segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Advento da Igreja: desejo de estado permanente de salvação

(comentário a partir das aulas de Eclesiologia, do querido Prof. Donizete,
na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção – SP)

Eurivaldo Silva Ferreira
 
Introdução
A Igreja, a reunião do povo de Deus, assim chamada pelo Concílio Vaticano II, foi constituída para ser Sacramento Universal de Salvação, desta característica emana sua índole, sua unidade e sua catolicidade. É sob esse signo que ela se ocupa principalmente em anunciar o Evangelho a todos os povos, logo quem salva é a Palavra, o Verbo mesmo feito carne, e não a Igreja. Sua índole missionária tem como princípio a missão do Filho e do Espírito (Lumen Gentium, 1): a de fazer-se chegar aos confins da terra, consequentemente, fazendo chegar a Palavra de Deus, que a todos quer salvar.
Pensando que o constante estado de salvação é vivido em todo o tempo pela Igreja, ensejamos nesse artigo dar pistas para contribuir na reflexão da índole missionária da Igreja, apontando para seu estado permanente de espera pela salvação, ou seja, uma Igreja que vive um constante Advento só pode contribuir para uma realização plena de salvação do ser humano.

1. A salvação na Igreja a partir do aspecto cristológico
O critério para a constituição de que a Igreja seja sacramento universal de salvação é primariamente perguntarmos a partir da hermenêutica teológica. Sacramento é apontado no Concílio Vaticano II como uma perspectiva hermenêutica teológica, buscando uma interpretação de relação com o próprio mistério salvífico de Cristo, que tem tudo a ver com o objeto de nosso estudo. Logo, a primeira ideia é a de que Cristo é o Salvador. Ora, se Cristo é o Salvador, como é que acontece essa realidade salvífica? Como se dá essa salvação em Jesus?
Evidentemente nós compreendemos que ela se dá pelo fato de que aquele que é Deus tenha se feito homem (natal de Jesus). Ora, se esse mistério da encarnação é fundamental, logo, na encarnação já está presente a forma, a maneira como Deus nos salva. Por isso, a encarnação já está marcada por uma dimensão pascal. Na encarnação encontramos Deus-homem, logo a condição humana está assumida por Deus. Então, sua humanidade é critério fundante para nós entendermos o aspecto salvífico, pois a natureza humana está assumida pelo próprio Deus. Chamamos isso de dimensão cristológica. Pela condescendência do Filho nós encontramos esse aspecto de salvação.

2. A salvação na Igreja opera a partir do Espírito para a realização do Reino
Do ponto de vista da Igreja, precisamos aplicar outra realidade, que chamaremos de aspecto pneumático. Esse aspecto é considerado pela condescendência do Espírito, que cria, consequentemente gerando a própria realidade da Igreja, pois a Igreja é também desejo do Espírito, constituindo-a como corpo. Por isso a afirmação de que a Igreja é dom pentecostal, já que sua constituição é da ordem do Espírito.
No capítulo de 16 de Marcos encontramos a expressão de Jesus “ide e fazei todos meus discípulos”. Essa expressão é idealizada no chamado da Igreja para realizar a obra da salvação operada por Deus na pessoa do próprio Jesus. Sua missão é a de que o Reino de Deus seja instaurado no mundo. De fato, o desejo único da Igreja é um estado permanente de Advento: que venha o Reino de Deus! (cf. Ad Gentes). Logo, a missão da Igreja é fazer com que o Reino aconteça, isto é, se instaure verdadeiramente, no aqui e agora de nossas realidades, noutro modo de dizer, no “chão da vida” da existência humana, com suas mazelas e seus sofrimentos. A Igreja também tem por missão a edificação do Reino de Deus. Logo, o Reino de Deus é maior que a Igreja, por isso cresce como germe no próprio mundo.

3. Salvação pela Palavra de Deus
A Igreja se apropria então da própria Palavra de Deus para realizar seu intento, e dela se faz portadora, anunciando tudo o quanto foi nela escrito, desde o Antigo Testamento até o Novo Testamento, por inspiração divina, a fim de que todos cheguem à salvação. O nº 15 da Dei Verbum afirma que a “economia” do Antigo Testamento destinava-se, sobretudo, a preparar, a anunciar profeticamente (cf. Lc 24,44; Jo 5,39; 1Pd 1,10) e a simbolizar com várias figuras (cf. 1Cor 10,11) o advento de Cristo, redentor universal, e o do reino messiânico. Mas os livros do Antigo Testamento, segundo a condição do gênero humano antes do tempo da salvação estabelecido por Cristo, manifestam a todos o conhecimento de Deus e do ser humano, e o modo com que Deus justo e misericordioso trata as pessoas.
A Dei Verbum afirma que é nessa condição de imperfeição, isto é, de errância humana, que se revela, sobretudo, a pedagogia divina. Nessa pedagogia, a Palavra de Deus é sabedoria que conduz a vida humana, dando-lhe um sentido para sua existência. Importante a afirmação da Dei Verbum que diz que na Palavra de Deus também está contido o grito do povo que, em prece, suplicava por libertação. Logicamente aí está latente o mistério da nossa salvação.

4. Mistério da Palavra, mistério do Reino
Neste mistério de salvação da Igreja está também presente o mistério trinitário. É o que afirmam S. Cipriano, Santo Agostinho e São João Damasceno.
O nº 5 da Lumen Gentium diz que o mistério da Igreja manifesta-se na sua fundação. Foi Jesus mesmo quem deu início à Igreja pregando a boa nova do advento do Reino de Deus prometido desde há séculos nas Escrituras: “cumpriu-se o tempo, o Reino de Deus está próximo” (cf. Mc 1,15; cf. Mt 4,17). Este Reino manifesta-se na palavra, nas obras e na presença de Cristo, também por livre vontade do Pai que deixou que o Filho fosse conduzido pela força de seu amor para realizar esse intento.
A Palavra do Senhor compara a presença do Reino à semente lançada ao campo (cf. Mc 4,14): aqueles que a ouvem com fé e entram a fazer parte do pequeno rebanho de Cristo (cf. Lc 12,32), já receberam o Reino; depois, por força própria, a semente germina e cresce até ao tempo da messe (cf. Mc 4,26-29). Também os milagres de Jesus comprovam que já chegou à terra o Reino: “Se lanço fora os demônios com o poder de Deus, é que chegou a vós o Reino de Deus” (cf. Lc 11,20; cf. Mt 12,28). Mas este Reino manifesta-se, sobretudo, na própria pessoa de Cristo, Filho de Deus e Filho do homem, que veio “para servir e dar a sua vida em redenção por muitos” (cf. Mt 10,45).

5. Mistério do Reino presente na Igreja
Por esta força operante em Jesus, é que qualificamos como mistério trinitário na realização do Reino. O texto de Lumen Gentium 5 nos ajuda neste entendimento quando afirma que Jesus mesmo, depois de ter sofrido sua morte, ressuscitou e apareceu como Senhor e Cristo, feito sacerdote eterno, derramando sobre os discípulos o Espírito por ele mesmo prometido como dom do Pai. Por isso é que a Igreja, enriquecendo-se com a força de Jesus, que a envolve na caridade, recebe a missão de anunciar e instaurar o Reino de Cristo e de Deus em todos os povos e constitui o germe e o princípio deste mesmo Reino na terra. A Igreja, enquanto vai crescendo sob seu aspecto qualitativo, ao passo que vai anunciando o Evangelho, suspira pela consumação do Reino e espera e deseja juntar-se ao seu Rei na glória.
Claro que podemos ver já na Igreja terrestre a imagem deste Reino, pois ela aponta para o reino celeste, como sinal dele. Ao mesmo tempo também vemos a imagem da Igreja como aquela que espera ansiosa pela vinda do Senhor, esperando realizar em si mesma aquilo que espera para todos. O nº 48 da Lumen Gentium diz que este Reino já chegou, pois, a nós, a plenitude dos tempos (cf 1Cor 10,11), a restauração do mundo foi já realizada irrevogavelmente e, de certo modo, encontra-se já antecipada neste mundo: com efeito, ainda aqui na terra, a Igreja está envolvida de verdadeira, embora imperfeita, santidade. Em outras palavras, podemos dizer que a Igreja vive uma espécie de tensão entre “já e ainda não”. Perfazendo esse caminho de imperfeição, a Igreja peregrina, com os sacramentos e suas instituições, que são da ordem temporal, e por isso leva a imagem passageira deste mundo e vive no meio das criaturas que gemem e sofrem as dores de parto, esperando a manifestação dos filhos de Deus (cf. Rm 8,19-22).
Concluindo
Esperamos que neste Advento possamos ser como Igreja, povo de Deus, portadores da boa nova do Reino de Jesus. Que nossas celebrações levem-nos a um verdadeiro compromisso da edificação de seu Reino entre nós! A feliz expectativa do Reino seja o motivo para celebrarmos o Cristo que vem.

Advento como chave de uma esperança para um mundo melhor: o projeto cósmico de Deus

(A partir das aulas de Escatologia, do querido Prof. Reynold Blank, na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção – SP)
Eurivaldo Silva Ferreira

Incertezas e esperança perdida
Vivemos sob a exposição das características de um mundo pós-moderno que perdeu o sentido da esperança. As pessoas perderam a esperança e sua grande utopia desmoronou. Tudo aquilo que vinha marcando o imaginário de muitas gerações, desmoronou.

Esse ideal, presente no imaginário popular, foi pensando e maquinado sob o impacto de sistemas de governo que impunham em seus discursos o sonho de um dia em reatar a esperança das sociedades. Assim aconteceu com o modelo do comunismo, do socialismo, das ditaduras etc. Todos eles prometeram resolver os problemas das pessoas, e que iriam “repartir o bolo”, e todos viverem melhor numa sociedade capitalista, mas sobre o impacto de um neo-capitalismo, a partir de uma de uma busca, de um lucro a qualquer preço, sobremaneira. A grande utopia de um iluminismo, “iluminado” pelos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, também evaporou.
Num dado momento, também para os cristãos e católicos, restou a grande utopia de uma Igreja de comunhão e participação, sob o impacto de um neoconservadorismo, de um neocentralismo, que de novo vê-se subindo ao poder eclesial. No mundo católico, vê-se também que o ideal de comunhão-participação, já pensado em Medellín, vai por água abaixo.
A partir desta constatação e sob esse pano de fundo, é que o tempo do Advento nos coloca como cenário o propósito de Deus ao ser solidário com o homem, com a mulher, participando também de suas angústias e sofrimentos. Neste tempo, extraindo seu conteúdo espiritual, fica nítida a ideia de que Deus formulou uma base para esse mundo.
Quando se fala de Deus, um primeiro problema, para a maioria dos cristãos, está em dirigir o olhar para o passado. Como se diz na música: um “flash-back”... Fala-se de um Deus que se revelou dois mil anos atrás em Jesus Cristo. Fala-se de um Deus que fez isso e aquilo há tempos atrás. Para um grande número de cristãos, o que importa é manter essa tradição, do Deus que fez tudo. Embora essa linha de raciocínio tenha se desvirtuado, passando o “faz tudo” como a grande expressão mágica do momento. A ideia de que Deus é um mago (que faz mágicas) circunda todas as propostas de encontro com o divino. Infelizmente o mundo cristão católico também está entrando nessa.
Consideremos que é importante também olhar para o passado, para a tradição, mas o perigo é que se fique somente no passado. O que é importante é que Deus sempre se revelou no passado, orientado para o futuro, idealizando e formulando projetos que se realizarão no futuro. É exatamente num contexto de passado que Deus chama a sair de situações cimentadas, fixadas e a começar uma caminhada rumo a novos horizontes.
O profeta Isaías, nos ciclos litúrgicos dominicais dos Anos A e B, vem dizendo isso durante todo o Tempo do Advento e se estende ao Tempo do Natal. A história de Abraão, por exemplo, é exemplar como a de uma história para um futuro que ainda não começou. Então concluímos que Deus é um Deus orientado para um futuro. É no futuro que se vai realizar o escathom, o projeto final, seja no ser humano, seja no cosmos. Esse pensamento ainda não morreu, mas é no futuro que se vai abrir para nós os nomes tradicionais que conhecemos, dentre eles a esperança. É no futuro que o que Deus imagina para esse cosmos, se vai realizar, na concretude seu Reino.
Na afirmação de que Deus é Deus no futuro, nós todos temos uma tarefa, a de sermos instrumentos desse Deus, através dos quais ele mesmo vai realizar esse projeto de futuro. É através de nós que ele vai realizar isso, assim como realizou muitas coisas tempos atrás por meio de juízes, patriarcas, reis e profetas. Seria tão bom se Deus agisse de forma mágica, e nós ficássemos sentados, nos “engordando” espiritualmente. Há muitos que ainda pensam assim. Só que Deus não faz, ele mesmo diz: façam vocês, vocês são capazes. Nós estamos envolvidos nisso, pois não somos simples observadores.
O Tempo do Advento nos faz mergulharmos nesta mística de participantes do projeto futuro de Deus, na esperança da firme certeza da realização de seu Reino entre nós, quando da irrupção de sua vontade, como num treinamento para o que realizar-se-á na parusia, no final dos tempos.