quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Quaresma: origem e sentido do tempo de preparação à Páscoa

Eurivaldo Silva Ferreira
A celebração da Missa teve sua origem no Domingo. O Domingo era tão importante para as primeiras comunidades que faziam da reunião semanal o dia essencial para a celebração do mistério pascal, ou seja, fazer memória da Páscoa de Cristo. Os judeus que iam se ajuntando ao grupo dos cristãos também influenciaram essas comunidades em suas celebrações. A sensibilidade dessas comunidades voltadas ao sentido da celebração da páscoa judaica fez com que os primeiros cristãos organizassem uma festa anual da páscoa, esta girando em torno da passagem de Cristo da morte para a ressurreição. Ao redor dessa festa anual todas as outras celebrações vão se avizinhando e se formando, dando origem ao Tríduo Pascal, tal qual conhecemos hoje: Sexta-feira da Cruz, Sábado da Sepultura e Domingo da Ressurreição, assim o chamou Santo Agostinho.
Tal era o acento que as comunidades davam à ressurreição do Senhor, que o sábado à noite passou a ser importantíssimo, pois, segundo o costume judaico, a partir das seis horas já é o dia seguinte. Por isso, tendo em vista a reunião festiva no domingo da ressurreição, a alegria pascal passou a ser marcada pela grande vigília do domingo, na noite de sábado, hora e dia em que se faziam memória daquele que passou das trevas à grande luz. O sábado passou então a ser marcado pela celebração da Vigília Pascal, onde são lidos textos e orações que resgatam o sentido da páscoa do Antigo Testamento. Essa alegria foi prolongada por mais cinquenta dias depois da festa da Páscoa, à qual chamamos hoje de Tempo Pascal, culminando com a grande Festa de Pentecostes.
Historicamente temos aí os elementos fortes para considerar o alargamento da Páscoa, uma espécie de “depois”. Mas, e o “antes”, como se deu? Como então surgiu o tempo da Quaresma na Igreja?
Em meados do século III já se houve falar que aconteciam batizados na noite da Vigília Pascal. Também, antes da sexta-feira da Paixão, Tertuliano, na Igreja Oriental, fazia uma preparação para aqueles que iam passar pelas águas do batismo, chamada de missa de “reconciliação dos penitentes”. Esse fato, eminentemente batismal, deu origem ao tempo da Quaresma, justamente porque esse tempo tenha se desenvolvido num período marcado pela dedicação à última preparação dos que iam ser batizados, chamados de catecúmenos.
A Carta Preparatória para as Festas Pascais, de 1988, designa o tempo da Quaresma como um tempo com uma dupla característica: a reunião entre aqueles que serão batizados e os fiéis. Diz também que esse tempo penitencial contém a graça, oriunda de Deus. Vive-se a graça pelas vias apresentadas pela Igreja: os catecúmenos com a preparação para a admissão dos sacramentos da iniciação cristã, e os fieis, por meio da escuta mais frequente da Palavra de Deus e de uma oração mais intensa, adornada pelas atitudes penitenciais, renovam as promessas do batismo.  
Eis então os grandes motivos, cujo tempo Quaresmal, nos oferece a Igreja, a fim de que a preparação para a Páscoa do Senhor possa revitalizar a fé daqueles que são cristãos não praticantes ou que porventura se esqueceram de sua fé. Por isso, catecúmenos e fiéis são reunidos numa mesma celebração, e são interpelados pela mesma Palavra de Deus que ressoa em seus corações. Essas celebrações do tempo da Quaresma são marcadas por uma pedagogia catecumenal. Sobre essa pedagogia a Igreja deve traçar seus itinerários de fé, que são marcados por três grandes etapas ou momentos: o momento da fé-conversão, com a opção fundamental por Cristo, pelo contato com a Palavra de Deus; o momento litúrgico-sacramental, que insere no mistério de Cristo e da Igreja o catecúmeno que ainda não foi batizado e trabalhoso batismo do sacramento da penitência, naqueles que já são batizados e crismados; o momento duma mais profunda e plena participação na vida e missão da Igreja, que também chamamos de tempo da mistagogia.
Na Quaresma, fazendo memória do nosso próprio batismo, nós recordamos aquela graça, pela qual fomos inseridos um dia, mergulhando na água do Espírito, renascendo para uma vida nova. De fato, o tempo quaresmal, por sua força sacramental, nos coloca em prontidão para a escuta da Palavra e a oração, elementos essenciais que devem ser vividos também ao longo de todo ano litúrgico, mas que a Igreja chama para uma atenção particular e mais atenta neste tempo. Então, a ação memorial do batismo, para os que já foram iniciados na fé, nós a realizamos escutando a Palavra, orando em comunidade e celebrando na mesa comum a memória pascal do próprio Cristo.
Ao longo dos cinco domingos quaresmais de 2012, ao ouvirmos as leituras do Ano B, que propõem uma série de textos centrados no mistério da cruz gloriosa de Cristo segundo o evangelista João, os nossos corações se abram à escuta da Palavra de Deus, a fim de que, neste tempo que ele nos oferece, realize-se em nós a verdadeira conversão, o desejo de correspondermos ao seu amor vivendo uma vida santa (cf. Oração Coleta do 1º Domingo da Quaresma).
Assim, como diz a regra de São Bento, com a alegria do Espírito Santo e cheios do desejo espiritual, esperemos a santa Páscoa.

O tempo que toca o íntimo de nós

Eurivaldo Silva Ferreira

Introdução
Durante o Curso de Especialização em Liturgia, realizado pelo IFITEG e Rede Celebra de Animação Litúrgica, numa das orações da tarde, no momento da Recordação da Vida, alguém dizia que não tinha intimidade alguma com os feriados que acontecem durante o ano civil. Dia 21 de abril, por exemplo. Alguém é capaz de relacionar-se com este dia? Perguntavam. Dia 7 de setembro? Muda algo em minha existência por ocasião desse feriado? Dia 15 de novembro? O que acontece com a gente nesse dia? Essas afirmações interrogativas me causaram certa curiosidade, o que me levou a escrever esse artigo.
A relação desses feriados com algo que marca nossa existência tem a ver com o fato saudosista de nossa infância.  Lembro-me dessas ocasiões em que nossas professoras nos davam uma folha com um desenho, rodada ao mimeógrafo. Nossa tarefa era a de simplesmente pintar aquele desenho que representava o feriado comemorado naquela semana. Quem tem mais de 30 certamente já passou por essa experiência.
Naqueles dias de aulas com intensas reflexões, sempre permeadas pelas orações da manhã e da tarde, a impressão foi a de que aquilo que rezávamos era o eco daquilo que aprendíamos na sala de aula. Uma amiga de turma expressou-se dessa forma: “Descobri hoje que o tempo salva a gente!”. E ainda outra colega dizia: “Agora sim, eu vou começar a não ter mais pressa para fazer aquilo que tenho que fazer”.

Tempo de descarte
Nas expressões acima, sempre nos deparamos com afirmações-interrogações que percorrem nossa existência, nosso ser. Todas essas expressões foram reflexões apurada após um ciclo de dois dias de estudos sobre o Ano Litúrgico, com o prof. Laudimiro Borges, chamado carinhosamente por Mirim, presbítero de Belo Horizonte-MG.
Nessas expressões percebemos o quanto está controversa a mentalidade de que realmente o tempo que nos foi dado para viver, é marcado por algo fútil, algo que logo descartamos. É assim a mentalidade de hoje, vivemos do descarte, do adquirir facilmente produtos e abandonarmos outros. A tecnologia atual, em que muitos têm acesso, nos permite suprir ou substituir aparelhos eletrônicos e eletrodomésticos que compramos há não muito tempo, simplesmente porque já surgiram outros que superaram aqueles que nós possuímos.
É assim que acontece com nossas liturgias. Sempre pensamos que existe por aí uma missa melhor do que aquela que geralmente participamos. Quem nunca ouviu a expressão: “Ah, a missa do padre ‘x’ é mais animada do que a missa do padre ‘y’”, ou: “Lá na missa do padre fulano eu me sinto melhor do que na missa do padre beltrano”. Já paramos para perguntar porquê pensamos assim? Porque fazemos comparações até na hora de alimentar nossa fé?

Tempo de ajuntamento
Num mundo marcado pela mentalidade do descarte, do fútil, a proposta pedagógica contida no estudo, na reflexão e nas celebrações do Ano Litúrgico, traz em si um sentido de “ajuntamento” daquilo que antes sempre fora considerado como que momentos estanques na vida das comunidades de fé. Encontramos nas páginas da Bíblia a expressão “resto de Israel”. Também a origem de Jesus foi colocada em questão quando perguntam: “Será se de Nazaré pode sair alguma coisa boa?”.
Lemos também no Salmo 80 que Deus cuidou com carinho de uma videira, arrancando-a de um lugar e plantando-a noutro, podando seus ramos, alargando suas raízes, e tomando cuidado para que o javali selvagem não a pisasse, cercando-a de carinhos. A literatura bíblica nos ajuda a entender de modo inverso a compreensão de hoje, pois Deus não descartou aquela videira, mas simplesmente a cuidou com carinho e ternura, a fim de que ela desse frutos, ou seja, Deus fez um ajuntamento de povos fragmentados, a fim de constituir um só povo. A novidade que está aí é a de que Deus deu um tempo, cercado de amorosidade, ternura, compaixão, até que a videira atingisse sua fase de maturação, pronta para acolher sua Palavra e viver sua vontade. Será se o tempo de Deus é igual ao nosso tempo? Também está na Bíblia que “mil anos para Deus são como um dia”...

Ano Litúrgico, tempo de reunir fragmentos
Mas, com o Ano Litúrgico, com seus tempos e festas, com seus sinais e mistérios, acontecidos durante o ciclo de um ano, a Igreja nos apresenta uma forma de viver o “ajuntamento” de fragmentos, em busca de uma unidade. A essa unidade nós podemos chamar de Mistério Pascal de Cristo. Este acontece de ano em ano, por ocasião da páscoa da ressurreição, naquela grande noite da Vigília Pascal. Mas que percorre também todo domingo, como sendo uma repetição daquele dia pascal por excelência, em que a comunidade fez a experiência do Cristo ressuscitado no meio dela.
O que antes era considerado “engavetado”, numa espécie de “fragmentos”, agora, com a reforma do calendário litúrgico, em 1969, a Igreja passou a chamar de diferentes faces do mesmo mistério pascal de Cristo, ocorrendo em diversas datas e ocasiões do Ano Litúrgico, principalmente a cada domingo, ocasião em que a Igreja recorda a paixão, morte e ressurreição de Jesus, conforme diz a Sacrosanctum Concilium.

Redescobrir nos fragmentos a centralidade do mistério pascal
Assim, viver o Ano Litúrgico, na unidade e na centralidade do mistério pascal de Cristo, é redescobrir, celebrando, vivendo e contemplando a riqueza espiritual que cada tempo litúrgico contém e carrega em seu bojo, sempre na possibilidade de oferecer a quem celebra e participa ativa, frutuosa e conscientemente, a unidade completa do mistério pascal, por inteiro, por completo, fazendo-nos também seres inteiros, seres completos.
Desta forma, explorar o calendário litúrgico que está presente no Ano Litúrgico da Igreja, é não importar a fragmentação do modelo do descarte e do fútil que encontramos em nossas realidades sociais.
Perceber o Cristo como centro do Ano Litúrgico é nos percebemos a nós mesmos. Só assim o Ano Litúrgico é então sinal sacramental de nossas vidas, porque encontramos nele a medida com a qual o Cristo quer agir em nós, na nossa personalidade e na nossa pessoalidade, no decurso de um ano, vivendo nosso tempo no tempo do próprio Cristo.
Portanto, tendo o tempo como sinal sacramental do Ano Litúrgico, a quem chamamos de sinal sensível,  mergulhamos na realidade do mistério pascal de Cristo, que nos atinge por inteiro, da mesma forma que esse mesmo mistério se realiza em nós, fazendo-nos seres pascais.

Concluindo
Muitos desafios são nos colocados a partir da reflexão desse tema tão caro à vida da Igreja. Para nós, estudantes e pesquisadores da liturgia, resta-nos mergulhar nesse caminho pedagógico-espiritual, a fim de que nos deixemos alimentar e crescer com essa espiritualidade.
Aproveitando de todos os sinais presentes no Ano Litúrgico, possibilitamos que ele mesmo nos modele, direcionando nossas vidas ao forte apelo de Cristo que diz no Pai Nosso: “Que o Reino do Pai aconteça entre nós”, só assim fazemos já aqui na terra o exercício daquele Reino futuro, pelo qual almejamos. Só o Ano Litúrgico, com suas celebrações e festas, pode nos permitir isso.