sexta-feira, 30 de abril de 2010

CNBB em Brasília


Teólogos e teólogas, Povo de Deus, Ministros e Ministras da Presidência, da Catequese, do Canto e da Música,

D. Demétrio questiona a "burocracia estatal" e sugere que a CNBB deveria ser o exemplo para o Congresso Nacional (Senado, Câmara dos Deputados, Executivo, Legislativo, Judiciário e afins), perguntado se "não estaria aí uma boa sugestão para o Congresso Nacional? Por que não faz como a CNBB? Bastariam alguns períodos intensos de trabalho por ano em Brasília, onde seriam tomadas as decisões já amadurecidas junto ao povo nas bases. A continuidade dos trabalhos poderia ser garantida, como na CNBB, por uma Comissão Central que mantém expediente contínuo em Brasília, e se reúne mensalmente para municiar a continuidade dos trabalhos nas bases. Ainda mais com os recursos que hoje a informática nos oferece, os deputados e senadores poderiam se manter cotidianamente informados, com a vantagem de continuarem próximos à realidade do povo, o que sempre é salutar para quem precisa lidar com as esferas da burocracia". Não estaria nesta indagação um bom exemplo de profetismo para os nossos dias?
Boa reflexão.
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Desta vez a assembléia anual da CNBB se realiza em Brasília. O costume era outro. Durante trinta anos, o mosteiro de Itaici acolheu as assembléias. A tal ponto que o bairro de Indaiatuba, que leva este nome, acabou ficando mais conhecido do que a própria cidade, cujo prefeito cada ano comparecia na abertura da assembléia, e pedia aos bispos que, por favor, se lembrassem que Itaici é um bairro de Indaiatuba, no Estado de S. Paulo.


Desta vez a realização da assembléia em Brasília é uma clara deferência da CNBB para honrar a nova capital do país, que acaba de completar 50 anos de sua inauguração. No mesmo sentido, o 16º. Congresso Eucarístico Nacional, cuja data se emenda à da assembléia, reforça a homenagem que a Igreja quer prestar a Brasília.

Na verdade, a intenção é mais ampla. Realizando neste ano na capital do país sua assembléia, e aí celebrando o Congresso Eucarístico, a Igreja quer ressaltar os muitos motivos que ela tem para sentir-se vinculada à história do país, com o qual se identifica de tantas maneiras.

Como de costume, a pauta da assembléia é sempre muito carregada. Os assuntos vão sendo recolhidos ao longo do ano. E precisam receber o tratamento de acordo com sua importância. Por isto, engana-se quem pensa que a assembléia vai se limitar ao cardápio proporcionado pelos assuntos na ordem do dia da imprensa. Se necessário, estes também podem receber o tratamento adequado, sobretudo na análise de conjunta que a assembléia sempre faz. Mas não é a imprensa que pauta a assembléia. Ela não vai sacrificar suas prioridades para tratar, por exemplo, do assunto da pedofilia.

Basta conferir seu tema central, e os temas que a assembléia caracteriza como prioritários, para dar-nos conta da intensidade dos trabalhos.

O tema central tem uma formulação que talvez dificulte a percepção de sua abrangência por parte de quem não está acostumado aos últimos acontecimentos e às recentes orientações pastorais da Igreja: “Discípulos e servidores da Palavra de Deus e a Missão da Igreja no mundo”.

Acontece que recentemente a Igreja fez um sínodo sobre a Palavra de Deus. A CNBB se mostra pronta a inserir as reflexões do Sínodo no cotidiano de sua vida. A referência aos “discípulos” e à “missão” , é para dizer que a CNBB continua mantendo as duas dimensões fundamentais que a Conferência de Aparecia expressou em forma de “discípulos e missionários de Jesus Cristo”. Esta a intenção do tema central.

Como temas “prioritários”: as Comunidades Eclesiais de Base, os cem anos do movimento ecumênico, a avaliação das Diretrizes Pastorais, a questão agrária neste início de século 21.

Não podem faltar os diversos temas “estatutários”, como o relatório da Presidência e das diversas Comissões Episcopais, através das quais se estrutura o trabalho da CNBB. Será proposta uma declaração sobre a situação política que o país vive neste ano.

Portanto, um punhado de assuntos que exigem trabalho, que é realizado com sessões pela manhã, pela tarde e sempre que necessário à noite também.

Com isto, a CNBB acaba fazendo, sem o dizer explicitamente, um sério questionamento à burocracia estatal, especialmente ao Congresso Nacional. A CNBB se reúne dez dias por ano, e trata de tomar as decisões que se fazem necessárias. Depois, cada bispo retorna para suas dioceses e leva adiante sua missão, afinado com as orientações da assembléia. Não estaria aí uma boa sugestão para o Congresso Nacional? Por que não faz como a CNBB? Bastariam alguns períodos intensos de trabalho por ano em Brasília, onde seriam tomadas as decisões já amadurecidas junto ao povo nas bases. A continuidade dos trabalhos poderia ser garantida, como na CNBB, por uma Comissão Central que mantém expediente contínuo em Brasília, e se reúne mensalmente para municiar a continuidade dos trabalhos nas bases. Ainda mais com os recursos que hoje a informática nos oferece, os deputados e senadores poderiam se manter cotidianamente informados, com a vantagem de continuarem próximos à realidade do povo, o que sempre é salutar para quem precisa lidar com as esferas da burocracia.

Mesmo que não o diga explicitamente, a CNBB reunida em Brasília está clamando por uma radical e profunda reforma nas estruturas políticas, a começar por mudanças substanciais na organização do Congresso Nacional. Para que ele deixe de desperdiçar tantos recursos a serviço de sua inoperância escandalosa.

Dom Luiz Demétrio Valentini

quinta-feira, 22 de abril de 2010

COMENTÁRIO SOBRE A MÚSICA “FAZ UM MILAGRE EM MIM”

Este artigo, do estudante de Teologia Reginaldo Guergolet, faz um comentário crítico a respeito da Música “Faz um milagre em mim” de Regis Danesi. Leia e reflita.

Reginaldo Antonio GHERGOLET

1. Compreendendo a realidade

Temos visto ultimamente a explosão de sucesso na mídia de uma música aparentemente de caráter religioso que aos poucos caiu na graça do povo e tem sido muito utilizada em encontros e liturgias entre católicos muitas vezes desavisados sobre o conteúdo daquilo que estão propagando sem o mínimo de senso crítico a respeito do teor proposto pela canção. Trata-se da música “faz um milagre em mim” de Regis Danesi que ganhou força exatamente por sua índole religiosa e sua suposta fundamentação bíblica que abriu caminho para o sucesso.

Essa crítica é algo que poderia ser deixado de lado sem o mínimo de prejuízo para a doutrina cristã católica, mas devido os constantes questionamentos sobre o assunto e o mau uso dessa música nas liturgias, faz-se necessário um estudo mais aprofundado da mensagem da letra em paralelo a mensagem de Lucas onde o autor imagina ter buscado inspiração. Nada disso precisaria ser feito, mas devido à distância entre as duas mensagens, é interessante esclarecer certos aspectos para que os equívocos com relação ao uso da canção sejam evitados. Afinal de contas, onde seríamos levados por tal mensagem?

Observa-se na letra da música a grande quantidade do uso do pronome possessivo singular que dá idéia de posse indicando a astúcia do autor para o seu sucesso. Vivemos em um tempo onde o individualismo está em alta. Onde a ascensão imediata é adorada como valor absoluto, basta observar os reality shows que são promovidos constantemente. É uma tendência criada pela mídia por interesse do mercado que precisa vender seus produtos. O autor percebeu que a maioria das pessoas que vivem sobre essa realidade e se familiarizam com uma mensagem intimista que acima de tudo tem aspectos de religiosidade, eis o segredo do sucesso.

No campo religioso, não é diferente. Vivemos em um mundo imediatista onde muitas denominações cristãs buscam na religião um consolo individual descompromissado. Agrada a idéia de um “deus” à disposição da vontade humana que está pronto para atender os caprichos dos homens no momento em que precisar. Deus atende aos pedidos sim, mas somente aqueles que vão fazer um bem verdadeiro, ou seja, que vão ajudar na minha salvação e não os puramente interesseiros. É fácil aceitar Jesus, mas os valores cristãos exigem posturas diferentes, por isso sua doutrina acaba sendo rejeitada. O milagre e a cura são sempre bem vindos, mas assumir um compromisso com Jesus não interessa a ninguém. É a religião do proselitismo onde muitos percebem essa realidade e tiram vantagem para atrair adeptos.

Uma pequena reflexão sobre o contexto em que vivemos, mas que abre o caminho para explicar o sucesso da música que vamos analisar em paralelo a mensagem do Evangelho. Lucas tem seu objetivo e Regis Danesi também. A diferença das duas mensagens e a relevância para nossas vidas e para a vida da Igreja será explorada nesse estudo. Resta ainda a pergunta: com qual mensagem vamos ficar? Essa decisão é pessoal. Que Deus abençoe a escolha.

2. As duas mensagens


2.1 Faz um milagre em mim

O título da música evoca toda a intenção do autor e dá para se ter uma idéia do caminho que ele vai percorrer. O que muitos querem é o milagre e isso ele propõe. Não teria problema algum se ele não tivesse utilizado como base de sua mensagem a passagem de Lucas no capítulo 19, 1-10 onde está a narração da conversão de Zaqueu . Lucas narra a caminhada de Jesus que sai da Galiléia e vai até Jerusalém para o cumprimento da missão e nessa caminhada vai encontrando as pessoas que ao perceberem Jesus mudam de vida e passam a viver conforme seus ensinamentos mostrando a riqueza de seu seguimento conforme vemos em Lc 9,51-19 (Cf PIKAZA, 1985, p. 74).

No final dessa caminhada está o episódio de Zaqueu que é exclusividade de Lucas. Nenhum outro evangelista fala sobre Zaqueu, portanto, só podemos chegar à conclusão que foi aqui que o autor da música se inspirou. Nessa passagem Lucas fala abertamente sobre a conversão de Zaqueu e enfatiza suas atitudes após o encontro e como sabemos conversão não é milagre . O termo milagre nem se quer faz parte dos temas teológicos de Lucas que trabalha a conversão, a oração, a universalidade e o Espírito Santo. Marcos é quem contempla essa realidade dos milagres, mas Lucas não, principalmente nessa passagem que o autor em questão se baseou mostrando assim a distância de sua mensagem com o que a Bíblia coloca.

Para Lucas o que interessa é a conduta de Zaqueu e mais nada. Ele sentiu o chamado e foi ao encontro de Jesus, subiu na árvore e desceu para uma vida nova. Converteu-se definitivamente ultrapassando qualquer expectativa. Zaqueu mudou de vida e dá provas disso, pois deu a metade do que tinha aos pobres e ainda prometeu restituir quatro vezes mais o que tinha roubado (Cf. Lc 19,8). Sua conversão foi autêntica, pois o levou ao cumprimento radical das prescrições da Lei (Cf. Ex 21,37; Lev 5,20-26). Não restitui apenas os 120%, mas vai além porque encontrou o amor de Deus em Jesus (Cf. STÖGER, 1973, p 139). Sua atitude mostra decisão e força de vontade. Seguir Jesus requer decisão, não basta dizer “estou são”, não bastam as boas intenções. Da conversão o discurso não serve para nada, são os frutos que interessam e isso o Lucas enfatiza (Cf. PIKAZA, 1985, p. 111). Não vemos nada de milagre, não se dá para entender de onde o autor tirou essa idéia. Sendo assim, podemos ter uma noção do equívoco em comparar as mensagens. Mas isso é só o título, vamos ao restante da letra.

Como Zaqueu eu quero subir
O mais alto que eu puder
Só pra te ver, olhar para ti
E chamar sua atenção para mim

Nessa primeira estrofe o autor se encarna em Zaqueu e tenta reproduzir seus sentimentos ou talvez sentir o que Zaqueu sentiu. Até que a construção poética é bela, mas o objetivo não foi alcançado. Ele fala que como Zaqueu ele quer subir, mas agora fica a pergunta: será que Zaqueu queria subir? Um homem de posição, um ”empresário”, rico e com uma reputação a zelar não se prestaria ao papel de macaquinho apenas por achar bonito subir na árvore. Subir na árvore é perder a dignidade social baseada no poder e na riqueza (Cf. STORNIOLO, 2004, p.167). Talvez Zaqueu preferisse utilizar de sua influência, mas não estava em condições de exigir muita coisa. Zaqueu era considerado como cobrador de impostos pecador para os judeus e sendo rico distante do Reino dos céus para Jesus (Cf Lc 12,33; 18,24-27), portanto, um caso muito difícil de resolver. Assim se conclui que Zaqueu não queria subir na árvore, mas subiu porque precisava subir, porque era de baixa estatura, era pequeno (Cf Lc 9,48), era pecador e precisava de Jesus e tinha a consciência atormentada. É por isso que seu coração palpitava de desejo de ver Jesus (Cf. STÖGER, 1973, p. 139).

O fato é que Zaqueu subiu sim, não se sabe se foi tão alto como fala a música, mas certamente deu para ele ver Jesus. A única coisa que queria era ver Jesus e sentir seu amor porque já ouvira falar coisas boas dele. Mas Jesus não se contenta apenas em ver Zaqueu, vem ao seu encontro e envolve sua vida com a de Zaqueu. Jesus não se contenta, quer ir mais a fundo na questão. Todo mundo só via em cima daquela árvore um pecador, mas Jesus viu um homem de consciência atormentada que precisava de sua ajuda (Cf. BORTOLINI, 2003, p. 55). Entretanto o autor coloca no final da estrofe que queria chamar a atenção só para ele. Com certeza essa não era a vontade de Zaqueu, pois ele não gritou, não escreveu faixas e não fez nada de extraordinário, apenas subiu.

O chamar a atenção só para si revela a religiosidade de interesse e intimista impregnada na mentalidade popular. Como é grande o desejo de muitos de terem um Deus à sua disposição pronto para atender as suas necessidades. É o sonho de muita gente que Jesus fosse um gênio da lâmpada mágica que na hora em que precisasse, era só esfregar e ele aparece para realizar o desejo. A atenção de Jesus só para mim, para mais ninguém. Como se só eu precisasse de Jesus. É a mentalidade de muitas religiões e muitas seitas e pessoas que pensam em enquadrar Jesus a suas necessidades e objetivos. Talvez o autor nem tenha consciência disso, mas está sujeito a esse tipo de ideologia infelizmente comum em nossos dias. O pior é saber que se essa música faz tanto sucesso, não é só ele que está nesse barco, muitos navegam sem saber.

Basta apenas frisar que um dos temas teológicos mais profundos de Lucas é a universalidade, ou seja, Jesus veio para salvar a todos sem distinção e os pecadores são os preferidos de seu coração misericordioso. Portanto, o chamar a atenção só para mim é algo do autor e da mentalidade popular, não de Lucas para quem Jesus é para todos. Não precisa nem dizer que foi mais uma bola fora, talvez a maior delas, mas confiemos, Jesus é misericordioso.

Eu preciso de ti, Senhor
Eu preciso de ti, oh, Pai
Sou pequeno demais
Me dá tua paz
Largo tudo pra te seguir

Nessa estrofe pode-se concluir que o autor foi mais feliz, mas não tanto assim. Todo mundo precisa de Jesus, Zaqueu eu e você, todos nós. Que bom que essa consciência ainda perdura. Claro que como já vimos, saber que precisa é uma coisa, aceitar Jesus e suas exigências é outra. Mas mesmo assim, é preciso dizer que Jesus não é Pai, mas sim, o Filho, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Jesus é Deus tal e qual o Pai, com a mesma substância, mas com missão diferente. É Deus quem fez uma aliança com o povo de Israel e prometeu fidelidade para sempre (Cf. Gn 6,18; Ex 19,9-15). Mas Zaqueu, como o povo de Israel, como eu e como você quebrou essa aliança e caiu na infidelidade. Deus ama e por isso mandou seu Filho que é Jesus para salvar Zaqueu e a nós, e para mostrar a misericórdia divina. A abertura do homem à graça da conversão é obra do Espírito Santo. É a Santíssima Trindade agindo na obra da salvação (Cf. GOMES, 1981, p. 215-221). A missão do Filho que é Jesus ao qual o autor se refere é salvar, mas ele não é o Pai, Pai é Deus (Cf LG nº 3).

Diante do amor de Deus manifestado em Jesus somos todos pequenos, porque amor de Jesus nos constrange (Cf. 2Cor 5,14). Reconhecer a pequenez é um bom caminho e isso tem a ver com a mensagem de Lucas. Foi o que Zaqueu fez. A paz de Jesus também é uma boa, mas a paz de Jesus incomoda e exige (Cf. Mt 10,34-35). A paz que muita gente deseja é a ilusão de que tudo está bem. É isso que muita gente busca na religião, um consolo psicológico apenas, o estar perto de Jesus porque isso faz bem. Adorá-lo, adorá-lo e adorá-lo é o objetivo de muitos. A paz é sim dom de Deus, mas é preciso construí-la. Não apenas se recebe gratuitamente de Jesus, porque ela é fruto da justiça (Cf. Is 32,17). É nos pequenos atos de doação, de partilha, de amor que a paz se faz presente, a paz é uma conquista.

O autor ainda coloca que larga tudo para seguir Jesus. É uma promessa um pouco leviana e contraditória do autor, a não ser que estivéssemos falando de um Francisco de Assis. Mas Jesus em Lucas não quer apenas seguidores atrás de si sem nada para oferecer (Cf. Lc 8,1–3). Ele quer pessoas generosas que mesmo tendo alguma coisa, sabem partilhar aquilo que têm (Cf. Lc 21,1-4). Devemos seguir Jesus sim, mas com o que temos e com o que somos, no lugar em que estamos. O deixar tudo (Cf. Lc 5,11) para Lucas é colocar tudo a serviço do seguimento de Jesus continuando sua palavra e ação no mundo (Cf. STORNIOLO, 2004, p.55). Largar tudo não é a vontade de Jesus, mas sim o amor que leva a pessoa a se doar pela causa do Reino.

Entra na minha casa
Entra na minha vida
Mexe com minha estrutura
Sara todas as feridas
Me ensina a ter santidade
Quero amar somente a ti
Porque meu Senhor é meu bem maior
Faz um milagre em mim

Pelo que parece, esse é o refrão da música e certamente nele esta as “grandes verdades” do autor. Mas o que percebemos é que ele nem sequer leu o Evangelho no qual ele pensa que se baseou. Algo que angustia é saber que Lucas de todas as formas enfatiza as atitudes de conversão de Zaqueu e as iniciativas que tomou. Aqui, o que vemos é alguém exigindo um monte de coisa de Jesus. Ao invés de servir Jesus, como propõe o Evangelho, aqui Jesus é feito de empregado com um monte de tarefa a cumprir. É alguém dando ordens e esperando tudo de braços cruzados como se as pessoas não precisassem fazer nada. É o que o mundo quer, é o que o autor propõe, por isso faz sucesso.

A primeira ordem é: “entra na minha casa, entra na minha vida”. No Evangelho não houve isso. Zaqueu nem sequer abriu a boca. Não chamou Jesus e nem exigiu nada. Jesus gratuitamente se apresentou e chamou Zaqueu pelo nome. Jesus conhece o pecador, conhece o coração, conhece a necessidade, por isso se aproxima. Mais ainda, Zaqueu não convida Jesus para entrar em sua casa, Jesus se oferece espontaneamente (Cf. Lc 19.5). Ele vai não porque o pecador chama, mas porque o pecador precisa dele. Para Zaqueu bastou apenas descer da árvore e recebê-lo com alegria. Descer da árvore é mais importante que subir porque indica a aceitação de Jesus. Com a acolhida de Jesus e das exigências que sua presença supõe tudo mais acontece.

As ordens continuam: “Mexe com minha estrutura, sara todas as feridas”. São pedidos interessantes, mas exigentes. Jesus não mexeu na estrutura de Zaqueu. Ele mesmo tomou consciência de seu pecado, depois disso mudou de vida e tomou as atitudes que tomou. Não é preciso mexer com as estruturas, é perigoso desmoronar tudo. Basta perceber a presença de Jesus e tomar consciência, tomar vergonha dos erros e querer melhorar. Mexer nas estruturas é função minha, não de Jesus. Foi o que Zaqueu fez, é o que Lucas transmite.

A outra ordem para Jesus também é reveladora: “sara todas as feridas”. É o que muita gente pensa, reduz Jesus a Curandeiro como se essa fosse sua única função ao se encarnar no mundo. É inegável que Jesus fazia milagres, realizava curas, o próprio Lucas relata isso (Cf. Lc 5,17-25; 6,6-11), mas sua maior função é salvar a humanidade, foi por isso que ele fez o caminho e morreu na cruz.

Quando o autor fala de “todas as feridas”, se referindo a Zaqueu, certamente ele está falando do pecado. A cura de todas as feridas (pecado) não depende somente de Jesus, depende de mim, da minha força de vontade de sair da situação de pecado, de me arrepender e buscar o perdão de Deus. As piores feridas que carregamos existem em função do pecado e da falta de perdão. Zaqueu buscou o perdão de Deus e experimentou a sua misericórdia. Dar ordens para Jesus não adianta nada, é preciso aceitar o remédio e esse - para surtir efeito - às vezes causa dor. Não foi fácil para Zaqueu tomar as atitudes que tomou. A cura depende também de quem está doente.

“Me ensina ter santidade”, mais uma ordem. Jesus já ensinou e continua ensinando. Basta ler os evangelhos (Cf. Mt 5,1-12). O maior ensinamento de Jesus é o amor a Deus e ao próximo, eis o caminho da santidade. Zaqueu percebeu isso. Depois aparece uma atitude típica da religiosidade atual. Uma contradição com a primeira proposição. Santidade é amar a Deus e aos irmãos, como é que agora aparece esse desejo de amar somente Jesus?

Jesus não quer apenas pessoas ajoelhadas diante de si para adorá-lo. Quer pessoas dispostas a aprender a mansidão e a bondade de coração que ele transmite e pessoas que tenham coragem de ajoelhar aos pés dos irmãos para lavar-lhes os pés (Cf. Jo 13,2-11). Se não acreditamos nisso, podemos rasgar os Evangelhos de nossas Bíblias que não irão fazer falta alguma. Não dá para ser santo amando apenas Jesus, isso é um absurdo, pois seu maior mandamento é amar uns aos outros como ele próprio amou, isso todos os evangelistas falam (Cf. Mt 22,39; Mc 12,30-31; Lc 10,27-28; Jo 13,34).

Por fim, uma coisa interessante: “o Senhor é meu bem maior”. Ainda bem que a música termina com uma afirmação verdadeira. Ter consciência que Jesus é o bem maior deve produzir atitudes em nós que valorizem esse bem. Zaqueu assim o fez e Lucas cravou na história essa passagem para mostrar a todos nós o que deve ser feito. Se Jesus é um bem, deve ser buscado como um bem, não por interesse apenas. Zaqueu subiu na árvore, se esforçou. Quais esforços realizamos para adquirir esse bem? E o autor finaliza com o tema da música que já estudamos.

3. Finalizando

É inegável o sucesso da música e a grande aceitação popular de sua mensagem. Não se pode questionar o talento de Regis Danese que soube utilizar as expectativas atuais para lançar suas idéias. Certamente tinha o objetivo de evangelizar, e o fez segundo a proposta de seu segmento religioso. Não podemos exigir dele o conhecimento bíblico que acabamos de verificar. Mas dos pastores e agentes pastorais da Igreja Católica que utilizam essa música em suas liturgias, é preciso exigir o mínimo de senso crítico. Para isso foi feito e estudo do Evangelho em contraponto à letra da música.

A música em si é bela, e as coisas belas fazem bem a alma, mas a ideologia que transmite nem sempre é benéfica. É por isso que o senso crítico é necessário. Nossa Igreja é rica em conteúdo, temos uma tradição grande e belíssimos cânticos com amplas mensagens fiéis às escrituras, não há motivos para se rebaixar ao gosto popular. Seguir o modismo não é critério sábio para quem deseja fazer uma boa evangelização. De intimismo e individualismo o mundo está cheio, o que precisamos é do amor de Deus e de uma liturgia lúcida que transmita esse amor. Para isso temos nossos cantos, nossa tradição, temos bons compositores que são fiéis às Sagradas Escrituras, não precisamos recorrer e depender do modismo e suas peripécias.

Podemos depois de tudo encontrar alguém que venha dizer: “mas essa música me faz bem”. Diante disso basta apresentar a mensagem do Evangelho. Se a música faz bem, Deus age até por meios imperfeitos, mas se queremos “um bem maior”, devemos buscar Jesus e isso os evangelistas oferecem em seus evangelhos com mensagens verdadeiras. Entre Regis Danese e Lucas, fiquemos com o Evangelista porque sua mensagem, apesar de exigir conversão e atitudes verdadeiramente cristãs, produz efeitos benéficos na vida dos homens e da Igreja. Esses são os efeitos queridos por Deus ao enviar seu filho Jesus Cristo ao mundo para morrer por nossos pecados.

Esses efeitos não são passageiros como os da música porque tem o objetivo de produzir em nós a salvação eterna. Em poucos dias ninguém mais se lembrará dessa música, enquanto Lucas com sua mensagem já atravessou milênios. Jesus misericordioso de Lucas nos ama incondicionalmente e está pronto a nos ajudar na conversão que deve ser diária e constante. O Milagre ele já fez, assumiu nossa condição e nos resgatou da morte e do pecado. Não precisamos pedir mais milagre, precisamos da graça de acolhê-lo e deixar sua presença nos transformar em verdadeiros discípulos e missionários. Esse efeito, tal música não produzirá na vida da Igreja de Cristo.

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Referências
BÍBLIA. Bíblia em Português. A Bíblia de Jerusalém: nova edição, revista. Evangelho de Lucas. São Paulo: Paulinas, 1973. p. 1926- 1978.

BORN, A. Van Den (org.) Dicionário Enciclopédico da Bíblia. 6.ed. Tradução Frederico Stein. Petrópolis, Rj: Vozes, 2004.

BORTOLINI, José. Meditando com os pecadores e pecadoras do Evangelho. 2.ed. São Paulo: Paulus, 2003.

CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática “Lumen Gentium” sobre a constituição hierárquica da Igreja (7-12-1965). 11 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1974.

FONSATTI, José Carlos. Introdução aos Evangelhos: cadernos temáticos para evangelização. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.

GOMES, Cirilo Folch. Riquezas da mensagem cristã. Lúmen Chisti. Mosteiro de São Bento Rio de Janeiro, 1981.

LANCELOTTI, Bocali. Comentário ao Evangelho segundo São Lucas. 2 ed. Tradução de Antonio Angonese e Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis, RJ: Vozes, 1983.

PIKAZA, Xavier. A teologia de Lucas. v.3. Coleção Teologia do Evangelho de Lucas. Tradução José Raimundo Vidigal, CSsR. São Paulo: Paulinas, 1977.

STÖGER, Alois. Evangelho Segundo São Lucas. v.3.2. Traduzido por: Frei Álvaro Machado, O.F.M. Petrópolis, RJ: Vozes, 1973.

STORNIOLO, Ivo. Como ler o Evangelho de Lucas: os pobres constroem seu caminho. Coleção Como ler a Bíblia. São Paulo: Paulus, 1992.

WILFRID, J. Harrington. Chave para Bíblia: a revelação, a promessa e a realização. 4 ed. Tradução Josué Xavier e Alexandre Macintyre São Paulo: Paulus, 1985.