quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Celebrar a Festa de Todos os Santos e Santas


Eurivaldo S. Ferreira

No Senhor alegremo-nos todos,
Celebrando dos Santos a festa.
Anjos cantam conosco, exultando
Quem a glória de Deus manifesta!
(cf. Antífona do dia da Festa de Todos os Santos)

                A Festa de Todos os Santos e Santas é sempre celebrada no dia 1º de novembro. Na liturgia da Igreja, esta festa é transferida para o domingo que sucede o dia de Finados. Os santos e as santas são contemplados da Igreja na categoria daqueles que sofreram e foram glorificados com Cristo. Por isso, diz a Sacrosanctum Concilium, que “ao celebrar a passagem dos santos deste mundo ao céu, a Igreja proclama o mistério pascal de Cristo cumprido neles”.
                A exemplo dos santos e santas a Igreja busca viver a santidade, pois estes tiveram suas vidas devotadas pelo mistério pascal. A liturgia que celebramos em comunidade tem essa finalidade. Eles são nosso paradigma de fé e exemplos na nossa caminhada terrena. Na Exortação Apostólica Cristifidelis Laici, João Paulo II diz que “os santos e as santas sempre foram fonte e origem de renovação nas circunstâncias mais difíceis da história da Igreja”. Como Igreja caminhamos nesta intenção, até o dia em que, diante de Deus, formos santos como os seus santos, diz a Oração Eucarística VII. E o nº 828 do Catecismo da Igreja Católica diz que “a santidade da Igreja é o manancial secreto e a medida infalível de sua tarefa apostólica e de seu ímpeto missionário”.
                Os exemplos dos santos são bem significativamente lembrados na liturgia. Durante a prece eucarística, a oração da Igreja faz referência a eles lembrando os próprios sinais com que foram marcados e escolhidos. O Prefácio dos Santos I diz que “Deus é glorificado na assembleia dos santos, por isso os santos são coroados por seus méritos, eles, por sua vez exaltam os dons celestes”. O testemunho admirável dos santos e das santas revigora constantemente a Igreja, provando o amor de Deus para conosco. Deles recebemos o exemplo, que nos estimula na caridade, e a intercessão fraterna, que nos ajuda a trabalhar pela realização do Reino de Deus, assim diz o Prefácio II.
                Maria, a santa por excelência e testemunha qualificada do mistério pascal de Cristo, tem sua santidade exaltada no conjunto dos santos, e esta nos serve de inspiração. Conforme o Prefácio da Assunção de Nossa Senhora, Maria é lembrada como companheira dos outros santos, na imagem da aurora e esplendor da Igreja triunfante, consolo e esperança para o povo ainda em caminho. Todas as Orações Eucarísticas têm em sua estrutura as intercessões, que contemplam a Igreja hierárquica, a Virgem Maria e os santos. O Prefácio de Todos os Santos que “a Jerusalém do alto, a cidade para onde caminhamos, reúne todos os santos e santas em seu seio, no eterno louvor a Deus”. Os santos participam como testemunhas do mistério de Cristo. Assim também nós, ao sermos batizados, somos incorporados ao mistério pascal de Cristo. Diz Alfonso Mora que pelo batismo procuramos ter como meta uma vida regrada pelas virtudes oriundas deste mesmo mistério, assim viveram os santos e santas.
                Como os santos e as santas, esperamos também nós participarmos da vida eterna, ocasião em que pertenceremos ao número dos eleitos. Olhando para seus exemplos e méritos, sentimos já aqui na terra, o gosto pela vida eterna. As testemunhas que nos precederam no Reino (cf. Hb 12,1), especialmente os que a Igreja reconhece como “santos”, participam da tradição viva da oração, pelo testemunho de suas vidas, pela transmissão de seus escritos e por sua oração hoje. Contemplam Deus, louvam-no e não deixam de cuidar daqueles que permanecem na terra. Ao entrar “na alegria de seu Senhor, foram constituídos sobre o muito” (cf. Mt 25,21). Sua intercessão é seu mais nobre serviço ao plano de Deus. O Catecismo da Igreja Católica diz que “podemos e devemos rogar-lhes que intercedam por nós e pelo mundo inteiro”.
                Nossa tarefa, então, a exemplo dos santos e das santas, é abrir-nos, a nós mesmos e o mundo, ao ingresso de Deus, da verdade, do amor e do bem. O Nº 35 da Exortação Apostólica Spe Salvi diz que “eles como ‘colaboradores de Deus’ contribuíram para a salvação do mundo” (cf. 1Cor 3,9; 1Tes 3,2). E ainda continua afirmando que “os santos puderam percorrer o grande caminho do ser-homem no modo como Cristo o percorreu antes de nós, porque estavam repletos da grande esperança”.
                Por ocasião da Festa dos Santos e das Santas, celebrando a Eucaristia, vivemos sempre uma tensão: a de que essa reunião festiva expresse e consolide ao máximo nossa comunhão com a Igreja do céu. A Eucaristia é verdadeiramente um pedaço de céu que se abre sobre a terra; é um raio de glória da Jerusalém celeste, que atravessa as nuvens da nossa história e vem iluminar o nosso caminho, diz João Paulo II na encíclica Ecclesia de Eucharistia.

                Portanto, viver a santidade na comunidade de fé e no mundo, requer de nossa parte uma perseverança, que nos obriga a preservar, defender e comunicar a verdade, sem olhar sacrifícios. 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Escola de Liturgia e Música litúrgica em Joinville - SC

Valério (participante da Escola)

Nos dias 04, 05 e 06 de outubro aconteceu a última etapa da Escola de Música e Liturgia, promovida pela Diocese de Joinville, e direcionada aos músicos, cantores e leitores das paróquias da diocese. Esta foi a última de quatro etapas e aconteceu na casa de retiro do Sagrado Coração de Jesus em Jaraguá do Sul.
A formação foi ministrada pelo Pe. Mirin, a irmã Penha e o músico Eurí; todos da Rede Celebra.
O objetivo foi orientar os músicos, cantores e leitores sobre as diretrizes litúrgicas para as celebrações propostas pelo Concílio Vaticano II e, consequentemente, pela CNBB.
A iniciativa foi do Pe. Luciano, coordenador diocesano de pastorais, com a colaboração da Cristina, da Benta, do Joesano e outros grandes amigos que se dedicaram à organização, alimentação e demais tarefas em todas as etapas da Escola.
No dia 01 de dezembro, acontecerá na comunidade Arca da Aliança em Joinville, um grande ensaio musical com os cantos do tempo pascal para 2014. Todas as paróquias já estão convidadas para se prepararem e enviarem seus músicos e cantores.
A Escola de Música e Liturgia também se repetirá no ano que vem, e todas as paróquias serão comunicadas sobre as datas e a inscrições de seus músicos, cantores e leitores.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Maria, a discípula que acreditou

Eurivaldo Silva Ferreira



           
            Às vésperas da Solenidade de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, ouso oferecer aos leitores uma breve reflexão sobre Maria e o culto a ela estabelecido no decorrer do Ano Litúrgico.
            Maria é a primeira na fileira das santas testemunhas da ressurreição. Mãe do Verbo, a santa por excelência entre os santos e santas, assim ela é contemplada na estrutura das Orações Eucarísticas. Sendo discípula, é imagem da Igreja e seu modelo, “consolo e esperança para o povo ainda a caminho” (Prefácio da Assunção de Nossa Senhora). Está unida à obra da salvação de seu Filho por um vínculo indissolúvel (SC, 103). Nela a Igreja admira e exalta o mais excelente fruto da Redenção, honrando-a (cf. LG 53) e tomando-a como ícone do seu próprio caminho de seguimento do Verbo. É comparada à Jerusalém do alto, a cidade do céu (Prefácio de Todos os Santos), porque reúne todos os santos e santas em seu seio, e é a primeira entre as testemunhas do mistério de Cristo. Por isso é venerada com amor especial pela Igreja com destaque especial em relação às outras testemunhas da fé (cf. SC, 103).
            A memória de Maria está organicamente inserida na estrutura do Ano Litúrgico, com profundo respeito à hierarquia dos símbolos, na qual Cristo tem a primazia, por ele, o enviado do Pai, conduzido pelo Espírito, o universo é redimido. As antífonas e os textos eucológicos garantem em sua formulação de maneira admirável a compreensão que a Igreja tem a respeito do lugar de Maria na obra da redenção, evitando sempre dar a ela o lugar que é de Deus.
            Frei Joaquim Fonseca, em seu artigo “Educar a uma piedade mariana” (Revista de Liturgia, 227), afirma que “ninguém duvida do profundo afeto dos cristãos católicos por Maria, a mãe do Senhor”. Ocorre que em nossas realidades, principalmente no campo da piedade popular, a devoção exagerada à Mãe do Senhor toma caracteres que a descontextualizam da participação na obra da salvação. Preocupa-nos que as memórias e festas dedicadas à Mãe do Senhor do decorrer do Ano Litúrgico ainda não sejam contempladas com a verdadeira pedagogia que elas carregam, contribuindo para uma verdadeira espiritualidade cristológica, descurada de seu sentido eclesial coadunado com o Magistério da Igreja. É também uma preocupação presente no Diretório de Piedade Popular e Liturgia, que afirma que o Magistério da Igreja orienta para que o culto a Maria deve ter um curso expressivamente marcado pela sua característica trinitária, com um componente cristológico, uma dimensão pneumatológica e com caráter eclesial (DPPL, nº 186).
            Agrava-se ainda o deslocamento da piedade mariana quando Maria é mencionada aleatoriamente fora de contexto, como por exemplo, na celebração eucarística, depois da oração pós-comunhão, antes dos ritos finais, costumeiramente rezando-se uma Ave Maria, sem se dar conta que ela já teve seu lugar garantido na prece eucarística, como parte da assembleia dos redimidos gloriosos em Cristo. Rezar a Ave Maria depois da comunhão é não compreender a ação litúrgica que se celebrou, por sua vez não reconhecendo na assembleia dos fiéis a presença misteriosa daquela que está inserida na comunhão dos santos, como diz o prefácio antes do canto do Santo, Santo, Santo.
            Analisar Maria sem o projeto de salvação é desfocá-la daquilo que é a meta de sua imagem. Ela é a imagem visível da Igreja presente. Assim, pois, é necessário olhar com certo cuidado para algumas devoções que querem descontextualizar Maria do projeto salvador de Deus, fazendo intuições deturpadas de sua figura, sem contar aqueles grupos que dão um realce de supervalorização, apontando o que Maria não é. Outros a colocam na periferia da vida religiosa, e outros ainda a tomam como embate para o não fortalecimento do diálogo ecumênico sadio. É preciso então que nos desarmemos para entender a reflexão feita sobre Maria, a fim de que esta seja saudável. A piedade mariana só é existencial e pastoralmente válida se estiver orientada para Cristo.

            Precisamos pensar e nos perguntar onde é realmente que está a verdadeira intuição da Igreja ao nos apresentar Maria. Assim a colocaremos no seu devido lugar, é claro sem jamais isolá-la. Se conseguirmos fazer isso, entenderemos cada vez mais sobre sua pessoa e a amaremos cada vez mais, sem cair numa “mariolatria”.