempo ela assegura que esse dom permaneça inteligível em diferentes culturas e em novos contextos históricos. Quem se beneficia com isso é toda a comunidade cristã.

O termo Teologia tem sua origem a partir de conceitos gregos que lhe definem a natureza:
Théos = Deus
Logos = palavra, tanto externa como interna, isto é, conhecimento/ou Logia = ciência

Portanto, no centro está Deus, seu objeto principal. Qualquer reflexão teológica refere-se de alguma maneira a Deus. Tratado sobre Deus, estudo sobre Deus, discurso, um saber, uma ciência de ou sobre Deus.

Mas, não basta apenas discursar sobre Deus, é preciso perscrutar o seu mistério, por isso é necessário ser conduzido ao mistério. A mistagogia ajuda neste processo.

Mistagogia, o que é isso?
É um recurso pedagógico desenvolvido pelos Pais da Igreja por volta dos séculos III e IV. Cirilo de Jerusalém, um dos Pais da Igreja, escreveu muitas homilias mistagógicas, desenvolvendo nelas verdadeiros conteúdos mistagógicos. A mistagogia é uma teologia, é um jeito de compreender como Deus se revela. Um jeito de se colocar diante da revelação. Ela nos envia a algum lugar, à liturgia, por exemplo.

É um recurso pedagógico pelo qual vai-se conduzindo os iniciantes, passo-a-passo nos mistérios da fé e da Igreja, tendo em vista uma caminhada cristã. É um caminho de aproximação entre a pessoa e o mistério.

Mistagogia: vem do grego e significa mister = mistério / agogain = pedagogo (significando aquele que conduz).

Pedadogo é aquele que conduz na educação, mas na mistagogia o pedagogo é alguém que conduz pelo caminho do mistério. O pedagogo é alguém que ajuda a conduzir de um caminho para outro, de um lugar para outro. Na Igreja do século II encontramos a compreensão de Jesus como pedagogo, com Clemente de Alexandria, o dirigente da escola catequética daquela cidade.

A figura do pedagogo era muito comum na Grécia antiga. Tratava-se de escravos que conduziam as crianças para a escola. Eles tinham uma responsabilidade, eram apenas mediadores, mas ainda continuavam na condição de escravos. Apesar de ter vindo da Grécia, a figura do mistagogo foi assumida pelas outras religiões, na Índia, por exemplo. Quem faz mistagogia, ajudando o(a) outro(a) a entrar no mistério, é um(a) mistagogo(a).

Podemos dizer que Deus é um pedagogo, pois tem um jeito de se aproximar, de se revelar, de dar um passo com a gente. Esta palavra está sendo redescoberta na catequese, na formação litúrgica e na teologia.

Espaço Litúrgico. O que é?
Lugar do culto, da reunião da assembleia, lugar em que a comunidade reunida se encontra para celebrar o mistério pascal por meio de ações simbólicas, que dão a Deus a  atenção e o louvor.
Tendo em vista esses conceitos, podemos partir para o desenvolvimento do assunto em questão.

Os nossos espaços
Quando falamos de espaço, pensamos primariamente no espaço que ocupamos: a Terra, o continente, o país, a cidade, o lugar (roça ou urbano), a casa em que habitamos, o lugar da casa de que gostamos mais.

Também é compreendido como espaço o lugar vital em que ocupamos na nossa existência biológica: o ventre da mãe, os braços maternos, o hospital, o quarto, o berço, o cantinho dos brinquedos, a cama como o lugar da necessidade do repouso etc.

Durante toda a nossa existência vamos construindo ou conhecendo novos espaços vitais, alguns dos quais depende nossa sobrevivência: escola, mercado, ônibus, carro, quarto de dormir, cama etc.
Em nosso caminho vital nosso corpo ocupa diferentes espaços no itinerário cronológico: etapas da vida, criança, adolescência, jovem, adulto, idade madura, velhice. Incorporamos nessas fases as decisões que acabam por ocupar um significativo espaço vital: passagem da infância para a adolescência, vestibular, namoro, noivado, casamento, filhos, família, netos, bisnetos etc.

Contam-se também os espaços de conquistas sociais: compra da casa própria, o primeiro emprego, encontrar um emprego depois de muito tempo desempregado, ocupação de um terreno pelo processo de construção em mutirão, na roça a hora do plantio ou da colheita.

Muitos desses nossos espaços são também marcados pela ação da finitude natural ou acidental: a perda da casa pela enchente, os barracos na favela que foram queimados pelo fogo, o acidente de carro que matou entes queridos, o avião que caiu...

Até que finalmente, no declínio de nossa existência, acabamos nos deparando com um espaço finito, e temos a consciência de que a nossa ocupação terrena chega a um fim. Precisamos então nos preocupar com um espaço para morrer, daí há pessoas que por nós se preocupam com o caixão, o cemitério, o túmulo ou cova, e ainda a ausência do espaço deixado por quem se foi, quem ocupará esse espaço? A cruz na beira da estrada enfeitada com flores é uma bela concepção de que aquele pedaço marcado pela morte de um ente querido é um espaço sagrado. Em torno desses espaços é que gera em nós uma preocupação do nosso destino pós-morte.

A garantia que temos é a de que todos esses espaços revelam e vão construindo pouco a pouco a nossa personalidade, o nosso jeito de ser.

A casa como espaço

A casa como espaço original é o que temos de mais primitivo. Segundo o modo de ver de profissionais da arquitetura e construção, a concepção de casa que temos hoje origina-se de três vertentes: o espaço social (sala, quintal), o espaço íntimo (banheiro e quartos), e o espaço de serviço (áreas de serviço e lavanderia).
Não foi à toa que a música popular brasileira incorporou esse jeito de falarmos da casa e traduziu em poesia essa linguagem:

...Eu queria ter na vida simplesmente um lugar de mato verde pra plantar e pra colher. Ter uma casinha branca de varanda, um quintal e uma janela para ver o sol nascer (José Augusto)
...Tu não te lembras da casinha pequenina onde o nosso amor nasceu... (Silvio Caldas)

...Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada (Vinicius de Moraes e Toquinho)
... A minha casa fica lá detrás do mundo, onde eu vou em um segundo quando começo a cantar (Lupicínio Rodrigues)
...Salve esta casa, nobre morada, nova jornada vamos começar (Antônio Nóbrega)
...Eu quero uma casa no campo, do tamanho ideal, pau-a-pique, sapê, onde eu possa plantar meus amigos, meus discos e nada mais (Elis Regina)


A realidade é que carregamos em nosso memorial corporal a concepção da casa como um organismo ligado diretamente ao corpo, ao nosso estado de ser. É tão natural essa relação de que a casa está ligada com o nosso ser que, quando alguém visita a nossa casa, costumamos dizer: “entre, a casa é sua”, ou ainda: “sinta-se como se estivesse em sua própria casa”.

Apesar das grandes incursões sociais em nível político no campo habitacional, ainda há indivíduos que, ou por um processo de perda material ou psíquica, decidiram por viver em ruas, sem uma casa para abrigar-se.

A casa como espaço bíblico da revelação de Deus
Nos evangelhos o espaço da casa também se torna cenários de muitos acontecimentos, por isso o NT faz vínculo da casa com a pessoa. Os bens fazem parte desta visão, bem como a propriedade, a família, esposa, marido e filhos, muitas vezes até empregados e servos da casa. A casa tem uma continuidade que é herdada, se estabelece para a pessoa como uma herança que passa de pai para filho. “Você é da casa de Jacó”, dizia o AT, no sentido de clã, de tribo, de família. É a identidade, a casa a qual pertence aquela pessoa. Era necessário ir ao sacerdote e conferir essa identidade no templo. Isso passa de geração em geração, pois o sangue vem dessa linhagem, dessa tribo, dessa família.

O NT usou o termo casa que do grego: oikós. Por exemplo, a casa aparece constantemente numa maneira significativa no evangelho de Marcos. Muitos autores não abordam somente a casa, mas o vilarejo, a aldeia. Ela praticamente está presente no todo do evangelho de Marcos e ocupa um lugar exclusivo de instrução. Toda vez que percebermos uma cena em Marcos e nos deparamos com uma casa, desta cena sairá um ensinamento novo. Percebemos no Evangelho que é o lugar próprio da revelação de Deus, de uma estrutura de família nova. ‘Meu pai e minha mãe são aqueles que pensam numa nova estrutura de reino’, diz Jesus em Marcos. Essa é a nova estrutura da casa.

Na casa bíblica, o povo encontra mil maneiras de entrar em contato com essa revelação, fazem até buraco no teto para entrar, sabem do valor que tem a atuação de Jesus na casa. Jesus inaugura uma única casa porque atende a vontade de Deus.

No mundo bíblico dos primeiros cristãos, a casa era lugar da partilha do pão, depois da visita ao Templo. A casa era então tida como espaço de oração e de partilha dos bens comuns simbolizada pelo pão. Paulo e Barnabé foram aqueles que acolhiam a comunidade nas casas para a oração, a partilha do pão e a propagação do Evangelho.

Podemos encontrar outras referências de espaço de oração nos textos a seguir: - A tenda da reunião – Êxodo 33,7-11; II Samuel 7 - a construção do Templo; Neemias 8,2-4.5-6.8-10; João 2,13-22; Efésios 2,19-22 (a Igreja construída sobre Cristo); I Pedro 2,4-9 (a Igreja feita de pedras vivas); Apocalipse 21,1-5ª (imagem da nova Jerusalém); Lucas 4 – O espaço da reunião – lugar da Palavra; Apocalipse 21 (Eu vi novo céu e nova terra).

O espaço dos primeiros cristãos
Saindo das casas, devido a grande adesão de pessoas ao cristianismo, a reunião passou a acontecer nas basílicas, que eram uma espécie de lugar do comércio e também de tribunais de justiça. A basílica está diretamente ligada com a decadência da liturgia, já que literalmente era necessário preencher com grandes objetos seus espaços. A basílica é então considerada aí um divisor de águas. A liturgia teve então que se adaptar a esse espaço, pois a reunião não era mais feita em torno da mesa, na casa. Desse conceito de basílica surge a forma de assembleia que temos hoje: a forma enfileirada, como a de um ônibus.
É no período das basílicas que surge então a percepção ritual de se consagrar aquele lugar à liturgia, ao culto. Os Pais da Igreja muito contribuíram para a mistagogia deste espaço maior, desenvolvendo homilias a partir da celebração chamadas de “dedicação” para as ações sagradas. Uma delas é a homilia do bispo santo Agostinho, século V, que fala da edificação e dedicação da casa de Deus em nós a partir do seguinte aspecto: a oração é a causa e o motivo da reunião do povo de Deus na Igreja. Agostinho compara a construção de pedras com a construção de cada um que foi iniciado na fé, como que foi acontecendo um talhar, uma lapidação, contudo unidos pela caridade e pela união pacífica de seus membros (imagem da liga do cimento), que é reforçada pela linguagem do amor mútuo, o canto novo erguido de quem se sente apaixonado.

A definição de um espaço litúrgico
Para conceituarmos a definição de um espaço litúrgico, precisamos partir do mesmo modo que assim partiram os Pais da Igreja. É necessário lançarmos mão de um conjunto catequético-litúrgico para isso. É aí que entra a mistagogia, ao mesmo tempo apreendermos conceitos teológicos.
 
A liturgia é entendida como ação de Deus e ação do povo por meio de sinais simbólicos. Nela se concentra uma comunicação com o divino que se dá por meio de símbolos, palavras e outros mecanismos. O espaço litúrgico deve conjugar essa realidade comunicativa. Logo, o espaço é sagrado porque nele há um vínculo com o divino, com o sagrado. Portanto, tudo que se coloca dentro de um espaço litúrgico torna-se objeto de comunicação com o sagrado, pela linguagem simbólica que este objeto carrega.

Já que tudo na Igreja é funcional e simbólico, assim como na casa, o que precisamos é definir a forma e conteúdo das ações que ocuparão este espaço.
Contribuem para isso a atuação de vários profissionais, que podemos chamar de atores da construção do espaço litúrgico, como: o próprio padre, a comunidade, engenheiros, arquitetos, pedreiros, liturgistas e artistas.

Logicamente outros fatores também contribuirão com seus limites, carências e avanços para a devida construção ou reforma do espaço litúrgico, como: a pastoral, a cultura, o jeito da comunidade, o terreno, a legislação local, a situação geográfica, climática e atuação artística.

Os ícones do espaço

O Guia Litúrgico-Pastoral da CNBB (GLP) diz que o primeiro espaço por excelência a ser cuidado são as pessoas. É o batismo quem nos tornou um só corpo em Cristo, e pela união de todos os membros, nos congregamos neste único corpo. No espaço litúrgico também deve constar esta percepção, isto é, deve haver uma unidade tanto de natureza ministerial quanto de natureza espacial e física.
Claudio Pastro fala de um ‘programa iconográfico’, que existe para orientar, educar, conduzir e introduzir o fiel no mistério do Deus trino, na comunhão dos santos. Para Pastro, todas as paredes, pinturas, pisos, imagens, até um simples trinco e prego são, nesse espaço, a extensão do que aí se celebra e, portanto, são mistagógicos, isto é, condutores.
Resumimos de forma prática o que diz o GLP sobre os ícones do espaço:

1. O lugar da entrada: tem a função de acolher, recepcionar, preparar, predispor, informar, fazer a transição entre o mundo externo e espaço interno do templo.

2. O lugar da assembleia: é a representação do corpo eclesial, é a imagem símbolo do povo de Deus, que por sua natureza sacerdotal reúne-se para a oração, o canto e o louvor. A distribuição deve ser de maneira radial (ao redor de)
3. O lugar da presidência: é o lugar do próprio Cristo que, como cabeça, preside o seu corpo. A cadeira manifesta a dignidade de quem preside a assembleia, isto é, em nome de Cristo o faz.
4. O lugar da Palavra: é a mesa da Palavra. Para ela se voltam os fieis quando dela se proclamam as leituras. O ambão faz referência ao sepulcro vazio, ao lugar da ressurreição e do anúncio do cristo vivo. Ao lado dele o círio pascal no tempo pascal.
5. O lugar do sacrifício e da ceia: sendo o símbolo por excelência do mistério pascal de Cristo é no altar que se torna presente o sacrifício de Jesus sob os sinais sacramentais do pão e do vinho; é também a mesa da ceia do Senhor na qual o povo de Deus é convidado a participar; é ainda o centro da ação de graças que se realiza pela Eucaristia; é também símbolo do próprio Cristo.
6. O lugar do batismo: a fonte batismal deve ser conjugada com os outros espaços. Nunca no presbitério, mas de preferência próxima a entrada. É contemplado também próximo à fonte um lugar para se guardar os santos óleos.
7. O lugar da reconciliação: este lugar de ser previsto dentro do conjunto da igreja como os demais espaços, de forma visível aos fieis. Deve manifestar a sua íntima ligação com a comunidade eclesial que aí se reúne.
8. O lugar de guardar o Corpo do Senhor (reserva eucarística): lugar que favorece a oração pessoal pela lembrança que o traz: a memória da ceia. Nele devem ser guardadas apenas a reserva eucarística necessária à comunhão dos doentes e à adoração dos fiéis, pois o pão distribuído na missa deve, de preferência, ser consagrado na própria celebração eucarística.
9. O lugar das imagens: as imagens, pinturas e vitrais não são meros enfeites para o espaço. Elas possuem uma função mistagógica. Ajudam-nos a compreender o mistério que celebramos e nele penetrar.
10. Decoração: esta deve manifestar o caráter festivo da celebração. As flores, as velas e as luzes devem colaborar para que as celebrações sejam de fato memória da Páscoa de Jesus. As flores não são mais importantes que o altar, o ambão e outros lugares simbólicos. Deve prevalecer a sobriedade da decoração, ela favorece a concentração no mistério.
11. As vestes litúrgicas: manifesta exteriormente a diversidade dos membros da Igreja. Nesta diversidade se destaca a natureza do sinal da função de cada ministro atuante.
12. Os vasos sagrados: são os recipientes em que se colocam o pão e o vinho para serem consagrados. Devem ser feitos de material que não quebre nem se alterem facilmente.
13. Sacristia: faz parte do templo, como que sendo uma extensão dele (“pequeno sagrado”). Nela se guarda e se concentra tudo o que é necessário para as celebrações e nela os ministros se paramentam e se preparam para a celebração.

Conclusão
Não é fácil versar sobre esta disciplina. Fazendo uma pesquisa ampla sobre o assunto, nos deparamos com diversas opiniões, mas que muitas vezes são concisas e coerentes no que diz respeito ao espaço para a celebração, reverenciando o sagrado ali presente. Assim, tudo que entra para o espaço litúrgico, tem sua finalidade o divino. Elencamos algumas dessas opiniões e citamos autor e fonte, a fim de que o leitor mais curioso possa aprofundar seus conhecimentos e, de certa forma, contribuir para a discussão da construção ou da reforma do espaço celebrativo em sua comunidade.
1. Pe. Danilo, presbítero de Belo Horizonte, em seu artigo sobre o uso do ‘data-show’ nas liturgias, chama a atenção para a depauperação da liturgia, com a introdução de aparatos técnicos e artificiais que não ajudam na assimilação simbólica do mistério celebrado. Para ele, é necessário recuperar a noção de espaço celebrativo como espaço simbólico e ritual, como lugar da contemplação, da beleza, do sentir-se Igreja como filho de Deus em sua dignidade batismal e sacerdotal. A funcionalidade do espaço tem em vista a ação litúrgica. Espaço belo, bem planejado, orientado para o mistério de Cristo e da Igreja não significa necessariamente espaço caro e inacessível às comunidades carentes. Também chama a atenção para a questão da luminosidade do espaço conjugada com o contexto celebrativo. E orienta as comunidades a valorizarem e integrar o aspecto ecológico nas celebrações, levando em conta uma causa de preocupação social e de todos, o meio ambiente. Além de alertar para que se recuperem as duas conquistas litúrgicas do concílio – participação e sacramentalidade de toda a liturgia – e zelar por elas. Ambas são essenciais para as celebrações e para a vida da Igreja (Pe. Danilo César dos Santos Lima, Revista Vida Pastoral nº 285, 2012, Paulus).
2. Pe. Gregório Lutz, liturgista de São Paulo, diz que por mais que essas muitas possibilidades de construção de um espaço litúrgico sejam as mais coerentes com a teologia e com a mistagogia possíveis, nunca se chegará a um espaço litúrgico ideal, já que o nosso espaço aqui na terra é transitório, isto é, o espaço plenamente satisfatório, perfeito sob todos os pontos de vista, não existe e nunca existirá. Mas temos e podemos ter sempre igrejas que ajudam eficazmente aqueles que nelas celebram e rezam, a mergulhar cada vez mais profundamente no mistério de Cristo (Pe. Gregório Lutz, Revista de Liturgia nº 196, 2006, Apostolado Litúrgico).
3. Penha Carpanedo, liturgista de São Paulo, faz uma avaliação e uma síntese do que foi a 21ª Semana de Liturgia realizada em SP com o tema “Mistagogia do espaço litúrgico”. Em seu artigo ressalta a importância do espaço litúrgico como um elemento de dimensão mistagógica, pois, ao entrar em determinado recinto ‘sagrado’, mesmo fora da celebração, a pessoa é impelida a reverenciar o mistério. Mas esse espaço cumpre ainda mais a sua função de conduzir ao mistério, quando acolhe uma comunidade de fiéis, a Igreja, Corpo de Cristo, daí, nas ações litúrgicas, viver o memorial da páscoa de Cristo, experimentado na própria vida e na realidade em que vive. Para Penha Carpanedo, o fato de um lado estarem profissionais do espaço e de outro liturgistas – que ocorreu nesta “Semana de Liturgia” – contribuiu e muito na busca comum de critérios e procedimentos na construção de um espaço litúrgico, ocasião em que ambos crescem como Igreja e como irmãos de fé e missão (Penha Carpanedo, Revista de Liturgia nº 205, 2008, Apostolado Litúrgico)
Para nós, agente das diversas pastorais, cabe-nos a difícil tarefa de ser propagadores da mensagem do Concílio Vaticano II, que quis restaurar a Igreja, tanto interna, em sua liturgia e conceitos, quanto externa, esta eficazmente simbolizada pela construção de pedra e a união das pedras vivas, que é o povo de Deus. Tudo isso à luz das fontes primitivas e patrísticas.
Que tenhamos o cuidado de não mais olhar a construção do espaço litúrgico apenas como um aparato de beleza que encham os olhos, mas que nos sintamos tocados pelo conteúdo que eles nos transmitem e assim possam alimentar e fortalecer a nossa fé.