sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

CANTAR COM OS MAIS NOVOS

5. Corporeidade e expressão gestual

por Antonio José Ferreira

O corpo de Jesus de Nazaré não foi uma aparência de corpo, mas corpo humano verdadeiro, que se sofreu e se alegrou, morreu e ressuscitou. Na corporeidade do Filho de Deus o corpo humano passou a valer mais. "Desde que o nosso Deus se fez carne, o corpo humano torna-se templo do Espírito. Quando celebramos, isso diz respeito a todo o corpo" (E. UBERALL, Celébrer avec tout son corps, in Signes Musiques 38(1997)4).

Gestos movimento e criatividade visual na catequese e nas missas com crianças são importantes pela própria natureza da Igreja, da salvação destinada ao homem todo e da psicologia das crianças, que gostam de cantar e fazer gestos. A expressão corporal revela o ser de cada um.

Graças ao gesto, a corporeidade torna-se um símbolo, a pessoa comunica e comunica-se a si mesma e ao grupo. A gestualidade é um elemento inevitável. Não se trata de ceder a uma moda, mas de ajudar à participação efetiva em que o Concílio Vaticano II tanto insiste. É importante que cada um se sinta bem no seu corpo.

Em certas regiões do mundo, os cristãos estão habituados a participar na liturgia com o corpo todo, e não apenas com os ouvidos, olhos e boca. O canto e a palavra devem falar ao ser humano como um todo: corpo, inteligência, memória e sensibilidade. Todavia a expressão gestual e a corporeidade são vistas na Igreja com alguma desconfiança, o que se deve, por vezes, à falta de senso e de qualidade da expressão gestual. Certa espiritualidade mortificou excessivamente o corpo pelo sacrifício e pela ascese. A própria liturgia se tornou muito cerebral e intelectual, em detrimento da dimensão física e corporal. O contacto com culturas africanas, por exemplo, e a influência de movimentos como o da Renovação Carismática Católica ou as próprias seitas, contribuiu para a redescoberta do papel do corpo na oração.

Contudo, numa cultura cheia de contrastes e desequilíbrios, dá-se às vezes uma importância exagerada ao corpo, como se pode ver em certas operações plásticas, em dietas violentas e perigosas, em ginásticas obsessivas.

Há assembléias habituadas a exprimirem-se gestualmente e outras que experimentam muita inibição quando a gestualidade ultrapassa o que é feito segundo os hábitos estabelecidos. Há os acham importante as celebrações serem mais gestuais e dinâmicas, e os que desconfiam de gestos não previstos nos rituais como um perigo de profanidade.

Em si mesmo, canto já é uma excelente atividade física da assembléia. Não se canta apenas com a boca: canta-se com a respiração, com a caixa torácica, com o cérebro, com os lábios. Todo o corpo vibra e respira. Há que ser todo no que se canta, ser todo no que se faz, habitar inteiro o ato que se realiza.

O gesto precede e segue a palavra, seja o presidente, o leitor, ou o cantor. Certos gestos, nunca banalizados ou generalizados (gesto da paz, aspersão da água, procissões, palmas, levantar ou dar as mãos no Pai-nosso, erguer a vela, ou os ramos no Domingo da Paixão...) podem ajudar a exprimir de uma forma mais existencial a fé da comunidade cristã. O corpo humano é o instrumento musical mais natural e mais acessível.

Erguer as mãos num aleluia ou num hosana (ou outra aclamação), abrir as mãos num cântico da apresentação dos dons são gestos muito simples que podem ajudar a criança a exprimir a sua fé de um modo mais perfeito. E há palavras cuja mímica é muito fácil: eu, tu, nós, terra, céu, Deus, amar, sim, não, casa, rocha, sopro, passar, luz, estrelas, amigo, Bíblia, vida, subir, descer, dormir, ir, vir... Pedir às crianças sobre a forma gestual a ser utilizada pode também ser uma maneira de aprofundar a mensagem e memorizar o cântico.

No entanto, a eucaristia será sempre oração e não espetáculo, tanto para os mais novos como para os adultos. Não se vai à igreja para aplaudir uma audição ou criticar um concerto. Cada cristão, nas circunstâncias em que se encontra, vive o mistério de Cristo na celebração. A gestualidade na catequese deve ser simples e o número de gestos deve adaptar-se à idade e ao tipo de cântico e de oração em que ele se insere.

Uma grande complexidade gestual centra a atenção na atividade e desvia do essencial, que é a mensagem. A própria regência deve ser segura e sóbria, ajudando as crianças a cantarem verdadeiramente em coro, entrando no momento exato, mantendo o andamento adequado e terminando ao mesmo tempo.
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