quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Carta aos agentes de música litúrgica do Brasil


Brasília-DF, 25 de setembro de 2008
ML – C – Nº 0845/08


A liturgia ocupa um lugar central em toda a ação evangelizadora da Igreja. Ela é o “cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana toda a sua força” (SC 10). Nela, o discípulo realiza o mais íntimo encontro com seu Senhor e dela recebe a motivação e a força máximas para a sua missão na Igreja e no mundo (cf. DGAE nº 67).

Há uma relação muito profunda entre beleza e liturgia. Beleza não como mero esteticismo, mas como modalidade pela qual a verdade do amor de Deus em Cristo nos alcança, fascina e arrebata, fazendo-nos sair de nós mesmos e atraindo-nos assim para a nossa verdadeira vocação: o amor (cf. SCa 35). Unida ao espaço litúrgico, a música é genuína expressão de beleza, tem especial capacidade de atingir os corações e, na liturgia, grande eficácia pedagógica para levá-los a penetrar no mistério celebrado.

Acompanhamos, com entusiasmo e alegria, o florescer de grupos de canto e música litúrgica, grupos instrumentais e vocais, que exercem o importante ministério de zelar pela beleza e profundidade da liturgia através do canto e da música. Sua animação e criatividade encantam muitos daqueles que participam das celebrações litúrgicas em nossas comunidades. Ao soar dos primeiros acordes e ao canto da primeira nota, sentimos mais profundamente a presença de Deus.

Lembramos alguns aspectos importantes que contribuem para a grandeza do mistério celebrado.

1. A importância da letra na música litúrgica - a letra tem a primazia, a música está a seu serviço. A descoberta da beleza de um canto litúrgico passa necessariamente pela análise cuidadosa do conteúdo do texto e da poesia. A beleza estética não é o único critério. Muitas músicas cantadas em nossas liturgias estão distanciadas do contexto celebrativo. “Verdadeiramente, em liturgia, não podemos dizer que tanto vale um cântico como outro; é necessário evitar a improvisação genérica e o canto deve integrar-se na forma própria da celebração” (SCa 42). Não é possível cantar qualquer canto em qualquer momento ou em qualquer tempo. O canto “precisa estar intimamente vinculado ao rito, ou seja, ao momento celebrativo e ao tempo litúrgico” (DGAE 76). Antes de escolher um canto litúrgico é preciso aprofundar o sentido dos textos bíblicos, do tempo litúrgico, da festa celebrada e do momento ritual.

2. A participação da assembléia no canto - o Concílio Vaticano II enfatiza a participação ativa, consciente, plena, frutuosa, externa e interna de todos os fiéis (cf. SC 14). O canto litúrgico não é propriedade particular de um cantor, animador, ou de um seleto grupo de cantores. A liturgia permite alguns momentos para solos (tanto vocais quanto instrumentais), porém a assembléia deve ter prioridade na execução dos cantos litúrgicos. O animador ou o cantor tem a importante missão, como elemento intrínseco ao serviço que presta à comunidade, de favorecer o canto da assembléia, ora sustentando, ora fazendo pequenos gestos de regência, contribuindo para a participação ativa de toda a comunidade celebrante.

3. Cuidado com o volume dos instrumentos e microfones - em muitas comunidades, o excessivo volume dos instrumentos, como também a grande quantidade de microfones para os cantores, às vezes, não contribuem para um mergulho no mistério celebrado, antes, provocam a agitação interior e a dispersão, além de inibir a participação da assembléia no canto. Pede-se cuidado com o volume do som, a fim de que as celebrações sejam mais orantes , pois tudo deve contribuir para a beleza do momento ritual.


4. Cultivar uma espiritualidade litúrgica - os cantores e instrumentistas exercem um verdadeiro ministério litúrgico (SC 29). A celebração não é um momento para fazer um show, para apresentação de qualidades e aptidões. Os cantores e instrumentistas devem, antes de tudo, mergulhar no mistério, ouvir e acolher com a devida atenção a Palavra de Deus e participar intensamente de todos os momentos da celebração. Música litúrgica e espiritualidade litúrgica devem andar juntas, são duas asas de um mesmo vôo, duas nascentes de uma mesma fonte.
Invocamos as luzes do Espírito Santo sobre todos os agentes de música litúrgica de nosso país. Reconhecemos o valoro do ministério exercido a serviço de celebrações reveladoras da beleza suprema do Deus criador e da atualização do Mistério Pascal de Jesus Cristo.



D. Joviano de Lima Júnior, SSS
Arcebispo de Ribeirão Preto e
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia

Liturgia da noite de natal



Texto enviado por Pe. Marcelino Sikinski


Anoitece. Dia 24 de dezembro. As famílias preparam a ceia de natal. Nas capelas e igrejas prepara-se o espaço celebrativo e as equipes de liturgia revisam e interiorizam as celebrações organizadas há mais tempo. É uma noite de festa e alegria que tem seu cume na celebração da comunidade.

Aparecem as primeiras estrelas no céu. Anunciam festa e escondem em sua tênue luz, mistérios guardados por milênios, recordados no livro do Êxodo: Hoje, sabereis que o Senhor vem e nos salva. Amanhã vereis a sua glória (Ex 16,6-7).

Desce a noite e a comunidade reunida no Senhor, inicia o canto “Noite Feliz”. Quem preside a celebração diz: Ó Deus que fizeste resplandecer essa noite com a claridade da verdadeira luz, concedei que, tendo vislumbrado na terra esse mistério, possamos gozar no céu sua plenitude.

Que mistério é esse portador de tanta alegria? Leão Magno responde: Hoje, amados filhos, nasceu o nosso Salvador. Alegremo-nos! Não pode haver tristeza no dia em que nasceu a vida que, dissipando o temor da morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade.

O coração dessa alegria é: um filho nos foi dado (cf. Is 9,6), a bondade de Deus se manifestou (cf. Tt 3,4), Deus nos falou por seu Filho (Hb 1,2). “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que será também de todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor (Lc 2,10-11).

Um filho nos dado. Manifestação carinhosa do amor de Deus. Cristo nos foi dado pelo Pai, no Espírito Santo, como Salvador e Reconciliador. Em Jesus, o Pai nos deu tudo: Deu-nos o seu Filho. Deus é amor. Jesus é o Emanuel, o Deus conosco. Por ele, com ele e nele retornamos ao Pai.

No prefácio da missa cantamos: No mistério da encarnação de vosso Filho, nova luz da vossa glória brilhou para nós. E reconhecendo a Jesus como Deus invisível a nossos olhos, aprendemos a amar nele a divindade que não vemos. E na oração eucarística proclamamos: em comunhão com toda a Igreja celebramos a noite santa em que a Virgem Maria deu ao mundo o Salvador.

Na oração após a comunhão, rezamos: Senhor nosso Deus, ao celebrarmos com alegria o Natal do nosso Salvador, dai-nos alcançar por uma vida santa seu eterno convívio.

Na noite de Natal, o momento mais importante e significativo é a celebração da eucaristia com a comunidade: na escuta da Palavra de Deus, na ação de graças e na partilha do pão e vinho eucarísticos.

O momento celebrativo na comunidade prolonga-se na ceia de natal da família. A troca de presentes lembra o presente de Deus na pessoa de seu Filho. O Filho que nos foi dado. Recorda a solidariedade de Jesus com a humanidade e o seu ensinamento de que todos os bens só têm sentido quando partilhados. Natal: Deus nos ama. Somos chamados a experimentar a sua bondade e a sua ternura.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Música litúrgica - critérios para escolha dos cantos



Música Litúrgica[1]

CRITÉRIOS PARA ESCOLHA DOS CANTOS

Ione Buyst*

Quando é que podemos dizer que uma música é litúrgica? O que se exige de uma música na liturgia?
Em que critérios deverão se basear os responsáveis pela música litúrgica nas dioceses, paróquias e comunidades, para escolher o canto certo num repertório tão vasto de músicas de cunho “religioso”? E os compositores? A que exigências deverão obedecer suas criações, se quiserem prestar um serviço ao povo cristão reunido para o culto?
Da constituição conciliar sobre a liturgia e os demais documentos oficiais da Igreja após o Concílio, destacamos seis exigências:
1. O canto na liturgia deve nascer da Palavra de Deus.
2. Deve ser cantado pelo Povo.
3. Deve ser cantado numa linguagem musical própria a cada comunidade.
4. Deve criar união na comunidade.
5. Deve ser uma forma de verdadeira arte.
6. Deve ser um sinal litúrgico.

1. O CANTO NA LITURGIA DEVE NASCER DA PALAVRA DE DEUS

O canto na liturgia deve nascer da Palavra de Deus, e “os textos sejam tirados, principalmente da Sagrada Escritura e das fontes litúrgicas” (SC, 121).
Quer dizer, que os poetas e compositores deverão deixar-se conquistar e converter-se pela Palavra de Deus, sentir o “suave e vivo afeto pela Sagrada Escritura” (SC 24), e viver a vida litúrgica... para poderem oferecer ao povo cristão cantos apropriados ao seu culto.
Quer dizer também que, para poder cantar e viver o mistério pascal, o povo deve receber o anúncio da Salvação, de maneira sempre renovada. “Como invocarão Aquele em quem não creram?” (Rm 10,14 – SC 9). E toda e qualquer pastoral da música litúrgica deve inserir-se no esforço de Evangelização constante de toda a Igreja. Pois, “antes que os homens possam achegar-se à liturgia, é necessário que sejam chamados à fé e à conversão” (SC 9). E isso é possível somente numa vivência do mistério da Trindade que se comunica a nós na comunhão eclesial e na vida fraterna de uma comunidade concreta.

2. DEVE SER CANTADO PELO POVO

Conseqüência lógica da redescoberta do sacerdócio dos batizados e a função da assembléia litúrgica: quem celebra é o “Corpo Místico de Cristo, Cabeça e membros”, e “Cristo Sacerdote e seu Corpo que é a Igreja” (SC 7). A própria natureza da liturgia exige, pois, a participação plena, consciente e ativa de todo o povo cristão, que pelo batismo se tornou geração escolhida, sacerdócio real, povo santo conquistado por Deus (Cf. SC 14). E é dever dos bispos e outros pastores “cuidar que toda a comunidade dos fiéis possa participar convenientemente e ativamente de todas as celebrações realizadas com canto” (SC 114).
Acabou-se, pois, o monopólio dos corais. É o povo que deve cantar. O povo se torna ator e cantor e deixa de ser apenas ouvinte e espectador.
Os corais podem e devem continuar existindo, porém, muda a sua função: deve promover a participação ativa de todo o povo. A sua preocupação não deve ser meramente artística (cantar bonito e ter um repertório artístico); mas pastoral: cuidar da participação de todo o povo, escolher músicas que sejam sinais litúrgicos, como será explicado no item 6. O coral deixa de ser um grupo à parte: deve estar inserido na assembléia como um membro no Corpo. E não podemos mais imaginar um grupo que participe da Igreja somente no canto: os membros do coral devem ser membros plenos e ativos da Igreja-Comunidade. Não devem ser artistas ou profissionais que, de fora, vêm embelezar o culto. Também o seu lugar no espaço da igreja deve manifestar esta unidade. Não deve estar longe do povo, no coro, por exemplo, mas unido ao povo; não deve participar somente nos momentos do canto, mas em toda a celebração. O mesmo vale para o organista e os outros instrumentistas.
O salmista ou o cantor, ou mesmo o coral, podem em certos momentos da celebração alternar com o canto do povo, porém nunca substituí-lo. Podem cantar os versos ou algumas partes mais difíceis, deixando para o povo o canto do refrão. Porém, nunca poderão cantar sozinhos aqueles cantos que são próprios de todo o povo: “o Santo, o salmo responsorial, as respostas e aclamações, o canto de entrada e da comunhão, o Senhor tende piedade, o Glória, o Cordeiro de Deus, o Credo, o Pai Nosso. Essas partes são a liturgia cantada pelo povo” (Doc. CNBB nº. 2ª, Pastoral da Eucaristia, item 5.2.1).
E o povo canta mesmo! Basta dar-lhe oportunidade e oferecer música que caia no ouvido, que lhe ressoa na alma, num ritmo capaz de arrastar seus sentimentos e tocar o seu coração. É o que diz o parágrafo seguinte.

3. DEVE SER CANTADO NUMA LINGUAGEM MUSICAL PRÓPRIA A CADA COMUNIDADE

Para uma comunidade celebrar o mistério pascal cantando, é preciso que possa se expressar numa linguagem musical própria àquela comunidade. O concílio reconheceu este imperativo, abrindo as portas para a necessária aculturação e a pluriformidade.
Não se trata mais de um repertório universal aplicado a todos os povos e a todas as culturas; não se trata de dar nome litúrgico para um ou outro instrumento. É preciso que cada povo possa exprimir o mistério cristão dentro da cultura que lhe é própria e com os elementos desta cultura. Ou, como lembra o documento do Papa Paulo VI – Evangelização no mundo contemporâneo: “a edificação do Reino não pode deixar de servir-se dos elementos da cultura e das culturas” (art. 20). E vale a pena lembrar o artigo 119 da SC: “Deve-se levar em conta a estimação da música dos povos com tradição musical própria, e adaptar o culto à sua mentalidade”, de acordo com o artigo 39 e 40 (que trata da adaptação da liturgia à índole e cultura de cada poço).
É preciso, pois, criar uma música litúrgica genuinamente brasileira, porque, só assim, a participação do povo poderá ser autêntica e atingir a pessoa toda: corpo, alma e sentimento...
Os artigos 117 e 19 da SC lembram ainda outra exigência para a música na liturgia: a pluralidade. O estilo de música deve ser conforme cada comunidade ou assembléia concreta: é preciso promover a participação interna e externa dos fiéis, levando em conta “a idade, condições, tipo de vida e grau de cultura religiosa”, e providenciando uma música mais simples para uso de igrejas menores.
Cada comunidade deverá escolher (e quem sabe, também criar) sua música dentro das possibilidades e dos recursos daquela comunidade: há violonistas na comunidade? Cante-se com violão. Tem sanfona e sanfoneiro ou bandolim, ou cavaquinho, ou berimbau?... Toque-se ao som da sanfona, do bandolim, do cavaquinho ou do berimbau... O povo costuma “tocar” caixa de fósforos ou bater palmas? Que se exprima também isso na liturgia. Gostam de cantar a vozes? Pois que cantem. Se numa outra igreja tem órgão e organista, use-se o órgão..., se com isso aquela comunidade puder cantar e se exprimir melhor...
O importante é que aquele modo de se exprimir seja autêntico para aquela comunidade. Não se trata, pois, apenas de “gostos” individuais, de seguir a “moda” musical: para ser autêntico o canto deverá estar enraizado nas bases folclóricas.

4. DEVE SER UMA FORMA DE VERDADEIRA ARTE

A música litúrgica deve ser “verdadeira arte” (SC 112). Sem querer dar aqui uma definição do que seja “arte”, (o que ninguém consegue), devemos nos lembrar daquilo em que todos estão de acordo: não podemos restringir a “arte” à composição erudita, ou à arte clássica aprendida (até que ponto?) por uma pequena elite com maiores recursos culturais e econômicos, mas fechada à maioria da população brasileira. Há também uma arte popular! E, felizmente, já se iniciou um movimento de revalorização desta arte popular e folclórica, também aqui no Brasil, tanto no campo da música, como da poesia ou do artesanato...
O que faz que uma poesia ou melodia seja “arte” e outra não? Impossível dizê-lo. Mas toda pessoa que tem um pouco de sensibilidade, logo a reconhecerá e ficará encantado com ela. Talvez porque a arte, a verdadeira – e só ela -, seja capaz de exprimir nas entrelinhas, toda a intensidade de vida de um povo, sentida, vivida a partir do interior...
Não explica; insinua, deixa adivinhar. Não explicita; faz apenas alusão.
Por que a música e o canto na liturgia devem ser verdadeira arte? Exatamente porque o mistério da nossa união com Deus é tão grande, é tão imenso e tão maravilhoso, que somente a arte é capaz de exprimir. Não podemos entendê-lo de todo: apenas adivinhar e intuir; não somos capazes de explicar, apenas de sentir e viver... O mistério escapa às explicações gramaticais, matemáticas, exatas. Ele é maior e o ultrapassa. E é por esse mesmo motivo certamente que, para explicar o Reino dos Céus, Jesus Cristo não dava aulas de filosofia, mas falava em parábolas!

5. DEVE CRIAR UNIÃO NA COMUNIDADE

A música deve criar união na comunidade, ou, como diz a SC, art. 112: deve favorecer a unanimidade. A união das vozes cantando num mesmo ritmo, numa mesma melodia, numa mesma intensidade, de fato, exprime e fortalece o sentido do grupo ou da comunidade. Não só com a comunidade concreta ali reunida mas, também, com toda a comunidade dos santos no céu e da terra, unindo-nos aos coros dos anjos (SC 8) e ao próprio Filho de Deus “que veio trazer à terra aquele hino que é cantado por todo o sempre nas habitações celestes” (Instrução “Liturgia das Horas”, 3).
O canto deve abrir-nos para a realidade maior que nos envolve e que ultrapassa o tempo e o espaço. A música deve ajudar-nos a ter os “Corações ao alto”, numa participação antecipada, mas real, da liturgia celeste, frente ao trono do Cordeiro descrito no Apocalipse (SC 8) e que continuaremos celebrando numa festa sem fim, quando Deus será tudo em todos e Cristo terá entregue o Reino nas mãos do Pai (Introdução da Liturgia das Horas, 16).
Será que nossas músicas não são um pouco acanhadas e restritas demais para serem capazes de levantar os ânimos e abrir os horizontes de nossos corações e inteligências?

6. DEVE SER UM SINAL LITÚRGICO

Há uma frase no artigo 122 da constituição conciliar que é fundamental para a compreensão do novo papel da música na liturgia: “A música sacra será tanto mais santa quanto mais intimamente estiver ligada à ação litúrgica”.

A) – A partir deste momento, pois, o termo, “música sacra” não deve ser mais entendido como um determinado estilo de música: música “religiosa”, capaz de suscitar emoções ou uma espécie de sensação mística; ou então música de órgão ou harmônio. O termo “música sacra” (nascido do protestantismo alemão do século XVII) está, aos poucos, dando lugar para o termo mais exato de “Música Litúrgica”.
B) – Não excluindo de tudo a expressão musical sem palavras, o termo música litúrgica se refere principalmente ao canto “baseado em palavras” (SC 112).
O canto é o meio de o povo cristão exprimir sua fé, gritar seu desespero, chorar suas mágoas, declarar seu amor a Deus, implorar o perdão, proclamar a ressurreição, cantar sua gratidão e seu louvor, aclamar seu Senhor, unir-se a Ele em comunhão. É um meio de comunicação do povo com seu Deus, ou, como dizia Paulo VI: “é linguagem da comunidade em oração”. Ele é ação litúrgica; mesmo quando acompanha um rito – como no caso das procissões, ele não é enfeite, mas parte integrante daquele rito.
Não é monólogo, uma reflexão em voz alta, uma meditação; é diálogo, conversa, resposta: dirige-se a Alguém. Alguém que está presente no meio de nós e que está presente de uma maneira ativa: falando, interpelando, perdoando, unindo, entregando seu Corpo e Sangue. Por isso é importante o estilo direto. Não falar sobre Jesus Cristo, mas dirigindo-se a Ele: “Senhor, tende piedade!”, “Vem Senhor!”, “Recebe Senhor!” Não dar indiretas ao povo, mas dirigir-se a ele: “Ressuscitei, aleluia”, “Louvai ao Senhor!” Como as outras respostas e aclamações, o canto cria a comunicação orante da Igreja-Esposa com o seu Esposo, o Cristo, Nisso, o canto litúrgico do “canto de mensagem”, ou do canto de cunho didático ou catequético. Não se trata de ensinar, de inculcar idéias, de transmitir mensagens. Trata-se de dar ao povo reunido, um meio de expressão e de diálogo.
C) – A liturgia não é aula. É ação. O canto na liturgia é, pois, um meio de viver o mistério que está sendo celebrado: o mistério pascal de Jesus Cristo, a aliança de Deus com seu povo, a Salvação trazida por Jesus Cristo, hoje. Não uma salvação fora do tempo e do espaço, e sim encarnada nas realidades vividas no dia a dia. Como bem o lembra o documento de Medellín (CELAM), a liturgia, e portanto, também a música na liturgia, coroa e comporta um compromisso com a realidade humana, com o desenvolvimento e com a promoção, precisamente, que abrange a totalidade do homem. Ela deve “levar a uma experiência vital da união entre a fé, a liturgia e a vida cotidiana!”
Não é verdade que a maioria dos nossos cantos ainda se restringem ao plano pessoal e de relações interpessoais, onde o “eu” está no centro das atenções (eu quero, eu gosto, eu sinto...)? Há poucas músicas que cantam a preocupação com a salvação do mundo, com a conversão freqüente aos valores a que se apega a sociedade e que estão levando a humanidade à predição: o lucro, a violência, o poder... Não estou pedindo com isto, músicas de protesto; apenas, como em toda a tradição bíblica, o canto do povo de Deus deve nascer da solidariedade e da preocupação com o destino de todos.
Bem o lembrou Dietrich Bonnhoeffer, o teólogo protestante, na última guerra mundial, quando os judeus estavam sendo exterminados pelos nazistas e o próprio Bonnhoeffer estava preso: “Somente quem grita em favor dos judeus, é que tem o direito de cantar o gregoriano”.
Pois, senão, Deus mesmo nos dirá: “Aborreço suas festas; são um desgosto para mim! Fiquem longe de mim com o barulho de seus cânticos; não quero mais ouvir a música dos instrumentos de vocês...” (Am 5,21-24).
Para poder compor textos e músicas que exprimem a morte e a ressurreição de Jesus Cristo e dos membros do seu Corpo, é preciso que os poetas e compositores, como membros desse Corpo, “chorem com os que choram e se alegrem com os que estão alegres”. Para podermos cantar de maneira autêntica este mesmo mistério, é preciso que todos nós sejamos solidários e levemos a sério o sofrimento e a luta dos nossos irmãos, para podermos também sentir a esperança e a vida que vem da fé em Jesus Cristo.
D) – Estando inserido na ação litúrgica, o canto deverá exprimir o sentido da festa do dia ou do tempo litúrgico (advento, natal, páscoa, tempo comum, etc.), a função de cada canto (entrada, salmo de resposta, comunhão, aclamação eucarística, etc.) e o tipo de celebração: batismo, casamento, eucaristia, oração da comunidade, etc.
Celebrando a Páscoa de Jesus Cristo, não apenas lembramos o acontecimento passado, mas, tomamos parte nessa mesma ressurreição, em virtude da sacramentalidade da liturgia. Com Cristo podemos dizer e cantar: “Ressuscitei, aleluia!” No Natal não lembramos apenas o nascimento do Cristo 2000 anos atrás, na gruta de Belém, “mas também o Verbo que nasce em nós e na nossa comunidade: “Nasceu-nos HOJE um Salvador”.
Será que nós levamos a sério essa dimensão sacramental da celebração litúrgica? Será que acreditamos mesmo nesse hoje da liturgia? Será que estamos sabendo que o “Cristo está presente quando a Igreja reza e salmodia”? Que é Cristo quem fala quando se lê a Bíblia na igreja? E que quando alguém batiza, é Cristo que batiza? (Cf. SC 7). E essa presença nos deixa indiferentes?!
O canto deve exprimir a ação de Cristo na comunidade, e a resposta dos participantes que aceitam alegres esses dons da salvação.ó o Verbo que nasce em nscimento do Cristo 2000 anos atrs parte nessa mesma ressurreiç Como podemos, pois, num casamento cantar outra coisa que não seja a aliança e a comunhão de deus com seu povo, que se realiza e se torna visível no compromisso de fidelidade e no amor mútuo dos noivos? Como podemos, pois, no batismo cantar outra coisa que não seja a inserção de um novo membro no Corpo de Cristo e a nossa participação na vida divina? Como cantar no dia de Pentecostes outra coisa que não seja a vinda do Espírito Santo na nossa comunidade cristã, hoje, para que sejamos testemunhas da ressurreição e fermento de unidade?
Na hora da comunhão no Corpo e Sangue de Cristo “não basta estarmos pensando em Deus...” ou seja ouvindo “a chuva no telhado”, que para mim é cantiga de ninar, mas que deixa o pobre irmão na lama e no desespero... Isso vem depois (e num dia de chuva de preferência).
Mas na hora da comunhão é preciso exprimir de maneira clara e jubilosa, que “o Senhor é nossa comunhão”, que não anda sozinho quem vive em comunhão”, e “quem come deste pão viverá eternamente” – É preciso ouvir o Senhor nos falar nesse momento: “Eu quis comer esta ceia agora...!” É preciso reafirmar a nossa adesão à Palavra que ouvimos naquele celebração, pois o Cristo que nos dá seu Corpo e Sangue que é o mesmo que falou para nós no evangelho. Aliás, é por isso que muitas antífonas da comunhão retomam versos do evangelho ou fazem alusão às leituras do dia: “Põe a mão nas minhas chagas...” (2º domingo da Páscoa); “Cheios do Espírito Santo, proclamavam as maravilhas de Deus!...”(Pentecostes).
E) – Na liturgia, objetos e gestos da vida cotidiana, tornam-se sinais litúrgicos, símbolos da fé cristã, que somente os fiéis compreendem. O pão, o vinho e a refeição eucarística, a água e o banho do batismo, o óleo e a unção..., sem deixar de ser pão, vinho, água... tornam-se portadores de uma nova realidade: o reino de Deus, a diva divina, a comunhão no Corpo de Cristo... Assim também o canto e a música, sem perder nada de suas características, ou melhor, ampliando e alargando-as até o infinito, até o transcendente, até o mistério total de nossa fé, eles se tornam portadores da nova realidade inaugurada por Cristo.
Os ritmos, a harmonia, as características do samba, da marcha-rancho, do baião, são colocados a serviço do povo de Deus para que ele possa exprimir, viver e celebrar o mistério de sua fé.

CONCLUINDO

Se a renovação da música litúrgica já deu passos enormes, ainda há muito caminho pela frente. Neste tempo de crescimento, devemos ir, aos poucos, substituindo as criações menos litúrgicas e menos artísticas por novas criações mais maduras e mais de acordo com a função na liturgia.
O esforço não deve ser só dos compositores e poetas. É preciso um trabalho de educação musical e litúrgica de todo o povo. Não basta ter bons compositores e poetas; devemos nos convencer da urgente necessidade de ter, em cada comunidade, pelo menos uma pessoa, um ministro do canto litúrgico, que tenham o dom e a formação musical, litúrgica, pastoral e pedagógica, para levar avante este trabalho.
Impossível? Por quê? Se estamos convencidos da necessidade de catequistas para crianças, se gastamos dinheiro na preparação de futuros padres, se achamos necessário multiplicar os ministros extraordinário... Por que não nos preocuparmos também com o ministério do canto litúrgico? Pois, tão urgente quanto a criação e a divulgação de novas músicas é a elaboração de uma pedagogia que leve o povo cristão a saber viver a música: sentir com a música, pensar com a música, rezar com a música, entregar-se a Deus através da música.


[1] Revista de Liturgia, Setembro/Outubro de 1976, nº. 17.
* Ione Buyst, há muitos anos dedica-se à formação e à Pastoral Litúrgica. Assessora encontros e ministra cursos de liturgia em muitas regiões do Brasil. É membro-fundadora da Rede Celebra, Rede de Animação Litúrgica.

A ministerialidade da Igreja



Frei Joaquim Fonseca, ofm


Artigos publicados na Revista de Liturgia ao longo do ano de 2005

I - Introdução

Neste texto, trataremos do sentido teológico, litúrgico e espiritual dos ministérios. À guisa de introdução, falaremos sobre a ministerialidade da Igreja e sua incidência na liturgia.

1.1. A ministerialidade da Igreja e sua incidência na liturgia

O Concílio Vaticano II restabeleceu o conceito de Igreja como povo de Deus. Trata-se, portanto, de um povo sacerdotal, profético e régio que tem uma missão específica na Igreja e no mundo. O sacerdócio batismal confere aos leigos e leigas o pleno direito de, junto com os ministros ordenados (bispos, presbíteros e diáconos) participar ativamente da vida e missão da Igreja.

Na celebração litúrgica, este sacerdócio batismal se dá de forma visível quando acontece a participação ativa e frutuosa de toda a assembléia. A assembléia reunida no Espírito Santo constitui o corpo místico de Cristo. Um corpo com muitos membros, mas que estão a serviço uns dos outros
[1]. Por isso dizemos que a Igreja é toda ela ministerial e que uma verdadeira ação litúrgica só é possível quando existe a integração de todos os ministérios entre si e destes com a assembléia.

Atualmente, existem na Igreja três tipos de ministérios litúrgicos
[2]: aqueles exercidos pelos ministros ordenados (bispo, padre e diácono); outros pelos ministros instituídos (leitor e acólito); e ainda aqueles serviços que são desempenhados de forma estável ou ocasional por homens e mulheres. Nesta última categoria de ‘ministros’ se incluem todas as pessoas que cuidam do canto e da música nas celebrações litúrgicas. Destes, falaremos mais adiante.

1.2. A participação da assembléia

Vimos que a Igreja é toda ela ministerial e que os ministérios têm seu fundamento no sacerdócio comum dos fiéis. Estes, por força do batismo, têm direito e obrigação à participação plena, consciente e ativa na ação litúrgica (cf. SC 14). A assembléia dos fiéis não é uma simples reunião de pessoas. É, sim, uma comunidade congregada e organicamente estruturada sob a ação do Espírito Santo. Nela, há pessoas que desempenham diferentes funções, destacando-se o exercício da presidência da celebração. Este ministério, assim como todos os demais, “não está acima da assembléia, mas dentro dela; não sobre a comunidade, mas a serviço da mesma”
[3].

Podemos afirmar que a participação dos fiéis foi um dos principais imperativos que desencadeou a reforma do Concílio Vaticano II. Não é à toa que ao longo do texto da Constituição sobre a Sagrada Liturgia (Sacrosancutm Concilium) - sobretudo naquelas passagens em que são anunciados os grandes princípios da reforma - aparece esta preocupação
[4]. A participação ativa, externa, interna, consciente, plena e frutuosa dos fiéis[5] requer um esforço contínuo de formação litúrgica, de catequese mistagógica, de preparação cuidadosa das celebrações e de fidelidade às normas que regem o desenvolvimento da celebração. Neste sentido, a participação litúrgica é uma tarefa sempre inacabada, além do fato de cada ato celebrativo ser nele mesmo um importante momento formativo para a participação do povo sacerdotal no mistério de Cristo[6].

E a participação dos fiéis no canto e na música? Como isto se dá na ação litúrgica? Vejamos a seguir:


1.3. Os ministérios litúrgico-musicais e sua importância na participação da assembléia na ação litúrgica

Nas comunidades espalhadas por este imenso Brasil, um número expressivo de homens e mulheres cuidam do canto e da música nas celebrações (compositores, animadores, salmistas, instrumentistas, coral ou grupo de cantores). Embora constituindo um verdadeiro ministério ltúrgico (cf SC 29), nem sempre este importante serviço tem sido desempenhado da maneira mais apropriada. Sentimos que a grande maioria destes ‘ministros’ carece de uma formação litúrgico-musical básica. Isto tem acarretado sérias dificuldades como: a falta de critérios teológico-litúrgicos na escolha dos cantos e da música para as celebrações, a maneira incorreta de tocar os instrumentos musicais, a falta de entrosamento entre instrumentistas, grupo de cantores e assembléia etc.

De antemão asseguramos: Como parte integrante da assembléia, os diversos ministérios devem contribuir para que esta porção do povo de Deus participe ativa e plenamente da celebração. Vale lembrar que ninguém está ali para tocar ou cantar para o povo, mas juntamente com ele. Os ministros do canto e da música devem, juntamente com todo o povo reunido, louvar ao Senhor de todo o coração e crescer espiritualmente, deixando-se santificar pelo Espírito do Senhor que atua poderosamente na celebração litúrgica
[7].
Enfim, sem uma formação litúrgico-musical básica dos(as) ministros(as), torna-se praticamente impossível a participação ativa e frutuosa dos fiéis na ação litúrgica.

II - Ministério do coral ou grupo de cantores

Os documentos da Igreja usam diversos nomes para indicar a mesma função daquele grupo especializado ou não de fiéis que desempenha um papel especial na celebração litúrgica, através do canto
[8]:
- Coro (cf. Sacrosanctum Concilium (SC) 121; Musicam Sacram (MS) 19; 34);
- Coral (cf. MS 21; 24);
- “Grupo de cantores” (cf. MS 9; 16; 22; 23; 26);
- “Schola cantorum” (cf. SC 29; 114; MS 19; 20);
- “Capela musical” (cf. MS 19; 20);
As palavras coro e coral, aqui no Brasil, são usadas indiferentemente; grupos menos especializados são chamados também de equipe de canto.
Embora nosso objetivo não seja o de enveredar por longas incursões a respeito do coral na história da Igreja, concentraremos nossa atenção sobre alguns aspectos históricos, teológico-litúrgicos e pastorais a respeito do ministério do grupo de cantores, em geral.

3.1. O que é? A função e o lugar do coral na liturgia

· O que é: O coral consiste num grupo de cantores escolhidos em uma comunidade e dirigidos por um mestre. O grau de especialização técnica de um grupo dessa natureza varia de acordo com a medida de conhecimento técnico-musical dos cantores e de seu regente;
· Sua função é prestar um serviço ou ministério litúrgico em benefício da comunidade. Vale ainda lembrar que o critério fundamental para definir o coro litúrgico não é o repertório, mas a sua função litúrgica que é “garantir a devida execução das partes que lhe são próprias, conforme os vários gêneros de canto e auxiliar a ativa participação dos fiéis no canto”
[9];
· Seu lugar: A própria colocação do coro deverá mostrar a sua real natureza e função: este grupo (especializado ou não) nada mais é, do que uma porção da assembléia dos fiéis que, em nome e em função da mesma, desempenha um papel litúrgico particular. Seu melhor lugar é próximo à assembléia (à frente, à direita ou esquerda, em lugar visível e cômodo, fora do presbitério), de modo que os cantores possam desempenhar bem sua função e mais facilmente ter acesso à mesa eucarística
[10].


3.2. Notas históricas
[11]

A história registra a presença do coral na Igreja a partir do século IV. Os primeiros coros eram formados de homens, sobretudo de monges que, inicialmente, ficavam agrupados nas primeiras filas da assembléia. Não se trata, ainda, de cantores especializados, mas de pessoas que auxiliavam o canto da comunidade, executando aquelas partes mais difíceis de entoação dos salmos, hinos, aclamações, ladainhas e respostas.

No intuito de difundir o canto gregoriano em toda a Europa, aparecem, por volta do século VII, as chamadas Scholae Cantorum que, na realidade, são coros de meninos e de clérigos altamente especializados. Isto se fez necessário uma vez que o canto se tornara cada vez mais rebuscado e de difícil execução. Conseqüentemente, os corais passaram a monopolizar o canto litúrgico, enquanto o povo se contentava na condição de ouvinte da “Divina música”.

Esta situação se agravou ainda mais quando do surgimento da polifonia vocal clássica (música a mais vozes)
[12], no início do segundo milênio. A partir de então, gradativamente, a música da Igreja foi se confundindo com a música de concerto, atingindo seu ápice nos séculos XVIII e XIX. A separação entre coral e assembléia se deu de tal forma que nas igrejas não podiam faltar o “Coro” – lugar elevado normalmente por cima do hall de entrada da Igreja, reservado aos músicos.


3.3. O coral na liturgia renovada do Concílio Vaticano II

A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II não aboliu o coral. Pelo contrário, o incentivou.
[13] O coral desempenha um verdadeiro ministério litúrgico, daí sua importância no conjunto dos ministérios da assembléia litúrgica[14]. Um coral, bem formado e orientado, poderá prestar um importante serviço à assembléia, exercendo um ministério múltiplo, seja reforçando o canto litúrgico da assembléia em uníssono ou enriquecendo sua melodia com um arranjo vocal a mais vozes[15].

As formas litânicas do “Senhor, tende piedade de nós”, do “Cordeiro de Deus”; os cantos de repetição (muito comuns no interior do Brasil); ou ainda a forma antifonal (coro e assembléia executando um mesmo canto, de forma alternada) - são ótimos exemplos de diálogo entre coro e assembléia. Além destas possibilidades, o coral também poderá entoar uma peça, ou motete durante a procissão e preparação das oferendas, durante ou após a comunhão.

Cabe-nos aqui, mais uma vez, lembrar que alguns cantos, em princípio, nunca deveriam ser executados somente pelo coral, como por exemplo, o “Glória” e o “Santo”. Pelo fato destes hinos pertencerem “à comunidade toda, que eventuais arranjos a vozes para coro, nunca impeçam a participação do povo, mas antes, a favoreçam e reforcem”
[16]. O “Glória” é um hino de louvor, pelo qual a Igreja, congregada no Espírito Santo, glorifica e suplica a Deus Pai e ao Cordeiro[17]; o “Santo” é uma aclamação do novo povo de Deus que se junta ao coro dos Serafins, conforme descreve o profeta Isaías em sua visão no templo de Jerusalém (cf. Is 6,3), e ao coro da grande multidão que aclamava Jesus quando entrava em Jerusalém (cf. Mt 21,9). É necessário dizer que uma adequada formação litúrgica e espiritual[18] para músicos e cantores corrigirá muitos equívocos e evitará futuros mal-entendidos quanto ao real sentido da função ministerial do canto e da música na liturgia[19].

Uma das dificuldades que ainda persiste na integração do coral na liturgia da Igreja no Brasil - sobretudo do coro polifônico e especializado - é a escassez de repertório em vernáculo e adequado à ação litúrgica. Poucos compositores enveredaram por este caminho nos últimos 40 anos. Nosso desejo é que os mesmos se empenhem na criação deste gênero de música litúrgica, conforme o espírito do Concílio Vaticano II.

III - Ministério litúrgico do(a) salmista

Cantai com a voz, cantai com o coração, cantai com os lábios, cantai com a vida: Cantai ao Senhor Deus um canto novo. Queres saber o que cantar, a respeito daquele a quem amas? Sem dúvida, é acerca daquele a quem amas que desejas cantar. Queres saber então que louvores cantar? Já o ouviste: Cantai ao Senhor Deus um canto novo. Que louvores? Seu louvor na assembléia dos fiéis. O louvor de quem canta é o próprio cantor.
Quereis cantar louvores a Deus? Sede vós mesmos o canto que ides cantar. Vós sereis o seu maior louvor, se viverdes santamente (Santo Agostinho)


5.1. Um ministério a serviço da Palavra

Antes de falarmos do ministério do(a) salmista como tal, faz-se necessário levar em consideração o valor que os salmos têm na liturgia cristã.

Além da Liturgia das Horas – que na sua grande parte é constituída de salmos – o canto dos salmos nas demais celebrações litúrgicas tem sido cada vez mais valorizado. Afinal de contas, os salmos são uma fonte inesgotável de espiritualidade que herdamos da tradição judaica.

O salmo responsorial ou ‘salmo de resposta’ “é parte integrante da liturgia da palavra”
[20]. É, na realidade, uma leitura cantada. Uma “leitura” distinta das demais proclamadas na liturgia, pois sua estrutura literária é essencialmente lírica e poética. Conseqüentemente, cabe ao(à) salmista, mais do que cantar, “proclamar”[21] o salmo na estante da Palavra, pois aqui é o lugar onde Deus dirige sua Palavra ao povo reunido.

Uma vez que o salmo responsorial constitui uma resposta da assembléia (com a própria Palavra de Deus), é fundamental uma perfeita sintonia entre o(a) salmista e a assembléia. Esta sintonia pressupõe uma atitude espiritual (integração do corpo-mente-coração) de quem canta o salmo para que seu conteúdo atinja a todos de forma plena e frutuosa.


5.2. Um ministério que requer formação...

Mais do que nunca o ministério de salmista requer uma formação técnica e litúrgico-musical adequada. Para este item, lançaremos mão do que diz a liturgista Ione Buyst, em seu livro: O ministério de leitores e salmistas sobre a importância da preparação e formação dos salmistas. Eis os principais aspectos desta formação
[22]:

· Uma formação bíblico-litúrgica: aprofundar o sentido literal e cristológico dos salmos; estudar cada salmo em sua relação com a primeira leitura e com o projeto de salvação de Deus.
· Uma formação espiritual: saber orar com o salmo, saboreá-lo como Palavra de Deus para nossa vida atual; saber cantar de forma orante.
· Uma formação musical: saber usar a voz de forma adequada, com boa dicção; se for o caso, até saber ler uma partitura simples; aprender as melodias dos salmos de resposta; saber se entrosar com os instrumentos musicais que eventualmente acompanham o canto do salmo.
· Uma formação prática: saber manusear o Lecionário e o “Hinário Litúrgico”; saber em que momento subir à estante, como se comunicar com a assembléia, como usar o microfone..; conhecer os vários modos de se cantar o salmo...

5.3. “Cantai ao Senhor um canto novo”

Inspirados nas palavras iniciais de Santo Agostinho e à par do que vimos até aqui, resta-nos o cuidado para que a execução do salmo de resposta seja de fato um momento de profundo diálogo com Deus. Só assim as comunidades descobrirão os salmos como fonte inesgotável de espiritualidade.

À maneira dos primeiros cristãos, devemos orar com os salmos a partir de Jesus Cristo. Os santos Padres, especialmente, santo Agostinho, nos dão todos os elementos teológicos, litúrgicos e espirituais sobre os salmos rezados e meditados a partir do mistério pascal de Cristo. O método da leitura orante (lectio divina) é um caminho eficaz de iniciação à oração com os salmos.

Enfim, o(a) salmista desempenhará de forma eficaz seu ministério, ou seja: cantando o “canto novo” se deixar-se levar pela ação do Espírito Santo, tanto na preparação como no momento da celebração.


5.4. Apêndice


Método da Leitura Orante (quatro passos)
[23]

Antes da leitura, é importante a gente se recolher, pedir humildemente a ajuda do Espírito Santo.
A leitura orante supõe participação na comunidade e nos trabalhos (missão) que ela faz dentro e fora da Igreja.

1º passo: Ler

· Ler e reler o texto (salmo responsorial), baixinho e em voz alta, escutar o texto (alguém está falando!).
· Prestar atenção a cada palavra, às idéias, às imagens, ao ritmo, à melodia...
· Tentar entender o texto (no contexto em que foi escrito).
· Se for possível, recorrer também a um bom comentário de um biblista.

2º passo : Meditar

· Repetir o texto ( ou parte dele) com a boca, a mente e o coração: não “engolir” logo o texto, e sim, “mastigar”, “ruminar”, tirando dele todo o seu sabor; não ficar só com as idéias que contém, mas deixar as próprias palavras mostrarem a sua força: aprender de cor (= de coração!) pelo menos uma parte do texto.
· Penetrar dentro do texto, interiorizá-lo; compreender, interpretá-lo a partir de nossa realidade; identificar-nos com ele: perceber como o texto expressa nossas próprias experiências, sentimentos e pensamentos. Principalmente no caso dos salmos, estas experiências podem ser entendidas também como se referindo a Jesus Cristo.
Trata-se de atualizar o texto: perceber como o texto acontece hoje, em nossa realidade pessoal, comunitária e social; perceber qual a palavra que o senhor poderá está nos dizendo...

3º passo: Orar

· Deixar brotar de dentro do coração, tocado pela Palavra, uma resposta ao Senhor. Dependendo da leitura e da meditação feitas, poderá ser uma resposta de admiração, louvor, agradecimento, pedido de perdão, compromisso, clamor, pedido, intercessão...

4º passo: Contemplar

· A Bíblia não usa o verbo contemplar, e, sim, escutar, conhecer, ver. Trata-se de saborear, “curtir” a presença de Deus, o jeito de ele ser e agir, o quanto ele é bom e o quanto faz para nós. Supõe uma entrega total na fé. Passa, necessariamente, pelo conhecimento de Jesus Cristo (“Quem me vê, vê o Pai!”), que se encontra do lado dos pobres.


[1] Cf. 1Cor 14,5; Ef 4,12.
[2] Para um maior aprofundamento veja: MARTÍN, J. L. No espírito e na verdade, vol. 1. Petrópolis, Vozes, 1996, p. 218-21.
[3] MARTÍN, Julián Lopez. No espírito e na verdade, vol. 1. Petrópolis, Vozes, 1996, p. 210
[4] Cf. SC 11, 14, 18, 19, 21...
[5] Para maior clareza sobre estas formas de participação veja: BUYST, Ione & SILVA, J. Ariovaldo da. O Mistério celebrado: memória e compromisso I. Barcelona/São Paulo, Siquem/Paulinas, 2002, p. 103-8.
[6] Cf. MARTÍN. J. L., op. cit. p. 212-3.
[7] Cf. BUYST, Ione & SILVA, José Ariovaldo da. O mistério celebrado: memória e compromisso I. Siquém/Paulinas, 2002, p. 147.
[8] Cf. J. WEBER, O coral litúrgico e sua função hoje (apêndice II). In: Estudo sobre os cantos da missa, p. 129-161. Este ensaio, embora publicado há quase 30 anos, continua sendo um importante referencial sobre este assunto que ainda continua sendo pouco discutido e estudado de forma sistemática no Brasil.
[9] MS 19;
[10] Cf. MS 23; Instrução “Inter Oecumenici”, 97.
[11] Para esta parte histórica, servimo-nos do texto de J. WEBER: O coral litúrgico..., op. cit. p. 132-4
[12] A polifonia clássica se concentrou justamente no Ordinário da Missa que pertencia ao povo: Kyrie, Glória, Credo, Sanctus, Benedictus, Agnus Dei” (ibid, p. 132-3.).
[13] Cf. SC 114.
[14] Cf. MS 19.
[15] Cf. CNBB, A música litúrgica no Brasil, n. 253.
[16] Cf. CNBB, Pastoral da música litúrgica, nº 3.4.
[17] Cf. IGMR 53.
[18] Cf. SC 29; MS 24; 25.
[19] Sobre a função ministerial veja: J. FONSECA, Cantando a missa e o ofício divino. Paulus, 2004.
[20] Cf. IGMR, 61 e OLM, 19
[21] Sobre a diferença entre recitar, ler, proclamar..., veja: Ione BUYST. O Ministério de leitores e salmista. Paulinas, 2001
[22] Ione BUYST. op. cit., p. 50. O grifo é nosso.
[23] Texto extraído de: Ione BUYST. Pesquisa em liturgia, Paulus, 1994, p. 116-8

domingo, 16 de março de 2008

"Quem canta, seus males espanta"


Especialistas garantem que 'Quem canta, seus males espanta'

Cristina Gawlas Viena, 16 mar (EFE).- Cantar não é apenas uma das formas de expressão mais antigas do ser humano, mas também pode curar muitos males, garantem cada vez mais médicos, que recomendam a prática do canto com regularidade, embora os estudos sobre seus efeitos benéficos do canto sejam recentes.

Até pouco tempo atrás, não existiam estudos científicos a respeito do assunto, mas resultados de pesquisas recentes confirmam inclusive que cantar deveria ser receitado pelos médicos, afirma a doutora Gertraud Berka-Schmid, psicoterapeuta e professora da Universidade de Música e Artes de Viena.

A especialista critica pais e professores que tentam proibir as crianças de cantar porque "não sabem", pois assim as privam de sua capacidade de "personificação" e o acesso à experiência do som.

"Isso faz com que a consciência da personalidade mude, reduzindo seu desenvolvimento, porque poder levantar a voz, ser ouvido, ser reconhecido e aceito é de importância vital para um ser eminentemente comunicativo como o ser humano", afirma Berka-Schmid em declarações à revista de medicina austríaca "Medizin Populär".

"Cantar é a respiração estruturada", afirma a médica, explicando o efeito fisiológico da respiração abdominal - a mais profunda -, que prevalece quando se canta e que se transforma em massagem para o intestino e em alívio para o coração.

Além disso, garante a doutora, essa respiração fornece ar adicional aos alvéolos pulmonares, impulsiona a circulação sanguínea e pode melhorar a concentração e a memória.
Na opinião da especialista, cantar é um ótimo remédio para os males específicos do nosso tempo, porque equilibra o sistema neurovegetativo e reforça a atividade dos nervos parassimpáticos, responsáveis pelo relaxamento do corpo.

Cantar gera harmonia psíquica e reforça o sistema imunológico, importantes frente a problemas tão freqüentes hoje em dia, como os transtornos do sono, as doenças circulatórias e a síndrome de burnout - a exaustão emocional.

As conseqüências de um estímulo nervoso excessivo são típicas dos tempos atuais, afirma a especialista: as pessoas não agüentam os próprios impulsos, se isolam, se bloqueam e paralizam ou acumulam agressividade.

Através da voz, o ser humano é capaz de expressar seus sentimentos de tal maneira que pode se desfazer de uma série de más sensações.

Em algumas ocasiões, isso não é possível apenas falando normalmente e, por isso, o canto desempenha um papel essencial.

Lembrando o ditado "quem canta, seus males espanta", não há diferenças em cantar sozinho, em dupla, em coro ou no banheiro, assim como não importa se a pessoa desafine, garante Berka-Schmid.

O corpo é o instrumento de que dispomos para nos comunicar e jogar fora a ira acumulada. A respiração varia de acordo com as emoções, pois quem está agitado, por exemplo, tende a respirar de forma diferente daquele que se encontra triste.

Na prática, observou-se que pacientes com Mal de Alzheimer, graças a uma música conhecida, recuperaram algumas lembranças, e pessoas que sofreram apoplexia conseguiram voltar a falar através do canto, segundo a especialista. EFE

Publicado em: http://br.noticias.yahoo.com/s/16032008/40/entretenimento-especialistas-garantem-canta-males-espanta.html

quarta-feira, 12 de março de 2008

Sons para o eterno


Encontra aqui o seu ponto de referência uma conversa sobre a música sacra, aquela música tradicional do Ocidente católico, para a qual o Vaticano II não mediu palavras de louvor, exortando não somente a salvar, mas a incrementar «com a máxima diligência» o que ele chama «o tesouro da Igreja» e, portanto, da humanidade inteira. E, apesar disso? «E, apesar disso, muitos liturgistas puseram de lado esse tesouro, declarando-o 'esotérico', 'acessível a poucos', abandonaram-no em nome da 'compreensão por todos e em todos os momentos' da liturgia pós-conciliar. Portanto, não mais 'música sacra', relegada quando muito a ocasiões especiais, às catedrais, mas somente 'música utilitária', canções, melodias fáceis, coisas corriqueiras». Também aqui o Cardeal consegue mostrar com facilidade o afastamento teórico e prático do Concílio, «segundo o qual, além do mais, a música sacra é, ela mesma, liturgia, e não um simples embelezamento acessório». E, segundo ele, seria fácil também demonstrar, na prova dos factos, como «o abandono da beleza se mostrou uma causa de derrota pastoral». Diz: «Torna-se cada vez mais perceptível o pavoroso empobrecimento que se manifesta onde se expulsou a beleza, sujeitando-se apenas ao útil. A experiência tem demonstrado que a limitação apenas à categoria do 'compreensível para todos' não tornou as liturgias realmente mais compreensíveis, mais abertas, somente as fez mais pobres. Liturgia 'simples' não significa mísera ou reles: existe a simplicidade que vem do banal e uma outra que deriva da riqueza espiritual, cultural e histórica». «Também nisso», continua ele, «deixou-se de lado a grande música da Igreja em nome da 'participação activa', mas essa 'participação' não pode, talvez, significar também o perceber com o espírito, com os sentidos? Não existe nada de 'activo' no intuir, no perceber, no comover-se? Não há, aqui, um diminuir o homem, reduzindo-o apenas à expressão oral, exactamente quando sabemos que aquilo que existe em nós de racionalmente consciente e que emerge à superfície é apenas a ponta de um iceberg, com relação ao que é a nossa totalidade? Questionar tudo isso não significa, evidentemente, opôr-se ao esforço para fazer cantar todo o povo, opôr-se à 'música utilitária'. Significa opôr-se a um exclusivismo (somente tal música), não justificado pelo Concílio nem pelas necessidades pastorais». Esse assunto da música sacra, percebida também como símbolo da presença da beleza «gratuita» na Igreja, é particularmente importante para Joseph Ratzinger, que lhe dedicou páginas vibrantes: «Uma Igreja que se limite apenas a fazer música 'corrente' cai na incapacidade e torna-se, ela mesma, incapaz. A Igreja tem o dever de ser também 'cidade da glória', lugar em que se reúnem e se elevam aos ouvidos de Deus as vozes mais profundas da humanidade. A Igreja não pode satisfazer-se apenas com o ordinário, com o usual, deve reavivar a voz do cosmos, glorificando o Criador e revelando ao próprio cosmos a sua magnificiência, tornando-o belo, habitável e humano». Também aqui, porém, como para o latim, fala-me de uma «mutação cultural», ou, mais ainda, de uma como que «mutação antropológica», sobretudo entre os jovens, «cujo sentido acústico foi corrompido e degenerado, a partir dos anos 60, pela música rock e por outros produtos semelhantes». Tanto que, e alude aqui também a suas experiências pastorais na Alemanha, hoje seria «difícil fazer ouvir ou, pior ainda, fazer cantar a muitos jovens até mesmo os antigos corais da tradição alemã». O reconhecimento das dificuldades objetivas não o impede de defender apaixonadamente não apenas a música, mas a arte cristã em geral e a sua função de reveladora da verdade: «A única, a verdadeira apologia do cristianismo pode reduzir-se a dois argumentos: os santos que a Igreja produziu e a arte que germinou no seu seio. O Senhor torna-se crível pela magnificência da santidade e da arte, que explodem dentro da comunidade crente, mais do que pelas astutas escapatórias que a apologética elaborou para justificar os lados obscuros de que abundam, infelizmente, os acontecimentos humanos da Igreja. Se a Igreja, portanto, deve continuar a converter, a humanizar o mundo, como pode, na sua liturgia, renunciar à beleza, que é unida de modo inseparável ao amor e, ao mesmo tempo, ao esplendor da Ressureição? Não, os cristãos não se devem contentar facilmente, devem continuar fazendo da sua Igreja o lar do belo, portanto do verdadeiro, sem o que o mundo se torna o primeiro círculo do inferno». Fala-me de um teólogo famoso, um dos líderes do pensamento pós-conciliar, que lhe confessava sem problemas que se sentia um «bárbaro». E comenta: «Um teólogo que não ame a arte, a poesia, a música, a natureza, pode ser perigoso. Essa cegueira e surdez ao belo não é secundária, reflecte-se necessariamente também na sua teologia».

Lisboa: Editorial Verbo, 1985, 105-107
Entrevistas realizadas em Agosto de 1984 ao então Cardeal Ratzinger, atual Papa Bento XVI, que fora recentemente nomeado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Leitura orante da Bíblia


Passeando pelo universo cibernético, em meio a um compromisso da Rede Celebra - núcleo São Paulo - SP, um amigo também da Rede, José Zanello, me indicou estes interessantes passos para a leitura orante da Bíblia. Trata-se de um conceito simples, mas que vale a pena ser seguido conforme nas ilustrações e dicas abaixo:


1 – Iniciar, invocando o Espírito Santo



2 – Leitura lenta e atenta ao texto


3 – Momento de silêncio interior, lembrar o que leu


4 – Ver bem o sentido de cada frase


5 – Atualizar e ruminar a palavra, ligando-a com a vida






6 – Ampliar a visão, ligando o texto com outros textos bíblicos paralelos






7 – Ler de novo, rezando e respondendo a Deus



8 – Formular um compromisso de vida





9 – Rezar um salmo apropriado




10 – Escolher uma frase como resumo para memorizar

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

CANTAR COM OS MAIS NOVOS



CATEQUESE - MÚSICA – LITURGIA
por António José Ferreira, extraído do site http://www.meloteca.com/

Introdução

A música é uma prática cultural de grande relevo nas sociedades contemporâneas, em especial entre os mais jovens. Tendo consciência disso mesmo, a revista francesa Catéchèse dedicou em 1988 um número inteiro à música e ao canto na Catequese. Não tenho conhecimento que alguma publicação do gênero tenha sido feita alguma vez em Portugal. Contudo, a Igreja não pode hoje ignorar as novas tecnologias da informação e comunicação; com gastos relativamente reduzidos, pode promover estudos e disponibilizar elementos sobre um aspecto incontornável da atividade evangelizadora. Através da música o amor se exprime, a tristeza se transforma, a fé se estrutura. Cantar é assumir o seu dom e pobreza, é dar e receber.

A transmissão de idéias através do canto desempenhou um papel único quando a leitura e a escrita estavam confinadas a uma minoria. Com alfabetização generalizada, a música não deixa de ter um papel importantíssimo na transmissão de conteúdos, objetos e idéias - na publicidade, nas canções de intervenção na Liturgia e na Catequese.
Mas há que ter sempre em conta que tudo o que é produzido e manuseado pelo homem, pode ser objeto de uso e de abuso. Através da música se vendem detergentes e perfumes, carros e celulares, se propagam as ideologias, democracias e ditaduras.

1. Canto, mais do que palavras

Para nos encontrarmos realmente com a beleza, precisamos de tempo e disponibilidade. E a beleza pode abrir-se, como janela, caminho e ponte. Linguagem universal (nasce com os homens enquanto seres aptos para cantar e tocar), a música é um veículo natural de comunhão entre pessoas. Nela se une a diversidade dos povos, raças, sexos, idades, condições, temperamentos e línguas.

Cantar é tão gratuito e natural como amar. Não pertence à ordem da necessidade, da eficácia, da rentabilidade, mas da gratuidade e da entrega. A voz não é instrumento que se possa comprar ou vender: é-nos dado como dom, mas torna-se conquista na medida que se desenvolve a técnica vocal.

Foi dito: "quando falo, digo o que penso; quando canto, digo o que sinto". O aforisma é questionável; todavia, é verdade que através da música podemos revelar o que pensamos e sentimos a um nível diferente da linguagem falada. Desde os primórdios da Igreja, os missionários entenderam o papel crucial do canto na evangelização e no louvor. Não se pode cantar com verdade o Pai-nosso sem perdoar os irmãos, não se pode dizer "ouvi-nos, Senhor", sem humildade, não se pode cantar "O amor de Deus repousa em mim" sem um coração dócil.

Os cânticos e canções aprendidos na infância perduram ao longo da vida. São uma arte de operar em conjunto, gerando comunhão. Nesse sentido, não é essencial que todos cantem perfeitamente afinados; mais importante do que isso é que o canto coletivo exprima as vivências do grupo e das pessoas. Perante as dificuldades que, por vezes, as crianças experimentam em partilhar com os pais, o canto em conjunto é uma forma de colocar os pais em presença do que o grupo vive.

O canto é um elemento insubstituível na catequese e na liturgia. "O ritmo e a melodia ajudam à memorização de um texto" (E. Uberall, Chanter avec les enfants, in Signes Musiques 37, 4). Todos os manuais do percurso catequético sugerem um complemento musical, com gravações e cadernos. "O canto educa a fé" (A. M. AITKEN, Un répertoire de chants en catéchèse, in Église qui chante 252 (1990) 13).

O texto é memorizado através do ritmo, da melodia, da rima, das palavras ou idéias que se repetem, da seqüência lógica das afirmações. A rima cruzada, (ABA'B', ou ABCB') tão importante na poesia popular, e a organização do poema em versos regulares de 7 sílabas (chamado redondilha maior[1]), ajuda à memorização do texto. É o caso do cântico de Teodoro Dias de Sousa "A família de Jesus / é quem ouve o que Ele diz. / Quem fizer como ele fez, / viverá sempre feliz!"[2].

Assim, "o canto é um modo privilegiado de dizer um texto." (Isabelle Schiffman, Chanter avec les enfants, in Catéchèse 113 (1988) 59). Daí que não se possa cantar qualquer coisa. A uma pergunta de um membro de um coro de aldeia, um sacerdote que ia presidir à celebração respondeu um dia: "cantem qualquer coisa, desde que não seja a vareira!” (de Ovar, cidade e conselho do distrio de Aveiro, Portugal, o mesmo que ovarense, ovarino ou varino). Descontando o sentido de humor da resposta, a verdade é que existe muitas vezes uma conceição do canto como algo muito secundário e ornamental.

A seleção dos repertórios de canto deve colocar questões como esta: o texto possui boa qualidade literária, é rico em linguagem simbólica? Na relação texto - música, as sonoridades e rimas são naturais ou forçadas? A passagem de uma estrofe a outra está bem construída? O conjunto da melodia combina com o "tom" do texto? A memorização é fácil? No que se refere aos conteúdos da fé, Deus é apresentado de forma coerente com o que se apresenta da catequese?
Há cânticos cuja mensagem é de compreensão imediata ("Deus gosta de ti muito mais que possas imaginar"); outros apresentam uma feitura poética simples ("Eu sou uma carta escrita por Deus pelo poder do Espírito"); outros têm uma mensagem mais complexa de inspiração bíblica ("A semente é a tua palavra, Senhor").

A componente textual é muito importante e deve adaptar-se à psicologia da criança. Simplicidade não é simplismo, infantilidade não é infantilismo. A linguagem deve ser adaptada às crianças, mas não pueril. Um texto pode ser simples, ter qualidade poética e riqueza simbólica, apontando o Mistério de Deus que não se reduz às palavras. O vocabulário não tem que ser todo da idade das crianças: os mais novos também são capazes de aceder à dimensão poética e à riqueza simbólica dos cânticos. Mais do que explicar racionalmente, o canto abre portas ao Mistério.

[1] redondilha maior (ou simplesmente redondilha) = verso de 7 sílabas poéticas; redondilha menor = verso de 5 sílabas poéticas. Para entender melhor, pesquise no seguinte endereço: http://www.tvcultura.com.br/aloescola/linguaportuguesa/estilistica/generospoeticos-redondilhas.htm. Em breve publicarei um artigo neste blog sobre as formas da poesia clássica e moderna.
[2] Como esse artigo foi extraído do site www.meloteca.com, muito provavelmente este seja um autor português, cuja indicação do texto desconhecemos.

CANTAR COM OS MAIS NOVOS

2. Cantar na catequese e na liturgia

por Antonio José Ferreira

Se a caminhada de fé se dirige ao ser humano na sua totalidade e não apenas à inteligência, a música pode dar um contributo fundamental nas sessões de catequese. "Todas as cordas do ser humano são tocadas no ato de cantar" (Stanislas Lalane, Jouez et chantez, in Catéchèse, 5). O canto, especialmente o canto em conjunto, "exige e opera um investimento de todas as capacidades do ser humano: o corporal, o cerebral, o sensível, o emocional, o irracional, o simbólico" (Claude Duchesneau).

Além disso, "no ato de cantar, como no ato de fé, o ouvir tem prioridade em relação ao compreender" (Jean-Yves Hameline, Acte de chant, acte de foi, in Catéchèse, 43). A fé passa pelos sentidos e, de modo especial, pelo ouvido. O canto existe para ser vivido, mas não chegará a sê-lo se não for ouvido.

Não se canta, na catequese, como na liturgia, para manter as crianças sossegadas, embora isso possa ser um efeito desejável. Canta-se porque os melhores sentimentos transbordam em poesia, porque o ritmo ajuda à memorização, porque a melodia envolve numa experiência de Deus.

O canto parte da experiência humana e deve fecundar a experiência humana, recordando o compromisso e o sentido de missão. Enquanto parte integrante da liturgia e da catequese, o canto educa as crianças e alimenta a sua fé. Os catequistas não devem, por isso, escudar-se na falta de ouvido para nunca oferecer música às crianças. Podem, ao menos, recorrer às gravações e outros recursos disponíveis, como a ajuda de um grupo de cantores já iniciados, por exemplo.

A liturgia não é catequese, nem para as crianças, nem para os adultos. Há que ser prudente para que a liturgia não se transforme em catequese. Se a catequese é essencialmente aprendizagem, a liturgia é essencialmente oração, súplica e louvor. Entre os cânticos para a catequese e os cânticos para a liturgia, há diferenças que lhes vêm da própria finalidade. O canto catequético é mais da ordem da aprendizagem; o cântico litúrgico é mais da ordem da celebração e do louvor.
O canto catequético é pedagógico; o canto litúrgico é mistagógico. O canto catequético o está ao serviço da caminhada de fé, colocando a criança numa relação de amor a Deus e de compromisso com os irmãos; e o canto litúrgico, não aprofunda também ele a fé? Todavia, o canto litúrgico e o canto catequético não são estanques. A catequese conduz à liturgia e a liturgia remete para a catequese. Na catequese também se ora, e na liturgia também se aprende.

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3. Música nas Missas com Crianças

por Antonio José Ferreira

Em determinados momentos do percurso catequético, pelo menos, há toda a vantagem em fazer celebrações com crianças. A celebração só com crianças (com alguns adultos apenas) é minoritária, sobretudo ao Domingo. O mais comum entre nós é as crianças participarem nas assembléias dominicais gerais, muitas vezes sem a participação ativa desejável. As crianças aprendem fazendo, e louvam a Deus pela ação e o movimento.

Como em qualquer eucaristia, a participação nas Missas com Crianças deve ser ativa, interior e exterior. O Diretório Romano das Missas com Crianças reconhece ao canto um papel muito importante, dando prioridade às aclamações, sobretudo as aclamações da Oração Eucarística. Os cantos da Glória e do Credo, o Santo, e Cordeiro de Deus podem ser adaptados, não devendo ser excessivamente longos, além das qualidades que são naturalmente exigíveis à música e aos textos.

O canto entre as leituras deve ser sálmico e ter melodia simples. Deve cantar-se ao menos o refrão, como ressonância da 1ª leitura. Uma hipótese é usar em certos tempos litúrgicos um refrão comum que vá ao encontro da primeira leitura. Um salmo para o Advento, dois salmos para a Quaresma e outros dois para a Páscoa, por exemplo, são hipóteses a ter em conta.

Depois da homilia pode cantar-se um cântico adequado (DMC 46). O canto contribui para a assimilação da Palavra de Deus e é uma forma importantíssima de participação das crianças.
A assembléia tem um protagonismo inalienável no canto. Participar é ouvir, mas não se limita à audição. Mesmo quando não há animador da assembléia, mesmo quando não há órgão ou outros instrumentos, mesmo quando não há coro, há sempre a possibilidade de os cristãos reunidos cantarem. Um animador poderá ajudar muito as crianças, com um gesto, um sorriso, um olhar.
O canto a solo é muitas esquecido nas missas com crianças. Assim como se pode pedir às crianças que façam uma leitura ou uma oração, pode-se pedir e preparar as crianças mais dotadas para cantarem como solistas, uma estrofe de um cântico ou uma invocação. Pode-se criar também um pequeno coro de crianças vocalmente mais aptas, coro que dê segurança e dialogue com o grande coro.

O modo de execução dos cânticos pode melhorar e diversificar-se também com um refrão cantado e frases de louvor recitadas (após a comunhão). Outro modo de fazer em certas eucaristias e certos momentos é as crianças cantarem os solos e a assembléia o refrão, ou então um grupo de crianças dialogar com o coro adulto. Uma relação estreita entre o animador da liturgia e o animador da catequese pode abrir novas perspectivas ao canto com os mais novos.

Muitas crianças tiveram ou têm Educação Musical na escola, incluindo flauta de bisel (flauta doce), um instrumento doce que pode enriquecer alguns cânticos. Acompanhamento, prelúdios e interlúdios de órgão ou violão, podem enriquecer as celebrações e motivar os adolescentes, jovens e crianças. Certos instrumentos de percussão como as maracas, afoxé, triângulo, podem valorizar a celebração litúrgica e a catequese.

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4. Cantar o quê? Repertórios e coletâneas

por Antonio José Ferreira

Escolher cânticos para a catequese ou para uma celebração é uma tarefa de responsabilidade que deve ter em conta as crianças e os laços que se pretende criar. Quando as crianças estão em larga maioria, devem ter um repertório específico, mesmo que não seja muito abundante. É desejável um repertório de cânticos para crianças, tal como há versões da Bíblia especialmente adaptadas à infância.

Ao selecionar um cântico ou canção, o catequista deve ter em conta a relação do texto com a melodia, coerência entre o canto e o momento catequético, a adaptação do canto ao grupo (com a sua idade e características). Quanto maior é o grupo, maior é a necessidade da música, do canto e do ritmo. E, embora na catequese os grupos não sejam muito grandes, nem por isso o gesto vocal deixa de ser importante.

Um bom cântico para crianças é o que "fala ao corpo, que faz ver, ouvir e sentir, que põe em movimento todos os sentidos para por em movimento o próprio sentido" (M. SCOUARNEC, La foi des enfants a besoin du chant... de tous!, in Église qui Chante 252(1990)2). Um bom cântico é o que parece novo e renovador depois de ouvido muitas vezes; o que não presta, só é novo quando se ouve pela primeira vez.

"Vários cânticos concebidos para a catequese serão bem-vindos à celebração e, inversamente, os catequistas poderão retomar cânticos do Domingo com as crianças" (Uberall, Chanter, 4). Alguns cânticos devem facilitar a sua integração na comunidade, inclusive cânticos do ordinário da missa, cânticos estáveis. Ensinar às crianças alguns cânticos da assembléia dominical é facilitar a sua integração. A conjugação entre a catequese e a liturgia far-se-á de um modo harmonioso: "a justeza é a irmã da justiça" (Thibault, Je chante, 8).

Quando estão as crianças estão com adultos em número significativo, convém equilibrar os repertórios. Há inclusive certos cânticos que foram compostos para crianças e podem ser expressão de fé para os adultos ("Quanta alegria é para mim tua presença", "Bendito sejas, Senhor nosso Pai", "Bendito és Tu, Senhor"). Cânticos compostos para crianças podem ser também expressão de adultos, e cânticos compostos para adultos podem ser expressão da fé das crianças.

Os padres e animadores litúrgicos devem fazer com que as crianças participem sempre na liturgia com alguma acção: um cântico, o ofertório, uma oração, um gesto, palmas, um instrumento de percussão.

Para as crianças, não são apropriados cânticos com um âmbito demasiado grande, com notas muito graves ou muito agudas. As vozes das crianças, que ainda não estão plenamente desenvolvidas, movimentam-se à vontade entre no espaço de uma oitava: dó e dó, ou ré e ré. Os ritmos sincopados próprios de estilos musicais nascidos do Jazz não põe dificuldades e até são do agrado dos jovens. Para estes, o tipo de canção ideal para a catequese estará mais próximo da canção ligeira.

Na preparação do ensaio de canto ou da sessão de catequese, há que ter discernimento na resposta a estas questões: cantar o quê? Ouvir o quê? O cântico adapta-se à idade das crianças? É difícil? É demasiado infantil? O acento das sílabas coincide com os acentos musicais? O canto deve exprimir corretamente a fé, fazendo a ligação entre a fé e os comportamentos morais. As paráfrases (adaptações) da Bíblia, não devem empobrecer, confundir ou distorcer a Palavra, mas antes explicitá-la.

A posição do animador ajuda a distinguir a catequese da liturgia: na catequese, o catequista está no centro; na liturgia é Cristo que está no centro. Na catequese, Deus é aquele de quem se fala; na liturgia é mais aquele com quem se fala; na catequese é um grupo que caminha e se forma; na liturgia é a assembléia formada que louva o Senhor pelas suas maravilhas e se alimenta com a Palavra e o corpo de Cristo. Mas é evidente que a catequese comporta um espaço de oração e conduz a ela; e a liturgia comporta a dimensão memorial e leva ao seu aprofundamento. A liturgia não é um apêndice da catequese, mas sua fonte, seu cume e sua meta. No que se refere à Música, a catequese é tempo de aprender e explicar o cântico; a liturgia é tempo de o cantar.

Nem todas as crianças que vão à catequese vão à missa, mas as crianças que vão à missa vão também à catequese, salvo raras exceções. A liturgia será aprendizagem de uma outra dimensão da fé cristã, a da oração comunitária. "A catequese culmina e desabrocha na celebração" (M. Thibault, Je chante avec tout mon être, in Église qui chante 252 (1990) 8).

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5. Corporeidade e expressão gestual

por Antonio José Ferreira

O corpo de Jesus de Nazaré não foi uma aparência de corpo, mas corpo humano verdadeiro, que se sofreu e se alegrou, morreu e ressuscitou. Na corporeidade do Filho de Deus o corpo humano passou a valer mais. "Desde que o nosso Deus se fez carne, o corpo humano torna-se templo do Espírito. Quando celebramos, isso diz respeito a todo o corpo" (E. UBERALL, Celébrer avec tout son corps, in Signes Musiques 38(1997)4).

Gestos movimento e criatividade visual na catequese e nas missas com crianças são importantes pela própria natureza da Igreja, da salvação destinada ao homem todo e da psicologia das crianças, que gostam de cantar e fazer gestos. A expressão corporal revela o ser de cada um.

Graças ao gesto, a corporeidade torna-se um símbolo, a pessoa comunica e comunica-se a si mesma e ao grupo. A gestualidade é um elemento inevitável. Não se trata de ceder a uma moda, mas de ajudar à participação efetiva em que o Concílio Vaticano II tanto insiste. É importante que cada um se sinta bem no seu corpo.

Em certas regiões do mundo, os cristãos estão habituados a participar na liturgia com o corpo todo, e não apenas com os ouvidos, olhos e boca. O canto e a palavra devem falar ao ser humano como um todo: corpo, inteligência, memória e sensibilidade. Todavia a expressão gestual e a corporeidade são vistas na Igreja com alguma desconfiança, o que se deve, por vezes, à falta de senso e de qualidade da expressão gestual. Certa espiritualidade mortificou excessivamente o corpo pelo sacrifício e pela ascese. A própria liturgia se tornou muito cerebral e intelectual, em detrimento da dimensão física e corporal. O contacto com culturas africanas, por exemplo, e a influência de movimentos como o da Renovação Carismática Católica ou as próprias seitas, contribuiu para a redescoberta do papel do corpo na oração.

Contudo, numa cultura cheia de contrastes e desequilíbrios, dá-se às vezes uma importância exagerada ao corpo, como se pode ver em certas operações plásticas, em dietas violentas e perigosas, em ginásticas obsessivas.

Há assembléias habituadas a exprimirem-se gestualmente e outras que experimentam muita inibição quando a gestualidade ultrapassa o que é feito segundo os hábitos estabelecidos. Há os acham importante as celebrações serem mais gestuais e dinâmicas, e os que desconfiam de gestos não previstos nos rituais como um perigo de profanidade.

Em si mesmo, canto já é uma excelente atividade física da assembléia. Não se canta apenas com a boca: canta-se com a respiração, com a caixa torácica, com o cérebro, com os lábios. Todo o corpo vibra e respira. Há que ser todo no que se canta, ser todo no que se faz, habitar inteiro o ato que se realiza.

O gesto precede e segue a palavra, seja o presidente, o leitor, ou o cantor. Certos gestos, nunca banalizados ou generalizados (gesto da paz, aspersão da água, procissões, palmas, levantar ou dar as mãos no Pai-nosso, erguer a vela, ou os ramos no Domingo da Paixão...) podem ajudar a exprimir de uma forma mais existencial a fé da comunidade cristã. O corpo humano é o instrumento musical mais natural e mais acessível.

Erguer as mãos num aleluia ou num hosana (ou outra aclamação), abrir as mãos num cântico da apresentação dos dons são gestos muito simples que podem ajudar a criança a exprimir a sua fé de um modo mais perfeito. E há palavras cuja mímica é muito fácil: eu, tu, nós, terra, céu, Deus, amar, sim, não, casa, rocha, sopro, passar, luz, estrelas, amigo, Bíblia, vida, subir, descer, dormir, ir, vir... Pedir às crianças sobre a forma gestual a ser utilizada pode também ser uma maneira de aprofundar a mensagem e memorizar o cântico.

No entanto, a eucaristia será sempre oração e não espetáculo, tanto para os mais novos como para os adultos. Não se vai à igreja para aplaudir uma audição ou criticar um concerto. Cada cristão, nas circunstâncias em que se encontra, vive o mistério de Cristo na celebração. A gestualidade na catequese deve ser simples e o número de gestos deve adaptar-se à idade e ao tipo de cântico e de oração em que ele se insere.

Uma grande complexidade gestual centra a atenção na atividade e desvia do essencial, que é a mensagem. A própria regência deve ser segura e sóbria, ajudando as crianças a cantarem verdadeiramente em coro, entrando no momento exato, mantendo o andamento adequado e terminando ao mesmo tempo.

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6. O lugar dos jovens

Por Antonio José Ferreira

O processo de socialização dos adolescentes que gostam de estar sós e usar meios individuais de ouvir música como o walkman ou mp3, deve ser completado com a prática coletiva de concertos e instrumentos ou canto. A catequese pode ser um contributo importante nesse sentido, superando alguma tendência individualista.

Se a música e a expressão gestual têm um lugar insubstituível na vida humana e, de modo especial, na infância, o catequista deve pensar na gestualidade que poderá acompanhar o canto, mesmo que venha a pedir sugestões às crianças e jovens. Quando as celebrações são majoritariamente jovens, ou há um número razoável de crianças, a preparação da liturgia deve ter em conta essa circunstância para que a participação seja realmente ativa.

A questão do lugar dos jovens nas celebrações cristãs é importante. Há poucos adolescentes e jovens nas missas dominicais, e muitas vezes aborrecem-se, porque falta ritmo à liturgia. É preciso ter em conta a sua presença, as suas preferências repertoriais, com um desempenho ativo e não apenas consciente.

A geração dos 60-75 anos nasceu na época dos meios de comunicação frios (jornal, rádio); a juventude atual cresce com os meios de comunicação quentes (televisão, CD-rom, internet, imagens). A maior parte das liturgias cristãs funciona nos esquemas antigos de comunicação: muitas palavras, poucos movimentos, cânticos pouco dinâmicos, gestos estereotipados e pouca criatividade. As dificuldades dos jovens, que esperam convivialidade, melodias atraentes e ritmadas, participação afetiva e efetiva nas celebrações passam muito pelo caráter estático da liturgia.

O meio em que os jovens estão inseridos é a cultura do espectacular. Embora a liturgia não seja um espectáculo mas celebração da fé, há lugar para certos elementos que são também espectaculares: a questão da luz, os símbolos, o ritmo, o andamento, as rupturas e as alternâncias. Há lugar para a criatividade, a adaptação e a variedade, como é reconhecido pela "Introdução Geral do Missal Romano": procissões, silêncios estratégicos, aclamações, diálogos, iluminação, instrumentos, palmas, gestos, espontaneidade.

Se a cultura juvenil é contrastada, é preciso jogar melhor com os momentos de interiorização e exteriorização. Embora haja riscos, a emoção, a afectividade e a sensibilidade (não a sensualidade) têm lugar na celebração e na própria catequese. Os jovens apreciam os grupos de oração, o ambiente caloroso dos pequenos grupos, de preferência ao institucional e ao hierárquico. A celebração comunitária na igreja pode ser o cume de uma reflexão e de uma vivência em pequenos grupos cristãos.

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7. Ensinar cantando. Sugestões para ensaios

Por Antonio José Ferreira

A fase da escuta é crucial no ensino/aprendizagem de um cântico ou canção. O modo de ensinar um cântico é fundamental para criar ambiente e suscitar a adesão das crianças, de forma segura e viva. As crianças fixam bem pois a memória é nelas uma faculdade em desenvolvimento. O animador ou catequista ensaia, na semana seguinte, retoma o cântico e ele fica consolidado.

O ritmo livre e muito irregular, como os salmos, dificilmente resulta com grupos grandes de crianças. Mas não é impossível uma criança cantar o salmo e o grupo ou a assembleia responder com o refrão. Além disso, para que a mensagem se entranhe na vida, é necessário que as crianças gostem do cântico e sintam prazer em cantá-lo.

O catequista deve estar atendo e dar indicações básicos aos educandos: não gritar, articular as palavras, respirar bem.

Quanto ao suporte escrito dos cânticos para as crianças, há sempre riscos, tanto nas fotocópias como nos livros e pastas, uma vez que as crianças facilmente se podem distrair a folheá-los.

O animador deve conhecer com perfeição o cântico ou a canção, sem desafinações, hesitações ou enganos. É muito difícil corrigir uma má entoação ou um ritmo distorcido.

O ensaio de canto, poderá fazer-se de vários modos:

Cantar o cântico todo seguido, primeiro, e depois por partes;
Frase por frase;
Aprender o texto e a música, separada ou conjuntamente;
Decompor a música em ritmo;
Ensinar de cor, ou com folhas;
Começar pelo princípio, pelo refrão, ou por frases que se repetem;
Utilizar um instrumento que dê a melodia apenas ou que acompanhe com acordes;
Utilizar uma gravação para a aprendizagem;
Cantar com a gravação exige do catequista que esteja muito seguro e atento para se manter no ritmo e andamento exactos:
Fazer saborear o texto antes de ensaiar o canto, valorizando a reflexão e interiorização da mensagem.

Tomemos o cântico de entrada "Vamos entrando na casa de Deus. Vamos fazer a festa com Jesus!". Qual é a casa de Deus? Que festa vamos fazer?

Peguemos no cântico "A semente é a tua palavra, Senhor". O que é uma semente? Se a Palavra de Deus é semente, onde há-de ser semeada? O que é preciso para que ela germine e cresça?

O catequista deve interrogar-se previamente sobre quais as imagens mais interessantes e sobre o que merece ser explicado. Um cântico torna-se, assim, uma catequese.

Pode escolher-se uma nota de partida que permita às crianças cantar naturalmente. Além disso, não se deve cantar demasiado lento. As crianças têm um ritmo cardíaco mais rápido que os adultos, e a caixa torácica é menor. O andamento deve permitir às crianças cantar uma frase sem esforço. O animador do canto deve dar espaço às crianças, deixando-as cantar sozinhas, sem abafar a voz das crianças com uma voz eventualmente menos bela e até mais desafinada.

Há cânticos com certos intervalos semelhantes ou iguais. Em caso de necessidade, pode-se aproximar certos intervalos vizinhos, para ressaltar a diferença. Deve executar-se com precisão a duração de cada nota, exemplificando até o ritmo com o batimento da mão numa superfície ou com palmas.

Cantar a vozes é difícil, mas o cânone pode perfeitamente ser uma primeira experiência da polifonia. Pode jogar-se com a alternância crianças - adultos, pequeno coro - grande coro, solista - coro, repeitando o cântico que se está a entoar. Um toque de ferrinhos no fim de uma frase, um ritmo regular de tambor, o abanar certo de uma maraca podem enriquecer o canto e a participação das crianças e jovens.