domingo, 21 de fevereiro de 2010

Música litúrgica - diretrizes ou discussões sobre melodias e letras


Discussão sobre Música Litúrgica:

Um apreciador da discussão litúrgico-musical enviou à Revista de Liturgia (publicação bimetral das irmãs Pias Discípulas do Divino Mestre) um e-mail solicitando material sobre como anda a discussão da música litúrgica no Brasil. A redação da revista enviou-me a mim e ao Márcio Antonio de Almeida, músico e liturgista, o e-mail a fim de que lhe respondêssemos. De minha parte, coloquei-lhe ao par sobre como anda essa discussão em nível de Igreja no Brasil, sobretudo por parte da CNBB. Publico abaixo nosso diálogo:
(depois de ter-lhe enviado algum material e indicação de sites sobre o assunto):
Euri,
Obrigado pelas suas indicações, alias, parabéns pelo seu blog, achei muito legal.
Dei uma olhada nos sites que você indicou e salvo engano eu encontrei muito material sobre a função ministerial dos cantos, porém não encontrei diretrizes ou discussões diretas sobre melodias e letras. Diante disto tenho uma dúvida, esta ausência é proposital para que cada comunidade trabalhe o seu repertório, ou o assunto é tão complexo que é melhor não entrar nesta seara e deixar com que cada comunidade definida seus critérios?


Por exemplo, eu tenho a Revista de Liturgia de julho/agosto de 2000 (n. 160) e lá Joaquim Fonseca, fala sobre o canto de abertura. Ele usa como exemplo o canto "Eis, meu povo, o banquete" e diz que o canto é adequado pois o texto é inspirado no Evangelho de Mateus e a melodia é a marcha-rancho. Neste caso ele cita as características positivas da melodia e letra, minha dúvida é saber quais são as demais características positivas de melodia e letra que poderiam nos ajudar na seleção de músicas litúrgicas?

Consegui me fazer entender????

Agradeço novamente se você puder dar alguma dica com relação a este questionamento.

Abraços, Ronald

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(minha resposta e orientações):

Oi, Ronald. Como vai?
Bem, a questão é complexa, mesmo. Em princípio, há orientações de maneira geral, principalmente por parte da CNBB, da Comissão Episcopal para a Liturgia, com suas três áreas: Liturgia, Música e Espaço Litúrgico. Essas orientações muitas vezes são de responsabilidade do bispo diocesano incrementar em suas dioceses e pô-las em prática, depois as equipes diocesanas e regionais de Liturgia e Música devem levantar a questão, até chegar em nível paroquial e de comunidades, haja vista que já foram objeto de discussão nas assembléias dos bispos que ocorrem em Itaici, Indaiatuba, anualmente.

O próprio Frei Joaquim Fonseca, ex-assessor da CNBB, foi um dos pioneiros em encarar essa proposta, preparando um subsídio e indicando aos bispos quais são os "nós da questão" da música litúrgica no Brasil. Tenho esse material, mas está impresso, porém, deixo-o à disposição.

Sobre a questão das diretrizes ou discussões diretas sobre melodias e letras, esse assunto é mais discutido internamente por ocasião do encontro do chamado Corpo Eclesial de Compositores da CNBB junto com a Equipe de Reflexão da Música Litúrgica, da mesma CNBB, que se reúnem anualmente, do qual eu faço parte. Desse encontro anual surgem as orientações e as publicações. De minha parte, estou encarregado de organizar um material sobre a poesia, os versos e a estética poética da música litúrgica, com todas as suas figuras de linguagem, estruturas etc. Trata-se de um material usado nos próprios encontros, preparado por Roberto Lima, professor de linguística da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, também membro da Equipe de Reflexão do setor de Música Litúrgica, da CNBB. Ainda não tive tempo de compilar este material, mas está a caminho. Márcio Antonio de Almeida, que defendeu uma tese de mestrado na UNESP sobre a Mistagogia da Música Ritual Católica, que também faz parte da Equipe de Reflexão da CNBB, terá seu material publicado nesta coleção. Quanto à tese do Márcio, você pode baixá-la através do site da UNESP, ela já está disponível.

Também penso que por si só o Hinário Litúrgico, com seus 4 fascículos e suas gravações em CDs pela Paulus, já dão uma mostra de como deve ser um repertório liúrgico.

Em segundo lugar, o que posso sugerir pra você, inicialmente, é um material de pesquisa bibliográfica, a fim de que você possa ir tomando consciência da discussão. Um deles eu tenho em "pdf" e já lhe encaminho. Trata-se dos Princípios Teológicos, Litúrgicos, Estéticos e Pastorais da Música Litúrgica, lançado pelas Edições CNBB e à venda por R$ 1,00. Penso que discutir letra e melodia da música litúrgica se enquadram nesses princípios. Posso dizer com franqueza que tudo o que lá está publicado é oriundo de muitas contribuições de todos os compositores litúrgicos do Brasil, que vêm, anualmente, se reunindo, à convite da CNBB. Ademais, no livro "Música ritual e mistagogia", Coleção Liturgia e Música nº 7, Frei Joaquim e Ione Buyst tratam disso.

Segue o material já publicado:

Coleção Liturgia e Música, Ed.Paulus:

1. Cantando a Missa e o Ofício Divino, Frei Joaquim Fonseca


2. Música Brasileira na Liturgia, Amaro C. Albuquerque, Nicola Vale, José Geraldo de Souza, Osvaldo C. de Lacerda e José Alves de Souza.


3. O Canto Cristão da Tradição Primitiva. Xavier Basurko.


4. Música, Dança e Poesia na Bíblia. Maria Victória Triviño Monrabal


6. Quem canta? O que cantar na Liturgia? Joaquim Fonseca.


7. Música ritual e mistagogia. Joaquim Fonseca e Ione Buyst.


8. Música Brasileira na Liturgia II. Paula Molinari (org.)

Agora, uma pergunta sua é intrigante: saber quais são as demais características positivas de melodia e letra que poderiam nos ajudar na seleção de músicas litúrgicas?
Penso que essa resposta você encontrará no texto anexo (Princípios teológicos... o qual enviei por e-mail), que está muito claro e preciso. Mas, você já deu uma das respostas: tendo em vista esses princípios, cada comunidade do Brasil, respeitando-se as suas características regionais, fica livre para discutir seu repertório e incrementá-lo.
O ideal é que cada Diocese ou região ou conjunto de dioceses busquem em comum criar um repertório litúrgico próprio. Eu conheço o Hinário Litúrgico da Arquidiocese de Campinas, em São Paulo, que é um material muito rico. Também conheço o material da Diocese de Santo André-SP.

No mais, o que precisar, fico à sua disposição.
É bom que a discussão continue e seja fomentada pelo Espírito, que suscita em nós a inspiração para ajudar na caminhada eclesial.

Grande abraço.
Euri.
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