quinta-feira, 28 de maio de 2009

Eucaristia: sacramento de transformação pessoal e universal


Eurivaldo Silva Ferreira

Em nosso último artigo falamos sobre a questão da inteireza do ser conseguida pela meta dos sacramentos na nossa vida. Neste sentido, a Eucaristia se faz ponto e cume da nossa ação sacramental, pois, através da ação ritual, ou seja, do celebrar o rito, ela nos torna “oferendas perfeitas ao Pai”. Falamos também da união dessa possibilidade de ação, isto é, daquilo que pretende o sacramento, com a ligação de sua conseqüência em nossa vida. Tudo isso ligado á fé, pois fé e vida caminham juntas. A Igreja diz que a norma da oração é a norma da fé e vice-versa. Também falamos da natureza dialogal da nossa adesão à fé, uma vez concedida através dos sacramentos e da nossa inserção na vida da Igreja através dos sacramentos da iniciação cristã.

Neste artigo vamos tratar da celebração eucarística, a Missa, por assim dizer, e como ela pode se tornar, dada sua natureza sacramental, um verdadeiro caminho para adentrarmos no mistério pascal e a partir dele transformarmos a nós e ao mundo. É claro que o mistério não é propriedade da liturgia, mas este mistério não é possível ser alcançado sem a mediação litúrgica, é por isso que celebramos. Celebramos não porque desejamos racionalizar nossa fé, mas porque desejamos que ela mesma possa nos transportar ao mistério pascal, evento-base que dá sustento à nossa fé.

Na missa nossa relação com Deus é de diálogo: depois dos ritos iniciais, na liturgia da Palavra, Deus nos fala e nós ouvimos, é o conjunto das leituras proclamadas e cantadas e da homilia. Em seguida, damos nossa adesão à Palavra, professando nossa fé no Creio, e respondemos a esta mesma Palavra, suplicando pelas necessidades do mundo, na oração dos fiéis, pois queremos que todos também façam sua adesão a essa fé.

Já na liturgia eucarística, lembramos dos grandes feitos de Deus na história, enviando seu Filho e ele mesmo se fazendo oferta ao Pai. Damos graças por isso, fazemos memória e suplicamos ao Pai que acolha nossa oferta. Esta mesma oferta, que é Jesus Cristo, o Verbo feito carne que se faz alimento para a comunidade, é a hora da partilha, da comunhão. Comemos e bebemos juntos num gesto de comunhão fraterna. O rito da partilha reforça nossa ação também fora da missa, no cotidiano.

Finalmente, levamos essa memória para nossas vidas, onde passamos a glorificar a Deus nos nossos gestos e ações do cotidiano. Na bênção final somos conduzidos a proclamar o mistério já fora do rito, na vida normal, na família, na escola e no trabalho. Ao despedir a assembleia, o diácono sempre diz: glorificai a Deus com vossas vidas!...

Todas essas ações transcendem o agir da comunidade reunida que se oferece para glorificar ao Pai e se edificar ao mesmo tempo. Essa relação se dá desde a escuta da Palavra até a comunhão eucarística. Os elementos da celebração eucarística: ritos iniciais, liturgia da Palavra, liturgia eucarística e ritos finais são os fios condutores para adentrarmos no mistério. Aliás, adentramos no mistério com as nossas fraquezas e deficiências, mas os ritos condicionam as nossas posturas, eles nos dão a possibilidade de “nos reerguermos” e nos potencializar para fazermos isso com inteireza. Contudo, as características não muito positivas de nossa pessoa são também transubstanciadas na missa, que é Eucaristia, banquete, ação de graças. É essa a nossa meta, na "carona" que pegamos com Cristo, ao se ofertar ao Pai, somos transformados como oferenda. Vale a pena repetir o que disse no artigo anterior: de fato, rezamos e cantamos na prece eucarística: “fazei de nós uma perfeita oferenda”.

Portanto, podemos concluir que celebrar a Eucaristia nos coloca neste patamar: o da transformação universal. É a partir daí que estendemos o mistério para nossa ação social, tornando comunhão, partilha, ação de graças, todos os momentos de nossas relações diárias, seja com a família, com os vizinhos, com o bairro, com a cidade, com o mundo, com o a ecologia e todo o cosmos.

Já no plano da transformação pessoal, o mistério pascal que celebramos na Eucaristia tem a potencialidade de nos conduzir a esse fim, afinal de contas, transformando-me na Missa, não só com o rito, mas com o processo existencial que toca em minha intimidade, minha individualidade, mais que qualquer outra coisa, dou início à transformação do mundo que o Senhor deseja e da qual quer fazer-me instrumento.

Os sacramentos e a nossa experiência de fé


Eurivaldo Silva Ferreira

Muito de nossa experiência pessoal de fé é também alimento para nossa caminhada na Igreja. A fé é dada por Deus, mas pressupõe adesão ao seu convite. Em muitas passagens bíblicas Deus convida pessoas a formar com ele uma aliança e a ela aderir.

Foi assim com Abraão, com Moisés, com os profetas, com os reis e etc. Estes, fielmente aceitaram o convite, seguiram e serviram o Senhor. Da mesma forma, a partir da experiência de fé já concedida a cada um e cada uma pelo batismo, no qual somos constituídos Igreja, comunidade reunida, somos convocados para celebrar o Dia do Senhor.

É no Dia do Senhor, o Domingo, que nos reunimos em assembléia para fazer memória do Mistério Pascal de Cristo louvando e bendizendo a Deus por nos ter dado seu Filho. Aderindo à sua Palavra, firmando a nossa fé e ao mesmo tempo fazendo a experiência do mesmo Cristo que está presente na própria assembléia, na Palavra, na oração, no louvor, no pão e no vinho, pela força do Espírito Santo. Por meio do Espírito a experiência deixa de ser uma aproximação provisória para se transformar num conhecimento mais profundo, completo, consciente e frutuoso, a partir daí então consegue se integrar no mistério.

Os três primeiros sacramentos recebidos: Batismo, Eucaristia e Crisma, vão nos ajudar na compreensão desta experiência. Eles são as chaves para um bom começo no caminho da experiência cristã. A Igreja ensina que todos os sacramentos são portadores de sinais eficazes e realizadores em nossas vidas, isto posto, muito mais podemos dizer da Eucaristia. A Eucaristia nos conduz a uma fé mais desejável já que a nossa meta é sermos transformados em oferenda perfeita ao Pai, assim como cantamos em resposta de intervenção no meio da Oração Eucarística, na missa.

O Papa Bento XVI, em recente entrevista, diz que a celebração litúrgica dos sacramentos não deve ser algo estranho, mas que a partir deles os fiéis possam tirar proveito para suas relações sociais. E complementa afirmando que, dentre os sacramentos instituídos pelo próprio Cristo, está a Eucaristia, que nos proporciona uma pedagogia para aprendemos a conhecer Jesus Cristo, o Deus com rosto humano, de perto. É a Eucaristia que nos faz entrar em contato com o Cristo, aprendendo a escutá-lo e a deixá-lo entrar em nós. Bento XVI quer nos chamar a atenção para a questão da inteireza do ser, pois a fé requer que nos coloquemos inteiros nos sacramentos, eles atingem o corpo e o espírito do ser humano. Afinal de contas é o nosso corpo que entra em contato com o mistério que se deixa revelar à medida que nos abrimos a ele. Uma das possibilidades de abertura se dá pela fé.

Contudo, pode acontecer facilmente que o sacramento fique um pouco isolado em um contexto mais pragmático e se converta em uma realidade não totalmente integrada na totalidade de nosso ser humano. Neste caso, a necessidade de redescobrir os sacramentos como condução para a nossa plenitude, se faz urgente. Como se dá isso?
Vejamos um exemplo: por causa da contingência presente no mundo, nós, os cristãos, somos cobrados a toda hora, e exige-se que todos tenhamos uma opinião acerca de tudo, mas ela não mudará o estado das coisas porque, na maioria das vezes, somos colocados em contradição. O choque da nossa fé está exatamente aí, na contradição. Como relacionar isso com os sacramentos? Os sacramentos não dispensam a fé. Ora, se a nossa vivência cristã leva-nos a uma contradição daquilo que pretendem os sacramentos, de fato, de nada valeu recebê-los. Uma vida regrada pelos sacramentos é a nossa meta a ser alcançada, lembremo-nos do “fazei de nós uma perfeita oferenda”.
Deixar-se transformar por eles requer uma caminhada tanto no plano da fé como no sentido social para um propósito de firme decisão, abrindo-se para o mundo e para o outro. Quando a mente, o coração e o corpo trabalham juntos neste propósito, consegue-se aquilo que se almeja.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Cantando as Partes Fixas (Ordinário da Missa)

Relação entre música e rito: três tipos de canto na celebração, em grau de importância:

1) Missa em Canto – cantos do presidente da celebração e dos ministros em diálogo do Ordinário com a assembléia: saudação inicial do presidente, oração do dia, introdução ao Evangelho – diálogo, oração sobre as oferendas, prefácio, as diversas aclamações na Oração Eucarística, Oração do Senhor (Pai Nosso), com a introdução e o prolongamento, oração e saudação da paz, oração após a comunhão, as fórmulas de despedida.

2) Os cantos que constituem o rito: as partes do Comum da Missa, chamadas também de Partes Fixas ou Cantos do Ordinário, cantados em comum, pelo presidente, os ministros e toda a assembléia: Senhor, tende piedade de nós – Kyrie, Glória, Salmo responsorial, Creio (Símbolo), Preces, Santo, Aclamação memorial, Doxologia final.

3) Os cantos que acompanham o rito: as partes da Missa ou o próprio da Missa, cantos de abertura, aspersão do povo, aclamação ao Evangelho, resposta da oração universal dos fiéis, canto da apresentação dos dons, fração do pão (Cordeiro de Deus) e canto da comunhão. Ainda: canto do abraço da paz, pós-comunhão e louvor final (facultativos).

Observações:
a) Os cantos que constituem o rito são mais importantes que os que acompanham o rito. Vantagem: não precisam de papel, e sim cantados “de cor”, favorecendo a comunicação;

b) Não devem ser substituídos por paráfrases ou outros cantos;

c) As melodias respeitem os diversos gêneros e formas; diálogos, proclamação de leituras, salmodias, antífonas, hinos e cânticos, aclamações (Aleluia, Santo, Amém). Outras formas: balada, coral, spiritual, nossas canções;

d) Equilíbrio entre as partes cantadas, usando a criatividade, dependendo da festa ou da solenidade, da assembleia, das possibilidades;

e) Na escolha dos cantos, não fazer opção pelo novo, mas pelo melhor (Santo Agostinho);

f) Equilíbrio entre cantar tudo e entre cantar nada. Dosar.

g) Cantar A liturgia, não NA liturgia, um canto qualquer, dispersivo, mas o rito, a Palavra, a festa, o mistério celebrado.

Como deve ser a música litúrgica:
• Fácil e simples (não vulgar nem simplória)
• Melódica e não estridente (não pegajosa)
• Diatônica e de estilo silábico (cada sílaba corresponda à sua nota musical)
• Clareza de tom e modo
• Evoque um mundo de mistério e transcendência
• Esteja a serviço da palavra, cantando-a com clareza; tenha aderência à palavra
• Penetre e vivifique a palavra, meditando e aprofundando o texto


ATO PENITENCIAL:
Contexto: situa-se nos Ritos iniciais, cuja finalidade é a de fazer com que os fiéis, reunindo-se em assembléia, constituam uma comunhão e se disponham para ouvir atentamente a palavra de Deus e celebrar dignamente a Eucaristia. Podem ser omitidos ou realizados de modo peculiar se pertencentes a outras celebrações e se conectarem com a missa.

O que é: o canto do Ato Penitencial constitui o próprio rito da celebração, o que costumamos chamar de “ordinário da missa”. Testemunhos antigos nos revelam que os Kyrie estavam relacionados com a resposta da oração dos fiéis, na liturgia da Palavra; a cada invocação o povo respondia com o “Kyrie eleison”. Mais tarde, este canto foi incluído nos ritos iniciais da missa após o ato penitencial ou como uma variante dele.

Finalidade: aclamar o Senhor e implorar a sua misericórdia, o Kyrios. O “Senhor, tende piedade”, também é igualado ao Hino de louvor por se tratar de uma aclamação ao Senhor. Pode ser omitido quando é substituído pela bênção e aspersão da água, procissão dos ramos, celebração de uma das Horas do Ofício e outras que prevêem o Missal.

Forma de participação: por todos, participando dele o povo e o grupo de cantores. Há várias possibilidades de se cantar, conforme o Missal que sugere várias possibilidades de execução por parte de quem canta, sobretudo três formas que guardam a estrutura que lhe é característica: Senhor, Cristo, Senhor. É costume usar a forma grega: Kyrie eleison, Christe...

Sentido: A assembléia reunida que invoca e reconhece a infinita misericórdia do Senhor. Alias, Kyrios foi o nome mais comum dado a Cristo ressuscitado pelos primeiros cristãos.

HINO DE LOUVOR:
O que é: é um hino antiqüíssimo e venerável. Remonta aos primeiros séculos da era cristã. Historicamente só se cantava no Natal (é canto dos dos anjos que ressoou pela primeira vez nos ouvidos dos pastores de Belém) mais tarde foi introduzido a outros tempos e celebrações. Na sua origem, o Glória era entoado durante o ofício da manhã. Só bem mais tarde – por volta do século IV – é que aparece prescrito na liturgia eucarística do Natal, podendo aí ser entoado apenas pelo bispo. Durou muito tempo esse costume, porém, no final do século XI já há notícias do uso do Glória em todas as festas e domingos, exceto na Quaresma. Então os presbíteros já podiam entoá-lo. Também é constituído o próprio rito.

Finalidade: a Igreja, congregada no Espírito Santo, glorifica e suplica a Deus Pai e ao Cordeiro. Por isso podemos dizer que se trata de um hino doxológico.

Forma de execução: pode ser iniciado por quem preside, seguido pelo grupo de cantores , por toda a assembléia ou de forma alternada, coro e assembléia ou solista e assembléia. Em se tratando de um hino, deveria ser sempre cantado. Deve ser usado melodias simples que facilitem a execução, por se tratar de um texto mais longo.

Estrutura: sua estrutura pode ser dividida em 3 partes:
1) O canto dos anjos na noite do nascimento de Cristo: de “Glória...” até “...amados.”;
2) Os louvores a Deus Pai: de “Senhor Deus...” até “...por vossa imensa glória”;
3) os louvores seguidos de súplicas e aclamações a Cristo: de “Senhor Jesus Cristo...” até “...Altíssimo Jesus Cristo”. Termina com um final majestoso, incluindo o Espírito Santo, que não faz parte da aclamação. O ES aparece relacionado com o Filho, pois é neste que se concentram os louvores e as súplicas.

Sentido: dá-se graças pela glória de Deus Pai, pelo Filho, no Espírito. Porém, o Filho se mantém no centro do louvor, da aclamação e da súplica.

PROFISSÃO DE FÉ:O que é: este é um dos cantos que compõem o próprio rito. O Creio quer ser uma resposta de fé e de compromisso da comunidade e do indivíduo à Palavra de Deus; e principalmente assumir conscientemente a regra da fé que recebemos de Cristo através dos Apóstolos e chegada até nós no decorrer dos séculos. É portanto uma profissão de fé eclesial. Não se trata de uma simples enumeração de artigos de fé, nem uma síntese dogmática: é um resumo de toda a história santa, da Criação à Vida eterna, passando pela Encarnação, a vinda do Espírito Santo, o mistério da Igreja e dos Sacramentos. É uma memória da economia da salvação.

Forma da execução: o Símbolo, por ser uma forma de profissão de fé, seja cantado por todos, ou de forma que permita uma conveniente participação dos fiéis. Cantado maciçamente pela assembléia representa um sinal de unidade da própria Igreja, todavia, se o canto for alternado, a compreensão de unidade pode se dar de outra forma, a do conjunto. O símbolo ou profissão de fé deve ser cantado ou dito pelo sacerdote com o povo aos domingos e solenidades; pode-se também dizê-lo em celebrações especiais de caráter mais solene. Quando cantado, é entoado pelo sacerdote ou, se for oportuno, pelo cantor ou pelo grupo de cantores; é cantado por todo o povo junto, ou pelo povo alternando com o grupo de cantores. A forma mais apropriada é o Niceno-Constantinopolitano. Os instrumentos limitem-se deste canto a um acompanhamento discreto, apenas para apoiar as vozes, variando de acordo com o grupo coral que canta.

Finalidade: tem por objetivo levar todo o povo reunido a responder à palavra de Deus anunciada da sagrada Escritura e explicada pela homilia, bem como, proclamando a regra da fé através de fórmula aprovada para o uso litúrgico, recordar sua e professar os grandes mistérios da fé, antes de iniciar sua celebração na Eucaristia. É pelo símbolo que a assembléia reunida faz sua adesão de fé, seu assentimento, após ouvir a palavra, antes que se inicie a liturgia eucarística.

ORAÇÃO UNIVERSAL OU DOS FIÉIS:
Finalidade: na oração universal, ou oração dos fiéis, exercendo a sua função sacerdotal, o povo suplica por todos os homens. Convém que normalmente se faça esta oração nas missas com o povo, de tal sorte que se reze: pela Santa Igreja, pelos governantes, pelos que sofrem necessidades, por todos os homens e pelo bem-estar e salvação de todo o mundo. Por ocasião de celebrações especiais como Matrimônio, Exéquias, as intenções podem referir-se estreitamente àquelas circunstâncias. Na Igreja primitiva, nesta hora os catecúmenos se retiravam, ficando só os iniciados para a celebração da Eucaristia.

Sentido: depois de ter escutado com amor a Palavra que lhe revela alguns dos aspectos do Mistério da salvação, o povo de Deus coloca-se no meio de tosos os homens; no exercício de sua função sacerdotal, ele suplica por todos os homens. É universal porque leva a assembléia a transcender seus próprios horizontes; é dos fiéis porque os batizados são solidários com toda a humanidade, com suas dificuldades, suas alegrias e esperanças, e através da oração eles exercem seu “sacerdócio régio” no meio do mundo.

Forma de execução: sem dúvida, uma oração cantada tem um significado mais profundo e mais eclesial do que uma oração simplesmente falada; ainda mais pelo aspecto comunitário do canto, uma vez que esta é a oração da Comunidade dos fiéis. A IGMR valoriza a execução desta oração pelo cantor, colocando-a como segunda opção, o que significa dizer que esta oração tem importância significativa quando cantada, o que lhe dá um caráter mais solene. Porém, se não for cantada, ao menos que o povo participe cantando pela resposta. O uníssono das vozes é o que exprime melhor a unidade de uma Igreja que reza, e dá uma força especial a esta prece; no entanto, o coral pode acompanhar o povo com uma polifonia homofônica. Neste caso os instrumentos apenas acompanham e apóiam suavemente a melodia.

SANTO:
Contexto: situa-se antes da Oração Eucarística, após o prefácio. Trata-se de um conjunto de aclamações oriundas da Sagrada Escritura. Tem sua origem no Oriente, século II. Trata-se de uma compilação de textos bíblicos, uma espécie de colcha de retalhos

Forma de execução: normalmente toda a assembléia e o sacerdote cantam este canto, numa atitude alegre, solene, porém, nada impede que o coral dê um colorido maior e o solenize, enriquecendo-o a vozes. Os instrumentos acompanham, incentivam e solenizam o canto da assembléia.

Sentido: É a conclusão do Prefácio, cuja aclamação, que é parte e abertura da oração Eucarística, expressa a assembléia unida aos espíritos celestes, proclamando que Deus é Santo, Senhor do Universo. É um dos pontos mais altos da prece eucarística, portanto deve ter um clima de manifestação gloriosa, de teofania, manifestação de Deus que habita os altos céus (a visão de Isaías). Se a variedade de diversos sons na união das vozes de uma mesma melodia já parece insinuar e simbolizar a unidade de uma cidade bem organizada, a união das vozes humanas em um mesmo canto aparece como uma adequada expressão comunitária. Assim, o Santo, unido às vozes do coro celestial, evoca a parusia gloriosa do fim dos tempos, ambiente de festa em que o céu e a terra se unem, reunindo num louvor cósmico e universal.

ACLAMAÇÕES DA PRECE EUCARÍSTICA
Algumas foram inseridas após o Concílio Vaticano II, que fomentou a participação ativa e frutuosa da assembléia.

Finalidade: têm a finalidade de promover uma participação ativa (SC 30). A atitude de quem canta as aclamações é de povo que aclama de pé, atitude do Ressuscitado e de ressuscitados no Cristo e por Ele. As aclamações da celebração eucarística têm caráter solene e pascal, como a Aclamação Memorial e o Amém.

Forma de execução: por toda a assembléia, acompanhada pelo grupo de cantores ou coro. Os instrumentos podem dar um maior colorido, principalmente os percussivos, solenizando as aclamações como verdadeiras expressões de um povo celebrante e alegre.

Sentido: não se trata de sinais externos da celebração comum, mas promovem e realizam a comunhão entre o sacerdote e o povo (IGMR 34). Lembram nossa dignidade povo sacerdotal que somos.

ACLAMAÇÃO MEMORIAL
Sentido: as três fórmulas oferecidas pelo Missal Romano expressam o anúncio do mistério Pascal, no qual o povo faz memória, comemorando o abaixamento e a glorificação do Senhor, e pedindo sua vinda. Tem um caráter pascal e não dramático-devocional.

Foi introduzida pelo Concílo Vaticano II. Não devem ser substituídas por expressões devocionais de fé na presença real de Jesus, nem por canto eucarístico.
Forma de execução: por se tratar de uma das aclamações mais importantes da missa, deve ser cantada por toda a assembléia, em resposta ao “ Eis o Mistério da Fé”, entoado por quem preside.

DOXOLOGIA FINAL
Sentido: é o louvor final, após a narrativa das maravilhas e benefícios de Deus pelo seu povo.
Forma de execução: como não é aclamação, não é proclamada por toda a assembléia, e sim por quem preside. Em resposta, a assembléia entoa o Amém (Aleluia, ou outras aclamações, conforme consta no Missal), que deve ser solene, vibrante, repetido, sinal de adesão, compromisso, concordância, comunhão. A doxologia final deve ser sempre cantada, devido à sua importância.
Este canto nos lembra nossa dignidade de povo sacerdotal, participanto com quam preside da prece eucarística.

PAI NOSSO
Origem: do próprio Cristo, seguindo as tradições judaicas que costumavam orar ao Pai através de sete petições, três “celestes” e as quatro seguintes “terrestre”. Trata-se de uma oração de grande exultação. Provavelmente foi intruduzida na missa por Santo Ambrósio, pelo século IV.

Sentido: todos unidos à oferta de Cristo, por Ele reconciliados com o Pai, podem exclamar com amor e confiança: “Pai- nosso...”. É a oração preparatória por excelência para a comunhão.

Forma de execução: convém mesmo que seja cantada numa melodia simples, em forma de cantilena ou gregoriano.
Não deve ser substituida por outras palavras que não as do próprio evangelho. O Pai Nosso na Missa não é conclusivo, e sim nos introduz ao rito da comunhão. Por isso não se diz o Amém no final.

Quem canta: toda a assembléia.

ORAÇÃO PELA PAZ – ABRAÇO DA PAZ
A saudação é sempre um gesto simbólico, e bastaria cumprimentar os que estão mais próximos. O rito não deve levar muito tempo. Não deve substituir ou abafar o canto do “Cordeiro de Deus”, que tem preferência, durante o rito da fração do pão. O mais importante é o abraço, e não o canto, que é facultativo.
Poderia ser entoado apenas pelo coral e reservado para circunstâncias especias ou pequenos grupos.

CORDEIRO DE DEUS
O que é: é uma prece litânica (em forma de ladainha). Há notícias de que no século VIII já era muito comum seu uso na liturgia. A invocação “dai-nos a paz” foi acrescentada posteriormente – por volta do século XIII. Na mesma época, nas missas dos defuntos, no lugar do “tende piedade de nós”, cantava-se: “dai a eles o repouso”, e no lugar do “dai-nos a paz”, cantava-se: “dai a eles o repouso eterno”.

Forma: é executado durante o rito da fração do pão, na liturgia eucarística. Dura enquanto durar o rito. Após cada invocação entoada pelo(a) cantor(a), a assembléia responde com o “tende piedade de nós” e, no final, com o “dai-nos a paz!”. Quanto aos instrumentos, acompanhamento discreto para apóiar a proposta do solista e a resposta do povo.

Sentido: a imagem do “Cordeiro” é eminentemente bíblica: João Batista nos apresenta Jesus como o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Recorda-nos o Cordeiro Pascal da nova e eterna Aliança – Cristo – que foi imolado. A palavra “Cordeiro” aparece várias vezes no livro do Apocalipse, sempre se referindo a Cristo. A prece especialmente faz alusão ao banquete escatológico das “Bodas do Cordeiro” de que fala o Apocalipse, significando que a Eucaristia é o sinal e o penhor.


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Bibliografia:
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CNBB. Estudos sobre os cantos da Missa. São Paulo: Paulinas, 1976. (Coleção Estudos da CNBB, 12).
CNBB. Animação da vida litúrgica no Brasil. São Paulo: Paulinas, 1989. (Coleção Documentos da CNBB, 43).
CNBB. A música litúrgica no Brasil. São Paulo: Paulus, 1999. (Coleção estudos da CNBB, 79).
CNBB. Princípios teológicos, litúrgicos, pastorais e estéticos. São Paulo: Edições CNBB, 2005.
FONSECA, Joaquim. Cantando a Missa e o ofício divino. São Paulo: Paulus, 2004. (Coleção Liturgia e Música, volume I)
GRUSZYNSKI, Alexandre H. Os cantos na celebração Eucarística – como está atualmente disciplinada a matéria. In: Teocomunicação – Revista de Teologia da PUC – Porto Alegre – RS nº 130 – Dezembro/2000. Rio Grande do Sul: Edipucrs, 2000. pp.659-694.
VATICANO II. As introduções gerais dos livros litúrgicos. São Paulo: Paulus, 2003.
DOCUMENTOS DA IGREJA. Documentos sobre a música litúrgica. São Paulo: Paulus, 2005.
DIAZ. Mauro Serrano. O canto e a música na celebração. In: Manual de Liturgia II: CELAM. São Paulo: Paulus, 2005. pp.275-308.
KOLLING, Miria T. Canto e música litúrgica. (artigo produzido para formação no campo musical-litúrgico).