quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A Palavra de Deus proclamada e celebrada na Liturgia: possibilidades de relação entre Bíblia e Liturgia


Eurivaldo Silva Ferreira


Talvez já tenha falado sobre esse assunto em meu blog. Mas persisto em retomá-lo, agora de maneira mais incisiva, já que se aproxima a data em que a Sacrosanctum Concilium completará 50 anos de sua promulgação. A relação deste documento com a Palavra de Deus nos dá a possibilidade de acreditarmos cada vez mais que a Palavra norteia nossa existência. No dizer de Cássia Ellen, na música 'Palavras ao vento': ando por aí querendo te encontra... Que a Palavra de Deus possa ser o sustentáculo para nossa sobrevivência na atual estrutura eclesial que pouco se dá conta que a Palavra também é sacramento. É ela que nos muitos rincões de nosso país alimenta exclusivamente as muitas comunidades e mantém vivo seu admirável espírito cristão.


Introdução
A Sagrada Escritura ocupa um lugar fundamental na Liturgia. A Sacrosanctum Concilium (SC) afirma que Cristo se faz presente por sua Palavra, por isso os textos sagrados são um elemento da liturgia que não se pode perder de vista. É o próprio Jesus quem fala quando se lê a Escritura na Igreja (SC 7). Na reforma litúrgica, a SC privilegiou um tal gosto pela Sagrada Escritura a ponto de afirmar que dela bebem as características dos ritos orientais e ocidentais. Tanto na celebração eucarística quanto no Ofício Divino, os nº 51 e 92 da SC, respectivamente, dizem que a Palavra de Deus oferecida aos fieis é como que um tesouro em que se tem acesso. Tamanha importância é dada ao Ano Litúrgico na SC, pois nele a obra da salvação se faz presente pelo mistério de Cristo, sua paixão, morte e ressurreição, ao qual toda Sagrada Escritura se refere, celebrado no ritmo diário, semanal e anual. Também o tempo da Quaresma é o tempo propício de maior dedicação à escuta da Palavra de Deus e à oração, diz a SC. Por isso, deve-se ler uma parte bem maior das Escrituras, nos espaços litúrgicos que lhe são reservados cada ano.
Por tudo isso, podemos entender que a Sagrada Escritura e a Liturgia possuem relações intensas, e pensamos que seja uma dupla bem harmonizada. Então, perguntamos: quais são as possibilidades de relação entre Bíblia e Liturgia? Que frutos espirituais podemos tirar dessa relação?

A Liturgia bebe da fonte da Sagrada Escritura
Na Igreja, duas disciplinas teológicas são chamadas sagradas: a Escritura e a Liturgia. Na compreensão metodológica da educação traçada pelos padres jesuítas, por ocasião da colonização do Brasil, a Liturgia era apresentada não só sob o aspecto da lei, na ordem do jurídico, mas porque continha um conteúdo teológico, histórico, espiritual e pastoral. Para os jesuítas, a Liturgia tinha que estar em conexão com outras disciplinas, de modo que os alunos conheçam antes de tudo de que modo os mistérios da salvação se fazem presentes e agem nas ações litúrgicas.
Com relação à normatização tanto da Sagrada Escritura quanto da Sagrada Liturgia, há um axioma interessante que nos pode ajudar nessa reflexão: a Sagrada Escritura não é normatizada por nenhuma outra disciplina, enquanto que a Sagrada Liturgia é normatizada só pela Sagrada Escritura; esta normatiza todas as outras. Logo, a Sagrada Escritura é a rainha de todas as normas, enquanto que a Sagrada Liturgia só recebe normas da Sagrada Escritura. A Liturgia está na base da Bíblia, no fundamento da Bíblia, e a Bíblia está na base da liturgia. O texto bíblico foi escrito com muita possibilidade de ser anúncio e de ser culto.
Os textos litúrgicos e os ritos tanto do Oriente como do Ocidente têm a preocupação de não apenas ilustrar a celebração litúrgica como lugar teológico da salvação, através do qual se exprime a fé da Igreja e sua vida espiritual, mas também a de centrar seu sentido e explicação somente em relação à Palavra de Deus. De fato, a comunidade cristã é convidada hoje a retomar o texto sagrado, porque este contém o Senhor Vivente.


A Palavra no centro da Liturgia
A Palavra do Senhor está no centro da vida da Igreja. A Igreja acolhe a Palavra de Deus com fé, interpreta-a com amor, celebra-a com devoção (liturgia), proclamando-a com confiança na celebração. Nesse sentido o dinamismo que acontece na assembleia cristã acontece porque esta proclama, escuta, celebra, atualiza e realiza a Palavra do Senhor em suas vidas, na vida de cada um/a. Logo, a Palavra reúne a assembleia litúrgica. Na celebração, pela sua Palavra, Cristo se faz realmente presente, diz a SC 7. A presença de Cristo na assembleia é uma presença transeunte, já no pão eucarístico é uma presença substancial.
Há um paralelismo perfeito entre essas duas mesas, ao ponto de constituírem um só ato de culto (cf. SC 56 e Dei Verbum 21). Dessas duas mesas deriva o alimento para a vida cristã. Assim, a Dei Verbum quer afirmar e recomendar que a Palavra de Deus deve ser acolhida com veneração análoga à tributada ao Corpo de Cristo.
Na celebração litúrgica, a Palavra de Deus alcança o máximo de sua eficácia. Dentro da Liturgia a Bíblia é o Lecionário. A Palavra de Deus se faz celebração, e a celebração nada mais é que a Palavra de Deus atualizada no meio dos homens e mulheres que permanecem unânimes na fé e na oração. Para São Jerônimo, se ignoramos as Escrituras é a Cristo que ignoramos. Assim também ignorar a Cristo é ignorar as Escrituras. Celebrar Cristo é celebrar as Escrituras.
Para que a Palavra de Deus realize no coração aquilo que ressoa nos ouvidos, é necessária a ação do Espírito Santo.

A memória se torna Palavra de Deus, lugar onde Deus atua
Dentro da leitura bíblica, um fato se torna Palavra de Deus quando o povo descobre que nesse fato Deus age. Isso é uma chave para a compreensão da necessidade de saber como os escritos da Bíblia foram sendo montados. Retomar as memórias do passado e saber como Deus agiu nelas é uma premissa do povo da Bíblia. Nessas memórias o povo percebe que a palavra dá força de reanimar aquilo que a comunidade vive no presente.
Na tradição de Israel, o livro da Lei é a Torah, quer dizer, o livro das tradições do povo. No texto de Neemias 8,1-2 Neemias fala de um jogo entre o livro da Lei e o Senhor. O texto relata que se prostraram diante do Senhor e não diante do livro. A assembleia se inclina para Deus, num sentido de que reconhece que o Senhor está agora no presente, nessa nova forma de atuação, com esperanças, no exílio. Essas lágrimas relatadas são lágrimas de que o povo tinha muita dor reprimida, que neste momento vêm à tona. No relato de Neemias podemos apontar vários elementos da Liturgia da Palavra: Lugar alto / gesto, rito, adesão /  o livro / o abrir o livro / participação, relação da assembleia, como em forma de devolução / leram e tinha explicação: homilia / partilha /  ministérios, esses não eram centralizados, a Palavra era explicada pelos levitas, os leigos, os catequistas, diante da Palavra eles tinham uma autoridade, pois eram pessoas ligadas à Palavra. O exílio, o êxodo para o povo de Israel foram as duas grandes palavras que o povo escutou de Deus.

A Palavra de Deus no NT é Jesus, o Verbo
Já no NT podemos dizer que Jesus é a Palavra. Jesus sai do deserto e vai a Nazaré, conforme o costume vai à sinagoga, com a força do Espírito. Lucas é sempre enfático nisso, pois o Jesus de Lucas é sempre conduzido pelo Espírito. Na sinagoga, Jesus lê o texto de Isaias 61. Ao terminar de ler ele conclui que isso já está se cumprindo hoje. Logo, ele é essa palavra de Isaias que se cumpre. Devemos ficar então com essa memória de que Jesus no NT é reconhecido como essa palavra. Nesse texto o que nos chama a atenção é a simplicidade, a leveza, a harmonia dos gestos. Ora, Jesus não é sacerdote, não era da linhagem sacerdotal. Isso o permitia ler na sinagoga, pois era adulto na fé. Jesus lê o livro dos profetas.
João, em seu Evangelho, faz todo um poema para dizer que Cristo é a Palavra, o Verbo. Toda a sua vida é a manifestação plena do Pai. Jesus ensinava, e não apresentou a Palavra. É importante vermos em Jesus um educador. Por isso a assembleia tinha os olhos fixos nele. Ele é a própria Palavra.

O que a Palavra de Deus é para nós
O livro dos Hebreus faz uma leitura a partir do salmo 95. É como se fosse uma leitura orante ou uma mistagogia do Salmo 95. A palavra é alguém com o qual nos encontramos. Diante da Palavra ninguém consegue se esconder. É a presença do Verbo que tudo ilumina, tudo aquece, tudo vê. É a Palavra que nos conduz a um grande encontro. Cássia Ellen, em sua composição ‘Palavras ao vento’ diz que “ando por aí querendo te encontrar, em cada esquina, em cada rosto, em cada olhar”. Ouvimos popularmente o povo dizer que ‘essa palavra me feriu até a alma’. Separar medulas de articulação, alma de espírito é a função da Palavra, segundo o livro dos Hebreus. Mas a Palavra discerne, espírito e alma, pecado e não pecado. É uma espada de dois gumes, que corta. A Palavra que muda, “deixa a tristeza e traz a esperança em seu lugar”, como diz Cássia Ellen em ‘Palavras ao vento’.
No fundo é isso, se nos tornamos um ser humano melhor, isso vai repercutir na vida, no trabalho, na comunidade... Não devemos ficar ansiosos em perguntar como é que vamos repercutir aquilo que apreendemos na formação. De fato, devemos considerar que a formação deve ser para nós uma escola e um aprendizado, tal como a Palavra de Deus assim o é. O bom é esperar que cada um se alimente da Palavra de acordo com sua existência.

Manter-se vivo pela Palavra
Santo Antão se converteu ao ouvir aquela passagem do evangelho que dizia que tudo devemos dar aos pobres. Ele recorreu ao deserto para vencer uma raiva própria, que continha dentro de si, tornando-se um homem pacífico. No deserto as pessoas faziam filas para lhe pedir conselhos. Ficamos pensando também nessa questão sobre as várias comunidades que passam anos sem ter missa, Eucaristia. O que as mantém vivas? É a reunião, a oração em assembleia e a escuta da Palavra. O que faz essas comunidades acreditarem na força da Palavra é que ela tem força sacramental. Por isso é correto afirmar que a Palavra é sacramento, sinal da presença de Deus no meio da comunidade (cf. SC 7).
O CV II diz que a liturgia é feita de sinais sensíveis. É a primeira coisa que se precisa pra se ter sacramento. Os sacramentos  significam e realizam aquilo que significam. No livro de Neemias isso é muito forte, pois a Palavra realiza, seca as lágrimas, faz as pessoas se voltarem às outras. Ela tem a força de transformar as realidades duras da vida em realidades mais amenas. Assim, o CV II até enumera esses sinais sensíveis da liturgia: Cristo presente na comunidade reunida, naquele que preside, no pão e no vinho, na Palavra, na assembleia que ora e salmodia. Além da Palavra com sua força sacramental, diz também o CV II que o Ano Litúrgico tem força sacramental. O CV II não está inventando moda. Nós precisamos nos livrar e nos despojar de alguns conceitos que se cristalizaram e por sua vez perderam seu significado. Essa compreensão não tem um cunho de negativismo, mas o que está por detrás dessa compreensão é a de que podemos valorizar mais ainda a Sagrada Eucaristia.
A Igreja sempre venerou as Sagradas Escrituras, diz o nº 21 da Dei Verbum. Temos um agravante e um problema nisso. Ora, o movimento protestante questiona a Igreja por isso, pela sua excessiva atenção que se dava ao sacramento em detrimento da Palavra. Até hoje quando vemos alguém com a Bíblia debaixo do braço dizemos: esse aí é crente. Muitas vezes de maneira pejorativa, pra não dizer preconceituosa. Não é à toa que São Jerônimo que o corpo de Cristo, enquanto imagem da Igreja, é também sua Palavra.

A reforma litúrgica e o valor devido à Palavra
Com a reforma litúrgica houve uma grande preocupação em resgatar a Palavra. Seus frutos resgataram também a iniciação à vida cristã, pelo qual sairmos de um modelo de catequese infantil, de doutrinação, para um processo em que a Palavra faz parte de um processo em que a pessoa vai se iluminando. O Ritual de Iniciação Cristã de Adultos (RICA) propõe celebrações da Palavra com velas acesas ao longo do itinerário, para dizer que no processo de iniciação a pessoa vai se iluminando, em que cada rito é um passo sacramental, aonde significa dizer que batismo, eucaristia e crisma formam como que o ponto auge dessa transformação, dessa personificação em ser cristão.
A reforma litúrgica vai prestar atenção na Palavra, não só na missa. No caso da missa houve a reforma dos lecionários, de tal maneira que durante três anos podemos ler a Bíblia inteira. A homilia é uma conversa sobre os textos que a assembleia ouve. Não é somente exegese que se faz na homilia, numa celebração, por exemplo. O Ofício Divino é uma liturgia da Palavra autônoma, baseada em salmos, leituras e composições da Tradição da Igreja. Em todas essas celebrações as leituras do texto bíblico trazem à luz o mistério pascal nelas contido. Quando se leem os textos bíblicos, partimos de duas chaves de compreensão: a leitura orante e a nossa vida, pela qual cada um tem uma experiência em relação a esta mesma Palavra; a outra chave é a partir do mistério de Cristo, o que deve ser feito na celebração litúrgica. O que lemos não é a Bíblia somente, mas é a nossa vida. O CEBI, um grupo de pessoas que se destinam a estudar a Bíblia, nos ensinou isso, a olhar a vida a partir da Bíblia.

Preocupações e desafios
Se por um lado, o CV II restaurou a força da Palavra de Deus a fim de nos conduzir nos caminhos da fé, devolvendo ao povo o direito de ler a Bíblia, tanto pessoal como em comunidade, por outro lado não podemos deixar de atentar para nossa realidade. O fato é que em nossa caminhada eclesial deveriam nos preocupar as raízes de cunho sociológica, histórica e religiosa, justamente porque estamos ainda num processo de crescimento pós-conciliar, que quer nos indicar uma transformação para uma melhor qualidade de vida eclesial. Embora, em meio ao clamor dos 50 anos do CV II, percebemos grupos trabalhando aqui e ali, cada qual com sua parcela de preocupação ou de centralismo. Frei Luis Carlos Susin, na última assembleia dos bispos da CNBB, analisando essas realidades eclesiais fala que “estamos diante de um conflito por falta de interesse por informações históricas”. Sob o ponto de vista da evolução, ainda não conseguimos encontrar nossa verdadeira essência, que é o seguimento a Jesus Cristo, pois todos ainda estão ligados a leis mal interpretadas, ou a seu favor, ou para a manutenção de seus grupos. O paradigma é Jesus Cristo e sua Palavra. Neste sentido a liturgia não se reduz a um ‘self-service’, onde cada um escolhe o alimento que quer consumir. É bom pensarmos que o CV II teve um foco bíblico-patrístico, e toda a sua concepção de reforma da Igreja e da Liturgia é o de garantir o foco na Igreja como comunidade, assim como eram as primeiras comunidades cristãs, que tinham sua atenção à Palavra de Deus, à partilha dos bens comuns e à fração do pão. Tendo como foco o CV II, bíblico-patrístico.
Tendo em vista essa preocupação, alguns desafios são lançados: conceituar Liturgia, levando em conta o contexto sócio-cultural; permitir que a Palavra de Deus que é celebrada se insira em nossas realidades; superar os ritualismos formais; buscar uma unidade celebrativa ligada à tradição das primeiras comunidades, que celebravam a vida com simplicidade e despojamento; superar as vontades internas de grupos que reivindicam para si um modelo de Igreja; acolher os pluralismos, sobretudo na simplicidade, tendo em vista o projeto do Reino de Deus.

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