domingo, 30 de dezembro de 2012

A você e ao Ano que vem!

Eurivaldo Silva Ferreira
 
A todos os meus amigos e leitores do meu blog, uma singela poesia,
em homenagem a você e ao novo ano que se aproxima.

Que o bom Deus da vida
A alegria lhe dê
Pra encarar sua lida
Com saúde e prazer.
Nesta data querida
Nós rogamos ao Cristo:
A alegria bendita
Lhe conduza no Espírito.
E a força da fé
Possa ser a bandeira
De quem tem com Jesus
A vitória primeira.
Encarar mais um ano
É ser firme na luta
Sem tristeza ou enganos
Tendo em Deus a conduta.
Que sejamos parceiros
Desta vida que é bela
Pois os sonhos primeiros
Já constroem nova era.
Este ano se faça
Na firmeza e no amor,
No doar-se na graça,
Com carinho e calor.
Quem o vive é você,
E pertinho dos seus
Ele possa trazer
Mais um pouco de Deus!

sábado, 29 de dezembro de 2012

A Novena de Natal nas casas

É dezembro, sábado à noite. Aos poucos começam a chegar as pessoas naquela residência localizada num bairro da zona Norte de São Paulo. O ambiente na sala já está preparado com a coroa, o círio pascal, o tecido roxo, as velhinhas e o incenso. A dona da casa, tranquila, mas ao mesmo tempo ansiosa, aguarda com alegria a presença de cada um, cada uma, e recepciona a todos no portão. Até seus dois cachorros participam desta alegria...
É neste ambiente que começou a Novena de Natal, que neste ano resolvemos fazer num lugar fixo, a residência da Lourdes, integrante do grupo de cantos de nossa comunidade.
Muito religiosa, Lourdes sempre acompanhou grupos de oração ligados à religiosidade popular. Quando ofereceu sua própria casa para a celebração do Ofício Divino, no começo, teve medo, conta, mas depois viu que o grupo permaneceu perseverante.
Tendo em vista que o grupo estava animado, resolvemos fixar em sua casa a celebração da Novena de Natal. Ela conseguiu reunir bastante gente. A Recordação da Vida foi muito boa durante esses nove dias.
Vários dos integrantes contando suas alegrias, tristezas e angústias, e ao mesmo tempo, percebendo que a espiritualidade que brota desse jeito de rezar, os mantém firmes na esperança de aguentar as adversidades da vida. Interpretaram as conversões e as mudanças de atitude como elemento da força da oração.
Ao lado as fotos das crianças Rafael e Laércio acendendo a Coroa e rezando as preces no penúltimo dia da Novena com a oração de vigília no sábado.
Neste mesmo dia, Lourdes sugeriu um gesto bem criativo, na hora de enfeitar sua árvore de Natal: fez corações vermelhos com dizeres de amor, paz, felicidade, família etc e, depois do ofício, pediu para as crianças distribuírem e cada um dos participantes pode colocar o coração que recebeu na árvore de natal, enquanto cantávamos a Ladainha do Advento. Foi emocionante.
 
Ela vem rezando desde julho, em dois lugares, às quartas-feiras, em casas que convidam o grupo para rezar o ofício da semana e aos sábados, na sua casa, com o ofício de vigília.

Um 'balanço geral' das ações pastorais da comunidade paroquial

 
Eurivaldo Silva Ferreira

Chegando a mais um final de ano, todas as paróquias e comunidades fazem uma espécie de ‘balanço geral’. Realizam assembleias comunitárias e paroquiais e avaliam como foi o ano, sob o ponto de vista pastoral. É a partir dessas realidades que tento ajudar o(a) leitor(a) a compor essa teia de reflexões, e, neste artigo, atrevo-me a traçar um panorama da vida paroquial-comunitária ocorrida no ano civil que está chegando ao fim. Porém, é necessário, antes, nos perguntamos sobre nossas atividades paroquiais e pastorais, e se nessas atividades expressamos aquilo que a Igreja Universal (Católica) é no seu todo; ou ainda, se conseguimos realizar essa expressão, conforme planejamos; também é o caso de revermos se algo ficou para trás, ou que não foi concluído plenamente.

O apóstolo Pedro, em sua Primeira Carta, dirigindo-se aos pagãos que se converteram ao cristianismo, portanto aqueles que já aprenderam a linguagem bíblica e encontraram nela as palavras para definir sua nova identidade, exorta: “Vocês são a gente escolhida, o sacerdócio real, a nação santa, o povo que Ele (Deus) conquistou, a fim de que proclameis os grandes feitos Daquele (Jesus) que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa. Vocês agora são povo de Deus e são merecedores de misericórdia” (1Pd 2,9-10).

A exortação da Primeira Carta de São Pedro, em que nos delega um sacerdócio real a fim de que exerçamos fielmente nossa identidade no mundo é a chave para a compreensão da realização de nossa atividade pastoral. Será se exercemos nossas atividades pastorais na paróquia ou comunidade pensando como povo sacerdotal que somos? Acredito que nossas ações comunitárias devem ser por elas mesmas destinatárias da evangelização à qual a Igreja anseia. Assim, nosso critério de considerar nossa participação na porção do povo de Deus, por ele eleito, passa não mais ser visto a partir das divisões jurídicas estabelecidas por nossa forma de organização, mas que, de fato, todos se conscientizem desse direito: o de exercer plenamente a identidade de povo de Deus, povo sacerdotal, povo santo por Deus escolhido e chamado a sair das trevas para viver na luz.

Passar de uma identidade a outra é tomar poder na força do Ressuscitado que age no meio da comunidade, da paróquia. Podemos dizer que tomar poder é o mesmo que empoderar-se. Num artigo da Revista Vida Pastoral (Paulus), Pe. Pedro Bassini diz que ‘no empoderamento, devolvemos ao outro o direito que ele tem de sustentar uma relação em nível de pessoa, com sua característica pessoal, ou seja, no seu jeito de ser’. Jesus tem essa atitude com seus discípulos, ao subir ao céu: “Vão e façam todos meus discípulos!”. É isso que o apóstolo Pedro diz àquela gente a quem se duvidava de sua identidade cristã, só porque tratava-se de recém-convertidos. Quando tomamos consciência disso, é possível pensar que a realidade do Reino de Deus está bem perto de nós. Jesus, quando começou a evangelizar, disse: “Cumpriu-se o tempo, o Reino de Deus está próximo” (Mc 1,15a). O próprio Jesus como possuidor do Reino, quer que o Reino seja também posse de outros, ou seja, que nós tomemos posse do Reino. É bem conhecida aquela expressão bíblica: “Vinde, benditos do meu Pai, tomai posse do Reino que a vós foi preparado” (cf. Mt 25,34).

Nesse sentido, avaliar a realidade do trabalho pastoral é confrontar a realidade do discipulado, que se dá também na comunidade paroquial, com a utopia do Reino, propagando a fé e suas implicações, numa ação evangelizadora missionária, tanto interna, da pessoa toda, como externa, de toda pessoa. Assim, a paróquia, que não é o Reino, torna-se instrumento do Reino. Então, na paróquia, através de nossa ação pastoral, podemos viver uma espécie de mostra daquilo que será o Reino de Deus, quando tudo estiver entregue ao Pai, pelo Filho, nos últimos tempos. Será se nossa ação pastoral está em consonância com essa realidade? Se entendermos a dinamização do Evangelho de Jesus a partir de nossa prática pastoral, a paróquia se torna um centro irradiador dessa mensagem de Jesus, que está presente nas Sagradas Escrituras. Resgatar a significação da identidade cristã, a exemplo das primeiras comunidades, assim como fez São Pedro, é resgatar um jeito de viver o Evangelho como viveram as primeiras comunidades, adaptando-o às exigências reais dos dias de hoje. Por isso, dinamizar nossa ação missionária e evangelizadora, é continuar a ação de Jesus no espaço geográfico que nos foi confiado e num contexto presente, a partir do hoje de nossa existência. Esse espaço geográfico é compreendido juridicamente como paróquia.

Quando perguntamos se o trabalho pastoral desenvolvido na paróquia colaborou para que seus fiéis tivessem uma vida de acordo com a opção evangélica e vivessem a identidade cristã autêntica, perguntamos sobre um incentivo para que se viva uma vida sacramental. Desta forma, para que o Reino aconteça no espaço paroquial e no mundo, a Igreja se atribui dos sacramentos, ou seja, a Igreja também se empodera, buscando a força presente sob o signo dos sacramentos. Os sacramentos são sinais da presença do Reino entre nós e faz com que aqueles que os recebem se abram de coração à proposta do Reino. Eles são ações do próprio Cristo que atua em nós, que contribuem substancialmente para mudanças das realidades sociais. Essas realidades começam no nível paroquial, por isso têm como sustentação nosso trabalho pastoral. Pelos sacramentos a graça de Deus opera na Igreja e, consequentemente, no mundo. Será se temos consciência disso?

Por outro lado não podemos esquecer que, sendo Igreja, nós somos sacramento de Cristo, diz o documento conciliar Lumen Gentium. Na Igreja se dá a manifestação perceptível do mistério de Cristo, seja na realização dos sacramentos seja na realização e celebração do mistério eucarístico, envolvendo todas as suas partes. Cristo, por sua vez é o sacramento do Pai. Compreendemos então que por nossa ação pastoral, na Igreja, se dá o desenvolvimento de uma sacramentalidade cristológica. Essa ação deve transformar as realidades às quais nos encontramos. Por isso, a formação permanente pastoral e missionária passa pela instância sacramental.

Se acreditamos que os sacramentos transformam nossa realidade, o que se deve fazer para dar vida àquelas pessoas que se encontram em situações de abandono, de miséria, à margem da sociedade? O nº 306 do Documento de Aparecida fala que as paróquias devem ser centros de formação permanente, essa formação é requerida de uma conversão, diz o nº 370. Convertidos, percebemos que o Cristo que habita em nós pode mudar a realidade, assim como o sacramento muda, transforma minha realidade espiritual, deixando de lado aquilo que é velho, assumindo novas posturas, nova vida, novo ser. Por isso, toda formação da comunidade paroquial deve ter como fundamento a realidade sacramental e litúrgica. Por isso, a Eucaristia, o sacramento por excelência, deveria pelo menos ser o começo de um processo formativo ao qual nos conduz a uma meta: a transformação da realidade, desde o micro até o macro.

No processo formativo devem ser envolvidos os catecúmenos, a juventude, os agentes de pastoral, as equipes de celebração dos sacramentos e toda a comunidade em geral. A comunidade deve descobrir na Eucaristia e nos demais sacramentos a verdadeira fonte para a formação de uma espiritualidade sadia, sobretudo a espiritualidade litúrgica, em que as primeiras comunidades alimentavam seu admirável espírito missionário evangelizador.  Entendemos que a participação nos sacramentos é um exercício perene na busca da fonte de uma verdadeira espiritualidade, que brota da liturgia, principalmente da participação plena, consciente e frutuosa na Eucaristia, assim como queria o Concílio Vaticano II.

Também é preciso recordar nas celebrações dominicais, inclusive as celebrações em torno da Palavra de Deus, a liturgia deve ser entendida como o centro do mistério pascal. Isso pode e deve ser explicitado na ministerialidade dos agentes das celebrações litúrgicas, ministros leitores, cantores, acolhedores e do altar, através do exercício do ministério estável. Aí se entende a razão teológica da visibilidade do Corpo de Cristo, que se expressa na ministerialidade da Igreja, povo de Deus, povo de sacerdotes, como diz São Pedro, também reunido em assembleia litúrgica.
 Na liturgia duas preocupações nos cercam, tendo em vista sua real e nobre função: a natureza da liturgia e a necessidade da preocupação com a celebração da fé da comunidade, envolvendo aqui todos os sacramentos e sacramentais. Neste sentido, é a pastoral litúrgica a responsável pelo re-avivamento da fé da comunidade que participa das celebrações, seja no ritmo diário, semanal ou anual. É no transcorrer do Ano Litúrgico que a pastoral litúrgica exercerá seu papel. Seus membros agem na pastoral litúrgica não atuando como tarefeiros da liturgia, mas como agentes responsáveis no serviço da liturgia bem celebrada.

Merece destaque também a evidente ligação que a liturgia tem com a catequese. Devido sua natureza simbólico-sacramental, a liturgia oferece verdadeiros meios para um itinerário que conjugue fé e vida, espiritualidade e devoção, alimento da Palavra e do Pão. Quando liturgia e catequese estão juntas num mesmo barco, é possível perceber que aquele(a) que é iniciado(a) na fé, com a força da comunidade que é também iniciadora na fé, corresponde cada vez mais ao plano de Deus que atua em sua vida, no tempo, na história.

Enfim, no novo ano que se inicia, esperamos que todas as propostas pastorais e de catequese devem ter como foco a celebração do mistério pascal, alimento espiritual que aos poucos vai se tornando latente nas ações da comunidade paroquial, nestas ações se reconhece o povo de Deus como sendo um povo sacerdotal, num contínuo exercício orante daquilo que se celebra.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Advento da Igreja: desejo de estado permanente de salvação

(comentário a partir das aulas de Eclesiologia, do querido Prof. Donizete,
na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção – SP)

Eurivaldo Silva Ferreira
 
Introdução
A Igreja, a reunião do povo de Deus, assim chamada pelo Concílio Vaticano II, foi constituída para ser Sacramento Universal de Salvação, desta característica emana sua índole, sua unidade e sua catolicidade. É sob esse signo que ela se ocupa principalmente em anunciar o Evangelho a todos os povos, logo quem salva é a Palavra, o Verbo mesmo feito carne, e não a Igreja. Sua índole missionária tem como princípio a missão do Filho e do Espírito (Lumen Gentium, 1): a de fazer-se chegar aos confins da terra, consequentemente, fazendo chegar a Palavra de Deus, que a todos quer salvar.
Pensando que o constante estado de salvação é vivido em todo o tempo pela Igreja, ensejamos nesse artigo dar pistas para contribuir na reflexão da índole missionária da Igreja, apontando para seu estado permanente de espera pela salvação, ou seja, uma Igreja que vive um constante Advento só pode contribuir para uma realização plena de salvação do ser humano.

1. A salvação na Igreja a partir do aspecto cristológico
O critério para a constituição de que a Igreja seja sacramento universal de salvação é primariamente perguntarmos a partir da hermenêutica teológica. Sacramento é apontado no Concílio Vaticano II como uma perspectiva hermenêutica teológica, buscando uma interpretação de relação com o próprio mistério salvífico de Cristo, que tem tudo a ver com o objeto de nosso estudo. Logo, a primeira ideia é a de que Cristo é o Salvador. Ora, se Cristo é o Salvador, como é que acontece essa realidade salvífica? Como se dá essa salvação em Jesus?
Evidentemente nós compreendemos que ela se dá pelo fato de que aquele que é Deus tenha se feito homem (natal de Jesus). Ora, se esse mistério da encarnação é fundamental, logo, na encarnação já está presente a forma, a maneira como Deus nos salva. Por isso, a encarnação já está marcada por uma dimensão pascal. Na encarnação encontramos Deus-homem, logo a condição humana está assumida por Deus. Então, sua humanidade é critério fundante para nós entendermos o aspecto salvífico, pois a natureza humana está assumida pelo próprio Deus. Chamamos isso de dimensão cristológica. Pela condescendência do Filho nós encontramos esse aspecto de salvação.

2. A salvação na Igreja opera a partir do Espírito para a realização do Reino
Do ponto de vista da Igreja, precisamos aplicar outra realidade, que chamaremos de aspecto pneumático. Esse aspecto é considerado pela condescendência do Espírito, que cria, consequentemente gerando a própria realidade da Igreja, pois a Igreja é também desejo do Espírito, constituindo-a como corpo. Por isso a afirmação de que a Igreja é dom pentecostal, já que sua constituição é da ordem do Espírito.
No capítulo de 16 de Marcos encontramos a expressão de Jesus “ide e fazei todos meus discípulos”. Essa expressão é idealizada no chamado da Igreja para realizar a obra da salvação operada por Deus na pessoa do próprio Jesus. Sua missão é a de que o Reino de Deus seja instaurado no mundo. De fato, o desejo único da Igreja é um estado permanente de Advento: que venha o Reino de Deus! (cf. Ad Gentes). Logo, a missão da Igreja é fazer com que o Reino aconteça, isto é, se instaure verdadeiramente, no aqui e agora de nossas realidades, noutro modo de dizer, no “chão da vida” da existência humana, com suas mazelas e seus sofrimentos. A Igreja também tem por missão a edificação do Reino de Deus. Logo, o Reino de Deus é maior que a Igreja, por isso cresce como germe no próprio mundo.

3. Salvação pela Palavra de Deus
A Igreja se apropria então da própria Palavra de Deus para realizar seu intento, e dela se faz portadora, anunciando tudo o quanto foi nela escrito, desde o Antigo Testamento até o Novo Testamento, por inspiração divina, a fim de que todos cheguem à salvação. O nº 15 da Dei Verbum afirma que a “economia” do Antigo Testamento destinava-se, sobretudo, a preparar, a anunciar profeticamente (cf. Lc 24,44; Jo 5,39; 1Pd 1,10) e a simbolizar com várias figuras (cf. 1Cor 10,11) o advento de Cristo, redentor universal, e o do reino messiânico. Mas os livros do Antigo Testamento, segundo a condição do gênero humano antes do tempo da salvação estabelecido por Cristo, manifestam a todos o conhecimento de Deus e do ser humano, e o modo com que Deus justo e misericordioso trata as pessoas.
A Dei Verbum afirma que é nessa condição de imperfeição, isto é, de errância humana, que se revela, sobretudo, a pedagogia divina. Nessa pedagogia, a Palavra de Deus é sabedoria que conduz a vida humana, dando-lhe um sentido para sua existência. Importante a afirmação da Dei Verbum que diz que na Palavra de Deus também está contido o grito do povo que, em prece, suplicava por libertação. Logicamente aí está latente o mistério da nossa salvação.

4. Mistério da Palavra, mistério do Reino
Neste mistério de salvação da Igreja está também presente o mistério trinitário. É o que afirmam S. Cipriano, Santo Agostinho e São João Damasceno.
O nº 5 da Lumen Gentium diz que o mistério da Igreja manifesta-se na sua fundação. Foi Jesus mesmo quem deu início à Igreja pregando a boa nova do advento do Reino de Deus prometido desde há séculos nas Escrituras: “cumpriu-se o tempo, o Reino de Deus está próximo” (cf. Mc 1,15; cf. Mt 4,17). Este Reino manifesta-se na palavra, nas obras e na presença de Cristo, também por livre vontade do Pai que deixou que o Filho fosse conduzido pela força de seu amor para realizar esse intento.
A Palavra do Senhor compara a presença do Reino à semente lançada ao campo (cf. Mc 4,14): aqueles que a ouvem com fé e entram a fazer parte do pequeno rebanho de Cristo (cf. Lc 12,32), já receberam o Reino; depois, por força própria, a semente germina e cresce até ao tempo da messe (cf. Mc 4,26-29). Também os milagres de Jesus comprovam que já chegou à terra o Reino: “Se lanço fora os demônios com o poder de Deus, é que chegou a vós o Reino de Deus” (cf. Lc 11,20; cf. Mt 12,28). Mas este Reino manifesta-se, sobretudo, na própria pessoa de Cristo, Filho de Deus e Filho do homem, que veio “para servir e dar a sua vida em redenção por muitos” (cf. Mt 10,45).

5. Mistério do Reino presente na Igreja
Por esta força operante em Jesus, é que qualificamos como mistério trinitário na realização do Reino. O texto de Lumen Gentium 5 nos ajuda neste entendimento quando afirma que Jesus mesmo, depois de ter sofrido sua morte, ressuscitou e apareceu como Senhor e Cristo, feito sacerdote eterno, derramando sobre os discípulos o Espírito por ele mesmo prometido como dom do Pai. Por isso é que a Igreja, enriquecendo-se com a força de Jesus, que a envolve na caridade, recebe a missão de anunciar e instaurar o Reino de Cristo e de Deus em todos os povos e constitui o germe e o princípio deste mesmo Reino na terra. A Igreja, enquanto vai crescendo sob seu aspecto qualitativo, ao passo que vai anunciando o Evangelho, suspira pela consumação do Reino e espera e deseja juntar-se ao seu Rei na glória.
Claro que podemos ver já na Igreja terrestre a imagem deste Reino, pois ela aponta para o reino celeste, como sinal dele. Ao mesmo tempo também vemos a imagem da Igreja como aquela que espera ansiosa pela vinda do Senhor, esperando realizar em si mesma aquilo que espera para todos. O nº 48 da Lumen Gentium diz que este Reino já chegou, pois, a nós, a plenitude dos tempos (cf 1Cor 10,11), a restauração do mundo foi já realizada irrevogavelmente e, de certo modo, encontra-se já antecipada neste mundo: com efeito, ainda aqui na terra, a Igreja está envolvida de verdadeira, embora imperfeita, santidade. Em outras palavras, podemos dizer que a Igreja vive uma espécie de tensão entre “já e ainda não”. Perfazendo esse caminho de imperfeição, a Igreja peregrina, com os sacramentos e suas instituições, que são da ordem temporal, e por isso leva a imagem passageira deste mundo e vive no meio das criaturas que gemem e sofrem as dores de parto, esperando a manifestação dos filhos de Deus (cf. Rm 8,19-22).
Concluindo
Esperamos que neste Advento possamos ser como Igreja, povo de Deus, portadores da boa nova do Reino de Jesus. Que nossas celebrações levem-nos a um verdadeiro compromisso da edificação de seu Reino entre nós! A feliz expectativa do Reino seja o motivo para celebrarmos o Cristo que vem.

Advento como chave de uma esperança para um mundo melhor: o projeto cósmico de Deus

(A partir das aulas de Escatologia, do querido Prof. Reynold Blank, na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção – SP)
Eurivaldo Silva Ferreira

Incertezas e esperança perdida
Vivemos sob a exposição das características de um mundo pós-moderno que perdeu o sentido da esperança. As pessoas perderam a esperança e sua grande utopia desmoronou. Tudo aquilo que vinha marcando o imaginário de muitas gerações, desmoronou.

Esse ideal, presente no imaginário popular, foi pensando e maquinado sob o impacto de sistemas de governo que impunham em seus discursos o sonho de um dia em reatar a esperança das sociedades. Assim aconteceu com o modelo do comunismo, do socialismo, das ditaduras etc. Todos eles prometeram resolver os problemas das pessoas, e que iriam “repartir o bolo”, e todos viverem melhor numa sociedade capitalista, mas sobre o impacto de um neo-capitalismo, a partir de uma de uma busca, de um lucro a qualquer preço, sobremaneira. A grande utopia de um iluminismo, “iluminado” pelos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, também evaporou.
Num dado momento, também para os cristãos e católicos, restou a grande utopia de uma Igreja de comunhão e participação, sob o impacto de um neoconservadorismo, de um neocentralismo, que de novo vê-se subindo ao poder eclesial. No mundo católico, vê-se também que o ideal de comunhão-participação, já pensado em Medellín, vai por água abaixo.
A partir desta constatação e sob esse pano de fundo, é que o tempo do Advento nos coloca como cenário o propósito de Deus ao ser solidário com o homem, com a mulher, participando também de suas angústias e sofrimentos. Neste tempo, extraindo seu conteúdo espiritual, fica nítida a ideia de que Deus formulou uma base para esse mundo.
Quando se fala de Deus, um primeiro problema, para a maioria dos cristãos, está em dirigir o olhar para o passado. Como se diz na música: um “flash-back”... Fala-se de um Deus que se revelou dois mil anos atrás em Jesus Cristo. Fala-se de um Deus que fez isso e aquilo há tempos atrás. Para um grande número de cristãos, o que importa é manter essa tradição, do Deus que fez tudo. Embora essa linha de raciocínio tenha se desvirtuado, passando o “faz tudo” como a grande expressão mágica do momento. A ideia de que Deus é um mago (que faz mágicas) circunda todas as propostas de encontro com o divino. Infelizmente o mundo cristão católico também está entrando nessa.
Consideremos que é importante também olhar para o passado, para a tradição, mas o perigo é que se fique somente no passado. O que é importante é que Deus sempre se revelou no passado, orientado para o futuro, idealizando e formulando projetos que se realizarão no futuro. É exatamente num contexto de passado que Deus chama a sair de situações cimentadas, fixadas e a começar uma caminhada rumo a novos horizontes.
O profeta Isaías, nos ciclos litúrgicos dominicais dos Anos A e B, vem dizendo isso durante todo o Tempo do Advento e se estende ao Tempo do Natal. A história de Abraão, por exemplo, é exemplar como a de uma história para um futuro que ainda não começou. Então concluímos que Deus é um Deus orientado para um futuro. É no futuro que se vai realizar o escathom, o projeto final, seja no ser humano, seja no cosmos. Esse pensamento ainda não morreu, mas é no futuro que se vai abrir para nós os nomes tradicionais que conhecemos, dentre eles a esperança. É no futuro que o que Deus imagina para esse cosmos, se vai realizar, na concretude seu Reino.
Na afirmação de que Deus é Deus no futuro, nós todos temos uma tarefa, a de sermos instrumentos desse Deus, através dos quais ele mesmo vai realizar esse projeto de futuro. É através de nós que ele vai realizar isso, assim como realizou muitas coisas tempos atrás por meio de juízes, patriarcas, reis e profetas. Seria tão bom se Deus agisse de forma mágica, e nós ficássemos sentados, nos “engordando” espiritualmente. Há muitos que ainda pensam assim. Só que Deus não faz, ele mesmo diz: façam vocês, vocês são capazes. Nós estamos envolvidos nisso, pois não somos simples observadores.
O Tempo do Advento nos faz mergulharmos nesta mística de participantes do projeto futuro de Deus, na esperança da firme certeza da realização de seu Reino entre nós, quando da irrupção de sua vontade, como num treinamento para o que realizar-se-á na parusia, no final dos tempos.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Advento: memorial da esperança cristã

 
José Lisboa Moreira de Oliveira*
Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília
extraído de www.adital.com
As ciências da religião mostraram que, desde o surgimento da religiosidade, o ser humano religioso sacraliza o tempo. Ele procura inserir intervalos de tempo sagrado no "tempo profano”. Mircea Eliade afirma que o tempo sagrado serve para reatualizar eventos que tiveram lugar nos primórdios, no passado mítico. No tempo sagrado acontecem as festas religiosas e as liturgias. Elas servem para reintegrar o tempo ordinário ou normal no tempo mítico. Através do tempo sagrado os seres humanos religiosos acreditam recuperar o eterno presente e fazer experiência da presença da divindade. Assim sendo, na concepção da pessoa religiosa o tempo sagrado permite que o mundo renove-se anualmente e reencontre a sua santidade original. Nessa concepção não há apenas a cessação de um tempo, como pensam as pessoas modernas, mas a abolição do passado e a cessão do tempo decorrido. O tempo que existiu até então desaparece por completo e surge um novo tempo. E ao participar das festas sagradas que marcam o tempo sagrado as pessoas também são recriadas e passam para uma nova existência. Neste sentido a festa sagrada não é a comemoração de um acontecimento do passado, mas a sua reatualização.

Por meio dos tempos e das festas sagradas os seres humanos religiosos acreditam que se tornam contemporâneos dos deuses. Creem que por meio delas podem reencontrar a plenitude da vida e experimentar a sensação de existir como criaturas dos deuses. Podemos então afirmar que na sacralização do tempo se encontra uma das grandes aspirações de todo ser humano: voltar àquele estado original do mundo nascente que assegura uma vida realmente feliz. Trata-se do desejo de uma vida autêntica, simples, mas carregada de significado e de sentido. Por isso ele está disposto a colaborar com as divindades, fazendo de tudo para reestabelecer este estado originário de existência. Podemos então afirmar que neste elemento da religiosidade nós encontramos não só a sede do sagrado, mas também a sede do ser, entendendo isso como desejo profundo de autenticidade e de felicidade.

Isso vale também para o cristianismo e para cada um dos seus tempos litúrgicos e para cada uma de suas festas e celebrações. Por meio dos tempos sagrados e de suas celebrações litúrgicas o cristianismo entende trazer para o momento presente o tempo de Cristo. O cristão e a cristã se conectam a Cristo participando das festas dos tempos sagrados, tornando-se ramos verdes e frondosos da grande videira que é Jesus (Jo 15,1-6). Os tempos sagrados do cristianismo querem ajudar os cristãos e as cristãs a perceberem que Jesus Cristo não é um personagem do passado, do qual guardamos algumas lembranças bonitas. Querem revelar que "Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje, e será sempre o mesmo” (Hb 13,8).

O objetivo de tudo isso é robustecer a fé, a esperança e a caridade, de modo que os cristãos e as cristãs não precisem de doutrinas estranhas e de certas regras exóticas para viver (Hb 13,9). O objetivo dos tempos e das festas sagradas é alimentar a autonomia e a liberdade de espírito, dadas por Cristo, de maneira tal que as pessoas não precisem viver submetidas a normas esquisitas que escravizam (Gl 5,1-6). Ao participar dos tempos, das festas e das liturgias sagradas, os cristãos e as cristãs experimentam em profundidade o amor e a ternura da Trindade que afastam o medo e o temor (1Jo 4,18).

No cristianismo, cada tempo e cada festa litúrgica entende realçar alguns elementos significativos de toda essa dinâmica. Assim, por exemplo, o tempo do Advento, período de quatro semanas que antecede o Natal, procura nos ajudar a refletir sobre a esperança. Esta, a esperança, é uma das características fundamentais do cristianismo. Sem ela a existência humana não teria sentido; seria mero desespero. Isso porque, diz o apóstolo Paulo, "a esperança não engana, pois o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

A esperança, por sua vez, brota da certeza de que o Reinado de Deus já está acontecendo no meio da humanidade. Apesar das nossas fragilidades, da violência e da injustiça, Deus Trindade vai conduzindo a história humana na direção do Pleroma, ou seja, daquela Plenitude que ele mesmo sonhou para todo o cosmos, para todo o universo, e que se encontra no seu Filho Jesus (Cl 1,19-20). É a esperança que alimenta a nossa existência e nos faz, como Abraão, "esperar contra toda esperança” (Rm 4,18). Ou seja, é a esperança que nos impulsiona a seguir, mesmo quando tudo ao nosso redor parece desmoronar e não ter mais sentido. Porém, para que isso aconteça é indispensável não ver a esperança como uma "virtude cristã”, mas como dimensão essencial da existência cristã. Se nós vemos a esperança como "virtude” a conquistar, corremos o risco de nos livrarmos dela exatamente quando mais precisamos. Para que a esperança seja a propulsora do nosso existir é indispensável vê-la e senti-la como graça que já nos foi dada por Cristo. Não é preciso mais conquistá-la. Ela já está dentro de nós. Basta perseverarmos nela: "Na esperança, nós já fomos salvos” e "é na perseverança que aguardamos o fruto que dela virá” (Rm 8,24-25).

O Advento deveria ser o tempo da Igreja que realiza o memorial da esperança cristã. Preparando-nos para celebrar o natal de Jesus, "nossa esperança” (1Tm 1,1), este período litúrgico deveria, por meio de suas celebrações e reflexões, levar os cristãos e as cristãs a serem mais esperançosos. Infelizmente boa parte do povo cristão ainda vive na desesperança. Sinal evidente disto é a corrida desesperada por milagres e curas. É a infinita carga de promessas e o consumo interminável de "kits de salvação” (medalhas, santinhos, frascos de água benta e de óleos etc.) vendidos nos santuários, igrejas e livrarias religiosas.

Esta falta de esperança leva ao descompromisso e à indiferença. Leva ao individualismo religioso: cada um e cada uma querendo se salvar sozinho e para se salvar sozinho quer sempre levar vantagem sobre os outros. O máximo que fazemos são alguns atos assistencialistas, como, por exemplo, distribuição de comidas, roupas e cobertores em determinadas ocasiões. Mas, nos recusamos a exercer a cidadania e a participar ativamente da vida social, como nos pediu o Concílio Vaticano II. E sem este tipo de participação e de engajamento não há como mudar os destinos do mundo.

É verdade que o Reinado de Deus já está acontecendo, mas o Pai quer que, pela esperança ativa, apressemos a sua chegada e a sua plena realização (2Pd 3,12). E a humanidade tem o direito de receber dos cristãos e das cristãs um testemunho concreto de esperança (1Pd 3,15). E este testemunho concreto não acontece por meio de palavrórios, de rezarias e de esmolinhas, mas da participação ativa em projetos de justiça e de solidariedade. De fato, como nos ensina Tiago, a fé sem ações concretas é um cadáver (Tg 2,26).

Somos, pois, convidados a viver o tempo do Advento como tempo de esperança. Para tanto seria bom fazer algumas mudanças na liturgia católica do Advento, começando por abolir o clima penitencial que o caracteriza e que se expressa pela ausência do Glória e pela cor roxa dos paramentos. A esperança é verde e não roxa! Esperança não rima com tristeza, mesmo quando não vemos com clareza; quando as coisas parecem caminhar para o precipício. Esperança rima com alegria (1Ts 2,19-20). Precisamos, pois, devolver a alegria ao tempo do Advento: "Fiquem sempre alegres no Senhor! Repito: fiquem alegres! Que a alegria de vocês seja notada por todos. O Senhor está próximo. Não se inquietem com nada” (Fl 4,4-6).

[*Filósofo, teólogo, escritor, conferencista e professor universitário. É autor de Antropologia da Formação Inicial do Presbítero, por Edições Loyola].

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A Eucologia do Tempo do Natal

Eurivaldo S. Ferreira

Um conjunto a ser apreciado pelas comunidades cristãs é a riquíssima tradição das orações das celebrações do Tempo do Natal. Este conjunto orienta as comunidades para a perspectiva horizontal e vertical própria do tempo. Sobretudo aos que não têm acesso aos textos das leituras do Ofício Divino, que são fontes de espiritualidade, os textos da eucologia mostram um caminho pedagógico completo em sua força sacramental e espiritual, principalmente porque a graça prometida por Deus nos faz orientarmos nossas vidas de acordo com os seus ensinamentos. Esses ensinamentos são percebidos pela oração da Igreja.
Eucologia significa propriamente a teoria da prece (de euché: oração; e logos: tratado), isto é, a ciência que se ocupa das orações e das leis que regem sua formulação. Não obstante, a palavra é usada num sentido mais amplo para referir-se ao conjunto de orações contidas num formulário litúrgico, num livrou ou, em geral, em toda a tradição litúrgica. Este é o uso mais frequente da palavra. As fórmulas eucológicas foram criadas pela Igreja para exprimir, com a linguagem da oração, o mistério da salvação que se celebra (cf. FÉRNANDES, Luis Maria. A oração litúrgica. In: Manual de Liturgia, volume II. São Paulo: Paulus, 2005, p. 218-219).

A oração do dia, também chamada de ‘Coleta’, é constituída pela seguinte estrutura: uma invocação e um elogio ou reconhecimento; um pedido, uma finalidade (a finalidade, geralmente vem intermediada com uma ação nossa, da Igreja ou uma característica oriunda do próprio pedido) e uma intercessão, que geralmente é “por nosso Senhor Jesus Cristo...” .
As orações Coleta deste tempo são marcadas, sobretudo, pelo caráter festivo próprio da liturgia deste tempo. Se no Tempo do Advento, celebramos a vinda do Senhor como sacramento da espera e da atenção, o Tempo do Natal é marcado pela confirmação de que o Messias se faz presente no meio de nós como realização das promessas divinas. Essas celebrações recebem todo revestimento pascal, dados os motivos de sua densidade eucológica.

Para as comunidades que se reúnem no tempo do Advento para fazer seu retiro anual, sugiro como tema as orações do tempo do Natal. Um aprofundamento desses textos nos conduz num itinerário apropriado para aprofundarmos nossa fé e testemunharmos o Reino no mundo.

Como explorar num retiro o conjunto das orações:
Em grupos ou pessoalmente:
Nas orações e nos prefácios:
1. Identificar o mistério presente (de que mistério trata?);
2. Identificar nossa ação diante do mistério (o que pede para a Igreja/comunidade?);
3. Propor para si mesmo uma atitude espiritual (um propósito para o corpo e para a alma), viver bem diante da liturgia, eis a questão.

Exemplo: Missa da Vigília – Oração do dia (Coleta)
Ó Deus, que reacendeis em nós cada ano a jubilosa esperança da salvação, dai-nos contemplar com toda a confiança, quando vier como juiz, o Redentor que recebemos com alegria. Por N. S. J. C, vosso Filho, na unidade do E. S.

1. O mistério presente: a esperança de salvação que se reascende anualmente (sinal de páscoa)
2. O que pede para a Igreja? Contemplar com toda a confiança, quando vier como juiz, o Redentor que recebemos com alegria.
3. Atitude espiritual (um propósito para o corpo e para a alma): apesar de todas as adversidades da vinda histórica de Jesus, a Igreja ainda vive da esperança de que o Senhor vem um dia, como justo juiz. É esta esperança que nos consola, por isso caminhamos confiantes , sem desanimar.

(Os grupos podem buscar pistas nas leituras do dia, por exemplo, para aprofundar os três itens)

Se for grande o número de participantes do retiro, pode ser dividido em grupos menores, por exemplo, e cada grupo ficar com uma oração:
Grupo 1: Missa da Vigília – Oração do dia (Coleta)
Grupo 2: Missa da Noite – Oração do dia
Grupo 3: Missa da Aurora – Oração do Dia
Grupo 4: Missa do Dia – Oração do dia
Grupo 5: Sagrada Família – Oração do Dia
Grupo 6: Santa Mãe de Deus – Oração do Dia
Grupo 7: Epifania do Senhor – Oração do Dia
Grupo 8: Batismo do Senhor – Oração do Dia

Podem ainda ser usados os textos dos Prefácios.

Quem dirige o retiro pode se apoiar nos textos abaixo:
Outras informações acerca da Eucologia do Natal:
- A maior parte das orações natalinas testemunha a liturgia romana dos séculos V e VII, presentes em missais clássicos.
- Nas orações da Missa da Noite e da Missa da Aurora aparecem como realidades simbólicas a noite e a fé. A noite como o símbolo do erro e do pecado é iluminada pela verdadeira luz, Cristo revelador do Pai. Essa noite é também iluminada pela luz da ressurreição. O pedido da Igreja é coerente, conjugando os elementos fé e luz, graça e glória, como que opondo as realidades terrenas e celestes. A fé deve ser iluminada pelas obras do Cristo, que opera com a caridade revelada em sua vida terrena.
- No Prefácio I contemplamos, pelo conhecimento da fé, uma experiência viva de amor, ou melhor, de êxtase, um sair de nós para deixarmo-nos conduzir pelo amor das realidades do céu.
- O texto dos outros prefácios colocam em evidência como o mistério da encarnação reintegra o universo no desígnio do Pai, depois da desintegração acontecida por obra do pecado, e a misteriosa troca que nos redimiu.
- S. Leão Magno, o grande teólogo da celebração natalina, afirma que “o mistério da natividade de Cristo” é uma rica e profunda expressão, através da qual apresenta o valor salvífico do evento. Os diversos fatos narrados pelos evangelhos são a parte visível do mistério do Natal, mas a essência do mistério encontra-se na união da humanidade com a divindade na única pessoa divina do Verbo. A finalidade deste “admirável mistério” é salvar a humanidade; é, portanto, essencialmente um “mistério de salvação”, mediante o qual é dada ao ser humano a graça da reconciliação. O mistério continua operante na Igreja mediante a celebração litúrgica, portanto, para S. Leão Magno, em suas homilias, o natal não é apenas uma simples lembrança, mas tal mistério já é uma realidade tal qual o vemos no presente, isto é, a comunidade experimenta hoje aquilo que se teve nos inícios de Cristo.

Para aprofundar:
O ciclo do Natal nasce no 4º século, muito mais fruto de um combate às heresias que pregavam a negação da encarnação de Cristo do que a motivação pascal.
Os cristãos a copiaram dos romanos, que tinham no deus sol um certo fascínio. Uma das noites de dezembro era a mais longa do ano e os romanos diziam: ‘se continuar essa noite tão longa, assim o sol vai morrer’. Os cristãos viram nessa imagem um ícone eloquente da morte de Jesus. Daí se começa a criar uma festa pra criar o nascimento do ‘Sol da justiça’.  A profecia de Malaquias e o cântico de Zacarias foram os motivadores bíblicos.
Os evangelhos trazem uma preocupação de situar historicamente o nascimento de Jesus, mas o relatam fazendo um paralelo com a ressurreição.
Assim como a Páscoa, o Natal possui uma vigília, um tempo de prolongamento e um tempo de preparação.
Há históricos de batismo nesse tempo.
No Ocidente vingou a festa do Natal, enquanto que no Oriente prevaleceu a Festa da Epifania. Numa mútua troca entre as duas Igrejas, estabeleceram-se três aspectos do natal: o nascimento, a epifania e o batismo.
Com o caminhar da história o ciclo do Natal perde sua força pascal, e resume-se o natal a um sentimentalismo muito mais condensando pela força do comércio.
O nascimento de Jesus é um divisor de águas, um Deus que assume a forma humana. Perguntamos então qual é o desafio que encontramos dentro de uma sociedade que adora o natal, mas deteste o advento? É claro que o comércio está fazendo o papel dele, o pior é quando a Igreja reproduz o papel das lojas. Colocam dentro de seus templos árvore de natal, pisca-pisca, enfeites importados etc. A questão é muito mais séria do que o uso que a sociedade faz de uma festa cristã. O duro é quando a própria Igreja não consegue fazer o contraponto de um tempo tão importante para a pedagogia da fé, e deixa de agir profeticamente também para os seus membros internos.


A Editora Paulus lançou no dia 26 de novembro um novo site: www.vidapastoral.org.br.
No site todos podem apreciar os artigos publicados impressos na Revista Vida Pastoral.
Além de trazer artigos interessantes sobre a situação atual da Igreja ou sobre temas teológicos atuais, traz também os roteiros homiléticos, práticos para quem quer aprofundar as leituras da liturgia da Palavra dos domingos do Ano Litúrgico, que ajudam tanto ministros ordenados que presidem a eucaristia como outros ministros, servidores da Palavra, que presidem a Celebração da Palavra em muitas comunidades do Brasil.
Você pode também fazer o download de todos os artigos para o seu computador ou ipad.
Recomendo este site como um perfeito subsídio para aqueles que querem aprofundar algum assunto com relevância pastoral e teológica da Igreja no Brasil e no mundo .



segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Buscar uma espiritualidade a partir do Tempo do Advento


Eurivaldo Silva Ferreira

Ao começarmos um novo ciclo do Ano Litúrgico, sempre nos deparamos com uma liturgia que nos amedronta. Os evangelhos falam de sinais do céu que serão abalados por forças estranhas. A cosmicidade apresentada nos Evangelhos se vê numa situação de risco eminente, ao passo que as primeiras leituras narram a situação de risco dos reinados, sendo frequentemente substituídos por reis que maltratam, oprimem a não permitem ao povo a dignidade querida por Deus ao dar seguimento à proposta da Aliança.
Antes de aprofundarmos sobre um sentido amplo de uma espiritualidade que permeie o Tempo do Advento, precisamos nos confrontar com o sentido dos textos que são nos apresentado nas liturgias deste ano (Ano C).
1º Domingo: Os profetas do Advento têm a forte cultura de que um novo Davi deveria surgir para restaurar as forças de Israel, sobretudo a questão da aliança, rompida pelo povo de Israel, era instrumento de suas profecias. Na 1ª Leitura, é a vez de Jeremias afirmar isso. Em meio a todo esse anúncio de desgraça, Jeremias também se mostra esperançoso para com o povo de Deus: “Eis que vêm dias e eu vou suscitar a Davi um renovo justo”, é o que anuncia Deus àquela nação, confortando-a e alimentando-a com esperança. É aí que Deus se apresenta como a Nova Justiça, pois aquela dos reis e dos sacerdotes do tempo de Jeremias não era válida, não era a mais fiel, pois deixava o povo a mercê de falsas ideologias, falsas religiões e falsos caminhos. Também é nesse sentido que Jeremias nos aponta um Deus que também é consolador, muito mais que destruidor, que arrasador. Já o Evangelho mostra o fim do mundo através de um gênero literário da época: o gênero apocalíptico. É uma linguagem para tempos difíceis, cuja finalidade é animar as comunidades para a denúncia profética e a resistência diante de tudo o que se opõe ao projeto de Deus. Como ficar de pé diante de tanta injustiça? Como suportar a tudo sem desanimar? Paulo exorta a comunidade para que fique com os corações em santidade, dando continuidade àquilo que foi ensinado a ela, mas numa atitude progressiva, procurando melhorar e aperfeiçoar suas atitudes. Uma delas é o amor, pelo qual a comunidade vive a solidariedade e a comunhão. Isso gera justiça e é agradável ao Senhor, pois o Senhor é a nossa justiça.

2º Domingo: Na profecia de Baruc encontramos elementos idênticos ao de Isaías: a vestimenta da glória, os caminhos endireitados e os montes abaixados. Trata-se de imagens de consolo para um povo que se viu desgarrado de seu Deus, por ocasião do exílio da Babilônia. Teria Deus o abandonado? Não, mas a justiça de Deus fará de novo brilhar, guiando os passos da comunidade. O sinal da restauração do povo novo é o sinal profético da vinda do Messias. João Batista dá esse sinal profético, sobretudo pelo elemento histórico narrado no Evangelho. A apresentação do Jesus histórico não se opõe ao Messias profético, mas dá um sentido de continuidadade ao projeto de Deus para com seu povo, o de liberdade, numa sociedade pacífica. A inauguração do Reino de Deus com a vinda do Messias se dá pelo amor que faz com que as comunidades vivam em perfeita comunhão, até a vinda última de Cristo. O amor é fruto da justiça. (2ª leitura).

3º Domingo: O profeta Sofonias exorta a comunidade para viver o júbilo da restauração prometida por Deus, depois do exílio da Babilônia. A sua mensagem é de otimismo, alegria e esperança, sobretudo porque Deus conta com eles, os mais pobres, para a realização do seu projeto de uma sociedade nova, de uma nova história. João Batista adere a essa proposta de Deus e prepara o caminho do Messias, exortando o povo a melhorar suas vidas através da conversão, da partilha, da justiça, da eliminação do abuso do poder e do mal. Vivendo assim, a comunidade pode alegrar-se no Senhor, pois ele vem e deseja encontrar a todos na observância dessas atitudes (2ª Leitura).

4º Domingo: Para Miquéias, um profeta do pós-exílio, Belém é a escolhida para a contemplação da justiça de Deus, através dos pobres. Faz lembrar Davi, um pastor da roça, portanto não oriundo de uma grande cidade. A profecia de Miquéias fala da própria vinda do Messias, que será rei e pastor, e terá o título de Paz. É este Messias de que fala o Evangelho de Lucas, quando relata a infância de Jesus. Trata-se de uma leitura teológica, a partir da ressurreição de Cristo, a fim de iluminar a caminhada das primeiras comunidades cristãs. A 2ª Leitura nos lembrará isso, fazendo memória do sacrifício de Cristo, a sua morte, paixão, ressurreição e ascensão. Em Cristo, todos os outros sacrifícios foram suplantados. Trata-se agora de compreender a nova oferta ao Pai, o Verbo feito carne e oferecido aos homens.
Pois bem, vimos então que uma espiritualidade vista sob a ótica do tempo do Advento inclui a dimensão terrena e a dimensão celeste. Terrena porque exige de nós um compromisso ético que é vivido como parte integrante no ser humano. Celeste porque nos conforta a esperança de que o Senhor veio, vem e virá. É nessa proposta de atenta espera e vigilante expectativa por sua vinda que vamos construindo um porvir de esperança, esperança de um Reino presente entre nós. Trata-se de um gestar desde dentro, amalgamando uma identidade própria do ser cristão. Os profetas da restauração lidos no Ano C nos oferecem um modelo de disposição de toda sociedade: religião, poder civil e povo. Na verdade nem precisa ouvir, basta ser e apostar num estado de harmonia entre essas três classes. Só aí tem significado a expressão de que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós!”, isto é, quis harmonizar-se com a gente.
Portanto, para as liturgias do Ano C, a proposta do encontro com Deus se dá na totalidade da pessoa, sem provocar reducionismos espirituais, isto é, fugir do mundo e procurar em lugar distante a mística litúrgica deste tempo. Não se foge do mundo para se viver uma espiritualidade, mas se vive como Cristo, que abraçou o mundo. É o aqui e agora o tempo da graça do Senhor. Essa tem como elemento central a experiência de fé e o seguimento de Jesus Cristo, além da pertença à Igreja, sobretudo no seguimento a Jesus também no nível martirial. Ou pela maneira de se viver as virtudes regradas pelo bem-viver ou por um seguimento evangélico pobre e simples ou numa visão libertadora.
Logo, espiritualidade tem a ver com um caminho que se opõe àquele que muitos querem viver. É o mesmo que fez Isaias, não compactuando com uma forma de escravidão vigente, ao mesmo tempo ressoando sua voz como uma denúncia. Nessa forma de viver o horizonte da oração é o reino, advindo de uma intimidade com o Pai, ele quer que façamos isso de maneira permanente, pois isso é o que nos fará capaz de conquistar o reino. Por meio da oração litúrgica se vive uma espiritualidade que é ao mesmo tempo confiante, pois a liturgia cria posturas de oração para que ela seja verdadeira. Todavia, ao conjugar oração e ação, é necessário que nos permitamos uma abertura de esvaziamento à entrega do projeto de Deus, isto é, a instauração do seu Reino entre nós. A atitude de ter os pés no quintal, mas com o coração aberto à humanidade inteira, com todos os seus clamores e necessidades, semeando aqui as sementes de um novo tempo. Na Carta aos Romanos, São Paulo pede que acordemos e passamos da contemplação à ação (cf. Rm 13,11-14 – 2ª Leitura do 1º Domingo do Advento – Ano A). Nesse sentido podemos contemplar a “madrugada da vida plena” (assim como Isaias prevê acontecer, Paulo também prevê), só então privilegiaremos a espiritualidade do Tempo do Advento como um sinal da ressurreição escatológica do ser humano.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A manifestação da bondade e da misericórdia de Deus em Jesus Cristo,

Eurivaldo Silva Ferreira

Para ler o artigo é necessário ter o texto de Lc 1,68-79, que pode ser extraído da Bíblia de Jerusalém
Introdução
O cântico de Zacarias assemelha-se ao de Maria, quando celebra o caráter inédito e decisivo da intervenção de Deus na aurora dos novos tempos, Jesus, a luz que nos visitou (vv. 78-79). Tanto um como outro, porém, colocam esta intervenção no encalço da memória de Israel e da continuidade do desígnio de Deus.
Tem-se indícios que este canto seja uma composição do próprio evangelista Lucas, influenciado pelas composições judaicas de seu tempo (elemento de enculturação). Faz parte da família dos salmos messiânicos, linguagem em que judeus compartilhavam com seus antepassados.

Historiografia: um grupo em Israel era odiado pelos inimigos, andava nas trevas, e a salvação de Deus era sinal da misericórdia deste por causa da aliança com seu povo, já que este grupo era tido como que o “resto” de Israel e guardava a santidade e a justiça esperadas do povo da aliança.
Lucas, movido pela intenção do Espírito Santo (também presente em Atos), faz uma ligação desta tradição, através das imagens descritas no hino com a comunidade de Atos, cheia do Espírito Santo que fazia profecias (At 2,18).

Considerações lucanas a respeito do cântico
O início do louvor a Deus, a partir da cura do estado de mudez de Zacarias, dizendo: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel”, como que uma espécie de bênção, que também fora pronunciada por Izabel, no encontro com Maria, e por Maria, no cântico do Magnificat. Embora essas comparações devem ser deixadas de lado devido ao jeito de Lucas compor suas narrativas. Único indício disso no cântico de Zacarias é a própria referência lucana ao “Altíssimo” no diálogo do anjo com Maria (cf. Lc 1,32a).
Referência de Lucas: está relacionada a João Batista, considerado como aquele que “irá à frente do Senhor (Deus), para preparar-lhe os caminhos” (v. 76b). Esta promessa, também referenciada em Lc 1,16-17, atesta que a intenção de Lucas é voltada a uma preocupação de apresentar a realização das promessas de Deus, sobretudo num ambiente geográfico específico, ou seja, Deus encarnado na história, conforme os desígnios do Espírito. É própria de Lucas a intenção de apresentar ou relatar um plano histórico-salvífico-universal, do qual os próprios discípulos e a comunidade cristã foram testemunhas (Lc 24,48).

Estrutura do cântico
Os cânticos de Lucas têm a estrutura de um louvor, semelhante à estrutura apresentada nos salmos, formados por três partes específicas:
a) Uma introdução de louvor a Deus (v. 68a).
b) O corpo do hino que relaciona os motivos de louvor, que começa a oração do “porque” (v. 68b).
c) A conclusão, que recapitula alguns dos motivos do hino (vv. 78a-79b).
Há quem diga que este cântico é um hino dedicado ao aniversário de João Batista, com a possibilidade de ter inserções de seguidores de João Batista (hipótese descartada por alguns estudiosos). O certo é que a semelhança com a estrutura sapiencial é referenciada com a frase de conclusão “todos os dias de nossa vida”, frequentemente encontrada nos Salmos (como é o caso de Sl 16,11; 18,51; 23,6; 28,9; 30,13).

Análise textual
Somente com análise de aproximação de ideias. Esta trata das referências verbais encontradas nos textos, como que justificativas gramaticais. Para melhor compreensão, separamos o cântico em duas estrofes, em seguida destacamos alguns verbos, e depois deles faremos nossos comentários:


 
Verbos de destaque: a) “visitou”, b) “libertou”, c) “fez surgir”, (também traduzido como “ergueu”).
 
 
Conclusão estrutural lucana

O hino é cristológico: Cristo, o Messias, é a principal razão da bendição. Mostra clara a realização da expectativa veterotestamentária: o cumprimento de uma promessa a Davi e sua casa, que foi transmitida pelos profetas, e de um juramento a Abraão e seus descendentes, que fazia parte da aliança.

Aliança, dois aspectos: Deus que propõe (primeira estrofe, com a promessa e sua realização) e, o povo que responde (segunda estrofe, com a parceria, baseada na santidade e na justiça que devem marcar sua vida). Este povo, que mantém a aliança, serve a Deus todos os dias de sua vida, quer no templo, na ação litúrgica, quer na vida pessoal-social, em prol da coletividade (cf. 74b).
Elogio conclusivo: nos vv 78-79, a Jesus, no qual se realiza o tema da “visita” de Deus, que iniciou a primeira estrofe, e à “misericórdia” de Deus, que iniciou a segunda estrofe.

João Batista, quase no fim do hino: João vem antes de Jesus, é o profeta que prepara a luz (3ª estrofe). Ideia de preservar o propósito original do cântico, que dava prioridade ao Messias; por isso, o cântico precisa ser concluído com “o profeta do Altíssimo” que caminhará à frente do Senhor para preparar seus caminhos, mas com a “luz nascente do alto” que aparece aos que estão nas trevas. Imagens queridas dos autores de Isaías, da quais Lucas se apropria. Lucas busca em Is 40,3 e Mc 1,1-8 (“voz que clama no deserto” e “eis que eu envio meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho diante de ti”). O profeta é designação singular da parte de Jesus referenciando-se a João em Lc 7,26 – “Um profeta? Sim, eu vos digo, mais que um profeta” – juntamente com a indicação em Lc 16,16 de que João Batista é o último dos profetas. É João Batista que fez com que o povo entendesse a visita de Deus através de uma conversão, que tinha como consequência o arrependimento e o perdão dos pecados.
Conclusão
Podemos concluir que este cântico é um conjunto de ideias veterotestamentárias e intertestamentárias, em que o autor celebra a redenção que Deus realiza através de Jesus, o Messias davídico. A intenção é a de recordar o louvor a Deus pela salvação oferecida por ele e a lembrança de sua paz, destinada a quem o respeita, seguindo sua aliança, pois é na aliança que a bondade e a misericórdia de Deus se manifestam.
 
Bibliografia:
BÍBLIA. Português. BÍBLIA DE JERUSALÉM. Tradução de La Bible de Jerusalém. São Paulo: Paulus. 2006.
BROWN, Raymond. O Nascimento do Messias. São Paulo: Paulinas, 2005, pp. 450-465.
GOURGUES, M. Os hinos do Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1995, p. 27.
 
 
 
 
 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

7º Encontro de Compositores da CNBB

Eurivaldo Silva Ferreira

Aconteceu dentre os dias 15 e 18 de novembro de 2012 a 7ª edição do Encontro dos Compositores da CNBB.


O Setor de Música Litúrgica da Comissão Episcopal para a Liturgia da CNBB vem realizando a cada ano um encontro de formação para compositores e letristas de música litúrgica. Considerando a necessidade urgente de aperfeiçoamento litúrgico-musical e o bom êxito dos encontros anteriores, o Setor quer proporcionar aos que se destinam a compor música litúrgica uma continuidade no aperfeiçoamento da técnica da composição e qualificação da música litúrgica da Igreja no Brasil.

Tendo como objetivo promover a formação litúrgico-musical de compositores e letristas com as competências requeridas à formação e ao desenvolvimento de um grupo comprometido com a música no Brasil dentro de parâmetros estéticos, teológico-litúrgicos e técnicos e culturais.
Desses encontros participam de pelo menos quatro edições compositores litúrgicos que já atuam como multiplicadores em suas dioceses ou regiões, convidados pelo Assessor do Setor de Música da CNBB, ou indicados pelos membros da Equipe de Reflexão da mesma. Esses compositores, atuando como multiplicadores, favorecem e auxiliam nossas comunidades, a fim de que possam cantar uma música que as ajudem a vivenciar o mistério pascal presente e celebrado nos diversos momentos do Ano Litúrgico.

A música litúrgica é como se fosse uma casa construída em mutirão, e todos nós somos artesãos dessa música, por isso a CNBB deseja investir na formação de pessoas compromissadas com essa proposta, convidando-as a se qualificarem na reflexão e na elaboração de uma música genuína, recheada do mistério pascal. Nas várias edições dos encontros, músicos e letristas são contemplados com subsídios teóricos e práticos voltados para a elaboração de cantos litúrgicos, ensejando conhecimento e técnicas de composição, além de ajudar a desenvolver um plano de formação litúrgico-musical, estimulando o surgimento de novas composições, como que num “mutirão”, que preencherão lacunas ainda existentes no repertório litúrgico da Igreja no Brasil.

O encontro sempre tem três eixos temáticos: a Liturgia, a Música e a Cultura brasileira, que são abordados,  discutidos e refletidos em palestras, exposições ou em rodas de conversa, por isso sempre é assessorado por músicos profissionais, liturgistas qualificados e convidados especialistas no assunto, tudo sob a coordenação do Assessor da CNBB da Música Litúrgica, Pe. Carlos Sala.
Desta edição estiverem presentes 32 participantes, dentre músicos e compositores letristas de diversas regiões do país, especialmente convidados do Setor de Música da CNBB.

Organizado pela Equipe de Reflexão de Música Litúrgica da CNBB, esta edição teve como conteúdo e proposta o Ciclo do Natal do Ano Litúrgico, tendo em vista refletir e partilhar a caminhada eclesial, olhar o Natal a partir da cultura popular, refletir e aprofundar os fundamentos teológico-litúrgicos deste ciclo, bem como qualificar o conceito de mistagogia da música litúrgica. Os participantes também foram acompanhados por especialistas em duas oficinas práticas: uma de texto e poesia e outra de melodia.

A oficina de textos e poesia foi ministrada pelo Prof. Roberto Lima, especialista em linguística textual e integrante emérito do corpo docente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde lecionou Filosofia e Letras, além de poeta e letrista, com participação em várias letras, sobretudo as da Campanha da Fraternidade. Nesta oficina, o foco era a elaboração de textos e a composição poética, voltados para as letras do canto litúrgico do ponto de vista formal (técnicas de composição, prosódias e estilística) e de conteúdo (liturgia e fundamentos teológicos), apropriando-se dos estilos de rima, verso, métrica e poesia. Os participantes também analisaram textos da poesia clássica, canções da MPB e estilos poético-musicais mais modernos, como o RAP, de onde puderam extrair elementos para a inspiração de seus textos.

Já a oficina de melodia teve a colaboração de Paula Molinari, professora e coordenadora do curso de música da Faculdade de Campo Limpo Paulista (FACCAMP). Essas oficinas de composição musical são voltadas para a composição de melodias, atendendo ao espírito das letras litúrgicas, onde são abordados aspectos teóricos e práticos de composição, harmonia e arranjos musicais. Quem participou desta oficina teve como material para a elaboração das melodias os textos e poesias oriundos da oficina conduzida por Roberto Lima. Durante o encontro houve um momento de partilha em conjunto do aprendizado das duas oficinas.

O tema teológico-litúrgico que circunda em torno do Ano Litúrgico é sempre abordado por um especialista no assunto. Nesta edição, Penha Carpanedo, Discípula do Divino Mestre, foi convidada para trabalhar com os participantes o Ciclo do Natal, com sua preparação (Advento) e sua extensão (Tempo do Natal). Tendo ampla experiência na pedagogia litúrgica, sobretudo nas comunidades e em escolas de formação litúrgica, tanto para jovens como para adultos, Penha introduziu os participantes no Ciclo do Natal, explorando pedagogicamente os textos litúrgicos e patrísticos próprios do tempo, tudo sob o olhar cuidadoso da mistagogia, fonte que a Igreja tem para fazer a ponte entre teologia e liturgia.

O processo da abordagem do método mistagógico aplicado ao ensaio da música litúrgica foi elaborado por Márcio Antônio de Almeida. Esse especialista no assunto, além de músico e regente
de coro, atualmente dedica sua pesquisa à música litúrgica-ritual na UNESP, e em 2013 defenderá sua tese doutoral nesta área. Márcio ajudou os participantes a entrar no terreno da mistagogia e a aplicá-la ao ensaio de um canto litúrgico. Neste método parte-se da compreensão do rito, explorando seu sentido teológico, para se chegar a uma atitude espiritual. Assim, letra, poesia e melodia, são elementos que, se bem conjugados, ajudam a comunidade de fé, por meio do canto litúrgico, a se inserir no mistério celebrado.

As várias celebrações, sobretudo a Eucaristia, que aconteceram durante o encontro foram momentos fortes e marcados verdadeiramente com o espírito do qual requer a caminhada da Igreja no Brasil, principalmente porque quem delas participou, pode evidenciar o caráter permanente da realidade do mistério pascal, ainda mais quando o repertório, que foi bem escolhido, cantou aquilo que é próprio do tempo, do mistério ou da festa.

Ainda permanece como perspectiva do Setor de Música Litúrgica da CNBB a continuidade deste processo. A ideia da criação e manutenção de um corpo eclesial de compositores implica numa consciência eclesial, a de trabalhar como Igreja, tendo em vista a unidade na diversidade, principalmente quando o assunto é música litúrgica. Não se trata mais de ficar soltos, desperdiçando seus talentos, mas sim aproveitando e colocando-os à disposição da Igreja, trabalhando juntos, somando talentos, criando uma cultura, tendo uma liberdade na caridade, sem bloqueio e sem barreiras. Nesta Igreja em que todos os compositores litúrgicos estão inseridos, todo mundo tem as mesmas alegrias e esperanças, como se fosse um só coração e uma só alma. Afinal o que é a liturgia senão a memória viva de Jesus Cristo, congregados no Espírito Santo?

Confira algumas fotos: