quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Carta aos agentes de música litúrgica do Brasil


Brasília-DF, 25 de setembro de 2008
ML – C – Nº 0845/08


A liturgia ocupa um lugar central em toda a ação evangelizadora da Igreja. Ela é o “cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana toda a sua força” (SC 10). Nela, o discípulo realiza o mais íntimo encontro com seu Senhor e dela recebe a motivação e a força máximas para a sua missão na Igreja e no mundo (cf. DGAE nº 67).

Há uma relação muito profunda entre beleza e liturgia. Beleza não como mero esteticismo, mas como modalidade pela qual a verdade do amor de Deus em Cristo nos alcança, fascina e arrebata, fazendo-nos sair de nós mesmos e atraindo-nos assim para a nossa verdadeira vocação: o amor (cf. SCa 35). Unida ao espaço litúrgico, a música é genuína expressão de beleza, tem especial capacidade de atingir os corações e, na liturgia, grande eficácia pedagógica para levá-los a penetrar no mistério celebrado.

Acompanhamos, com entusiasmo e alegria, o florescer de grupos de canto e música litúrgica, grupos instrumentais e vocais, que exercem o importante ministério de zelar pela beleza e profundidade da liturgia através do canto e da música. Sua animação e criatividade encantam muitos daqueles que participam das celebrações litúrgicas em nossas comunidades. Ao soar dos primeiros acordes e ao canto da primeira nota, sentimos mais profundamente a presença de Deus.

Lembramos alguns aspectos importantes que contribuem para a grandeza do mistério celebrado.

1. A importância da letra na música litúrgica - a letra tem a primazia, a música está a seu serviço. A descoberta da beleza de um canto litúrgico passa necessariamente pela análise cuidadosa do conteúdo do texto e da poesia. A beleza estética não é o único critério. Muitas músicas cantadas em nossas liturgias estão distanciadas do contexto celebrativo. “Verdadeiramente, em liturgia, não podemos dizer que tanto vale um cântico como outro; é necessário evitar a improvisação genérica e o canto deve integrar-se na forma própria da celebração” (SCa 42). Não é possível cantar qualquer canto em qualquer momento ou em qualquer tempo. O canto “precisa estar intimamente vinculado ao rito, ou seja, ao momento celebrativo e ao tempo litúrgico” (DGAE 76). Antes de escolher um canto litúrgico é preciso aprofundar o sentido dos textos bíblicos, do tempo litúrgico, da festa celebrada e do momento ritual.

2. A participação da assembléia no canto - o Concílio Vaticano II enfatiza a participação ativa, consciente, plena, frutuosa, externa e interna de todos os fiéis (cf. SC 14). O canto litúrgico não é propriedade particular de um cantor, animador, ou de um seleto grupo de cantores. A liturgia permite alguns momentos para solos (tanto vocais quanto instrumentais), porém a assembléia deve ter prioridade na execução dos cantos litúrgicos. O animador ou o cantor tem a importante missão, como elemento intrínseco ao serviço que presta à comunidade, de favorecer o canto da assembléia, ora sustentando, ora fazendo pequenos gestos de regência, contribuindo para a participação ativa de toda a comunidade celebrante.

3. Cuidado com o volume dos instrumentos e microfones - em muitas comunidades, o excessivo volume dos instrumentos, como também a grande quantidade de microfones para os cantores, às vezes, não contribuem para um mergulho no mistério celebrado, antes, provocam a agitação interior e a dispersão, além de inibir a participação da assembléia no canto. Pede-se cuidado com o volume do som, a fim de que as celebrações sejam mais orantes , pois tudo deve contribuir para a beleza do momento ritual.


4. Cultivar uma espiritualidade litúrgica - os cantores e instrumentistas exercem um verdadeiro ministério litúrgico (SC 29). A celebração não é um momento para fazer um show, para apresentação de qualidades e aptidões. Os cantores e instrumentistas devem, antes de tudo, mergulhar no mistério, ouvir e acolher com a devida atenção a Palavra de Deus e participar intensamente de todos os momentos da celebração. Música litúrgica e espiritualidade litúrgica devem andar juntas, são duas asas de um mesmo vôo, duas nascentes de uma mesma fonte.
Invocamos as luzes do Espírito Santo sobre todos os agentes de música litúrgica de nosso país. Reconhecemos o valoro do ministério exercido a serviço de celebrações reveladoras da beleza suprema do Deus criador e da atualização do Mistério Pascal de Jesus Cristo.



D. Joviano de Lima Júnior, SSS
Arcebispo de Ribeirão Preto e
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia

Liturgia da noite de natal



Texto enviado por Pe. Marcelino Sikinski


Anoitece. Dia 24 de dezembro. As famílias preparam a ceia de natal. Nas capelas e igrejas prepara-se o espaço celebrativo e as equipes de liturgia revisam e interiorizam as celebrações organizadas há mais tempo. É uma noite de festa e alegria que tem seu cume na celebração da comunidade.

Aparecem as primeiras estrelas no céu. Anunciam festa e escondem em sua tênue luz, mistérios guardados por milênios, recordados no livro do Êxodo: Hoje, sabereis que o Senhor vem e nos salva. Amanhã vereis a sua glória (Ex 16,6-7).

Desce a noite e a comunidade reunida no Senhor, inicia o canto “Noite Feliz”. Quem preside a celebração diz: Ó Deus que fizeste resplandecer essa noite com a claridade da verdadeira luz, concedei que, tendo vislumbrado na terra esse mistério, possamos gozar no céu sua plenitude.

Que mistério é esse portador de tanta alegria? Leão Magno responde: Hoje, amados filhos, nasceu o nosso Salvador. Alegremo-nos! Não pode haver tristeza no dia em que nasceu a vida que, dissipando o temor da morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade.

O coração dessa alegria é: um filho nos foi dado (cf. Is 9,6), a bondade de Deus se manifestou (cf. Tt 3,4), Deus nos falou por seu Filho (Hb 1,2). “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que será também de todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor (Lc 2,10-11).

Um filho nos dado. Manifestação carinhosa do amor de Deus. Cristo nos foi dado pelo Pai, no Espírito Santo, como Salvador e Reconciliador. Em Jesus, o Pai nos deu tudo: Deu-nos o seu Filho. Deus é amor. Jesus é o Emanuel, o Deus conosco. Por ele, com ele e nele retornamos ao Pai.

No prefácio da missa cantamos: No mistério da encarnação de vosso Filho, nova luz da vossa glória brilhou para nós. E reconhecendo a Jesus como Deus invisível a nossos olhos, aprendemos a amar nele a divindade que não vemos. E na oração eucarística proclamamos: em comunhão com toda a Igreja celebramos a noite santa em que a Virgem Maria deu ao mundo o Salvador.

Na oração após a comunhão, rezamos: Senhor nosso Deus, ao celebrarmos com alegria o Natal do nosso Salvador, dai-nos alcançar por uma vida santa seu eterno convívio.

Na noite de Natal, o momento mais importante e significativo é a celebração da eucaristia com a comunidade: na escuta da Palavra de Deus, na ação de graças e na partilha do pão e vinho eucarísticos.

O momento celebrativo na comunidade prolonga-se na ceia de natal da família. A troca de presentes lembra o presente de Deus na pessoa de seu Filho. O Filho que nos foi dado. Recorda a solidariedade de Jesus com a humanidade e o seu ensinamento de que todos os bens só têm sentido quando partilhados. Natal: Deus nos ama. Somos chamados a experimentar a sua bondade e a sua ternura.