sábado, 5 de janeiro de 2019

Falar por meio de metáforas. Tem sentido isso?

Dizem os entendidos que a Ministra dos Direitos Humanos quando disse: "Menino veste azul e menina veste rosa!", falou por meio de uma metáfora, ou soou como se fosse uma metáfora. Positivo! Ela falou como se fosse uma metáfora. Ela usou a chamada comparação mental, que chega a ser igualada à metáfora.
Vejam, eu mesmo comecei meu texto com uma metáfora: "os entendidos", para me referir aos que fizeram uma defesa da fala da ministra, afirmando que sua frase não teria força de persuasão, já que "falou em metáforas". Negativo. Teve força de persuasão sim, e ela quis se referir a um modo de pensamento em que reduz o entendimento para se obter vários efeitos, que agora não vamos detalhar, pois meu texto quer apenas discutir o emprego e o uso das metáforas e alertar que o emprego desta figura de linguagem é perfeitamente aceitável.
Neste caso ela usou o que chamamos de "Metonímia", isto é, usar o emprego de uma palavra pela outra com a qual está relacionada. Ela se utilizou da forma de linguagem que compara o instrumento pela pessoa que o utiliza, no caso, a cor, relacionando o azul aos meninos e a rosa, às meninas (aqui usei mais uma metáfora, Zeugma, em que se suprime o verbo ou outra palavra quando já citados anteriormente).
Mas, esse é o ponto com o qual quero chegar, falar em metáforas não significa negar ou suprimir o sentido da frase que queremos expor ao interlocutor ou ao ouvinte. Nem tão pouco subjetivar o conteúdo de nossa expressão. As metáforas são um meio eficaz de fazermos com que chegue a compreensão da linguagem entre aqueles(as) com os(as) quais dialogamos.
Cerca de 80% de nossas frases são em estilos metafóricos, e isso ocorre em qualquer classe social. Quando você se dirige à pessoa amada e diz: "Meu bem", você está utilizando uma metáfora (Perífrase), que designa os seres por identificação com atributos.
Segundo o Prof. Roberto Lima (RN), a metáfora é mais concisa, enquanto que a comparação é mais redundante. As duas formas de figuras de linguagem são bem-vindas à língua portuguesa, e, quando bem empregadas, são literalmente belas.
Vejam um exemplo de metáfora: "Sinto a cruz que carrego bastante pesada!" (Evaldo Braga). Nesta frase a metáfora está estilizada pela comparação entre o elemento "cruz" e o verbo "carregar", o que significa dizer que o peso da cruz é que traz sofrimento àquele que pronuncia a frase. Assim, a "cruz" está sendo usada metaforicamente para comparar ao sofrimento (o peso da minha cruz).
Tendo feito esta introdução sobre as metáforas, agora não vale dizer que aquilo que a ministra disse "é uma apenas uma metáfora", como chegaram a afirmar, como quem quer dizer: "não tem significação alguma" ou "foi apenas uma força de expressão sem qualquer relevância".
Falar em metáforas é um mecanismo específico da nossa linguagem em que, segundo o Prof. Roberto Lima, "desviando-se da significação própria devido a uma comparação mental entre propriedades pertinentes à compreensão dos termos aí envolvidos", quer-se chegar a outro entendimento.
O que me espanta é saber que até mesmos intelectuais se arvoraram na defesa da ministra ao dizer que ela "se expressou em metáforas", e que isso "não tem significação alguma". Nada a ver. Por detrás das metáforas estão as mais significativas expressões que nossa língua pode trazer.
A metáfora é o meio mais eficaz com o qual já nos expressamos. As poesias estão cheias dessas figuras de linguagem. Nossa música popular brasileira é riquíssima em metáforas. Até mesmo nosso dia-a-dia já incorporou esse jeito de falar: o "braço da cadeira" é uma metáfora, assim usado por não termos outra expressão para designar este elemento que faz parte do corpo da cadeira.
Outro ponto importante é afirmamos que o desvio da significação própria provocada pelo falante que - conhecendo as normas - desvia-se delas para conferir novidade e força expressiva à mensagem que está veiculando, configura-se com o que chamamos de figuras de linguagem (Savioli, Gramática em 44 lições, p. 403). Eis então o ponto sobre o qual queríamos chegar: conferir novidade e força expressiva à mensagem.
Então, minha gente, sendo metáfora ou não, as pessoas públicas devem conter-se em suas expressões a fim de não expressarem aquilo que não desejam, ou ainda não se fazerem entender como queriam realmente ao empregar certos tipos de expressões. Ela mesma, a ministra, disse em entrevista concedida a uma emissora de TV que "tiraram sua frase de contexto". Não é verdade. Sendo contextual ou não, a metáfora por ela empregada teve repercussão nas redes sociais, de tal forma que muitos entenderam o sentido e a real intenção sobre o que ela queria se referir.
Assim sendo, continuemos a nos expressar em metáforas. Elas estão na ordem do dia. Isso sem dizer que outro político afirmou que "é necessário criar Guantánamo carioca". Só esta metáfora daria outro textão!
Continuemos a fazer dessas expressões instrumentos que amenizem nosso cotidiano, pois precisaremos. Que elas nos ajudem!

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Eles conspiram juntos contra mim, e tramam tirar-me a vida (SL 31,14b)
Irmãos e irmãs;
É com profundo pesar que, mais uma vez, nos defrontamos com uma barbárie contra os Povos Indígenas. Desta vez da etnia Gamela. Ataque que aconteceu no município De Viana, estado do Maranhão.
E nós, como cristãos e cristãs comprometidos na luta pelos direitos de todos os povos, raças e nações, irmanados com o ensinamento de Jesus que disse: "Eu vim para que todos tenham vida". Não poderíamos nos calar diante de tal fato. Por isso vimos através desta nota manifestar nosso repúdio e exigir providências das autoridades competentes, dos governos estadual e federal, para que os autores deste ataque covarde e sangrento sejam punidos e que a justiça seja feita.
Reafirmamos nossa oração, comunhão e compaixão com todos os irmãos e irmãs indígenas da etnia Gamela, verdadeiros donos da terra. Especialmente aqueles que ficaram gravemente feridos e mutilados, entre eles, ALDELI, JOSÉ E KUM TUM GAMELA - INALDO VIEIRA SEREJO, ex-padre e ex-coordenador da CPT, referência na luta social do Maranhão e do Brasil, exemplo de solidariedade aos oprimidos.
Como bem dizia Dom Helder Câmara: "O cristão não foge dos desafios da época, não fica de braços cruzados, de boca fechada, de cabeça vazia, não tolera a injustiça nem as desigualdades gritantes de nosso mundo; luta pela verdade e pela justiça, com as armas do Amor".
Diante dos fatos, não poderíamos nos calar...
Chega de morte!
Chega de violência!
Chega de injustiça!
Chega de roubar do povo o direito de ter terra, casa e pão...
Fraternalmente,
01 de maio de 2017
Assinam os membros da Rede Celebra de Animação Litúrgica de todos os núcleos do Brasil.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Em que ocasião cantar o Hino do Ano Santo da Misericórdia?


O Hino composto para o Ano Santo da Misericórdia, de autoria de Eugenio Costa e Paul Inwood, tem caráter litânico, isto é, pertence à família das ladainhas.

É composto de um refrão: Misericordiosos como o Pai! [cf. Lc,6], e as estrofes ou invocações são uma espécie de invocação e exortação ao povo que, por sua vez, responde: Pois eterna é a sua misericórdia!. Esta resposta é baseada no Salmo 136: Eterna é a sua misericórdia!, conforme cita o documento Misericordiae vultus [O rosto da misericórdia, papa Francisco], nº 7, em que proclama o Ano Santo da Misericórdia, no qual diz:

A misericórdia torna a história de Deus com Israel uma história da salvação. O fato de repetir, continuamente ‘pois eterno é o seu amor’, como faz o Salmo, parece querer romper o círculo do espaço e do tempo para inserir tudo no mistério eterno do amor. É como se se quisesse dizer que o homem, não só na história, mas também pela eternidade, estará sempre sob o olhar misericordioso do Pai. (…) O fato de saber que o próprio Jesus rezou este Salmo, torna-o, para nós cristãos, ainda mais importante e compromete-nos a assumir o refrão na nossa oração de louvor diária: ‘eterna é a sua misericórdia’“.

Também no Salmo 118(117), a resposta O seu amor é para sempre! traduz o mesmo sentimento descrito acima. Trata-se de um salmo pascal que recorda as maravilhas que o Senhor fez para com o povo de Israel. Este salmo era cantado pelo povo ao adentrar no templo reconstruído.

Tendo esse pano de fundo com esses motivos: a ladainha na qual invoca-se a misericórdia de Deus, o Salmo 136 e o Salmo 118(117), podemos então situar o Hino para o Ano Santo da Misericórdia e pensar como ele pode ajudar a assembleia a recordar-se da misericórdia de Deus na celebração da Eucaristia e em outras celebrações litúrgicas.

Mas antes é preciso informar que aqui não formulamos nenhuma orientação com relação ao Hino, o que caberá a cada grupo de cantores e instrumentistas, equipes de liturgia e comunidades a bem situá-lo, dependendo do contexto da celebração, dos motivos da comunidade, sobretudo do tempo litúrgico, e das necessidades da comunidade em celebrar bem, em momentos oportunos, o Ano Santo da Misericórdia, principalmente debruçando-se sobre o documento Misericordiae vultus [O rosto da misericórdia] que proclama este ano.

Sempre é bom lembrar que não vale “enfiar” o Hino em qualquer lugar da celebração ou em qualquer dia. É preciso critério e clareza para se pensar numa boa e qualificada oportunidade de se cantá-lo, a fim de que a comunidade celebrante possa cantar com inteireza, se apropriando de seu conteúdo, de suas belas palavras e sua melodia possa tocar profundamente cada um/a. O canto litúrgico ajuda a comunidade a rezar e a se apropriar do conteúdo de fé nele presente. Cantar com conhecimento de causa, eis a questão!

Já disse aqui neste blog em outro artigo que “a música litúrgica, revestida de seu texto poético e melodia, tem força de realizar aquilo que significa quando se coloca a serviço mesmo da liturgia, solenizando-a, e santificando a assembleia celebrante, por isso ela é o sinal sensível mais eloquente da assembleia celebrante (SC, 7, 112, 113). O canto, com uma melodia eficaz e uma poesia consistente e qualitativa, é capaz de exprimir a alegria do coração que vibra, ao ressaltar a importância da celebração, solenizando-a (Dies Domini, João Paulo II)”.

Assim, sugerimos as possibilidades abaixo, que pensamos sejam significativas para as comunidades:

– Baseado no nº 9 do referido documento, há vários textos bíblicos que podem ser usados nas celebrações da misericórdia. Havendo na comunidade essas celebrações, é oportuno cantar o Hino, na abertura, num momento próprio para algum gesto de reconciliação mútua dos presentes, ou outro momento que a comunidade julgue necessário.

– No tempo da Quaresma, sobretudo no 3º Domingo (A figueira que não dá frutos), no 4º Domingo (O filho que retorna à casa do Pai) e no 5º Domingo (A mulher a quem Jesus perdoou), são oportunidades bem significativas para se cantar o Hino, seja na Abertura da celebração ou como canto da Comunhão. Particularmente, o canto da Comunhão deve estar ligado ao conteúdo do Evangelho, o que o faz elemento de ligação das duas mesas: a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia. Neste sentido, a letra do Hino se torna oportuna a este momento. Porém, não se esqueçam do bom repertório quaresmal que temos no Hinário Litúrgico da CNBB, Vol. II para esses dois momentos.

– Os nºs 17 e 18 do documento Misericordiae vultus [O rosto da misericórdia] também sugere que a Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus. E descreve vários textos bíblicos que podem ser refletidos neste período. Como por exemplo, encontrar espaços e ocasiões que a comunidade deve bem celebrar os motivos que ela mesma presenciou a misericórdia de Deus em sua caminhada. As festas dos padroeiros, com os tríduos, são ótimas ocasiões para isso, principalmente se as comunidades reservarem a celebração da Eucaristia para o último dia da festa, deixando que os outros dias sejam verdadeiros encontros celebrativos (Ofício Divino, Celebração da Palavra ou Novenas) em que a comunidade visualize em seu padroeiro aquele que acolheu em vida e foi merecedor da misericórdia de Deus.

– Também o nº 17 do mesmo documento indica uma iniciativa para as comunidades e dioceses: “24 horas para o Senhor”, celebrada na sexta-feira e no sábado anteriores ao 4º Domingo da Quaresma, ocasião em que muitos “estão se aproximando do sacramento da Reconciliação e que frequentemente, nesta experiência, reencontram o caminho para voltar ao Senhor, viver um momento de intensa oração e redescobrir o sentido da sua vida”.

– Se a comunidade tem o hábito de rezar e celebrar o Ofício Divino com o povo, pela manhã ou à tarde, eis aí um momento oportuno para se cantar o Hino, até mesmo uma ou duas estrofes, como sugere o nº 7 do documento, “tornar o ‘eterna é a sua misericórdia’ como nossa oração diária”.

Enfim, são várias possibilidades que pensei e que agora dependem da criatividade, do zelo pastoral das equipes e dos ministros em cantar bem o Hino do Ano Santo da Misericórdia.

Esperamos e confiamos que as comunidades paroquiais saibam aproveitá-lo bem e pelo dom da voz e da música, entoar as misericórdias de Deus, que são para sempre!

Com carinho, desejamos aos leitores boa caminhada quaresmal e ótimas celebrações do Ano Santo da Misericórdia!

Obs.: Aos que desejarem, tenho em partitura uma versão em português brasileiro, inclusive traduzindo as partes em latim para nossa língua, adaptada por Márcio Antônio de Almeida, a pedido do compositor britânico Paul Inwood, com o qual estivemos em Traunstein, Alemanha, em agosto de 2015, no Universa Laus, ocasião em que nos apresentou o Hino e nos contou uma pequena história a respeito do concurso e da escolha do Hino. 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Quaresma: alimentar-se da espiritualidade do mistério pascal




Introdução
Para aproveitar melhor a riqueza dos textos e das intuições pedagógicas das expressões rituais do tempo da Quaresma, a comunidade cristã deveria iniciá-lo visitando os textos da liturgia deste tempo sob a forma de um retiro espiritual entre a Quarta-feira de Cinzas e o 1º Domingo da Quaresma. Sugerimos: o texto e o ensaio mistagógico de um belo canto da Ladainha de Todos os Santos e Santas, que será entoado na procissão de entrada, a Oração Coleta e a Oração pós-comunhão do 1º Domingo da Quaresma.
Esta modalidade de aprofundamento, feito numa tarde, por exemplo, ajudará o povo a se alimentar de uma espiritualidade que tem origem no próprio tempo litúrgico. É o que recomenda o número 107 da Sacrosanctum Concilium: “a fim de alimentar devidamente a piedade dos fiéis, sobretudo [alimentar-se] da espiritualidade do mistério pascal”.
É nos retiros quaresmais que se deve perceber e se alimentar dessa linguagem bíblica e litúrgica, principalmente pela leitura orante. Essa prática ressoará num melhor aproveitamento das celebrações do tríduo pascal, já que a Quaresma tem como fim a preparação para essas festas.
Também o povo é convidado a ter uma vida marcada pela oração mais intensa, cuja finalidade se dá com a renovação das promessas do Batismo, na vigília pascal (PCFP, 6). Mas, infelizmente o povo só tem contato com os textos eucológicos [conjunto das orações da Igreja] apenas nos momentos da celebração, muitas vezes despercebidos de sua riqueza e intenção.
O que dizem as orientações
Diz o nº 23 da Carta Preparatória para as celebrações das Festas Pascais, PCFP [Paschalis Sollemnitatis, 16/01/1988, Congregação para o Culto Divino]:

O 1º domingo da Quaresma assinala o início do sinal sacramental da nossa conversão, tempo favorável para a nossa salvação. Na missa deste domingo não faltem os elementos que sublinham tal importância; por exemplo, a procissão de entrada, com a ladainha dos santos.

Trata-se de uma leitura pedagógica do sinal sacramental de nossa conversão, ao sugerir que não se falte neste domingo os elementos que sublinham essa atitude.

Analisando os sinais sacramentais do início da Quaresma
Os sinais sacramentais da  nossa conversão que marcam o início da Quaresma são dois: um de ordem cósmica e outro de ordem moral: as cinzas e o mal. O primeiro é revestido de um princípio pedagógico-sacramental que nos remete à experiência da graça, isto é, viver como seres reconciliados é vivermos com a lembrança da eterna páscoa em nós.
O segundo, o mal, já é citado na Oração Coleta da Quarta-feira de Cinzas:Concedei-nos, ó Deus todo-poderoso, iniciar com este dia de jejum o tempo da Quaresma, para que a penitência nos fortaleça no combate contra o espírito do mal. Um dia de jejum é uma forma de penitência na luta contra o mal. Mas o espírito do mal será explicitamente citado no Evangelho do 1º Domingo da Quaresma: as tentações de Jesus.

Os dois elementos estão intimamente conectados nas liturgias do início da Quaresma, principalmente ao ouvirmos os Evangelhos. A reconciliação implica numa vida austera, sabendo que somos pó, símbolo da destruição (os grãos, quando moídos, podem ser reduzidos a pó, por exemplo), nos faz conscientes de sermos merecedores da graça, e que viver o bem é uma forma segura de vencermos o mal que se faz presente na humanidade.
A pedagogia da oração da Igreja
A condição espiritual e social para a superação do mal é pedagogicamente apresentada na oração da Igreja do 1º Domingo da Quaresma: progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder a seu amor por uma vida santa.O mal se vence conhecendo-se Jesus e a ele aderindo.

Por isso a Igreja se serve de práticas adequadas para completar a formação do povo (retiros, por exemplo), cuja origem se encontra na Palavra de Deus. Essas práticas estão coadunadas com a lembrança do mistério pascal, no decorrer das celebrações ao longo do Ano Litúrgico (cf. Sacrosanctum concilium, 105). Encontramos aqui um veio pedagógico já intuído na eucologia e nos ritos da Igreja, que finca suas raízes na Sagrada Escritura.

O canto da Ladainha de todos os Santos e Santas
A Ladainha de todos os Santos e Santas de Deus,  cantada na procissão de abertura da celebração do 1º Domingo da Quaresma traduz a força pedagógica da fé. De modo implícito, encontramos nos santos e santas os sinais de conversão que eles mesmos aplicaram em sua vida, por isso souberam “progredir no conhecimento de Jesus Cristo e corresponder a seu amor por uma vida santa” [Oração Coleta do 1º Domingo da Quaresma].
Da mesma forma, são estes e estas que, tendo desejado o Cristo através do sinal do pão eucarístico, souberam devotar suas vidas nutridos pela fé, esperança e caridade, ao mesmo tempo “vivendo de toda palavra que sai da boca de Deus” [Oração pós-comunhão do 1º Domingo da Quaresma].
O sacramento da Reconciliação    
A nosso ver, o sacramento da Reconciliação deixou de ter seu sentido celebrativo, passando para uma obrigação moral. Com essa preocupação, o sacramento perde sua característica batismal, pois a identidade do batizado é caracterizada por seu discipulado, que ao longo do Ano Litúrgico, vai vivendo esse itinerário pedagógico de conversão.
É bom que o sacramento da Reconciliação recupere sua dimensão celebrativa. Para isso os presbíteros devem insistir na preparação das equipes celebrativas. As celebrações penitenciais, como muitos entendem, não servem para preparar os fiéis para a confissão individual, ao contrário, nessas celebrações, a confissão individual dos pecados é parte integrante. Infelizmente não é o que acontece em nossas comunidades.
A conversão é parte do processo de reconciliação e se liga à recuperação da identidade de batizados, de povo sacerdotal, e não a uma leitura que se entende de que se entrou num processo de privatização excessiva do pecado, a ponto de conclamar a todos que confessem seus pecados.
Hoje, essa questão da moral individualizada por demais requer um sentido mais comunitário, exige-se uma dimensão mais social do pecado. Todo pecado pessoal é também social, diz a Exortação Apostólica Reconciliação e Penitência, de João Paulo II. Abaixa-se a humanidade inteira pelo pecado ou eleva-se a humanidade inteira pela graça.
Faz bem lembrar que a confissão não é o centro do sacramento, mas como parte do sacramento implica numa atitude que deriva da vontade de reconciliar-se com os outros, com o mundo, com o cosmos.
O motivo de reconciliação para com os outros é um chamado que se faz durante todo o Ano Litúrgico, e não somente na Quaresma e na Semana Santa. De fato, é nos tempos fortes que encontramos momentos propícios para ligar a prática da Reconciliação com a liturgia, como por exemplo, a celebração do Domingo do Pai misericordioso – 5º Domingo da Quaresma – Ano C, ou em outra ocasião em que esta leitura se faz presente.
Concluindo: propostas pedagógicas
No Tempo da Quaresma, vivido como itinerário pedagógico na conduta da fé, consequentemente, vivido através de uma espiritualidade que nos torna e nos quer convertidos, na troca das atitudes más pelas boas, encontramos as seguintes propostas da Igreja, que, com seus ritos e preces, espera de nós:
  1. Voltarmos a uma atenção geral ao mistério pascal (viver conforme vive quem é ressuscitado; os santos e santas são a prova disso);
  2. Percorrermos um itinerário batismal (para os que ainda não estão inseridos na comunidade; o caminho para as fontes batismais é sempre enriquecido com boas obras, conforme o RICA);
  3. Correspondermos a uma vida pautada na ética e na comunhão com os outros, isto é, colaborando no plano do Reino, em paz com o mundo, com os outros e com o cosmos, em atitude de respeito e cooperação (mudança de vida implica em vida comunitária, isto inclui também a atitude ecológica, o respeito ao planeta, conforme a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016: “Casa comum, nossa responsabilidade”);
  4. Apoiarmos nossa caminhada num caráter todo cristológico e pascal (que permeia não só a Quaresma, mas todos os outros tempos litúrgicos);
            E, de nossa parte, é preciso também observarmos que este itinerário quaresmal:
  1. Implica em graça, por parte de Deus, e da nossa parte um esforço para tentarmos viver e permanecer nessa graça (tentarmos viver, é isso mesmo; os santos são os melhores exemplos para isso).
  2. Consiste em vivermos como num grande retiro, deixando que a Palavra de Deus nos questione, trazendo luz naquilo que necessita de conversão (vale a pena aqui citar a vida de alguns santos presentes no canto da ladainha, sugerido para a abertura do 1º Domingo da Quaresma).
  3. Exige de nossa parte uma renovação das promessas, num constante desejo de vivermos uma vida nova e de permanecer nesta vida nova (aspiração à santidade).
            Ajuda-nos neste sentido a especial recomendação do nº 12 da PCFP que orienta aos presbíteros:

Sobretudo nas homilias do domingo seja ministrada a instrução catequética sobre o mistério pascal e sobre os sacramentos, com explicação mais cuidadosa dos textos do Lecionário, sobretudo as perícopes do Evangelho, que ilustram os vários aspectos do Batismo e dos outros sacramentos e também a misericórdia de Deus.