sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Feliz Natal e abençoado 2008!




Veja, os sábios se puseram a caminho.
Seus pés andaram até Belém, mas seu
coração peregrinava para Deus.
Procuravam-no;
mas, enquanto o procuravam,
ele já os conduzia.
Comecemos nós também,
a viagem aventurosa do coração,
rumo a Deus.
Caminhemos!
E esqueçamos o que ficou para trás.
Tudo ainda é futuro,
Pois podemos encontrar a Deus,
e encontrá-lo sempre mais.

Karl Rahner

Núcleo da Rede Celebra - São Paulo - SP

A Páscoa nossa de cada dia



Os mistérios do tempo

Penha Carpanedo

A seção “A páscoa nossa de cada dia”, em nossa revista, é um espaço onde repartimos ecos de experiência ou meditação de quem mergulhou no mistério de Deus em sua vida e nos ajuda a traduzir no concreto de nosso cotidiano o que celebramos na liturgia.
Nesta edição trazemos mais uma vez a voz de Anselm Grün[1], agora sobre a convivência com o tempo , do seu livro No ritmo dos monges , editado pela Editora Paulinas. Embora o seu ponto de partida seja a comunidade monástica da qual faz parte, na Alemanha, o que ele propõe está muito próximo de toda pessoa que busca um equilíbrio interior numa cultura que “corre contra o tempo”.

Trata-se de re-descobrir o tempo, além do que é medido pelo relógio, no qual somos chamados/as a imprimir uma marca, a escrever uma história, a viver no limitado a eternidade de Deus. “Em um tempo que é medido somente pelo cronômetro, nada pode desabrochar”, diz o autor. E acrescenta:
“O tempo mensurável obriga-nos a ficar em um cotidiano rígido. O deus Kronos é um tirano. Hoje em dia, a maior parte das pessoas sofre, creio eu, a pressão de sua tirania. Mas o domínio do Kronos não leva a um aproveitamento efetivo do tempo. (...) Nenhuma novidade brota. Nada surge para ficar. Tudo passa freneticamente” (p. 13).

O termo Kairós fala do tempo em outra dimensão, tem a ver com o sétimo dia da criação em que Deus descansou de sua obra; diz respeito ao tempo da graça, ao dia da salvação. É o tempo qualificado pela encarnação do Verbo que irrompeu na história, “na plenitude do tempo”. Na perspectiva do Kairós , as horas não são as do relógio e sim as “horas de Deus” que nos fazem recordar que cada momento pertence a ele. Jesus, especialmente no evangelho de João, está profundamente sintonizado com a Hora de Deus em sua vida.

Nas tradições religiosas, os calendários têm essa função de garantir o kairós , de proteger espaços de liberdade de que o indivíduo tem necessidade para a sua saúde física e psíquica e que por si só teria dificuldade de preservar. Na tradição judaica e cristã, há uma verdadeira arquitetura do tempo em função não só do indivíduo, mas da comunidade. O tempo vivido em comum expressa a convicção de que o indivíduo não se basta a si próprio, nem a sociedade tem fim em si mesma e que ambos necessitam de uma dimensão de transcendência. Ao santificar determinado tempo à memória de Jesus, somos conduzidos para as fontes do nosso ser, onde a ditadura da economia e do consumo não nos atinge, e de onde podemos nos alegrar com a dádiva da Ressurreição de Jesus.

Quando na tradição judaica e cristã se consagram determinadas horas à oração, parte-se de uma relação com “o tempo em que Deus opera sua obra dentro de nós”, voltando a nossa atenção para o mistério de cada hora, associada às “Horas de Jesus”. Nos convida a “libertar o nosso tempo, que estamos ocupando com o trabalho, para deixar espaço para a oração” (p. 25). Anselm nos lembra que “é um desafio renovado deixarmo-nos lembrar pela ‘Hora' da manhã, a ‘Hora' do meio-dia, a ‘Hora' da tardinha e a ‘Hora' noturna, de que o nosso tempo é uma dádiva, é o tempo da graça divina” (p. 24-25).

Segundo Anselm, as horas do Ofício Divino nos põem em sintonia com o ritmo corporal e cósmico: “Mais acertado seria aperceber-se do ritmo interno do próprio corpo e do cosmos inteiro, e nisso se engajar. (...) Quando me entrego ao ritmo do tempo, não sinto o tempo como um tirano, ao qual devo servir como escravo, mas como dádiva, a meu serviço, que me torna possível perceber o mistério da vida e experimentar também o tempo como um espaço no qual me sinto à vontade” (p. 47).

Anselm chama a atenção também para a reciprocidade entre o ritmo interno de cada pessoa e o ritmo comum da hora marcada, da música, dos salmos. Esse ritmo comum ao qual cada pessoa se entrega voluntariamente é algo salutar, é algo que contribui para ordenar a vida e para garantir que o tempo não seja preenchido apenas com o trabalho. Também nos proporciona estruturar a vida no Cristo: pela manhã, a imagem do sol nascente nos liga vitalmente à sua ressurreição; sob a luz de Cristo começamos o dia. No ofício da noite, ao chegar a escuridão, acendemos a luz das velas e pedimos que Deus nos envie a luz de Cristo para iluminar a nossa noite e nos libertar de todo sentimento de culpa.

Esse ritmo diário marcado pelas horas articula-se com o ritmo semanal em que para cada dia é atribuído um sentido o qual transmite uma atmosfera profunda em relação ao mistério das nossas existências. Por exemplo, toda quinta-feira evoca o mistério da última ceia e a sexta-feira nos relembra a Cruz de Jesus. No Brasil, quem celebra com o Ofício Divino das Comunidades recorda na segunda-feira a obra criadora de Deus continuada no trabalho humano, na terça-feira a vinda de Deus em nosso mundo, e na quarta-feira faz memória das ações de Deus na história. No sábado, além da dimensão escatológica e da comunhão com as comunidades judaicas, se faz memória de Maria, a mãe do Senhor. E há dias que trazem a memória de um santo ou santa, ícone que nos inspira e nos anima no seguimento de Jesus. No ritmo semanal destaca-se o domingo, dia consagrado ao Senhor em memória de sua ressurreição, dia de descanso e de contemplação, de soberania do ser sobre o fazer.

No capítulo 5, Anselm fala sobre a importância do ritmo anual que se estrutura com base no ano litúrgico. Ele diz:
“Por sua seqüência interna e seus diversos pontos altos, implica uma tensão saudável. Põe a minha alma em contato com os temas mais importantes dos quais ela precisa para amadurecer e crescer. De acordo com C. G. Jung, poderíamos chamar o ano litúrgico de ‘sistema terapêutico', que me introduz nas esferas mais altas e profundas da minha alma e confronta minhas feridas com o destino de Jesus, tentando assim curá-las. O ciclo das diversas festas apresenta as mais importantes imagens arquetípicas conhecidas pela alma humana. Com isso, as festas movimentam a alma. Quando as acompanhamos e celebramos conscientemente, esses festejos nos centralizam e nos ajudam a encontrar nosso verdadeiro eu” (p. 91).

“Para as diversas festas e temporadas festivas, a liturgia conhece uma série de rituais. Para mim, esses ritos são salutares e criam (...) uma outra atmosfera. Os rituais nos unem e nos orientam, todos juntos, para Deus; ajudam-nos a celebrar uma festa ou uma temporada festiva conjuntamente, expressando nossos sentimentos e desejos.” (p. 92)

“Os rituais trazem em si uma força própria e criam um espaço saudável, no qual se pode mergulhar. Mas ao lado dos ritos comunitários, cada monge desenvolve seus rituais totalmente pessoais, nos quais ele exprime seu relacionamento com Deus de forma que corresponda à festa do dia. Meus ritos pessoais me ajudam a viver essas festas litúrgicas de uma forma profundamente pessoal. Todo ano, esses ritos trazem de volta alguma coisa em que eu confio e me dá consistência; além disso, arrumam para mim uma casa na qual me sinto à vontade.” (p. 92-3)

De fato, os tempos e as festas que voltam a cada ano, com as mesmas leituras, os mesmos cantos e orações, não é um monótono repetir-se das coisas, mas uma representação sacramental do mistério de Cristo e da sua Igreja. Não se trata de simples reprodução dramática da vida terrena de Cristo, é memória ritual da salvação que se realizou em Jesus ‘uma vez por todas', à qual damos nossa renovada adesão neste tempo da nossa existência.
Esses ritmos marcados pelas horas, pelos dias e pelas festas anuais que interrompem o trabalho, conferem ao tempo uma “qualidade espiritual” que “nos conduz para fora da seqüência determinada por prazos, de horas submetidas a alvos e planos, e deixa-nos mergulhar no manancial divino da existência, em que uma nova vida flui ao nosso encontro” (p. 111).

Essa maneira de relacionar-se com o tempo nos permite desenvolver a arte da atenção, que segundo Anselm, é “a arte da presença total em cada momento, é estar totalmente presente naquilo que se está fazendo agora”, que é diferente de refugiar-se no trabalho. Anselm lembra o termo custodire, usado por São Bento na Regra, que significa prestar atenção, vigiar, zelar, observar conscientemente “sobre os atos da vida” (cf. p. 122).

O tempo do advento, especialmente, põe ênfase nessa atitude da vigilância, que não é o esperar passivo, mas a plena atenção aos sinais do agora, para perceber dentro de nós e ao nosso redor a possibilidade de reverenciar a quem esperamos, nas mais diferentes formas em que se manifesta. O advento enfatiza o que é inerente a outros tempos e momentos litúrgicos, sempre situados entre o ontem e o amanhã, no tempo intermediário da história, chamando a atenção para o momento presente, para a nossa responsabilidade de fazer no pequeno o que almejamos para o macro e a eternidade.

A arte da atenção nos permite lidar de modo saudável com o tempo garantindo-lhe “duas qualidades: lentidão e velocidade” (p. 174). A esse propósito, diz o nosso autor:

“Rapidez não é a mesma coisa que agitação. Muitas pessoas, homens e mulheres, confundem trabalhar com levantar poeira. Estão constantemente estressados. Mas o que empreendem não dá nenhum resultado. (...) São agitadas e apressadas porque não estão concentradas nem atentas àquilo que estão realizando. Estão inteiramente dilaceradas. Por isso, um pressuposto essencial para se lidar bem com o tempo é alcançar clareza interna sem segundas intenções, (...) sem a preocupação de ter de se exibir aos outros ou tentar evitar qualquer erro” ( p. 163-4).

“A aceleração leva a uma exploração cada vez pior da natureza. A poluição do meio ambiente e a destruição de nossa terra têm de ser reparadas a altos custos” (p. 180).

“Não quero falar mal do tempo de relógio nem da fidelidade a um compromisso. É algo que tem muito sentido, ainda mais em um mundo cada vez mais complexo. Sem mútua combinação, marcando-se com precisão os encontros, nossa convivência hoje se tornaria um caos. (...) mas o tempo do relógio não pode tornar-se a única forma de tempo” (p. 208).


[1] Anselm Grün é monge beneditino de uma abadia na Alemanha, autor de muitos livros sobre espiritualidade publicados em 28 idiomas. Outras obras do autor: O céu começa em você , publicado pela Editora Vozes; Espiritualidade a partir de si mesmo , Editora Vozes; As exigências do silêncio , Editora Vozes.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Ano litúrgico - itinerário de fé (por Penha Carpanedo)

"A ano litúrgico tem como objetivo levar os fiéis a participarem do mistério de Cristo"
Penha Carpanedo diz sobre a memória ritual que o ano litúrgico traz em si; os tempos e as festas que voltam a cada ano não são uma representação das mesmas coisas, mas se trata da representação sacramental da memória de Cristo e de sua Igreja.
A liturgia é a primeira e a mais necessária fonte de espiritualidade (cf. SC 14). Esta afirmação é fruto de 60 anos de movimento litúrgico, em busca de unir liturgia e teologia (catequese), liturgia e espiritualidade (devoção).
A grande novidade do Concílio foi re-colocar no centro da vida cristã e da liturgia o mistério pascal. Cada celebração (Eucaristia, sacramentos, Ofício Divino, celebração da Palavra...), é memorial do mistério pascal de Cristo, ao longo do ano litúrgico, com seu ritmo anual, semanal e diário.
O ano litúrgico tem como objetivo levar os fiéis a participarem de todo o mistério de Cristo, desenvolvido no decurso de um ano. Com esta recordação a Igreja oferece aos fiéis as riquezas das obras e merecimentos do seu Senhor, a ponto de os tornar como que presentes no tempo, para que os fiéis, em contato com eles, se tornem repletos da graça da salvação (cf. SC 102).
O caminho de fé-conversão implica em etapas sucessivas em um movimento progressivo. O ano litúrgico corresponde a esta pedagogia. Os tempos e as festas que voltam a cada ano, com as mesmas leituras, os mesmos cantos e orações, não é um monótono repetir-se das coisas, mas uma representação sacramental do mistério de Cristo e da sua Igreja. Não se trata de simples reprodução dramática da vida terrena de Cristo, é memória ritual da salvação que se realizou em Jesus ‘uma vez por todas’ à qual, damos nossa renovada adesão.
É repetição de símbolos, gestos e palavras, que repercutem em nossa vida sempre com maior intensidade e nos permitem avançar no processo pascal de nossa identificação com Cristo, até atingirmos “o pleno conhecimento do Filho de Deus” (cf. Ef 4,13). Portanto, não podermos passar de um tempo a outro como se fossem roupas que vamos mudando superficialmente. Cada tempo e cada celebração é portadora de um sentido que pede toda a nossa atenção.

Adélia Prado fala sobre canto e liturgia



«Missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum», diz Adélia Prado

Escritora brasileira defende resgate da beleza na celebração da liturgia
Por Alexandre Ribeiro

APARECIDA, domingo, 2 de dezembro de 2007 (
ZENIT.org).- Ao defender o esmero com as celebrações litúrgicas e a beleza como uma «necessidade vital» que deve permeá-las, a escritora brasileira Adélia Prado afirma que «a missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum».
«A missa é a coisa mais absurdamente poética que existe. É o absolutamente novo sempre. É Cristo se encarnando, tendo a sua Paixão, morrendo e ressuscitando. Nós não temos de botar mais nada em cima disso, é só isso», enfatiza.
Poeta e prosadora, uma das mais renomadas escritoras brasileiras da atualidade, Adélia Prado, 71 anos, falou sobre o tema da linguagem poética e linguagem religiosa essa quinta-feira, em Aparecida (São Paulo), no contexto do evento «Vozes da Igreja», um festival musical e cultural.
Ao propor a discussão do resgate da beleza nas celebrações litúrgicas, Adélia Prado reconheceu que essa é uma preocupação que a tem ocupado «há muitos anos». «Como cristã de confissão católica, eu acredito que tenho o dever de não ignorar a questão», disse.
«Olha, gente – comentou com um tom de humor e lamento –, têm algumas celebrações que a gente sai da igreja com vontade de procurar um lugar para rezar.»
Como um primeiro ponto a ser debatido, Adélia colocou a questão do canto usado na liturgia. Especialmente o canto «que tem um novo significado quanto à participação popular», ele «muitas vezes não ajuda a rezar».
«O canto não é ungido, ele é feito, fazido, fabricado. É indispensável redescobrir o canto oração», disse, citando o padre católico Max Thurian, que, observador no Concílio Vaticano II ainda como calvinista, posteriormente converteu-se ao catolicismo e ordenou-se sacerdote.
Adélia Prado reforçou as observações, enfatizando que «o canto barulhento, com instrumentos ruidosos, os microfones altíssimos, não facilita a oração, mas impede o espaço de silêncio, de serenidade contemplativa».
Segundo a poetiza, «a palavra foi inventada para ser calada. É só depois que se cala que a gente ouve. A beleza de uma celebração e de qualquer coisa, a beleza da arte, é puro silêncio e pura audição».
«Nós não encontramos mais em nossas igrejas o espaço do silêncio. Eu estou falando da minha experiência, queira Deus que não seja essa a experiência aqui», comentou.
«Parece que há um horror ao vazio. Não se pode parar um minuto». «Não há silêncio. Não havendo silêncio, não há audição. Eu não ouço a palavra, porque eu não ouço o mistério, e eu estou celebrando o mistério», disse.
De acordo com a escritora mineira (natural de Divinópolis), «muitos procedimentos nossos são uma tentativa de domesticar aquilo que é inefável, que não pode ser domesticado, que é o absolutamente outro».
«Porque a coisa é tão indizível, a magnitude é tal, que eu não tenho palavras. E não ter palavras significa o quê? Que existe algo inefável e que eu devo tratar com toda reverência.»
Adélia Prado fez então críticas a interpretações equivocadas que se fizeram do Concílio Vaticano II na questão da reforma litúrgica.
«Não é o fato de ter passado do latim para a língua vernácula, no nosso caso o português, não é isso. Mas é que nessa passagem houve um barateamento. Nós barateamos a linguagem e o culto ficou empobrecido daquilo que é a sua própria natureza, que é a beleza.»
«A liturgia celebra o quê?» – questionou –. «O mistério. E que mistério é esse? É o mistério de uma criatura que reverencia e se prostra diante do Criador. É o humano diante do divino. Não há como colocar esse procedimento num nível de coisas banais ou comuns.»
Segundo Adélia, o erro está na suposição de que, para aproximar o povo de Deus, deve-se falar a linguagem do povo.
«Mas o que é a linguagem do povo? É aí que mora o equívoco», – disse –. «Não há ninguém que se acerca com maior reverência do mistério de Deus do que o próprio povo».
«O próprio povo é aquele que mais tem reverência pelo sagrado e pelo mistério», enfatizou.
«Como é que eu posso oferecer a esse povo uma música sem unção, orações fabricadas, que a gente vê tão multiplicadas e colocadas nos bancos das igrejas, e que nada têm a ver com essa magnitude que é o homem, humano, pecador, aproximar-se do mistério.»
Segundo a escritora brasileira, barateou-se o espaço do sagrado e da liturgia «com letras feias, com músicas feias, comportamentos vulgares na igreja».
«E está tão banalizado isso tudo nas nossas igrejas que até o modo de falar de Deus a gente mudou. Fala-se o “Chefão”, “Aquele lá de cima”, o “Paizão”, o “Companheirão”.»
«Deus não é um “Companheirão”, ele não é um “Paizão”, ele não é um “Chefão”. Eu estou falando de outra coisa. Então há a necessidade de uma linguagem diferente, para que o povo de Deus possa realmente experimentar ou buscar aquilo que a Palavra está anunciando», afirmou.
Para Adélia Prado, «linguagem religiosa é linguagem da criatura reconhecendo que é criatura, que Deus não é manipulável, e que eu dependo dele para mover a minha mão».
Com esse espírito, enfatizou, «nossa Igreja pode criar naturalmente ritos e comportamentos, cantos absolutamente maravilhosos, porque verdadeiros».
Ao destacar que a missa é como um poema e que não suporta enfeites, Adélia Prado afirmou que a celebração da Eucaristia «é perfeita» na sua simplicidade.
«Nós colocamos enfeites, cartazes para todo lado, procissão disso, procissão daquilo, procissão do ofertório, procissão da Bíblia, palmas para Jesus. São coisas que vão quebrando o ritmo. E a missa tem um ritmo, é a liturgia da Palavra, as ofertas, a consagração… então ela é inteirinha.»
«A arte a gente não entende. Fé a gente não entende. É algo dirigido à terceira margem da alma, ao sentimento, à sensibilidade. Não precisa inventar nada, nada, nada», disse Adélia.
E encerrou declamando um poema seu, cujo um fragmento diz:
Ninguém vê o cordeiro degolado na mesa,o sangue sobre as toalhas,seu lancinante grito,ninguém”.(by Cecilia Aly)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

"Que rito é este?"


A criança como motor de partida do culto cristão
Luiz Carlos Ramos

De acordo com a tradição bíblica, Deus é a personagem central do culto que é servido pelos celebrantes, pelos fiéis, e pelos seres celestiais, bem como por todos os que morreram por causa do seu testemunho e que agora se acham constantemente diante do trono, glorificando o Altíssimo (cf. Is 6.1-8; Sl 5; 22.22,1; 104.21; 117; 134; Hb 1.6-7,14; Ap 7.9-15).

No culto se dá um encontro dialógico e interativo entre Deus e o seu povo. E é o próprio Deus quem toma sempre a iniciativa de nos estender o convite da sua graça. Aqueles e aquelas que, em resposta a tal convite, comparecem a esse encontro constituem a congregação de fiéis. Esta, por sua vez, é formada por pessoas de todas as idades. Isso, que parece óbvio quando dito assim, desta maneira, quando confrontado com a prática de muitas igrejas, se mostra bem menos notório.

Há igrejas feitas por idosos e para idosos, nas quais não há lugar para a expressão da juventude, ou das crianças. Também há, e é cada vez mais predominante, as igrejas de jovens e para jovens, nas quais crianças e idosos não têm vez. O que ainda não se vê é uma igreja das crianças e para a as crianças (e ainda bem que não! pelas razões que pretendemos expor neste breve artigo).

Quando se diz que a congregação de fiéis é formada por pessoas de todas as idades, devemos ter claro que ao culto comparecem bebês, crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. Teoricamente, todos deveriam ter sua participação garantida, representada ou contemplada: no tipo de liturgia que se celebra, no repertório dos cânticos litúrgicos, no tipo de linguagem adotada, etc.

Em uma palavra: Ou a igreja é de todos ou não é Igreja! Igreja só para jovens não é Igreja, é point; igreja só para idosos não é Igreja, é clube de saudosistas.

O lugar da criança no culto cristão

Merece destaque, entretanto, a participação da criança, no culto, por uma razão histórica e bíblica. Como sabemos, o centro da liturgia cristã é a Páscoa que é também o centro da liturgia judaica. Ora, nas instruções dadas por ocasião da instituição da Páscoa judaica, a criança desempenha um papel central, e é ela que dá início às solenidades.
Vejamos alguns dos relatos bíblicos da instituição da celebração da Páscoa:

Êxodo 12.24-27: “24 Guardai, pois, isto por estatuto para vós outros e para vossos filhos, para sempre. 25 E, uma vez dentro na terra que o SENHOR vos dará, como tem dito, observai este rito. 26 Quando vossos filhos vos perguntarem [grifo nosso]: Que rito é este? 27 Respondereis: É o sacrifício da Páscoa ao SENHOR, que passou por cima das casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu os egípcios e livrou as nossas casas. Então, o povo se inclinou e adorou.”.
Êxodo 13.14: “Quando teu filho [grifo nosso] amanhã te perguntar: Que é isso? Responder-lhe-ás: O SENHOR com mão forte nos tirou da casa da servidão.”
Deuteronômio 6.20: Quando teu filho [grifo nosso], no futuro, te perguntar, dizendo: Que significam os testemunhos, e estatutos, e juízos que o SENHOR, nosso Deus, vos ordenou?

À luz dessas referências, podemos nos perguntar pelo lugar que as crianças devem ter no culto. Ao que tudo indica, as grandes experiências de fé do povo de Deus eram celebradas ciclicamente, justamente, pensando na transmissão dessa espiritualidade para as novas gerações. As crianças eram, assim, o elemento disparador de tais liturgias. Tais cerimoniais eram concebidas especialmente para responder aos insistentes por quês? das crianças: “quando vossos filhos vos perguntarem: que rito é este? Responder-lhe-ás...” (Êx 12.26 e par.).

As crianças eram, portanto, o ponto de partida e, em grande parte, a razão de ser da liturgia. É como se o culto fosse um veículo em cujo motor precisasse ser dada a partida por um sistema eficiente de ignição, para então empreender efetivamente sua viagem.

Ao que parece, não faria muito sentido fazer essas festas sem a presença das crianças. Sim, é verdade que os adultos sempre se beneficiam muito de tais festas, mas para o adulto os ritos são sempre repetição, e tem função de reforço conceitual e prático, mas para as crianças é descoberta e novidade deslumbrante de um novo universo espiritual.

Assim sendo, se alguém, depois de Deus, tiver que ser privilegiado no culto cristão, esse alguém são as crianças.

Criança e culto: alternativas vigentes

Qual seria, então, a melhor alternativa em relação à questão criança-e-culto? As alternativas mais freqüentemente empregadas pelas igrejas protestantes são: (1) Modelo do culto infantil que consiste em tirar a criança do culto e fazer um outro (infantilizado) à parte para elas; (2) o modelo híbrido que tolera as crianças no culto parcialmente, mas somente até o momento da prédica, quando, então, elas são retiradas do templo para um lugar onde terão atividades “diferenciadas” (a palavra é mais bonita do que o resultado!); (3) e o modelo deixa como está pra ver como fica que simplesmente ignora a presença da criança, segundo o qual se dá prosseguimento à liturgia fazendo de conta que as crianças não estão presentes.

O terceiro modelo está fora da nossa cogitação. Entretanto, por mais bem intencionados que sejam os projetos do culto infantil e o projeto híbrido, ambos também acabam se tornando antipedagógicos, pois excluem o a criança do culto, total ou parcialmente. Ora, se a criança é retirada do templo quando pequena, não há como esperar que, quando for adolescente, ela queira permanecer no culto. Pois tudo que aprendeu é que aquele não é um ambiente na qual ela é bem-vinda.

Muito mais raras são as alternativas inclusivas. Isso é em parte compreensível, mas não justificável. Compreensível, porque exige esforço, preocupação e dá trabalho. É injustificável, porque não há nada mais importante no reino de Deus do que as crianças: afinal, foi isso que aprendemos (ou deveríamos ter aprendido) de Jesus em Mateus 18.1-2 e em Lucas 9.47.

Como, afinal, a criança pode ser incluída plenamente no culto? Disso trataremos a seguir.
O que as crianças podem e não podem fazer no culto?
Eis uma boa questão para a Igreja se perguntar: afinal o que as crianças podem e o que não podem no culto? Talvez o leitor ou leitora desta breve reflexão se surpreenda com a resposta enfática que aqui se dará, afirmando que não há nada, liturgicamente falando, que as crianças não possam fazer no culto cristão – nada que um adulto não faça.

O que acontece, amiúde, nos nossos cultos? Em geral, oramos, cantamos, lemos as Escrituras Sagradas, testemunhamos, proclamamos o Evangelho, comungamos, ofertamos, nos comprometemos, assumimos compromissos, etc.

Ora, quais desses atos litúrgicos estão fora das possibilidades das crianças? Meu filho, que hoje está com quatro anos, já fazia oração antes mesmo de aprender a andar – então, por que nunca convidamos uma criança para fazer uma oração nos nossos cultos de domingo? E quanto a cantar, por que também não cantamos com elas? pois todos, mesmo os bebês, adoram (inclusive no sentido literal do termo) cantar (afinal, deles nasce o perfeito louvor, dizem as Escrituras Sagradas em Mt 21.16). Ler a Bíblia: desde que alfabetizada, o que acontece cada vez mais cedo, uma criança com sete, ou seis, talvez cinco anos, pode fazer leituras, da Bíblia ou de outros textos litúrgicos, tal como qualquer adulto – não seria fantástico se todo culto tivesse a participação de crianças na direção de certas leituras? Quanto aos testemunhos e à proclamação, também aí as crianças podem ser sujeitos. Elas podem, inclusive, participar da prédica, encenando passagens bíblicas, interpretando ilustrações (praticamente todo sermão recorre às ilustrações para aclarar pontos obscuros ou conceitos abstratos). O mero fato de o pregador, ou pregadora, ter em mente que seu público também é formado por crianças, já pode servir como estímulo para a busca de uma linguagem mais expressiva, o uso de vocabulário mais substantivo, objetivo e concreto; para o emprego de imagens visuais e outros recursos sensíveis (ao tato, ao paladar, ao olfato, por exemplo). Fazendo isso, todos se beneficiariam, pois quando usamos linguagem abstrata, somente os adultos (e nem mesmo todos eles) conseguem acompanhar, mas a linguagem objetiva e os substantivos concretos, todos, crianças e adultos, podem e gostam de acompanhar. E assim, também as crianças podem assumir seus compromissos como sujeitos na comunidade de fé e na construção do reino de Deus.

Quanto aos bebês, quando presentes ao culto, podem não entender conceitualmente o que está se passando, mas afetivamente eles estão aprendendo, desde cedo, que ali eles são bem-vindos, que são amados e que ali é seu lugar: no meio da comunidade de fé.

Preparar a liturgia de um culto inclusivo, para todos, no qual todos são considerados, representados, e cuja participação está garantida, não é assim algo tão difícil ou diferente do convencional. Basta que, na hora em que estivermos escolhendo o repertório dos hinos, das leituras, dos gestos e atos litúrgicos, lembrar de incluir as crianças, assim como fazemos naturalmente com os jovens e os adultos. Por exemplo, prever músicas próprias para as crianças (ora, se elas podem cantar nossos hinos, porque não podemos cantar os delas?). E na hora de distribuir as tarefas na condução do culto, lembrarmo-nos de atribuir funções às crianças, que pode ser desde a direção de orações e leituras, até a cooperação em atos como o recolhimento das ofertas, a distribuição da Ceia, e encenações e performances várias, a depender unicamente da criatividade, da boa vontade e do bom senso dos responsáveis pelo preparo e direção da liturgia dos cultos ordinários das nossas igrejas.

Conclusões

Para finalizar estas modestas considerações sobre a criança e o culto cristão, podemos sintetizar algumas das principais conclusões a que chegarmos, a partir do exposto acima:
Deus é sempre o principal sujeito do culto Cristão que, mediante o convite da sua graça, nos reúne como seu povo num encontro celebrativo, dialógico e interativo.
O povo é a congregação de fiéis que, em resposta ao convite da graça divina, presta-lhe seu serviço no culto comunitário.
A congregação de fiéis é formada por todas as pessoas da comunidade: bebês, crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos.
As pessoas responsáveis pela preparação e pela direção da liturgia devem levar em conta a totalidade do povo de Deus, o que implica em envolver, contemplar, incluir a todos nos vários atos litúrgicos.
Dentre todos os fiéis, são as crianças as que merecem maior cuidado e atenção, pois, à luz da tradição bíblica, são elas que deflagram o culto com suas perguntas fundamentais, às quais a comunidade celebrante oferece sua resposta de fé, no exercício de uma espiritualidade que é, assim, transmitida de geração em geração.
Não há nada que um adulto faça no culto que não possa ser feito pelas crianças. Portanto, elas não devem ser meras espectadoras do culto, mas sujeitos ativos da dinâmica litúrgica.
Colocar isso em prática... Eis aí um belo desafio!
(Setembro de 2007)