sexta-feira, 20 de agosto de 2010

César versus Deus

Prezados/as amigos/as leitores/as, teólogos, teólogas e todo povo de Deus.


Está circulando por e-mails ou já se tem publicado em jornais um texto do bispo da Diocese de Guarulhos, D. Luiz Gonzaga, "recomendando a todos verdadeiros cristãos e verdadeiros católicos a não votar na candidada Dilma". Sua 'tênue' recomendação refere-se ao fato de que há alguns candidatos que andam apoiando alguns princípios morais e éticos segundo os quais contrariam as orientações da Igreja.

Recebi este texto (publicado logo abaixo) e respondi ao remetente, à qual repasso a todos/as, a fim de que surta uma reflexão nesse tempo de eleições.

Fiquem à vontade para fazer seus comentários e suas considerações, se assim o desejar, pois o que expresso abaixo é apenas uma opinião pessoal, tendo em vista meu ínfimo nível de consciência político-cristã.
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Prezado amigo,

Agradeço o e-mail enviado, mas quero ressaltar algumas posições que abrangem o aspecto civil e religioso, às quais sustento e afirmo, e nem por isso deixo de declarar publicamente minha expressão de fé.

Penso que a posição de D. Luiz Gonzaga, bispo de Guarulhos, contraria ao que ele mesmo disse: "Por isto a Igreja não se posiciona nem faz campanha a favor de nenhum partido ou candidato". Quando ele diz: "recomendamos a todos verdadeiros cristãos e verdadeiros católicos a que não dêem seu voto à Senhora Dilma Rousseff e demais candidatos que aprovam tais “liberações”, independentemente do partido a que pertençam", ele, enquanto Igreja, está tendo um posicionamento político, inclusive indicando em quem não votar. Quando se indica em quem não votar, é tomar partido, é também e fazer campanha, é escolher alguém.

Talvez, por falta de conhecimento próprio, também por falta de uma assessoria eficaz por parte de sua equipe, o sr. Bispo D. Luiz Gonzaga nunca deveria ter essa posição: a de indicar em quem não votar. Ora, se a Igreja se abstém de indicar em quem votar, então porque é que um bispo tem a autoridade de indicar em quem não votar? Penso que o princípio do posicionamento vale para ambas as afirmações. Quando se diz que não se deve votar em fulano ou em cicrano, afirma-se que se deve direcionar o seu voto a beltrano. Isso não seria indicação de candidato ou pertença partidária? Ora, quais os candidatos à presidência mais falados de que ouvimos? São três. Se eu sigo a orientação de um bispo, de não votar em um, tenho que direcionar o meu voto a outro.

Também por uma questão de direito civil, não se deve recomendar a anulação do voto, que não é o caso do texto de D. Luiz Gonzaga. O voto direto é um direito conquistado em muitos países, principalmente os de regime democrático.

Que tal uma reflexão no âmbito da influência do poder? Palavras de um bispo ressoam bem entre os chamados de "verdadeiros cristãos" e "verdadeiros católicos". O que é, portanto, ser "verdadeiro cristão" e "verdadeiro católico"? Parafraseando Pilatos, como a verdade se relaciona com o ser cristão e o ser católico?

A questão da identidade ou pertença a uma religião não passa pelas categorias da verdade pessoal ou individual, mas pela categoria da ética e da moral. A verdade é adquirida pelos conceitos que tal religião apresenta a quem nela se insere. O individuo então passa a absorver esses ensinamentos e sua doutrina, mas não se anula, enquanto ser, ao contrário, ele cresce, positivando-se. O poder do do sagrado não anula o poder da identidade pessoal, pelo contrário, o primeiro fortalece o segundo. Sinto em afirmar que o poder do sagrado é o poder mais destruidor que tem. O poder político pode me exilar, mas não me destrói. O poder econômico pode tirar minhas condições financeiras, mas não me destrói, mas o poder do sagrado pode “matar” uma comunidade inteira. E é o que constato.

Talvez seria interessante nós darmos uma olhada interna em nossa Igreja, para sabermos que em determinados setores há uma verdadeira busca de anulação da identidade pessoal, prevalecendo a identidade coletiva. Tudo isso é fruto da má interpretação da salvação, o que sugere outra reflexão no âmbito da Escatologia e da Eclesiologia. Então, quando o sr. bispo diz que a Igreja não intervem no Estado, talvez ele devesse se informar melhor, olhando para o interior da própria instituição ao qual pertece para poder afirmar essa minha constatação.

Só para citar um exemplo, tem-se conhecimento de que seminaristas, estudantes e candidatos a padres, espalhados por esse Brasil, sequer têm vínculo à Previdência Social (INSS), pois o instituto ou a congregação ao qual pertence não lhes recolhe os valores devidos ao INSS, a fim de que esse rapaz tenha uma chamada asseguridade social ao chegar o tempo de sua aposentadoria. Sabe-se que apenas o Estado tem o dever de assegurar a qualquer cidadão de incluir-se na Previdência Social, garantindo-lhe acesso à aposentadoria e a recursos de saúde, quando necessitado em ocasião de doença ou invalidez. No Brasil, tanto o trabalhador empregado quanto o autônomo, assim como quem não trabalha mas recolhe os valores devidos ao INSS dispõem desse direito. Entretanto, tal situação não é se contrapor ao Estado? Porque a Igreja tem o direito de anular o indivíduo, inclusive, negando-lhe direitos civis, assegurados pelo mesmo Estado, os quais estão previstos na Constituição Federal? Será se o Reino de Deus anula o indivíduo? Será se dentre as categorias do Reino está a de negar os direitos civis a todos quantos nele quer servir? Penso que não. O Reino de Deus é muito maior que a Igreja. O Reino positiva o indivíduo e não o anula. Esse é apenas um dos diversos problemas de ordem jurídica encontrados no interior de nossa Igreja.

Talvez devamos examinar a questão pela ótica da moral e da ética. É bom que se lembre que nem uma nem outra são conceitos terminados no âmbito eclesial. A Igreja ainda não tem um tratado de moral e de ética, mas a questão está no âmbito das orientações.

Quando se fala em moral e ética, ao separarmos uma da outra, temos um problema que pode tornar-se perigoso. O mesmo seria se separássemos razão e fé. Ou ainda como se separássemos normas e princípios. Se ficarmos no princípio somente, teorizamos. Se ficarmos na norma somente, escravizamos. A experiência religiosa vista pela amplitude da norma é massacrante. Por isso penso que é bom que orientações no sentido de não votar em tal candidato não seja norma, apenas porque um bispo diz ou recomenda.

Numa sociedade pluralista é inerente mostrar a racionalidade de toda postura ética. Não se trata de impor, muito menos de pronunciar frases que nem todos entendam. O cristão não constitui elemento discriminatório entre ética e moral, mas a partir do discurso sentido começa a elaborar em si mesmo o sentido ético. As categorias de consciência crítica ajudam nesse processo. Penso que as orientações na escolha dos candidatos devem ser feitas pela via do despertar da consciência e não pela via da norma pela norma.

Meu pensamento é o de que, antes de sairmos por aí dizendo em quem devemos ou não votar, invistam-se em celebrações bem feitas, em liturgias mais claras e evidentes do Mistério Pascal que se celebra em seu centro e o tem como fonte e cume. Pergunto também: porque nossas liturgias não são conscientizadoras? Se tivéssemos celebrando bem o Mistério Pascal não preciaríamos de orientações normativas. A própria celebração do Mistério Pascal, que contém a Lei, nos diria e nos abriria a consciência para o intervir no mundo, em todas as realidades, mudando o curso e o estado delas. O Mistério Pascal é universal e atinge a todos e a todas. Ele é a segurança de que temos para mudar o que deve ser mudado.

Agora, porque é que apesar de celebrarmos nossas liturgias, elas não conseguem mudar a realidade? O que nos falta ainda? A reflexão a seguir pode nos ajudar. Baseado em escritos antigos judaicos, há um autor que diz que o mundo repousa sobre três colunas: a Lei, a liturgia e as obras de caridade. Não se pode passar da Lei para as obras de caridade sem antes vivenciar a oração, na liturgia. Assim, as obras de misericórdia devem ser conduzidas à luz da oração, se não pode-se cair no legalismo, pelo simples fato de se estar exercendo o direito legal (a Torah, no judaísmo e o Magistério da Igreja, para os católicos, por exemplo). Em resumo, significa que não se pode passar da compreensão para a ação sem antes ter vivido a liturgia, exercida num tempo intermediário de oração e contemplação. A liturgia é a chave para a consciência, rumo à mudança real.

Evidentemente o assunto sugere mais reflexão e tomada de atitude. Não seguirei as orientações de D. Luiz Gonzaga, apesar de me considerar cristão. Ainda prefiro pensar que minha consciência é a casa do meu direito.

Grande abraço.

Euri.
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Abaixo o texto com a recomendação de D. Luiz Gonzaga:

Com esta frase Jesus definiu bem a autonomia e o respeito, que deve haver entre a política (César) e a religião (Deus). Por isto a Igreja não se posiciona nem faz campanha a favor de nenhum partido ou candidato, mas faz parte da sua missão zelar para que o que é de “Deus” não seja manipulado ou usurpado por “César” e vice-versa.

Quando acontece essa usurpação ou manipulação é dever da Igreja intervir convidando a não votar em partido ou candidato que torne perigosa a liberdade religiosa e de consciência ou desrespeito à vida humana e aos valores da família, pois tudo isso é de Deus e não de César. Vice-versa extrapola da missão da Igreja querer dominar ou substituir-se ao estado, pois neste caso ela estaria usurpando o que é de César e não de Deus.

Já na campanha eleitoral de 1996, denunciei um candidato que ofendeu pública e comprovadamente a Igreja, pois esta atitude foi uma usurpação por parte de César daquilo que é de Deus, ou seja o respeito à liberdade religiosa.

Na atual conjuntura política o Partido dos Trabalhadores (PT) através de seu IIIº e IVº Congressos Nacionais (2007 e 2010 respectivamente), ratificando o 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH3) através da punição dos deputados Luiz Bassuma e Henrique Afonso, por serem defensores da vida, se posicionou pública e abertamente a favor da legalização do aborto, contra os valores da família e contra a liberdade de consciência.

Na condição de Bispo Diocesano, como r e s p o n s á v e l pela defesa da fé, da moral e dos princípios fundamentais da lei natural que - por serem naturais procedem do próprio Deus e por isso atingem a todos os homens -, denunciamos e condenamos como contrárias às leis de Deus todas as formas de atentado contra a vida, dom de Deus,como o suicídio, o homicídio assim como o aborto pelo qual, criminosa e covardemente, tira-se a vida de um ser humano, completamente incapaz de se defender. A liberação do aborto que vem sendo discutida e aprovada por alguns políticos não pode ser aceita por quem se diz cristão ou católico. Já afirmamos muitas vezes e agora repetimos: não temos partido político, mas não podemos deixar de condenar a legalização do aborto. (confira-se Ex. 20,13; MT 5,21).

Isto posto, recomendamos a todos verdadeiros cristãos e verdadeiros católicos a que não dêem seu voto à Senhora Dilma Rousseff e demais candidatos que aprovam tais “liberações”, independentemente do partido a que pertençam.

Evangelizar é nossa responsabilidade, o que implica anunciar a verdade e denunciar o erro, procurando, dentro desses princípios, o melhor para o Brasil e nossos irmãos brasileiros e não é contrariando o Evangelho que podemos contar com as bênçãos de Deus e proteção de nossa Mãe e Padroeira, a Imaculada Conceição.

D. Luiz Gonzaga Bergonzini

Bispo de Guarulhos - SP

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A prece dos fiéis na Eucaristia e nas demais celebrações litúrgicas

Eurivaldo S. Ferreira

Tenho sempre recebido e-mails de pessoas e amigos/as que desejam algum esclarecimento sobre algum assunto acerca da celebração da Eucaristia. Uma última pergunta era sobre a prece dos fiéis nas celebrações. Acho interessante esse tipo de questionamento, pois me leva a pesquisar sobre a questão, o que agora publico neste espaço como fruto de minha pesquisa, pensando que ajudará os leitores a compreenderem o aspecto de súplica, dentre outros, presentes em nossas celebrações.

Celebração: uma ação de louvor e de súplica

Pra começo de conversa, é importante lembrar que toda e qualquer celebração é um louvor dirigido ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo. Os ritos contidos nas celebrações são meios condutores do louvor, ou sejam mediadores. Os símbolos e os gestos nos ajudam a compreender e a vivenciar os ritos mais plenamente (pão, vinho, mãos que se erguem, ficar de pé, andar em procissão, cantar, escutar uma leitura bíblica, sentir o cheiro de um incenso, abraçar-se etc.). Mas a celebração não é só louvor, nem pode ficar no âmbito do louvor. O documento conciliar Sacrosanctum Concilium diz que celebramos a liturgia com ritos e preces, por isso a súplica faz parte do processo de transcendência, pela qual nos divinizamos através da liturgia. Na liturgia, Deus vem até nós e nós vamos até ele, através da força mediadora do rito, dos gestos e dos símbolos.

A Palavra: a motivadora da súplica

Na Eucaristia, quando nos reunimos no Dia do Senhor para louvar seu nome, aproveitamos para também suplicar por nós e pelo mundo. É aqui que entram as súplicas da comunidade, pois, um povo reunido para ouvir a Palavra de Deus quer que esta Palavra se torne presente em sua vida. A Palavra de Deus proclamada nas leituras e atualizada na homilia gera na assembléia um grito, uma súplica a Deus, por isso a comunidade faz suas preces. Esta assembléia atenta também se preocupa com a vinda do Reino em sua realidade e se pergunta a si mesmo: como fazer para seguir e praticar o que acabamos de ouvir? Mas, como somos fracos e pecadores, pedimos que Deus nos ajude a fazer com que sua Palavra penetre nossos corações e nossas consciências, alargando também essa possibilidade ao universo, por isso o caráter universal das preces dos fiéis. É bom lembrar que a súplica é elemento comum a todas as crenças e religiões. A prece dos fiéis na Eucaristia é também uma herança recebida do judaísmo. Na carta aos filipenses, Paulo recomenda: “...apresentai a Deus todas as vossas necessidades pela oração e pela súplica, em ação de graças” (Fl 4,6). Jesus Cristo, quando ensina seus discípulos a rezar, apresenta sete súplicas ao Pai na oração do Pai Nosso.

O sentido teológico dos pedidos na Eucaristia

Nas instruções litúrgicas encontramos uma orientação na qual diz que as preces da Igreja, seja pela Celebração eucarística, seja pelo Ofício Divino (Liturgia das Horas), se dirigem a Cristo e por Cristo ao Pai em nome de toda a humanidade. Desta forma, as preces são dirigidas ao próprio Cristo, que "se encarrega" de levá-las ao Pai. Não há nada de errado nisso, sobretudo, porque entendemos que o conteúdo de glorificação nas celebrações é Cristo.

Num dos prefácios da Oração Eucarística encontramos a expressão: Ele é a oferta verdadeira que se dá continuamente ao Pai. O prefácio é a grande condensação do louvor ao Pai, pela glória do Filho, que culmina com o canto do Santo, Santo, Santo... Esta expressão também se encontra presente em outros prefácios, principalmente nos das Festas do Senhor (Cristo, Rei do Universo, por exemplo). Bem, a compreensão então de que é Cristo, o sacrifício, a vítima e o sacerdote na celebração deve ser alargada. Trata-se aqui de compreendermos o caráter escatológico de nossas celebrações. A Escatologia nos ajuda a compreender que aquilo que celebramos aqui esperamos que se concretize com a vinda do Senhor, no final dos tempos. Esta afirmação nós a fazemos em todas as missas na "Aclamação Memorial" (Eis o mistério da fé). O alargar de nossa compreensão se dá no sentido de "quando Deus for tudo em todos". Quem fará isso? O próprio Cristo, que assumindo nossa humanidade, quis que nos elevássemos à condição divina. E, no final dos tempos, entregará toda a humanidade ao Pai. É claro, que ele já fez isso, por sua morte. Mas, Paulo diz que falta completar em nós a obra começada. Paulo fala da escatologia, do final dos tempos. É Cristo quem fará, na verdade, à imagem e semelhança do homem novo, da Trindade, ou seja, dele mesmo. Quando estivermos configurados a Cristo, a humanidade, junta com toda a criação será entregue ao Pai. Portanto, Cristo é o Mediador do louvor e da prece, da oração e da súplica que o povo faz ao Pai. A este povo, a Igreja quer que cresça na unidade, por meio das palavras de Cristo, em sua oração antes da entrega no Getsemani, e participe consciente, ativa e frutuosamente do mistério eucarístico, que é a missa.

O que tudo isso tem a ver com a prece dos fíéis?

Quis resgatar o sentido teológico de nossas celebrações enquanto estamos aqui na terra. Por isso nós pedimos ao Cristo, que entregue nossos pedidos, nossas súplicas ao Pai. É ele o sacerdote verdadeiro. Todos os outros são imitação de Cristo (nós também somos sacerdotes), mas não temos a dignidade de fazer tal intento, a de entregar o próprio Cristo ao Pai. É ele mesmo quem se entrega, nós, os sacerdotes, somente fazemos memória dessa entrega única, num sentido ritual. De fato, podemos dizer que na Missa "pegamos carona" na entrega de Cristo, que ele faz de si mesmo. Embora todos exerçam igual sacerdócio, um é o que preside em nome de Cristo, a celebração da Missa, por conseqüência do ministério dos apóstolos que Cristo confiou e instituiu na última ceia. Porém, os sacerdotes (não-ordenados), por força de seu batismo, também são convidados a realizarem o sacrifício espiritual, em união com os que possuem sacerdócio ordenado, unindo-se a Cristo, único Mediador, dando graças e Ele e oferecendo a Deus seu sacrifício. A Instrução Geral do Missal Romano diz que a oração dos fiéis é oração do povo que exerce sua função sacerdotal, ou seja, os sacerdotes que celebram (nós todos), entregamos toda a nossa súplica ao Sacerdote por excelência, Cristo, que trata de levá-las ao Pai das súplicas. Um exemplo claro disso está no Ofício Divino (Liturgia das Horas). Nesta modalidade de oração da Igreja as preces terminam com o Pai Nosso a fim de dizer que o Pai Nosso é a prece das preces, é a síntese de todas as preces, ensinada pelo próprio Jesus.

Dois tipos de preces

A comunidade reunida suplica ao Pai através de duas formulações: a sacerdotal e a diaconal. A sacerdotal é quando dirigimos os pedidos ao próprio Cristo, e a diaconal é quando suplicamos pelas instâncias às quais queremos que ele interceda (governantes, Igreja, sofredores, mundo, bem-estar do ser humano etc). Para cada prece há uma resposta adequada e diferenciada, “Senhor, escutai a nossa prece” é a mais comum. Um exemplo claro de súplicas por várias instâncias encontramos na Liturgia da Sexta-feira Santa, na Oração Universal, em que a Igreja, reunida para fazer memória da cruz do Senhor intercede por todos, até por aqueles que ainda não reconhecem Cristo como Senhor. Eis aqui o seu sentido universal. A fundamentação bíblica encontramos na Carta de São Paulo a Timóteo, quando diz: "Acima de tudo recomendo que se façam preces, orações, súplicas e ação de graças por todos os homens..." (1Tm 2,1).

Preces de batizados que entoam um canto de súplica ao Pai

A prece dos fiéis é de todos os batizados que são solidários com o universo e as necessidades da humanidade inteira. Através da oração dos fiéis, todo o povo de Deus exerce sua função sacerdotal, intercedendo pelas súplicas do mundo inteiro. Por ocasião de celebrações especiais como Matrimônio, Exéquias, as intenções podem referir-se estreitamente àquelas circunstâncias. Nesse sentido aqueles fiéis batizados reunidos na memória da ceia do Senhor transcendem seus próprios horizontes tornando-se solidários com toda a humanidade, com suas dificuldades, suas alegrias e esperanças. Quando cantada, a prece dos fiéis atribui-se de um significado mais profundo e mais eclesial do que uma oração simplesmente falada. O canto atinge todo o nosso ser, nos une mais intimamente uns aos outros e com Deus na oração, ainda mais pelo aspecto comunitário do canto, uma vez que esta é a oração da comunidade dos fiéis, que canta e ora ao Senhor das súplicas.

domingo, 1 de agosto de 2010

Carta final do Seminário: "A liturgia na vida da juventude"

Aos/as Jovens das comunidades, Bispos, Presbíteros, Religiosos, Religiosas, Pastorais da Juventude, Movimentos que trabalham com Jovens, Centros e Institutos de Juventude e a todo o povo de Deus que atuam no serviço litúrgico com os/as jovens.


Há 10 anos a Casa da Juventude Pe. Burnier – CAJU realiza a Escola de liturgia para jovens. O objetivo da escola é animar a juventude a cultivar uma mística celebrativa e inculturada na vida das comunidades, formando jovens para o serviço litúrgico na Igreja que, no “estilo litúrgico, como o de Jesus, deve ser simples e austero. Nas celebrações, devemos tornar-nos, segundo os Padres do Concílio, mestres da arte da “nobre simplicidade” (SC,nº 34)”.

Na festa de Pentecostes, com a participação de jovens, adultos e anciãos, na partilhas das diferentes sabedorias, contando com participantes de algumas das escolas de liturgia para jovens realizadas nos últimos dez anos, dos Centros ligados à Rede Brasileira: IPJ Leste II e Anchietanum, a Escola de liturgia de Birigui e Rede Celebra a CAJU realizou o Seminário “A Liturgia na Vida da Juventude”.

É um Dom de Deus estar junto aos/as jovens, criando e produzindo uma liturgia juvenil. Por isso, com Dom Washington, afirmamos que “A liturgia não é a soma das emoções de um grupo nem, muito menos, o receptáculo de sentimentos pessoais”. Essa experiência vivenciada, nesses anos, de maneira lúdica e com criatividade, confirma que a juventude tem uma grande acolhida ao mistério Pascal celebrado pela Igreja com seus ritos e símbolos sempre na dimensão comunitária.

Voltando às origens pelas Celebrações e Memória, passando pelo movimento litúrgico pré-conciliar, do Vaticano II, da implementação da reforma litúrgica e da participação da juventude neste processo, das experiências de formação litúrgica para jovens vivenciadas em vários lugares do Brasil, pela reflexão do artigo “A liturgia deve aprender dos jovens”, de José Aldazábal, o seminário destacou alguns pontos que são importantes para pensar A Liturgia na Vida da Juventude:

Contribuir para um jeito de ser igreja com rosto jovem, alicerçada na Celebração da Eucaristia, na Leitura Orante da Bíblia e que impulsione à vivência comunitária, na experiência do cuidado com a vida humana e do Planeta.

Cuidar da dimensão celebrativa dos encontros semanais dos grupos de jovens; reuniões, assembléias, encontros e valorizando o Oficio Divino da Juventude, como caminho de amadurecimento na espiritualidade.

Celebrar a Liturgia como espaço de comunhão, onde crianças, jovens, adultos e idosos rezam, partilham e dançam juntos. Superar as práticas ‘individualistas’ que levam em conta ‘públicos’.

Garantir à Juventude a memória da Palavra, da Tradição e do Magistério, na sua maneira profética, anunciadora, e fiel ao seguimento de Jesus Cristo.

Assumir de maneira mais atualizada a Celebração Litúrgica, levando a maneiras de viver concretamente no cotidiano, o compromisso com a Vida da Juventude, com sinal dos valores do Reino.

Adequar melhor os espaços litúrgicos para as celebrações, para que estes contribuam na participação ativa e viva, e especialmente com os/as Jovens.

Valorizar a realidade do jovem como lugar e morada de Deus, valorizando a vida da Juventude celebrando suas lutas, suas dores, modos de solidariedade e que impulsionem para construção de Um outro mundo possível.

Aprofundar a capacidade de oração e contemplação dos jovens, na dimensão pessoal e comunitária.

Possibilitar à juventude com uma metodologia adequada, formação de qualidade sobre liturgia, respeitando a diversidade juvenil e levando em conta as compreensões das maneiras de celebrar, conteúdos programáticos, linguagem apropriada, sensibilidade ritual, criatividade e deixar que a juventude tenha propriedade do Rito.

Considerando o caminho percorrido, e os pontos destacados, os participantes concluíram que o Seminário foi um primeiro momento de iluminar-nos, dos aspectos que a formação litúrgica com a Juventude, coloca-nos como exigência e necessidade de aprofundar, porque como bem diz Rubem Alves, “Liturgia combina com arte, beleza e mistério. Uma parte nós fazemos e a outra nos é dada”.

Na dimensão dos Dons, das brisas, e da chama de vida que impulsiona nossa missão, nossa paixão, e nossa esperança, que nos conduz na direção do mistério da Juventude, no mistério da Vida de Jesus, despedimo-nos, convocando a todos/as para que restituamos esse Dom do mandato do Senhor, de que “fazei isso em memória de mim”, e restituamos as causas da Boa Nova na Celebração do Grande Memorial do Mistério da nossa fé “anunciamos Senhor a vossa morte e proclamamos a Vossa Ressurreição, Vinde Senhor Jesus”.

Com estima e carinho,

Participantes do Seminário: A liturgia na vida da juventude

Goiânia, 11 de Junho de 2010.

Encerramento do Ano Sacerdotal