domingo, 24 de outubro de 2010

Os jovens na evangelização: análises acerca da juventude, tendo em vista a Igreja pós-conciliar

Eurivaldo Silva Ferreira

Entre os dias 5 e 11 de setembro de 2010 ocorreu em Caracas, Venezuela, o 3º Congresso Latino Americano de Jovens, com o tema “Caminhemos com Jesus para dar vida a nossos povos”. O Congresso trouxe uma reflexão sobre a revitalização das pastorais juvenis da América Latina e o material de estudo está no site: www.pjlatino.redejuventude.org.br. A juventude ainda tem muito a oferecer em nossa Igreja latina.


Falar de juventude não é tão fácil assim. Certas definições sobre o que é ser jovem vêm carregadas com valores que moldam o estado da juventude com certos compromissos e responsabilidades. Esses conceitos são bem-vindos socialmente, mas permeiam o âmbito subjetivo.

A conceituação antropológica me permite dizer que juventude é o estado de nossas vidas compreendido entre a infância e a vida adulta. Claro que há também contrariedades, assim como na maturidade ou na velhice, logo, a juventude não é o momento de nossas vidas em que ficamos mais irresponsáveis, como pensam alguns, mas é o estado em que temos permissão para viver tudo com mais intensidade. Por isso, o jeito da juventude de se comunicar e de se relacionar pode e muito contribuir no processo do discipulado e da missão de nossa Igreja.

Tomo a liberdade de, em primeiro lugar, comparar o estado de juventude ao conceito de Igreja que herdamos do Concílio Vaticano II. Este Concílio (1963-1965) inaugurou um novo modelo de Igreja, que tem sua própria capacidade de resistir ao tempo e renovar-se através de uma caminhada de libertação de suas amarras, tanto rituais como magistrais. Assim são os jovens, libertam-se de certos conceitos, passando a assumir novas posturas e atitudes.

A grande novidade eclesial desse Concílio foi a de ampliar a representação da Igreja no mundo, fomentando também as Igrejas particulares que sobrevivem em outros continentes, superando cinco séculos de conceituação jurídico-européia, além de trazer como intenção fundamental a atualização da ação salvífica que acontece na Igreja que está no mundo moderno. Atualizar tem tudo a ver com juventude: ser atual, estar em sintonia com os outros e com o mundo. É essa a imagem da Igreja “antenada” que o Concílio traz.

Desde então, a Igreja passou de uma situação de conflito com o mundo para uma situação de diálogo. Isso foi um rompimento, mas abriu-se a uma novidade atingindo aí seu estado jovial de ser. Por isso duas conceituações de Igreja são assumidas pelo concílio: unidade de Deus na Trindade de pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo, portanto um Deus-comunidade; e Igreja como sacramento de salvação.

A salvação tem como base o reino de Deus, pregado por Jesus com sua vida e culminando com sua páscoa, um jeito novo de viver o reino, que exige verdade, justiça, fraternidade, paz e vida. A Igreja não é o reino, mas, vivendo no mundo, ela mesma anuncia o reino.

Na América Latina, o conceito de sacramento de salvação veio ao encontro da realidade do povo, e essa Igreja toma rosto dele, sobretudo dos mais pobres, que relutam no direito digno da vida plena para todos. Não que a Igreja salve, mas que nela contém a salvação oferecida por Jesus.

E como se dá a questão do anúncio do reino que a Igreja reproduz no mundo? Ela deve ser, sobretudo, ecumênica e de comunhão, consigo mesma e com os outros, diz o concílio. A aplicação das propostas do reino de Deus nessa Igreja latino-americana ganhou corpo a partir das conferências episcopais que se seguiram, culminando com a conferência de Aparecida, em 2007. Nessas conferências os bispos anunciam que a Igreja é de pobres, e voltada para os pobres, pois a eles Jesus se fez destinatário, curando e acolhendo, sobretudo salvando.

É em Aparecida que os bispos da América Latina declaram que “os jovens são chamados a ser ‘sentinelas do amanhã’, comprometendo-se na renovação do mundo à luz do Plano de Deus (...), compartilhando em comunidade a corrente de vida, construindo a Igreja e a sociedade” (Documento de Aparecida, nº 442).

Articular realidade social e reino de Deus é tarefa da juventude também, sendo discípulo-missionário, por meio das redes sociais reais e virtuais. Ah, se aprendêssemos com a juventude a preparar durante a semana nossos encontros dominicais ao redor da mesa, nossa festa eucarística, nosso convívio festivo...

O encontro e a reunião, a curtição juntos são formas orantes dos jovens celebrarem a vida. Vivendo menos a institucionalidade do ser Igreja, eles procuram no seu jeito próprio de rezar e louvar a força viva e eficaz para objetivar suas propostas. É no encontro que acontecem as relações, e este se torna paradigma para a compreensão da Igreja-comunidade conceituada pelo Concílio Vaticano II. Penso que a evangelização da juventude acontece por aí.