quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Liturgia: um caminho


Jornal O Lutador Online
Edição 3670 - 21 a 30 de setembro de 2009

(recebido por e-mail, de um amigo em 01/10/2009)

Do lado de fora, o mundo envolve a Igreja com suas crises: a fome e o desemprego, a violência urbana e o terrorismo, entre tantas outras. Do lado de dentro, pulsa um desafio inadiável: reorientar a vida litúrgica para seu verdadeiro foco: celebrar a Páscoa do Ressuscitado.

Excessos e desvios
No próximo dia 4 de dezembro, vamos comemorar o 46º aniversário natalício da Constituição conciliar sobre a liturgia, a Sacrosanctum Concilium, aprovada em sessão solene do Vaticano II com 2.147 votos, e apenas 4 sufrágios negativos. Após um período de entusiasmo e experiências de todo tipo, hoje a Igreja Católica se vê diante de um desafio que pede atitudes bem concretas: reformar a reforma pós-conciliar para recuperar valores essenciais da vida litúrgica.

De todos os quadrantes, erguem-se denúncias e protestos contra o clima de nossas celebrações: excesso de ruído – mesmo disfarçado de música – nas assembléias dominicais. Excesso de palavras, autêntica verborragia que ameaça deixar a Palavra de Deus em segundo plano. Evidências de libertinagem litúrgica, com os agentes da celebração, leigos e presbíteros, muito à vontade para acrescentar seus “cacos” aos gestos e palavras rituais. Deslocamento da celebração para o show, quando se confunde ação litúrgica com atuação televisiva.

Homilias desgarradas da realidade comunitária, mas centradas em aspectos estruturais da vida socioeconômica que fogem à iniciativa imediata dos ouvintes. E muito mais...

Redescobrir o silêncio
Em dezembro de 2003, o Papa João Paulo II publicava sua brevíssima Carta apostólica Spiritus et Sponsa [O Espírito e a Esposa], na comemoração dos 40 anos da Sacrosanctum Concilium. Já naquela época, o Papa citava o Concílio, recordando que a ação litúrgica “é ação sagrada por excelência, cuja eficácia, no mesmo título e grau, não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja”. Boa lembrança para aqueles utilitaristas que “aproveitam” a assembléia litúrgica para resolver outros problemas e tratar de outros assuntos, que se constituem verdadeiros quistos e corpos estranhos no corpo da celebração litúrgica.

No mesmo texto [nº 13], João Paulo II advertia: “Um aspecto que é preciso favorecer de modo especial em nossas comunidades é o seguinte: a experiência do silêncio. Temos necessidade dele para acolher em nossos corações a plena ressonância da voz do Espírito Santo e para unir mais estreitamente a oração pessoal à Palavra de Deus e à voz pública da Igreja. Em uma sociedade que vive de maneira sempre mais frenética, muitas vezes atordoada pelos ruídos e dispersada naquilo que é efêmero, redescobrir o valor do silêncio é vital”.

Diante da atual popularização de práticas e métodos de meditação não-cristãos, o Papa perguntava: “Por que não adotar, com audácia pedagógica, uma educação específica para o silêncio no interior de coordenadas próprias da experiência cristã? Temos diante dos olhos o exemplo de Jesus que ‘saiu de casa e se retirou a lugar deserto, e ali ele rezava’ (Mc 1,35). Entre seus diversos momentos e sinais, a Liturgia não pode negligenciar o silêncio”.

Reencontrar o caminho
Muita gente acredita que nos desviamos da estrada real e entramos por um desvio litúrgico. Se antes havia queixas (justificadas!) contra o rubricismo que engessava a celebração litúrgica, agora caímos na terra de ninguém da libertinagem, onde qualquer um se sente no direito de manipular a celebração, dando-lhe contornos políticos, mudando-a em teatro ou em preferências poéticas intimistas, ao ignorar os gestos e palavras essenciais ao rito da Igreja apostólica.

Em outubro de 2003, falando à assembléia anual dos Bispos do Canadá, o Cardeal Arcebispo de Malines (Bélgica), Mons. Godfried Danneeels, observava com propriedade: “A participação ativa na liturgia, o fato de prepará-la juntos, o cuidado de aproximá-la o mais possível da cultura e da sensibilidade dos fiéis podem conduzir imperceptivelmente a uma espécie de apropriação da liturgia. A participação e a celebração mútua podem conduzir a uma forma sutil de manipulação. Quando assim ocorre, a liturgia é não somente despojada de seu caráter intangível – o que não é mau em si -, mas se torna, em certo sentido, propriedade daqueles que a celebram, como um domínio abandonado à sua ‘criatividade’. Aqueles que estão a serviço da liturgia – padres e leigos – acabam como se fossem seus ‘proprietários’”.

Na ânsia de encontrar o caminho, as paróquias redobram esforços exatamente naquilo que é puramente ação humana e horizontal [mais flores, mais cânticos, mais procissões, mais encenações, mais palavras...], neutralizando, por excesso, o sentido profundo dos gestos e palavras e deixando cada vez mais oculta a ação divina nos seus mistérios. Naturalmente, tais procedimentos batem de frente com as orientações de João Paulo II na Exortação apostólica Sacramentum Caritatis: “A simplicidade dos gestos e a sobriedade dos sinais, situados na ordem e nos momentos previstos, comunicam e cativam mais do que o artificialismo de adições inoportunas”. (SCa, 40.)

O choque da realidade
Tudo isto aponta para a mesma direção: o estilo de vida que adotamos não se enquadra com a realidade dos mistérios celebrados. Agitados, ruidosos, hipertensos, presos a um aranhol de ninharias e preocupações materiais, incapazes de erguer os olhos aos céus durante a semana, a celebração dominical não recebe de nossa parte um olhar contemplativo, um abandono silencioso à ação de Deus. Nem na vida, nem na liturgia. Por isso mesmo, muitas vozes afirmam que a liturgia só será renovada quando nossas vidas forem renovadas. E que é de fora para dentro que tal renovação acontecerá na vida litúrgica da Igreja.

Creio que há uma verdade nessa tese: se nós vivemos como pagãos, venerando os ídolos de plantão – dinheiro, sexo, sucesso e poder -, que sentido pode ter para nós a atualização da morte e ressurreição do Cristo Senhor? Nossa tendência natural será a de transportar para o coração da ação litúrgica os mesmos sentimentos e atitudes de nosso dia-a-dia.

E assim, aquilo que devia ser a Páscoa dominical acaba tendo ares de um velho filme, sem arte e sem vida, que não vale a pena ver de novo... (ACS)
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