sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Partilhando o encontro nacional da Rede Celebra de Animação Litúrgica



“Minha jangada vai sair pro mar, vou trabalhar, meu bem querer...”

A música de Caymi inspirou-nos o itinerário, e nós topamos subir na “jangada” do núcleo do Ceará e trabalharmos juntos no mar da Liturgia, reunidos em Fortaleza na casa de Retiro das Irmãs Josefinas, no Bairro de Messejana, de 16 a 22 de Julho de 2012. Partilha de companheiros e companheiras que traziam em suas experiências as riquezas espirituais inalienáveis da Liturgia, fé e vida, sede e esperança, luta e confiança. Na chegada já sentimos no jeito todo fraterno e carinhoso dos anfitriões cearenses, uma acolhida viva e atenciosa, em especial naquela que de tanto cuidado “não dormia nem cochilava”, como o salmista, a nossa querida Irmã Ivani Brito. Foi certamente uma delícia de chegada!

            Aos poucos nos reencontramos e os abraços sinceros trocados entre irmãos e irmãs, deram o mote do que viria a ser toda aquela semana de convivência: festa de uma família reunida no mesmo ideal. Amizades de longas jornadas ou recentemente construídas, todos renovamos os “nós” da caminhada da Celebra.
           
          Diante de nós, abria-se uma desafiadora estrada a percorrer, onde o sonho que está no nº 21 de nossa carta de princípio parecia nos provocar ainda mais: “libertar, progressivamente, a prática celebrativa dos esquemas de dominação para chegarmos a um jeito de celebrar que manifeste o caráter igualitário e participativo da comunidade eclesial”. Para tanto lembramos que estão em nossas mãos, as atuais e pertinentes propostas do Concílio Vaticano II, especialmente a Constituição sobre a Liturgia. Chegamos com sede e tinha água abundante, jorrando das celebrações, das conferências, dos trabalhos de grupo e da missão, tudo isso sob o signo do jeito novo de ser Igreja e de celebrar que a Rede ao longo de seus 16 anos vem construindo, motivando-nos profundamente.
         
           Núcleos de quase todos dos estados do Brasil foram representados, podendo-se sentir que a chama viva do Espírito de Deus, que queima a tentação do individualismo e do subjetivismo, esteve sobre nós durante toda esta semana, firmando nosso trabalho feito em mutirão. Era forte esta presença, nos ensinando a abrir os ouvidos de nossas celebrações, ao clamor que nos vem das “urgências do mundo”, que grita por justiça, paz e solidariedade entre os povos e os governos, entre as religiões e a humanidade, para que todos nos reconheçamos irmãos e zeladores desta casa comum que é o planeta Terra. Como aos discípulos de Emaús, escancarou-se para nós, em várias falas e ações, o sentido último da nossa alegria pascal, que é louvar ao Senhor por sua vitória e presença no meio de seu povo amado, mas não esquecendo a vida nua e crua, na qual estas celebrações em memória do Senhor estão inseridas.
           
           Reencontrar ou mesmo descobrir, através dos testemunhos a respeito do Concílio Vaticano II, os sentimentos que moveram as ações do Papa João XXIII, inspirados no Evangelho e nos apelos que o mundo fazia há cinquenta anos, sintonizou-nos com a frequência que vibrava o coração do “Papa Bom”, suscitando em nós o desejo de continuarmos a lutar para que a Igreja não se perca ou se esqueça da importância do Movimento Litúrgico, Ecumênico, Bíblico, Socialista, que fizeram acontecer o Vaticano II e consequentemente as inúmeras iniciativas para se botar em prática as aspirações do Concílio.
         
           Contudo, não deixamos de analisar também o atual contexto eclesial que se apresenta, especialmente quanto à Liturgia, que está sendo tomada como palco e não como “casa”. Trata-se de alguns movimentos pseudo conservadores, que tentam efetuar um retrocesso inconcebível, desejosos em recuperar o uso de um rito e consequentemente de uma eclesiologia, que por opção profética e evangelicamente coerente deixamos para trás, a fim de correspondermos àquilo que o Evangelho nos provoca nos dias de hoje. A Rede Celebra e outros tantos movimentos eclesiais lúcidos de sua missão e em plena sintonia com o caminho aberto pelo Vaticano II, assistem com pesar e tristeza estas tentativas alienadas, de conduzir a Igreja novamente à escuridão da anestesia social, enquanto seu dever é de avançar sem medo da novidade que vem por aí.
           
        Com a ajuda de Reginaldo Veloso, Ione Buyst, Frei Ariovaldo, Dom Edmar, Maria de Lourdes, Maria do Carmo, Ir Penha, Ir Silde, Domingos Ormonde e tantos outros irmãos e irmãs a serviço da distribuição do saber, como também das inspiradas intervenções surgidas do meio do grande grupo, traçamos um caminho pedagogicamente necessário e mistagogicamente eficaz, feito sempre em mutirão, a fim de que percebêssemos o diálogo profícuo e extremamente necessário entre a cinquentenária Sacrossanctum Concilium e as demais constituições nascidas no Concílio Vaticano II (GS, LG, DV), sem esquecer os outros documentos que podem também nos ajudar prodigamente a compreendê-la e harmoniza-la a todo o conteúdo proposto pelo Concílio, como os que tratam do ecumenismo e o do diálogo inter-religioso.

          Já na quarta-feira, dia 18, nas tendas de formação, tivemos outro momento de profunda convivência com a rica tradição litúrgica da Igreja, aprofundando os tesouros dos Sacramentos e Sacramentais, como também o ODC, a Música, o Ano Litúrgico e outros, com muita criatividade e dedicação dos assessores, que nos ajudaram de maneira mistagógica, a acender mais ainda a chama da busca pela Litúrgica – Fé – Vida. Claro que a interação e a disponibilidade de todos e todas nestes momentos foram de máxima importância para o bom êxito de toda a semana, sem deixar de salientar ainda que a metodologia das pequenas “rodas” foi um dado importantíssimo para atingirmos o objetivo desejado. A Rede é feita de partilha!
       
          Neste ritmo vimos chegar a sexta-feira, onde a primeira parte da manhã foi reservada para a Leitura Orante dos textos do 16º Domingo do Tempo Comum, feita individualmente e seguida de uma partilha comunitária. Foi momento de muita riqueza, regar a semente da Palavra lançada em nossos corações e colhermos juntos os frutos desta Palavra, foi vivificante. Seguimos então, ansiosos, tranquilos, medrosos, animados... Eram muitos sentimentos que explodiam em nós quando dedicamos o restante da manhã à preparação dos últimos detalhes da missão que aconteceria no sábado. Foi lindo ver as pessoas portadoras destes sentimentos variados, abertas à ação do Espírito, falando e ouvindo, trocando ideias e experiências, aprontando-se para espalhar o Evangelho da Vida na semeadura que estava por vir. À tarde, um passeio pelas belezas naturais e arquitetônicas de Fortaleza nos ajudou a tirar um pouco da tensão e preocupação com a missão que nos aguardava.  
       
      Então chegou o shabat missionário, no dia 21. Vinte e cinco paróquias solicitaram a presença dos missionários da Rede Celebra, para que pudessem partilhar com elas a vivência e a metodologia própria da Rede, a partir de conteúdos bem preparados, bíblica e teologicamente embebidos. Neste dia ficou claro, alguém partilhava, que a Rede está desbravando o caminho certo, protagonizando um trabalho incansável, por uma Liturgia que celebre a aliança do Deus da vida com a historia de seu povo e que faz questão de contar nos dias de hoje, não somente com os ministros ordenados ou com os religiosos e religiosas, mas com todo o povo de Deus, batizados e batizadas n’Ele, que mostraram que são capazes sim, de anunciar corajosamente a Palavra do Senhor. Ao voltarmos, partilhávamos aos poucos aquilo que esta missão fez surgir tanto nas paróquias quanto na gente, e era nítida em nossos rostos aquela doce satisfação de pertencer primeiramente não só à Igreja, mas à grande família humana, prenhe de um mundo sedento do amor.

        No Domingo, celebramos a Eucaristia com cantos nos lábios, gratidão nas mãos e amor, muito amor a esta nova história que vai sendo tracejada por este povo sacerdotal. Alimentados pela Palavra e pelo Pão, sentimos que aquela celebração final não simbolizava de maneira alguma um adeus, mas o banquete da vida, nutrindo-nos para um novo desafio, afinal, nossos núcleos, nossas comunidades, nossa história nos aguardavam para continuarmos a construção de uma Igreja verdadeiramente aliada dos pobres, a serviço da justiça e da paz e celebrante de um Mistério que não se cansa de abrir-se, revelando-se a cada dia, Páscoa de Cristo na Páscoa da vida.


       
            Ao povo da Rede Celebra, especialmente ao núcleo de Fortaleza, força, calor e confiança. Axé!

Marcelo Gomes de Barros, membro da Rede Celebra, núcleo Santa Rita-PB.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O tempo em que vivemos e celebramos


Eurivaldo Silva Ferreira


        Introdução 
O tempo é uma realidade simbólico-sacramental pela qual nos permite falar do mistério que perpassa e é celebrado na liturgia. Embora nós não conseguimos tocar, mas através da realidade simbólica, nos é permitido aproximar, enxergar.
Celebrar no tempo específico o mistério de Cristo é compreender a presença, em modo sacramental-ritual, do mesmo mistério no entrelaçar de nossa existência. A este o evento de salvação, pelo qual se faz memória, apreendemos no tempo todo o sentido do mistério de Cristo, seja em determinado momento do dia (ritmo diário), da semana (ritmo semanal), do ano (ritmo anual), ou num momento especial da vida. O tempo se torna então essencialmente celebração do Cristo. Desde os antigos, via-se no tempo a manifestação do divino acompanhando e se fazendo presente nas ações do povo. Nas celebrações que percorrem o itinerário do Ano Litúrgico há uma pedagogia implícita, revelada pelos textos litúrgicos e pelas orações, em que Cristo nos fala e atua no meio de nós. Estas ações são realizadas no plano temporal, situação em que percebemos o mistério presente, que é distribuído no percurso daquilo que a Igreja denomina de tempos litúrgicos. Por meio dos ritos percorremos este caminho que liga fé e salvação. Por meio do AL a Igreja vive e celebra o mistério de Cristo, pelo qual entra em contato com a realidade do próprio mistério, acolhendo os frutos da salvação. Os ritos exprimem com clareza as realidades santas que significam, permitindo que o povo participe plena e ativamente da celebração comunitária, e assim, como que num itinerário de condução à fé, pode colher frutos espirituais para sua existência.
As primeiras comunidades cristãs entendiam as ações celebrativas como a norma da vivência de sua fé no Cristo ressuscitado. O que experimentavam na liturgia era fruto da compreensão que tinham que o próprio mistério pascal ia atuando em suas vidas. Desta forma ligavam a experiência ritual com a realidade a partir do “chão da vida” dos membros destas comunidades.  No dizer de Reginaldo Veloso, o mistério pascal é realizado existencialmente no cotidiano das pessoas, suas vidas se tornam palco do próprio mistério. O CV II bebeu desta fonte, aplicando-a à realidade da Igreja e de sua liturgia, pois a Igreja é palco da vivência do mistério pascal acontecido nas realidades do mundo e de cada fiel.

Jesus Cristo, o ‘Senhor do tempo’
O Evangelho de João afirma que Jesus Cristo é inserido no tempo como Verbo encarnado. Jesus é agora a plenitude da Palavra eterna pronunciada pelo Pai. Isso o torna ‘Senhor do tempo’. Fazemos memória dessa presença de Jesus ao contemplarmos o mistério de sua salvação celebrado no ritmo diário, semanal e anual. Tudo isso pela força do sinal sacramental presentes nos textos, nos ritos e em toda a liturgia.
Construído sob a ótica de sua cosmicidade, o tempo é tão constantemente citado nas narrativas bíblicas. Tão importância é o tempo na liturgia que, além de sua cosmicidade, ele entra na liturgia também com sua característica histórica. Nessa perspectiva entendemos o porquê de centrarmos o evento pascal sob essas duas fortes influências.
O tempo é então um conceito que, antes de ser apreendido e expresso, finca suas raízes na experiência dos seres humanos, por isso falamos tempo e espaço; tempo físico e tempo psicológico; tempo passado, presente e futuro; tempo contado e tempo vivido. A verdade é que, quer se trate esse tempo como amigo ou como inimigo, ele faz parte de uma realidade inevitável, da qual não se pode fugir.

A necessidade da construção de um calendário para marcar o tempo
O tempo caracteriza o judaísmo e, depois, o cristianismo, e os distingue completamente de todas as outras religiões. Deus entrou na história para aí realizar um plano de salvação que culminou com a morte-ressurreição de Cristo: esse é o evento que marca a religião judaico-cristã. A imagem, portanto, é a irrupção de Deus na história, que modifica a vida daqueles que creem.
A partir de sua característica cósmica, o tempo é uma realidade deste universo pelo qual se mede a duração das coisas: a natureza é concebida por ritmos próprios, que são caracterizados pela alternância da luz e das trevas, daí o dia e a noite. Dessa alternância, foi possível estabelecer um calendário, o mês, por exemplo, que é o período em que a lua gira em torno da Terra; e o ano, que é a soma dos dias realiza para dar a volta em torno do sol. Quase todas as sociedades conhecem algum tipo de ciclo anual, por isso o tempo sempre esteve ligado à função de refazer a vida.
Nele ligava-se o fato de poder haver acontecimentos agradáveis ou tristes, favoráveis ou contrários, e são estes os fatos que dão ao homem primitivo um conteúdo e uma cor aos dias, aos meses e aos anos. É por este faros que as civilizações previam a necessidades de se medir o tempo, de organizá-lo e controlá-lo.

O tempo, dos gregos ao mundo judaico
A concepção grega é a da que o tempo não produz nada de novo, é sempre cíclico, como que se repetindo tal qual as estações do ano, cada uma com seu ritmo próprio, sua regularidade. Nesse entendimento, o tempo cíclico não conhece futuro, tudo que acontece é representação do passado, confirmado pelo presente. Não existe aí evolução, é fotocópia eterna da repetição da história. Nesta concepção se encontra a evolução do tempo do homem primitivo, passando de tempo cíclico para tempo histórico. O feitiço do mito que decaiu sobre o homem, coloca-o sempre na experiência do devir. Deus, na concepção grega, permanece fora da história, do tempo. Nesse sentido, o tempo para os gregos é aquele que devora os filhos (chrónos). O mito do tempo histórico toma então valor sagrado para os gregos, diferenciando-se da divindade, que se reserva a regular as manifestações fenomenológicas ligadas à natureza. Na compreensão de que vivemos um eterno lutar entre aquilo que somos e aquilo que deveremos ser, surge então a consciência de que estamos sujeitos a uma finitude temporal, o que resulta na pergunta pela origem e destino da terra e de todo o universo; a significação de viver neste mundo no tempo mediante o qual possa-se construir algo que perdure. Destas perguntas, surgem outras concepções do tempo e a noção do eterno. Por isso, não é o tempo em si mesmo, mas aquilo que nele acontece, o que determina a vivência temporal. Nesse pano de fundo se trava um jogo entre o “hoje” e o “amanhã”. Era uma espécie de uma competição entre fenômenos naturais, como as estações do ano, as chuvas, os raios, os trovões, e os acontecimentos históricos de cada um, ou seja, as realidades climáticas influenciavam nas realidades pessoais, muitas vezes as divindades invadiam o campo das pessoas e vice-versa.
As religiões mistéricas aparecem neste contexto, cujo ensinamento propugnava-lhes a intuição de se escapar desse apavoramento astral, a perseguição do ser que devora (chrónos), esperando-se por um tempo oportuno, aquele que não conhecia envelhecimento, por isso era sempre jovem. A religião começa a ser personificada nesta realidade e o culto destinado ao tempo, personificado nos deuses Chronos e Aiôn tende a libertar os que creem da força destruidora do tempo.
No mundo hebraico-cristão, o ‘tempo cósmico’ está ligado às estações do ano, logo a ideia de tempo girava em torno de se perceber algum iminente risco que causava as secas tanto para os agricultores quanto para os pecuaristas, por isso ofereciam-se a Deus os primeiros frutos da safra e os primeiros animais, como ofertas que lhe agradassem, a fim de que livrasse o povo do risco dos fenômenos naturais. Portanto, no Israel antigo, foi em primeiro lugar e antes de tudo o ritmo do sol e da lua que determinou o estabelecimento de um calendário festivo. No limiar cultural e temporal, essas festas religiosas são consideradas “sinais” nos quais se revela e se mostra a divindade. Nesses momentos fortes do ciclo temporal, celebram-se o nascimento, a morte e o renascimento da natureza e da vida; as divindades são colocadas neste patamar celebrativo. Nesta forma de expressão religiosa, Deus não é visto como presente no tempo, mas além do tempo e da história. É a respeito disso que a Bíblia faz referência: a presença de Deus atuando no tempo das pessoas, o hoje vivenciado pelas ações divinas na perspectiva da salvação, da libertação e da condução de um povo.
Tanto para o grego como para o hebreu, a concepção de que se ofertasse algo à divindade era como uma espécie de mecanismos vitais ao estado que o próprio tempo lhes proporcionava, muitas vezes caracterizados pelo fato de sempre estarem fugindo de algo que os limitasse, como a morte, por exemplo. O tempo é aí entendido como roda fatal, em que não se tem importância o culto, já que se considerava que a própria existência temporal é uma ilusão.
       Os hebreus compreenderam e valorizaram a história como epifania (manifestação) de Deus, presente num tempo infinito, no além-do-tempo, inserindo-se num tempo finito, nele atuando, livrando-os daquilo que o próprio tempo os causaria, ou seja, sofrimentos, mazelas, escravidão, desproteção, errância etc. Tornando-se irreversível, a história passa a ser marcada pela influência de Deus, que dialoga com ela e nela manifesta sua vontade. O elemento histórico tornou-se assim preponderante e surgiu uma estruturação de culto, mais tarde ligada à liturgia do templo, que se mostrou relativamente independente dos ritmos cósmicos da natureza e da produção. Na percepção da liturgia judaica é então compreensível falarmos de uma arquitetura que gira em torno do elemento tempo, pois nela “Deus irrompeu na sua trajetória, reconhecendo o sentido dos eventos passados e apontando para a eternidade presente no agora da liturgia”. Embora essa compreensão fosse apreendida pelo povo de Israel, os profetas, exercendo seu papel de denunciadores, sempre alertavam tanto o povo como os líderes políticos e religiosos que a liturgia do templo deixou de ter essa dimensão passando a ter um caráter sócio-político.

O tempo para os cristãos
A concepção bíblica compreendida que Jesus Cristo se insere nesse calendário, tornando-se humano entre nós, e, a partir de sua páscoa, é começada e assimilada a partir de um novo ciclo de compreensão para as festas tanto do mundo greco-pagão como do mundo civil-religioso. Nesta compreensão, Jesus intervém no tempo dos humanos, pois “o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). É o tempo sendo inferido pela Palavra de Deus que toma posse da história para refazê-la, através da páscoa de seu Filho. Compreendendo que muitos deles tinham seu declínio associado à morte de Cristo, as muitas perseguições dos cristãos por parte do mundo político levaram os sobreviventes a formularem um calendário festivo e litúrgico baseado nessas mortes de caráter martirial, razão pela qual passaram a ser celebradas solenemente. Os ritos, muitas vezes oriundos de religiões pagãs, entrem nesse contexto celebrativo, mas agora associado a um evento, a recriação do mundo por Jesus Cristo e sua ressurreição.

Tempo e rito, elementos que se convergem
O rito, por sua estabilidade, tem uma estrutura e uma sequência; está ligado à natureza dos eventos e é provido de repetição de palavras e gestos, bebendo do contexto cultural. Logo, a repetição tem sentido por causa da constância, da estabilidade, porque prevalece aí um sentido estético acerca da novidade, cuja finalidade é a de que o rito deseja instaurar um particular nível de consciência; essa estrutura de repetição é requerida através dos sentidos principais (audição, tato, visão, paladar e olfato), e assim, “a linguagem simbólica e a riqueza dos elementos rituais permitem a cada pessoa, ressignificar o seu próprio caminho”. Daí deriva o itinerário de iniciação, que, da parte de quem participa ou é iniciado, é exigido autoconsciência e amadurecimento (processo de iniciação), e capacidade de introspecção e de interiorização.
A origem dos ritos está nos eventos do passado, pois ele se liga ao tempo. Ele reaviva a memória, dando continuidade aos eventos evocados pelos próprios ritos, coligando-se ao presente e reportando-se ao futuro. A memória, pela qual não há rito, é a moldura do rito, ou seja, a questão temporal só tem sentido se se tem ou se se faz memória. Essa moldura valoriza do tempo sua qualidade e não sua duração. Sem o rito não se vive a esperança do vivido criativamente.
Os atos simbólicos de modo estável, presentes nos ritos, conquistam, de fato, significados acrescidos de seus outros componentes, pois sem essa sequência não poderão ser perceptíveis quaisquer formas de ritualidade. Os ritos possuem valores psicodinâmicos no horizonte do tempo, pois sua configuração espaço-temporal depende também da carga simbólica que este adquire, passando a fazer parte dos bens comuns de um grupo social.
O rito se opõe à fragmentação do tempo, oferecendo um referir-se alternativo que permite vivê-lo, em modo simbólico, mas integral, todos os seus valores. Logicamente hoje não precisamos mais pensar como os gregos antigos, pois o tempo possui um significado propriamente cristão e teológico, já que a vida dos que creem é modelada pelo tempo: o passado é herdado da fé que recebemos como testemunha, o futuro consiste no exercício da esperança que não nos decepciona, e o presente é lugar do ágape. Por isso, pela memória testemunhal o tempo adquire caráter de matéria sacramental.
O rito é o elemento central que nos permite identificar o sinal do mistério. No rito o tempo cronológico pode ou não estar envolvido, mas dele depende nossa percepção. De fato, o sinal, unido ao seu significado, nos impulsiona numa relação corporal, à qual carregamos no decorrer de nossa história vital. Esses sinais são como que referenciais que suportam uma estrutura simbólica pela qual nos permite encontrar-nos a nós mesmos.
         Entrelaçando tempo e rito, podemos dizer que o tempo marca as tarefas existenciais, ou seja, os nossos ritos existenciais, como as escolhas que fazemos na vida, desde o nascimento, passando pela fase de amarmos até o morrer, acrescido do tempo que marca as tarefas do cotidiano, como trabalhar, comer, vestir-se, estudar etc., além do tempo das coisas espirituais, da alma, como rezar, encontrar-se com o divino, pertencer a uma religião, por exemplo. Acrescentamos também o tempo de mudar o percurso das modalidades anteriores, como denominamos como período de conversão, retomada de eixo, após um período de terapia, modalidade instrutiva etc. A esse período de trajetória humana, com todas as suas possibilidades de altos e baixos, mudanças e estacionamentos, quedas e erguimentos, nós podemos denominar de tempo de vir-a-ser.
Observando a questão cíclica, chegamos à conclusão de que somos seres viventes que nascemos, crescemos, morremos, envelhecemos e morremos. Mas não caminhamos para um fim, nossa compreensão cristã nos permite entender que nossa meta está no Cristo, razão pela qual tudo se conformará, no fim dos tempos.
         É então por meio do cristianismo que a concepção linear penetrou nos fundamentos da totalidade da cultura ocidental. É com essa concepção cíclica e linear do tempo que se parte para a questão da ritualidade. A ritualidade nos permite absorver os eventos salvíficos no percurso do tempo, que progride no círculo do dia, da semana, dos meses e do ano, na forma de uma espiral até chegar ao ponto final da plenitude do tempo.
Conjugando tempo e rito, percebemos que através dos ritos há uma concepção pedagógica de que o mistério de Cristo nos cerca e nos envolve. É nesse pano de fundo dramático-pedagógico, entre o tempo e o rito, que se situa o AL.
Nele se concentra o cenário em que se declina a ritualidade cristã. Sua finalidade é fazer distinguir tempo secular, pelo qual se entende que a morte é o fim de tudo, do tempo marcado pela ritualidade de uma convivência pacífica com o transcendente, pois no AL se encontra a sabedoria de que se vive o presente como uma passagem.
Assim, o cristão acolhe num mesmo instante a ciclicidade e a linearidade do tempo presentes no AL e a ele corresponde às etapas e exigências de crescimento na fé, como num itinerário pedagógico.
De fato, os mesmos conteúdos que são retomados em circunstâncias diferentes, em etapas diferentes no caminho da fé, permitem que avancemos no processo pascal de nossa identificação com Cristo, até atingirmos “o pleno conhecimento do Filho de Deus, a ‘estatura’ da plenitude de Cristo” (Ef 4,13).

Conclusão
Encarrega-se disso a liturgia, com sua carga de sinais sacramentais, com seus ministérios e serviços, todos colocados em prol da manifestação do mistério pascal que quer atingir a quem nela adentra. Na liturgia, também mergulhamos num universo que, por vezes, não conhecemos origem e significado. Celebramos não uma ideia, mas um fato, um evento, o mistério da vinda de Jesus Cristo, que se fez homem, viveu, morreu e ressuscitou, tudo aos olhos da nossa fé, sob os auspícios do tempo chrónos que nos permite perceber a realidade sobrenatural ou espiritual, sem dele precisarmos escapar, como faziam os gregos.
Agora, nossa tendência é adequar-nos ao tempo, pois nele encontram-se a origem e o fim, o Alfa e o Ômega, afirma o livro do Apocalipse, relacionando-o ao Cristo, como Senhor dos tempos.
A função da natureza ritual, tida então como pedagógica, é a de envolver a todos os participantes no mistério celebrado – através da ação sagrada, não só seres humanos, mas o cosmo todo – essa realidade. É só com essa linguagem ritual que entendemos a conjugação entre realidade temporal e realidade espiritual.
O tempo da Igreja está compreendido entre a páscoa de Cristo, já realizada uma vez por todas, e a consumação dela no Reino de Deus. Neste tempo, pelo qual pertencemos, nós nos impregnamos dessa novidade memorial, presente nas nossas liturgias, que se encontra ressignificada no mistério de Cristo. Nela somos ao mesmo tempo atores e beneficiários. Atores porque através do elemento memorial nós realizamos no hoje de nossas vidas aqueles mesmos fatos que aconteceram no passado. Beneficiários porque compreendemos que esses fatos, em que continham as maravilhas de Deus operadas a favor de um povo, nós o tomamos como objeto de salvação para o hoje e para o futuro, não só compreendido no nível escatológico, mas no nível vital e terreno. Essas duas ações são coessenciais para a realização do culto, logo os ritos sagrados que celebramos e rezamos são como que condutores de uma salvação, no sentido existencial e sobrenatural. É entre esses dois aspectos que celebramos, que realizamos a liturgia: a páscoa de Cristo e a páscoa nossa, a partir da vontade de Deus, operada no mundo, sempre disposto a salvá-lo, continuamente.
A tarefa da Igreja, tendo em vista a salvação, é envolver-se pedagogicamente nessa compreensão, à qual nos envolve na esperança escatológica de que a realização da promessa oferecida pela Jerusalém celeste pode ser uma realidade vivida no nosso hoje, experimentado no plano simbólico de nossas ações celebrativas. Essa realidade é prometida por Deus que rege o tempo. É somente essa real certeza que nos faz celebrar, permitindo adequar nosso calendário festivo-temporal à realidade mistérica, sobrenatural e espiritual ao plano de Deus.

Ofício Divino, oração do povo de Deus


Eurivaldo Silva Ferreira (org.)


Introdução 
Na esteira do tempo que marca nossa existência o relógio nos dá a consciência de que somos marcados por uma finitude, embora sempre estejamos em conflito com o relógio. Somos então marcados pelo aceleramento dos acontecimentos. Assim, nossa identidade se molda pelo resultado daquilo que aconteceu em nossas vidas, pois somos aquilo que escolhemos para viver, isto é, somos fruto de nossas escolhas.
Neste ritmo acelerado, perguntamos como dar conta de uma espiritualidade que nos proporcione um desaceleramento? Como permitir que a graça de Deus nos toque enquanto vivemos e corremos contra o tempo?
Entendemos que a liturgia pode corresponder a essa necessidade. Partindo-se do acontecimento salvífico que é celebrado na liturgia – o acontecimento Jesus Cristo, inserido no tempo para salvá-lo – buscamos um equilíbrio resultante da ação divina que atua em nós e de nossa ação inserida no espaço cronológico de nossa existência. É a respeito desta ação divina, deste trabalho de Deus em favor da humanidade, que trataremos hoje.

Ofício divino, uma ação de Deus em prol do mundo
Os antigos compreendiam o tempo como um elemento pelo qual se deve fugir. Na concepção grega, o kairós era o tempo ideal, o tempo de ser alguém e de estar livre das ameaças do chrónos, o tempo que devora as pessoas.
As religiões mistéricas surgem para auxiliar essa concepção, de que o tempo a um fim, e ação divina corresponde para nos livrar deste fim, ou seja, há algo de transcendente que atua em nossa existência, para o qual nos dirigimos.
O judaísmo, bebendo desta fonte, entendeu que o tempo é marcado pela ação de Deus que interfere no jeito de a natureza se recriar. Para o Israel antigo, a natureza, com sua criação, é o objeto de sua sobrevivência. Nela Deus age e dela se retira seu sustento. Assim, era preciso agradar a Deus, com ritos e cerimônias, a fim de que Deus suprisse a terra com os dons necessários à sobrevivência de tudo e de todos.
É nesse pano de fundo que se entende que Deus caminha com seu povo, libertando-o das ações contrárias à sua existência. O Salmo 90 pede a Deus que saibamos contar nossos dias, entendendo que Deus atua no controle do tempo a nosso favor.

O entendimento do tempo para o judeu
Diferentemente da concepção grega, o judeu percebe Deus interferindo no tempo, no hoje de sua existência. A liturgia do antigo Israel é então celebrada nesse contexto. Não só o judaísmo, mas o cristianismo continua bebendo dessa concepção, por isso o calendário religioso judaico é marcado por celebrações especiais para festejar a atuação de Deus em favor das pessoas.
O judaísmo é possuidor de uma arquitetura e uma estrutura próprias de tempo. Para o povo de Israel, Deus se manifesta no tempo, e o eterno vai se moldando, acontecendo nessa referência. O Êxodo é então a referência fundamental do povo de Israel. Esse é o fato fundante do judaísmo, a libertação das mãos de quem o oprimia.
Na tradição judaica existe uma referência para o tempo, tendo como tripé o tempo marcado pelos ritmos diário, semanal e anual. Para Israel, é impensável deixar o dia passar sem referenciar o Criador. O ritmo diário é então marcado pelas horas da manhã e da tarde em que se presta o louvor a Deus e a ele se rende graças.
Para o judeu, no ritmo semanal se consagra o sábado. É o 7º dia, o dia da libertação, o dia do descanso de Deus, o êxodo por excelência. No rito judaico há um canto de elogio ao sábado, comparando-o a uma noiva de Israel. A noiva é a sua personificação, como povo escolhido.
No ritmo anual, as tribos judaicas voltam de ano em ano para oferecer seus presentes e ofertas no templo sagrado. Todas essas expressões rituais são para explicitar a marca do tempo. Logo, a liturgia judaica está construída a partir de fatos que aconteceram na história.

E no cristianismo?
Assim, na nossa tradição que bebeu da tradição judaica, a referência é o sol, pela manhã é símbolo da presença de Cristo Ressuscitado, à tarde é símbolo do Cristo que morre. Desta forma é que os primeiros cristãos entenderam que é o Cristo presente na vida da comunidade de fé, atuando na existência daqueles que creem.
No cristianismo, a vinda do Cristo na história foi lida no Novo Testamento como sendo a marca do tempo, de sua plenitude (cf. Ef 1,10). O tempo é então o lugar onde Deus realiza a salvação.
Marcos começa seu Evangelho dizendo que o “o tempo se cumpriu” e agora precisamos nos converter. Para Marcos, o tempo se cumpriu no Cristo.
João começa seu Evangelho com a noção de tempo: “no princípio era o Verbo”. Aquilo que era então eterno, definitivamente habita o transitório. A noção de tempo é totalmente humana e não divina. O NT jamais projeta para a eternidade aquilo que temos que fazer agora.
Como no judaísmo, as celebrações cumprem o papel de explicitar a função do tempo. A liturgia faz a gente parar para ressignificar o tempo. O calendário que rege o Ano Litúrgico é um criador de pausas, ressignifica o tempo com o auxílio da liturgia. A memória faz entendermos a história como um protagonismo de Deus que ajuda a relativizarmos nosso fazer: ‘foi Deus e não eu quem atuou nisso’. Olhar o passado e reconhecer nas coisas e nos acontecimentos a intervenção de Deus é uma das tarefas da liturgia.
É a partir dessa concepção que fazemos memória das coisas que Deus faz a nosso favor no decorrer das horas do dia.

Rezar no decorrer das horas do dia
Os cristãos se organizaram para orar a Deus durante o dia, baseando-se na concepção judaica de dedicar uma parte do dia para a oração. O Ofício Divino busca então santificar o tempo, por isso ele acompanha o curso do dia e do ano cristão. Desta forma nasceu o que chamamos hoje de Ofício Divino, uma oração que está ligada com as horas do dia, mas que se articula com o tempo da semana e do ano. É Ofício Divino porque se trata da ação de Deus atuando no tempo daqueles que creem e em favor do mundo, recriando-o continuamente. O Ofício está na linha da rotina. A rotina dá estabilidade ao cotidiano.

Rezar celebrando, como numa liturgia
A liturgia é então o consenso da Igreja a respeito da fé, logo, a liturgia é a fé em atos. A liturgia supõe a fé. É necessário um mínimo de catequese para entendermos a liturgia. Se ela supõe a fé, logicamente alimenta a fé. Por isso o CV II restaurou o catecumenato como itinerário para a compreensão da fé. Embora com o tempo o Ofício tenha perdido seu caráter celebrativo, o CV II o recuperou, incentivando-o ofício como ação celebrativa, isto é, liturgia. Da mesma forma restaurou outros ritos e outras formas de celebrar. Ele faz parte desta tradição de Igreja de alimentar a fé, celebrando durante as horas do dia a atuação de Deus, vista pelos cristãos na plenitude do Filho, que é manifestada à toda humanidade.
O Ofício é contemporâneo da missa, não nasceu com os monges, mas segundo os relatos de Etéria, uma testemunha da Igreja de Jerusalém, nasceu com o povo. Até o século VIII no Egito não era costume ter missa todos os dias. A missa era exclusividade do domingo, e nos dias da semana rezava-se o Ofício Divino. O Ofício Divino tornou-se uma mística para os cristãos, pois ele nos propõe um desacelerar, contrapondo com o desritmo do mundo. Hipólito de Roma orientava nesse sentido. O ofício cuida de nossas raízes primitivas, permitindo que o louvor tenha um sabor de gratuidade, enquanto que a ação de graças aponta para um motivo, contando as coisas que Deus fez na história. Quem o reza durante o dia já se considera como que tendo um ganho e um acúmulo espiritual para a fé, pois tem a oportunidade de se lembrar de Jesus e de sua páscoa acontecendo na sua vida.
O Ofício Divino que é celebrado na parte da tarde tem seu parentesco com a Eucaristia, como ação de graças e memória da ceia. É a oração em que oferecemos o sacrifício espiritual de nossas vidas. Nela trazemos nossas mãos vazias, abertas, mas repletas de nossa existência, de nossas fragilidades e de nossas ansiedades, além de nossas vitórias.
Uma regra básica para se ter o Ofício Divino como fonte de espiritualidade é a cuidar bem da ritualidade, isto é, dos ritos, prestando atenção e caprichando na linguagem, nas poesia, na oração e na música, além de se prestar atenção naquilo que se faz, ‘que a mente acompanhe a voz’, dizia São Bento em sua regra; para isso o rito tem que ser bem feito. Com certeza, os ministérios alcançarão um bom jeito de fazer com que o toda a comunidade, povo sacerdotal, possa participar bem desta oração, fazendo com que ao longo do dia a oração vá ressoando dentro de cada um.
No Brasil, o Ofício Divino foi revestido de uma linguagem latino-americana, característica do povo mais simples e das comunidades que refletem uma piedade e uma espiritualidade próprias. Com bastante fé e um pouco de criatividade, pode-se fazer com que a oração da Igreja se torne oração de todo o povo cristão.

O Cristo que ora em nós
No Ofício tomamos como referência o Cristo que ora em nós, através de hinos e salmos. Nele é que fazemos nossas súplicas e expressamos nossos anseios e desejos. Pela sua encarnação, o Filho de Deus trouxe ao mundo a louvação eterna que ele dirige ao Pai no seio da Trindade. É por ele que louvamos ao Pai, Senhor de toda criação. E é por ele que desejamos que toda criação seja liberta da corrupção e da maldade, até que um dia Deus seja tudo em todos. É no Cristo que a Igreja ora sem cessar, assim como ele rezou antes de morrer, comprazendo sua vida a uma vida de oração sem cessar ao Pai. O mais belo dos filhos dos homens, diz o Salmo 44, dedica ao seu Deus um poema de louvor. Do seu coração, transbordam palavras sublimes e sua língua é como a pena de um ágil escriba. Este poema nunca acabará e continua para sempre. Jesus mesmo se valeu dos salmos para expressar a sua agonia e aflição na cruz. Com as próprias palavras sagradas nós entendemos a entrega do Filho como a beleza escrita no mundo através de sua morte de cruz.

Estrutura do Ofício Divino
1. Chegada – refrão meditativo (ajuntamento dos ‘cacos’, transição)
2. Abertura – versos sálmicos, feita por quem preside
3. Recordação da vida ou revisão do dia (o que trazemos para esta oração?)
4. Hino – ligado à hora ou ao tempo litúrgico
5. Salmos – expressam a oração da comunidade, ligando-o à sua existência. O Cristo ora na boca de quem salmodia.
6. Ressonância – silêncio – meditação
7. Leitura bíblica (Evangelho ou outra leitura)
8. Cântico evangélico (de manhã: Zacarias; à tarde: Cântico de Maria; à noite, antes de dormir: Cântico de Simeão
9. Preces – Pai Nosso e oração
10. Bênção e despedida

Os ministérios no Ofício Divino
- Quem coordena: preside a assembleia, canta os versos de abertura, abre para a recordação da vida e os salmos, faz as orações e as preces, introduz o Pai Nosso, a oração e a bênção final.
- O leitor: proclama da estante da Palavra a leitura.
- Os cantores: cuidam de sustentar o canto do povo, às vezes, intercalando com a assembleia essa função.
- Os acólitos: cuidam do espaço, preparam o incenso, acendem as velas.
- A assembleia, que é também ministerial, participa do louvor e da ação de graças ao Pai, ora silenciando, ora alternando o canto dos salmos, como que num diálogo de escuta e palavra.

A mística da Oração das Horas
O compromisso comum, da hora marcada, das músicas, dos salmos, ao qual cada pessoa se entrega voluntariamente, é algo salutar e contribui para ordenar a vida em uma lógica diferente, desenvolvendo uma nova maneira de se relacionar com o tempo. A liturgia nos forma não pelo lado racional, mas pela via simbólica. O melhor que nós fazemos na liturgia é ter a certeza de ela nos forma para a vida. Ao interromper o ritmo da produção, toma-se consciência que o tempo não é apenas  krónos, isto é, o tempo medido pelo relógio e preenchido com o trabalho sob a pressão do mercado; ao contrário, o tempo pode ser vivido como kairós, a saber, o tempo em que Deus opera dentro de nós e no coração da história, a sua obra, independente do nosso esforço.
Neste ritmo diário somos lembrados pelas horas, que o tempo não é o tirano, ao qual devemos servir como escravo; existe uma outra maneira de se relacionar com o tempo, a partir do movimento cósmico, com sua alternância de dia e de noite, de luz e de trevas, mais de acordo com as batidas do coração do que com o ritmo frenético das máquinas. As imagens de luz e trevas voltam nossa atenção ao Mistério da hora, em relação às “Horas de Jesus”, e nos faz descobrir dentro das contradições do nosso próprio tempo a ação amorosa do Pai, que faz brilhar em nosso mundo a luz de Jesus Cristo, nosso Salvador.

Participação: o novo paradigma da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II


Eurivaldo Silva Ferreira


Participação litúrgica
Em virtude do nosso batismo somos chamados a participar da liturgia tendo consciência daquilo que fazemos pelos ritos, que são ações simbólicas. Essa participação é qualificada de diversas formas: ativa, plena, frutuosa, interior e exterior. Trata-se de um direito e de um dever de todo povo cristão, por isso deve ser incentivada e incrementada.
Na liturgia, que é a celebração dos mistérios de nossa fé, a presença de todos manifesta mais claramente a natureza da celebração, pois somos assembleia reunida para ouvir a Palavra de Deus e partilhar do Pão eucarístico, fazendo memória daquilo que Jesus nos pediu. Na celebração dos sacramentos e sacramentais somos inseridos na vida de Cristo.

Sinais sensíveis a serviço da participação 
Para que esta manifestação seja translúcida a nossos olhos, lançamos mão daquilo que chamamos de sinais sensíveis. Estes alimentam, fortalecem e exprimem a fé, promovendo mais intensamente a participação ativa de todos. Os ministros ordenados da Igreja (bispos, padres e diáconos), em suas atitudes e ações, e no bom exercício da presidência das celebrações litúrgicas, nos incentivam a fim de que todos compreendamos mais profundamente o sentido autêntico dos ritos e dos textos litúrgicos. Quando cantamos e oramos juntos, exercemos o nosso compromisso de participação. Sobretudo as aclamações e os diálogos entre os fiéis reunidos e quem preside, constituem um sinal externo da celebração comum e promovem e realizam a comunhão entre o presidente da celebração e o povo. Neste caso os diálogos e as aclamações são um sinal visível que reporta a uma realidade invisível: a unidade. Esses sinais promovem e exprimem claramente a ação de toda a comunidade.

Outras formas de linguagem que incrementa a participação
A linguagem da beleza e da dignidade do espaço sagrado, do cuidado com a música ritual e com a arte litúrgica, são outros meios de participação. Cristo se faz presente na assembleia reunida, na pessoa de quem preside, na Palavra proclamada, no canto e na oração, e nas espécies de pão e de vinho. Mas a presença de Cristo também se dá por meio dos sentidos que tocamos, vemos, cheiramos, falamos e ouvimos. Nossa participação exige que estejamos ‘inteiros’ na celebração, e nosso corpo, templo do Espírito Santo, deve ser sinal de unidade (portanto, sacramento) que estimula os pensamentos e os sentimentos dos participantes.

Três colunas que sustentam a espiritualidade
O que importa é que tenhamos em mente que não se trata de um jogo automático, mas de um processo constituído de etapas. As etapas são necessárias porque se trata de um itinerário a ser percorrido. Também não se pode passar de uma etapa à outra sem antes ter passado por uma vivência. Baseado em escritos antigos judaicos, há um autor que diz que o mundo repousa sobre três colunas: a Lei, a liturgia e as obras de caridade. Não se pode passar da Lei para as obras de caridade sem antes vivenciar a oração. Assim, as obras de misericórdia devem ser conduzidas à luz da oração, se não pode-se cair no legalismo, pelo simples fato de se estar exercendo o direito legal (a Torah, o Magistério, por exemplo). Significa que não se pode passar da compreensão para a ação sem antes ter vivido a Liturgia, exercida num tempo intermediário de oração e contemplação.

Durante o Ano Litúrgico nós vivenciamos as três etapas, por exemplo, celebrações do tempo quaresmal e pascal, ocasião em que a Igreja acolhe os que querem se aproximar do sacramento da Penitência, reconhecendo neles os verdadeiros necessitados de conversão. Assim, os conteúdo da fé se unem à dinâmica do crescimento da experiência cristã. Estes não podem estar separados daquele. O segundo não pode suplantar o primeiro. Trata-se de dois aspectos complementares da atividade santificadora da Igreja. Ao caminho e maturidade da fé, corresponde o caminho e maturidade do rito. A fé se exprime no rito e o rito reforça e fortifica a fé. A norma da oração é a norma da fé e vice-versa. Que nossa participação seja realmente voltada ao louvor e à ação de graças ao Pai, pelo Filho, no Espírito.

A participação antes do Concílio Vaticano II
Antes do CV II a participação do povo na liturgia era mínima. O povo ia para as missas com seus terços e livros de orações devocionais na mão. Enquanto o padre presidia a missa com a ajuda do coroinha as pessoas ficavam rezando  ou fazendo suas devoções aos santos e santas. Somente na chamada hora da consagração era que se ouvia tocar um sino, a sineta que nós temos hoje, pra quê? Era pra dar um toque para o povo, pra dizer assim: parem com tudo o que vocês estão fazendo, porque agora é a hora mais importante da missa: a consagração. Daí as pessoas que estavam ali na igreja paravam suas orações e se dedicavam em apenas adorar a hóstia consagrada até o momento de receber a comunhão.
O povo, inconsciente do que era liturgia, se satisfazia apenas com esse instante de participação. Para o povo, isso era pouco, sim. A questão de fundo é a de que não era incentivada a consciência do que era realmente a missa, os sacramentos etc. O CV II entra em cena para incentivar a participação do povo e dar um novo ânimo ao espírito que a própria liturgia continha.

Um nova liturgia para uma nova Igreja
Uma primeira proposta de mudança era a de se perguntar: quem é essa Igreja que quer mudar? Ela era apenas constituída pelo clero? Não. A Lumen Gentium, um documento conciliar, vai dizer que Igreja é povo de Deus, e essa imagem tinha que ser visível também na liturgia. Assim, antes e depois do CV II vemos duas imagens de Igreja. O fato é que depois do CV II agora Igreja é povo de Deus. Com isso, alarga-se também a compreensão de liturgia, de celebração, de espiritualidade, de fé etc.
Mas, muito mais o que está em jogo agora é perguntar como é que o povo pode se apropriar de todo esse conjunto de orações da Igreja, uma vez que essas liturgias nem os padres permitiam que o povo tivesse acesso ao rico conteúdo presente nos textos e nas orações, na Palavra de Deus, nos ritos etc. Surge então a necessidade de sistematizar a liturgia, isto é, aprofundar-se numa teologia da liturgia que pudesse restaurá-la, assim como era nas comunidades cristãs primitivas. O foco então da participação com a reforma do CV II era fazer com que o povo se conscientizasse mais daquilo que estava fazendo. Para isso era necessário se mexer com toda uma estrutura: primeiramente da parte de quem preside, o padre ficou de frente para o povo; segundo, a língua da liturgia, que cada país passou a adotar sua língua pátria para celebrar; e em terceiro lugar a reforma dos livros rituais. Tudo contribuiu para que o povo pudesse se alimentar melhor de uma espiritualidade genuinamente litúrgica.

Um novo jeito de celebrar tendo em vista a participação consciente
Sabemos que uma reforma desse tipo não é fácil ser conduzida. Uma que tinha que os padres tiveram que se adaptar a esse novo jeito. Outra que tinha que ensinar o povo a responder corretamente as intervenções e orações da missa e de outras celebrações. Mas isso foi se dando paulatinamente. Aos poucos as mudanças foram sendo aplicadas, mas ainda tem muita coisa a se fazer. Com isso, foi se construindo uma teologia litúrgica, de onde todos pudessem beber de uma espiritualidade única.
Podemos comparar a reforma litúrgica a partir do seguinte exemplo: digamos que você more numa casa de esquina. Um dia você resolve reformar a casa e muda a entrada principal, deixando essa entrada na outra rua. O que vai acontecer com seus sentidos depois de reformada sua casa? Primeiramente você, todos os dias, ao retornar do trabalho, deverá se lembrar que agora a entrada principal de sua casa é na outra rua. Pode ser que de vez em quando você se esqueça disso, mas que vai se dirigir à rua onde está localizada a entrada da sua casa. No entanto, sua casa não vai mudar de lugar, ela continuará sendo lá. Foi isso que aconteceu com a reforma da liturgia. Mudou-se o jeito de celebrar o mistério pascal, mas o mistério continuou lá, o que importa agora é que todas aquelas pessoas que estavam impossibilitadas de compreender isso agora podem fazê-lo, quer dizer, podem também entrar na casa reformada sem qualquer dificuldade. Então, entrar na casa significa agora aprofundar uma teologia litúrgica.
Podemos então dizer que a partir daí de então o povo pode ter acesso à liturgia e à sua espiritualidade. E se podemos afirmar isso, podemos dizer que o povo passou a ter mais acesso a esse tesouro contido na liturgia. De certa forma, o que se quis com a reforma era que o povo não se distanciasse da fonte de espiritualidade que é a liturgia, assim como aconteceu no período do segundo milênio da história da Igreja.
Agora, os recursos que a própria liturgia usou para isso foram os de qualificar o povo nesta participação, sobretudo, escolhendo e elegendo novas funções que exercessem verdadeiros ministérios nas celebrações, passando de uma situação em que o padre fazia tudo sozinho para uma realidade em que a liturgia fosse toda ministerial, isto é, o povo todo participe e eleja seus ministros para dar maior caráter ministerial às diversas funções existentes na liturgia.

A riqueza ministerial de uma Igreja que serve
A partir disso a palavra ministério passou a ser usada pra valer com a reforma litúrgica. Tanto é que hoje em dia não se diz mais ‘assistir a missa’, mas ‘participar da missa’, pois todos exercem um serviço ministerial na ação de graças ao Pai, cada um fazendo aquilo que lhe compete dentro da liturgia. Toda assembleia exerce um ministério, o de ser povo reunido para se santificar e ao mesmo tempo louvar a Deus. Na assembleia, o próprio Cristo se faz presente. Contudo, ela elege alguns para exercer alguns ministérios, como leitores, cantores, salmistas, animadores, acolhedores, acólitos, etc. Esses ministros são também porção da assembleia, a ela servindo. Já que a liturgia é uma festa, esses ministros estão a serviço do povo de Deus em festa. Esses ministérios demonstram que uma comunidade vai crescendo na sua vivacidade e na sua dinâmica, o que também contribui para uma maior diversidade de celebrações. Os vários serviços são destinados a fazer com que o povo dinamize essa participação. A reforma litúrgica do CVII possibilitou que o povo pudesse enxergar mais de perto o quão rico são os textos da liturgia, sobretudo, alimentar sua espiritualidade também deste tesouro.

Formação sobre a Sacrosanctum Concilium - Rede Celebra São Paulo- - SP


Convidamos você para participar com a gente deste momento formativo, ocasião em que refletiremos sobre os 50 anos do Concílio Vaticano II e a sua consequente aplicação na Liturgia, com o documento Sacrosanctum Concilium. A questão é a participação ativa e consciente, já que a Liturgia é fonte de espiritualidade e expressão da fé comunitária.
Faça sua inscrição nos enviando um e-mail e reserve sua vaga o quanto antes.
Maiores informações estão contidas no folder abaixo.
Um abraço carinhoso.
Euri
Rede Celebra de animação litúrgica – São Paulo – SP


A Palavra de Deus proclamada e celebrada na Liturgia: possibilidades de relação entre Bíblia e Liturgia


Eurivaldo Silva Ferreira


Talvez já tenha falado sobre esse assunto em meu blog. Mas persisto em retomá-lo, agora de maneira mais incisiva, já que se aproxima a data em que a Sacrosanctum Concilium completará 50 anos de sua promulgação. A relação deste documento com a Palavra de Deus nos dá a possibilidade de acreditarmos cada vez mais que a Palavra norteia nossa existência. No dizer de Cássia Ellen, na música 'Palavras ao vento': ando por aí querendo te encontra... Que a Palavra de Deus possa ser o sustentáculo para nossa sobrevivência na atual estrutura eclesial que pouco se dá conta que a Palavra também é sacramento. É ela que nos muitos rincões de nosso país alimenta exclusivamente as muitas comunidades e mantém vivo seu admirável espírito cristão.


Introdução
A Sagrada Escritura ocupa um lugar fundamental na Liturgia. A Sacrosanctum Concilium (SC) afirma que Cristo se faz presente por sua Palavra, por isso os textos sagrados são um elemento da liturgia que não se pode perder de vista. É o próprio Jesus quem fala quando se lê a Escritura na Igreja (SC 7). Na reforma litúrgica, a SC privilegiou um tal gosto pela Sagrada Escritura a ponto de afirmar que dela bebem as características dos ritos orientais e ocidentais. Tanto na celebração eucarística quanto no Ofício Divino, os nº 51 e 92 da SC, respectivamente, dizem que a Palavra de Deus oferecida aos fieis é como que um tesouro em que se tem acesso. Tamanha importância é dada ao Ano Litúrgico na SC, pois nele a obra da salvação se faz presente pelo mistério de Cristo, sua paixão, morte e ressurreição, ao qual toda Sagrada Escritura se refere, celebrado no ritmo diário, semanal e anual. Também o tempo da Quaresma é o tempo propício de maior dedicação à escuta da Palavra de Deus e à oração, diz a SC. Por isso, deve-se ler uma parte bem maior das Escrituras, nos espaços litúrgicos que lhe são reservados cada ano.
Por tudo isso, podemos entender que a Sagrada Escritura e a Liturgia possuem relações intensas, e pensamos que seja uma dupla bem harmonizada. Então, perguntamos: quais são as possibilidades de relação entre Bíblia e Liturgia? Que frutos espirituais podemos tirar dessa relação?

A Liturgia bebe da fonte da Sagrada Escritura
Na Igreja, duas disciplinas teológicas são chamadas sagradas: a Escritura e a Liturgia. Na compreensão metodológica da educação traçada pelos padres jesuítas, por ocasião da colonização do Brasil, a Liturgia era apresentada não só sob o aspecto da lei, na ordem do jurídico, mas porque continha um conteúdo teológico, histórico, espiritual e pastoral. Para os jesuítas, a Liturgia tinha que estar em conexão com outras disciplinas, de modo que os alunos conheçam antes de tudo de que modo os mistérios da salvação se fazem presentes e agem nas ações litúrgicas.
Com relação à normatização tanto da Sagrada Escritura quanto da Sagrada Liturgia, há um axioma interessante que nos pode ajudar nessa reflexão: a Sagrada Escritura não é normatizada por nenhuma outra disciplina, enquanto que a Sagrada Liturgia é normatizada só pela Sagrada Escritura; esta normatiza todas as outras. Logo, a Sagrada Escritura é a rainha de todas as normas, enquanto que a Sagrada Liturgia só recebe normas da Sagrada Escritura. A Liturgia está na base da Bíblia, no fundamento da Bíblia, e a Bíblia está na base da liturgia. O texto bíblico foi escrito com muita possibilidade de ser anúncio e de ser culto.
Os textos litúrgicos e os ritos tanto do Oriente como do Ocidente têm a preocupação de não apenas ilustrar a celebração litúrgica como lugar teológico da salvação, através do qual se exprime a fé da Igreja e sua vida espiritual, mas também a de centrar seu sentido e explicação somente em relação à Palavra de Deus. De fato, a comunidade cristã é convidada hoje a retomar o texto sagrado, porque este contém o Senhor Vivente.


A Palavra no centro da Liturgia
A Palavra do Senhor está no centro da vida da Igreja. A Igreja acolhe a Palavra de Deus com fé, interpreta-a com amor, celebra-a com devoção (liturgia), proclamando-a com confiança na celebração. Nesse sentido o dinamismo que acontece na assembleia cristã acontece porque esta proclama, escuta, celebra, atualiza e realiza a Palavra do Senhor em suas vidas, na vida de cada um/a. Logo, a Palavra reúne a assembleia litúrgica. Na celebração, pela sua Palavra, Cristo se faz realmente presente, diz a SC 7. A presença de Cristo na assembleia é uma presença transeunte, já no pão eucarístico é uma presença substancial.
Há um paralelismo perfeito entre essas duas mesas, ao ponto de constituírem um só ato de culto (cf. SC 56 e Dei Verbum 21). Dessas duas mesas deriva o alimento para a vida cristã. Assim, a Dei Verbum quer afirmar e recomendar que a Palavra de Deus deve ser acolhida com veneração análoga à tributada ao Corpo de Cristo.
Na celebração litúrgica, a Palavra de Deus alcança o máximo de sua eficácia. Dentro da Liturgia a Bíblia é o Lecionário. A Palavra de Deus se faz celebração, e a celebração nada mais é que a Palavra de Deus atualizada no meio dos homens e mulheres que permanecem unânimes na fé e na oração. Para São Jerônimo, se ignoramos as Escrituras é a Cristo que ignoramos. Assim também ignorar a Cristo é ignorar as Escrituras. Celebrar Cristo é celebrar as Escrituras.
Para que a Palavra de Deus realize no coração aquilo que ressoa nos ouvidos, é necessária a ação do Espírito Santo.

A memória se torna Palavra de Deus, lugar onde Deus atua
Dentro da leitura bíblica, um fato se torna Palavra de Deus quando o povo descobre que nesse fato Deus age. Isso é uma chave para a compreensão da necessidade de saber como os escritos da Bíblia foram sendo montados. Retomar as memórias do passado e saber como Deus agiu nelas é uma premissa do povo da Bíblia. Nessas memórias o povo percebe que a palavra dá força de reanimar aquilo que a comunidade vive no presente.
Na tradição de Israel, o livro da Lei é a Torah, quer dizer, o livro das tradições do povo. No texto de Neemias 8,1-2 Neemias fala de um jogo entre o livro da Lei e o Senhor. O texto relata que se prostraram diante do Senhor e não diante do livro. A assembleia se inclina para Deus, num sentido de que reconhece que o Senhor está agora no presente, nessa nova forma de atuação, com esperanças, no exílio. Essas lágrimas relatadas são lágrimas de que o povo tinha muita dor reprimida, que neste momento vêm à tona. No relato de Neemias podemos apontar vários elementos da Liturgia da Palavra: Lugar alto / gesto, rito, adesão /  o livro / o abrir o livro / participação, relação da assembleia, como em forma de devolução / leram e tinha explicação: homilia / partilha /  ministérios, esses não eram centralizados, a Palavra era explicada pelos levitas, os leigos, os catequistas, diante da Palavra eles tinham uma autoridade, pois eram pessoas ligadas à Palavra. O exílio, o êxodo para o povo de Israel foram as duas grandes palavras que o povo escutou de Deus.

A Palavra de Deus no NT é Jesus, o Verbo
Já no NT podemos dizer que Jesus é a Palavra. Jesus sai do deserto e vai a Nazaré, conforme o costume vai à sinagoga, com a força do Espírito. Lucas é sempre enfático nisso, pois o Jesus de Lucas é sempre conduzido pelo Espírito. Na sinagoga, Jesus lê o texto de Isaias 61. Ao terminar de ler ele conclui que isso já está se cumprindo hoje. Logo, ele é essa palavra de Isaias que se cumpre. Devemos ficar então com essa memória de que Jesus no NT é reconhecido como essa palavra. Nesse texto o que nos chama a atenção é a simplicidade, a leveza, a harmonia dos gestos. Ora, Jesus não é sacerdote, não era da linhagem sacerdotal. Isso o permitia ler na sinagoga, pois era adulto na fé. Jesus lê o livro dos profetas.
João, em seu Evangelho, faz todo um poema para dizer que Cristo é a Palavra, o Verbo. Toda a sua vida é a manifestação plena do Pai. Jesus ensinava, e não apresentou a Palavra. É importante vermos em Jesus um educador. Por isso a assembleia tinha os olhos fixos nele. Ele é a própria Palavra.

O que a Palavra de Deus é para nós
O livro dos Hebreus faz uma leitura a partir do salmo 95. É como se fosse uma leitura orante ou uma mistagogia do Salmo 95. A palavra é alguém com o qual nos encontramos. Diante da Palavra ninguém consegue se esconder. É a presença do Verbo que tudo ilumina, tudo aquece, tudo vê. É a Palavra que nos conduz a um grande encontro. Cássia Ellen, em sua composição ‘Palavras ao vento’ diz que “ando por aí querendo te encontrar, em cada esquina, em cada rosto, em cada olhar”. Ouvimos popularmente o povo dizer que ‘essa palavra me feriu até a alma’. Separar medulas de articulação, alma de espírito é a função da Palavra, segundo o livro dos Hebreus. Mas a Palavra discerne, espírito e alma, pecado e não pecado. É uma espada de dois gumes, que corta. A Palavra que muda, “deixa a tristeza e traz a esperança em seu lugar”, como diz Cássia Ellen em ‘Palavras ao vento’.
No fundo é isso, se nos tornamos um ser humano melhor, isso vai repercutir na vida, no trabalho, na comunidade... Não devemos ficar ansiosos em perguntar como é que vamos repercutir aquilo que apreendemos na formação. De fato, devemos considerar que a formação deve ser para nós uma escola e um aprendizado, tal como a Palavra de Deus assim o é. O bom é esperar que cada um se alimente da Palavra de acordo com sua existência.

Manter-se vivo pela Palavra
Santo Antão se converteu ao ouvir aquela passagem do evangelho que dizia que tudo devemos dar aos pobres. Ele recorreu ao deserto para vencer uma raiva própria, que continha dentro de si, tornando-se um homem pacífico. No deserto as pessoas faziam filas para lhe pedir conselhos. Ficamos pensando também nessa questão sobre as várias comunidades que passam anos sem ter missa, Eucaristia. O que as mantém vivas? É a reunião, a oração em assembleia e a escuta da Palavra. O que faz essas comunidades acreditarem na força da Palavra é que ela tem força sacramental. Por isso é correto afirmar que a Palavra é sacramento, sinal da presença de Deus no meio da comunidade (cf. SC 7).
O CV II diz que a liturgia é feita de sinais sensíveis. É a primeira coisa que se precisa pra se ter sacramento. Os sacramentos  significam e realizam aquilo que significam. No livro de Neemias isso é muito forte, pois a Palavra realiza, seca as lágrimas, faz as pessoas se voltarem às outras. Ela tem a força de transformar as realidades duras da vida em realidades mais amenas. Assim, o CV II até enumera esses sinais sensíveis da liturgia: Cristo presente na comunidade reunida, naquele que preside, no pão e no vinho, na Palavra, na assembleia que ora e salmodia. Além da Palavra com sua força sacramental, diz também o CV II que o Ano Litúrgico tem força sacramental. O CV II não está inventando moda. Nós precisamos nos livrar e nos despojar de alguns conceitos que se cristalizaram e por sua vez perderam seu significado. Essa compreensão não tem um cunho de negativismo, mas o que está por detrás dessa compreensão é a de que podemos valorizar mais ainda a Sagrada Eucaristia.
A Igreja sempre venerou as Sagradas Escrituras, diz o nº 21 da Dei Verbum. Temos um agravante e um problema nisso. Ora, o movimento protestante questiona a Igreja por isso, pela sua excessiva atenção que se dava ao sacramento em detrimento da Palavra. Até hoje quando vemos alguém com a Bíblia debaixo do braço dizemos: esse aí é crente. Muitas vezes de maneira pejorativa, pra não dizer preconceituosa. Não é à toa que São Jerônimo que o corpo de Cristo, enquanto imagem da Igreja, é também sua Palavra.

A reforma litúrgica e o valor devido à Palavra
Com a reforma litúrgica houve uma grande preocupação em resgatar a Palavra. Seus frutos resgataram também a iniciação à vida cristã, pelo qual sairmos de um modelo de catequese infantil, de doutrinação, para um processo em que a Palavra faz parte de um processo em que a pessoa vai se iluminando. O Ritual de Iniciação Cristã de Adultos (RICA) propõe celebrações da Palavra com velas acesas ao longo do itinerário, para dizer que no processo de iniciação a pessoa vai se iluminando, em que cada rito é um passo sacramental, aonde significa dizer que batismo, eucaristia e crisma formam como que o ponto auge dessa transformação, dessa personificação em ser cristão.
A reforma litúrgica vai prestar atenção na Palavra, não só na missa. No caso da missa houve a reforma dos lecionários, de tal maneira que durante três anos podemos ler a Bíblia inteira. A homilia é uma conversa sobre os textos que a assembleia ouve. Não é somente exegese que se faz na homilia, numa celebração, por exemplo. O Ofício Divino é uma liturgia da Palavra autônoma, baseada em salmos, leituras e composições da Tradição da Igreja. Em todas essas celebrações as leituras do texto bíblico trazem à luz o mistério pascal nelas contido. Quando se leem os textos bíblicos, partimos de duas chaves de compreensão: a leitura orante e a nossa vida, pela qual cada um tem uma experiência em relação a esta mesma Palavra; a outra chave é a partir do mistério de Cristo, o que deve ser feito na celebração litúrgica. O que lemos não é a Bíblia somente, mas é a nossa vida. O CEBI, um grupo de pessoas que se destinam a estudar a Bíblia, nos ensinou isso, a olhar a vida a partir da Bíblia.

Preocupações e desafios
Se por um lado, o CV II restaurou a força da Palavra de Deus a fim de nos conduzir nos caminhos da fé, devolvendo ao povo o direito de ler a Bíblia, tanto pessoal como em comunidade, por outro lado não podemos deixar de atentar para nossa realidade. O fato é que em nossa caminhada eclesial deveriam nos preocupar as raízes de cunho sociológica, histórica e religiosa, justamente porque estamos ainda num processo de crescimento pós-conciliar, que quer nos indicar uma transformação para uma melhor qualidade de vida eclesial. Embora, em meio ao clamor dos 50 anos do CV II, percebemos grupos trabalhando aqui e ali, cada qual com sua parcela de preocupação ou de centralismo. Frei Luis Carlos Susin, na última assembleia dos bispos da CNBB, analisando essas realidades eclesiais fala que “estamos diante de um conflito por falta de interesse por informações históricas”. Sob o ponto de vista da evolução, ainda não conseguimos encontrar nossa verdadeira essência, que é o seguimento a Jesus Cristo, pois todos ainda estão ligados a leis mal interpretadas, ou a seu favor, ou para a manutenção de seus grupos. O paradigma é Jesus Cristo e sua Palavra. Neste sentido a liturgia não se reduz a um ‘self-service’, onde cada um escolhe o alimento que quer consumir. É bom pensarmos que o CV II teve um foco bíblico-patrístico, e toda a sua concepção de reforma da Igreja e da Liturgia é o de garantir o foco na Igreja como comunidade, assim como eram as primeiras comunidades cristãs, que tinham sua atenção à Palavra de Deus, à partilha dos bens comuns e à fração do pão. Tendo como foco o CV II, bíblico-patrístico.
Tendo em vista essa preocupação, alguns desafios são lançados: conceituar Liturgia, levando em conta o contexto sócio-cultural; permitir que a Palavra de Deus que é celebrada se insira em nossas realidades; superar os ritualismos formais; buscar uma unidade celebrativa ligada à tradição das primeiras comunidades, que celebravam a vida com simplicidade e despojamento; superar as vontades internas de grupos que reivindicam para si um modelo de Igreja; acolher os pluralismos, sobretudo na simplicidade, tendo em vista o projeto do Reino de Deus.

A igreja das catacumbas


Maria Clara Lucchetti Bingemer
Teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio
(extraído de www.adital.com)

Neste ano em que se celebra o centenário de Dom Helder Camara, muitas lembranças e recordações do grande Dom, que foi um dos presentes maiores de Deus à Igreja do Brasil têm sido desentranhados e trazidos à luz novamente.  Limpos da poeira do esquecimento por nossa às vezes curta e ingrata memória, brilham como estrelas de primeira grandeza realimentando nossa vida espiritual e nossa capacidade ética.

Talvez um dos mais importantes seja a re-visita do chamado Pacto das Catacumbas.  No dia 16 de novembro de 1965, poucos dias antes da clausura do Concílio Vaticano II, cerca de 40 Padres Conciliares celebraram uma Eucaristia nas catacumbas de Domitila, em Roma, pedindo fidelidade ao Espírito de Jesus.

Após essa celebração, firmaram o "Pacto das Catacumbas". O documento é um desafio aos "irmãos no Episcopado" -aos bispos presentes, portanto- a levarem uma "vida de pobreza", a construir uma Igreja que se queria  "servidora e pobre", como sugeriu o papa João XXIII. Os signatários -dentre eles, muitos brasileiros e latino-americanos, sendo que mais tarde outros também se uniram ao pacto- se comprometiam a viver na pobreza, a rejeitar todos os símbolos ou os privilégios do poder e a colocar os pobres no centro do seu ministério pastoral.

O texto teve forte influência sobre a Teologia da Libertação, que despontaria e floresceria nos anos seguintes. Um dos signatários, propositores e mesmo articuladores do Pacto foi Dom Hélder Câmara. O belo texto do Pacto é altamente inspirador para toda a Igreja hoje como ontem. Aqui o transcrevemos do livro "Concílio Vaticano II", Vol. V, Quarta Sessão (Vozes, 1966), organizado por Dom Boaventura Kloppenburg, pp. 526-528.

PACTO DAS CATACUMBAS DA IGREJA SERVA E POBRE

Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a singularidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando, sobretudo, com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:

1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue. Cf. Mt 5,3; 6,33s; 8,20.

2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza, especialmente no traje (fazendas ricas, cores berrantes), nas insígnias de matéria preciosa (devem esses signos ser, com efeito, evangélicos). Cf. Mc 6,9; Mt 10,9s; At 3,6. Nem ouro nem prata.

3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas. Cf. Mt 6,19-21; Lc 12,33s.

4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, em mira a sermos menos administradores do que pastores e apóstolos. Cf. Mt 10,8; At. 6,1-7.

5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor...). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre. Cf. Mt 20,25-28; 23,6-11; Jo 13,12-15.

6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos). Cf. Lc 13,12-14; 1Cor 9,14-19.

7) Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social. Cf. Mt 6,2-4; Lc 15,9-13; 2Cor 12,4.

8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho. Cf. Lc 4,18s; Mc 6,4; Mt 11,4s; At 18,3s; 20,33-35; 1Cor 4,12 e 9,1-27.

9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de "beneficência" em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes. Cf. Mt 25,31-46; Lc 13,12-14 e 33s.

10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus. Cf. At. 2,44s; 4,32-35; 5,4; 2Cor 8 e 9 inteiros; 1Tim 5, 16.

11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral - dois terços da humanidade - comprometemo-nos:

• a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;
• a requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.

12) Comprometemo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:

• esforçar-nos-emos para "revisar nossa vida" com eles;
• suscitaremos colaboradores para serem mais uns animadores segundo o espírito, do que uns chefes segundo o mundo;
• procuraremos ser o mais humanamente presentes, acolhedores...;
• mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião. Cf. Mc 8,34s; At 6,1-7; 1Tim 3,8-10.

13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.

AJUDE-NOS DEUS A SERMOS FIÉIS. Com essas humildes e fervorosas palavras terminavam os bispos seu pacto.  Elas precediam suas assinaturas.  Que a mesma prece habite nosso coração e que o pacto das catacumbas, devidamente adaptado a nosso estado de vida, quer sejamos leigos, religiosos ou clérigos, possa ser o norte de nossas vidas.

 [Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco). wwwusers.rdc.puc-rio.br/ágape, entre outros livros].