segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Música litúrgica: entre beleza, simbolismo e expressividade

Eurivaldo Silva Ferreira

           
Introdução: de que beleza falamos mesmo?   
                As comunidades estão cada vez mais redescobrindo que a liturgia é um encontro, uma ação, um acontecimento e uma festa. A celebração não se faz só com palavras, mas também com movimentos, gestos, música e dança. O batismo, a santa ceia, a celebração da palavra, o oficio divino, as vias-sacras, as procissões, as romarias são ações simbólicas que nos permitem expressar em linguagem humana a presença escondida do Deus que se fez ‘carne’, humano com os humanos (1Jo 1, 1-4). Esses gestos são a linguagem da nossa adoração e da nossa comunhão com ele na intimidade do seu amor. O fruto que colhemos na liturgia, a graça de Deus que dela nos vem para o nosso crescimento na fé passa pela expressividade da ação litúrgica. (Carta de Princípios da Rede Celebra de animação litúrgica, nº 16).
                De fato, a liturgia ocupa um lugar central em toda a ação evangelizadora da Igreja. Ela é o “cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana toda a sua força” (SC 10). Nela, o discípulo realiza o mais íntimo encontro com seu Senhor e dela recebe a motivação e a força máximas para a sua missão na Igreja e no mundo (cf. DGAE 2008-2010 nº 67) (Carta aos agentes da música litúrgica, CNBB).
                Na expressividade da ação litúrgica, que é fonte e cume, cujo Mistério Pascal se faz presente pela força do Domingo, o Dia do Senhor, e também na comunidade reunida em torno da mesa da Palavra e do Pão, a música ritual se torna parte integrante deste mistério. Adentramos o mistério pela força dos símbolos, com sua carga, sinais e codificações. A música é um forte símbolo de beleza que nos ajuda nisso. Como percebermos a relação entre beleza litúrgica e a categoria simbólica que a música ritual ocupa nas celebrações? Para que isso se cumpra na prática, muito depende da qualificação das equipes de músicos, cantores e instrumentistas de nossas comunidades, que vivem no dia-a-dia o exercício batismal, pelo qual foram chamados a servir no seu ministério, sendo verdadeiros discípulos e missionários.
                Diz o nº 34 da Sacrosanctum Concilium que a liturgia deve ser realizada com nobre simplicidade. Homens e mulheres, indivíduos de uma comunidade de fé, devem empenhar-se nisso. Poderíamos aqui enumerar uma série de substantivos e adjetivos que compõem a família da nobreza, da mesma forma outra série para a simplicidade. Mas a nossa referência será direcionada a uma: a beleza, e nela está caracterizada a música litúrgica (música ritual), aquela que acompanha ou é a própria ação litúrgica.
                Uma música bem feita já é bela por si só. Quando ela se insere na liturgia, torna-se por demais sinônimo de muitas outras qualidades que são bem-vindas na ação ritual. Em consequência, afirmamos que há uma relação muito profunda entre beleza e liturgia. “Beleza vista não como mero esteticismo, mas como modalidade pela qual a verdade do amor de Deus em Cristo nos alcança, fascina e arrebata, fazendo-nos sair de nós mesmos e atraindo-nos assim para a nossa verdadeira vocação: o amor” (cf. Bento XVI, Exortação apostólica Sacramento da caridade, 35). Esta exortação lembra que na arte da celebração ocupa lugar de destaque o canto litúrgico. Unida ao espaço litúrgico, a música é genuína expressão de beleza, tem especial capacidade de atingir os corações e, na liturgia, grande eficácia pedagógica para levar-nos a penetrar no mistério celebrado.

1.    O caráter simbólico da música litúrgica
                Música litúrgica ou música ritual é o conceito acentuado pelo Concílio Vaticano II para denominar a música que, ou é o próprio rito, ou acompanha o rito nas celebrações litúrgicas. Esta novidade trouxe um referencial das fontes da Igreja primitiva, mas esquecido ao longo dos tempos: a de que o canto da celebração tem uma identidade comunitária, no ato de celebrar canta-se a força da realidade que este gesto pode simbolizar, ou seja, por meio da união das vozes que entoam um canto, visibiliza-se a unidade da Igreja, reunida em assembleia.
                A música ritual, com suas propriedades (poesia, verso, letra, melodia, ritmo, som etc.) entra nesta categoria dos símbolos. Não podemos desassociá-la do conjunto da simbologia das ações litúrgicas. Na categorização da música ritual e comunitária como realidade simbólica, os Pais da Igreja (aqueles que conviveram com os apóstolos ou próximos deles) consideravam esta união sonora de vozes como o símbolo de uma realidade mais profunda, já que o canto comunitário é a manifestação externa da união dos corações na mútua caridade, é sinal da fraternidade espiritual entre os todos os membros da assembleia reunida, cuja imagem retrata o uníssono dos corações.
                S. João Crisóstomo, outro Pai da Igreja, diz que no canto a uma só voz há uma realidade simbólica da Igreja, que de muitos membros forma um só corpo. Para Santo Ambrósio, a relação do canto ritual com o sagrado tem a característica de nos colocar em comunhão com o mistério, com a realidade divina, mas também com nós mesmos e com os demais, de maneira que podemos formar um coro de homens sagrados[1].
                Outros ainda foram unânimes em dizer que o canto ritual exerce um nobre serviço à atualização da Palavra de Deus, é sinal da alegria e do amor cristão; é o símbolo do sacrifício espiritual do cristão. Isto transcorreu os tempos e está presente na liturgia. Observemos o prefácio da Prece Eucarística, este aponta a realização do canto da terra, na imitação perfeita do canto dos anjos no céu, apresentados no cantando a uma só voz, antes da aclamação do Santo.
                Para Xabier Bazurko, que escreveu O Canto cristão na tradição primitiva, tanto na Bíblia (livro do Apocalipse) como na Tradição, o canto ritual é assumido principalmente, e como em primeira linha, enquanto comunitário, como canto entoado pela assembleia em comum e dentro de um quadro litúrgico[2] e em comunidade, já que o canto presente no Apocalipse nos aponta para a realidade desse reino que esperamos, realidade caracterizada pela espera de uma vida plenamente feliz e perfeita, mas que ainda é oculta ao homem e à mulher, enquanto passam pela terra. Vivendo a contemplação do mistério deste tempo, o canto ritual nos ajuda a compreender essa dimensão, a de piedosa e alegre espera, como num eterno advento. Por isso o canto litúrgico (ritual), como símbolo, sempre foi considerado como o mais adequado para transcrever a realidade do além, destaca Bazurko.
                Assim, o canto ritual como símbolo, representa a expressão da união da assembleia, estabelecendo a igualdade entre todos os membros, superando as diferenças de idade e de condição social por meio da entoação comum de uma mesma melodia[3], enquanto aguardam firmes a feliz realização do reino, e o fazem celebrando.

2.    A força propulsora da sonoridade musical
                Especialistas afirmam que a música é uma estrutura sonora complexa sem função biológica precisa, cujos elementos de base não se referem a nenhum outro objeto ou acontecimento real. Ela é também capaz de conseguir ao mesmo tempo acalmar bebês e dar coragem aos soldados que partem para campos de batalha. Imagens cerebrais mostram que certas zonas do cérebro são ativadas pela música. Ela exerce o mesmo poder quando o cérebro é impulsionado por estímulos biológicos fortes, como ingestão de alimento, relações de afeto entre namorados e casais etc. A música pode também reduzir a ativação das áreas cerebrais implicadas em emoções negativas[4]. Para outros, a música é considerada uma prática tão antiga quanto a agricultura. Ela tem o poder de garantir a coesão social e a “sincronização” do humor, favorecendo a preparação das ações coletivas, seria o caso da música militar ou da música religiosa[5].
                Já na liturgia, cuja expressão de fé se dá também pela participação da força da música ritual como sinal sensível, muito mais alcançarão eficácia seus textos se forem acompanhados de melodias. É esta a sábia e grandiosa intuição da Igreja que desejou que a música avançasse por sob seus umbrais.

3.    A música ritual nos documentos da Igreja
                Com razão diz o Motu Próprio Tra le sollecitudini quando afirma que a música concorre para aumentar o decoro e esplendor das sagradas cerimônias (...) e seu fim próprio é acrescentar mais eficácia ao mesmo texto, a fim de que por tal meio se excitem mais facilmente os fiéis à piedade e se preparem melhor para receber os frutos da graça, próprios da celebração dos sagrados mistérios[6].
                Segundo Divini cultus, os cânticos litúrgicos contribuíram não pouco para conduzir muitos dos bárbaros à cultura cristã e civil; ainda, foi objeto de admiração pelo imperador Valente e por Santo Agostinho, cuja conversão foi marcada pela aceitação da fé cristã após cantar com as multidões, animadas por Santo Ambrósio[7]. Também nas igrejas, finalmente, nas quais se constituía um coro volumoso feito de quase toda a cidade, operários, construtores, pintores, escultores e até homens de letras embebiam-se, pela liturgia, do conhecimento das coisas teológicas, como ainda hoje refulge esplendidamente dos monumentos daquela Idade Média[8].
                A Sacrosantum Concilium destaca: o canto e música desempenham sua função de sinais de modo tanto mais significativo na medida em que “estão intimamente ligados à ação litúrgica” (SC 112). Na mesma linha de pensamento está a orientação do Catecismo da Igreja Católica[9] em que considera três critérios principais: a beleza expressiva da oração, a participação unânime da assembleia nos momentos previstos e o caráter solene da celebração. Assim, tem finalidade das palavras e das ações litúrgicas: a glória de Deus e a santificação dos fiéis.
                O nº 1158 do mesmo Catecismo afirma que “a harmonia dos sinais (canto, música, palavras e ações) é aqui tanto mais expressiva e fecunda por exprimir-se na riqueza cultural própria do povo de Deus que celebra (SC 89)”, o que, de certo modo, vem, afirmar nossas conclusões acerca da simbiose entre melodia e palavra, que se prestam ao culto das ações litúrgicas a fim de que estas possam ser realmente meios da expressão do louvor ao Deus que canta e ora em nós através do Espírito.

            Concluindo...
        É com essa preocupação que caminha a Igreja dos nossos tempos. Tudo aquilo de que se ornamenta a liturgia, dentre eles a música ritual, que é caracterizada como serva nobilíssima, deve ser objeto de preocupação, a fim de que possam os fiéis que se reúnem nos templos sagrados para beber a piedade na sua fonte principal, participando ativamente dos veneráveis mistérios das preces públicas e solenes da Igreja, não se alimentarem de outro espírito, senão o litúrgico, o mesmo que vem operando na Igreja, povo de Deus, pelo qual é conduzido pelo Espírito, desde sua fundação.

Para refletir em grupo ou individualmente:

®     Pense numa música popular que marcou um fato de sua vida
®     Escreva um pequeno trecho desta música num pedaço de papel; cante em voz alta...
®     O que lhe chamou a atenção no texto? Quais as palavras que mais lhe tocam? E na melodia? O que ela lhe inspira, ou quais os sentimentos que ela lhe sugere? (letra e melodia como signo, sinal)
®     Em nossas liturgias, a música que cantamos está a serviço da Palavra? Qual palavra cantamos em nossas liturgias?
®     E nós, que palavra(s) carregamos em nosso cotidiano?
®     É possível que essa(s) palavra(s) seja(m) transportadas para nosso canto litúrgico? Como?




[1] Bazurko, Xabier. O canto cristão na tradição primitiva. São Paulo: Paulus, 2005, p. 108 (Coleção Liturgia e Música).
[2] Ibid, p. 224.
[3] Ibid, p. 107.
[4] VIVER MENTE E CÉREBRO. O poder da música. São Paulo: Ediouro, nº 149, junho, 2005. p. 59
[5] Op. cit. p. 57.
[6] PIO X, Papa. Motu Próprio. Tra Le Sollecitudini sobre a música sacra (1903). In: DOCUMENTOS SOBRE A MÚSICA LITÚRGICA. São Paulo: Paulus, 2005, p. 13-22. (Documentos da Igreja)
[7] PIO XI, Papa. Constituição apostólica Divini Cultis sobre a liturgia, canto gregoriano e música sacra (1928). In: DOCUMENTOS SOBRE A MÚSICA LITÚRGICA , op. cit. , p. 25-34.
[8] Ibid.
[9] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA, n. 1157.
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