segunda-feira, 20 de julho de 2009

A Celebração da Palavra de Deus e sua culminância na missão


Eurivaldo Silva Ferreira

Na 32ª Assembléia Geral da CNBB, realizada em Itaici, Indaiatuba, SP, de 13 a 22 de abril de 1994, Dom Clemente José Carlos Isnard, na introdução do documento da CNBB sobre Orientações para a Celebração da Palavra de Deus, afirma o seguinte:

A celebração da Palavra de Deus é um ato litúrgico reconhecido e incentivado pela Igreja. Sua reflexão torna-se ainda mais significativa se considerarmos o apreço das comunidades pela leitura e meditação da Sagrada Escritura e a prática da Leitura Orante.

A Palavra de Deus é acontecimento, onde o Pai entra na história, onde o Filho prolonga o mistério de sua Páscoa e o Espírito atua com sua força. As celebrações da Palavra de Deus, especialmente aos domingos, fundamentam-se no caráter sacerdotal de cada batizado e de cada batizada. "Ele fez para nós um Reino de Sacerdotes", nos recorda o Apocalipse. "Ele te unge sacerdote", repetimos em cada celebração batismal. Isto é, cada celebração da Palavra é uma forma do povo consagrado, "proclamar as maravilhas Daquele que nos chamou das trevas à luz".


No Documento de Aparecida, foi afirmada esta prática e também incentivada, e publicou-se no número 253 a seguinte afirmação:

Com profundo afeto pastoral, queremos dizer às milhares de comunidades com seus milhões de membros, que não têm oportunidade de participar da Eucaristia dominical, que também elas podem e devem viver “segundo o domingo”. Podem alimentar seu já admirável espírito missionário participando da “celebração dominical da Palavra”, que faz presente o Mistério Pascal no amor que congrega (cf. 1Jo 3,14); na Palavra acolhida (cf. Jo 5,24-25) e na oração comunitária (cf. Mt 18,20).

O papa Bento XVI em sua Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis, reconhecendo as inúmeras comunidades que não têm a presença de um ministro ordenado para presidir a Eucaristia, comenta que é importante que as comunidades cristãs se reúnam igualmente para louvar o Senhor e fazer memória do dia a Ele dedicado (SCa, 75).

É graças à reforma do Concílio Vaticano II que essas práticas se tornaram possíveis. É claro que não podemos lamentar o fato de uma escassez de ministros ordenados, o que deixa algumas realidades sem a contemplação do mistério pascal também presente no sacramento da Eucaristia. Todavia, o Concílio Vaticano II uniu as duas mesas: a da Palavra e a da Eucaristia. A Palavra tornou-se compreensível para o povo, já que cada povo passou a ouvir as Escrituras proclamadas em sua própria língua. Por isso, confirma-se a consideração de Aparecida de que também a Palavra é sacramento e pode alimentar a vida da comunidade orante, congregada ao seu redor.

Desta Palavra prescinde também a evangelização dos povos. Jesus, sendo judeu, conheceu e praticou a Torah e dela tirou proveito, aplicando-a em sua própria missão. Em Lucas 4,14-21, Jesus na sinagoga lê o texto do profeta Isaias e o toma para si, concluindo que hoje se cumprira aquilo que ouviram. De fato, Jesus achou a passagem em Isaias que inspira seu programa, sua missão. Lucas quer demonstrar com essa narração a solidez e a credibilidade do que está para apresentar: fez um estudo cuidadoso desde o princípio, a fim de escrever uma narração bem ordenada.

Ora, se dissemos que a Eucaristia é sacramento, ou seja, sinal da realização daquilo que significa no meio e para os homens, o mesmo podemos dizer da Palavra. Ela se torna sacramento da missão, assim como a Eucaristia, pois a Sacrosanctum Concilium diz que dela nos alimentamos e buscamos força para alcançarmos a graça e obtermos a santificação (SC 10), quer dizer, expressar o real sentido do todo da Eucaristia, com seus ritos, preces, cantos e Palavra proclamada, que culmina com a partilha do Pão e do Vinho, corpo e sangue de Cristo ofertados ao Pai e servidos como alimento à comunidade.

Nossa afirmação se faz também necessária quando projetamos na Palavra proclamada o anseio de enxergar nela verdadeiras propostas de missão, assim como Jesus fez na sinagoga. Convém aqui afirmamos os conceitos de inculturação vividos pelo próprio Jesus: ele nasceu dentro de uma cultura judaica e a partir dela, anunciou ao mundo sua proposta de missão na vivência e proclamação do Reino de Deus. Essa missão já era antevista e preparada pelos profetas do Antigo Testamento, ou seja, a Palavra de Deus se fez missão através de vários personagens e se encarnou no próprio Cristo, o Verbo de Deus.

Com relação à evangelização das culturas, o nº 78 da Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis diz que

é preciso reconhecer o caráter intercultural deste novo culto, desta lógica: a presença de Jesus Cristo e a efusão do Espírito Santo são acontecimentos que podem encontrar-se de forma duradoura com qualquer realidade cultural a fim de a fermentar evangelicamente. Em consequência disto mesmo, temos a obrigação de promover convictamente a evangelização das culturas, na certeza de que o próprio Cristo é a verdade de todo o homem e da história humana inteira. A Eucaristia torna-se critério de valorização de tudo o que o cristão encontra nas diversas expressões culturais; num processo importante como este, podem revelar-se de grande significado as palavras de São Paulo quando, na sua I Carta aos Tessalonicenses, convida a ‘avaliar tudo e conservar o que for bom’ (5, 21).

Com esse espírito, não podemos prescindir que a celebração da Palavra de Deus não tenha sua força sacramental e sua destinação naquilo que ela mesma suscita: a missão, sobretudo, quando entendemos que pela Palavra de Deus, há um viés de acontecimento de salvação. As próprias comunidades cristãs primitivas foram alimentadas por essa característica presente na Palavra e, a partir daí, partiram para a missão, guiadas pelo Espírito, evangelizando os povos. Assim, quer seja da mesa da Palavra, quer seja da mesa da Eucaristia, não podemos abeirar-nos delas sem nos deixarmos arrastar pelo movimento da missão que, partindo do próprio Coração de Deus, visa atingir todos os homens; portanto, a tensão missionária é parte constitutiva da forma eucarística da existência cristã (SCa, 84).
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