domingo, 17 de outubro de 2010

Polêmica do aborto faz bispos racharem

por José Patrício/AE

"Aparecida. Distribuição de folhetos contra Dilma no Santuário, dia 12, acirrou diferenças entre religiosos"

A discussão da questão do aborto na campanha eleitoral, que está dividindo os católicos por causa do veto de alguns bispos à candidata petista Dilma Rousseff, provocou um racha no episcopado em nível nacional e deverá deixar sequelas na vida da Igreja, seja qual for o resultado do segundo turno, em 31 de outubro.

A polêmica terá também reflexos na eleição para a presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em maio do próximo ano, quando um grupo conservador, contrário à atual linha de diálogo, tentaria tomar o poder para adotar uma posição mais dura de oposição ao governo. Pelo menos, na hipótese de Dilma vir a ser a vencedora.

A confusão foi armada pelo apoio dado pela direção do Regional Sul 1, que reúne as 41 dioceses de São Paulo, em 26 de agosto, a uma nota intitulada Apelo a Todos os Brasileiros e Brasileiras, da Comissão em Defesa da Vida, que recomendava aos eleitores que 'independentemente de suas convicções ideológicas ou religiosas', dessem seu voto 'somente a candidatos ou candidatas e partidos contrários à descriminalização do aborto'.

O autor ou inspirador do texto foi o padre Berardo Graz, da diocese de Guarulhos, cujo bispo, d. Luiz Gonzaga Bergonzini, encampou o manifesto e citou, entre os vetados, o nome de Dilma. Passado o primeiro turno, d. Luiz Gonzaga reiterou sua posição, alegando que, embora a petista tenha feito uma profissão de fé em defesa da vida, não se podia acreditar nela. 'Dilma, que se faz agora de santinha para dizer que é contra o aborto, já mudou de opinião três vezes.'

Artigos e entrevistas de d. Luiz Gonzaga irritaram outros membros do episcopado paulista, principalmente porque grupos de católicos contrários ao aborto e à candidatura Dilma distribuíram milhares de cópias da nota do Regional Sul 1 de apoio ao manifesto da comissão coordenada pelo padre Berardo. A distribuição do material em paróquias de outras dioceses, à revelia de seus bispos, pôs mais lenha na fogueira. O texto se multiplicou também em mensagens pela internet, espalhando-se por todo o País.

Na Paraíba, o arcebispo de João Pessoa, d. Aldo Pagotto, gravou um vídeo, postado do YouTube, que encampava a nota do Regional Sul 1 e condenava explicitamente a candidata petista. Procurado na quinta-feira por telefone, d. Aldo mandou dizer por sua assessoria de imprensa que não falaria mais sobre o assunto. O arcebispo de Brasília, d. João Braz de Aviz, também criticou a petista.

Limites. A direção da CNBB não gostou da chancela do Regional Sul 1 ao manifesto, pelo fato de o texto dirigir um apelo 'a todos os brasileiros e brasileiras', quando se deveria restringir aos eleitores paulistas. Segundo a CNBB, quem fala em nome dos bispos em nível nacional é a presidência, a assembleia-geral ou o conselho permanente da entidade. Assim, em relação às eleições, vale a posição tomada na última assembleia realizada em Brasília, em maio, quando o episcopado recomendou que os católicos votassem em candidatos comprometidos com a defesa da vida, com os valores éticos e com a dignidade humana.

'Foi uma posição coerente com tradição da Igreja, que sempre falou em princípios, sem tomar partido por esse ou aquele candidato', observou d. Pedro Luiz Stringhini, bispo de Franca. A maioria das dioceses se alinha com essa orientação, conforme lembrou o bispo de Registro, d. José Luiz Bertanha. É essa a posição adotada, por exemplo, pelo cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer, pelo arcebispo do Rio, d. Orani Tempesta, e pelo de Belo Horizonte, d. Walmor Oliveira de Azevedo, em entrevistas e artigos na imprensa.

O bispo de Limeira, d. Vilson Dias de Oliveira, responsável pelo setor de comunicação do Regional Sul 1, não gostou de d. Luiz Gonzaga Bergonzini ter vetado explicitamente a presidenciável e todos os candidatos do PT, porque em sua opinião ele poderia condenar defensores do aborto sem citar nomes.

No caso do apoio do Regional Sul 1 ao apelo da Comissão em Defesa da Vida - em nota assinada por d. Nelson Westrupp, bispo de Santo André (presidente), d. Benedito Beni dos Santos, de Lorena (vice-presidente), e d. Airton José dos Santos, de Mogi das Cruzes (secretário-geral) -, argumenta-se que deveria ter reafirmado a declaração Votar Bem, aprovada por todo o episcopado paulista em 29 de junho. O texto apresenta aos eleitores um decálogo com orientações para 'participação consciente e responsável no processo eleitoral'.

As divergências levantadas pela nota contra Dilma e sua distribuição à porta de igrejas, sem autorização, como aconteceu na Festa da Padroeira, no Santuário Nacional de Aparecida, no dia 12, foram mais acirradas entre d. Luiz Gonzaga e d. Luiz Demétrio Valentini, de Jales.

Os dois trocaram cartas violentas, cujas cópias foram enviadas ao episcopado de São Paulo e a outras dioceses. Irritado com a publicação de uma entrevista no jornal Diário de Guarulhos, o que considerou invasão de seu território, d. Luiz Gonzaga protestou contra as críticas, afirmou ter sido ameaçado de morte e prometeu reclamar de d. Demétrio com o papa Bento XVI. Da troca de correspondência, a questão se estendeu à assembleia do Regional Sul 1, que se reuniu este fim de semana no Mosteiro de Itaici, município de Indaiatuba. D. Demétrio cancelou uma viagem a Buenos Aires para participar da reunião, na certeza de que a questão da defesa da vida e do veto a Dilma seria debatida.

Reflexos. Unânimes em condenar o aborto, mas divididos em relação à nota divulgada com apoio da presidência do Regional Sul 1, os bispos estão preocupados com os reflexos dessa discussão no clima de fraternidade que deveria existir no episcopado. 'Esse maniqueísmo que está dividindo os católicos em bons e maus, conforme suas opções eleitorais, vai deixar marcas', prevê o petista Toninho Kalunga, vereador de Cotia, na região metropolitana de São Paulo.

Dirigente do movimento Encontro de Casais com Cristo e interlocutor da campanha de Dilma na área religiosa, ele vem percorrendo dioceses paulistas para conversar com os bispos e aparar possíveis arestas com os católicos.

'O embate ideológico que existiu nos primeiros anos da CNBB, mas estava ausente nas últimas décadas, ameaça voltar após as eleições de 2010', adverte d. Pedro Luiz Stringhini, prevendo uma ofensiva de grupos mais conservadores na disputa pelo controle da entidade. Segundo assessores da CNBB, em Brasília, esses grupos seriam formados por bispos do Rio, de Minas e de São Paulo que tentariam eleger um presidente mais disposto a enfrentar um governo eventualmente do PT. D. Demétrio discorda dessa análise, pois acredita na reeleição de d. Geraldo Lyrio Rocha, arcebispo de Mariana, 'homem equilibrado e firme'. Para os conservadores, uma alternativa capaz de somar votos para a presidência seria d. Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo.

TRECHOS

Carta de d. Luiz Gonzaga Bergonzini aos bispos :

'Como é de conhecimento de todos, em 1/7/2010, iniciei uma campanha contra os candidatos favoráveis ao aborto, de todos os partidos, a qualquer cargo. O PT é o principal articulador dessa ação no Brasil e, também, do 'casamento' de homossexuais.'

'O meu comportamento é baseado em minha consciência e no Evangelho. E visa à discussão de valores com a sociedade. Seja qual for o resultado das eleições, filósofos, sociólogos, antropólogos, religiosos e a população já começaram a debater o que chamam de 'agenda de valores'. O relativismo na sociedade e na Igreja Católica, sempre lembrado pelo papa Bento XVI, também tem sido questionado: o meu sim é sim e o meu não é não.'

'Ocorre que, no dia 7/10/2010, tive uma grande surpresa. D. Demétrio Valentini, da Diocese de Jales, publicou uma matéria de meia página, no jornal Diário de Guarulhos, editado em minha diocese, com uma acusação de crime eleitoral. Um bispo acusando outro de crime, pela imprensa. É algo muito grave e inadmissível. Anteriormente, recebi uma carta anônima com velada ameaça à minha vida, que já está nas mãos da polícia.'

Resposta de d. Demétrio Valentini

'Em primeiro lugar, alguns esclarecimentos:

1 - Não invadi Guarulhos, coisa nenhuma! Foi o jornal daí, através de um repórter, que me procurou, e fez a reportagem que ele quis fazer. Não fui eu que pedi para ele escrever o que ele escreveu.

2 - Não fui eu que levantei a questão do 'crime eleitoral'. Ao ser perguntado sobre isto, disse que esse assunto cabe à Justiça Eleitoral.'

'Agora, com calma, outra observação: fiquei triste vendo como interpreta de maneira tão preconceituosa o que escrevi no meu artigo que o sr. cita, achando que tive a intenção de confundir os cristãos, levando-os a serem a favor do aborto, e tantas outras coisas mais que o sr. escreve, interpretando tão erradamente o que escrevi.'

'De maneira muito injusta me acusa de ser um soldado do Partido dos Trabalhadores, e ainda por cima declara que não está fazendo política. Ora, D. Bergonzini, o Brasil inteiro está vendo que é o sr. que está fazendo política, e muita gente está escandalizada com sua atitude de invocar sua condição de bispo e de 'sacerdote do Altíssimo', para pedir que não se vote no Partido dos Trabalhadores, e em especial na candidata do partido para a Presidência. Ora, existe atitude mais política do que esta?

‘Não tomarás o santo nome de Deus em vão’

Roberto Malvezzi, Gogó *
(extraído de http://www.adital.com.br/)

Em nenhuma época da humanidade se falou tanto de Deus. Basta ligar uma TV com parabólica e contar os canais ditos confessionais. São pelo menos quatro em nome dos católicos e três em nome dos evangélicos. Mas, não é só. Pregadores desfilam programas comprados em outros canais comerciais tanto durante o dia como pelas madrugadas. Há uma super oferta de pregações, cultos, missas, terços - misturados com ofertas de produtos -, sempre em nome de Deus.

Ligando o rádio, vamos ouvir mais uma vez uma série de programas católicos e evangélicos. Grande parte é programa musical, dessas com uma pobreza literária, melódica, bíblica, teológica de arrepiar os ossos, com meia dúzia de palavras já previsíveis -amém, aleluia, glória, eu e Deus, Deus e eu, eu te amo- inundando nossos ouvidos. Essa música invadiu também a liturgia e hits ocupam o lugar da boa música litúrgica, trazendo o individualismo até no momento do Pai Nosso. O capital demorou para descobrir que religião é um ótimo comércio, mas agora explora até a última medalhinha milagrosa para fazer dinheiro.

Era inevitável que as religiões, inclusive o cristianismo, se aproximassem dos meios de comunicação. Afinal, evangelho quer dizer exatamente "boa notícia". Portanto, são meios que podem ser postos a esse serviço. Porém, o que se está fazendo com esses meios de comunicação em nome de Deus é que é a questão. Não se espere daí uma palavra profética em nome da justiça, dos pobres, porque é um anúncio mutilado que precisa sobreviver segundo as regras do mercado.

O certo é que, em nenhuma outra época, se manipulou tanto o nome de Deus como nessa que vivemos. Nessas eleições, então, chegou-se às raias da aberração. A difamação, calúnia, parcialidade, inclusive por alguns bispos católicos - usaram até o nome da CNBB -, perdeu qualquer referência bíblica de respeito pelo próximo. "Levantar falso testemunho", ou "invocar o Santo nome de Deus em vão" tornou-se prática do cotidiano. Com dois pesos e duas medidas para avaliar e recomendar candidatos, perdeu-se até o senso da dignidade.

Ninguém manipula a Deus, mas pode manipular seu nome. Entramos no terreno perigoso da caça às bruxas, com um vasto respaldo dos meios de comunicação.

* Agente Pastoral da Comissão Pastoral da Terra

Manifesto Evangélico de Apoio à Dilma Presidente

Autores: várias organizações
(extraído de: http://www.adital.com.br/)
Amados irmãos e irmãs,

Nós, pastores, pastoras e líderes evangélicos de Natal, para o segundo turno da eleição…

… recomendamos que se vote em Dilma Rousseff para presidente porque ela representa não uma promessa, mas a certeza da continuidade do maior processo de libertação da miséria de dezenas de milhões de brasileiros na história de nosso país, sem a necessidade de recorrer à violência. Vemos nisso a realização de um princípio do Reino de Deus, pois é importante que todos "tenham vida e a tenham em abundância" (João 10.10);

… recomendamos que se vote em Dilma Rousseff para presidente porque estamos no Nordeste, e o governo que Dilma representa foi o primeiro governo que deu atenção especial para nós, visando a diminuição da diferença com o restante do país. Para nosso povo evangélico nordestino, o governo de Dilma representa a tão esperada "boas novas para os pobres" (Lucas 4.18);

… recomendamos que se vote em Dilma Rousseff para presidente porque sua candidatura representa transparência e autenticidade, enquanto que a do adversário se apóia em boatos e mentiras para reconquistar o poder. Nosso compromisso é com a verdade e com o Evangelho e por isso não podemos suportar o uso de boatos e falsos testemunhos como suporte para uma candidatura, pois sabemos que não há liberdade sem verdade (João 8.32);

… recomendamos que se vote em Dilma Rousseff para presidente porque sua candidatura representa a garantia da liberdade de expressão e de culto, em um Estado Laico, que foi uma conquista do protestantismo histórico. Isso assegura às igrejas a aplicação de princípios doutrinários e éticos para seus fiéis, sem a interferência do governo. Como cristãos, nós jamais vamos deixar de falar daquilo que temos visto e ouvido, e o modelo de Estado prometido por Dilma nos assegura esse dever (Atos 4.20).

… recomendamos que se vote em Dilma Rousseff para presidente porque ser cristão é defender a vida, o pobre e a família, e é exatamente esta a bandeira que nossa candidata defende. Foi somente no governo que ela dá continuidade que o Brasil transformou-se na área de educação, que as Universidades e as Escolas Técnicas se multiplicaram e se tornaram verdadeiros canteiros de obras, com o PROUNI, o REUNI, e a Educação de Base; que foram oferecidas soluções para a habitação; que a saúde se aprimorou; e que programas de transferência de renda vieram de fato a funcionar. Pelo que vemos, podemos dizer que Dilma continuará a ser uma "autoridade que ministra para nós o bem da parte de Deus" (Romanos 13.4).

Defendemos a candidatura de Dilma Rousseff para presidente do Brasil, não por uma questão político-partidária, visto que representamos os mais variados espectros das opções políticas do Brasil, mas porque vemos nela a realização dos princípios do Evangelho do Reino de Deus.

Evangélicos com Dilma:

Pr. Sandro Eugênio Souza, Pr. Carlos Cabanas Cortez, Rev. Gecionny Rodrigo P. de Souza, Pr. Orivaldo Pimentel Lopes Júnior, Alderi Gondim Fernandes, Rivanaldo Gomes de Souza, Mircia Maria Lemos de Souza, Daniel Dantas, Isaias Herculano da Silva, Jailson Jarles, Maria das Graças Bezerra, Gustavo Lucena, Rildo Santos, Francisco Gomes de Lima, Alisson Almeida, Rafaella Maria Lemos de Souza, Jonatas Bruno Silva, Maria José Spíndola Alcântara, Iracy Dourado Marcondes, Danuta Wernergabrut, Potiguara Spíndola Alcântara, Abidenego Lopes Alcântara, Ivan Tavares de Farias Júnior, Miriam Lemos de Farias, Kênia Andrade do Nascimento Gondim Dantas, Rubenilson Brazão Teixeira. Priscila Tiziana Seabra Marques da Silva Aliança - Igreja Presbiteriana do Brasil em Mossoró (RN),

Raphael Lacerda - Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra - Brasília (DF)
Milca de Vasconcelos Gomes - Igreja Betesda em Gravatá (PE)
Filipe de Vasconcelos Gomes - Igreja Betesda em Gravatá (PE)
Pr. Josafá Gomes da Silva - Pr. da Igreja Betesda em Gravatá (PE)
Rômulo Vitor Nascimento Araújo - Igreja Assembleia de Deus
Josemar Augusto do Prado Oliveira - Igreja Presbiteriana do Brasil em Cachoeira de Minas.

Eleição, aborto e a infantilização da religião

Jung Mo Sung *


Por que bispos, padres e grupo religiosos que sempre defenderam a separação radical entre a religião e política, que sempre criticaram a discussão política no âmbito da Igreja ou até mesmo a relação "fé e política", estão fazendo, até mesmo nas missas, campanha aberta contra Dilma?


Uma primeira resposta poderia ser: hipocrisia. Respostas moralistas podem satisfazer o "juiz moralista" que todos nós carregamos no mais profundo do nosso ser, mas não são boas para nos ajudar a entender o que está acontecendo.

Esta campanha contra a candidatura da Dilma, e com isso o apoio explícito ou implícito à candidatura do Serra, está sendo feita de várias formas, mas com um elemento comum: os católicos e os "crentes" não devem votar nela porque ela seria a favor do aborto e, por isso, contra a vida. Alguns agregam também a acusação de que, se ela for eleita, as TVs católicas e evangélicas seriam proibidas de veicular os programas religiosos ou obrigadas a diminuir o seu tempo de duração. É a velha acusação de que "comunistas" são contra a religião.

Essas duas acusações são expressas e justificadas através de lógicas religiosas, e não a partir da "racionalidade leiga" que deve caracterizar a discussão sobre a política hoje. Esses grupos não admitem a distinção entre a religião e a política, ou melhor, não admitem a "autonomia relativa" do campo político e de outros campos -como o econômico- que se emanciparam da esfera religiosa no mundo moderno. Por isso, eram e são contra "fé e política" ou o debate sobre a política no campo religioso, pois esses debates são feitos normalmente a partir do princípio da autonomia relativa da política. Isto é, a discussão sobre questões políticas são feitas com argumentos de racionalidade sócio-política e não submetidos ao discurso meramente religioso.

Para esses grupos (é preciso reconhecer que ocorre também em outros grupos político-religiosos), os valores religiosos (do seu grupo) devem ser aplicados diretamente a todos os campos da vida pessoal e social. E, em casos graves como aborto, ser impostos sobre toda a sociedade através das leis do Estado. Nesses casos, não seria misturar a religião com a política, mas seria a "defesa" dos mandamentos e valores religiosos; ou colocar a política a serviço dos valores religiosos (nessa discussão apresentados como "a serviço da vida"). Pois, nada estaria acima dos "mandamentos de Deus". Desta forma não se reconhece a autonomia relativa do campo político, a dificuldade de se passar do princípio ético abstrato (do tipo "defenda a vida") para as políticas sociais concretas, e muito menos se aceita a pluralidade de religiões com valores diversos e propostas de ação divergentes e conflitantes.

Esta é a razão pela qual esses grupos não entendem e nem aceitam a resposta dada por Dilma de que ela, pessoalmente, é contra o aborto, mas que ela vai tratar esse tema como um problema de saúde pública. Para ouvidos daqueles que crêem que não há ou não deve haver separação entre a saúde pública (o campo da política social) e a opção religiosa pessoal do governante, a resposta da Dilma soa como eu não sou contra o aborto, que logo é traduzido na sua mente como "eu sou a favor do aborto".

E se ela é a favor do aborto, ela é contra a vida e, portanto, ela é do "mal". Enquanto que, por oposição, o outro candidato seria do "bem".

Reduzir toda a complexidade da "defesa da vida" -a que um/a presidente deve estar comprometido/a- à manutenção da criminalização do aborto (que é o que está discutido de fato neste debate sobre ser a favor ou contra o aborto) é uma simplificação mais do que exagerada. Simplificação que deixa fora do debate, por ex., toda a discussão sobre políticas econômicas e sociais que afetam a vida e a morte de milhões de pessoas. Mas é compreensível quando os cristãos têm muita dificuldade em perceber quais são os caminhos concretos e possíveis para viver a sua fé na sociedade, perceber em que a sua fé pode fazer diferença na vida social. Diante de tanta complexidade, a tentação mais fácil é simplificar o máximo para separar "os do bem" de "os do mal".

Essa simplificação me lembra a pergunta que os meus filhos, quando muito pequenos, me faziam ao assistir um filme: "pai, ele é do bem?" Se sim, eles torciam por aquele que "é do bem" contra o "do mal". Essa necessidade de separar os do bem e os do mal faz parte da condição mais primária do ser humano. O problema é que reduzir toda a complexidade da luta em favor da vida ao tema de ser favor ou contra a manutenção da criminalização do aborto é infantilizar a discussão política e, o que é pior, é infantilizar a própria religião que professa.

[Autor, em co-autoria com Hugo Assmann, de "Deus em nós: o reinado que acontece na luta em favor dos pobres"].

* Coord. Pós-Graduação em Ciências da Religião, Universidade Metodista de São Paulo

Eleição, agressividade e o Espírito

Jung Mo Sung *


É cristianismo uma religião da proibição, que impõe sobre toda a população (seja cristã ou não) seus valores à base da "espada" ou da lei do Estado? A história nos mostra que em parte foi e continua tentando ser esse tipo de religião da imposição através da proibição. Valores religiosos não podem ser impostos a não ser proibindo alternativas, pois valores religiosos e éticos só são valores para as pessoas que os praticam se assumidos livremente. Como não se pode impor o assumir livremente, o que seria uma contradição, a única forma de realizar o desejo da imposição dos seus valores é proibindo alternativas - através da força, do medo do inferno ou da lei do Estado.


No fundo é isso que está acontecendo nesta eleição, como também ocorreu nas anteriores, em torno da questão do aborto e do casamento ou união civil dos homossexuais (tema que está, entrando agora na polêmica). Setores da igreja católica e das igrejas evangélicas, que fora da época das eleições se vêem como "inimigas", se unem contra um mesmo inimigo proibindo os seus fiéis de votarem na figura que representaria o mal por não querer obedecer às leis de Deus (leis essas reduzidas ao campo da sexualidade humana e na forma interpretada pela sua igreja).

(A teoria do desejo mimético de René Girard nos oferece uma interpretação muito interessante de como esses dois setores rivais do cristianismo estão, no fundo, imitando uns aos outros, sendo iguais, tanto na eleição quando lutam contra o inimigo comum, quanto na luta de um contra o outro na ausência desse inimigo. É por isso que muitos desses setores evangélicos assumem discursos e ritos católicos, como setores católicos -carismáticos ou mais conservadores- imitam as igrejas evangélicas conservadoras e pentecostais.)

Esta imposição traz consigo uma contradição interna. As pessoas que querem impor, em nome de Deus, os seus valores ou crenças religiosas sobre outros grupos sabem, no fundo, que há algo de errado neste processo. Sabem que tentar impor esses valores a toda população através de proibições é no fundo reconhecer que são incapazes de mostrar, através de testemunho e ensino, o valor dessas crenças e valores morais. Ao tentar impor sobre os diferentes os seus valores, reconhecem que estão falhando na sua missão de anunciar a boa-nova (o evangelho) que só pode ser assumido livremente. Por isso, o discurso da proibição vem acompanhado de tanta agressividade contra os ditos "inimigos" de Deus ou das suas igrejas. No fundo é uma agressividade dirigida contra o "inimigo" e ao mesmo tempo contra o seu sentimento de fracasso no que pensa ser a sua missão.

Agressividade e falta de cuidado em verificar a veracidade das informações difundidas (para dizer o mínimo) revelam que há algo de errado no cristianismo vivido e defendido por esses grupos.

Se é verdade que historicamente o cristianismo foi vivido e se expandiu através desses mecanismos de imposição e proibição do alternativo, do diferente, também é verdade que nem toda a história do cristianismo foi e é assim. Mais importante do que isso, não é compatível com o cristianismo primitivo, muito menos com a vida de Jesus de Nazaré.

A boa-nova aos pobres e às vítimas das situações e estruturas opressivas (nisso resume a evangelização, cf. Lc 4) deve ser anunciada e testemunhada de forma propositiva para que seja aceita e vivida em liberdade. Pois como ensinou são Paulo, "onde está o Espírito, está a liberdade" (2Cor 3,17).

Por isso, a atuação dos cristãos na política deve ser fundamentalmente de modo propositivo e não acusatório e agressivo. Pois estamos anunciando e lutando por valores que "valem por si"; e que só são valores na medida em que são vividos com respeito e tolerância aos diferentes, dentro de espírito da liberdade. Devemos apresentar e lutar por propostas sociais e políticas, baseadas em nossa esperança de um mundo mais justo e solidário, onde até os mais pobres possam viver dignamente, com "respeito e mansidão" (cf 1Pe 3,15).

É claro que entre cristãos pode e deve haver diversidade nas linhas de propostas políticas e sociais, pois o evangelho não nos oferece programa político concreto para os nossos dias, mas nos ensina que devemos lutar para que todos e todas tenham vida em abundância (cf Jo 10,10). O que significa que lutar pelo "pão" dos mais pobres e o reconhecimento da dignidade humana de todas as pessoas devem ser uma prioridade na ação social e política dos cristãos e das igrejas.

A forma como se faz a política e atua nas eleições revela o verdadeiro espírito que move os seus agentes. É verdade que no "mundo" há muitos políticos que crêem que tudo é válido para alcançar os seus objetivos. Há muitos que acreditam que a agressividade nas acusações (e calúnias) revela a seriedade do seu compromisso religioso e ético. Mas, eu penso que a agressividade revela outra coisa, um outro espírito, diferente do Espírito do Amor-solidário (ágape)que deveria mover as comunidades e pessoas cristãs.

[Autor, junto com Hugo Assmann, do livro "Deus em nós: o reinado que acontece no amor-solidário aos pobres", 2010, Paulus].

* Coord. Pós-Graduação em Ciências da Religião, Universidade Metodista de São Paulo