sábado, 16 de fevereiro de 2008

Leitura orante da Bíblia


Passeando pelo universo cibernético, em meio a um compromisso da Rede Celebra - núcleo São Paulo - SP, um amigo também da Rede, José Zanello, me indicou estes interessantes passos para a leitura orante da Bíblia. Trata-se de um conceito simples, mas que vale a pena ser seguido conforme nas ilustrações e dicas abaixo:


1 – Iniciar, invocando o Espírito Santo



2 – Leitura lenta e atenta ao texto


3 – Momento de silêncio interior, lembrar o que leu


4 – Ver bem o sentido de cada frase


5 – Atualizar e ruminar a palavra, ligando-a com a vida






6 – Ampliar a visão, ligando o texto com outros textos bíblicos paralelos






7 – Ler de novo, rezando e respondendo a Deus



8 – Formular um compromisso de vida





9 – Rezar um salmo apropriado




10 – Escolher uma frase como resumo para memorizar

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

CANTAR COM OS MAIS NOVOS



CATEQUESE - MÚSICA – LITURGIA
por António José Ferreira, extraído do site http://www.meloteca.com/

Introdução

A música é uma prática cultural de grande relevo nas sociedades contemporâneas, em especial entre os mais jovens. Tendo consciência disso mesmo, a revista francesa Catéchèse dedicou em 1988 um número inteiro à música e ao canto na Catequese. Não tenho conhecimento que alguma publicação do gênero tenha sido feita alguma vez em Portugal. Contudo, a Igreja não pode hoje ignorar as novas tecnologias da informação e comunicação; com gastos relativamente reduzidos, pode promover estudos e disponibilizar elementos sobre um aspecto incontornável da atividade evangelizadora. Através da música o amor se exprime, a tristeza se transforma, a fé se estrutura. Cantar é assumir o seu dom e pobreza, é dar e receber.

A transmissão de idéias através do canto desempenhou um papel único quando a leitura e a escrita estavam confinadas a uma minoria. Com alfabetização generalizada, a música não deixa de ter um papel importantíssimo na transmissão de conteúdos, objetos e idéias - na publicidade, nas canções de intervenção na Liturgia e na Catequese.
Mas há que ter sempre em conta que tudo o que é produzido e manuseado pelo homem, pode ser objeto de uso e de abuso. Através da música se vendem detergentes e perfumes, carros e celulares, se propagam as ideologias, democracias e ditaduras.

1. Canto, mais do que palavras

Para nos encontrarmos realmente com a beleza, precisamos de tempo e disponibilidade. E a beleza pode abrir-se, como janela, caminho e ponte. Linguagem universal (nasce com os homens enquanto seres aptos para cantar e tocar), a música é um veículo natural de comunhão entre pessoas. Nela se une a diversidade dos povos, raças, sexos, idades, condições, temperamentos e línguas.

Cantar é tão gratuito e natural como amar. Não pertence à ordem da necessidade, da eficácia, da rentabilidade, mas da gratuidade e da entrega. A voz não é instrumento que se possa comprar ou vender: é-nos dado como dom, mas torna-se conquista na medida que se desenvolve a técnica vocal.

Foi dito: "quando falo, digo o que penso; quando canto, digo o que sinto". O aforisma é questionável; todavia, é verdade que através da música podemos revelar o que pensamos e sentimos a um nível diferente da linguagem falada. Desde os primórdios da Igreja, os missionários entenderam o papel crucial do canto na evangelização e no louvor. Não se pode cantar com verdade o Pai-nosso sem perdoar os irmãos, não se pode dizer "ouvi-nos, Senhor", sem humildade, não se pode cantar "O amor de Deus repousa em mim" sem um coração dócil.

Os cânticos e canções aprendidos na infância perduram ao longo da vida. São uma arte de operar em conjunto, gerando comunhão. Nesse sentido, não é essencial que todos cantem perfeitamente afinados; mais importante do que isso é que o canto coletivo exprima as vivências do grupo e das pessoas. Perante as dificuldades que, por vezes, as crianças experimentam em partilhar com os pais, o canto em conjunto é uma forma de colocar os pais em presença do que o grupo vive.

O canto é um elemento insubstituível na catequese e na liturgia. "O ritmo e a melodia ajudam à memorização de um texto" (E. Uberall, Chanter avec les enfants, in Signes Musiques 37, 4). Todos os manuais do percurso catequético sugerem um complemento musical, com gravações e cadernos. "O canto educa a fé" (A. M. AITKEN, Un répertoire de chants en catéchèse, in Église qui chante 252 (1990) 13).

O texto é memorizado através do ritmo, da melodia, da rima, das palavras ou idéias que se repetem, da seqüência lógica das afirmações. A rima cruzada, (ABA'B', ou ABCB') tão importante na poesia popular, e a organização do poema em versos regulares de 7 sílabas (chamado redondilha maior[1]), ajuda à memorização do texto. É o caso do cântico de Teodoro Dias de Sousa "A família de Jesus / é quem ouve o que Ele diz. / Quem fizer como ele fez, / viverá sempre feliz!"[2].

Assim, "o canto é um modo privilegiado de dizer um texto." (Isabelle Schiffman, Chanter avec les enfants, in Catéchèse 113 (1988) 59). Daí que não se possa cantar qualquer coisa. A uma pergunta de um membro de um coro de aldeia, um sacerdote que ia presidir à celebração respondeu um dia: "cantem qualquer coisa, desde que não seja a vareira!” (de Ovar, cidade e conselho do distrio de Aveiro, Portugal, o mesmo que ovarense, ovarino ou varino). Descontando o sentido de humor da resposta, a verdade é que existe muitas vezes uma conceição do canto como algo muito secundário e ornamental.

A seleção dos repertórios de canto deve colocar questões como esta: o texto possui boa qualidade literária, é rico em linguagem simbólica? Na relação texto - música, as sonoridades e rimas são naturais ou forçadas? A passagem de uma estrofe a outra está bem construída? O conjunto da melodia combina com o "tom" do texto? A memorização é fácil? No que se refere aos conteúdos da fé, Deus é apresentado de forma coerente com o que se apresenta da catequese?
Há cânticos cuja mensagem é de compreensão imediata ("Deus gosta de ti muito mais que possas imaginar"); outros apresentam uma feitura poética simples ("Eu sou uma carta escrita por Deus pelo poder do Espírito"); outros têm uma mensagem mais complexa de inspiração bíblica ("A semente é a tua palavra, Senhor").

A componente textual é muito importante e deve adaptar-se à psicologia da criança. Simplicidade não é simplismo, infantilidade não é infantilismo. A linguagem deve ser adaptada às crianças, mas não pueril. Um texto pode ser simples, ter qualidade poética e riqueza simbólica, apontando o Mistério de Deus que não se reduz às palavras. O vocabulário não tem que ser todo da idade das crianças: os mais novos também são capazes de aceder à dimensão poética e à riqueza simbólica dos cânticos. Mais do que explicar racionalmente, o canto abre portas ao Mistério.

[1] redondilha maior (ou simplesmente redondilha) = verso de 7 sílabas poéticas; redondilha menor = verso de 5 sílabas poéticas. Para entender melhor, pesquise no seguinte endereço: http://www.tvcultura.com.br/aloescola/linguaportuguesa/estilistica/generospoeticos-redondilhas.htm. Em breve publicarei um artigo neste blog sobre as formas da poesia clássica e moderna.
[2] Como esse artigo foi extraído do site www.meloteca.com, muito provavelmente este seja um autor português, cuja indicação do texto desconhecemos.

CANTAR COM OS MAIS NOVOS

2. Cantar na catequese e na liturgia

por Antonio José Ferreira

Se a caminhada de fé se dirige ao ser humano na sua totalidade e não apenas à inteligência, a música pode dar um contributo fundamental nas sessões de catequese. "Todas as cordas do ser humano são tocadas no ato de cantar" (Stanislas Lalane, Jouez et chantez, in Catéchèse, 5). O canto, especialmente o canto em conjunto, "exige e opera um investimento de todas as capacidades do ser humano: o corporal, o cerebral, o sensível, o emocional, o irracional, o simbólico" (Claude Duchesneau).

Além disso, "no ato de cantar, como no ato de fé, o ouvir tem prioridade em relação ao compreender" (Jean-Yves Hameline, Acte de chant, acte de foi, in Catéchèse, 43). A fé passa pelos sentidos e, de modo especial, pelo ouvido. O canto existe para ser vivido, mas não chegará a sê-lo se não for ouvido.

Não se canta, na catequese, como na liturgia, para manter as crianças sossegadas, embora isso possa ser um efeito desejável. Canta-se porque os melhores sentimentos transbordam em poesia, porque o ritmo ajuda à memorização, porque a melodia envolve numa experiência de Deus.

O canto parte da experiência humana e deve fecundar a experiência humana, recordando o compromisso e o sentido de missão. Enquanto parte integrante da liturgia e da catequese, o canto educa as crianças e alimenta a sua fé. Os catequistas não devem, por isso, escudar-se na falta de ouvido para nunca oferecer música às crianças. Podem, ao menos, recorrer às gravações e outros recursos disponíveis, como a ajuda de um grupo de cantores já iniciados, por exemplo.

A liturgia não é catequese, nem para as crianças, nem para os adultos. Há que ser prudente para que a liturgia não se transforme em catequese. Se a catequese é essencialmente aprendizagem, a liturgia é essencialmente oração, súplica e louvor. Entre os cânticos para a catequese e os cânticos para a liturgia, há diferenças que lhes vêm da própria finalidade. O canto catequético é mais da ordem da aprendizagem; o cântico litúrgico é mais da ordem da celebração e do louvor.
O canto catequético é pedagógico; o canto litúrgico é mistagógico. O canto catequético o está ao serviço da caminhada de fé, colocando a criança numa relação de amor a Deus e de compromisso com os irmãos; e o canto litúrgico, não aprofunda também ele a fé? Todavia, o canto litúrgico e o canto catequético não são estanques. A catequese conduz à liturgia e a liturgia remete para a catequese. Na catequese também se ora, e na liturgia também se aprende.

CANTAR COM OS MAIS NOVOS

3. Música nas Missas com Crianças

por Antonio José Ferreira

Em determinados momentos do percurso catequético, pelo menos, há toda a vantagem em fazer celebrações com crianças. A celebração só com crianças (com alguns adultos apenas) é minoritária, sobretudo ao Domingo. O mais comum entre nós é as crianças participarem nas assembléias dominicais gerais, muitas vezes sem a participação ativa desejável. As crianças aprendem fazendo, e louvam a Deus pela ação e o movimento.

Como em qualquer eucaristia, a participação nas Missas com Crianças deve ser ativa, interior e exterior. O Diretório Romano das Missas com Crianças reconhece ao canto um papel muito importante, dando prioridade às aclamações, sobretudo as aclamações da Oração Eucarística. Os cantos da Glória e do Credo, o Santo, e Cordeiro de Deus podem ser adaptados, não devendo ser excessivamente longos, além das qualidades que são naturalmente exigíveis à música e aos textos.

O canto entre as leituras deve ser sálmico e ter melodia simples. Deve cantar-se ao menos o refrão, como ressonância da 1ª leitura. Uma hipótese é usar em certos tempos litúrgicos um refrão comum que vá ao encontro da primeira leitura. Um salmo para o Advento, dois salmos para a Quaresma e outros dois para a Páscoa, por exemplo, são hipóteses a ter em conta.

Depois da homilia pode cantar-se um cântico adequado (DMC 46). O canto contribui para a assimilação da Palavra de Deus e é uma forma importantíssima de participação das crianças.
A assembléia tem um protagonismo inalienável no canto. Participar é ouvir, mas não se limita à audição. Mesmo quando não há animador da assembléia, mesmo quando não há órgão ou outros instrumentos, mesmo quando não há coro, há sempre a possibilidade de os cristãos reunidos cantarem. Um animador poderá ajudar muito as crianças, com um gesto, um sorriso, um olhar.
O canto a solo é muitas esquecido nas missas com crianças. Assim como se pode pedir às crianças que façam uma leitura ou uma oração, pode-se pedir e preparar as crianças mais dotadas para cantarem como solistas, uma estrofe de um cântico ou uma invocação. Pode-se criar também um pequeno coro de crianças vocalmente mais aptas, coro que dê segurança e dialogue com o grande coro.

O modo de execução dos cânticos pode melhorar e diversificar-se também com um refrão cantado e frases de louvor recitadas (após a comunhão). Outro modo de fazer em certas eucaristias e certos momentos é as crianças cantarem os solos e a assembléia o refrão, ou então um grupo de crianças dialogar com o coro adulto. Uma relação estreita entre o animador da liturgia e o animador da catequese pode abrir novas perspectivas ao canto com os mais novos.

Muitas crianças tiveram ou têm Educação Musical na escola, incluindo flauta de bisel (flauta doce), um instrumento doce que pode enriquecer alguns cânticos. Acompanhamento, prelúdios e interlúdios de órgão ou violão, podem enriquecer as celebrações e motivar os adolescentes, jovens e crianças. Certos instrumentos de percussão como as maracas, afoxé, triângulo, podem valorizar a celebração litúrgica e a catequese.

CANTAR COM OS MAIS NOVOS

4. Cantar o quê? Repertórios e coletâneas

por Antonio José Ferreira

Escolher cânticos para a catequese ou para uma celebração é uma tarefa de responsabilidade que deve ter em conta as crianças e os laços que se pretende criar. Quando as crianças estão em larga maioria, devem ter um repertório específico, mesmo que não seja muito abundante. É desejável um repertório de cânticos para crianças, tal como há versões da Bíblia especialmente adaptadas à infância.

Ao selecionar um cântico ou canção, o catequista deve ter em conta a relação do texto com a melodia, coerência entre o canto e o momento catequético, a adaptação do canto ao grupo (com a sua idade e características). Quanto maior é o grupo, maior é a necessidade da música, do canto e do ritmo. E, embora na catequese os grupos não sejam muito grandes, nem por isso o gesto vocal deixa de ser importante.

Um bom cântico para crianças é o que "fala ao corpo, que faz ver, ouvir e sentir, que põe em movimento todos os sentidos para por em movimento o próprio sentido" (M. SCOUARNEC, La foi des enfants a besoin du chant... de tous!, in Église qui Chante 252(1990)2). Um bom cântico é o que parece novo e renovador depois de ouvido muitas vezes; o que não presta, só é novo quando se ouve pela primeira vez.

"Vários cânticos concebidos para a catequese serão bem-vindos à celebração e, inversamente, os catequistas poderão retomar cânticos do Domingo com as crianças" (Uberall, Chanter, 4). Alguns cânticos devem facilitar a sua integração na comunidade, inclusive cânticos do ordinário da missa, cânticos estáveis. Ensinar às crianças alguns cânticos da assembléia dominical é facilitar a sua integração. A conjugação entre a catequese e a liturgia far-se-á de um modo harmonioso: "a justeza é a irmã da justiça" (Thibault, Je chante, 8).

Quando estão as crianças estão com adultos em número significativo, convém equilibrar os repertórios. Há inclusive certos cânticos que foram compostos para crianças e podem ser expressão de fé para os adultos ("Quanta alegria é para mim tua presença", "Bendito sejas, Senhor nosso Pai", "Bendito és Tu, Senhor"). Cânticos compostos para crianças podem ser também expressão de adultos, e cânticos compostos para adultos podem ser expressão da fé das crianças.

Os padres e animadores litúrgicos devem fazer com que as crianças participem sempre na liturgia com alguma acção: um cântico, o ofertório, uma oração, um gesto, palmas, um instrumento de percussão.

Para as crianças, não são apropriados cânticos com um âmbito demasiado grande, com notas muito graves ou muito agudas. As vozes das crianças, que ainda não estão plenamente desenvolvidas, movimentam-se à vontade entre no espaço de uma oitava: dó e dó, ou ré e ré. Os ritmos sincopados próprios de estilos musicais nascidos do Jazz não põe dificuldades e até são do agrado dos jovens. Para estes, o tipo de canção ideal para a catequese estará mais próximo da canção ligeira.

Na preparação do ensaio de canto ou da sessão de catequese, há que ter discernimento na resposta a estas questões: cantar o quê? Ouvir o quê? O cântico adapta-se à idade das crianças? É difícil? É demasiado infantil? O acento das sílabas coincide com os acentos musicais? O canto deve exprimir corretamente a fé, fazendo a ligação entre a fé e os comportamentos morais. As paráfrases (adaptações) da Bíblia, não devem empobrecer, confundir ou distorcer a Palavra, mas antes explicitá-la.

A posição do animador ajuda a distinguir a catequese da liturgia: na catequese, o catequista está no centro; na liturgia é Cristo que está no centro. Na catequese, Deus é aquele de quem se fala; na liturgia é mais aquele com quem se fala; na catequese é um grupo que caminha e se forma; na liturgia é a assembléia formada que louva o Senhor pelas suas maravilhas e se alimenta com a Palavra e o corpo de Cristo. Mas é evidente que a catequese comporta um espaço de oração e conduz a ela; e a liturgia comporta a dimensão memorial e leva ao seu aprofundamento. A liturgia não é um apêndice da catequese, mas sua fonte, seu cume e sua meta. No que se refere à Música, a catequese é tempo de aprender e explicar o cântico; a liturgia é tempo de o cantar.

Nem todas as crianças que vão à catequese vão à missa, mas as crianças que vão à missa vão também à catequese, salvo raras exceções. A liturgia será aprendizagem de uma outra dimensão da fé cristã, a da oração comunitária. "A catequese culmina e desabrocha na celebração" (M. Thibault, Je chante avec tout mon être, in Église qui chante 252 (1990) 8).

CANTAR COM OS MAIS NOVOS

5. Corporeidade e expressão gestual

por Antonio José Ferreira

O corpo de Jesus de Nazaré não foi uma aparência de corpo, mas corpo humano verdadeiro, que se sofreu e se alegrou, morreu e ressuscitou. Na corporeidade do Filho de Deus o corpo humano passou a valer mais. "Desde que o nosso Deus se fez carne, o corpo humano torna-se templo do Espírito. Quando celebramos, isso diz respeito a todo o corpo" (E. UBERALL, Celébrer avec tout son corps, in Signes Musiques 38(1997)4).

Gestos movimento e criatividade visual na catequese e nas missas com crianças são importantes pela própria natureza da Igreja, da salvação destinada ao homem todo e da psicologia das crianças, que gostam de cantar e fazer gestos. A expressão corporal revela o ser de cada um.

Graças ao gesto, a corporeidade torna-se um símbolo, a pessoa comunica e comunica-se a si mesma e ao grupo. A gestualidade é um elemento inevitável. Não se trata de ceder a uma moda, mas de ajudar à participação efetiva em que o Concílio Vaticano II tanto insiste. É importante que cada um se sinta bem no seu corpo.

Em certas regiões do mundo, os cristãos estão habituados a participar na liturgia com o corpo todo, e não apenas com os ouvidos, olhos e boca. O canto e a palavra devem falar ao ser humano como um todo: corpo, inteligência, memória e sensibilidade. Todavia a expressão gestual e a corporeidade são vistas na Igreja com alguma desconfiança, o que se deve, por vezes, à falta de senso e de qualidade da expressão gestual. Certa espiritualidade mortificou excessivamente o corpo pelo sacrifício e pela ascese. A própria liturgia se tornou muito cerebral e intelectual, em detrimento da dimensão física e corporal. O contacto com culturas africanas, por exemplo, e a influência de movimentos como o da Renovação Carismática Católica ou as próprias seitas, contribuiu para a redescoberta do papel do corpo na oração.

Contudo, numa cultura cheia de contrastes e desequilíbrios, dá-se às vezes uma importância exagerada ao corpo, como se pode ver em certas operações plásticas, em dietas violentas e perigosas, em ginásticas obsessivas.

Há assembléias habituadas a exprimirem-se gestualmente e outras que experimentam muita inibição quando a gestualidade ultrapassa o que é feito segundo os hábitos estabelecidos. Há os acham importante as celebrações serem mais gestuais e dinâmicas, e os que desconfiam de gestos não previstos nos rituais como um perigo de profanidade.

Em si mesmo, canto já é uma excelente atividade física da assembléia. Não se canta apenas com a boca: canta-se com a respiração, com a caixa torácica, com o cérebro, com os lábios. Todo o corpo vibra e respira. Há que ser todo no que se canta, ser todo no que se faz, habitar inteiro o ato que se realiza.

O gesto precede e segue a palavra, seja o presidente, o leitor, ou o cantor. Certos gestos, nunca banalizados ou generalizados (gesto da paz, aspersão da água, procissões, palmas, levantar ou dar as mãos no Pai-nosso, erguer a vela, ou os ramos no Domingo da Paixão...) podem ajudar a exprimir de uma forma mais existencial a fé da comunidade cristã. O corpo humano é o instrumento musical mais natural e mais acessível.

Erguer as mãos num aleluia ou num hosana (ou outra aclamação), abrir as mãos num cântico da apresentação dos dons são gestos muito simples que podem ajudar a criança a exprimir a sua fé de um modo mais perfeito. E há palavras cuja mímica é muito fácil: eu, tu, nós, terra, céu, Deus, amar, sim, não, casa, rocha, sopro, passar, luz, estrelas, amigo, Bíblia, vida, subir, descer, dormir, ir, vir... Pedir às crianças sobre a forma gestual a ser utilizada pode também ser uma maneira de aprofundar a mensagem e memorizar o cântico.

No entanto, a eucaristia será sempre oração e não espetáculo, tanto para os mais novos como para os adultos. Não se vai à igreja para aplaudir uma audição ou criticar um concerto. Cada cristão, nas circunstâncias em que se encontra, vive o mistério de Cristo na celebração. A gestualidade na catequese deve ser simples e o número de gestos deve adaptar-se à idade e ao tipo de cântico e de oração em que ele se insere.

Uma grande complexidade gestual centra a atenção na atividade e desvia do essencial, que é a mensagem. A própria regência deve ser segura e sóbria, ajudando as crianças a cantarem verdadeiramente em coro, entrando no momento exato, mantendo o andamento adequado e terminando ao mesmo tempo.

CANTAR COM OS MAIS NOVOS

6. O lugar dos jovens

Por Antonio José Ferreira

O processo de socialização dos adolescentes que gostam de estar sós e usar meios individuais de ouvir música como o walkman ou mp3, deve ser completado com a prática coletiva de concertos e instrumentos ou canto. A catequese pode ser um contributo importante nesse sentido, superando alguma tendência individualista.

Se a música e a expressão gestual têm um lugar insubstituível na vida humana e, de modo especial, na infância, o catequista deve pensar na gestualidade que poderá acompanhar o canto, mesmo que venha a pedir sugestões às crianças e jovens. Quando as celebrações são majoritariamente jovens, ou há um número razoável de crianças, a preparação da liturgia deve ter em conta essa circunstância para que a participação seja realmente ativa.

A questão do lugar dos jovens nas celebrações cristãs é importante. Há poucos adolescentes e jovens nas missas dominicais, e muitas vezes aborrecem-se, porque falta ritmo à liturgia. É preciso ter em conta a sua presença, as suas preferências repertoriais, com um desempenho ativo e não apenas consciente.

A geração dos 60-75 anos nasceu na época dos meios de comunicação frios (jornal, rádio); a juventude atual cresce com os meios de comunicação quentes (televisão, CD-rom, internet, imagens). A maior parte das liturgias cristãs funciona nos esquemas antigos de comunicação: muitas palavras, poucos movimentos, cânticos pouco dinâmicos, gestos estereotipados e pouca criatividade. As dificuldades dos jovens, que esperam convivialidade, melodias atraentes e ritmadas, participação afetiva e efetiva nas celebrações passam muito pelo caráter estático da liturgia.

O meio em que os jovens estão inseridos é a cultura do espectacular. Embora a liturgia não seja um espectáculo mas celebração da fé, há lugar para certos elementos que são também espectaculares: a questão da luz, os símbolos, o ritmo, o andamento, as rupturas e as alternâncias. Há lugar para a criatividade, a adaptação e a variedade, como é reconhecido pela "Introdução Geral do Missal Romano": procissões, silêncios estratégicos, aclamações, diálogos, iluminação, instrumentos, palmas, gestos, espontaneidade.

Se a cultura juvenil é contrastada, é preciso jogar melhor com os momentos de interiorização e exteriorização. Embora haja riscos, a emoção, a afectividade e a sensibilidade (não a sensualidade) têm lugar na celebração e na própria catequese. Os jovens apreciam os grupos de oração, o ambiente caloroso dos pequenos grupos, de preferência ao institucional e ao hierárquico. A celebração comunitária na igreja pode ser o cume de uma reflexão e de uma vivência em pequenos grupos cristãos.

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7. Ensinar cantando. Sugestões para ensaios

Por Antonio José Ferreira

A fase da escuta é crucial no ensino/aprendizagem de um cântico ou canção. O modo de ensinar um cântico é fundamental para criar ambiente e suscitar a adesão das crianças, de forma segura e viva. As crianças fixam bem pois a memória é nelas uma faculdade em desenvolvimento. O animador ou catequista ensaia, na semana seguinte, retoma o cântico e ele fica consolidado.

O ritmo livre e muito irregular, como os salmos, dificilmente resulta com grupos grandes de crianças. Mas não é impossível uma criança cantar o salmo e o grupo ou a assembleia responder com o refrão. Além disso, para que a mensagem se entranhe na vida, é necessário que as crianças gostem do cântico e sintam prazer em cantá-lo.

O catequista deve estar atendo e dar indicações básicos aos educandos: não gritar, articular as palavras, respirar bem.

Quanto ao suporte escrito dos cânticos para as crianças, há sempre riscos, tanto nas fotocópias como nos livros e pastas, uma vez que as crianças facilmente se podem distrair a folheá-los.

O animador deve conhecer com perfeição o cântico ou a canção, sem desafinações, hesitações ou enganos. É muito difícil corrigir uma má entoação ou um ritmo distorcido.

O ensaio de canto, poderá fazer-se de vários modos:

Cantar o cântico todo seguido, primeiro, e depois por partes;
Frase por frase;
Aprender o texto e a música, separada ou conjuntamente;
Decompor a música em ritmo;
Ensinar de cor, ou com folhas;
Começar pelo princípio, pelo refrão, ou por frases que se repetem;
Utilizar um instrumento que dê a melodia apenas ou que acompanhe com acordes;
Utilizar uma gravação para a aprendizagem;
Cantar com a gravação exige do catequista que esteja muito seguro e atento para se manter no ritmo e andamento exactos:
Fazer saborear o texto antes de ensaiar o canto, valorizando a reflexão e interiorização da mensagem.

Tomemos o cântico de entrada "Vamos entrando na casa de Deus. Vamos fazer a festa com Jesus!". Qual é a casa de Deus? Que festa vamos fazer?

Peguemos no cântico "A semente é a tua palavra, Senhor". O que é uma semente? Se a Palavra de Deus é semente, onde há-de ser semeada? O que é preciso para que ela germine e cresça?

O catequista deve interrogar-se previamente sobre quais as imagens mais interessantes e sobre o que merece ser explicado. Um cântico torna-se, assim, uma catequese.

Pode escolher-se uma nota de partida que permita às crianças cantar naturalmente. Além disso, não se deve cantar demasiado lento. As crianças têm um ritmo cardíaco mais rápido que os adultos, e a caixa torácica é menor. O andamento deve permitir às crianças cantar uma frase sem esforço. O animador do canto deve dar espaço às crianças, deixando-as cantar sozinhas, sem abafar a voz das crianças com uma voz eventualmente menos bela e até mais desafinada.

Há cânticos com certos intervalos semelhantes ou iguais. Em caso de necessidade, pode-se aproximar certos intervalos vizinhos, para ressaltar a diferença. Deve executar-se com precisão a duração de cada nota, exemplificando até o ritmo com o batimento da mão numa superfície ou com palmas.

Cantar a vozes é difícil, mas o cânone pode perfeitamente ser uma primeira experiência da polifonia. Pode jogar-se com a alternância crianças - adultos, pequeno coro - grande coro, solista - coro, repeitando o cântico que se está a entoar. Um toque de ferrinhos no fim de uma frase, um ritmo regular de tambor, o abanar certo de uma maraca podem enriquecer o canto e a participação das crianças e jovens.

CANTAR COM OS MAIS NOVOS

Conclusão

Por Antonio José Ferreira

A música é dispensável em determinadas catequeses e celebrações litúrgicas, mas é indispensável na liturgia ou na catequese no seu todo. O canto reforça a consciência do grupo e permite um acolhimento digno da Palavra de Deus.

O canto, no texto, na música e na forma como se executa é um reflexo da Igreja, da comunidade e de si mesmo. Afirma Michel Scouarnec: "Diz-me o que cantas, dir-te-ei a tua fé!"
Tal como a catequese, ou enquanto catequese, o canto é um caminho que se percorre como experiência de Deus, uma janela que nos abre à brisa do Espírito Santo, uma ponte que nos liga ao mistério de Cristo. Na Igreja, a formação e celebração não podem viver uma sem a outra. Com base nessa premissa, o próprio canto na catequese e na liturgia andam indissociavelmente ligados.

As pedagogias musicais activas (Orff, Kodaly), dão preponderância à experiência vivida, tanto na voz como nos instrumentos, ao ritmo e movimento corporal. Promovem o desenvolvimento da improvisação, a partir da invenção de melodias simples e ritmadas, ou sob a forma de pergunta e resposta. Nesse sentido, tem aspectos em comum com a catequese. O catequista promove a participação activa e não apenas a audição, respeita os destinatários do Evangelho sem o normalizar.

A qualidade das sessões de catequese passa também por melhor formação, melhores recursos, melhores colectâneas, melhores cânticos e canções. Justifica-se assim mais investimento numa área fundamental da Igreja. Os meios disponíveis sobre canto com crianças e jovens na Internet é insignificante.

É consensual a importância que as novas tecnologias da informação e comunicação têm na tarefa evangelizadora da Igreja e na formação. Publico este trabalho julgando dar algum contributo à reflexão sobre o tema, esperando melhorá-lo com base em documentos do Magistério, e estudos psicológicos e musicológicos.

BIBLIOGRAFIA

Jouez et chantez. Pratiques musicales aujourd'hui, in Catéchèse, nº 113, Octobre 1988.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Rede Celebra - 2º Encontro dos núcleos do Estado de SP


Memória, por Eurivaldo S. Ferreira


Aconteceu em Indaiatuba – SP, na Casa de Retiros Vila Kostka, o 2º Encontro dos Núcleos da Rede Celebra no Estado de São Paulo. Nos dias 31 de agosto, 1 e 2 de setembro de 2007, os grupos que lá estiveram reunidos vivenciaram momentos de partilha da caminhada da Rede Celebra e de estudo da teologia litúrgico-musical, além da abordagem de uma espiritualidade litúrgica a partir do Ofício Divino das Comunidades.

Tiveram prioridade as pessoas que participarem no primeiro encontro da Rede, ocorrido em 03 de setembro do ano anterior, além de outras pessoas que, movidas pelo desejo de participação na Rede, anseiam pela busca de uma espiritualidade consistente, de forma popular, mas estritamente litúrgica, quer rezando o Ofício Divino das Comunidades, quer compartilhando suas experiências pessoais e litúrgicas a serviço de sua comunidade eclesial. Esses desejos só puderam ser coroados com significativas celebrações do Ofício Divino das Comunidades em vários momentos.

Esta expressão da comunidade orante, que é uma característica natural do mesmo Ofício, pode ser percebida na própria comunidade, numa perspectiva de abertura ao próximo, ao mesmo tempo que numa atitude que parte do interior de cada um. Certamente num espaço com uma ambientação preparada e propícia para a contemplação, a oração ligada ao sol nascente e ao sol poente, ajudou os participantes a também fazer essa relação com o próprio Mistério de Cristo em suas vidas.

Muito colaborou com a reflexão a Ir. Penha Carpanedo, membro da Rede Celebra Nacional e do núcleo da capital de São Paulo, apresentando ao grupo um breve panorama do Oficio Divino das Comunidades, sua história, sua teologia e sua espiritualidade. Penha ainda incentivou os grupos a descobrirem o elemento central da reflexão anterior, retomando o sentido do celebrar através das horas. Muito pedagogicamente, introduziu os participantes nesta reflexão, destacando seus elementos principais.

Márcio Antonio de Almeida, membro da Rede Celebra do núcleo da capital de SP, contribuiu com um ensaio de cantos e, atribuindo-se do método mistagógico, introduziu os participantes nos elementos cantados da Vigília e do Ofício da manhã. Ainda, em contato com a natureza, num espaço aberto, pôde o grupo apoderar-se da mesma reflexão mistagógica, num sentido mais aprofundado do canto como elemento do ODC, utilizando-se do salmo 30. Através da leitura orante e atenta deste salmo, fez com que se descobrisse a atitude que cada qual se coloca diante da realidade que o próprio salmo traz, e, como conseqüência, o leitor orante é convidado a cantá-lo com conhecimento de causa, cantar de coração, de modo “que a mente concorde com a voz” (SC 90).

Os participantes também apresentaram de maneira resumida a caminhada de seus próprios núcleos, destacando experiências positivas e as dificuldades na caminhada. Foi o momento também de se destacar a vontade que os núcleos têm em manter as chamadas escolas de formação, quer no sentido bíblico-litúrgico, quer no sentido pastoral, além de incentivar novas escolas em regiões ainda carentes dessa prática. Isso vem preencher uma necessidade já abordada no primeiro encontro dos núcleos, em 2006.

Claro que muito do que se viveu nestes três dias é fruto de uma experiência já bem amadurecida pela Celebra Nacional, cujo compromisso assumido em sua última assembléia está firmado em dois pilares: formação e articulação. De fato, quem pertence à Rede, se inclui nela em função de um serviço à Igreja, e uma das características da Rede Celebra é fazer e oferecer conteúdo com consistência, mas sem muito barulho...

E é espelhado na reflexão que se partiu em nível nacional, que a Rede Celebra do Estado de São Paulo firma sua caminhada e aponta para novos rumos, ampliando suas fronteiras e atuando numa Igreja toda ministerial, acreditando na força do ministério leigo como fruto dessa renovação e, ao mesmo tempo, pensando nas ideologias superficiais muitas vezes apresentadas nas realidades eclesiais e em movimentos específicos.

A arte de cantar os Salmos

Situando o Salmo responsorial
O Salmo responsorial é parte integrante da Liturgia da Palavra, na celebração da Eucaristia. É também o elemento principal da Liturgia das Horas (Ofício Divino), juntamente com os cantos bíblicos do Primeiro e do Novo Testamento. A Liturgia da Palavra é constituída pelas leituras da Sagrada Escritura e pelos cantos que ocorrem entre elas (Salmo e Aclamação ao Evangelho), sendo desenvolvida pela homilia, a profissão de fé e a oração universal ou dos fiéis. A IGMR diz que o Salmo oferece uma grande importância litúrgica e pastoral, por favorecer a meditação da palavra de Deus.
Os primeiros cristãos viam nos salmos a própria profecia de Jesus, o Cristo, por isso, o costume de cantar os salmos remonta dos primeiros séculos da história do cristianismo. Herdada do culto da sinagoga judaica, foram incorporados à liturgia cristã muito cedo. S. Agostinho (século V) fala com certa eloquência em suas homilias do valor cantado dos salmos durante a liturgia da palavra. Aliás, os santos Padres sempre consideraram o salmo responsorial como uma “leitura cantada”.
O Salmo responsorial constitui um comentário lírico-poético da primeira leitura, a esta respondendo. Ocupa um espaço significativo como resposta por dois motivos: 1) porque é escolhido para responder à palavra de Deus proclamada, sendo a própria palavra, e 2) prolongando, assim, seu sentido teológico-litúrgico e espiritual, estreitando os laços de amor e fidelidade no diálogo da Aliança entre Deus e seu povo. Este prolongamento vai-se dando enquanto o(a) salmista entoa as estrofes e a assembleia repete o mesmo refrão.
O salmo é constituído de um refrão, que nem sempre faz parte do próprio texto oficial, algumas vezes é extraído de outros livros da Bíblia. Há também salmos que são extraídos de outros livros, como o Magnificat, no tempo do Advento (Ano A) e Isaías 12 (Ano B). As estrofes são construídas em forma de poesia, embora muitas vezes não se percebem ou não aparecem os elementos característicos da poesia. Esta forma facilita a memorização tanto para quem canta, quanto para quem ouve. É por isso que é chamado de responsorial, que é em forma de responso, que corresponde à participação da assembleia que responde com um refrão, sempre depois de cada grupo de versos, por isso o valor de resposta não está afixado à primeira leitura e sim à própria execução do salmista, assim somente o texto é que está ligado à primeira leitura e não a forma musical de interpretação. Esta forma pode ser também caracterizada pela interpretação de dois coros ou grupos, ou pelo coro e por um solista. Há também a forma direta, isto é, sem refrão, esta forma é mais apropriada para os cantos de abertura, oferendas, comunhão, e nas celebrações de outros sacramentos e sacramentais, como por exemplo o Salmo 118, que era cantado pelas comunidades primitivas nos rituais de exéquias.
Poderíamos dizer que o salmo responsorial ressoa nos ouvidos e no coração da assembleia como um suave eco daquela leitura, por isso tem uma função emotiva, pois sua interpretação com suavidade e doçura, fixa a mensagem da leitura anteriormente ouvida.
Sob o ponto de vista do caráter da interpretação, este deve ser salmodiado, isto é, “cantilado” com atitude de proclamação, por fazer parte da Liturgia da Palavra e constituir-se Palavra de Deus cantada. Se não for cantado, que seja pelo menos declamado (contudo sem exageros teatrais), convém ser cantado pelo menos o refrão com a participação do povo. Não pode ser omitido, haja sempre uma ou outra forma, se omitido, a Liturgia da Palavra fica incompleta.
O salmista ou cantor do salmo, no ambão ou outro lugar adequado, profere a melodia dos versos do salmo perante toda a assembleia que o escuta sentada, participando costumeiramente pelo refrão. A forma de execução dos versos pelo salmista é a salmodia, enquanto que a da assembleia é a forma coral, de modo uníssono.
Os instrumentos escolhidos para acompanhar os salmos devem ter registros suaves e delicados. Tocar forte neste canto seria exceção. Os instrumentos de cordas podem apoiar-se nos acordes e dedilhados, ajudando o salmista a fixar a tonalidade e a forma musical, ou entremeando breves interlúdios entre os versos, como que realizando uma espécie de canto-sem-palavras, comentando musicalmente o texto ouvido e cantado. Porém, é mais adequado que apenas um instrumento harmônico acompanhe o canto do salmista, uma vez que, se trata de um canto de livre interpretação, o que dificultaria o acompanhamento de vários instrumentos de uma só vez. Nunca o instrumento deve “dobrar” a melodia que se está cantando, portanto, quem tem o destaque nesta hora é a palavra proclamada cantada e não o instrumento. A percussão deve ser usada com bom sendo e coerência. O bom percussionista deve descobrir entre seus instrumentos o melhor meio e modo para dar ênfase aquela melodia. Uma boa referência para essa reflexão é a própria Bíblia que cita logo no começo de alguns salmos: “Do mestre de canto. Dos filhos de Core. Com oboé. Cântico” (Sl 46), significando que este salmo, na ocasião de sua execução, por Davi, fosse acompanhado por um oboé. Encontramos também outras expressões indicando a forma de interpretação do respectivo salmo, como: “para flautas” (Sl 5), “à meia-voz” (Sl 56), “com instrumentos de corda” (Sl 61), “prece” (Sl 142), etc. Certamente, como a maioria dos salmos foi atribuída a Davi e, sendo ele um músico, este tenha se inspirado em poemas e canções já existentes em sua época, é o caso de algumas citações, como “Sobre a ‘A corça da manhã’” (Sl 22), que quer dizer que esta melodia foi inspirada na canção ‘A corça da manhã’, assim como o Salmo 80 e outros com melodias inspiradas na ária ‘Os lírios são os preceitos’.
Os Salmos na liturgia participam da função memorial de toda a liturgia. Por meio deles, a ação ritual expressa e faz acontecer a salvação, e a Igreja se apropria do mistério, introduzindo nele sua esperança no Cristo, o atributo do próprio salmo. Pedagogicamente, o Espírito Santo opera na Igreja a oração em comum, cuja abertura se dá na chave da transformação pascal da comunidade.
Ao longo do ano litúrgico, os salmos, além de se referir a Jesus Cristo, são escolhidos e interpretados de acordo com cada tempo ou momento litúrgico. É bom então que se variem as melodias, observando os tempos litúrgicos e as festas. Torna-se monótono quando uma só melodia permeia os textos durante todo o ano litúrgico Assim há salmos próprios para os ofícios da manhã (p. ex. o Salmo 63), para os ofícios da tarde (Sl 141), para a Eucaristia (Sl 34), para os sacramentos da iniciação cristã (Sl 23), para o Natal (Sl 2 e 110), para a Páscoa (Sl 118), etc. E, é claro, não podemos deixar de relacioná-los ainda com nossa realidade atual. Assim, ao cantar os salmos, estamos prestando atenção ao sentido literal, cristológico e espiritual de cada um.
Nas leituras, explanadas pela homilia, Deus fala ao seu povo, revela o mistério da redenção e da Palavra, se acha presente no meio dos fiéis. O canto favorece a compreensão do sentido espiritual do salmo e contribui para sua interiorização. Pelos cantos e pelo silêncio, o povo se apropria dessa palavra de Deus e alimentados por ela, adere à fé, na oração do símbolo (profissão de fé). Também, com base na Palavra escutada, reza na oração universal pelas necessidades de toda a Igreja e pela salvação do mundo inteiro, em seguida, agradece ao Pai pelo Filho, no Espírito (Oração Eucarística), e partilha o pão da comunidade na mesa eucarística (comunhão).
O canto dos salmos na assembleia reunida transcende a vivência fora dela, ao mesmo tempo em que os salmos apontam para um compromisso assumido nesta mesma assembleia. Isso realmente só vai se dar quando ouvirmos e cantarmos os salmos prestando atenção na letra e na música, relacionando-os com as leituras ouvidas e com nossa vida pessoal e social. Eles devem interpelar nossa realidade. Quando canto os salmos, sou eu que clamo ao Senhor, ao mesmo tempo em que esse “eu” representa um grito de súplica, de louvor ou de agradecimento ao “eu” de Jesus Cristo, ligando-o à humanidade inteira. Santo Agostinho afirmava que Cristo é o cantor dos salmos que nos convida a deixar o mesmo Cristo (com seu Espírito) cantar em nós.

O que se espera do salmista: 
Que tenha o mínimo de formação bíblico-litúrgica e espiritual: aprofundar o sentido do texto dos salmos, levando em conta os 4 passos da leitura orante (o que o texto diz, o que o texto me diz, o que o texto me faz dizer a Deus, o que o texto me faz dizer ao mundo). É necessário aprender a orar com o salmo, antes de ele ser executado na liturgia, rezando em casa e prolongando e aplicando seu sentido à vida a fim de que as cante na liturgia de forma orante, isto é, antes de ser cantado ele deve ser vivido;
Que tenha consciência de sua ação gestual em coerência com o ministério litúrgico; que tenha o mínimo de formação musical: saber ler uma partitura simples, usar corretamente o microfone, atitude ao subir e se portar diante do ambão da Palavra, manusear o Lecionário, ter entrosamento com os instrumentos musicais, saber  se comunicar com a assembleia, conhecer as várias formas de se cantar, ter bom ouvido musical. 
Que transmita com a voz e com a melodia o sentido teológico-litúrgico do salmo, que o gesto externo ligado à voz e à execução musical não transpareçam uma apresentação ou performance musical, mas uma leitura cantada da própria Palavra de Deus. O corpo fala daquilo que o coração está cheio, por isso, dirigir-se à mesa da Palavra com tranquilidade e leveza, inclinar-se, demonstrando respeito e reverência, dirigir um rápido olhar para a assembleia, envolvendo-a, concentrar-se, afinação, boa dicção. Não adianta ser um bom profissional da voz se não houver espiritualidade naquilo que vai se fazer. Está na regra de São Bento a seguinte recomendação que ele mesmo dava a seus monges: ‘acendam o fogão do mosteiro da mesma forma que vocês acendem as velas do altar’.
Que se aproprie de uma atitude espiritual. O salmo deve ser estudado antes, o salmista deve antes de cantar, ter entendido sua estrutura, o contexto da criação, a quem ele é endereçado e o porquê de ter entrado naquela liturgia. Ele deve saber o sentido do salmo no contexto da celebração do dia, do tempo litúrgico. A pergunta é: que sentido tem esse salmo quando a ele são acrescidos melodia, harmonia, ritmo, entonação, voz afinada e ação gestual?
Que seja alguém que frequente a Palavra, pois “todo o discípulo do Reino é como um pai de família que tira do seu baú coisas novas e velhas” (Mt 13, 52). O bom cantor deve agir como um discípulo do Reino.
As portas de entrada para o Salmo responsorial:
Há três portas para entrar na compreensão do salmo e fazer dele a nossa oração. 
A primeira é o sentido do salmo em sua época: o que levou o salmista a compor o salmo? Por que a comunidade compôs? Quais são os sentimentos presentes no salmo? Quais são as imagens e paisagens contidas no texto? 
A segunda a porta que se abre para perceber no salmo é a oração do Cristo. Os refrãos dos próprios salmos que entraram para a liturgia ajudam a perceber como o salmo tem a ver com o mistério pascal de Jesus celebrado naquela liturgia. Por que este salmo foi colocado na boca de Jesus? Qual a ligação que posso fazer do salmo com as passagens do Evangelho? Em que momentos circunstanciais da vida de Jesus ele rezou ou cantou este salmo?
A terceira porta é o sentido do salmo para a Igreja hoje: quando rezamos os salmos sentimos que eles falam da nossa própria experiência vivida no dia a dia. Eu me encontro neste salmo? O que ele diz sobre mim? Há experiências no salmo que são ou podem ser vividas por mim? 

Conclusão:
É necessário se resgatar o significado sacramental das liturgias da Semana Santa como um todo, a fim de que possamos entender com maior clareza os mistérios de nossa fé que se estendem por todas as celebrações. Trata-se de participar dessas celebrações com conhecimento de causa, sabendo o que se faz. Seguramente entenderemos o próprio Mistério Pascal, fonte e origem de nossa fé.

Outras obras consultadas:
Introduções Gerais dos Livros Litúrgicos. 3ª edição. São Paulo: Paulus, 2004, p.121.
Bíblia de Jerusalém.
Estudos da CNBB nº 12. Estudo sobre os cantos da missa. São Paulo: Paulinas, 1976.
BORTOLINI, José. Conhecer e rezar os salmos. Comentário popular para nossos dias. São Paulo: Paulus, 2000.
BUYST, Ione. O ministério de leitores e salmistas. São Paulo: Paulinas, 2001. (Coleção Rede Celebra nº 2), p. 44.
BUYST, Ione; SILVA, José Ariovaldo da. O Mistério Celebrado: Memória e Compromisso I. Espanha: Ed. Siquem /Paulinas, 2002. p 148. Coleção Teologia Litúrgica.Vol 9.
Revista de Liturgia, publicação da Congregação das Discípulas do Divino Mestre.
Penha Carpanedo, e seus inúmeros artigos publicados na Revista de Liturgia e textos orientadores para formações litúrgicas.