segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Buscar uma espiritualidade a partir do Tempo do Advento


Eurivaldo Silva Ferreira

Ao começarmos um novo ciclo do Ano Litúrgico, sempre nos deparamos com uma liturgia que nos amedronta. Os evangelhos falam de sinais do céu que serão abalados por forças estranhas. A cosmicidade apresentada nos Evangelhos se vê numa situação de risco eminente, ao passo que as primeiras leituras narram a situação de risco dos reinados, sendo frequentemente substituídos por reis que maltratam, oprimem a não permitem ao povo a dignidade querida por Deus ao dar seguimento à proposta da Aliança.
Antes de aprofundarmos sobre um sentido amplo de uma espiritualidade que permeie o Tempo do Advento, precisamos nos confrontar com o sentido dos textos que são nos apresentado nas liturgias deste ano (Ano C).
1º Domingo: Os profetas do Advento têm a forte cultura de que um novo Davi deveria surgir para restaurar as forças de Israel, sobretudo a questão da aliança, rompida pelo povo de Israel, era instrumento de suas profecias. Na 1ª Leitura, é a vez de Jeremias afirmar isso. Em meio a todo esse anúncio de desgraça, Jeremias também se mostra esperançoso para com o povo de Deus: “Eis que vêm dias e eu vou suscitar a Davi um renovo justo”, é o que anuncia Deus àquela nação, confortando-a e alimentando-a com esperança. É aí que Deus se apresenta como a Nova Justiça, pois aquela dos reis e dos sacerdotes do tempo de Jeremias não era válida, não era a mais fiel, pois deixava o povo a mercê de falsas ideologias, falsas religiões e falsos caminhos. Também é nesse sentido que Jeremias nos aponta um Deus que também é consolador, muito mais que destruidor, que arrasador. Já o Evangelho mostra o fim do mundo através de um gênero literário da época: o gênero apocalíptico. É uma linguagem para tempos difíceis, cuja finalidade é animar as comunidades para a denúncia profética e a resistência diante de tudo o que se opõe ao projeto de Deus. Como ficar de pé diante de tanta injustiça? Como suportar a tudo sem desanimar? Paulo exorta a comunidade para que fique com os corações em santidade, dando continuidade àquilo que foi ensinado a ela, mas numa atitude progressiva, procurando melhorar e aperfeiçoar suas atitudes. Uma delas é o amor, pelo qual a comunidade vive a solidariedade e a comunhão. Isso gera justiça e é agradável ao Senhor, pois o Senhor é a nossa justiça.

2º Domingo: Na profecia de Baruc encontramos elementos idênticos ao de Isaías: a vestimenta da glória, os caminhos endireitados e os montes abaixados. Trata-se de imagens de consolo para um povo que se viu desgarrado de seu Deus, por ocasião do exílio da Babilônia. Teria Deus o abandonado? Não, mas a justiça de Deus fará de novo brilhar, guiando os passos da comunidade. O sinal da restauração do povo novo é o sinal profético da vinda do Messias. João Batista dá esse sinal profético, sobretudo pelo elemento histórico narrado no Evangelho. A apresentação do Jesus histórico não se opõe ao Messias profético, mas dá um sentido de continuidadade ao projeto de Deus para com seu povo, o de liberdade, numa sociedade pacífica. A inauguração do Reino de Deus com a vinda do Messias se dá pelo amor que faz com que as comunidades vivam em perfeita comunhão, até a vinda última de Cristo. O amor é fruto da justiça. (2ª leitura).

3º Domingo: O profeta Sofonias exorta a comunidade para viver o júbilo da restauração prometida por Deus, depois do exílio da Babilônia. A sua mensagem é de otimismo, alegria e esperança, sobretudo porque Deus conta com eles, os mais pobres, para a realização do seu projeto de uma sociedade nova, de uma nova história. João Batista adere a essa proposta de Deus e prepara o caminho do Messias, exortando o povo a melhorar suas vidas através da conversão, da partilha, da justiça, da eliminação do abuso do poder e do mal. Vivendo assim, a comunidade pode alegrar-se no Senhor, pois ele vem e deseja encontrar a todos na observância dessas atitudes (2ª Leitura).

4º Domingo: Para Miquéias, um profeta do pós-exílio, Belém é a escolhida para a contemplação da justiça de Deus, através dos pobres. Faz lembrar Davi, um pastor da roça, portanto não oriundo de uma grande cidade. A profecia de Miquéias fala da própria vinda do Messias, que será rei e pastor, e terá o título de Paz. É este Messias de que fala o Evangelho de Lucas, quando relata a infância de Jesus. Trata-se de uma leitura teológica, a partir da ressurreição de Cristo, a fim de iluminar a caminhada das primeiras comunidades cristãs. A 2ª Leitura nos lembrará isso, fazendo memória do sacrifício de Cristo, a sua morte, paixão, ressurreição e ascensão. Em Cristo, todos os outros sacrifícios foram suplantados. Trata-se agora de compreender a nova oferta ao Pai, o Verbo feito carne e oferecido aos homens.
Pois bem, vimos então que uma espiritualidade vista sob a ótica do tempo do Advento inclui a dimensão terrena e a dimensão celeste. Terrena porque exige de nós um compromisso ético que é vivido como parte integrante no ser humano. Celeste porque nos conforta a esperança de que o Senhor veio, vem e virá. É nessa proposta de atenta espera e vigilante expectativa por sua vinda que vamos construindo um porvir de esperança, esperança de um Reino presente entre nós. Trata-se de um gestar desde dentro, amalgamando uma identidade própria do ser cristão. Os profetas da restauração lidos no Ano C nos oferecem um modelo de disposição de toda sociedade: religião, poder civil e povo. Na verdade nem precisa ouvir, basta ser e apostar num estado de harmonia entre essas três classes. Só aí tem significado a expressão de que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós!”, isto é, quis harmonizar-se com a gente.
Portanto, para as liturgias do Ano C, a proposta do encontro com Deus se dá na totalidade da pessoa, sem provocar reducionismos espirituais, isto é, fugir do mundo e procurar em lugar distante a mística litúrgica deste tempo. Não se foge do mundo para se viver uma espiritualidade, mas se vive como Cristo, que abraçou o mundo. É o aqui e agora o tempo da graça do Senhor. Essa tem como elemento central a experiência de fé e o seguimento de Jesus Cristo, além da pertença à Igreja, sobretudo no seguimento a Jesus também no nível martirial. Ou pela maneira de se viver as virtudes regradas pelo bem-viver ou por um seguimento evangélico pobre e simples ou numa visão libertadora.
Logo, espiritualidade tem a ver com um caminho que se opõe àquele que muitos querem viver. É o mesmo que fez Isaias, não compactuando com uma forma de escravidão vigente, ao mesmo tempo ressoando sua voz como uma denúncia. Nessa forma de viver o horizonte da oração é o reino, advindo de uma intimidade com o Pai, ele quer que façamos isso de maneira permanente, pois isso é o que nos fará capaz de conquistar o reino. Por meio da oração litúrgica se vive uma espiritualidade que é ao mesmo tempo confiante, pois a liturgia cria posturas de oração para que ela seja verdadeira. Todavia, ao conjugar oração e ação, é necessário que nos permitamos uma abertura de esvaziamento à entrega do projeto de Deus, isto é, a instauração do seu Reino entre nós. A atitude de ter os pés no quintal, mas com o coração aberto à humanidade inteira, com todos os seus clamores e necessidades, semeando aqui as sementes de um novo tempo. Na Carta aos Romanos, São Paulo pede que acordemos e passamos da contemplação à ação (cf. Rm 13,11-14 – 2ª Leitura do 1º Domingo do Advento – Ano A). Nesse sentido podemos contemplar a “madrugada da vida plena” (assim como Isaias prevê acontecer, Paulo também prevê), só então privilegiaremos a espiritualidade do Tempo do Advento como um sinal da ressurreição escatológica do ser humano.
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