sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Advento, espera por Deus através das nossas fraquezas

Artigo de Bernard Ginisty

É a isto que o tempo do Advento nos convida: a "reencontrar o rastro do homem na sua fragilidade".
A opinião é do filósofo francês Bernard Ginisty, cofundador da associação Démocratie et Spiritualité e ex-diretor da revista Témoignage Chrétien. O artigo foi publicado no sítio Garrigues et Sentiers, 16-12-2015. A tradução é deMoisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Propondo todos os anos a liturgia do Advento, a Igreja convida a viver a relação com Cristo como novidade permanente e não como posse satisfeita. Quando Jesus começa a ser falado, João Batista mandou alguns dos seus discípulos para interrogá-lo: "És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?".
A sua resposta não consiste em ensinar um dogma ou em tomar posição nas disputas religiosas do seu tempo. "Voltem e contem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Notícia" (Mt 11, 3-6). O sinal messiânico é que as pessoas se levantam e que os pobres ouvem uma boa notícia.
Os fundadores das grandes religiões conhecem, em geral, uma longa evolução rumo à sabedoria e à santidade. A abundância dos anos constitui um sinal de bênção. Mas Cristo, de fato, não é um modelo de vida longa. Ele nem mesmo escreve um livro, não cria mosteiros. Morre jovem, e aquela que é definida como a sua vida pública não supera os três anos. A sua trajetória, que os cristãos recordam em cada Eucaristia, é a de uma "passagem", de uma Páscoa.
Os seus discípulos não entenderam nada enquanto Ele ainda está em vida, perdidos como estão na espera de um messias político-religioso. Cristo não tenta recrutar ninguém. Não só: Ele convida cada um a acolher dentro de si a vinda do Espírito. Quando vê os seus discípulos consternados com o anúncio da Sua paixão e morte, Ele lhes diz: "É melhor para vocês que eu vá embora, porque, se eu não for, o Paráclito não virá para vocês" (Jo 16, 7).
Essa vinda do Espírito ao homem nunca é dada de uma vez por todas. Um Deus vivo é um Deus que continua nascendo, e, como diz o Mestre Eckhart, só se pode captá-Lo "no cumprimento do nascimento" (Sermões, tomo 2).
Neste tempo de preparação para o Natal, o Evangelho nos recorda que Deus é um bebê em um estábulo e que está presente no pão partido e partilhado. Deus se "despe" dos ornamentos de poder, de glória, de suficiência. Cristo não nos convida a um projeto de carreira institucional ou à construção de uma perfeição moral, e nem a fugir para um refúgio diante das abominações deste mundo.
Uma das orações mais adequadas que eu conheço é a de Etty Hillesum, jovem judaica de 27 anos, que morreu em uma câmara de gás em Auschwitz em 1943. Assim ela escrevia no seu Diário, poucos meses antes de morrer: "Deus, às vezes não se consegue entender e aceitar aquilo que, sobre esta terra, os teus semelhantes fazem uns aos outros, nestes tempos selvagens. Mas nem por isso eu me fecho no meu quarto, Deus: eu continuo a olhar para as coisas na cara e não quero fugir diante de nada. Eu tento compreender os crimes mais graves, todas as vezes eu tento reencontrar o rastro do homem, na sua nudez, na sua fragilidade; desse homem que muitas vezes se tornou irreconhecível. Sepultado entre as ruínas monstruosas das suas ações insensatas".
É a isto que o tempo do Advento nos convida: a "reencontrar o rastro do homem na sua fragilidade".
Extraído de: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/550276-advento-espera-por-deus-atraves-das-nossas-fraquezas-artigo-de-bernard-ginisty

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Eis que o Advento vem aí!

Eurivaldo Silva Ferreira 

Tempo do Advento: parte integrante do Ciclo do Natal, como tempo de preparação (espera pelo Senhor que vem). O Ciclo do Natal é identicamente ao Ciclo da Páscoa, comporto por um tempo de preparação, a festa principal, uma festa na oitava, e um tempo “esticado” para se fazer memória de outros aspectos da mesma festa. 


Possui duas dimensões celebrativas: celebramos o mistério do Senhor que veio e que virá. Nos dois primeiros domingos: O Senhor virá; nos dois domingos seguintes: O Senhor veio. O sinal sacramental da espera, próprio do tempo, faz alusão à segunda vinda de Jesus. 


Advento tem a ver com o mundo e com a Igreja: a proposta da Igreja que anseia pela vinda do Senhor tem ressonância no mundo. Ela anseia pela vinda do Senhor, mas enquanto sua vinda não se faz plenamente, celebra, louva e distribui os sacramentos, na esperança de sua plena concretização. É como se vivêssemos as propostas do Reino (já), mas não ainda em sua plenitude (ainda não). Por isso, este tempo em preparação ao Natal do Senhor, suscita o desejo de que o Senhor venha. 


Viver o Advento é: viver a espera da feliz expectativa da realização do Reino de Deus entre nós, espera que é revestida de uma esperança escatológica (escathom, do grego = fim último), em meio a tribulações e sofrimentos [sobretudo entre os mais pobres, os desejosos de esperança de dias melhores], mas que se torna sinal de esperança, sinal de que a salvação de Deus prometida desde a Primeira Aliança (Antigo Testamento) está inserida na história humana e é continuamente refeita pela ação de Deus que salva seu povo das garras do opressor. Por isso Advento é Páscoa!


Nossas atitudes no Tempo do Advento: termos a cabeça erguida, estarmos despertos e acordados a fim de que percebamos no decorrer da história os sinais de libertação, sobretudo nos acontecimentos históricos. Essas imagens são-nos relembradas nas leituras e na oração da Igreja durante as celebrações deste tempo. Sob o prisma da ação ritual, essas imagens simbólicas são traduzidas para nosso ‘hoje’, por isso duas atitudes fundamentais se destacam: vigilância e da oração, consequências da santidade (frutos próprios do tempo). Essas atitudes preparam o coração para a grande vinda, a escatológica (última vinda), e nos conforta sua presença misteriosa através da ação litúrgica (memória da primeira vinda), e através dos pequenos gestos realizados em prol do/a outro/a (vinda intermediária de Cristo), mas que com o auxílio de Deus, isso é possível. 

Advento do mundo: Celebrar o mistério do Senhor que vem e que veio no Tempo do Advento é manifestar no rito e na vida um momento novo para a humanidade nova, para o mundo novo. Se o Ciclo da Páscoa é marcado pelo sacramento da alegria, o Tempo do Advento é um tempo em que celebramos sacramentalmente a espera. É o cosmos quem deseja ser transformado em novo ser pascal, iluminado pelo Senhor que vem, pois eis que "o mundo geme como que em dores de parto", aguardando a transformação definitiva.


Advento da Igreja: de fato, a Igreja vive o tempo todo um eterno Advento, na medida em que na liturgia eucarística aclamamos: “Vinde, Senhor Jesus” e na oração do Senhor: “Venha a nós o vosso Reino”. Também nos Prefácios deste tempo: "saborear os bens que hoje, vigilantes, esperamos" [Prefácio I]; "Cristo virá, mas não sabemos quando, o certo é que ele vem na pessoa do mais necessitado, e assim nós possamos reconhecê-lo" [Prefácio IA]; "possibilidade de reler com os profetas como o predito, com Maria como o esperado, e com João Batista o anunciado e mostrado, pela chave da celebração litúrgica, o mistério do Senhor que vem" [Prefácio II]. É o Advento da oração da assembleia que suplica incessantemente, num grito suplicante: Vem, Senhor Jesus [Maranathá!]


Acolher o Senhor que vem: é crer na salvação do cosmos e da pessoa humana. Somos os responsáveis por acolher a salvação, primeiro ‘abrindo o coração’, ‘aplainando os caminhos’, ‘abaixando as montanhas’. As leituras e a oração da Igreja deste tempo mostram isso: a alegria do povo que se volta, que espera, que permanece fiel, na expectativa da vinda do Messias. 

O projeto de Deus nos personagens bíblicos: Maria, a imagem da Igreja, é a portadora da Arca da Aliança, que traz em seu ventre o sinal da salvação, por isso se entrega totalmente ao projeto de salvação de Deus. Os personagens deste tempo nos ajudam a compreender como é que Deus age em prol da humanidade a fim de salvá-la, guardando-a do mal, mostrando a todos o verdadeiro Sol do Oriente, que ilumina todos os povos que andam por entre as trevas, conforme canta Zacarias. 


Mística e questões temporais do Tempo do Advento: Historicamente o Advento vai incorporando todas as decadências, assim como sofreu a Quaresma. Ele nasceu com o propósito de cultivarmos e retomarmos a memória da esperança de Israel. No fundo, a Igreja retoma a longa expectativa de Israel em relação ao messias. Até hoje isso é considerado uma mística para esse povo. Era uma alegre espera, pois toda espera tem ânsia, sofrimento. A cor roxa nasce em função da Quaresma, com caráter também de conversão. Com o concílio, houve toda uma reforma dos ritos em relação ao Advento, mas tudo na perspectiva de se dar a ele o caráter de alegre expectativa. A imagem da mulher grávida é uma imagem muito forte para se falar desta mística. O que significa a espera de um rebento que vai nascer? É a gravidez da própria história que é retomada no tempo do Advento. É interessante que se tenha colocado a expectativa da segunda vinda do começo do Advento. O final do Ano Litúrgico nos coloca nesta perspectiva. Não há uma ruptura. Nós entramos naturalmente no novo Ano Litúrgico. Essa mística nos coloca num patamar de que nascemos para morrer e não para viver. A morte se torna para nós um verdadeiro natal. Se nascemos para morrer, essa vida é então preciosa, não temos tempo para perder. Tanto na primeira parte do Advento como na segunda, a mística é vivermos o tempo presente, o agora. Esse agora da vida é a liturgia. O nosso agora é celebrado sacramentalmente na liturgia e vitalmente na vida, porque a salvação está acontecendo agora, hoje. O advento traz essas questões, talvez nós não lidemos muito com elas, por causa do medo que nós temos delas. 

Perguntamos então: Qual é o desafio que encontramos dentro de uma sociedade que adora o Natal, mas detesta o Advento? É claro que o comércio e os shoppings centers estão fazendo o seu papel. O pior é quando a Igreja reproduz o papel das lojas... Como diz um amigo meu: "As igrejas se enfeitam de Natal já no Advento de uma forma tão brega... Assim é melhor frequentar os shoppings, já que lá é muito mais bonito, atrativo e chic!" 

Esperamos que neste Advento possamos ser como Igreja, povo de Deus, portadores da boa nova do Reino de Jesus. Que nossas celebrações levem-nos a um verdadeiro compromisso da edificação de seu Reino entre nós! A feliz expectativa do Reino seja o motivo para celebrarmos o Cristo que vem.


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Música litúrgica: entre beleza, simbolismo e expressividade

Eurivaldo Silva Ferreira

           
Introdução: de que beleza falamos mesmo?   
                As comunidades estão cada vez mais redescobrindo que a liturgia é um encontro, uma ação, um acontecimento e uma festa. A celebração não se faz só com palavras, mas também com movimentos, gestos, música e dança. O batismo, a santa ceia, a celebração da palavra, o oficio divino, as vias-sacras, as procissões, as romarias são ações simbólicas que nos permitem expressar em linguagem humana a presença escondida do Deus que se fez ‘carne’, humano com os humanos (1Jo 1, 1-4). Esses gestos são a linguagem da nossa adoração e da nossa comunhão com ele na intimidade do seu amor. O fruto que colhemos na liturgia, a graça de Deus que dela nos vem para o nosso crescimento na fé passa pela expressividade da ação litúrgica. (Carta de Princípios da Rede Celebra de animação litúrgica, nº 16).
                De fato, a liturgia ocupa um lugar central em toda a ação evangelizadora da Igreja. Ela é o “cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana toda a sua força” (SC 10). Nela, o discípulo realiza o mais íntimo encontro com seu Senhor e dela recebe a motivação e a força máximas para a sua missão na Igreja e no mundo (cf. DGAE 2008-2010 nº 67) (Carta aos agentes da música litúrgica, CNBB).
                Na expressividade da ação litúrgica, que é fonte e cume, cujo Mistério Pascal se faz presente pela força do Domingo, o Dia do Senhor, e também na comunidade reunida em torno da mesa da Palavra e do Pão, a música ritual se torna parte integrante deste mistério. Adentramos o mistério pela força dos símbolos, com sua carga, sinais e codificações. A música é um forte símbolo de beleza que nos ajuda nisso. Como percebermos a relação entre beleza litúrgica e a categoria simbólica que a música ritual ocupa nas celebrações? Para que isso se cumpra na prática, muito depende da qualificação das equipes de músicos, cantores e instrumentistas de nossas comunidades, que vivem no dia-a-dia o exercício batismal, pelo qual foram chamados a servir no seu ministério, sendo verdadeiros discípulos e missionários.
                Diz o nº 34 da Sacrosanctum Concilium que a liturgia deve ser realizada com nobre simplicidade. Homens e mulheres, indivíduos de uma comunidade de fé, devem empenhar-se nisso. Poderíamos aqui enumerar uma série de substantivos e adjetivos que compõem a família da nobreza, da mesma forma outra série para a simplicidade. Mas a nossa referência será direcionada a uma: a beleza, e nela está caracterizada a música litúrgica (música ritual), aquela que acompanha ou é a própria ação litúrgica.
                Uma música bem feita já é bela por si só. Quando ela se insere na liturgia, torna-se por demais sinônimo de muitas outras qualidades que são bem-vindas na ação ritual. Em consequência, afirmamos que há uma relação muito profunda entre beleza e liturgia. “Beleza vista não como mero esteticismo, mas como modalidade pela qual a verdade do amor de Deus em Cristo nos alcança, fascina e arrebata, fazendo-nos sair de nós mesmos e atraindo-nos assim para a nossa verdadeira vocação: o amor” (cf. Bento XVI, Exortação apostólica Sacramento da caridade, 35). Esta exortação lembra que na arte da celebração ocupa lugar de destaque o canto litúrgico. Unida ao espaço litúrgico, a música é genuína expressão de beleza, tem especial capacidade de atingir os corações e, na liturgia, grande eficácia pedagógica para levar-nos a penetrar no mistério celebrado.

1.    O caráter simbólico da música litúrgica
                Música litúrgica ou música ritual é o conceito acentuado pelo Concílio Vaticano II para denominar a música que, ou é o próprio rito, ou acompanha o rito nas celebrações litúrgicas. Esta novidade trouxe um referencial das fontes da Igreja primitiva, mas esquecido ao longo dos tempos: a de que o canto da celebração tem uma identidade comunitária, no ato de celebrar canta-se a força da realidade que este gesto pode simbolizar, ou seja, por meio da união das vozes que entoam um canto, visibiliza-se a unidade da Igreja, reunida em assembleia.
                A música ritual, com suas propriedades (poesia, verso, letra, melodia, ritmo, som etc.) entra nesta categoria dos símbolos. Não podemos desassociá-la do conjunto da simbologia das ações litúrgicas. Na categorização da música ritual e comunitária como realidade simbólica, os Pais da Igreja (aqueles que conviveram com os apóstolos ou próximos deles) consideravam esta união sonora de vozes como o símbolo de uma realidade mais profunda, já que o canto comunitário é a manifestação externa da união dos corações na mútua caridade, é sinal da fraternidade espiritual entre os todos os membros da assembleia reunida, cuja imagem retrata o uníssono dos corações.
                S. João Crisóstomo, outro Pai da Igreja, diz que no canto a uma só voz há uma realidade simbólica da Igreja, que de muitos membros forma um só corpo. Para Santo Ambrósio, a relação do canto ritual com o sagrado tem a característica de nos colocar em comunhão com o mistério, com a realidade divina, mas também com nós mesmos e com os demais, de maneira que podemos formar um coro de homens sagrados[1].
                Outros ainda foram unânimes em dizer que o canto ritual exerce um nobre serviço à atualização da Palavra de Deus, é sinal da alegria e do amor cristão; é o símbolo do sacrifício espiritual do cristão. Isto transcorreu os tempos e está presente na liturgia. Observemos o prefácio da Prece Eucarística, este aponta a realização do canto da terra, na imitação perfeita do canto dos anjos no céu, apresentados no cantando a uma só voz, antes da aclamação do Santo.
                Para Xabier Bazurko, que escreveu O Canto cristão na tradição primitiva, tanto na Bíblia (livro do Apocalipse) como na Tradição, o canto ritual é assumido principalmente, e como em primeira linha, enquanto comunitário, como canto entoado pela assembleia em comum e dentro de um quadro litúrgico[2] e em comunidade, já que o canto presente no Apocalipse nos aponta para a realidade desse reino que esperamos, realidade caracterizada pela espera de uma vida plenamente feliz e perfeita, mas que ainda é oculta ao homem e à mulher, enquanto passam pela terra. Vivendo a contemplação do mistério deste tempo, o canto ritual nos ajuda a compreender essa dimensão, a de piedosa e alegre espera, como num eterno advento. Por isso o canto litúrgico (ritual), como símbolo, sempre foi considerado como o mais adequado para transcrever a realidade do além, destaca Bazurko.
                Assim, o canto ritual como símbolo, representa a expressão da união da assembleia, estabelecendo a igualdade entre todos os membros, superando as diferenças de idade e de condição social por meio da entoação comum de uma mesma melodia[3], enquanto aguardam firmes a feliz realização do reino, e o fazem celebrando.

2.    A força propulsora da sonoridade musical
                Especialistas afirmam que a música é uma estrutura sonora complexa sem função biológica precisa, cujos elementos de base não se referem a nenhum outro objeto ou acontecimento real. Ela é também capaz de conseguir ao mesmo tempo acalmar bebês e dar coragem aos soldados que partem para campos de batalha. Imagens cerebrais mostram que certas zonas do cérebro são ativadas pela música. Ela exerce o mesmo poder quando o cérebro é impulsionado por estímulos biológicos fortes, como ingestão de alimento, relações de afeto entre namorados e casais etc. A música pode também reduzir a ativação das áreas cerebrais implicadas em emoções negativas[4]. Para outros, a música é considerada uma prática tão antiga quanto a agricultura. Ela tem o poder de garantir a coesão social e a “sincronização” do humor, favorecendo a preparação das ações coletivas, seria o caso da música militar ou da música religiosa[5].
                Já na liturgia, cuja expressão de fé se dá também pela participação da força da música ritual como sinal sensível, muito mais alcançarão eficácia seus textos se forem acompanhados de melodias. É esta a sábia e grandiosa intuição da Igreja que desejou que a música avançasse por sob seus umbrais.

3.    A música ritual nos documentos da Igreja
                Com razão diz o Motu Próprio Tra le sollecitudini quando afirma que a música concorre para aumentar o decoro e esplendor das sagradas cerimônias (...) e seu fim próprio é acrescentar mais eficácia ao mesmo texto, a fim de que por tal meio se excitem mais facilmente os fiéis à piedade e se preparem melhor para receber os frutos da graça, próprios da celebração dos sagrados mistérios[6].
                Segundo Divini cultus, os cânticos litúrgicos contribuíram não pouco para conduzir muitos dos bárbaros à cultura cristã e civil; ainda, foi objeto de admiração pelo imperador Valente e por Santo Agostinho, cuja conversão foi marcada pela aceitação da fé cristã após cantar com as multidões, animadas por Santo Ambrósio[7]. Também nas igrejas, finalmente, nas quais se constituía um coro volumoso feito de quase toda a cidade, operários, construtores, pintores, escultores e até homens de letras embebiam-se, pela liturgia, do conhecimento das coisas teológicas, como ainda hoje refulge esplendidamente dos monumentos daquela Idade Média[8].
                A Sacrosantum Concilium destaca: o canto e música desempenham sua função de sinais de modo tanto mais significativo na medida em que “estão intimamente ligados à ação litúrgica” (SC 112). Na mesma linha de pensamento está a orientação do Catecismo da Igreja Católica[9] em que considera três critérios principais: a beleza expressiva da oração, a participação unânime da assembleia nos momentos previstos e o caráter solene da celebração. Assim, tem finalidade das palavras e das ações litúrgicas: a glória de Deus e a santificação dos fiéis.
                O nº 1158 do mesmo Catecismo afirma que “a harmonia dos sinais (canto, música, palavras e ações) é aqui tanto mais expressiva e fecunda por exprimir-se na riqueza cultural própria do povo de Deus que celebra (SC 89)”, o que, de certo modo, vem, afirmar nossas conclusões acerca da simbiose entre melodia e palavra, que se prestam ao culto das ações litúrgicas a fim de que estas possam ser realmente meios da expressão do louvor ao Deus que canta e ora em nós através do Espírito.

            Concluindo...
        É com essa preocupação que caminha a Igreja dos nossos tempos. Tudo aquilo de que se ornamenta a liturgia, dentre eles a música ritual, que é caracterizada como serva nobilíssima, deve ser objeto de preocupação, a fim de que possam os fiéis que se reúnem nos templos sagrados para beber a piedade na sua fonte principal, participando ativamente dos veneráveis mistérios das preces públicas e solenes da Igreja, não se alimentarem de outro espírito, senão o litúrgico, o mesmo que vem operando na Igreja, povo de Deus, pelo qual é conduzido pelo Espírito, desde sua fundação.

Para refletir em grupo ou individualmente:

®     Pense numa música popular que marcou um fato de sua vida
®     Escreva um pequeno trecho desta música num pedaço de papel; cante em voz alta...
®     O que lhe chamou a atenção no texto? Quais as palavras que mais lhe tocam? E na melodia? O que ela lhe inspira, ou quais os sentimentos que ela lhe sugere? (letra e melodia como signo, sinal)
®     Em nossas liturgias, a música que cantamos está a serviço da Palavra? Qual palavra cantamos em nossas liturgias?
®     E nós, que palavra(s) carregamos em nosso cotidiano?
®     É possível que essa(s) palavra(s) seja(m) transportadas para nosso canto litúrgico? Como?




[1] Bazurko, Xabier. O canto cristão na tradição primitiva. São Paulo: Paulus, 2005, p. 108 (Coleção Liturgia e Música).
[2] Ibid, p. 224.
[3] Ibid, p. 107.
[4] VIVER MENTE E CÉREBRO. O poder da música. São Paulo: Ediouro, nº 149, junho, 2005. p. 59
[5] Op. cit. p. 57.
[6] PIO X, Papa. Motu Próprio. Tra Le Sollecitudini sobre a música sacra (1903). In: DOCUMENTOS SOBRE A MÚSICA LITÚRGICA. São Paulo: Paulus, 2005, p. 13-22. (Documentos da Igreja)
[7] PIO XI, Papa. Constituição apostólica Divini Cultis sobre a liturgia, canto gregoriano e música sacra (1928). In: DOCUMENTOS SOBRE A MÚSICA LITÚRGICA , op. cit. , p. 25-34.
[8] Ibid.
[9] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 1157.

Carta de apoio ao papa Francisco

Há uma campanha mundial e especialmente dentro da Cúria Romana de forte oposição ao Papa Francisco, especialmente ao seu modo carinhoso e informal que caracteriza seu estilo de ser Pastor da Igreja Universal e bispo de Roma. Grupos fortes dentro e fora dos quadros eclesiais que objetivam desestabilizar e até ridicularizar seu modo de ser Papa, despojado dos símbolos de poder, bem no estilo de São Francisco de Assis de quem tomou o nome. No II Congresso de Teologia Continental, realizado em Belo Horizonte entre os dias 26-30 de outubro sob o lema  A Igreja que caminha no Espírito a partir dos pobres resolveu escrever esta carta aberta em apoio ao Papa Francisco. Logo aderiram cerca de 300 pessoas do Brasil, de toda  América Latina, do Caribe e de representantes da Europa, do Canadá e dos Estados Unidos. Pedimos  divulgarem esta carta e testemunharem a sua adesão para o e-mail <valecarusi@gmail com.> da embaixada argentina junto à Santa Sé.  Lboff               
                                                 Carta de apoio ao Papa Francisco
            Querido Papa Francisco,
Somos muitos na América Latina, no Caribe e noutras partes do mundo que acompanhamos com preocupação a oposição e os ataques que lhe fazem minorias conservadoras, mas poderosas de dentro e de fora da Igreja. Perplexos, assistimos a algo inusitado nos últimos séculos: a tomada de posição de alguns cardeais contra o seu modo de conduzir o Sínodo e, mais que tudo, a Igreja Universal.
A carta estritamente pessoal, dirigida ao Sr. foi vasada para a imprensa, como já havia sucedido com sua encíclica Laudato Si’, em clara violação dos princípios de um jornalismo ético.
Tais grupos postulam uma volta ao modelo de Igreja do passado, concebida mais como uma fortaleza fechada do que como “um hospital de campanha sempre aberto para acolher quem lhe bata às portas”; Igreja que deverá “procurar e acompanhar a humanidade de hoje não com portas fechadas, o que trairia a si mesma e a sua missão e que, em vez de ser uma ponte, se tornaria uma barreira”. Estas foram suas corajosas palabras.
As atitudes pastorais do tipo de Igreja proposto em seus discursos e em seus gestos simbólicos se caracterizam pelo amor caloroso, pelo encontro vivo entre as pessoas e com o Cristo presente entre nós, pela misericórdia sem limites, pela “revolução da ternura” e pela conversão pastoral. Esta implica que o pastor tenha “cheiro de ovelha” porque convive com ela e a acompanha ao longo de todo o percurso.
Lamentamos que tais grupos, o mais que fazem é dizer não. Recordamos a esses nossos irmãos as coisas mais óbvias da mensagem de Jesus. Ele não veio dizer não. Ao contrário, ele veio dizer sim. São Paulo na segunda Epístola aos Coríntios nos recorda que “o Filho de Deus sempre foi sim, porque todas as promessas de Deus são sim em Jesus” (2 Cor 1,20).
No evangelho de São João, Jesus afirma explicitamente: ”Se alguém vem a mim eu não o mandarei embora” (Jo 6,37). Podia ser uma prostituta, um leproso, um teólogo medroso como Nicodemos: a todos acolhia com amor e misericórdia.
A característica fundamental do Deus de Jesus, “Abba”, é sua misericórdia ilimitada (Lc 6,36) e seu amor preferencial pelos pobres, doentes e pecadores (Luc 5,32; 6,21). Mais que fundar uma nova religião com fieis piedosos, Jesus nos veio ensinar a viver e a realizar a mensagem central do Reino de Deus, cujos bens são: o amor, a compaixão, o perdão, a solidariedade, a fome e sede de justiça e a alegria de todos sentirem-se filhos e filhas amados de Deus.
Os intentos de deslegitimar seu modo de ser bispo de Roma e Papa da Igreja universal, guiando-se mais pela caridade do que pelo direito canônico, mais pela colegialidade e pela cooperação do que pelo exercício solitário do poder serão vãos, porque nada resiste à bondade e à ternura das quais o Sr. nos dá um esplêndido exemplo. Da história aprendemos que, onde prevalece o poder, desaparece o amor e se extingue a misericórdia, valores centrais da sua pregação e da de Jesus.
Neste contexto, face à nova fase planetária da história e às ameaças que pesam sobre o sistema-vida e o sistema-Terra corajosamente apontadas em sua encíclica Laudato Si’sobre “o cuidado da Casa Comum” queremos cerrar fileiras ao seu redor e mostrar nosso inteiro apoio à sua pessoa e ministério, à sua visão pastoral e aberta de Igreja e à forma carismática pela qual nos faz sentir novamente a Igreja como um lar espiritual. E são tantos de outras igrejas e religiões e do mundo secular que o apoiam e o admiram pelo seu modo de falar e de agir.
Não é destituído de significação o fato de que a maioria dos católicos vive nas Américas, na África e na Ásia, onde se constata grande vitalidade e criatividade em diálogo com as diferentes culturas, mostrando vários rostos da mesma Igreja de Cristo. A Igreja Católica é hoje uma Igreja do Terceiro Mundo, pois somente 25% dos católicos vivem na Europa. O futuro da Igreja se decide nessas regiões onde sopra fortemente o Espírito.
A Igreja Católica, não pode ficar refém da cultura ocidental que é uma cultura regional, por maiores méritos que tenha acumulado. É preciso que se des-ocidentalize, abrindo-se ao processo de mundialização que favorece o encontro das culturas e dos caminhos espirituais.
Querido Papa Francisco: o Sr. participa do mesmo destino do Mestre e dos Apóstolos que também foram incompreendidos, caluniados e perseguidos.
Mas estamos tranquilos porque sabemos que o Sr. assume tais tribulações no espírito das bem-aventuranças. Suporta-as com humildade. Pede perdão pelos pecados da Igreja e segue as pegadas do Nazareno.
Queremos estar ao seu lado, apoiá-lo em sua visão evangélica e libertadora de Igreja, conferir-lhe coragem e força interior para nos atualizar, por palavras e gestos, a Tradição de Jesus feita de amor, de misericórdia, de compaixão, de intimidade com Deus e de solidariedade para com a humanidade sofredora.
Enfim, querido Papa Francisco, continue a mostrar a todos que o evangelho é uma proposta boa para toda a humanidade, que a mensagem cristã é um força inspiradora no “cuidado da Casa Comum” e geradora de uma pequena antecipação de uma Terra reconciliada consigo mesma, com todos os seres humanos, com a natureza e principalmente com o Pai que mostrou ter características de Mãe de infinita bondade e ternura. Ao final, poderemos juntos dizer: “tudo é muito bom”(Gn 1,31).
Extraído de: https://leonardoboff.wordpress.com/2015/11/07/carta-de-apoio-ao-papa-francisco/

terça-feira, 6 de outubro de 2015

MÍSTICA, MISTAGOGIA E LITURGIA: Por uma experiência mais vivencial

         
          O Povo de Deus – a Igreja – precisa sempre embeber-se do Mistério divino. Numa dinâmica mistagógica que possibilita sentir o sabor da fé e da vida nas celebrações litúrgicas. Este é um significativo passo para não se estagnar em um conhecimento puramente teórico do Crucificado/Ressuscitado. Sendo assim, se o homem não mergulha no Mistério de Deus, ele corre o risco de não responder à sua vocação batismal: ser um em-com-por Cristo. A linguagem da liturgia é a mistagogia[1]! É um método condutor, vivo e dinâmico, que não deixa a espiritualidade da assembleia se embotar, nem perder seu brilho teológico e litúrgico[2].
          Paralelamente, nota-se na atual conjuntura eclesial um ‘sentimento coletivo’ de “cansaço”. Muitas lideranças e agentes de pastorais se queixam da participação dos fiéis nas atividades comunitárias. Por muitas vezes, a assembleia se apresenta como “fria” e sem expressão ativa. Assim, os projetos não caminham, os membros de pastorais e movimentos conservam suas estruturas e não apresentam perspectivas de novas ações.
          Direcionando um pouco mais o olhar em alguns aspectos da realidade eclesial, nota-se que também há ministros ordenados e coordenadores de pastorais/comunidades com sede e ânsia no trabalho paroquial/comunitário. Isso é louvável! No entanto, em contrapartida, nestes intentos não há mística e nem mistagogia na espiritualidade. Sendo que, muitos são os carismas dentro da comunidade, mas sem a espiritualidade – que é o próprio Jesus Cristo – o carisma não se sustenta.
          Wellistony[3] apresenta uma questão pertinente frente a tudo isso: Os padres – e acrescento: os líderes e agentes de pastorais – precisam ser “místicos”. Atualmente, muitos leigos estão “avançando para águas mais profundas”. Estão procurando crescer e aprofundar a dimensão espiritual da vida. Enquanto isso, os responsáveis pelas comunidades estão ficando à margem vendo os “barcos” se distanciarem. Uma vez distantes, como novamente se aproximar quando se está em ‘alto mar’?!
          Existem leigos sedentos, mas convém ressaltar que também há aqueles que não assumem um compromisso na comunidade. Muitos são os ministros ativos e conscientes, mas em contrapartida, existem aqueles que entraram no modismo do “cansaço”. E estes, por sua vez, são um grupo significante. Não se justifica, mas, como exigir da comunidade se as próprias lideranças não experimentam o Mistério!? Como falar do Mistério se os próprios ministros não o vivenciam?!  
          Karl Rahner, em sua conhecida frase, parece estar certo quando afirmou que “no futuro o cristão ou será místico ou não será cristão”[4]. Mas isso não exime a responsabilidade do leigo em agir de modo ativo, pleno e consciente sua própria vocação batismal.  Se antes do Vaticano II os fiéis não participavam ativamente da divina liturgia porque o rito era em latim, era muito diferente da cultura local, porque o ministro se colocava distante do povo... E hoje, por que será?
          Acredito que quando os fiéis pedem uma missa diferente e animada, não é exatamente isso que querem dizer. Porque podem até celebrar uma missa ‘bem animada’ cheia de firulas, no entanto, provavelmente no próximo mês estarão pedindo outra coisa diferente... Quando os fiéis pedem algo assim, somente estão usando da linguagem que está ao seu alcance. Mas, na verdade, o que querem dizer é que falta às celebrações um caráter místico e mistagógico, falta sabor e vivacidade. A perfeita liturgia é só no céu! Mas, quem disse que aqui na terra, em nossas celebrações litúrgicas, não podemos sentir o perfume do céu?!
          Viver o Mistério também é acreditar em uma “liturgia contemplativa”, onde o interior dos fiéis se expressa na voz da assembleia. A intimidade pessoal com Deus gera na liturgia uma experiência comunitária que se manifestará na escuta da Palavra, no silêncio, nos cantos, na Eucaristia, na oração e na partilha. É preciso resgatar uma experiência pessoal na liturgia, longe do intimismo e do subjetivismo, propagado pelo materialismo e o secularismo do mundo. A mística não subtrai a ação, pelo contrário, quanto mais contemplativo for o fiel, mais eficaz será sua ação no seio eclesial.
Abração musical de
Wallison Rodrigues





[1] Cf. CELAM: Manual de Liturgia 4. São Paulo: Paulus, 2007, p. 362.
[2] Cf. BUYST, Ione/FONSECA, Joaquim. Música Ritual e Mistagogia. São Paulo: Paulus, 2008, passim.
[3] VIANA, C. Wellistony. Um longo e belo caminho. Brasília/DF: Edições CNBB, 2013.
[4] RAHNER, Karl. apud OLIVEIRA, P. R. F. de./TABORDA, F. Karl Rahner 100 anos: teologia, filosofia e experiência espiritual. São Paulo: Loyola, 2005, p.81.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

O sentido das leituras no tempo da Quaresma

Eurivaldo Silva Ferreira

A Quaresma é um tempo da grande convocação de toda a Igreja para que se deixe purificar por Cristo, seu esposo (cf. Joel, primeira leitura na Quarta-feira de Cinzas). Pois, Cristo mesmo não conheceu o pecado (segunda leitura na Quarta-feira de cinzas), embora sentenciado à morte, ele mesmo dirigiu preces e súplicas a Deus, pois aprendeu o que significa obedecer (2ª leitura no 5ª Domingo). Assim, a Igreja que traz pecadores em seu seio, que é santa, mas sempre necessita de purificação, nunca deixa, sobretudo neste tempo, de fazer penitência e de se renovar (cf. LG 8).
Além de ser Deus o grande convocador para o reconhecimento de sua misericórdia, temos uma atitude pessoal também, a de nos deixar reconciliar-nos com Deus (cf. 2ª leitura da Quarta de Cinzas). Nessa atitude pessoal somos lembrados que Deus um dia se reconciliou com a gente. De certa forma, nós, ao sermos colaboradores de Cristo, participando de sua graça pelo batismo, somos chamados a sermos embaixadores da misericórdia de Deus, anunciando-a aos outros (cf. Salmo da Quarta de Cinzas). Neste sentido a penitência só tem sentido se traçarmos um plano de reconciliação com Deus e com os outros.

As três recomendações evangélicas: jejum, oração e esmola.
Jejum: sinal conectivo entre a penitência e a conversão interior; abster-se do que é demais, mas também do pecado; o jejum é uma expressão típica da ascese quaresmal, que conduz a uma vida nova, fruto da Páscoa de Cristo; há aí também a intervenção de Deus (somente teu Pai que vês que está jejuando te dará a recompensa); aproximar-se da luz, assim como Deus quer.
Oração: consiste em participar na assiduidade da oração de Cristo. Oração ligada à prática anterior, ampliando espaços para Deus penetrar e nos inundar com sua iniciativa. Não pode ser vista como uma forma de manipular Deus (assim como aqueles que gostam de rezar em pé, nas sinagogas e nas esquinas das praças, para serem vistos pelos homens). A oração é a concretização da manifestação do sacrifício do espírito contrito e penitente. A oração é o sinal externo do espírito daquele que se coloca em atitude de oferta.
Esmola: superar o apego às coisas terrenas (cf. Prefácio II da Quaresma). O jejum deve ser revertido, sobretudo, na oferta daquilo que se deixou de experimentar, doando aos mais necessitados.

1º Domingo: Início de uma grande catequese batismal (2ª leitura) que nos impulsiona a vivermos a realidade da misericórdia de Deus (1ª leitura), seu amor sem medida, a entregar-se confiantes a ele (Salmo), apesar do mal que insiste em nos visitar (Evangelho).

2º Domingo: Seguindo o caminho da confiança e da entrega a Deus (1ª leitura), somos interrogados e nos questionamos sobre quem está do nosso lado, o mal ou o bem? (2ª leitura). Assim, a manifestação da glória do Filho de Deus, visando o sacrifício futuro de si, nos é apresentada como sinal de esplendor, a fim de que todos contemplem este mistério (Evangelho).

3º Domingo: Seguir a Deus neste itinerário de conversão significa também obedecer a certos critérios estabelecidos por ele mesmo (1ª leitura). Esses critérios se colocam tanto na linha da moral (mandamentos), quanto na linha da compreensão espiritual (sabedoria e sinais legitimadores) (2ª leitura). Obedecendo a Deus nesse caminho pedagógico, nós purificamos nosso próprio templo, que são nossos corpos, tendo como paradigma o templo que é Cristo (Evangelho).

4º Domingo: É Deus quem deseja a renovação de cada um. Ele não castiga, mas reconstrói (1ª leitura). Reconstrói-nos também quando quis que ressuscitássemos com Cristo, (2ª leitura), a fim de que, passando por sua morte, abandonemos as obras do mal e tenhamos a vida eterna (Evangelho).


5º Domingo: Sempre Deus nos lembra que fez um pacto com a gente, recordando a sua aliança (1ª leitura). Nós é que abandonamos, e até nas mais terríveis situações esquecemos que Deus está com a gente. Mas não foi assim com Cristo, ele foi obediente e não se esqueceu dos planos de Deus (2ª Leitura), pois acreditou que o Pai o glorificaria, a fim de que nós sejamos salvos por ele (Evangelho).

A Quaresma como itinerário pascal

Eurivaldo Silva Ferreira[1]
Ano Litúrgico: itinerário pedagógico da fé

Diz a Lumen gentium que uma das preocupações da Igreja é fazer com que seus fiéis se aproximem da graça salvadora de Cristo (LG, 1-8). Os fiéis fazem isso toda semana, no domingo, justamente denominado Dia do Senhor, celebrando a ressurreição de Cristo, também de maneira mais especial no período do Tríduo Pascal. Logo, quem participa das ações litúrgicas, entra em contato com a riqueza das virtudes e méritos de Jesus Cristo, por isso o mistério de Cristo anunciado e vivido ao longo de um ano, através da liturgia celebrada, possibilita a quem crê a plenitude da graça da salvação.
Toda ação de Cristo operando em prol de sua comunidade de fé, orante e reunida em assembleia, ocasião em que toma contato com a pregação, a vivência e o anúncio do Reino de Deus feito por Jesus, é um itinerário pedagógico, o qual chamamos de Ano Litúrgico.
O Ano Litúrgico, vivido como sinal sacramental da atuação do Cristo que se mostra com toda a sua força atuante, alimenta a piedade dos fiéis. Ele possui força sacramental, segundo o dizer do papa Paulo VI. É em torno desse mistério da nossa fé que também aguardamos a feliz vinda do Cristo, no reino futuro. Enquanto ele não vem, nós o aguardamos nas nossas ações do cotidiano e também celebrando o mistério pascal nas nossas liturgias. Portanto, podemos dizer que no Ano Litúrgico vivemos o sacramento da espera, unindo nosso cotidiano na oferta do próprio Cristo, até que um dia, por Cristo, com Cristo e em Cristo, Deus venha a ser tudo em todos.
Nesse sentido, os ritos contemplados na ação litúrgica nos dão a possibilidade de vivermos o Mistério Pascal, não como estranhos ou simples expectadores, mas como participantes conscientes, piedosos e ativos. É esta a natureza frutificadora da ação litúrgica, ela tem a preocupação de colocar o ser humano em relação com o Mistério Pascal: morte e da ressurreição de Cristo, em quase todas as ocasiões da vida, pois, do mistério pascal derivam a graça e força pelas quais se santificam os fiéis bem dispostos, diz a Sacrosanctum Concilium.
Mas não basta apenas isso. Para que a liturgia exerça realmente sua força de contato com o Mistério Pascal, é necessário que todos os que desejam manifestar o louvor a Deus e também se santificar, tenham possibilidade de participar ativa, plena, frutuosa e conscientemente.
A ação litúrgica é tornar célebre um acontecimento, perpetuando-o
Sempre que recordamos um acontecimento, nós o fazemos através de lembranças deste mesmo acontecimento. Por isso a celebração, que deriva da palavra ‘célebre’, é o meio eficaz de fazermos isso. Tudo feito por meio das ações simbólico-sacramentais, isto é, celebramos com ritos, preces, símbolos e ações gestuais, para fazer memória do evento Mistério Pascal de Cristo, o acontecimento mais importante do cristianismo.
Todo domingo, na celebração eucarística, por força dos ritos e das preces, das orações e das louvações, nós tornamos célebres aqueles gestos de Jesus realizados na última ceia: sua entrega pascal, realizada de forma ritual na noite da quinta-feira santa e na forma de sua entrega sacrificial, seu corpo crucificado e morto na sexta-feira da paixão, além de contemplarmos o vazio no sábado da sepultura e comemorarmos a ressurreição, na madrugada do domingo. Repetindo os ritos, com consciência do que estamos fazendo, aprofundamos seu sentido, ou seja, aquilo que eles mesmos expressam, a nossa fé. Desta forma, a liturgia cristã, na qual fazemos memória pascal, passa por esse prisma, ela mesma representa esses fatos, de uma forma ritual, e, revivendo-os, fazendo memória, nós a tornamos viva e a qualificamos de forma perene.
A força pedagógica do período Quaresmal
O Ano Litúrgico nos oferece o tempo da Quaresma como uma oportunidade de fazer memória do nosso batismo, ocasião em que nós recordamos aquela graça, pela qual fomos inseridos um dia, mergulhando na água do Espírito, renascendo para uma vida nova.
Por sua força sacramental, o tempo quaresmal nos coloca em prontidão para a escuta da Palavra e a oração, elementos essenciais que devem ser vividos também ao longo de todo Ano Litúrgico, mas que a Igreja chama para uma atenção particular e mais atenta neste tempo. Então, a ação memorial do batismo, nós a realizamos escutando a Palavra, orando em comunidade e celebrando na mesa comum a memória pascal do próprio Cristo.
Nas comunidades primitivas era também ocasião em que os catecúmenos, aqueles que eram iniciados na fé, podiam ser preparados para receber o sacramento do batismo, um dos que fazem parte dos chamados ‘sacramentos da iniciação à vida cristã’. No período quaresmal, os catecúmenos viviam o tempo chamado de ‘purificação’ e ‘iluminação’, o que os consagrava a preparar-se mais intensamente o espírito e o coração, examinando suas consciências e com atitudes penitenciais para a vivência sacramental.
Na Quaresma, os fiéis já batizados, assim como os catecúmenos, se dispõem para a celebração do mistério pascal, a cada domingo, ao mesmo tempo, visualizando e tendo como meta a grande celebração do Tríduo Pascal.
O sentido próprio de cada celebração, se bem vivido, nos proporciona uma real adesão à fé, fazendo com que apreendamos aquilo que é essencial na Igreja, com sua força pedagógica. Cada gesto, cada ação ritual, comporta um sentido teológico, no qual deve ser aprofundado com conhecimento de causa, mediante a qualidade com que se é realizada e celebrada, até provocar nos celebrantes (todos nós somos os agentes da celebração, por isso somos todos celebrantes) uma atitude interior e espiritual, abrindo-se para o compromisso com a vida.
O sentido do itinerário pedagógico para a nossa vida
Se o itinerário pedagógico da fé pode ser vivido no tempo quaresmal, que, com seu sentido próprio, ao longo do Ano Litúrgico, que, por força dos ritos e das ações simbólico-sacramentais, exige que seja contemplado com uma atitude interior e espiritual, a Quaresma traz em seu bojo duas características que podem nos ajudar a bem vivermos esse tempo: o desejo de conversão e de mudança de vida, e a penitência, elementos principais contidos nas leituras bíblicas e no conjunto da ação litúrgica deste tempo.
Da consciência de nossa incapacidade de vivermos o projeto do Reino surge o desejo da conversão e da mudança interior, por isso um sinal externo nos é apontado como que sendo uma força que impulsiona a direção da mudança.
Na comunidade primitiva a conversão então é tida como um estado penitencial em que aqueles que estivessem aptos para o batismo se comprometiam a refletir sobre a consciência do pecado, tido como ofensa a Deus. Daí nascia o compromisso de não mais pecar, vivido por um estado de contínua conversão. De fato, a penitência só tem sentido se praticarmos as boas obras, tendo em vista o bem maior, seja para mim, seja em função do próximo.
A Carta Preparatória para as Festas Pascais, de janeiro de 1988, explicita melhor o sentido da virtude e a prática da penitência, como “partes necessárias da preparação pascal: da conversão do coração deve brotar a prática externa da penitência, quer para os cristãos individualmente, quer para a comunidade inteira; prática penitencial que, embora adaptada às circunstâncias e condições próprias do nosso tempo, deve, porém, estar sempre impregnada do espírito evangélico de penitência e orientada para o bem dos irmãos e irmãs”.
A Igreja, da mesma forma que convoca cada um e cada uma a fazer penitência, ela mesma se coloca nesta ação, rezando e intercedendo por aqueles que ainda não aderiram a este processo de conversão, também convocando os seus para aderirem a essa prática e ao retorno ao sacramento do perdão.
Segundo a Encíclica Dives in Misericórdia (Rico em Misericórdia), de João Paulo II, a Igreja também anuncia que Deus é todo misericordioso, e, aconselhando a consciência, baseando-se na Escritura, aponta sinais de melhorias, ou seja, o ser humano não é capaz de se salvar a si por sua própria capacidade, por isso ele precisa contar com Deus. A Igreja vê e dá testemunho da misericórdia de Deus, pelo Cristo anunciado no Evangelho ela encoraja o ser humano e o introduz no seio da misericórdia de Deus, professando-a em toda a sua verdade, apoiada na Revelação. Deus penetra no íntimo do coração do homem e da mulher para transformá-lo/a, assim como fez com o filho pródigo.
Tempo de caridade mais intensa e de renúncia dos desejos
Outro aspecto do tempo quaresmal é visibilizado pelo jejum e pela caridade, sinais externos mais recomendados pela Igreja, sobretudo se vividos por um período anterior de oração e por um período posterior de justiça (sentido de entrega a uma causa).
São Leão Magno, papa e doutor da Igreja do século V, fala de um agente externo que quer nos impulsionar ao pecado, fazendo-nos esquecer da fonte do perdão, o próprio Mistério Pascal, celebrado e vivido com mais intensidade por ocasião do tríduo pascal. Por isso também recomenda que ‘entremos na Quaresma com uma fidelidade maior ao serviço do Senhor’, nesse sentido, o jejum e a caridade são sinais externos para se vencer o mal, que cada vez mais quer se sobressair em nós.
No Brasil, a Campanha da Fraternidade, também vivido como um sinal externo de penitência, é um excelente auxilio para bem vivermos a Quaresma, diz a introdução de todos os textos-base.
O Missal Romano diz que a Quaresma é um tempo de teste para nossa fidelidade na resposta ao plano de Deus. Pode acontecer que, depois de ter recebido o batismo, nós percamos essa confiança, por isso esse tempo é propício para renovar e reavivar em nossos corações as disposições que, durante a Vigília Pascal, pronunciaremos de novo com as promessas do nosso batismo. As leituras que ouviremos durante esse tempo nos recordam que somos seres batismais.
Tempo de amar profundamente, raiz da nossa condição batismal
Enfim, viver a Quaresma é saborear o difícil itinerário da passagem da morte para a vida. Sabemos que passamos da morte à vida se amamos os irmãos, diz São João em sua primeira carta (1Jo 3,14).
 Sobretudo, devemos lembrar que somos discípulos/as de Jesus, que superou o fracasso humano da cruz com um amor que vence a morte, e que, de nossa parte, o jejum e a caridade, traduzidos na solidariedade fraterna em favor do/a outro/a, do mundo, do planeta e do cosmos, nos colocam nesse mesmo patamar de Jesus, que, intensificando seu desejo de amar até o fim, passou pelo mal, vencendo-o.
 Juntemos o nosso desejo ao de Jesus. Assim, como diz a regra de São Bento: “com a alegria do Espírito Santo e cheios do desejo espiritual, esperemos a santa Páscoa”.



[1] Mestre em Teologia pela PUC/SP, com concentração em Liturgia. Especialista em Liturgia, pelo IFITEG-GO. Formado em Teologia, pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção da PUC/SP. Membro da Rede Celebra de Animação Litúrgica e do Corpo Eclesial de Compositores Litúrgicos da CNBB.