terça-feira, 4 de março de 2014

O tempo da Quaresma e sua evolução histórica


Eurivaldo Silva Ferreira[1]

            A Quaresma se desenvolve somente no século IV. Já no século III se faziam os batismos na vigília pascal, desde então, antes da realização dos batizados, surge um tempo mais intensivo de preparação dos catecúmenos, assim como nasce com ela um motivo de preparação dos penitentes que haviam ‘relaxado’ no caminho de batizados, a fim de que voltassem à fonte do batismo. É considerada então na liturgia como um tempo intenso de preparação para a festa da páscoa do Senhor.
            O retorno dos penitentes à assembleia litúrgica, depois de um longo período, era como que a prefiguração dos resgatados, considerados como ressuscitados de entre os mortos[2].
            O papa Leão Magno, em seus Sermões sobre a Quaresma destaca algumas características deste tempo: é um tempo em que se comemoram de modo especial os mistérios da redenção humana pela páscoa, por isso devemos nos preparar com a maior diligência por meio da purificação espiritual; é próprio da festa da páscoa fazer com que toda a Igreja se alegre com o perdão dos pecados (tanto os que serão batizados quanto os que pertencem à comunidade de fé); aquilo que se pratica a todo tempo, é agora solicitado a praticar com maior dedicação: jejum e obras de misericórdia[3].
            Lembrado como um sacramento, o tempo no período da Quaresma é-nos colocado como um itinerário simbólico-espiritual em que caminhamos para a páscoa, diz o nº 6 da Carta Preparatória para as Festas Pascais, que será celebrada de maneira ritual nos solenes dias do Tríduo Pascal, cuja apresentação é caracterizada pela narração da história dos fatos da paixão de Jesus contidos na Bíblia.
            O tempo quaresmal é marcado pelo calendário por um sinal pedagógico-espiritual simbolizado pelo número 40, que lembra um tempo de preparação para um grande acontecimento salvífico: luta, expectativa, esforço penitencial, em que no fim tudo encontra vida. O simbolismo do número é revestido de sua capacidade cósmica de transformação. Na Bíblia, o número 40 está destacado em várias etapas do povo judeu: 40 dias do dilúvio, 40 dias e noites de Moisés no Sinai, de Elias que caminha para Horeb, 40 anos do povo eleito no deserto, 40 dias durante os quais Jonas pregou a penitência em Nínive. Também em Jesus, quando vai para o deserto orar e é tentado pelo demônio. Em nosso contexto também lembramos a figura da mãe, que, logo após ter dado a luz, passa pelo período chamado de “resguardo” ou “quarentena”, isto é, de retomada ao estado natural de sua vida, já que, com a gravidez e o parto, ela sofreu uma grande transformação.



[1] Mestre em Teologia pela PUC/SP, com concentração em Liturgia. Especialista em Liturgia, pelo IFITEG-GO. Formado em Teologia, pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção da PUC/SP. Membro da Rede Celebra de Animação Litúrgica.
[2] cf. Orígenes, século II. In: Antologia Litúrgica, p. 266.
[3] cf. Antologia Litúrgica, p. 1026-1028.
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