domingo, 27 de fevereiro de 2011

Vivendo a Quaresma como itinerário pascal

Eurivaldo Silva Ferreira

1. Introdução

Passadas as festas do carnaval, chega o tempo da Quaresma. No Brasil, este tempo se inicia com a celebração da Quarta-feira de Cinzas, em que se anuncia também o tema da Campanha da Fraternidade, cujo tema neste ano é “Fraternidade e a vida no planeta”, com o lema: “A criação geme em dores de parto” (Rm 8,22).

O documento conciliar Sacrosanctum Concilium (SC) nos ensina que uma das funções da Igreja é fazer com que seus fiéis se aproximem da graça salvadora de Cristo. Logo, quem participa das ações litúrgicas, entra em contato com a riqueza das virtudes e méritos de Jesus Cristo, por isso o mistério de Cristo anunciado e vivido possibilita a quem crê a plenitude da graça da salvação.

Toda semana, no domingo, justamente denominado dia do Senhor, a Igreja celebra a ressurreição de Cristo. Da mesma forma celebra uma vez por ano, o que chamamos de tríduo pascal. (SC,102). A este itinerário pedagógico que decorre num período de um ano, nós presenciamos toda ação de Cristo operando em prol de sua comunidade de fé, orante e reunida em assembleia. A Igreja denomina esse percurso como sendo o Ano Litúrgico, em que todos têm contato com aquilo que o próprio Cristo pregou, viveu e anunciou. É em torno desse mistério da nossa fé que também aguardamos sua feliz vinda, no reino futuro, mas que também já o fazemos aqui na terra, nas nossas ações do cotidiano.

Importante também sabermos que este mesmo documento solicita que a Igreja, celebrando os mistérios de Cristo, especialmente o mistério pascal, possa alimentar a piedade dos fiéis. Estes participam das ações litúrgicas não como estranhos ou simples espectadores, mas como participantes conscientes, piedosos e ativos. Por isso devem entender o que se celebra, instruir-se com a Palavra de Deus e alimentar-se da mesa do corpo do Senhor, dar graças a Deus, e oferecer-se juntos, elevando aos céus o mesmo sacrifício elevado por quem preside, pois o sacrifício de Cristo representa o cotidiano de si mesmos, até que um dia, por Cristo, com Cristo e em Cristo, Deus venha a ser tudo em todos. É esta a natureza frutificadora da ação litúrgica.

E o que a Quaresma tem a ver com isso? Pode perguntar o/a atento/a leitor/a. Podemos afirmar, baseados no mesmo documento conciliar que a celebração litúrgica tem a preocupação de colocar o ser humano em relação com o mistério pascal da morte e da ressurreição de Cristo, em quase todas as ocasiões da vida, pois do mistério pascal derivam a graça e a força pelas quais se santificam os fiéis bem dispostos. Por isso a finalidade da celebração litúrgica se resume em dois atos: santificação do povo e o louvor de Deus. Assim sendo, vejamos como o tempo da Quaresma pode possibilitar essa participação ativa, plena, frutuosa e consciente, e consequentemente a santificação de cada participante, de que fala a Sacrosanctum Concilium.



2. Quaresma: dois aspectos num só tempo

O tempo quaresmal comporta dois aspectos: a memória ou preparação do batismo e a penitência. Trataremos desses dois aspectos a seguir:

2.1. Memória ou preparação do batismo

Quando se faz memória se quer recordar algo. Na celebração litúrgica nós fazemos memória de um fato, de um acontecimento. Celebrar é então tornar célebre aquele fato ou acontecimento. Todo domingo, na celebração eucarística, por força dos ritos e das preces, das orações e das louvações, nós tornamos célebres aqueles gestos de Jesus realizados na última ceia: sua entrega pascal, realizada de forma ritual na noite da quinta-feira santa e sua entrega sacrificial, seu corpo crucificado e morto na sexta-feira da paixão, além de contemplarmos o vazio no Sábado da sepultura e comemorarmos a ressurreição, no domingo de madrugada. Fazemos isso com ritos e com símbolos, pois repetindo os ritos, aprofundamos seu sentido, ou seja, aquilo que ele mesmo expressa, a nossa fé. Desta forma, a liturgia cristã, na qual fazemos memória pascal, passa por esse prisma, ela representa esses fatos, de uma forma ritual, mas que, revivendo-os, fazendo memória, nós o tornamos vivos, perpétuos.

Na Quaresma, então, fazendo memória do nosso batismo, nós recordamos aquela graça, pela qual fomos inseridos um dia, mergulhando na água do Espírito, renascendo para uma vida nova. Por isso, o tempo quaresmal, por sua força sacramental, nos coloca em prontidão para a escuta da Palavra e a oração, elementos essenciais que devem ser vividos também ao longo de todo ano litúrgico, mas que a Igreja chama para uma atenção particular e mais atenta neste tempo. Então, a ação memorial do batismo, nós a realizamos escutando a Palavra, orando em comunidade e celebrando na mesa comum a memória pascal do próprio Cristo.

Quanto à preparação do batismo, o tempo quaresmal se coloca como um período em que os catecúmenos, aqueles que eram iniciados na fé nas comunidades primitivas, podiam ser preparados para receber este sacramento, um dos que fazem parte dos chamados ‘sacramentos da iniciação à vida cristã’. No período quaresmal, os catecúmenos viviam o tempo chamado de ‘purificação’ e ‘iluminação’, o que os consagrava a preparar-se mais intensamente o espírito e o coração, examinando suas consciências e com atitudes penitenciais para a vivência sacramental.

Podemos dizer então que é no embalo deste percurso catecumenal que os fiéis já batizados, assim como os catecúmenos, se dispõem para a celebração do mistério pascal, celebrando a cada domingo, ao mesmo tempo, visualizando e tendo como meta a grande celebração do tríduo pascal.

No que se refere à adesão à fé, esta comporta um processo complexo, paulatino e que envolve um aprendizado de ensinamentos e posturas diante da Igreja. Tal aprendizado pode se dar no âmbito das celebrações ao longo do ano litúrgico, sobretudo quando essas celebrações são acompanhadas e expressadas pelo sentido próprio de cada celebração. Cada gesto, cada ação ritual, comporta um sentido teológico, no qual deve ser aprofundado com conhecimento de causa, mediante a qualidade com que se é realizado e celebrado, até provocar no celebrante (todos nós somos os agentes da celebração) uma atitude interior e espiritual, abrindo-se para o compromisso com a vida.

Como recurso pedagógico da Igreja, a exemplo disso se coloca o tempo quaresmal, que, com seu sentido próprio, vivido ao longo do ano litúrgico, pode ser contemplado com seu desejo de conversão e de mudança de vida, elementos principais contidos nas leituras bíblicas desse tempo.

2.2. Penitência

É o segundo aspecto desse tempo. Conservado pela Tradição da Igreja, aqueles que estivessem aptos para o batismo se comprometiam a refletir sobre a consciência do pecado, considerando-o como ofensa a Deus. Daí nascia o compromisso de não mais pecar, vivido por um estado de contínua conversão.

A Carta Preparatória para as Festas Pascais, de janeiro de 1988 explicita melhor o sentido da virtude e a prática da penitência, como “partes necessárias da preparação pascal: da conversão do coração deve brotar a prática externa da penitência, quer para os cristãos individualmente, quer para a comunidade inteira; prática penitencial que, embora adaptada às circunstâncias e condições próprias do nosso tempo, deve, porém, estar sempre impregnada do espírito evangélico de penitência e orientada para o bem dos irmãos e irmãs”.

Assim como os fiéis são convidados à prática da penitência, a Igreja, de tal modo se coloca nesta ação, rezando e intercedendo por aqueles que ainda não aderiram a este processo de conversão. Ela também convoca os fiéis para a prática da penitência e o retorno ao sacramento do perdão.

Segundo a Encíclica Dives in Misericórdia (Rico em Misericórdia), de João Paulo II, o papel da Igreja consiste em anunciar a misericórdia de Deus, que é todo misericordioso, aconselhando a consciência, baseando-se na Escritura, aponta sinais de melhorias, ou seja, o ser humano não é capaz de se salvar a si por sua própria capacidade, por isso ele precisa contar com Deus. A Igreja vê e dá testemunho da misericórdia de Deus, pelo Cristo anunciado no Evangelho, ela encoraja o ser humano e o introduz no seio da misericórdia de Deus, professando-a em toda a sua verdade, apoiada na Revelação. Deus penetra no íntimo do coração do homem e da mulher para transformá-lo/a, assim como fez com o filho pródigo.

O sinal externo do processo penitencial pode ser visualizado por diversas maneiras: o jejum e a caridade são os sinais mais recomendados pela Igreja, sobretudo se vividos por um período anterior de oração e por um período posterior de justiça (sentido de entrega a uma causa). Sobre isso, São Leão Magno, papa e doutor da Igreja, fala de um agente externo que quer nos impelir para pecar, fazendo-nos esquecer da fonte do perdão, o próprio mistério pascal, celebrado e vivido com mais intensidade por ocasião do tríduo pascal. Por isso também recomenda que ‘entremos na Quaresma com uma fidelidade maior ao serviço do Senhor’, nesse sentido, o jejum e a caridade são sinais externos para se vencer o mal, que cada vez mais quer se sobressair em nós.

No Brasil, a Campanha da Fraternidade, também vivido como um sinal externo de penitência, é um excelente auxilio para bem vivermos a Quaresma, diz a introdução do seu texto-base.



3. Os Domingos da Quaresma e seu sentido próprio

Já que a Quaresma nos convida a um ouvir mais atentamente a Palavra de Deus, é bom que entendamos o sentido de cada um dos 5 domingos que compõem o tempo quaresmal. Essas leituras, principalmente as do Ano A, estão intimamente ligadas com o batismo.

O 1º domingo da Quaresma assinala o início do sinal sacramental da nossa conversão: o abandono do ter, do prazer e do poder. O 2º Domingo é marcado pela compreensão do sofrimento e da glorificação; a Palavra e a Lei revelam um novo sentido para a fé daqueles/as que seguem o caminho do reino. No 3º Domingo, Jesus revela no diálogo com a Samaritana que ele mesmo é a fonte de água viva; no batismo, o sinal sacramental da água é significado desse ingresso numa vida nova, a vida em Cristo. No 4º Domingo o tema é o da iluminação, através da narração do Cego de Nascença; é o batismo aí compreendido como iluminação pelo dom da fé. Na Ressurreição de Lázaro, contemplada no 5º Domingo, temos uma antecipação da ressurreição para a vida na glória.

O caráter batismal dessas leituras, sobretudo se vivido junto aos catecúmenos, é que nos ajudará no processo da conversão a uma vida que seja realização do batismo, que será celebrado ou renovado por ocasião da páscoa.



4. Aspectos pessoais e comunitários para uma vivência quaresmal

Diz o Missal Romano que a Quaresma é um tempo de teste para nossa fidelidade na resposta ao plano de Deus. Pode acontecer que, depois de ter recebido o batismo, nós percamos essa confiança, por isso esse tempo é propício para renovar e reavivar em nossos corações as disposições com que, durante a Vigília Pascal, pronunciaremos de novo as promessas do nosso batismo.

Para viver bem a Quaresma no âmbito comunitário ou pessoal, enumero algumas sugestões, mas o/a leitor/a pode acrescentar outras, de acordo com sua possibilidade, abertura e condições:

• Acolher nas liturgias, especialmente no tempo quaresmal e pascal, os que querem se aproximar do sacramento da Penitência, reconhecendo neles os verdadeiros necessitados de conversão, assim, os pressupostos teológicos da fé podem se unir à dinâmica do crescimento da experiência cristã. Estes não podem estar separados daquele. O segundo não pode suplantar o primeiro. Trata-se de dois aspectos complementares da atividade santificadora da Igreja. Ao caminho e maturidade da fé, corresponde o caminho e maturidade do rito. A fé se exprime no rito e o rito reforça e fortifica a fé. A norma da oração é a norma da fé e vice-versa.

• Usar atitudes inclusivas e não separatistas. Promover o dinamismo do ano litúrgico na vida da comunidade, permitindo que se viva cada tempo dentro de seu tempo específico, com suas propostas pedagógicas e seu itinerário adequado e místico.

• Perceber nessas atitudes caminhos alternativos para o encaminhamento das lições tiradas da liturgia, dos textos bíblicos e eucológicos, dos ritos, a fim de que se possa levar para a vida da comunidade, sobretudo, no amparo àqueles que mais necessitam, seja dos sacramentos, da cura espiritual, seja das necessidades básicas para o desenvolvimento da vida (por exemplo, obras de caridade, distribuição de cestas básicas etc).

• Neste sentido, entendemos que a liturgia celebrada pode dar luzes às questões temporais que homem e mulher podem enfrentar, sobretudo porque, o testemunho da Igreja em anunciar a misericórdia de Deus também pode ser vivenciado nas reuniões celebrativas, onde o povo tenha a livre iniciativa de poder expressar seus sentimentos, seus anseios e seus desejos, suas alegrias e suas tristezas, de tal modo que, possa a celebração litúrgica ser a porta para a entrada na vida comunitária.

• Para se buscar e viver a misericórdia de Deus, seja no sentido pessoal, seja no sentido comunitário: depois do convite da Igreja ao sacramento do perdão (confissão), assumir as leituras bíblicas do dia, rezar um salmo, acender uma vela, colocar um ícone ou uma cruz, deixar um silêncio, fazer uma ação de graças: de manhã ou à noite, em casa, no quarto de um doente...

• Respeitar a si mesmo/a, os próprios limites, reforçar o positivo das pessoas, optar por uma cultura de paz e preservação do meio ambiente, ser tolerante, participar das lutas pelas causas coletivas, de cunho ecológico, por exemplo... Na vida fraterna, dar sempre o primeiro passo em busca da unidade.

• O perdão, como possibilidade de não aprisionar a si e aos outros nas consequências negativas dos seus atos, é condição para tornar a vida viável; pode ser visto como instrumento de cura interior, de abrir passagem para a dimensão divina de nós mesmos. Aquele que se conhece a si mesmo, com suas ambiguidades, pode compreender o outro em suas sombras. (cf. Jean Yves Lelup)



5. Conclusão

Enfim, viver a Quaresma é saborear o difícil itinerário da passagem da morte para a vida. Sabemos que passamos da morte à vida se amamos os irmãos, diz São João em sua primeira carta (1Jo 3,14). Sobretudo, devemos lembrar que somos discípulos/as de Jesus, que superou o fracasso humano da Cruz com um amor que vence a morte, e que o jejum e a caridade, traduzidos na solidariedade fraterna em favor do/a outro/a, do mundo, do planeta e do cosmos, nos colocam nesse mesmo patamar de Jesus, que, intensificando seu desejo de amar até o fim, passou pelo mal, vencendo-o.

Juntemos o nosso desejo ao de Jesus. Assim, como diz a regra de São Bento, com a alegria do Espírito Santo e cheios do desejo espiritual, esperemos a santa Páscoa.





Referência bibliográfica:

Constituição Sacrosanctum Concilium, sobre a Sagrada Liturgia. São Paulo: Paulinas, 10º edição, 2010.

CNBB. Texto-base da Campanha da Fraternidade 2011.

MISSAL DOMINICAL. Missal da Assembleia Cristã. São Paulo: Paulus, 6ª edição, 1995.

Ritual da Iniciação Cristã de Adultos. São Paulo: Paulus, 4ª edição, 1997.

BERGAMINI, Augusto. Cristo, Festa da Igreja: história, teologia, espiritualidade e pastoral do ano litúrgico. São Paulo: Paulinas, 3ª edição, 2004.

BUYST, Ione e SILVA, José Ariovaldo. O mistério celebrado: memória e compromisso I. Valencia: Siquem, 2002.

CARPANEDO, Penha e BARROS, M. Tempo para amar: mística para viver o ano litúrgico. São Paulo: Paulus, 1997.

CARPANEDO, Penha. Quadros do ano litúrgico (Quaresma). Subsídios preparados para formação litúrgica.

CENTRO DE LITURGIA. Ano Litúrgico como realidade simbólico-sacramental. São Paulo: Paulus, 2002 (Coleção Cadernos de Liturgia nº 11).

COSTA, Valeriano Santos. A Liturgia na Iniciação Cristã. São Paulo: LTR, 2008.

MALDONADO, Luiz. A ação litúrgica, sacramento e celebração. São Paulo: Paulus, 1998.

RAHNER, Karl. El ano litúrgico, meditaciones breves. Barcelona: Herder, 2 edição, 1968.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

CDL Musical aconteceu em Araçatuba - SP

Em sua 4ª edição, aconteceu em Araçatuba, no Centro Diocesano de Pastoral, interior de São Paulo, o CDL Musical. Cerca de 60 jovens de várias dioceses de São Paulo participaram deste Curso de Dinâmica para Líderes, motivados pela música e pela arte. Promovido pela Pastoral da Juventude (PJ) paulista e pelo CCJ (Centro de Capacitação da Juventude), segundo os organizadores do CDL, este curso tem como objetivos:


1. Destacar a música como parte de um conteúdo formativo, procurando, dentre o repertório sugerido, conjugar melodia e texto, pois, a música traz a memória de algo concreto, objetivo;

2. Resgatar e fortalecer, através da música, características específicas da Pastoral da Juventude, como por exemplo, a valorização da vida, o Deus no qual se acredita, dentre outras especificas da PJ;

3. Estabelecer critérios para a escolha correta da música de cunho pastoral, objetivando-a no trabalho pastoral, a fim de que se tenha em mente que a música sempre acompanha as atividades pastorais, além das celebrações litúrgicas;

4. Superar a superficialidade e o sentimentalismo que permeiam certos tipos de repertório, características que, muitas vezes, se encontram presentes e supervalorizadas em certas músicas, sobressaindo em suas letras a imagem de um “eu” intimista e um Deus que não se mostra nas relações comunitárias do agir pastoral;

5. Mostrar o Ofício Divino da Juventude (ODJ) como possibilidade de material que possibilite um encontro orante, levando os participantes a usufruírem não de uma espiritualidade qualquer, mas de uma espiritualidade libertadora;

6. Ativar trocas de experiências entre dioceses e paróquias, comunidades e realidades pastorais ligadas à Pastoral da Juventude;

7. Capacitar multiplicadores para o trabalho pastoral no grupo de jovens, abrindo possibilidades de integração na equipe do CDL musical;

8. Despertar nos participantes o gosto pela arte, pela palavra, pela música, pela dança, elementos que circundam as realidades juvenis e que são carregados de conceitos formativos.

Logo no primeiro dia os participantes, através de uma dinâmica de integração, foram apresentados entre si, momento em que puderam contemplar as realidades presentes. Encerrou-se esta primeira noite com a oração de Taizé, um estilo de rezar intermediado por refrãos orantes cantados, cuja repetição contemplativa ajuda os orantes a penetrar na palavra, na melodia.

O curso teve seu momento de partilha significativa no dia seguinte. Edina, especialista em adolescência e juventude da CAJU (Casa da Juventude – GO), introduziu os participantes num processo de integração entre música e juventude, apresentando dados oficiais com relação à juventude, ao mesmo tempo indagando como a música midiática influencia no modo comportamental da juventude. Dados estatísticos foram apresentados e constatou-se que um pouco mais de 25% da população brasileira, cerca de 51,7 milhões, é formada por jovens. Também há de se levar em consideração que quando se quer falar de juventude, diferentes leituras devem ser abordadas: biológica (com relação à faixa etária, por exemplo), cultural, sociológica, jurídica, teológica e psicológica. É a partir dessas leituras que se produz toda uma musicalidade que se despeja na forma das mais variadas mídias para a juventude consumir. Logo, há um direcionamento pensado midiaticamente para que se maquine uma cadeia de produtos destinados a essa faixa da vida, a juventude. O produto mercantil juvenil é altamente rentável e lucrativo. Todavia, necessário se faz olhar para essa forma de consumir, o que às vezes se torna doentio, mas desnecessário, supérfluo, e que se retome a consciência disso.

No campo musical, por exemplo, pergunta-se: qual música representa de fato a juventude? Muitas respostas entram nesse rol de apresentações, por isso, também se constatou que, para cada tribo jovem, um certo de tipo de consumo musical. O jovem Vitor Hugo, capacitador e assessor do curso, chamou a atenção dos participantes para isso, mostrando que é urgente e necessário se pensar nas escolhas comportamentais e musicais que norteiam nossas vidas, de tal modo que, a partir delas, podemos ganhar ou perder.

Nesse sentido, a musicalidade que se quer resgatar, num curso desse porte, é aquela em que possua traços de uma boa espiritualidade, genuinamente pastoral e ao mesmo tempo que permita os jovens saborearem as possibilidades de conviverem em comunidades, e não em tribos.

Vitor também considera que a arte é revolucionária, sobretudo porque é uma via que deve ser levada em consideração e que, dentre as mais variadas formas de arte, está a música. Esta música que é buscada e “resgatada”, segundo Vitor, é uma música com conteúdo libertador e não intimista ou individualista, uma música que transcenda a realidade e faz com que a juventude se encaminhe para um agir pastoral, em conjunto, em comunhão com outros jovens, com outras realidades, com a Igreja em que está inserido e com o meio.

Neste mesmo dia os participantes puderam optar por participar de diversas oficinas que aconteciam simultaneamente em espaços preparados. Foram ofertadas oficinas de ritmo, mística e espiritualidade, música e poesia, confecção de instrumentos, dança popular e canto e técnica vocal. Vários assessores contribuíram para a elaboração dessas oficinas na parte da manhã e na parte da tarde. Eu pude ter o prazer de ministrar a oficina da palavra e poesia. Esta oficina teve como objetivo procurar, de forma prática e explicativa, inserir os participantes na construção das formas de poesia, usando recursos técnico-didáticos, colaborando com definições e exemplos presentes na musicalidade brasileira, produzindo textos poéticos, e avaliando os resultados obtidos.

Logo à noitinha, num plenário, os resultados das oficinas puderam ser vistos e contemplados, pois cada grupo e assessor apresentou de forma prática e breve uma pequena mostra do que foi o trabalho realizado ao longo do dia.

Tendo em vista o conteúdo do dia, a proposta sugerida pelos condutores do curso era a de que nessa noite de sábado houvesse uma festa, tipo aquelas do estilo judaico, realizadas em tendas. As tendas foram montadas e preparadas com o próprio conteúdo originado das oficinas e com diversos participantes previamente inscritos. Tamanha foi a criatividade, a beleza e as características individuais das tendas que os participantes puderam vislumbrar no coletivo e de forma lúdica algo que completasse aquela formação que tiveram ao longo do dia. A festa das tendas foi encerrada com uma grande partilha de alimentos, música e dança.

No domingo, os mesmos participantes puderam preparar juntos a celebração litúrgica. Vários assessores ajudaram os participantes neste processo, já que o exercício coletivo de se preocupar com a liturgia é fator preponderante também nos grupos jovens. Eles anseiam por uma liturgia orante, na qual, aos seus moldes, podem reverenciar o mistério pascal também acontecendo em suas vidas. O curso teve seu fim no domingo, com a missa de encerramento presidida por Pe. Edgar, presente no curso em tempo integral e uma avaliação.

Taí uma experiência muito positiva e motivadora para aqueles que desejam trabalhar e formar jovens ou grupos de jovens, seja nas comunidades, paróquias ou dioceses. O CDL musical vem confirmar a real necessidade de um trabalho que liga arte e vida, de um jeito inovador, articulando a Pastoral da Juventude e a construção do conhecimento em mutirão, aplicado na vida e na missão eclesial. Vale a pena investir nisso.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Escola de Liturgia para jovens acontece em Joaçaba, SC

Entre os dias 14 e 23 de janeiro, em Joaçaba, aconteceu a 1ª Escola de liturgia para jovens. Motivados pela formação e pela vivência da espiritualidade litúrgica, reuniram-se aproximadamente 50 jovens de Santa Catarina, de outros estados brasileiros e um jovem do Paraguai.


Apropriando-se de uma metodologia específica, quatro assessores conduziram os jovens a mergulhar na espiritualidade litúrgica: Édina Cardoso (Casa de Juventude – CAJU, GO); Ir. Penha Carpanedo (Liturgista, SP); Pe. Mirim Borges (Liturgista, MG) e Euri Ferreira (Teólogo e músico, SP).

Essa escola mostrou aos jovens novas perspectivas para a ação litúrgica de nossas comunidades e paróquias, compreendendo que a liturgia como fonte e cume de toda a ação da Igreja deve ser vivida com todo seu significado, e percebendo nela um sentido, no qual o simbólico transporta a comunidade celebrante para uma realidade divina.

Objetivos específicos da Escola de Liturgia para jovens:

•Levar a uma experiência de participação litúrgica como fonte de revigoramento da fé e do testemunho;

•Proporcionar o aprofundamento da liturgia na dimensão teológica, espiritual, ritual e pastoral;

•Capacitar para a animação da celebração dominical;

•Buscar uma forma celebrativa orante, jovem e inculturada.

Liturgia e oração, itinerário de uma espiritualidade

Durante a escola, os jovens puderam ter contato com a Liturgia das Horas, também chamada de Ofício Divino. Esta oração que pertence a todo povo de Deus tem suas origens no povo judeu, que ora pela manhã, ao meio-dia e à tarde, elevando o louvor ao Deus da vida. Jesus, sendo judeu, apropriou-se desse jeito de orar ao Pai, com os salmos, a própria Palavra de Deus. As primeiras comunidades cristãs permaneceram nessa tradição a partir da ressurreição de Jesus, associando o fato de rezar pela manhã a Jesus, o sol que nasce e ressuscita, e à tarde, o sol que declina, o mesmo Jesus que sofre com sua paixão.

Atendendendo a uma solicitação da própria constituição conciliar, a Sacrosanctum Concílium, o Ofício Divino, na década de 1980, foi inculturado, isto é, simplificado, o que pode facilitar e devolver às comunidades mais simples um jeito próprio de se rezar, com suas culturas e suas poesias, sua musicalidade e seu jeito de falar.

Pe. Geraldo Leite, já falecido, foi o grande pioneiro nesse processo de inculturação, adequando os salmos pertencentes à Liturgia das Horas a uma linguagem mais popular, com poesia, rima e musicalidade próprias do povo mais simples, já que exercia seu ministério numa comunidade de povo simples e semi-analfabetos. Tal foi a aceitação desse jeito de rezar que, progressivamente, o povo ia se apropriando de uma linguagem própria de falar com Deus, através dos Salmos musicados pelo próprio Pe. Geraldo Leite, dentre outros compositores litúrgicos.

Hoje, muitas comunidades rezam o Ofício Divino, muitos até o utilizam como oração no Dia do Senhor, o Domingo, já que mais de 75% das comunidades no Brasil não têm Eucaristia. É então o Ofício Divino, com seus hinos e salmos, com seus cânticos e preces, que sustenta essas comunidades a seguirem, sendo Igreja, sustentadas pela própria Palavra de Deus.

Outras versões do Ofício Divino foram sendo preparadas e consagradas ao povo, devido a necessidade de um novo jeito de rezar inspirado nas primeiras comunidades cristãs e na tradição da Igreja que tem suas raízes do judaísmo. Surgiram então o Ofício da Juventude e das Crianças e Adolescentes. Na Escola de Liturgia para jovens em Joaçaba, SC, os jovens puderam ter contato com o Ofício Divino da Juventude, rezando sempre duas vezes ao dia, pela manhã e pela tarde, num dia ou outro rezando no término da noite as chamadas “completas”. Foi significativo ver como a juventude consegue rapidamente se empodeirar de um jeito simples de rezar. A seriedade com que se empenharam nesta oração, preparando-se para os diversos ministérios da presidência e da Palavra que requeirem o Ofício Divino, mostra a clareza na fé de uma juventude que sempre busca nas fontes alimento para sua espiritualidade. O Ofício Divino traz em seu bojo essa marca.

Depoimentos:

No decorrer da Escola de Liturgia para jovens perguntamos a três participantes o que acharam desse novo jeito de rezar e de compreender a liturgia como fonte de espiritualidade e força sacramental, alimentando a vida cristã. Veja abaixo seus depoimentos:

Hilton, jovem seminarista, e estudioso dos
assuntos de liturgia
O jovem seminarista da cidade Caçador-SC, Hilton Wzorek, 17 anos, vivendo a experiência de oração com um jeito jovem, afirma que “a noção de voltar às fontes das comunidades primitivas, sugerida pelo Concílio Vaticano II, em que devolve ao povo aquilo que sempre lhe pertenceu, já que por muitos anos o Ofício Divino permaneceu na mão dos padres e monges, vem recheada de uma espiritualidade, pois no Ofício Divino a juventude busca viver uma nova forma de espiritualidade que possa atingir sua vida, que fale de seus anseios e seus temas”. “Não apenas simplesmente como uma mudança de rito, mas como um olhar novo, re-significando o verdadeiro sentido da Liturgia das Horas”, continua Hilton. Para o jovem seminarista, que está no período do propedêutico, no seminário diocesano de Caçador/SC, “experimentando esse jeito novo de rezar com simplicidade, junto a outros jovens de SC, rezar o Ofício Divino faz tocar a profundeza, nesta oração se encontra um estilo que nos faz formar uma espiritualidade, estilo esse que é próprio de Deus, que é beleza, traduzida tão genuinamente pela juventude”. Perguntamos a Hilton o que o Ofício pode provocar na juventude, o que ele afirmou que “a juventude desperta o querer ser Igreja, de participar dessa mesma Igreja, de querer constituir uma espiritualidade, seja nos grupos, seja nas comunidades, mas cada qual ao seu jeito, à sua maneira, com seu rosto específico. Rezando o Ofício a juventude vai beber desse jeito de rezar, o que dá ânimo para ir em frente, seguindo sempre”.

Vinícius, à direita, e Carlos, do Paraguay,
participantes da Escola de Liturgia
para jovens
O jovem Vinicius, estudante universitário do interior do Estado de Santa Catarina, gostou da experiência de ter rezado o Ofício Divino da Juventude. Para ele, se trata de fazer uma experiência muito bonita, que lhe contagiou, de fato, “o Ofício Divino possui uma maneira simples de rezar, em que todos podem fazer”, afirma Vinicius. Dentre as partes da oração, Vinicius diz que o que mais lhe tocou foi a abertura cantada, sobretudo quando quem preside se levanta, e começa a melodia, tocando no mais fundo de quem participa, pois melodia unida à palavra toca mais na gente”. Vinicius acha que todos os participantes da escola de liturgia para a juventude estão gostando da experiência, sempre com vontade de se inteirar, querendo aprender como fazer melhor, pois sentem vontade de fazer do mesmo jeito em sus grupos, em suas comunidades, já que todos vieram com muita sede de rezar e aprender, sempre aprimorando-se.


Iva, na celebração do Ofício
Divino da Juventude
 Ivanete Hammes, jovem da diocese de Chapecó, contribui na liturgia com a música e a Palavra e disse que a vivência do Ofício Divino da juventude é o que faltava, pois já tem experiência de rezá-lo em sua comunidade. Com relação aos estudos e vivências desenvolvidos nos dez dias da escola, afirma: ”nós não sabíamos muitas vezes o que estávamos celebrando, agora é que viemos entender e aprofundar isso; trata-se de uma experiência mais profunda que é manifestada na oração, na palavra e na Eucaristia”. Para Ivanete, o que mais lhe encatou na escola de liturgia para jovens foi “compreender a beleza de celebrar a vida, que acontece mesmo na simplicidade de nossos dias”. Ela, como outros jovens, se sente provocada por um encatamento pelo projeto de Jesus, pelo seu jeito, para o compromisso com o Reino “a liturgia aponta para esse compromisso”, afirma.


D. Manoel, bispo de Chapecó, SC, esteve
presente durante os 10 dias da Escola
 Entrevista com D. Manoel – Bispo de Chapecó, SC

D. Manoel, bispo de Chapecó, que esteve presente o tempo todo durante os dez dias da escola, me concedeu uma entrevista. Acompanhe abaixo o que o bispo referencial da Liturgia no Regional Sul 4 e ex-presidente da Comissão Episcopal para a Liturgia da CNBB, diz sobre o engajamento da juventude no aprofundamento e no estudo da liturgia como fonte de espiritualidade:

- D. Manoel, o senhor como bispo da Diocese de Chapecó, qual foi a sua perspectiva, e, na sua opinião o que o motivou a iniciar um processo de formação litúrgica para os jovens pensada em forma de uma escola?

Essa escola de liturgia para a juventude em Joaçaba, por acaso acontece em Joaçaba, mas estava programado para acontecer em Taió, cidade do Estado de Santa Catarina. Na verdade, a escola é promoção da Pastoral da Juventude (PJ) ou das PJs do Estado de Santa Catarina, do Regional Sul 4. Isso era um desejo meu, pessoal, há muito tempo. De repente ela acontece sem a minha interferência, quando o Rodrigo vem e diz que já está até encaminhada, e eu fiquei muito feliz com isso, e enquanto bispo referencial da Comissão de Liturgia no Regional Sul 4, naturalmente dei apoio imediato. Essa escola, portanto, está acontecendo como parceria da Comissão de Liturgia do Regional Sul 4 com a PJ do Regional Sul 4. Naturalmente, eu fico muito feliz porque eu sei da história do movimento litúrgico, fora do Brasil, lá no final do século XIX, começo do século XX, e aqui no Brasil já desde o começo século XX, que começou com jovens, tanto na Europa como aqui no Brasil. E nós, agora, no mundo inteiro e também no Brasil, nós estamos passando por uma situação que alguns teólogos e alguns pastoralistas dizem denominam de inverno na Igreja, e também de inverno na liturgia. E eu espero que esse inverno passe o quanto antes e a primavera logo aconteça, e essa primavera só vai acontecer à medida que os jovens se apaixonarem, como um deles até falou, pela liturgia. Eu sinto esse grupo aqui muito empenhado, muito disposto, são representantes de diversas dioceses do Estado e penso que eles vão para suas dioceses, vão fermentar, e em breve, se Deus quiser, aqui, no nosso Estado, a liturgia vai tomar um vigor muito grande.

- Então, o senhor acredita que o protagonismo da juventude na PJ possa ser uma esperança para esse engajamento litúrgico, e essa esperança de que se passe esse inverno e de que se chegue a um verão ou a uma primavera litúrgica possa ser alcançada através da juventude?

Eu acredito sim que através das PJs, mas dos jovens em geral, porque também tem os jovens de outros movimentos e pastorais da Igreja, que querem também ser Igreja, e desde que esses jovens sejam bem orientados, e também os dos movimentos, pois na minha opinião os jovens desses movimentos liturgicamente não são bem orientados, como como os da PJ também, até o momento. Agora é que começa a ter uma orientação um pouco mais fundamentada, mais consistente. Por isso penso que a juventude é a esperança da Igreja, então precisamos investir nos jovens, tantos nos engajados nas PJs quanto os jovens engajados nos movimentos e pastorais da Igreja.

- Um recado final que o senhor gostaria de falar aos jovens do Brasil, aos da Pastoral da Juventude, principalmente aos jovens engajados na Igreja e aos jovens cristãos católicos.

Gostaria de dizer aos jovens em relação à liturgia que, se eu quero transformar a minha vida de cristão e de cristão católico, eu devo começar a cultivar dentro de mim uma espiritualidade litúrgica. E se eu quero transformar uma comunidade, uma paróquia, uma diocese, e mesmo a Igreja, eu devo começar pela liturgia. Foi assim que o Concílio Vaticano II se propôs. E o primeiro documento do CV II é o documento sobre liturgia, e a primeira frase desse documento coloca os quatro objetivos do próprio Concílio, sendo dois ad extra e dois ad intra. Depois de colocar esses quatro objetivos, diz: “por isso nós resolvemos começar pela reforma litúrgica”, ora, a reforma litúrgica é que vai dar início, vai deslanchar toda uma reforma da Igreja inteira, assim pensaram os bispos no CV II, que eram praticamente 3 mil. E faz parte de nossa fé católica, que quando os bispos estão reunidos em concílio, sob a presidência do papa, tem uma assistência especial do Espírito Santo. Sempre a Igreja é guiada pelo Espírito Santo, mas com essa assistência especial do Espírito Santo os bispos começaram pela liturgia para a reforma de toda a Igreja. Por isso, também nós, ao meu modo de ver, se queremos começar com a nossa mudança pessoal, a nossa conversão pessoal, e depois do nosso meio ambiente, devemos assumir uma espiritualidade embasada e alimentada pela liturgia.

Relação mistério e corpo na liturgia, pela inteireza do ser

Eurivaldo Silva Ferreira


Na liturgia, que é a celebração do mistério de Cristo, a participação ativa, plena, consciente e frutuosa, de que fala a Sacrosanctum Concilum, nos remete a um quê de característica que perpassa os nossos conhecimentos extrassensoriais. É preciso que se tenha em mente que é o corpo que se apropria desses mecanismos e “se lança” nessa participação.

Não se trata de uma síntese automática, que se dá por impulso de um ou outro elemento externo, assim como acontece quando ligamos um aparelho eletrodoméstico à tomada. Parte-se da experiência vivida e acompanhada através de um processo de integração com o todo, com o ambiente, com o espaço, com a natureza, com o universo, com o cosmos. Ser humano, homem e mulher, participam ativamente da vida do mundo no qual estão inseridos. Sem dúvida, não “exploram” esse mundo sem antes conhecê-lo, seja pelo aspecto de apropriação, seja pelo aspecto de investigação, a fim de que dele possa aproveitar e usufruir o máximo possível.

É a partir desse horizonte que mergulhamos no fazer liturgia, do celebrar a liturgia. Como se dá isso? Nossos corpos aceitam a possível proposta de que eles participam da natureza pela qual a liturgia é destinada, o louvor a Deus e a glorificação de nossos corpos, seres humanos animados pelo Espírito que em nós habita, reunidos em assembleia. Nesta assembleia, o mistério que é revelado pela ação ritual, exige de nós uma compreensão do todo. Isto é, não apenas compreendemos parte do mistério pela admissão racional, pelo lado intelectual, mas trata-se de dizer que boa parte da compreensão mistérica adentra nossos poros, nossos sentidos, penetra nossos ossos, vai até as entranhas dos nossos órgãos. Isso só acontece quando entramos com inteireza na ação ritual.

Estar inteiro compreende que corpo, mente e coração estão plenos de sua capacidade laudativa de entrar em sintonia com o mistério. Então estar inteiro é estar em sintonia. Não se trata apenas de dizer: meu corpo está aqui, mas se ele não tiver com suas potencialidades ativadas para a esperada participação que resulta numa atitude de frutuosidade para a vida de quem celebra e para a vida do mundo, de nada valerá a presença física no espaço celebrativo. De fato, quando o corpo toma consciência, através de elementos cognitivos ou de elementos extra-sensoriais, aí acontece a inteireza do ser, justamente porque é necessário que o mistério que se é agradado através da súplica e do louvor, possa reconhecer na dimensão da corporeidade a experiência da criatura criada.

Na dimensão da prece e da súplica, o corpo, ser criado, almeja que seu criador o escute, mas não basta uma escuta física, como a que tomamos no nosso aparelho auditivo. É necessário reportar a escuta da divindade para o âmbito extra-celebrativo. Nesta escuta, em que ambos se recordam de que um dia firmaram um acordo, define-se um diálogo sobre o qual se estabelecem condições para a garantia desse acordo. Foi assim que aconteceu com os povos antepassados, em que Deus, querendo se comunicar e também escutar, firmou uma Aliança, estabelecendo uma relação de amorosidade para com estes povos.

É nesse contexto de Aliança que fazemos memória, como fato continuador do acordo feito entre Deus e seu povo, contado por inúmeras vezes na Sagrada Escritura. Só com essa memória é que conseguimos colocar em atitude de espera aquela alegria que nos é aguardada na vinda do Reino.

No entanto, apesar da conjuntura eclesial em que nos encontramos, é necessário a interrogação. De fato, no contexto celebrativo de nossas igrejas e comunidades, perguntamos o que é celebrar, o que celebramos, como nossos corpos celebram, estamos inteiros nas celebrações? Como nossos ritos nos ajudam na compreensão da corporeidade? Nossos corpos conjugam ritualidade e corporeidade, em sintonia?

Há um mistério que vamos desvelando através de ritos, os quais nos vão envolvendo, e nós vamos assimilando. São nossos corpos que participam desses ritos, não há outro jeito. O rito nos possibilita entrar em contato com a divindade, no nosso caso o Deus amoroso, Pai e Mãe de bondade que nos dá Jesus, como Filho, no qual nos aponta para a esperança do Reino vivido e desejado por seu Pai. Com toda plenitude, nós fazemos isso na celebração eucarística, fazendo memória da ceia de Jesus. Na memória ritual nós comemos e bebemos, eis o sentido que faz com que nossa corporeidade compreenda e adentre a ação ritual, o paladar. Este é apenas um exemplo, podemos explorar outro mais, a escuta da Palavra, por exemplo.

Assim, quando respondemos a aclamação memorial que se encontra no centro da oração eucarística, ao proclamarmos este mistério da fé, estamos impulsionando nossos corpos na dimensão do futuro, do que há de vir, ao mesmo tempo que fazemos memória daquilo que aconteceu. Essa memória é feita no hoje de nossa existência, de nossas vidas, entremeadas de debilidades e angústias, de sonhos e esperanças, de alegrias e tristezas (Gaudium et Spes), todos esses sentimentos nós os carregamos em nossos corpos.

A exploração dos ritos através de nossas capacidades corporais é o que delineia nossas celebrações. Não só o racional entra nessa exploração, mas somos introduzidos na compreensão ritual, teológica e espiritual, características das quais se atribui o rito. Sem nossos corpos de nada valeria o rito, ficaria apenas no racional, no imaginário de nossas elucubrações. Afinal, de que valeria celebrarmos se não estivéssemos inteiros, se não fôssemos dotados de corporeidade?