terça-feira, 4 de março de 2014

A Quaresma como tempo de exercício de renúncia ao mal


Eurivaldo Silva Ferreira 
            Se o rito da imposição das cinzas nos convidou ao caminho da conscientização da fragilidade do ser humano, o tempo da Quaresma vai, de domingo a domingo, fazendo esta lembrança e nos colocando em outro patamar, no patamar de que com a oração da Igreja nós conseguimos trilhar esse itinerário.
            Na tradição romana a Quaresma é marcada pelo constante exercício da reconciliação com Deus. Este conceito está presente na introdução do rito da Renovação das Promessas do Batismo na Vigília Pascal[1], quando diz:
Meus irmãos e minhas irmãs, pelo mistério pascal fomos no batismo sepultados com Cristo para vivermos com ele uma vida nova. Por isso, terminados os exercícios da Quaresma, renovemos as promessas do nosso batismo, pelas quais já renunciamos a Satanás e suas obras, e prometemos servir a Deus na Santa Igreja Católica.
            A oração espera que os exercícios da Quaresma tenham sido vividos na linha da reconciliação e da penitência, exteriorizados pelas atitudes do corpo (jejum, oração e caridade). Quando a Igreja nos convida a renunciar ao mal, ela nos convida a não esmorecer no caminho. De fato, se a Igreja foi gerada pelo Batismo, e continuamente ela nos convida a permanecer nessa realidade, como que sendo uma realidade pascal em si mesma[2].
            Anselm Grüm, comentando sobre a despedida no sacramento da Penitência e Reconciliação, em que os presbíteros depois da confissão expressam com a fórmula: “O Senhor perdoou seus pecados. Vá em paz”, diz que considera realmente importante que o presbítero transmita à pessoa essa bênção divina como rito de despedida, e a anime a não esmorecer, mas a trilhar seu caminho confirmado na misericórdia de Deus. E continua afirmando que nem tudo será bem sucedido nesse caminho, mas ela poderá saber que sempre e em todos os lugares estará cercado pela presença salutar e amorosa de Deus[3]. Da mesma forma, faz a Igreja com as orações e os ritos. Usa uma pedagogia de sempre querer que permaneçamos no caminho do bem, desviando daquilo que é mal.
            Intenção parecida nós encontramos na Oração de exorcismo feita sobre os catecúmenos (cf. RICA, p. 86):
Oremos, Deus todo poderoso e eterno, que nos prometestes o Espírito Santo por meio do vosso Filho Unigênito, atendei a oração que vos dirigimos por esses catecúmenos que em vós confiam. Afastai deles todo o espírito do mal, todo o erro e todo o pecado, para que possam tornar-se templos do Espírito Santo. Fazei que a palavra que procede da nossa fé não seja dita em vão, mas confirmai com aquele poder e graça com que o vosso Filho Unigênito libertou do mal este mundo. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.
            Do mesmo modo, o Ritual da Penitência apresenta a seguinte expressão em uma de suas fórmulas de convite do presbítero, ao receber aquele que vai confessar seus pecados: “Aproxima-te cheio de confiança no Senhor, que não deseja a morte do pecador, mas que se converta e viva”[4].
            A fundamentação bíblica desta perseverança no itinerário do bem nós a encontramos na Carta de São Paulo aos Romanos no capítulo 6: viver uma vida nova; sepultados com Cristo; evento batismal como participação na morte e ressurreição de Cristo, que são os temas da 7ª leitura na noite da Vigília Pascal. Semelhante recomendação Paulo faz também em Colossenses 3,1-4: buscar as coisas do alto e não da terra; vida nova com Cristo, em Deus. Paulo insiste que a vida [nova] é um dom de Deus, por isso devemos ter uma postura de convertidos.
            Portanto, no Tempo da Quaresma, vivido como itinerário pedagógico na conduta da fé, consequentemente de uma espiritualidade que deságua em fazer-nos convertidos, na troca das atitudes más pelas boas, encontramos as seguintes propostas da Igreja, que, com seus ritos e preces, espera de nós:
  •     Voltarmos a uma atenção geral ao mistério pascal (viver conforme vive quem é ressuscitado);
  •         Percorrermos um itinerário batismal (para os que ainda não estão inseridos na comunidade);
  •      Correspondermos a uma vida pautada na ética e na comunhão com os outros, isto é, colaborando no plano do Reino, em paz com o mundo, com os outros e com o cosmos, em atitude de respeito e cooperação (mudança de vida implica em vida comunitária, isto inclui também a atitude ecológica, o respeito ao planeta);
  •    Apoiarmos nossa caminhada num caráter todo cristológico e pascal (que permeia não só a Quaresma, mas todos os outros tempos litúrgicos);

            E, de nossa parte, é preciso também observarmos que este itinerário quaresmal:
  •    Implica em graça, por parte de Deus, e da nossa parte um esforço para tentarmos viver e permanecer nessa graça.
  •      Consiste em vivermos como num grande retiro, deixando que a Palavra de Deus nos questione, trazendo luz naquilo que necessita de conversão.
  •        Exige de nossa parte uma renovação das promessas, num constante desejo de vivermos uma vida nova e de permanecer nesta vida nova.

            Ajuda-nos neste sentido a especial recomendação do nº 12 da PCFP que orienta aos presbíteros:
Sobretudo nas homilias do domingo seja ministrada a instrução catequética sobre o mistério pascal e sobre os sacramentos, com explicação mais cuidadosa dos textos do Lecionário, sobretudo as perícopes do Evangelho, que ilustram os vários aspectos do Batismo e dos outros sacramentos e também a misericórdia de Deus.



[1] Cf. Missal Dominical, Missal da assembleia cristã, p. 349.
[2] Bergamini, A. Verbete QUARESMA. In: Dicionário de Liturgia, p. 984.
[3] Grüm, Anselm. Penitência, celebração da reconciliação. São Paulo: Loyola, 2006, p. 51.
[4] Cf. Ritual da Penitência, p. 62.
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