quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Eis que o Advento vem aí!

Eurivaldo Silva Ferreira 

Tempo do Advento: parte integrante do Ciclo do Natal, como tempo de preparação (espera pelo Senhor que vem). O Ciclo do Natal é identicamente ao Ciclo da Páscoa, comporto por um tempo de preparação, a festa principal, uma festa na oitava, e um tempo “esticado” para se fazer memória de outros aspectos da mesma festa. 


Possui duas dimensões celebrativas: celebramos o mistério do Senhor que veio e que virá. Nos dois primeiros domingos: O Senhor virá; nos dois domingos seguintes: O Senhor veio. O sinal sacramental da espera, próprio do tempo, faz alusão à segunda vinda de Jesus. 


Advento tem a ver com o mundo e com a Igreja: a proposta da Igreja que anseia pela vinda do Senhor tem ressonância no mundo. Ela anseia pela vinda do Senhor, mas enquanto sua vinda não se faz plenamente, celebra, louva e distribui os sacramentos, na esperança de sua plena concretização. É como se vivêssemos as propostas do Reino (já), mas não ainda em sua plenitude (ainda não). Por isso, este tempo em preparação ao Natal do Senhor, suscita o desejo de que o Senhor venha. 


Viver o Advento é: viver a espera da feliz expectativa da realização do Reino de Deus entre nós, espera que é revestida de uma esperança escatológica (escathom, do grego = fim último), em meio a tribulações e sofrimentos [sobretudo entre os mais pobres, os desejosos de esperança de dias melhores], mas que se torna sinal de esperança, sinal de que a salvação de Deus prometida desde a Primeira Aliança (Antigo Testamento) está inserida na história humana e é continuamente refeita pela ação de Deus que salva seu povo das garras do opressor. Por isso Advento é Páscoa!


Nossas atitudes no Tempo do Advento: termos a cabeça erguida, estarmos despertos e acordados a fim de que percebamos no decorrer da história os sinais de libertação, sobretudo nos acontecimentos históricos. Essas imagens são-nos relembradas nas leituras e na oração da Igreja durante as celebrações deste tempo. Sob o prisma da ação ritual, essas imagens simbólicas são traduzidas para nosso ‘hoje’, por isso duas atitudes fundamentais se destacam: vigilância e da oração, consequências da santidade (frutos próprios do tempo). Essas atitudes preparam o coração para a grande vinda, a escatológica (última vinda), e nos conforta sua presença misteriosa através da ação litúrgica (memória da primeira vinda), e através dos pequenos gestos realizados em prol do/a outro/a (vinda intermediária de Cristo), mas que com o auxílio de Deus, isso é possível. 

Advento do mundo: Celebrar o mistério do Senhor que vem e que veio no Tempo do Advento é manifestar no rito e na vida um momento novo para a humanidade nova, para o mundo novo. Se o Ciclo da Páscoa é marcado pelo sacramento da alegria, o Tempo do Advento é um tempo em que celebramos sacramentalmente a espera. É o cosmos quem deseja ser transformado em novo ser pascal, iluminado pelo Senhor que vem, pois eis que "o mundo geme como que em dores de parto", aguardando a transformação definitiva.


Advento da Igreja: de fato, a Igreja vive o tempo todo um eterno Advento, na medida em que na liturgia eucarística aclamamos: “Vinde, Senhor Jesus” e na oração do Senhor: “Venha a nós o vosso Reino”. Também nos Prefácios deste tempo: "saborear os bens que hoje, vigilantes, esperamos" [Prefácio I]; "Cristo virá, mas não sabemos quando, o certo é que ele vem na pessoa do mais necessitado, e assim nós possamos reconhecê-lo" [Prefácio IA]; "possibilidade de reler com os profetas como o predito, com Maria como o esperado, e com João Batista o anunciado e mostrado, pela chave da celebração litúrgica, o mistério do Senhor que vem" [Prefácio II]. É o Advento da oração da assembleia que suplica incessantemente, num grito suplicante: Vem, Senhor Jesus [Maranathá!]


Acolher o Senhor que vem: é crer na salvação do cosmos e da pessoa humana. Somos os responsáveis por acolher a salvação, primeiro ‘abrindo o coração’, ‘aplainando os caminhos’, ‘abaixando as montanhas’. As leituras e a oração da Igreja deste tempo mostram isso: a alegria do povo que se volta, que espera, que permanece fiel, na expectativa da vinda do Messias. 

O projeto de Deus nos personagens bíblicos: Maria, a imagem da Igreja, é a portadora da Arca da Aliança, que traz em seu ventre o sinal da salvação, por isso se entrega totalmente ao projeto de salvação de Deus. Os personagens deste tempo nos ajudam a compreender como é que Deus age em prol da humanidade a fim de salvá-la, guardando-a do mal, mostrando a todos o verdadeiro Sol do Oriente, que ilumina todos os povos que andam por entre as trevas, conforme canta Zacarias. 


Mística e questões temporais do Tempo do Advento: Historicamente o Advento vai incorporando todas as decadências, assim como sofreu a Quaresma. Ele nasceu com o propósito de cultivarmos e retomarmos a memória da esperança de Israel. No fundo, a Igreja retoma a longa expectativa de Israel em relação ao messias. Até hoje isso é considerado uma mística para esse povo. Era uma alegre espera, pois toda espera tem ânsia, sofrimento. A cor roxa nasce em função da Quaresma, com caráter também de conversão. Com o concílio, houve toda uma reforma dos ritos em relação ao Advento, mas tudo na perspectiva de se dar a ele o caráter de alegre expectativa. A imagem da mulher grávida é uma imagem muito forte para se falar desta mística. O que significa a espera de um rebento que vai nascer? É a gravidez da própria história que é retomada no tempo do Advento. É interessante que se tenha colocado a expectativa da segunda vinda do começo do Advento. O final do Ano Litúrgico nos coloca nesta perspectiva. Não há uma ruptura. Nós entramos naturalmente no novo Ano Litúrgico. Essa mística nos coloca num patamar de que nascemos para morrer e não para viver. A morte se torna para nós um verdadeiro natal. Se nascemos para morrer, essa vida é então preciosa, não temos tempo para perder. Tanto na primeira parte do Advento como na segunda, a mística é vivermos o tempo presente, o agora. Esse agora da vida é a liturgia. O nosso agora é celebrado sacramentalmente na liturgia e vitalmente na vida, porque a salvação está acontecendo agora, hoje. O advento traz essas questões, talvez nós não lidemos muito com elas, por causa do medo que nós temos delas. 

Perguntamos então: Qual é o desafio que encontramos dentro de uma sociedade que adora o Natal, mas detesta o Advento? É claro que o comércio e os shoppings centers estão fazendo o seu papel. O pior é quando a Igreja reproduz o papel das lojas... Como diz um amigo meu: "As igrejas se enfeitam de Natal já no Advento de uma forma tão brega... Assim é melhor frequentar os shoppings, já que lá é muito mais bonito, atrativo e chic!" 

Esperamos que neste Advento possamos ser como Igreja, povo de Deus, portadores da boa nova do Reino de Jesus. Que nossas celebrações levem-nos a um verdadeiro compromisso da edificação de seu Reino entre nós! A feliz expectativa do Reino seja o motivo para celebrarmos o Cristo que vem.