sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Oração da família para a Noite de Natal


Recebi isso de uma amiga, a Ir. Márcia Aparecida, minha companheira na Pastoral Litúrgica. Achei tão interessante e bonita que resolvi publicar aqui para que os que quiserem, possam rezar na noite de Natal, com a família.

"Menino Santo, que vieste ao mundo para nos salvar,
estamos reunidos para agradecer o dom e a graça de sermos família.
Em torno desta mesa queremos que nossa vida seja partilha.
Neste ano que passou, procuramos viver a harmonia e a concórdia,
mas nem sempre conseguimos, confessamos que somos limitados,
que temos nossos pecados.
Hoje, queremos celebrar o perdão,
sabemos que a vida é muito curta, não queremos perder tempo
cultivando as intrigas e as inimizades.
Por isso, perdoamos a todos os que nos ofenderam
e suplicamos o perdão de todos a quem ofendemos.
Menino Deus pedimos também por todos os que não estão aqui hoje,
nossos amigos e parentes,
inclusive por aqueles que partiram para nunca mais voltar,
que sejam todos abençoados.
Expulsa deste lar e de nossas vidas, tudo aquilo que não provém de ti.
Purifica nossas almas para que esta festividade
nos transforme em criaturas melhores.
E que sempre, em toda circunstância, saibamos reconhecer tua divindade e poder.
Que nossa família jamais se afaste de ti.
Louvamos e rendemos graças por cada um aqui presente,
suas histórias e conquistas.
Senhor, nos propomos construir uma história de amor verdadeira entre nós.
Que no ano que se aproxima possamos todos viver em unidade, sem divisões.
Nossa família, Senhor, quer que tua santa vontade se realize em cada um de nós.
Queremos nos consagrar a teu serviço.
Bem-vindo à nossa casa, Santo Menino, nasce aqui e agora,
faze de nós o teu presépio.
Amém!"

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Liturgia: um caminho


Jornal O Lutador Online
Edição 3670 - 21 a 30 de setembro de 2009

(recebido por e-mail, de um amigo em 01/10/2009)

Do lado de fora, o mundo envolve a Igreja com suas crises: a fome e o desemprego, a violência urbana e o terrorismo, entre tantas outras. Do lado de dentro, pulsa um desafio inadiável: reorientar a vida litúrgica para seu verdadeiro foco: celebrar a Páscoa do Ressuscitado.

Excessos e desvios
No próximo dia 4 de dezembro, vamos comemorar o 46º aniversário natalício da Constituição conciliar sobre a liturgia, a Sacrosanctum Concilium, aprovada em sessão solene do Vaticano II com 2.147 votos, e apenas 4 sufrágios negativos. Após um período de entusiasmo e experiências de todo tipo, hoje a Igreja Católica se vê diante de um desafio que pede atitudes bem concretas: reformar a reforma pós-conciliar para recuperar valores essenciais da vida litúrgica.

De todos os quadrantes, erguem-se denúncias e protestos contra o clima de nossas celebrações: excesso de ruído – mesmo disfarçado de música – nas assembléias dominicais. Excesso de palavras, autêntica verborragia que ameaça deixar a Palavra de Deus em segundo plano. Evidências de libertinagem litúrgica, com os agentes da celebração, leigos e presbíteros, muito à vontade para acrescentar seus “cacos” aos gestos e palavras rituais. Deslocamento da celebração para o show, quando se confunde ação litúrgica com atuação televisiva.

Homilias desgarradas da realidade comunitária, mas centradas em aspectos estruturais da vida socioeconômica que fogem à iniciativa imediata dos ouvintes. E muito mais...

Redescobrir o silêncio
Em dezembro de 2003, o Papa João Paulo II publicava sua brevíssima Carta apostólica Spiritus et Sponsa [O Espírito e a Esposa], na comemoração dos 40 anos da Sacrosanctum Concilium. Já naquela época, o Papa citava o Concílio, recordando que a ação litúrgica “é ação sagrada por excelência, cuja eficácia, no mesmo título e grau, não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja”. Boa lembrança para aqueles utilitaristas que “aproveitam” a assembléia litúrgica para resolver outros problemas e tratar de outros assuntos, que se constituem verdadeiros quistos e corpos estranhos no corpo da celebração litúrgica.

No mesmo texto [nº 13], João Paulo II advertia: “Um aspecto que é preciso favorecer de modo especial em nossas comunidades é o seguinte: a experiência do silêncio. Temos necessidade dele para acolher em nossos corações a plena ressonância da voz do Espírito Santo e para unir mais estreitamente a oração pessoal à Palavra de Deus e à voz pública da Igreja. Em uma sociedade que vive de maneira sempre mais frenética, muitas vezes atordoada pelos ruídos e dispersada naquilo que é efêmero, redescobrir o valor do silêncio é vital”.

Diante da atual popularização de práticas e métodos de meditação não-cristãos, o Papa perguntava: “Por que não adotar, com audácia pedagógica, uma educação específica para o silêncio no interior de coordenadas próprias da experiência cristã? Temos diante dos olhos o exemplo de Jesus que ‘saiu de casa e se retirou a lugar deserto, e ali ele rezava’ (Mc 1,35). Entre seus diversos momentos e sinais, a Liturgia não pode negligenciar o silêncio”.

Reencontrar o caminho
Muita gente acredita que nos desviamos da estrada real e entramos por um desvio litúrgico. Se antes havia queixas (justificadas!) contra o rubricismo que engessava a celebração litúrgica, agora caímos na terra de ninguém da libertinagem, onde qualquer um se sente no direito de manipular a celebração, dando-lhe contornos políticos, mudando-a em teatro ou em preferências poéticas intimistas, ao ignorar os gestos e palavras essenciais ao rito da Igreja apostólica.

Em outubro de 2003, falando à assembléia anual dos Bispos do Canadá, o Cardeal Arcebispo de Malines (Bélgica), Mons. Godfried Danneeels, observava com propriedade: “A participação ativa na liturgia, o fato de prepará-la juntos, o cuidado de aproximá-la o mais possível da cultura e da sensibilidade dos fiéis podem conduzir imperceptivelmente a uma espécie de apropriação da liturgia. A participação e a celebração mútua podem conduzir a uma forma sutil de manipulação. Quando assim ocorre, a liturgia é não somente despojada de seu caráter intangível – o que não é mau em si -, mas se torna, em certo sentido, propriedade daqueles que a celebram, como um domínio abandonado à sua ‘criatividade’. Aqueles que estão a serviço da liturgia – padres e leigos – acabam como se fossem seus ‘proprietários’”.

Na ânsia de encontrar o caminho, as paróquias redobram esforços exatamente naquilo que é puramente ação humana e horizontal [mais flores, mais cânticos, mais procissões, mais encenações, mais palavras...], neutralizando, por excesso, o sentido profundo dos gestos e palavras e deixando cada vez mais oculta a ação divina nos seus mistérios. Naturalmente, tais procedimentos batem de frente com as orientações de João Paulo II na Exortação apostólica Sacramentum Caritatis: “A simplicidade dos gestos e a sobriedade dos sinais, situados na ordem e nos momentos previstos, comunicam e cativam mais do que o artificialismo de adições inoportunas”. (SCa, 40.)

O choque da realidade
Tudo isto aponta para a mesma direção: o estilo de vida que adotamos não se enquadra com a realidade dos mistérios celebrados. Agitados, ruidosos, hipertensos, presos a um aranhol de ninharias e preocupações materiais, incapazes de erguer os olhos aos céus durante a semana, a celebração dominical não recebe de nossa parte um olhar contemplativo, um abandono silencioso à ação de Deus. Nem na vida, nem na liturgia. Por isso mesmo, muitas vozes afirmam que a liturgia só será renovada quando nossas vidas forem renovadas. E que é de fora para dentro que tal renovação acontecerá na vida litúrgica da Igreja.

Creio que há uma verdade nessa tese: se nós vivemos como pagãos, venerando os ídolos de plantão – dinheiro, sexo, sucesso e poder -, que sentido pode ter para nós a atualização da morte e ressurreição do Cristo Senhor? Nossa tendência natural será a de transportar para o coração da ação litúrgica os mesmos sentimentos e atitudes de nosso dia-a-dia.

E assim, aquilo que devia ser a Páscoa dominical acaba tendo ares de um velho filme, sem arte e sem vida, que não vale a pena ver de novo... (ACS)

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Decálogo para ler a Bíblia com proveito



QUERÉTARO, segunda-feira, 14 de setembro de 2009 (ZENIT.org-El Observador)
Por ocasião do mês da Bíblia, o bispo de Querétaro, Dom Mario de Gasperín Gasperín, biblista reconhecido, escreveu um "Decálogo para ler a Bíblia com proveito", que compartilhamos a seguir, por considerá-lo de interesse geral.Decálogo para ler a Bíblia com proveito:

1. Nunca achar que somos os primeiros que leram a Santa Escritura. Muitos, muitíssimos, através dos séculos, a leram, meditaram, viveram e transmitiram. Os melhores intérpretes da Bíblia são os santos.

2. A Escritura é o livro da comunidade eclesial. Nossa leitura, ainda que seja em solidão, jamais poderá ser solitária. Para lê-la com proveito, é preciso inserir-se na grande corrente eclesial que é conduzida e guiada pelo Espírito Santo.

3. A Bíblia é "Alguém". Por isso, é lida e celebrada ao mesmo tempo. A melhor leitura da Bíblia é a que se faz na Liturgia.

4. O centro da Sagrada Escritura é Cristo; por isso, tudo deve ser lido sob o olhar de Cristo e buscando n'Ele seu cumprimento. Cristo é a chave interpretativa da Sagrada Escritura.

5. Nunca esquecer de que na Bíblia encontramos fatos e frases, obras e palavras intimamente unidos uns aos outros; as palavras anunciam e iluminam os fatos, e os fatos realizam e confirmam as palavras.

6. Uma maneira prática e proveitosa de ler a Escritura é começar com os Santos Evangelhos, continuar com os Atos dos Apóstolos e Cartas e ir misturando com algum livro do Antigo Testamento: Gênesis, Êxodo, Juízes, Samuel etc. Não querer ler o livro do Levítico de uma só vez, por exemplo. Os Salmos devem ser o livro de oração dos grupos bíblicos. Os profetas são a "alma" do Antigo Testamento: é preciso dedicar-lhes um estudo especial.

7. A Bíblia é conquistada como a cidade de Jericó: "dando voltas". Por isso, é bom ler os lugares paralelos. É um método interessante e muito proveitoso. Um texto esclarece o outro, segundo o que diz Santo Agostinho: "O Antigo Testamento fica patente no Novo e o Novo está latente no Antigo".

8. A Bíblia deve ser lida e meditada com o mesmo espírito com que foi escrita. O Espírito Santo é o seu principal autor e intérprete. É preciso invocá-lo sempre antes de começar a lê-la e, no final, agradecer-lhe.

9. A Santa Bíblia nunca deve ser utilizada para criticar e condenar os demais.

10. Todo texto bíblico tem um contexto histórico em que se originou e um contexto literário em que foi escrito. Um texto bíblico, fora do sue contexto histórico e literário, é um pretexto para manipular a Palavra de Deus. Isso é tomar o nome de Deus em vão.

+ Mario de Gasperín Gasperín

Bispo de Querétaro

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A ação litúrgica: caminho mistagógico


Eurivaldo Silva Ferreira

Como continuidade de nossa proposta, retomamos nossa conversa neste artigo a partir da vivência pessoal que agora cada um/a faz de si com relação à vivência sacramental. Em nosso último artigo dissemos que a celebração eucarística é um dos condutores ao mistério pascal e, a partir dela, conseguimos forças para desempenhar nossa missão no mundo, a fim de que também o mundo possa viver a fé verdadeira e, conseqüentemente, transformá-lo num outro mundo possível. Assim aconteceu com os primeiros cristãos: “vejam como eles se amam...” diz os Atos dos Apóstolos. Esse amor-testemunho é conseqüência, sobretudo, da reunião fraterna que celebramos no domingo – a Eucaristia – que quer dizer ação de graças. Nela, ao partilharmos o Pão da Palavra e o Pão da Eucaristia, somos convidados e enviados a vivenciar este gesto também no mundo, na relação com os irmãos e irmãs, até mesmo com os não-cristãos. Nós podemos buscar o fundamento teológico disso nas próprias palavras de Jesus quando afirma não existir outro mandamento mais importante do que amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo (cf. Mc 12,28-31).

Para melhor compreensão disso, penso que a catequese litúrgica é um caminho eficaz para conseguirmos adentrar no mistério e nele encontrarmos nossa medida, nossa condução. Nossa intenção, ao escrevermos esses artigos é mostrar ao leitor que a vivência na comunidade através da ação litúrgica – quer seja pela celebração da Eucaristia, quer seja pela celebração dos demais sacramentos – possa ser um mecanismo de encontro com o mistério pascal, numa atitude de abertura interior e aos outros. É por isso que o documento do Concílio Vaticano II que trata das questões litúrgicas diz que a liturgia é cume e fonte da vida e ação da Igreja. A liturgia não apenas supõe, mas alimenta a fé. A Igreja Universal (Católica) nos ensina que “a regra da oração fundamenta a regra da fé e a reflexão teológica”. Assim, da liturgia, especialmente da eucaristia, como de uma fonte, corre sobre nós a graça, eficazmente, santificando-nos e levando-nos a glorificar a Deus, fim último de todas as obras da Igreja.

É fundamental que, ao falarmos de liturgia, contemplemos também o mistério pascal de Cristo acontecendo na nossa vida, por isso não me abstenho de citar novamente mais um trecho da entrevista que concedeu Bento XVI aos párocos de Roma, ocasião em que afirma que “todos nós devemos aprender melhor a liturgia, não como algo exótico, mas como o coração de nosso ser cristão”. O mistério pascal de Cristo: paixão, morte, ressurreição e ascensão é o coração (lugar da pulsação vital) da nossa fé cristã. Com isso, o papa quer afirmar que a liturgia deve ocupar o centro de nossa fé cristã. Quem pulsa, então? É o próprio mistério pascal perpassando nossas vidas. Certamente, recebendo essa energia oriunda da ação sacramental-litúrgica, na força e no dinamismo do Espírito Santo, capacitando-nos no exercício de nossa missão, no cotidiano.

A partir deste entendimento, Bento XVI quer destacar que urge na Igreja a necessidade de uma catequese litúrgica mais mistagógica. O termo mistagogia significa ‘conduzir para dentro do mistério’. Foi assim que os primeiros Padres da Igreja iniciavam na fé os cristãos. A via da mistagogia é um método eficaz e muito necessário nos nossos dias. Aliás, a CNBB (Conferência Episcopal dos Bispos do Brasil), em sua próxima assembléia trabalhará a questão mistagógica, através do RICA (Ritual de Iniciação Cristã de Adultos), com toda a sua proposta pedagógica pensada a partir das liturgias celebradas ao longo do ciclo pascal. “Os mistérios não são uma coisa exótica no cosmos das realidades mais práticas”, diz Bento XVI. “O mistério é o coração do qual vem nossa força e ao qual voltamos para encontrar este centro”, declarou. E acrescenta que “a celebração dos mistérios da fé revelam o próprio ser do homem, da mulher. Se é verdade que o ser humano em si não tem sua medida – o que é justo e o que não é – mas encontra sua medida fora dele, em Deus, é importante que este Deus não seja distante, mas reconhecível, concreto, que entre em nossa vida e seja realmente um amigo com o qual podemos falar e que fala conosco”, acrescentou. “Em outras palavras, a catequese eucarística e sacramental deve realmente chegar ao profundo de nossa existência, ser precisamente educação para abrir-me à voz de Deus, a deixar-me abrir para que rompa esse pecado original do egoísmo e seja abertura de minha existência em profundidade, de maneira que eu possa chegar a ser um homem, uma mulher integral, verdadeiro/a e justo/a”, concluiu.

Por isso é compreensível a urgência na ativação da consciência, tendo em vista a melhoria das atividades litúrgicas, do celebrar o mistério pascal com conhecimento de causa, ativa e frutuosamente, diz o documento da Igreja que trata das questões litúrgicas, a Sacrosanctum Concilium nº 11, isto é, com a qualidade que o próprio mistério prescreve. Toda ação litúrgico-sacramental nos permite expressar em linguagem humana a presença escondida do Deus que se fez ‘carne’, humano com os humanos (cf. 1Jo 1, 1-4). Esses gestos são a linguagem da nossa adoração e da nossa comunhão com ele na intimidade do seu amor. O fruto que colhemos na liturgia, a graça de Deus que dela nos vem para o nosso crescimento na fé passa pela expressividade da ação litúrgica.

A Celebração da Palavra de Deus e sua culminância na missão


Eurivaldo Silva Ferreira

Na 32ª Assembléia Geral da CNBB, realizada em Itaici, Indaiatuba, SP, de 13 a 22 de abril de 1994, Dom Clemente José Carlos Isnard, na introdução do documento da CNBB sobre Orientações para a Celebração da Palavra de Deus, afirma o seguinte:

A celebração da Palavra de Deus é um ato litúrgico reconhecido e incentivado pela Igreja. Sua reflexão torna-se ainda mais significativa se considerarmos o apreço das comunidades pela leitura e meditação da Sagrada Escritura e a prática da Leitura Orante.

A Palavra de Deus é acontecimento, onde o Pai entra na história, onde o Filho prolonga o mistério de sua Páscoa e o Espírito atua com sua força. As celebrações da Palavra de Deus, especialmente aos domingos, fundamentam-se no caráter sacerdotal de cada batizado e de cada batizada. "Ele fez para nós um Reino de Sacerdotes", nos recorda o Apocalipse. "Ele te unge sacerdote", repetimos em cada celebração batismal. Isto é, cada celebração da Palavra é uma forma do povo consagrado, "proclamar as maravilhas Daquele que nos chamou das trevas à luz".


No Documento de Aparecida, foi afirmada esta prática e também incentivada, e publicou-se no número 253 a seguinte afirmação:

Com profundo afeto pastoral, queremos dizer às milhares de comunidades com seus milhões de membros, que não têm oportunidade de participar da Eucaristia dominical, que também elas podem e devem viver “segundo o domingo”. Podem alimentar seu já admirável espírito missionário participando da “celebração dominical da Palavra”, que faz presente o Mistério Pascal no amor que congrega (cf. 1Jo 3,14); na Palavra acolhida (cf. Jo 5,24-25) e na oração comunitária (cf. Mt 18,20).

O papa Bento XVI em sua Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis, reconhecendo as inúmeras comunidades que não têm a presença de um ministro ordenado para presidir a Eucaristia, comenta que é importante que as comunidades cristãs se reúnam igualmente para louvar o Senhor e fazer memória do dia a Ele dedicado (SCa, 75).

É graças à reforma do Concílio Vaticano II que essas práticas se tornaram possíveis. É claro que não podemos lamentar o fato de uma escassez de ministros ordenados, o que deixa algumas realidades sem a contemplação do mistério pascal também presente no sacramento da Eucaristia. Todavia, o Concílio Vaticano II uniu as duas mesas: a da Palavra e a da Eucaristia. A Palavra tornou-se compreensível para o povo, já que cada povo passou a ouvir as Escrituras proclamadas em sua própria língua. Por isso, confirma-se a consideração de Aparecida de que também a Palavra é sacramento e pode alimentar a vida da comunidade orante, congregada ao seu redor.

Desta Palavra prescinde também a evangelização dos povos. Jesus, sendo judeu, conheceu e praticou a Torah e dela tirou proveito, aplicando-a em sua própria missão. Em Lucas 4,14-21, Jesus na sinagoga lê o texto do profeta Isaias e o toma para si, concluindo que hoje se cumprira aquilo que ouviram. De fato, Jesus achou a passagem em Isaias que inspira seu programa, sua missão. Lucas quer demonstrar com essa narração a solidez e a credibilidade do que está para apresentar: fez um estudo cuidadoso desde o princípio, a fim de escrever uma narração bem ordenada.

Ora, se dissemos que a Eucaristia é sacramento, ou seja, sinal da realização daquilo que significa no meio e para os homens, o mesmo podemos dizer da Palavra. Ela se torna sacramento da missão, assim como a Eucaristia, pois a Sacrosanctum Concilium diz que dela nos alimentamos e buscamos força para alcançarmos a graça e obtermos a santificação (SC 10), quer dizer, expressar o real sentido do todo da Eucaristia, com seus ritos, preces, cantos e Palavra proclamada, que culmina com a partilha do Pão e do Vinho, corpo e sangue de Cristo ofertados ao Pai e servidos como alimento à comunidade.

Nossa afirmação se faz também necessária quando projetamos na Palavra proclamada o anseio de enxergar nela verdadeiras propostas de missão, assim como Jesus fez na sinagoga. Convém aqui afirmamos os conceitos de inculturação vividos pelo próprio Jesus: ele nasceu dentro de uma cultura judaica e a partir dela, anunciou ao mundo sua proposta de missão na vivência e proclamação do Reino de Deus. Essa missão já era antevista e preparada pelos profetas do Antigo Testamento, ou seja, a Palavra de Deus se fez missão através de vários personagens e se encarnou no próprio Cristo, o Verbo de Deus.

Com relação à evangelização das culturas, o nº 78 da Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis diz que

é preciso reconhecer o caráter intercultural deste novo culto, desta lógica: a presença de Jesus Cristo e a efusão do Espírito Santo são acontecimentos que podem encontrar-se de forma duradoura com qualquer realidade cultural a fim de a fermentar evangelicamente. Em consequência disto mesmo, temos a obrigação de promover convictamente a evangelização das culturas, na certeza de que o próprio Cristo é a verdade de todo o homem e da história humana inteira. A Eucaristia torna-se critério de valorização de tudo o que o cristão encontra nas diversas expressões culturais; num processo importante como este, podem revelar-se de grande significado as palavras de São Paulo quando, na sua I Carta aos Tessalonicenses, convida a ‘avaliar tudo e conservar o que for bom’ (5, 21).

Com esse espírito, não podemos prescindir que a celebração da Palavra de Deus não tenha sua força sacramental e sua destinação naquilo que ela mesma suscita: a missão, sobretudo, quando entendemos que pela Palavra de Deus, há um viés de acontecimento de salvação. As próprias comunidades cristãs primitivas foram alimentadas por essa característica presente na Palavra e, a partir daí, partiram para a missão, guiadas pelo Espírito, evangelizando os povos. Assim, quer seja da mesa da Palavra, quer seja da mesa da Eucaristia, não podemos abeirar-nos delas sem nos deixarmos arrastar pelo movimento da missão que, partindo do próprio Coração de Deus, visa atingir todos os homens; portanto, a tensão missionária é parte constitutiva da forma eucarística da existência cristã (SCa, 84).

terça-feira, 14 de julho de 2009

Canto e música na Missa - I


Eurivaldo Silva Ferreira (org.)

Música nas celebrações? Por que?
Porque...

...a música concorre para aumentar o decoro e esplendor das sagradas cerimônias, pois, seu fim próprio é acrescentar mais eficácia ao mesmo texto, a fim de que excitem mais facilmente os fiéis à piedade e se preparem melhor para receber os frutos da graça. (Tra le sollecitudini, sobre a música sacra, Pio X, 1903).

...a música própria da Igreja é a música meramente vocal, mas deve ser apoiada com os instumentos musicais, a fim de que não se perca a afinação (Tra le sollecitudini, sobre a música sacra, Pio X, 1903).

...a música litúrgica foi instrumento de conversão ao cristianismo. Porque é serva nobilíssima da liturgia (Constituição apostólica Divini Cultis, sobre liturgia, canto gregoriano e música sacra, Pio XI, 1928).

...Deus se valeu da arte musical, também presente nas Escrituras, desde o Primeiro Testamento até o início das primeiras comunidades cristãs (Encíclica Musicae sacrae disciplina, sobre a música sacra, Pio XII, 1955).

...é um meio eficaz de apostolado (Encíclica Musicae sacrae disciplina, sobre a música sacra, Pio XII, 1955).
Porque existem laços tão estreitos entre música e liturgia, que não se pode regulamentar uma sem deixar outra (Instrução da Sagrada Congregação dos Ritos sobre a Música Sacra e a Sagrada Liturgia, 1958).

...favorece a participação do povo, pois, destacando-se os graus de importância dos cantos e as formas, prefiguram a Jerusalém celeste (Instrução Musicam Sacram, sobre a música na Sagrada Liturgia, Sagrada Congregação dos Ritos, 1967).

...a música é arte, e deve ser arte verdadeira (Tra le sollecitudini, sobre a música sacra, Pio X, 1903), e portanto, adentra a liturgia como sendo a mais bela de todas as artes, acomodando-se à palavra , a música faz parte integrante e necessária da liturgia solene (SC 112).

... a música é arte privilegiada que possui uma linguagem de exprimir e manifestar a alma e a cultura de um povo (Pastoral da música litúrgica no Brasil, CNBB, 1976).

...a música, por sua força dos sons e do ritmo, provoca a participação, ao mesmo tempo, em termos de emoção, de animação e de unanimidade da assembléia, ajuntando-a e projetando-a na imensidão do mistério de Deus, ou seja, no seio da Trindade-Comunhão, em Jesus Cristo, cuja presença é evocada com peculiar eficácia (A música litúrgica no Brasil, CNBB, 1998).

... a música litúrgica é parte integrante e significativa da ação ritual. Ela tem a especial capacidade de atingir os corações e, como rito, grande eficácia pedagógica para levá-los a penetrar no mistério celebrado. Para isso, ela precisa estar intimamente vinculada ao rito ou seja, ao momento celebrativo e ao tempo litúrgico. Vale dizer, sua função ritual deve estar organicamente inserida no contexto da grande tradição bíblico-litúrgica da Igreja, bem como da vida e da cultura da comunidade celebrante. É urgente atentar para a qualidade de nosso cantar litúrgico, para a importância dos vários ministérios litúrgico-musicais e, mais que urgente, para a formação e capacitação de todos, especialmente das pessoas e equipes que os exercem. Uma prioridade estratégica, com certeza, são os centros de formação, tanto das congregações e ordens religiosas, quanto do clero diocesano. É de suma importância aproveitar, todas as instâncias e oportunidades de formação oferecidas, em todo o país, por escolas de liturgia, faculdades, dioceses e regionais da CNBB (DGAE 2008-2010, nº 76, CNBB).

...o canto litúrgico soleniza o ato litúrgico e faz com que se suscite a assembléia para uma participação viva e frutuosa, manifestando uma expressão da vida cotidiana, imersa no mistério de Cristo e da Igreja (Diretório dos Sacramentos, pág. 55).

...o Concílio Vaticano II enfatiza a participação ativa, consciente, plena, frutuosa, externa e interna de todos os fiéis (cf. SC 14). Por isso o canto litúrgico não é propriedade particular de um cantor, animador, ou de um seleto grupo de cantores. A liturgia permite alguns momentos para solos (tanto vocais quanto instrumentais), porém a assembléia deve ter prioridade na execução dos cantos litúrgicos. O animador ou o cantor tem a importante missão, como elemento intrínseco ao serviço que presta à comunidade, de favorecer o canto da assembléia, ora sustentando, ora fazendo pequenos gestos de regência, contribuindo para a participação ativa de toda a comunidade celebrante (Carta aos agentes da música litúrgica no Brasil, CNBB, 2008)

...tem importância a letra na música litúrgica, sobretudo porque ela tem a primazia, e a música está a seu serviço. A descoberta da beleza de um canto litúrgico passa necessariamente pela análise cuidadosa do conteúdo do texto e da poesia. A beleza estética não é o único critério. Muitas músicas cantadas em nossas liturgias estão distanciadas do contexto celebrativo. (Carta aos agentes da música litúrgica no Brasil, CNBB, 2008).

...existe um canto adequado para os vários momentos da liturgia e para as várias liturgias, pois, “verdadeiramente, em liturgia, não podemos dizer que tanto vale um cântico como outro; é necessário evitar a improvisação genérica e o canto deve integrar-se na forma própria da celebração” (SCa 42).

...assim, ela será tanto mais sacra quanto mais intimamente estiver ligada à ação litúrgica, quer exprimindo mais suavemente a oração, quer favorecendo a unanimidade, quer, enfim, dando maior solenidade aos ritos sagrados (SC 112).

...a ação litúrgica recebe uma forma mais elevada quando os Ofícios divinos são celebrados com canto e neles intervêm os ministros litúrgicos e o povo participa ativamente (SC 113).

...não é possível cantar qualquer canto em qualquer momento ou em qualquer tempo. Antes de escolher um canto litúrgico é preciso aprofundar o sentido dos textos bíblicos, do tempo litúrgico, da festa celebrada e do momento ritual (Carta aos agentes da música litúrgica no Brasil, CNBB, 2008).

1. Relação entre música e rito: três tipos de canto na celebração, em grau de importância:
1) Missa em Canto – cantos do presidente da celebração e dos ministros em diálogo do Ordinário com a assembléia: saudação inicial do presidente, oração do dia, introdução ao Evangelho – diálogo, oração sobre as oferendas, prefácio, as diversas aclamações na Oração Eucarística, Oração do Senhor (Pai Nosso), com a introdução e o prolongamento, oração e saudação da paz, oração após a comunhão, as fórmulas de despedida.

2) Os cantos que constituem o rito: as partes do Comum da Missa, chamadas também de Partes Fixas ou Cantos do Ordinário, cantados em comum, pelo presidente, os ministros e toda a assembléia: Senhor, tende piedade de nós – Kyrie, Glória, Salmo responsorial, Creio (Símbolo), Preces, Santo, Aclamação memorial, Doxologia final.

3) Os cantos que acompanham o rito: as partes da Missa ou o próprio da Missa, cantos de abertura, aspersão do povo, aclamação ao Evangelho, resposta da oração universal dos fiéis, canto da apresentação dos dons, fração do pão (Cordeiro de Deus) e canto da comunhão. Ainda: canto do abraço da paz, pós-comunhão e louvor final (facultativos).

Continua...

Canto e música na Missa - II

Eurivaldo Silva Ferreira (org.)
CANTO DE ABERTURA:
Situado nos Ritos iniciais, tem a finalidade de fazer com que os fiéis, reunindo-se em assembléia, constituam uma comunhão e se disponham para ouvir atentamente a palavra de Deus e celebrar dignamente a Eucaristia. Seu intuito é abrir a celebração, estimular a unidade dos que se reúnem e criar um clima de alegria fraterna, introduzir o mistério do tempo litúrgico ou da festa e acompanhar a procissão de entrada do presidente e dos demais ministros. Prepara a assembléia para escutar a palavra e participar na mesa eucarística. É este canto que dá início à celebração. Dura até o término da procissão. É um canto de movimento e não de repouso. É o canto mais importante dos ritos iniciais. A procissão de entrada é um desfile solene e não uma caminhada desordenada. Este canto deve ser a expressão natural de um coração alegre, de um povo em festa. Deve ser executado alternadamente pelo grupo de cantores e pelo povo, ou de uma vez só, por todos da assembléia. Pode ser substituído pela leitura da antífona de entrada se não for cantado. Os instrumentos sustentam a afinação e podem fazer interlúdio, já que ajudam os fiéis a interiorizar a oração cantada. O sentido bíblico-teológico litúrgico deste canto é mais peculiarmente expressando pela união das vozes, simbolizando a unidade da Igreja. A Igreja reunida em assembleia torna-se sinal sacramental da própria Igreja, corpo místico de Cristo. Marca a alegria de um povo em festa, celebrando os louvores do Senhor que o salvou.

ATO PENITENCIAL:
Este canto constitui o próprio rito da celebração, o que costumamos chamar de “Ordinário da Missa”. Testemunhos antigos nos revelam que os Kyries estavam relacionados com a resposta da oração dos fiéis, na liturgia da Palavra; a cada invocação o povo respondia com o “Kyrie eleison”. Mais tarde, este canto foi incluído nos ritos iniciais da missa após o ato penitencial ou como uma variante dele. Sua finalidade é a de aclamar o Senhor e implorar a sua misericórdia, o Kyrios. O “Senhor, tende piedade”, também é igualado ao Hino de louvor por se tratar de uma aclamação ao Senhor. Pode ser omitido quando é substituído pela bênção e aspersão da água, procissão dos ramos, celebração de uma das Horas do Ofício e outras que prevêem o Missal. Há várias possibilidades de participação neste canto, sobretudo, com várias possibilidades de execução por parte de quem canta, nas três formas que guardam a estrutura que lhe é característica: Senhor, Cristo, Senhor. Essas invocações podem ser feitas por um/a solista e respondidas pelo povo. É costume usar a forma grega: Kyrie eleison, Christe...Seu sentido teológico-bíblico-litúrgico é expressado na assembleia reunida que invoca e reconhece a infinita misericórdia do Senhor. Aliás, Kyrios foi o nome mais comum dado a Cristo ressuscitado pelos primeiros cristãos.

HINO DE LOUVOR:
É um hino antiqüíssimo e venerável. Remonta aos primeiros séculos da era cristã. Historicamente só se cantava no Natal (é o canto dos anjos que ressoou pela primeira vez nos ouvidos dos pastores de Belém). Mais tarde foi introduzido a outros tempos e celebrações. Na sua origem o Glória era entoado durante o ofício da manhã. Só bem mais tarde – por volta do século IV – é que aparece prescrito na liturgia eucarística do Natal, podendo aí ser entoado apenas pelo bispo. Durou muito tempo esse costume, porém, no final do século XI já há notícias do uso do Glória em todas as festas e domingos, exceto na Quaresma. Então os presbíteros já podiam entoá-lo. Também é constituído o próprio rito. Sua finalidade é a de fazer com que a Igreja, congregada no Espírito Santo, glorifique e suplique a Deus Pai e ao Cordeiro. Por isso podemos dizer que se trata de um hino doxológico. Na execução deste canto, sugere-se que pode ser iniciado por quem preside, seguido pelo grupo de cantores, por toda a assembleia ou de forma alternada, coro e assembleia ou solista e assembleia. Em se tratando de um hino, deveria ser sempre cantado. Devem ser usadas melodias simples que facilitem a execução, por se tratar de um texto mais longo. O sentido teológico-bíblico-litúrgico deste hino é o de dar graças à glória de Deus Pai, pelo Filho, no Espírito. Porém, o Filho se mantém no centro do louvor, da aclamação e da súplica. Sua estrutura é composta de 3 partes:
1) O canto dos anjos na noite do nascimento de Cristo: de “Glória...” até “...amados.”;
2) Os louvores a Deus Pai: de “Senhor Deus...” até “...por vossa imensa glória”;
3) os louvores seguidos de súplicas e aclamações a Cristo: de “Senhor Jesus Cristo...” até “...Altíssimo Jesus Cristo”.
Termina com um final majestoso, incluindo o Espírito Santo, que não faz parte da aclamação. O Espírito Santo aparece relacionado com o Filho, pois é neste que se concentram os louvores e as súplicas.

SALMO RESPONSORIAL:
É parte integrante da Liturgia da Palavra, constituída pelas leituras da Sagrada Escritura e pelos cantos que ocorrem entre elas, sendo desenvolvida pela homilia, a profissão de fé e a oração universal ou dos fiéis. Esse costume remonta dos primeiros séculos da história do cristianismo. Herdada do culto da sinagoga judaica, os salmos foram incorporados à liturgia cristã muito cedo. S. Agostinho (século V) fala com certa eloqüência em suas homilias do valor que os salmos têm, cantados durante a liturgia da palavra. Aliás, os Santos Padres sempre consideraram o salmo responsorial como uma “leitura cantada”. O salmo constitui um comentário lírico-poético da primeira leitura. Ocupa um espaço significativo como resposta por dois motivos: porque é escolhido para responder à palavra de Deus proclamada, sendo a própria palavra, prolongando, assim, seu sentido teológico-litúrgico e espiritual. Este prolongamento vai-se dando enquanto o(a) salmista entoa as estrofes e a assembleia repete o mesmo refrão. É por isso que é chamado de responsorial. Poderíamos dizer que esse salmo ressoa nos ouvidos e no coração da assembleia como um suave eco daquela leitura, por isso tem uma função emotiva, pois sua interpretação com suavidade e doçura, fixa a mensagem da leitura anteriormente ouvida. Deve ser salmodiado com atitude de proclamação, por fazer parte da Liturgia da Palavra e constituir-se Palavra de Deus cantada. Se não for cantado, que seja pelo menos declamado (contudo sem exageros teatrais). Não pode ser omitido, haja sempre uma ou outra forma. Convém ser cantado, pelo menos o refrão com a participação do povo. O salmista ou cantor do salmo, no ambão ou outro lugar adequado, profere a melodia dos versos do salmo perante toda a assembléia que o escuta sentada, participando costumeiramente pelo refrão, a não ser que o salmo seja proferido de modo direto, isto é, sem refrão. A forma de “responso” é atribuída à participação da assembléia respondendo com um refrão, sempre depois da cada grupo de versos, por isso o valor de resposta não está afixado à primeira leitura e sim à própria execução do salmista. A forma de execução dos versos pelo salmista é a salmodia, enquanto que a da assembleia é a forma coral, de modo uníssono. Escolham-se instrumentos e registros suaves e delicados. Tocar forte neste canto seria exceção. O instrumento de cordas pode apoiar os acordes, ajudando o salmista a fixar a tonalidade e a forma musical, ou entremeando breves interlúdios entre os versos, como que realizando uma espécie de canto-sem-palavras, comentando musicalmente o texto ouvido e cantado. Seu sentido teológico-bíblico-litúrgico é expressando no seguinte aspecto: nas leituras, explanadas pela homilia, Deus fala ao seu povo, revela o mistério da redenção e da Palavra, se acha presente no meio dos fiéis. Pelos cantos e pelo silêncio, o povo se apropria dessa palavra de Deus e a ela adere pela profissão de fé. O canto favorece a compreensão do sentido espiritual do salmo e das leituras e contribui para sua interiorização. Alimentado por essa palavra, reza na oração universal pelas necessidades de toda a Igreja e pela salvação do mundo inteiro.

SEQUÊNCIA:
É um antiqúissmo canto que está presente nas festas da Páscoa, Pentecostes, Corpus Christi e Nossa Senhora das Dores. O missal romano prevê, logo após a segunda leitura da missa, um hino chamado “seqüência”. A origem da “seqüência” está ligada a um costume medieval de acrescentar à vogal final do aleluia solene – antes da proclamação do evangelho – uma série de notas que se desdobravam num longo vocalise chamado por muitos de “jubilus do Aleluia” ou “sequencia”. Essa jubilação aleluiática, com o passar do tempo, atingiu um grau de complexidade técnica tão elevado, que somente profissionais do canto (solistas, coros...) poderiam executá-la. Numa tentativa de favorecer a participação do povo, ao longo dos séculos, foram sendo introduzidos textos sob o “jubilus” do aleluia. Estes, aos poucos, foram ampliados e ajustados com um formato de extensos hinos chamados “seqüências”. Esse gênero musical surgiu por volta do século IX. Sua popularidade foi tamanha que, dois séculos depois, já havia um número aproximado de 5.000 “seqüências”. Praticamente, para cada festa ou outra circunstância, existia uma “seqüência” própria. O papa Pio V (século XVI) conservou no seu missal somente cinco “seqüências”, a saber: Victimae pashali laudes (Páscoa); Veni Sancte Spiritus (Pentecostes); Lauda Sion Salvatorem (Corpus Christi): Sabbat Mater Dolorosa (N. Sra. Das Dores) e Dies Irae (Missa dos fiéis defuntos). O missal romano pós-Vaticano II deixou de fora a Dies irae e manteve as outras quatro “seqüências”. Porém, são de uso obrigatório apenas duas: a da Páscoa e a de Pentecostes. Sua execução, dependendo dos textos e das versões que são usadas, sugere-se que a introdução: “Ó cristãos, vinde, ofertai os louvores pascais” ou “Cantai, cristãos, afinal” seja entoado por um solista. Quanto às demais estrofes, que sejam entoadas pela assembléia dividida em dois grupos, de forma alternada e que o “amém, aleluia”, seja cantado por todos. Executando-a dessa forma, estaremos mais próximos da maneira como os antigos a catavam. A “seqüência” é um hino que canta loas – de forma lírica e expressiva – sobre determinado tema da devoção crista. Se a melodia que for usada terminar com um “Aleluia”, exclui-se a aclamação ao Evangelho.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO:
É o canto próprio da introdução e da procissão do Evangelho, situado na Liturgia da Palavra, constituída pelas leituras da Sagrada Escritura e pelos cantos que ocorrem entre elas, sendo desenvolvida pela homilia, a profissão de fé e a oração universal ou dos fiéis. Constitui o próprio rito ou ato com valor próprio. Esta aclamação é constituída de dois elementos básicos: um refrão composto de um ou mais aleluias e um versículo, normalmente ligado ao sentido do Evangelho que logo será proclamado. Nela a assembléia dos fiéis acolhe e saúda o Senhor, que lhe falará no Evangelho. A aleluia é cantado em todos os tempos, exceto na Quaresma. Este canto nada mais é do que um “viva” pascal ao Verbo de Deus, que nos tirou das trevas da morte, introduzindo-nos no reino da vida. Além de acompanhar a procissão do livro dos evangelhos (evangeliário) até a estante da palavra, este canto prepara o coração dos fiéis para a escuta atenta d’Aquele que só tem a nos dizer “palavras de vida eterna” (cf. Jo 6,68). É cantada por todos, de pé, iniciada pelo grupo de cantores ou pelo cantor, e, se for o caso, repete-se após a proclamação do Evangelho; o verso, porém, é cantado pelo grupo de cantores ou pelo cantor. Não se diz o aleluia ou outro canto se não forem cantados, porque faz parte da natureza do aleluia o canto. Deve ter ritmo vigoroso e melodia brilhante. O clima geral será de expectativa, de prontidão, pois o Senhor nos vai falar. Os instrumentos musicais, assim como as vozes da assembléia, devem ressoar com o máximo de eloqüência. Seu sentido teológico-bíblico-litúrgico é este: na liturgia cristã, toda e qualquer aclamação deve, necessariamente, referir-se ao inefável mistério de Deus que se manifestou de forma plena na pessoa de Jesus Cristo. A assembléia, reunida no Espírito, vibra e aclama com admiração, alegria, amor e fé Aquele que está sentado no trono e o Cordeiro, pois só a eles pertencem o louvor, a honra, a glória e o poder pelos séculos dos séculos (Cf Ap 5,13).

CANTO/ACLAMAÇÃO DEPOIS DO EVANGELHO OU DEPOIS DA HOMILIA:
O único documento da Santa Sé que faz menção deste canto é o Diretório para Missas com Crianças, de novembro de 1973, no nº 46: “Se for escolhida somente uma única leitura, o canto poderá ser executado depois da homilia”. Seria uma espécie de “canto de resposta” equivalente ao “canto de meditação”, que cedeu lugar ao salmo responsorial. Um canto dentro do tema do Evangelho do dia ajuda a sua assimilação e tem grande força de reflexão, de aprofundamento e de vivência da Palavra de Deus. É melhor quando este canto fala sobre o tema do evangelho do dia; mas pode também falar sobre o evangelho e a palavra de Cristo em geral. É sempre melhor a participação ativa da assembléia toda, ou se for o caso, do coro de crianças ou meninos cantores ou grupo de cantores, quando se tratar de missa com crianças ou adolescentes. Pe. Zezinho possui muitos cantos de mensagem que podem ser executados neste momento. Vale a pena dar uma ouvida em seu repertório.

PROFISSÃO DE FÉ (CREIO OU SÍMBOLO)
Este é um dos cantos que compõem o próprio rito. O Creio quer ser uma resposta de fé e de compromisso da comunidade e do indivíduo à Palavra de Deus; e principalmente assumir conscientemente a regra da fé que recebemos de Cristo através dos Apóstolos e chegada até nós no decorrer dos séculos. É portanto uma profissão de fé eclesial. Não se trata de uma simples enumeração de artigos de fé, nem uma síntese dogmática: é um resumo de toda a história santa, da Criação à Vida eterna, passando pela Encarnação, a vinda do Espírito Santo, o mistério da Igreja e dos Sacramentos. É uma memória da economia da salvação. O Símbolo, por ser uma forma de profissão de fé, seja cantado por todos, ou de forma que permita uma conveniente participação dos fiéis. Cantado maciçamente pela assembléia representa um sinal de unidade da própria Igreja, todavia, se o canto for alternado, a compreensão de unidade pode se dar de outra forma, a do conjunto. O símbolo ou profissão de fé deve ser cantado ou dito pelo sacerdote com o povo aos domingos e solenidades; pode-se também dizê-lo em celebrações especiais de caráter mais solene. Quando cantado, é entoado pelo sacerdote ou, se for oportuno, pelo cantor ou pelo grupo de cantores; é cantado por todo o povo junto, ou pelo povo alternando com o grupo de cantores. A forma mais apropriada é o Niceno-Constantinopolitano. Os instrumentos limitem-se neste canto a um acompanhamento discreto, apenas para apoiar as vozes, variando de acordo com o grupo coral que canta. Ele tem por objetivo levar todo o povo reunido a responder à palavra de Deus anunciada da sagrada Escritura e explicada pela homilia, bem como, proclamando a regra da fé através de fórmula aprovada para o uso litúrgico, recordar a sua fé e professar os grandes mistérios da fé, antes de iniciar sua celebração na Eucaristia. É pelo símbolo que a assembléia reunida faz sua adesão de fé, seu assentimento, após ouvir a palavra, antes que se inicie a liturgia eucarística.

ORAÇÃO UNIVERSAL OU DOS FIÉIS:
Sua finalidade: na oração universal, ou oração dos fiéis, exercendo a sua função sacerdotal, o povo suplica por todos os homens. Convém que normalmente se faça esta oração nas missas com o povo, de tal sorte que se reze: pela Santa Igreja, pelos governantes, pelos que sofrem necessidades, por todos os homens e pelo bem-estar e salvação de todo o mundo. Por ocasião de celebrações especiais como Matrimônio, Exéquias, as intenções podem referir-se estreitamente àquelas circunstâncias. Na Igreja primitiva, nesta hora os catecúmenos se retiravam, ficando só os iniciados para a celebração da Eucaristia. Seu sentido é este: depois de ter escutado com amor a Palavra que lhe revela alguns dos aspectos do Mistério da salvação, o povo de Deus coloca-se no meio de todos os homens; no exercício de sua função sacerdotal, ele suplica por todos os homens. É universal porque leva a assembléia a transcender seus próprios horizontes; é dos fiéis porque os batizados são solidários com toda a humanidade, com suas dificuldades, suas alegrias e esperanças, e através da oração eles exercem seu “sacerdócio régio” no meio do mundo. Sem dúvida, uma oração cantada tem um significado mais profundo e mais eclesial do que uma oração simplesmente falada; ainda mais pelo aspecto comunitário do canto, uma vez que esta é a oração da Comunidade dos fiéis. A IGMR valoriza a execução desta oração pelo cantor, colocando-a como segunda opção, o que significa dizer que esta oração tem importância significativa quando cantada, o que lhe dá um caráter mais solene. Porém, se não for cantada, ao menos que o povo participe cantando ao menos a resposta. O uníssono das vozes é o que exprime melhor a unidade de uma Igreja que reza, e dá uma força especial a esta prece; no entanto, o coral pode acompanhar o povo com uma polifonia homofônica. Neste caso os instrumentos apenas acompanham e apóiam suavemente a melodia.

CANTO DA APRESENTAÇÃO DOS DONS OU DAS OFERENDAS:
Na última Ceia, Cristo instituiu o sacrifício e a ceia pascal, que tornam continuamente presente na Igreja o sacrifício da cruz, representado pelo sacerdote que preside a assembléia, que em nome de Cristo, realiza aquilo mesmo que o Senhor fez e entregou aos discípulos para que o fizessem em sua memória. Por isso a Igreja, relembrando esses gestos, dispôs toda a celebração da liturgia eucarística em partes que correspondem às partes e gestos de Cristo. Assim, na preparação dos dons levam-se ao altar o pão e o vinho com água, isto é, aqueles elementos que Cristo tomou em suas mãos. O canto deste momento acompanha a procissão das oferendas e se prolonga pelo menos até que os dons tenham sido colocados sobre o altar. O canto pode sempre fazer parte dos ritos das oferendas, mesmo sem a procissão dos dons. Este canto também tem como finalidade dar um maior significado à coleta, criando um clima de alegria, de generosidade, de louvor, de bendição pelos dons, todavia seu texto não precisa falar necessariamente de pão e de vinho, muito menos ainda de oferecimento ou oblação. É um dos cantos menos importantes da missa. Vale lembrar que a verdadeira oferenda de Cristo e da assembléia unida ao Cristo, faz-se durante a oração Eucarística, pois antes dela nada mais há que uma simples preparação dos dons, como Cristo o fez. Neste sentido o que é apresentado ainda não é o que deveria ser ainda (por exemplo, alguns cantos falam do “oferecer o meu sacrifício”). No entanto, pode-se também fazer menção aqui do “sacrifício espiritual” que é a vida do cristão na sua totalidade, vivida para Deus e os irmãos e unida ao sacrifício de Cristo. Se não se canta o canto da apresentação dos dons nem se toca o órgão, é permitido ao sacerdote, na apresentação do pão e do vinho, proferir em voz alta as fórmulas da bênção, às quais o povo aclama com a resposta “Bendito seja Deus para sempre”. Não é um canto obrigatório, no entanto, nada impede que um solo instrumental seja executado neste momento, o que pode ser uma das raras oportunidades para o organista virtuoso ou o violonista ou flautista habilidoso, ou ainda um conjunto de câmara, executarem uma peça musical propícia ao momento ritual. É um canto processional, de movimento. O canto se prolonga até o momento da incensação, quando há, ou ainda somente acompanhar a procissão dos dons e depois ficar em silêncio, ou responder às orações do presidente. Seu sentido teológico-bíblico-litúrgico é este: a assembléia reunida apresenta ao pai os seus dons, simbolizados no pão e no vinho. Neste sentido, o canto sensibiliza os fieis para a generosidade e a gratuidade que o gesto ritual propõe como extensão, o Cristo ali oferecido à assembléia é o mesmo oferecido ao mundo, para que este mate sua fome, tanto material como espiritual. Assim, o único sacrifício cristão é o do próprio Cristo, ao qual nós nos unimos oferecendo nossas vidas, nosso corpo, como nosso culto espiritual a Deus.

SANTO:
Esta aclamação situa-se antes da Prece Eucarística, após o prefácio. Trata-se de um conjunto de aclamações oriundas da Sagrada Escritura. Tem sua origem no Oriente, século II. Trata-se de uma compilação de textos bíblicos, uma espécie de colcha de retalhos. Na sua execução, normalmente toda a assembléia e o sacerdote cantam este canto, numa atitude alegre, solene, porém, nada impede que o coral dê um colorido maior e o solenize, enriquecendo-o a vozes. Os instrumentos acompanham, incentivam e solenizam o canto da assembléia. Trata-se da conclusão do Prefácio, cuja aclamação, que é parte e abertura da oração Eucarística, expressa a assembléia unida aos espíritos celestes, proclamando que Deus é Santo, Senhor do Universo. É um dos pontos mais altos da prece eucarística, portanto deve ter um clima de manifestação gloriosa, de teofania, manifestação de Deus que habita os altos céus (a visão de Isaías). Se a variedade de diversos sons na união das vozes de uma mesma melodia já parece insinuar e simbolizar a unidade de uma cidade bem organizada, a união das vozes humanas em um mesmo canto aparece como uma adequada expressão comunitária. Assim, o Santo, unido às vozes do coro celestial, evoca a parusia gloriosa do fim dos tempos, ambiente de festa em que o céu e a terra se unem, reunindo toda aclamação ao Deus Santo num louvor cósmico e universal.

ACLAMAÇÕES DA PRECE EUCARÍSTICA:
Algumas foram inseridas após o Concílio Vaticano II, que fomentou a participação ativa e frutuosa da assembléia. Elas têm a finalidade de promover uma participação ativa (SC 30). A atitude de quem canta as aclamações é de povo que aclama de pé, atitude do Ressuscitado e de ressuscitados no Cristo e por Ele. As aclamações da prece eucarística têm caráter solene e pascal, como a Aclamação Memorial e o Amém. A forma de execução das aclamações deve ser por toda a assembléia, acompanhada pelo grupo de cantores ou coro. Os instrumentos podem dar um maior colorido, principalmente os percussivos, solenizando as aclamações como verdadeiras expressões de um povo celebrante e alegre. Contudo, não se trata de sinais externos da celebração comum, mas promovem e realizam a comunhão entre o sacerdote e o povo (IGMR 34). Lembram nossa dignidade de povo sacerdotal que somos.

ACLAMAÇÃO MEMORIAL:
As três fórmulas oferecidas pelo Missal Romano expressam o anúncio do mistério Pascal, no qual o povo faz memória, comemorando o abaixamento e a glorificação do Senhor, e pedindo sua vinda. Tem um caráter pascal e escatológico, não dramático-devocional. Estas aclamações foram introduzidas pelo Concílo Vaticano II. Elas não devem ser substituídas por expressões devocionais de fé na presença real de Jesus, nem por outro canto eucarístico. Elas devem ser cantadas por toda a assembléia, por se tratar de uma das aclamações mais importantes da missa, em resposta ao “ Eis o Mistério da Fé”, entoado por quem preside.

DOXOLOGIA FINAL:
É o louvor final, após a narrativa das maravilhas e benefícios de Deus pelo seu povo na prece eucarística. Como não é aclamação, não é proclamada por toda a assembléia, e sim por quem preside. Em resposta, a assembléia entoa o Amém (Aleluia, ou outras aclamações, conforme consta no Missal), que deve ser solene, vibrante, repetido, sinal de adesão, compromisso, concordância, comunhão. A doxologia final deve ser sempre cantada, devido à sua importância. Este canto nos lembra nossa dignidade de povo sacerdotal, participando com quem preside a prece eucarística.

PAI NOSSO:
A origem desta oração vem do próprio Cristo, seguindo as tradições judaicas que costumavam orar ao Pai através de sete petições, três “celestes” e as quatro seguintes “terrestres”. Trata-se de uma oração de grande exultação. Provavelmente foi introduzida na missa por Santo Ambrósio, pelo século IV. Seu sentido é o de que todos unidos à oferta de Cristo, por Ele reconciliados com o Pai, podem exclamar com amor e confiança: “Pai- nosso...”. É a oração preparatória por excelência para a comunhão. Na sua execução, convém mesmo que seja cantada numa melodia simples, em forma de cantilena ou gregoriano, por toda a assembleia. Não deve ser substituida por outras palavras que não sejam as do próprio evangelho, nem acrescentar outros textos no meio da oração. O Pai Nosso na Missa não é conclusivo, e sim nos introduz ao rito da comunhão. Por isso não se diz o Amém no final.

ORAÇÃO PELA PAZ – ABRAÇO DA PAZ:
A saudação é sempre um gesto simbólico, e bastaria cumprimentar os que estão mais próximos. O rito não deve levar muito tempo. Não deve substituir ou abafar o canto do “Cordeiro de Deus”, que tem preferência, durante o rito da fração do pão. O mais importante é o abraço, e não o canto, que é facultativo. Poderia ser entoado apenas pelo coral e reservado para circunstâncias especias ou pequenos grupos.

CORDEIRO DE DEUS:
Trata-se de uma prece litânica (em forma de ladainha). Há notícias de que no século VIII já era muito comum seu uso na liturgia. A invocação “dai-nos a paz” foi acrescentada posteriormente – por volta do século XIII. Na mesma época, nas missas dos defuntos, no lugar do “tende piedade de nós”, cantava-se: “dai a eles o repouso”, e no lugar do “dai-nos a paz”, cantava-se: “dai a eles o repouso eterno”. É executado durante o rito da fração do pão, na liturgia eucarística. Dura enquanto durar o rito. Após cada invocação entoada pelo(a) cantor(a), a assembléia responde com o “tende piedade de nós” e, no final, com o “dai-nos a paz!”. Quanto aos instrumentos, acompanhamento discreto para apoiar a proposta do solista e a resposta do povo. Seu sentido teológico-bíblio-litúrgico traz a imagem do “Cordeiro”, que é eminentemente bíblica: João Batista nos apresenta Jesus como o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Recorda-nos o Cordeiro Pascal da nova e eterna Aliança – Cristo – que foi imolado. A palavra “Cordeiro” aparece várias vezes no livro do Apocalipse, sempre se referindo a Cristo. A prece especialmente faz alusão ao banquete escatológico das “Bodas do Cordeiro” de que fala o Apocalipse, significando que a Eucaristia é o sinal e o penhor.

CANTO DA COMUNHÃO:
A mais antiga referência deste canto apareceu em Roma, no século IV. É um canto que acompanha a procissão da comunhão. Não compõe o rito, propriamente dito, por isso não tem importância se não for cantado. Tem início quando o sacerdote comunga, prolongando-se enquanto os fiéis comungam até o momento que pareça oportuno. Deve ser cantado por toda a assembléia. Se não for cantado, a procissão pode ser acompanhada de um solo instrumental ou improvisação bem feita ou execução de uma peça de conjunto de câmara ou órgão com registros simples. Ou os instrumentos podem fazer interlúdios entre as estrofes e o refrão, por se tratar de um dos cantos mais longos da celebração. No canto da comunhão, costuma-se retomar os textos do próprio evangelho, intercalando-se com salmos previstos. Lembra-se com isso a união das duas mesas, a da Palavra e da Eucaristia. O povo pode participar no refrão e um solista ou um grupo de cantores faz a salmodia das estrofes. Este canto expressa pela união das vozes, a união espiritual daqueles que comungam, demonstra ao mesmo tempo a alegria do coração e torna mais fraternal a procissão dos que vão avançando para receber o Corpo e o Sangue de Cristo.

CANTO DE LOUVOR FINAL (APÓS A BÊNÇÃO OU SAÍDA):
Este canto não é tão importante nem obrigatório. Podendo ser cantando após a bênção final, como um canto de envio ou um canto dedicado a Nossa Senhora. Na Europa, é costume neste momento ter uma execução de órgão, seguida de aplausos. No entanto, em alguns países, neste momento, ainda se costuma fazer a consagração a Nossa Senhora ou rezar orações e responsos dedicados a Maria, por exemplo. É imprópria a expressão “canto final”, se bem que possa ser o último canto da missa, não é ainda o fim da missa. E no fim da missa, depois do “vamos em paz...”, não tem sentido o povo ainda ficar cantando: a assembléia está dissolvida, e o “vamos em paz” é pra valer. Este canto, se for executado após a bênção final, serve para acompanhar a saída do povo, não sendo necessária a participação do povo, pois, a assembléia está se desfazendo, se dispersando neste momento. É um canto que soleniza a saída do povo, criando um ambiente de alegria por ter participado da ceia fraterna, a não ser em certas ocasiões em que a saída em silêncio pode ter mais sentido. Deve ser um canto de motivação, que incentive e envie o povo em missão, que fomente o compromisso, o testemunho etc., ao mesmo tempo, sua letra deve falar de compromisso tendo em vista o futuro, pois, após termos participado da Ceia do Senhor e da reunião fraterna, “não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos”, pois Cristo, nos envia ao mundo, ao cotidiano, ao serviço de nossos irmãos, para sermos fermento e luz. Se o canto de abertura demonstra a reunião dos fiéis, este deve simbolizar a dispersão dos fiéis, um envio à missão pelo qual cada um foi chamado a desempenhar diante da sociedade, no cotidiano da vida.

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Bibliografia:
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DFONSECA, Joaquim. Cantando a Missa e o ofício divino. São Paulo: Paulus, 2004. (Coleção Liturgia e Música, volume I)
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KOLLING, Miria T. Canto e música litúrgica. (artigo produzido para formação no campo musical-litúrgico).

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Eucaristia: sacramento de transformação pessoal e universal


Eurivaldo Silva Ferreira

Em nosso último artigo falamos sobre a questão da inteireza do ser conseguida pela meta dos sacramentos na nossa vida. Neste sentido, a Eucaristia se faz ponto e cume da nossa ação sacramental, pois, através da ação ritual, ou seja, do celebrar o rito, ela nos torna “oferendas perfeitas ao Pai”. Falamos também da união dessa possibilidade de ação, isto é, daquilo que pretende o sacramento, com a ligação de sua conseqüência em nossa vida. Tudo isso ligado á fé, pois fé e vida caminham juntas. A Igreja diz que a norma da oração é a norma da fé e vice-versa. Também falamos da natureza dialogal da nossa adesão à fé, uma vez concedida através dos sacramentos e da nossa inserção na vida da Igreja através dos sacramentos da iniciação cristã.

Neste artigo vamos tratar da celebração eucarística, a Missa, por assim dizer, e como ela pode se tornar, dada sua natureza sacramental, um verdadeiro caminho para adentrarmos no mistério pascal e a partir dele transformarmos a nós e ao mundo. É claro que o mistério não é propriedade da liturgia, mas este mistério não é possível ser alcançado sem a mediação litúrgica, é por isso que celebramos. Celebramos não porque desejamos racionalizar nossa fé, mas porque desejamos que ela mesma possa nos transportar ao mistério pascal, evento-base que dá sustento à nossa fé.

Na missa nossa relação com Deus é de diálogo: depois dos ritos iniciais, na liturgia da Palavra, Deus nos fala e nós ouvimos, é o conjunto das leituras proclamadas e cantadas e da homilia. Em seguida, damos nossa adesão à Palavra, professando nossa fé no Creio, e respondemos a esta mesma Palavra, suplicando pelas necessidades do mundo, na oração dos fiéis, pois queremos que todos também façam sua adesão a essa fé.

Já na liturgia eucarística, lembramos dos grandes feitos de Deus na história, enviando seu Filho e ele mesmo se fazendo oferta ao Pai. Damos graças por isso, fazemos memória e suplicamos ao Pai que acolha nossa oferta. Esta mesma oferta, que é Jesus Cristo, o Verbo feito carne que se faz alimento para a comunidade, é a hora da partilha, da comunhão. Comemos e bebemos juntos num gesto de comunhão fraterna. O rito da partilha reforça nossa ação também fora da missa, no cotidiano.

Finalmente, levamos essa memória para nossas vidas, onde passamos a glorificar a Deus nos nossos gestos e ações do cotidiano. Na bênção final somos conduzidos a proclamar o mistério já fora do rito, na vida normal, na família, na escola e no trabalho. Ao despedir a assembleia, o diácono sempre diz: glorificai a Deus com vossas vidas!...

Todas essas ações transcendem o agir da comunidade reunida que se oferece para glorificar ao Pai e se edificar ao mesmo tempo. Essa relação se dá desde a escuta da Palavra até a comunhão eucarística. Os elementos da celebração eucarística: ritos iniciais, liturgia da Palavra, liturgia eucarística e ritos finais são os fios condutores para adentrarmos no mistério. Aliás, adentramos no mistério com as nossas fraquezas e deficiências, mas os ritos condicionam as nossas posturas, eles nos dão a possibilidade de “nos reerguermos” e nos potencializar para fazermos isso com inteireza. Contudo, as características não muito positivas de nossa pessoa são também transubstanciadas na missa, que é Eucaristia, banquete, ação de graças. É essa a nossa meta, na "carona" que pegamos com Cristo, ao se ofertar ao Pai, somos transformados como oferenda. Vale a pena repetir o que disse no artigo anterior: de fato, rezamos e cantamos na prece eucarística: “fazei de nós uma perfeita oferenda”.

Portanto, podemos concluir que celebrar a Eucaristia nos coloca neste patamar: o da transformação universal. É a partir daí que estendemos o mistério para nossa ação social, tornando comunhão, partilha, ação de graças, todos os momentos de nossas relações diárias, seja com a família, com os vizinhos, com o bairro, com a cidade, com o mundo, com o a ecologia e todo o cosmos.

Já no plano da transformação pessoal, o mistério pascal que celebramos na Eucaristia tem a potencialidade de nos conduzir a esse fim, afinal de contas, transformando-me na Missa, não só com o rito, mas com o processo existencial que toca em minha intimidade, minha individualidade, mais que qualquer outra coisa, dou início à transformação do mundo que o Senhor deseja e da qual quer fazer-me instrumento.

Os sacramentos e a nossa experiência de fé


Eurivaldo Silva Ferreira

Muito de nossa experiência pessoal de fé é também alimento para nossa caminhada na Igreja. A fé é dada por Deus, mas pressupõe adesão ao seu convite. Em muitas passagens bíblicas Deus convida pessoas a formar com ele uma aliança e a ela aderir.

Foi assim com Abraão, com Moisés, com os profetas, com os reis e etc. Estes, fielmente aceitaram o convite, seguiram e serviram o Senhor. Da mesma forma, a partir da experiência de fé já concedida a cada um e cada uma pelo batismo, no qual somos constituídos Igreja, comunidade reunida, somos convocados para celebrar o Dia do Senhor.

É no Dia do Senhor, o Domingo, que nos reunimos em assembléia para fazer memória do Mistério Pascal de Cristo louvando e bendizendo a Deus por nos ter dado seu Filho. Aderindo à sua Palavra, firmando a nossa fé e ao mesmo tempo fazendo a experiência do mesmo Cristo que está presente na própria assembléia, na Palavra, na oração, no louvor, no pão e no vinho, pela força do Espírito Santo. Por meio do Espírito a experiência deixa de ser uma aproximação provisória para se transformar num conhecimento mais profundo, completo, consciente e frutuoso, a partir daí então consegue se integrar no mistério.

Os três primeiros sacramentos recebidos: Batismo, Eucaristia e Crisma, vão nos ajudar na compreensão desta experiência. Eles são as chaves para um bom começo no caminho da experiência cristã. A Igreja ensina que todos os sacramentos são portadores de sinais eficazes e realizadores em nossas vidas, isto posto, muito mais podemos dizer da Eucaristia. A Eucaristia nos conduz a uma fé mais desejável já que a nossa meta é sermos transformados em oferenda perfeita ao Pai, assim como cantamos em resposta de intervenção no meio da Oração Eucarística, na missa.

O Papa Bento XVI, em recente entrevista, diz que a celebração litúrgica dos sacramentos não deve ser algo estranho, mas que a partir deles os fiéis possam tirar proveito para suas relações sociais. E complementa afirmando que, dentre os sacramentos instituídos pelo próprio Cristo, está a Eucaristia, que nos proporciona uma pedagogia para aprendemos a conhecer Jesus Cristo, o Deus com rosto humano, de perto. É a Eucaristia que nos faz entrar em contato com o Cristo, aprendendo a escutá-lo e a deixá-lo entrar em nós. Bento XVI quer nos chamar a atenção para a questão da inteireza do ser, pois a fé requer que nos coloquemos inteiros nos sacramentos, eles atingem o corpo e o espírito do ser humano. Afinal de contas é o nosso corpo que entra em contato com o mistério que se deixa revelar à medida que nos abrimos a ele. Uma das possibilidades de abertura se dá pela fé.

Contudo, pode acontecer facilmente que o sacramento fique um pouco isolado em um contexto mais pragmático e se converta em uma realidade não totalmente integrada na totalidade de nosso ser humano. Neste caso, a necessidade de redescobrir os sacramentos como condução para a nossa plenitude, se faz urgente. Como se dá isso?
Vejamos um exemplo: por causa da contingência presente no mundo, nós, os cristãos, somos cobrados a toda hora, e exige-se que todos tenhamos uma opinião acerca de tudo, mas ela não mudará o estado das coisas porque, na maioria das vezes, somos colocados em contradição. O choque da nossa fé está exatamente aí, na contradição. Como relacionar isso com os sacramentos? Os sacramentos não dispensam a fé. Ora, se a nossa vivência cristã leva-nos a uma contradição daquilo que pretendem os sacramentos, de fato, de nada valeu recebê-los. Uma vida regrada pelos sacramentos é a nossa meta a ser alcançada, lembremo-nos do “fazei de nós uma perfeita oferenda”.
Deixar-se transformar por eles requer uma caminhada tanto no plano da fé como no sentido social para um propósito de firme decisão, abrindo-se para o mundo e para o outro. Quando a mente, o coração e o corpo trabalham juntos neste propósito, consegue-se aquilo que se almeja.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Cantando as Partes Fixas (Ordinário da Missa)

Relação entre música e rito: três tipos de canto na celebração, em grau de importância:

1) Missa em Canto – cantos do presidente da celebração e dos ministros em diálogo do Ordinário com a assembléia: saudação inicial do presidente, oração do dia, introdução ao Evangelho – diálogo, oração sobre as oferendas, prefácio, as diversas aclamações na Oração Eucarística, Oração do Senhor (Pai Nosso), com a introdução e o prolongamento, oração e saudação da paz, oração após a comunhão, as fórmulas de despedida.

2) Os cantos que constituem o rito: as partes do Comum da Missa, chamadas também de Partes Fixas ou Cantos do Ordinário, cantados em comum, pelo presidente, os ministros e toda a assembléia: Senhor, tende piedade de nós – Kyrie, Glória, Salmo responsorial, Creio (Símbolo), Preces, Santo, Aclamação memorial, Doxologia final.

3) Os cantos que acompanham o rito: as partes da Missa ou o próprio da Missa, cantos de abertura, aspersão do povo, aclamação ao Evangelho, resposta da oração universal dos fiéis, canto da apresentação dos dons, fração do pão (Cordeiro de Deus) e canto da comunhão. Ainda: canto do abraço da paz, pós-comunhão e louvor final (facultativos).

Observações:
a) Os cantos que constituem o rito são mais importantes que os que acompanham o rito. Vantagem: não precisam de papel, e sim cantados “de cor”, favorecendo a comunicação;

b) Não devem ser substituídos por paráfrases ou outros cantos;

c) As melodias respeitem os diversos gêneros e formas; diálogos, proclamação de leituras, salmodias, antífonas, hinos e cânticos, aclamações (Aleluia, Santo, Amém). Outras formas: balada, coral, spiritual, nossas canções;

d) Equilíbrio entre as partes cantadas, usando a criatividade, dependendo da festa ou da solenidade, da assembleia, das possibilidades;

e) Na escolha dos cantos, não fazer opção pelo novo, mas pelo melhor (Santo Agostinho);

f) Equilíbrio entre cantar tudo e entre cantar nada. Dosar.

g) Cantar A liturgia, não NA liturgia, um canto qualquer, dispersivo, mas o rito, a Palavra, a festa, o mistério celebrado.

Como deve ser a música litúrgica:
• Fácil e simples (não vulgar nem simplória)
• Melódica e não estridente (não pegajosa)
• Diatônica e de estilo silábico (cada sílaba corresponda à sua nota musical)
• Clareza de tom e modo
• Evoque um mundo de mistério e transcendência
• Esteja a serviço da palavra, cantando-a com clareza; tenha aderência à palavra
• Penetre e vivifique a palavra, meditando e aprofundando o texto


ATO PENITENCIAL:
Contexto: situa-se nos Ritos iniciais, cuja finalidade é a de fazer com que os fiéis, reunindo-se em assembléia, constituam uma comunhão e se disponham para ouvir atentamente a palavra de Deus e celebrar dignamente a Eucaristia. Podem ser omitidos ou realizados de modo peculiar se pertencentes a outras celebrações e se conectarem com a missa.

O que é: o canto do Ato Penitencial constitui o próprio rito da celebração, o que costumamos chamar de “ordinário da missa”. Testemunhos antigos nos revelam que os Kyrie estavam relacionados com a resposta da oração dos fiéis, na liturgia da Palavra; a cada invocação o povo respondia com o “Kyrie eleison”. Mais tarde, este canto foi incluído nos ritos iniciais da missa após o ato penitencial ou como uma variante dele.

Finalidade: aclamar o Senhor e implorar a sua misericórdia, o Kyrios. O “Senhor, tende piedade”, também é igualado ao Hino de louvor por se tratar de uma aclamação ao Senhor. Pode ser omitido quando é substituído pela bênção e aspersão da água, procissão dos ramos, celebração de uma das Horas do Ofício e outras que prevêem o Missal.

Forma de participação: por todos, participando dele o povo e o grupo de cantores. Há várias possibilidades de se cantar, conforme o Missal que sugere várias possibilidades de execução por parte de quem canta, sobretudo três formas que guardam a estrutura que lhe é característica: Senhor, Cristo, Senhor. É costume usar a forma grega: Kyrie eleison, Christe...

Sentido: A assembléia reunida que invoca e reconhece a infinita misericórdia do Senhor. Alias, Kyrios foi o nome mais comum dado a Cristo ressuscitado pelos primeiros cristãos.

HINO DE LOUVOR:
O que é: é um hino antiqüíssimo e venerável. Remonta aos primeiros séculos da era cristã. Historicamente só se cantava no Natal (é canto dos dos anjos que ressoou pela primeira vez nos ouvidos dos pastores de Belém) mais tarde foi introduzido a outros tempos e celebrações. Na sua origem, o Glória era entoado durante o ofício da manhã. Só bem mais tarde – por volta do século IV – é que aparece prescrito na liturgia eucarística do Natal, podendo aí ser entoado apenas pelo bispo. Durou muito tempo esse costume, porém, no final do século XI já há notícias do uso do Glória em todas as festas e domingos, exceto na Quaresma. Então os presbíteros já podiam entoá-lo. Também é constituído o próprio rito.

Finalidade: a Igreja, congregada no Espírito Santo, glorifica e suplica a Deus Pai e ao Cordeiro. Por isso podemos dizer que se trata de um hino doxológico.

Forma de execução: pode ser iniciado por quem preside, seguido pelo grupo de cantores , por toda a assembléia ou de forma alternada, coro e assembléia ou solista e assembléia. Em se tratando de um hino, deveria ser sempre cantado. Deve ser usado melodias simples que facilitem a execução, por se tratar de um texto mais longo.

Estrutura: sua estrutura pode ser dividida em 3 partes:
1) O canto dos anjos na noite do nascimento de Cristo: de “Glória...” até “...amados.”;
2) Os louvores a Deus Pai: de “Senhor Deus...” até “...por vossa imensa glória”;
3) os louvores seguidos de súplicas e aclamações a Cristo: de “Senhor Jesus Cristo...” até “...Altíssimo Jesus Cristo”. Termina com um final majestoso, incluindo o Espírito Santo, que não faz parte da aclamação. O ES aparece relacionado com o Filho, pois é neste que se concentram os louvores e as súplicas.

Sentido: dá-se graças pela glória de Deus Pai, pelo Filho, no Espírito. Porém, o Filho se mantém no centro do louvor, da aclamação e da súplica.

PROFISSÃO DE FÉ:O que é: este é um dos cantos que compõem o próprio rito. O Creio quer ser uma resposta de fé e de compromisso da comunidade e do indivíduo à Palavra de Deus; e principalmente assumir conscientemente a regra da fé que recebemos de Cristo através dos Apóstolos e chegada até nós no decorrer dos séculos. É portanto uma profissão de fé eclesial. Não se trata de uma simples enumeração de artigos de fé, nem uma síntese dogmática: é um resumo de toda a história santa, da Criação à Vida eterna, passando pela Encarnação, a vinda do Espírito Santo, o mistério da Igreja e dos Sacramentos. É uma memória da economia da salvação.

Forma da execução: o Símbolo, por ser uma forma de profissão de fé, seja cantado por todos, ou de forma que permita uma conveniente participação dos fiéis. Cantado maciçamente pela assembléia representa um sinal de unidade da própria Igreja, todavia, se o canto for alternado, a compreensão de unidade pode se dar de outra forma, a do conjunto. O símbolo ou profissão de fé deve ser cantado ou dito pelo sacerdote com o povo aos domingos e solenidades; pode-se também dizê-lo em celebrações especiais de caráter mais solene. Quando cantado, é entoado pelo sacerdote ou, se for oportuno, pelo cantor ou pelo grupo de cantores; é cantado por todo o povo junto, ou pelo povo alternando com o grupo de cantores. A forma mais apropriada é o Niceno-Constantinopolitano. Os instrumentos limitem-se deste canto a um acompanhamento discreto, apenas para apoiar as vozes, variando de acordo com o grupo coral que canta.

Finalidade: tem por objetivo levar todo o povo reunido a responder à palavra de Deus anunciada da sagrada Escritura e explicada pela homilia, bem como, proclamando a regra da fé através de fórmula aprovada para o uso litúrgico, recordar sua e professar os grandes mistérios da fé, antes de iniciar sua celebração na Eucaristia. É pelo símbolo que a assembléia reunida faz sua adesão de fé, seu assentimento, após ouvir a palavra, antes que se inicie a liturgia eucarística.

ORAÇÃO UNIVERSAL OU DOS FIÉIS:
Finalidade: na oração universal, ou oração dos fiéis, exercendo a sua função sacerdotal, o povo suplica por todos os homens. Convém que normalmente se faça esta oração nas missas com o povo, de tal sorte que se reze: pela Santa Igreja, pelos governantes, pelos que sofrem necessidades, por todos os homens e pelo bem-estar e salvação de todo o mundo. Por ocasião de celebrações especiais como Matrimônio, Exéquias, as intenções podem referir-se estreitamente àquelas circunstâncias. Na Igreja primitiva, nesta hora os catecúmenos se retiravam, ficando só os iniciados para a celebração da Eucaristia.

Sentido: depois de ter escutado com amor a Palavra que lhe revela alguns dos aspectos do Mistério da salvação, o povo de Deus coloca-se no meio de tosos os homens; no exercício de sua função sacerdotal, ele suplica por todos os homens. É universal porque leva a assembléia a transcender seus próprios horizontes; é dos fiéis porque os batizados são solidários com toda a humanidade, com suas dificuldades, suas alegrias e esperanças, e através da oração eles exercem seu “sacerdócio régio” no meio do mundo.

Forma de execução: sem dúvida, uma oração cantada tem um significado mais profundo e mais eclesial do que uma oração simplesmente falada; ainda mais pelo aspecto comunitário do canto, uma vez que esta é a oração da Comunidade dos fiéis. A IGMR valoriza a execução desta oração pelo cantor, colocando-a como segunda opção, o que significa dizer que esta oração tem importância significativa quando cantada, o que lhe dá um caráter mais solene. Porém, se não for cantada, ao menos que o povo participe cantando pela resposta. O uníssono das vozes é o que exprime melhor a unidade de uma Igreja que reza, e dá uma força especial a esta prece; no entanto, o coral pode acompanhar o povo com uma polifonia homofônica. Neste caso os instrumentos apenas acompanham e apóiam suavemente a melodia.

SANTO:
Contexto: situa-se antes da Oração Eucarística, após o prefácio. Trata-se de um conjunto de aclamações oriundas da Sagrada Escritura. Tem sua origem no Oriente, século II. Trata-se de uma compilação de textos bíblicos, uma espécie de colcha de retalhos

Forma de execução: normalmente toda a assembléia e o sacerdote cantam este canto, numa atitude alegre, solene, porém, nada impede que o coral dê um colorido maior e o solenize, enriquecendo-o a vozes. Os instrumentos acompanham, incentivam e solenizam o canto da assembléia.

Sentido: É a conclusão do Prefácio, cuja aclamação, que é parte e abertura da oração Eucarística, expressa a assembléia unida aos espíritos celestes, proclamando que Deus é Santo, Senhor do Universo. É um dos pontos mais altos da prece eucarística, portanto deve ter um clima de manifestação gloriosa, de teofania, manifestação de Deus que habita os altos céus (a visão de Isaías). Se a variedade de diversos sons na união das vozes de uma mesma melodia já parece insinuar e simbolizar a unidade de uma cidade bem organizada, a união das vozes humanas em um mesmo canto aparece como uma adequada expressão comunitária. Assim, o Santo, unido às vozes do coro celestial, evoca a parusia gloriosa do fim dos tempos, ambiente de festa em que o céu e a terra se unem, reunindo num louvor cósmico e universal.

ACLAMAÇÕES DA PRECE EUCARÍSTICA
Algumas foram inseridas após o Concílio Vaticano II, que fomentou a participação ativa e frutuosa da assembléia.

Finalidade: têm a finalidade de promover uma participação ativa (SC 30). A atitude de quem canta as aclamações é de povo que aclama de pé, atitude do Ressuscitado e de ressuscitados no Cristo e por Ele. As aclamações da celebração eucarística têm caráter solene e pascal, como a Aclamação Memorial e o Amém.

Forma de execução: por toda a assembléia, acompanhada pelo grupo de cantores ou coro. Os instrumentos podem dar um maior colorido, principalmente os percussivos, solenizando as aclamações como verdadeiras expressões de um povo celebrante e alegre.

Sentido: não se trata de sinais externos da celebração comum, mas promovem e realizam a comunhão entre o sacerdote e o povo (IGMR 34). Lembram nossa dignidade povo sacerdotal que somos.

ACLAMAÇÃO MEMORIAL
Sentido: as três fórmulas oferecidas pelo Missal Romano expressam o anúncio do mistério Pascal, no qual o povo faz memória, comemorando o abaixamento e a glorificação do Senhor, e pedindo sua vinda. Tem um caráter pascal e não dramático-devocional.

Foi introduzida pelo Concílo Vaticano II. Não devem ser substituídas por expressões devocionais de fé na presença real de Jesus, nem por canto eucarístico.
Forma de execução: por se tratar de uma das aclamações mais importantes da missa, deve ser cantada por toda a assembléia, em resposta ao “ Eis o Mistério da Fé”, entoado por quem preside.

DOXOLOGIA FINAL
Sentido: é o louvor final, após a narrativa das maravilhas e benefícios de Deus pelo seu povo.
Forma de execução: como não é aclamação, não é proclamada por toda a assembléia, e sim por quem preside. Em resposta, a assembléia entoa o Amém (Aleluia, ou outras aclamações, conforme consta no Missal), que deve ser solene, vibrante, repetido, sinal de adesão, compromisso, concordância, comunhão. A doxologia final deve ser sempre cantada, devido à sua importância.
Este canto nos lembra nossa dignidade de povo sacerdotal, participanto com quam preside da prece eucarística.

PAI NOSSO
Origem: do próprio Cristo, seguindo as tradições judaicas que costumavam orar ao Pai através de sete petições, três “celestes” e as quatro seguintes “terrestre”. Trata-se de uma oração de grande exultação. Provavelmente foi intruduzida na missa por Santo Ambrósio, pelo século IV.

Sentido: todos unidos à oferta de Cristo, por Ele reconciliados com o Pai, podem exclamar com amor e confiança: “Pai- nosso...”. É a oração preparatória por excelência para a comunhão.

Forma de execução: convém mesmo que seja cantada numa melodia simples, em forma de cantilena ou gregoriano.
Não deve ser substituida por outras palavras que não as do próprio evangelho. O Pai Nosso na Missa não é conclusivo, e sim nos introduz ao rito da comunhão. Por isso não se diz o Amém no final.

Quem canta: toda a assembléia.

ORAÇÃO PELA PAZ – ABRAÇO DA PAZ
A saudação é sempre um gesto simbólico, e bastaria cumprimentar os que estão mais próximos. O rito não deve levar muito tempo. Não deve substituir ou abafar o canto do “Cordeiro de Deus”, que tem preferência, durante o rito da fração do pão. O mais importante é o abraço, e não o canto, que é facultativo.
Poderia ser entoado apenas pelo coral e reservado para circunstâncias especias ou pequenos grupos.

CORDEIRO DE DEUS
O que é: é uma prece litânica (em forma de ladainha). Há notícias de que no século VIII já era muito comum seu uso na liturgia. A invocação “dai-nos a paz” foi acrescentada posteriormente – por volta do século XIII. Na mesma época, nas missas dos defuntos, no lugar do “tende piedade de nós”, cantava-se: “dai a eles o repouso”, e no lugar do “dai-nos a paz”, cantava-se: “dai a eles o repouso eterno”.

Forma: é executado durante o rito da fração do pão, na liturgia eucarística. Dura enquanto durar o rito. Após cada invocação entoada pelo(a) cantor(a), a assembléia responde com o “tende piedade de nós” e, no final, com o “dai-nos a paz!”. Quanto aos instrumentos, acompanhamento discreto para apóiar a proposta do solista e a resposta do povo.

Sentido: a imagem do “Cordeiro” é eminentemente bíblica: João Batista nos apresenta Jesus como o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”. Recorda-nos o Cordeiro Pascal da nova e eterna Aliança – Cristo – que foi imolado. A palavra “Cordeiro” aparece várias vezes no livro do Apocalipse, sempre se referindo a Cristo. A prece especialmente faz alusão ao banquete escatológico das “Bodas do Cordeiro” de que fala o Apocalipse, significando que a Eucaristia é o sinal e o penhor.


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Bibliografia:
BASURKO, Xavier. O canto cristão na tradição primitiva. São Paulo: Paulus, 2005. Tradução de Celso Márcio Teixeira (Coleção: Liturgia e Música, volume III).
CNBB. Estudos sobre os cantos da Missa. São Paulo: Paulinas, 1976. (Coleção Estudos da CNBB, 12).
CNBB. Animação da vida litúrgica no Brasil. São Paulo: Paulinas, 1989. (Coleção Documentos da CNBB, 43).
CNBB. A música litúrgica no Brasil. São Paulo: Paulus, 1999. (Coleção estudos da CNBB, 79).
CNBB. Princípios teológicos, litúrgicos, pastorais e estéticos. São Paulo: Edições CNBB, 2005.
FONSECA, Joaquim. Cantando a Missa e o ofício divino. São Paulo: Paulus, 2004. (Coleção Liturgia e Música, volume I)
GRUSZYNSKI, Alexandre H. Os cantos na celebração Eucarística – como está atualmente disciplinada a matéria. In: Teocomunicação – Revista de Teologia da PUC – Porto Alegre – RS nº 130 – Dezembro/2000. Rio Grande do Sul: Edipucrs, 2000. pp.659-694.
VATICANO II. As introduções gerais dos livros litúrgicos. São Paulo: Paulus, 2003.
DOCUMENTOS DA IGREJA. Documentos sobre a música litúrgica. São Paulo: Paulus, 2005.
DIAZ. Mauro Serrano. O canto e a música na celebração. In: Manual de Liturgia II: CELAM. São Paulo: Paulus, 2005. pp.275-308.
KOLLING, Miria T. Canto e música litúrgica. (artigo produzido para formação no campo musical-litúrgico).

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

HOJE NÃO TENHO MAIS ESSES SONHOS

HOJE NÃO TENHO MAIS ESSES SONHOS,
diz o cardeal

O cardeal Carlo M. Martini, jesuíta, biblista, arcebispo que foi de Milan e colega meu de Parkinson, é um eclesiástico de diálogo, de acolhida, de renovação a fundo, tanto na Igreja como na Sociedade. Em seu livro de confidências e confissões Colóquios noturnos em Jerusalém, declara: «Antes eu tinha sonhos acerca da Igreja. Sonhava com uma Igreja que percorre seu caminho na pobreza e na humildade, que não depende dos poderes deste mundo; na qual se extirpasse de raiz a desconfiança; que desse espaço às pessoas que pensem com mais amplidão; que desse ânimos, especialmente, àqueles que se sentem pequenos o pecadores. Sonhava com uma Igreja jovem. Hoje não tenho mais esses sonhos». Esta afirmação categórica de Martini não é, não pode ser, uma declaração de fracasso, de decepção eclesial, de renúncia à utopia. Martini continua sonhando nada menos que com o Reino, que é a utopia das utopias, um sonho do próprio Deus.

Ele e milhões de pessoas na Igreja sonhamos com a «outra Igreja possível», ao serviço do «outro Mundo possível». E o cardeal Martini é uma boa testemunha e um bom guia nesse caminho alternativo; o tem demonstrado.

Tanto na Igreja (na Igreja de Jesus que são várias Igrejas) como na Sociedade (que são vários povos, várias culturas, vários processos históricos) hoje mais do que nunca devemos radicalizar na procura da justiça e da paz, da dignidade humana e da igualdade na alteridade, do verdadeiro progresso dentro da ecologia profunda. E, como diz Bobbio, «é preciso instalar a liberdade no coração mesmo da igualdade»; hoje com uma visão e uma ação estritamente mundiais. É a outra globalização, a que reivindicam nossos pensadores, nossos militantes, nossos mártires, nossos famintos...

A grande crise econômica atual é uma crise global de Humanidade que não se resolverá com nenhum tipo de capitalismo, porque não é possível um capitalismo humano; o capitalismo continua a ser homicida, ecocida, suicida. Não há modo de servir simultaneamente ao deus dos bancos e ao Deus da Vida, conjugar a prepotência e a usura com a convivência fraterna. A questão axial é: Trata-se de salvar o Sistema ou se trata de salvar à Humanidade? A grandes crises, grandes oportunidades. No idioma chinês a palavra crise se desdobra em dois sentidos: crise como perigo, crise como oportunidade.

Na campanha eleitoral dos EUA se arvorou repetidamente «o sonho de Luther King», querendo atualizar esse sonho; e, por ocasião dos 50 anos da convocatória do Vaticano II, tem-se recordado, com saudade, o Pacto das Catacumbas da Igreja serva e pobre. No dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio, 40 Padres Conciliares celebraram a Eucaristia nas catacumbas romanas de Domitila, e firmaram o Pacto das Catacumbas. Dom Hélder Câmara, cujo centenário de nascimento estamos celebrando neste ano, era um dos principais animadores do grupo profético. O Pacto em seus 13 pontos insiste na pobreza evangélica da Igreja, sem títulos honoríficos, sem privilégios e sem ostentações mundanas; insiste na colegialidade e na corresponsabilidade da Igreja como Povo de Deus e na abertura ao mundo e na acolhida fraterna.

Hoje, nós, na convulsa conjuntura atual, professamos a vigência de muitos sonhos, sociais, políticos, eclesiais, aos quais de jeito nenhum e de modo algum podemos renunciar. Seguimos rechaçando o capitalismo neoliberal, o neoimperialismo do dinheiro e das armas, uma economia de mercado e de consumismo que sepulta na pobreza e na fome a uma grande maioria da Humanidade. E seguiremos rechaçando toda discriminação por motivos de gênero, de cultura, de raça. Exigimos a transformação substancial dos organismos mundiais (a ONU, o FMI, o Banco Mundial, a OMC...). Comprometemo-nos a vivermos uma «ecologia profunda e integral», propiciando uma política agrária-agrícola alternativa à política depredadora do latifúndio, da monocultura, do agrotóxico. Participaremos nas transformações sociais, políticas e econômicas, para uma democracia de «alta intensidade».

Como Igreja queremos viver, à luz do Evangelho, a paixão obsessiva de Jesus, o Reino. Queremos ser Igreja da opção pelos pobres, comunidade ecumênica e macroecumênica também. O Deus em quem acreditamos, o Abbá de Jesus, não pode ser de jeito nenhum causa de fundamentalismos, de exclusões, de inclusões absorventes, de orgulho proselitista. Chega de fazermos do nosso Deus o único Deus verdadeiro. «Meu Deus, me deixa ver a Deus?». Com todo respeito pela opinião do Papa Bento XVI, o diálogo interreligioso não somente é possível, é necessário. Faremos da corresponsabilidade eclesial a expressão legítima de uma fé adulta. Exigiremos, corrigindo séculos de descriminação, a plena igualdade da mulher na vida e nos ministérios da Igreja. Estimularemos a liberdade e o serviço reconhecido de nossos teólogos e teólogas. A Igreja será uma rede de comunidades orantes, servidoras, proféticas, testemunhas da Boa Nova: uma Boa Nova de vida, de liberdade, de comunhão feliz. Uma Boa Nova de misericórdia, de acolhida, de perdão, de ternura, samaritana à beira de todos os caminhos da Humanidade. Seguiremos fazendo que se viva na prática eclesial a advertência de Jesus: «Não será assim entre vocês» (Mt 21,26). Seja a autoridade serviço. O Vaticano deixará de ser Estado e o Papa não será mais chefe de Estado. A Cúria terá de ser profundamente reformada e as Igrejas locais cultivarão a inculturação do Evangelho e a ministerialidade compartilhada. A Igreja se comprometerá, sem medo, sem evasões, com as grandes causas de justiça e da paz, dos direitos humanos e da igualdade reconhecida de todos os povos. Será profecia de anuncio, de denúncia, de consolação. A política vivida por todos os cristãos e cristãs será aquela «expressão mais alta do amor fraterno» (Pio XI).

Nós nos negamos a renunciar a estes sonhos mesmo quando possam parecer quimera. «Ainda cantamos, ainda sonhamos». Nós nos atemos à palavra de Jesus: «Fogo vim trazer à Terra; e que mais posso querer senão que arda» (Lc 12,49). Com humildade e coragem, no seguimento de Jesus, tentaremos viver estes sonhos no dia a dia de nossas vidas. Seguirá havendo crises e a Humanidade, com suas religiões e suas Igrejas, seguirá sendo santa e pecadora. Mas não faltarão as campanhas universais de solidariedade, os Foros Sociais, as Vias Campesinas, os movimentos populares, as conquistas dos Sem Terra, os pactos ecológicos, os caminhos alternativos da Nossa América, as Comunidades Eclesiais de Base, os processos de reconciliação entre o Shalom e o Salam, as vitórias indígenas e afro y, em todo o caso, mais uma vez e sempre, «eu me atenho ao dito: a Esperança».

Cada um e cada uma a quem possa chegar esta circular fraterna, em comunhão de fé religiosa ou de paixão humana, receba um abraço do tamanho destes sonhos. Os velhos ainda temos visões, diz a Bíblia (Jl 3,1). Li nestes dias esta definição: «A velhice é uma espécie de postguerra»; não precisamente de claudicação. O Parkinson é apenas um percalço do caminho e seguimos Reino adentro.

Pedro Casaldáliga
Circular 2009